
28 de janeiro de 2026
Educação corporativa e sustentabilidade social na formação de líderes em programas de MBA
Ari Machado Monteiro; Noah Emanuel Teles
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Esta pesquisa analisou a inserção de conteúdos de sustentabilidade social em um programa de Master of Business Administration (MBA) em Gestão de Pessoas de uma instituição pública, buscando identificar seus impactos na formação de líderes responsáveis. O estudo verificou como a sustentabilidade estava contemplada na matriz curricular, analisou a percepção de estudantes e egressos sobre a presença e relevância da temática, e identificou lacunas e oportunidades de aprimoramento. A investigação partiu da premissa de que a complexidade dos desafios globais, impulsionada pela agenda ESG (Environmental, Social, and Governance), exige que as instituições de ensino reestruturem seus programas para formar gestores capazes de integrar dimensões éticas e sociais em suas decisões. A formação de líderes tornou-se um campo central para a disseminação de práticas de gestão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (Organização das Nações Unidas, 2015).
A Educação Corporativa (EC) é um sistema de aprendizagem estratégica que alinha o desenvolvimento de competências às metas de longo prazo da organização (Éboli, 2016). Programas de pós-graduação, como os MBAs, funcionam como pontes entre o conhecimento acadêmico e as demandas do mercado. A efetividade desses programas na formação de líderes responsáveis depende de como temas complexos, como a sustentabilidade social, são integrados ao currículo. A sustentabilidade social, conforme Sachs (2002), abrange a promoção da equidade, do bem-estar humano e da justiça social, exigindo uma mudança de paradigma na educação gerencial que mova o tema de um tópico periférico para o núcleo da estratégia de negócios (Silva e Razzolini Filho, 2021).
A justificativa deste estudo reside na lacuna entre o discurso institucional sobre a importância da sustentabilidade e sua efetiva implementação pedagógica. Estudos apontam que, em muitos programas executivos, a sustentabilidade é tratada de forma pontual e fragmentada, restrita a uma única disciplina, sem uma abordagem transversal (De Carvalho Bagé et al., 2021; Liao, 2022). Essa abordagem isolada impede o desenvolvimento de uma mentalidade sistêmica, essencial para que futuros líderes compreendam como as decisões financeiras, operacionais e de marketing impactam a sociedade. A pesquisa é relevante academicamente, ao mapear a integração curricular da sustentabilidade social; institucionalmente, ao fornecer subsídios para o aprimoramento do currículo; e socialmente, ao contribuir para a formação de gestores preparados para os desafios da diversidade, inclusão e responsabilidade social corporativa.
O problema de pesquisa foi: De que forma uma instituição pública de ensino superior integrou a sustentabilidade social em seu MBA em Gestão de Pessoas, na percepção de discentes e egressos? A resposta a essa questão é fundamental para compreender se os modelos de educação executiva estão equipando os profissionais com as competências necessárias para uma economia mais justa e sustentável. A literatura reforça essa urgência, destacando que a liderança sustentável exige habilidades socioemocionais, cognitivas e digitais que precisam ser intencionalmente desenvolvidas (Santos, J. B. et al., 2023). A análise, portanto, não se limitou a uma catalogação de disciplinas, mas buscou entender a profundidade e a eficácia dessa integração na perspectiva dos alunos.
A análise da percepção discente permite avaliar se a abordagem pedagógica transcende a teoria e se materializa em práticas aplicáveis ao cotidiano profissional. Conforme defendido por Maciel e Andrade (2024), a efetiva integração da sustentabilidade no ensino superior depende de ações pedagógicas concretas, capazes de promover mudanças culturais e institucionais. Este estudo, ao focar em um programa de MBA, oferece um diagnóstico detalhado que pode servir de modelo para outras instituições que buscam alinhar seus currículos às demandas por uma liderança mais ética, humana e socialmente responsável, transformando a sustentabilidade em um pilar da gestão.
O estudo foi caracterizado como uma pesquisa aplicada, com abordagem mista (quanti-qualitativa) e delineamento descritivo. A natureza aplicada justifica-se pelo foco na geração de conhecimento para a solução de um problema prático (Gil, 2008). A abordagem mista foi escolhida para conferir maior robustez à análise, permitindo mensurar a frequência das percepções com dados quantitativos e explorar os significados e subjetividades com dados qualitativos (Creswell e Clark, 2018). O delineamento descritivo permitiu uma caracterização detalhada do fenômeno, descrevendo a estrutura curricular e as percepções da amostra sem pretensão de estabelecer causalidade.
A metodologia foi estruturada em três etapas. A primeira consistiu em um levantamento bibliográfico e documental. O levantamento bibliográfico foi realizado em bases como Scopus, Web of Science e Google Scholar, com descritores como “Educação Corporativa” e “Sustentabilidade Social”, para fundamentar o estudo (Marconi; Lakatos, 2021). Em seguida, realizou-se a análise documental de fontes públicas da instituição, incluindo o Projeto Político Pedagógico (PPP), ementas e a matriz curricular do MBA. Esta análise foi conduzida com base em categorias como a presença explícita de conteúdos sobre sustentabilidade social e o estímulo ao desenvolvimento de competências socioemocionais.
A terceira etapa envolveu os procedimentos de análise de dados. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo o anonimato conforme a Resolução CNS nº 510/2016. Os dados quantitativos foram tabulados no Microsoft Excel e submetidos à estatística descritiva (frequências, médias, desvios-padrão). As respostas da questão aberta foram tratadas pela técnica de Análise de Conteúdo, seguindo as fases de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados (Bardin, 2018). A triangulação dos dados das três etapas – bibliográfica, documental e empírica – conferiu maior validade às conclusões.
A análise documental do Projeto Político Pedagógico (PPP) e da matriz curricular do MBA revelou um cenário ambivalente. O PPP declara o compromisso com a formação de especialistas com visão humanística, estratégica e ética, em consonância com a demanda por líderes socialmente responsáveis (Ramos; Barros; Veloso, 2023). No entanto, ao examinar a estrutura curricular, evidenciou-se uma lacuna entre a intenção e a prática. A temática da sustentabilidade social está concentrada em uma única disciplina obrigatória de carga horária reduzida, “Sustentabilidade e Responsabilidade Social”, alocada no módulo contextual do curso.
Essa estrutura sugere que a sustentabilidade é tratada como um conteúdo isolado, e não como um eixo estruturante. A análise das ementas não identificou articulações ou projetos interdisciplinares que conectassem os princípios da responsabilidade social a disciplinas como Finanças Corporativas, Gestão de Operações ou Estratégia Empresarial. Essa fragmentação é um obstáculo à formação de uma visão sistêmica, impedindo que os alunos compreendam como práticas sustentáveis devem ser integradas ao núcleo do negócio. Este achado corrobora a crítica de Maciel e Andrade (2022), que afirmam que a sustentabilidade no ensino superior precisa ser transversal. A ausência de indicadores de avaliação de competências socioambientais no plano de curso reforça o diagnóstico de que a curricularização do tema é incipiente.
Os resultados da etapa empírica, obtidos a partir de 30 respostas ao survey, complementam os achados da análise documental. O perfil da amostra foi diversificado, com 53,3% de respondentes do gênero feminino e 46,7% do masculino, e concentração nas faixas etárias de 25 a 34 anos (46,7%) e 35 a 44 anos (36,7%). O primeiro dado relevante refere-se à percepção sobre a presença do tema: 76,7% dos participantes concordaram (parcial ou totalmente) que conteúdos de sustentabilidade social foram abordados. Este percentual indica que a disciplina isolada é notada. Contudo, os 23,3% que se manifestaram de forma neutra sugerem que, para quase um quarto da amostra, a abordagem não foi suficientemente marcante, reflexo da falta de integração curricular.
A percepção sobre a integração da sustentabilidade com outras disciplinas revelou a principal fragilidade do programa. Exatamente 50,0% dos respondentes concordaram que a temática poderia ser mais bem integrada ao longo do curso. Esse resultado indica que os alunos sentem falta de uma abordagem transversal, percebendo a sustentabilidade como um tópico relevante, mas desconectado das ferramentas técnicas da gestão. A constatação está alinhada com estudos que apontam a dificuldade das instituições em superar o modelo de “silos de conhecimento” (Salviano et al., 2022). A formação de líderes para a complexidade atual exige uma pedagogia que demonstre, por exemplo, como investimentos socialmente responsáveis geram valor financeiro.
Apesar da fragmentação, um dado positivo emergiu sobre a aplicabilidade prática: 76,7% dos participantes afirmaram ter conseguido aplicar os conhecimentos sobre sustentabilidade social em suas atividades profissionais. Este achado sugere que mesmo uma abordagem pontual pode gerar impacto. No entanto, essa percepção foi matizada pelos dados qualitativos. A análise das lacunas mostrou que 50,0% dos respondentes destacaram a ausência de exemplos práticos e estudos de caso aplicados aos desafios da liderança sustentável. Isso indica que, embora os alunos façam conexões por conta própria, o curso poderia potencializar essa aplicação com metodologias mais ativas e contextualizadas.
As respostas à questão aberta, analisadas pela técnica de Bardin (2018), forneceram um roteiro para o aprimoramento do programa. As sugestões foram categorizadas em quatro eixos. O primeiro, “Atualização e Curricularização”, reforçou a necessidade de integrar os ODS e os princípios ESG em todas as disciplinas. O segundo, “Metodologias Ativas”, clamou por atividades práticas, como estudos de caso, projetos de intervenção e simulações, demanda consistente com a literatura sobre educação executiva (Altmann; Jung, 2020).
O terceiro eixo foi a “Interação com o Mercado”, com pedidos para ampliar a participação de especialistas externos, gestores de ESG e líderes do terceiro setor para trazer vivências reais. Por fim, o quarto eixo apontou para a necessidade de “Novas Temáticas”, incluindo discussões sobre inteligência emocional, ética aplicada, legislação socioambiental, economia circular e liderança inclusiva. Essas sugestões demonstram a maturidade dos alunos, que reconhecem a importância do tema e têm uma visão clara de como a formação poderia ser mais eficaz.
A discussão dos resultados evidencia que o MBA analisado reflete uma tendência no ensino superior: um avanço no reconhecimento formal da sustentabilidade, mas uma dificuldade em traduzir isso em uma reforma curricular sistêmica. A abordagem atual, focada em uma disciplina isolada, arrisca tratar a sustentabilidade como conformidade ou filantropia, em vez de um elemento central para a estratégia e inovação (Neves; Freire, 2021). A formação de líderes para a agenda ESG exige o desenvolvimento de um novo mindset, possível apenas por meio de uma imersão contínua e interdisciplinar no tema (Lago; Junior, 2021). As sugestões dos participantes oferecem um caminho para a instituição evoluir de um modelo de “ensinar sobre sustentabilidade” para “educar para a sustentabilidade”.
O presente estudo analisou a inserção da sustentabilidade social no currículo de um MBA em Gestão de Pessoas, sob a ótica de discentes e egressos. A pesquisa constatou que, embora a sustentabilidade esteja formalmente presente na matriz curricular e no PPP, sua implementação ocorre de forma pontual, concentrada em uma única disciplina e carente de transversalidade. Essa lacuna foi percebida por metade dos participantes, que apontaram a necessidade de maior integração do tema com as demais áreas da gestão e sentiram falta de exemplos práticos. A abordagem fragmentada limita o potencial do programa em formar gestores com uma visão sistêmica da responsabilidade social corporativa, seguindo a tendência apontada por Maciel e Andrade (2022).
Apesar das limitações, os resultados também demonstraram o impacto positivo que mesmo uma abordagem inicial pode gerar, visto que 76,7% dos respondentes afirmaram conseguir aplicar os conhecimentos em seu ambiente profissional. Como contribuição prática, o estudo sistematizou ações para o aprimoramento do programa, baseadas nas sugestões dos alunos, que incluem a curricularização dos ODS e da agenda ESG, a adoção de metodologias ativas e a ampliação da interação com o mercado. Embora a amostra de 30 participantes restrinja a generalização estatística, a consistência entre a análise documental e os dados empíricos confere validade às conclusões. Recomenda-se, para pesquisas futuras, estudos comparativos com outros MBAs e a análise longitudinal do impacto da formação na carreira dos egressos. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a inserção da sustentabilidade social no programa de MBA analisado, embora formalmente presente, ocorre de maneira pontual e carece de uma transversalidade curricular efetiva para a formação integral de líderes responsáveis.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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