Imagem Gestão do risco de crédito em construtoras e o impacto na performance da cobrança

28 de janeiro de 2026

Gestão do risco de crédito em construtoras e o impacto na performance da cobrança

Arielly Alves Laveso; Ricardo Theodoro

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo desta pesquisa foi analisar as diretrizes, processos e dados dos setores de crédito e cobrança de uma construtora de grande porte, buscando identificar falhas processuais e operacionais para sugerir melhorias baseadas em dados históricos. A premissa central é que o desempenho da cobrança é diretamente influenciado pela qualidade da concessão de crédito, tornando a análise de risco na venda um fator crítico para a saúde financeira da carteira de clientes e o fluxo de caixa da organização.

No mercado imobiliário brasileiro, a disparidade entre os altos valores dos imóveis e a capacidade de compra da população torna o financiamento imobiliário uma modalidade de crédito essencial (Barra, 2020). Programas como o Minha Casa Minha Vida (MCMV) e o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) são os principais veículos para essa finalidade, atendendo a diferentes perfis de renda com condições específicas de financiamento e subsídios (Siqueira Junior, 2024).

As instituições financeiras, como a Caixa Econômica Federal, que detém participação de mercado dominante (Caixa Notícias, 2024), geralmente financiam entre 70% e 80% do valor do imóvel, exigindo que o comprador arque com o valor restante. Para superar essa barreira, muitas construtoras financiam o valor não coberto pelo banco, operação denominada “pro soluto” (Pinto, 2024). Ao fazer isso, as construtoras assumem o risco de crédito, o que exige uma gestão de risco robusta, alinhada às práticas do Sistema Financeiro Nacional (Banco Central do Brasil, 2000).

Quando a análise de crédito da construtora é falha ou excessivamente flexível, o cliente aprovado ingressa na carteira com alta propensão à inadimplência. Essa situação transfere um problema de origem comercial para o setor de cobrança, que passa a gerenciar uma carteira com saúde financeira comprometida. O crédito mal concedido, portanto, gera perdas financeiras e sobrecarrega a operação de cobrança, impactando seus indicadores de performance.

Este estudo analisa essa relação de causa e efeito, examinando dados de vendas, características dos clientes, a política de crédito e os resultados de adimplência para diagnosticar pontos de fragilidade. A partir do diagnóstico, o trabalho propõe uma ferramenta baseada em dados para aprimorar a concessão de crédito, com o intuito de mitigar o risco de inadimplência e otimizar o desempenho do setor de cobrança.

A pesquisa foi delineada como um estudo de caso exploratório com abordagem quali-quantitativa, método adequado para aprofundar o conhecimento sobre processos internos e formular hipóteses sobre as causas da inadimplência (Gil, 2002). A combinação de dados qualitativos (política de crédito, fluxogramas) com dados quantitativos (relatórios de vendas, estatísticas de inadimplência) proporcionou uma visão holística do fenômeno.

O estudo de caso foi realizado em uma construtora de grande porte com mais de 30 anos de atuação nacional, sediada em São José do Rio Preto – SP. A fonte de dados foi o levantamento de informações secundárias, como registros de vendas e de relacionamento com o cliente arquivados pela organização (Franceschini et al., 2012).

Foram utilizadas três bases de dados principais, todas descaracterizadas. A primeira continha registros de vendas de quatro empreendimentos (PRODUTO S, V, G e R, representando as regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) de janeiro de 2022 a dezembro de 2023, com detalhes socioeconômicos e comerciais. A segunda base registrava os distratos, incluindo data e motivo. A terceira informava o status de adimplência de cada venda ativa em maio de 2025. Adicionalmente, foi analisada a política de crédito da empresa. As informações foram consolidadas para permitir análises correlacionais.

A análise seguiu etapas lógicas: mapeamento do fluxo do processo de venda (Salim et al., 2011); análise da política de crédito (Sebben, 2020); cálculo das estatísticas de inadimplência, comparando-as com o índice de referência do mercado (SEBRAE, 2023); verificação da adesão à política de crédito na prática; e agrupamento dos dados socioeconômicos dos clientes por faixas de idade, renda (IBGE, 2022; CAMARA, 2023) e Serasa Score (Serasa, 2025). Com base nos indicadores, foi desenvolvida uma matriz de risco de inadimplência para identificar e avaliar o nível de risco de novas vendas (LEC, 2020).

O processo de venda na Construtora inicia-se com o contato do cliente com a equipe de vendas. O corretor elabora uma proposta comercial que, após aceite, passa por aprovações hierárquicas (gerente regional, gerente corporativo). A proposta é submetida à Mesa de Crédito, que valida a conformidade com a política e a saúde financeira do cliente. Propostas que excedem os limites são encaminhadas a um comitê. Após as aprovações e o pagamento do sinal, o contrato é formalizado, e o cliente passa a integrar a carteira do setor de cobrança.

A política de crédito da Construtora estrutura o pagamento em entrada (sinal), financiamento imobiliário e pro soluto (valor financiado pela Construtora). A política estabelece regras para sete itens: percentual de desconto, valor mínimo da entrada, percentual mínimo de financiamento bancário, percentual máximo de pro soluto total (com subdivisão para o período pós-chaves), quantidade máxima de parcelas do pro soluto, e percentuais máximos de comprometimento de renda (pré e pós-chaves). A flexibilidade é dada por diferentes alçadas de aprovação, com gerentes possuindo limites mais flexíveis.

A análise estatística das vendas de janeiro de 2022 a dezembro de 2023 revelou que, de 1.464 vendas, 322 foram rescindidas (taxa de distrato de 22%). Das 1.142 vendas ativas, 464 estavam inadimplentes, representando uma taxa de inadimplência de 40,6%. Nenhum empreendimento apresentou um índice considerado saudável pelo mercado, que varia de 5% a 10% (SEBRAE, 2023). O PRODUTO V (Centro-Oeste) destacou-se com 48,8% de inadimplência. A análise dos distratos mostrou que 51% foram motivados por inadimplência. Considerando todas as vendas que se tornaram inadimplentes (ativas ou distratadas), o índice geral de inadimplência da Construtora atingiu 42,9%, evidenciando falhas sistêmicas na gestão de risco.

A investigação sobre a aplicação da política de crédito demonstrou baixa adesão. Para o item “pro soluto total”, a política estipula um limite máximo de 30% do valor do imóvel, com apenas 5% pós-chaves. No entanto, 72,3% das vendas inadimplentes foram realizadas fora dessa regra; no PRODUTO V, 99% de suas vendas totais estavam em desacordo. A regra de “quantidade de parcelas do pro soluto” foi desrespeitada em 58,4% das vendas inadimplentes. Os dados indicam que a política é inviável para a realidade comercial ou é sistematicamente ignorada para atingir metas de vendas.

Em contrapartida, as regras de comprometimento de renda (pré e pós-chaves) mostraram que mais de 93% das vendas inadimplentes estavam dentro da alçada mais básica (corretor), indicando que os limites são excessivamente generosos e não funcionam como filtro de risco. A análise da política de sinal revelou que, embora a maioria dos inadimplentes estivesse na alçada do gerente regional (51,6%), as vendas realizadas completamente fora da política apresentaram a maior taxa de conversão para inadimplência (60,3%), reforçando a importância de não permitir exceções.

A análise do perfil socioeconômico dos clientes inadimplentes identificou padrões. A maior concentração de inadimplência ocorreu entre clientes com renda familiar de até dois salários mínimos (50,3% dos inadimplentes). O Serasa Score foi outro indicador de alto poder preditivo: clientes com pontuação “muito baixa” (0-300) apresentaram uma taxa de inadimplência de 70,6%, enquanto aqueles com pontuação “baixa” (301-500) tiveram uma taxa de 56,8%. Isso demonstra que a concessão de crédito para perfis de baixa renda e baixo score eleva drasticamente o risco.

A comparação direta entre o perfil médio de uma venda adimplente e uma inadimplente sintetizou os fatores de risco. Uma venda inadimplente típica apresentou um valor de sinal 27,9% menor, um percentual de pro soluto pós-chaves maior, mais parcelas, maior comprometimento de renda e uma pontuação média no Serasa Score 22,1% inferior à de uma venda adimplente. Esses indicadores, em conjunto, retratam um cliente com menor capacidade de poupança e maior fragilidade financeira.

Com base nesses achados, foi desenvolvida uma matriz de risco de inadimplência. Adaptando o método de LEC (2020), foi atribuída uma pontuação de 1 (menor risco) a 4 (maior risco) para dez indicadores de risco (sete da política de crédito e três socioeconômicos: idade, renda e Serasa Score), com base no percentual histórico de inadimplência de cada faixa. A soma dos pontos gera um score de risco total (10 a 40). Com base nos quartis da pontuação das vendas inadimplentes, foram definidos três níveis: Baixo Risco (10-24 pontos), Médio Risco (25-28 pontos) e Alto Risco (a partir de 29 pontos). A aplicação da matriz na análise de crédito permite classificar objetivamente o risco de uma nova venda, fornecendo subsídio quantitativo para a decisão e permitindo a adoção de estratégias preventivas.

O estudo demonstrou que o elevado percentual de inadimplência na Construtora é consequência de uma gestão de risco de crédito deficiente, com uma política pouco eficaz e frequentemente desrespeitada. A prática de aprovar vendas fora das diretrizes, especialmente para clientes com perfis socioeconômicos vulneráveis, transfere um ônus insustentável para o setor de cobrança, comprometendo sua performance e a saúde financeira da empresa. As vendas arriscadas são a causa raiz do problema que a cobrança é encarregada de solucionar.

As implicações práticas deste trabalho são diretas. Recomenda-se uma revisão completa da política de crédito para torná-la mais realista e rigorosa, utilizando dados históricos para redefinir os limites. A inclusão do Serasa Score como critério obrigatório e a proibição de vendas fora da política são medidas cruciais. A principal contribuição do estudo é a matriz de risco desenvolvida, uma ferramenta que pode transformar a análise de crédito de um processo subjetivo para um modelo baseado em dados, permitindo a mitigação proativa do risco. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se, por meio da análise de dados históricos, as falhas na gestão de risco de crédito e seu impacto direto na performance da cobrança, culminando no desenvolvimento de uma matriz de risco para mitigar futuras inadimplências.

Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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