15 de maio de 2026
Gestão de Riscos no Financiamento de Veículos Elétricos no Brasil
Ruann Guilherme Ferreira Da Silva Martins; Josué Marcos De Moura Cardoso
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A busca constante por eficiência energética e a mitigação de preocupações ambientais globais impulsionam a transição para a mobilidade elétrica como uma solução estratégica para a redução da emissão de gases do efeito estufa no setor rodoviário (Jung et al., 2023). Na última década, mercados como China, Estados Unidos e Europa lideraram essa transformação por meio de incentivos governamentais, subsídios e restrições a veículos a combustão, além do avanço tecnológico que reduziu o custo das baterias (Jung et al., 2023). Em 2021, esses três mercados concentraram 96% das vendas globais de veículos elétricos, com destaque para a China, que lidera o setor desde 2015 e apresentou um crescimento expressivo de 1,2 milhão de unidades em 2020 para 3,4 milhões em 2021 (Bispo e Cechin, 2023). No cenário brasileiro, embora o mercado ainda esteja em estágio inicial, os dados demonstram um potencial de expansão considerável. Ao final de 2024, o emplacamento de veículos leves eletrificados totalizou mais de 177 mil unidades, representando um aumento de 89% em relação ao ano anterior e elevando a participação de mercado de 4,3% para 7,1% (ANFAVEA, 2024).
O financiamento de veículos desempenha um papel central na ampliação do acesso ao consumo no Brasil, permitindo a aquisição parcelada mediada por instituições financeiras, com taxas e prazos que variam conforme o perfil do adquirente e a política monetária (Luiz, 2024). Entre as modalidades praticadas, o Crédito Direto ao Consumidor destaca-se como a principal ferramenta, sendo responsável por mais de 85% da produção de financiamentos no país em dezembro de 2024 (Mendonça et al., 2017; B3, 2024). O ano de 2024 registrou um aumento de 20,4% no mercado de financiamento veicular, totalizando 7,2 milhões de unidades vendidas nessa modalidade (B3, 2024). Contudo, o financiamento de veículos elétricos enfrenta incertezas específicas, como o custo de aquisição superior aos modelos a combustão (Souza e Hiroi, 2021). A infraestrutura de recarga escassa e concentrada em grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, constitui um ponto de atenção crítico (Frantz, 2023). Adicionalmente, a desvalorização acentuada desses ativos, decorrente da rápida evolução tecnológica das baterias, impõe riscos significativos à operação de crédito (Oliveira, 2024). Nesse contexto dinâmico, a gestão de riscos torna-se um pilar estratégico para as instituições financeiras, utilizando práticas consagradas para identificação e resposta a incertezas (PMI, 2017; PMI, 2021).
A abordagem metodológica adotada fundamenta-se na investigação qualitativa, centrada na compreensão profunda de fenômenos e experiências (Gil, 2017; Bigaton et al., 2024). A pesquisa concentrou-se na ponderação de riscos sob a perspectiva do credor, utilizando um questionário semiestruturado para coletar dados descritivos e interpretativos. As instituições financeiras e bancos tradicionais, que viabilizam a aquisição de bens mediante o estabelecimento de juros, prazos e garantias fiduciárias, representam o sujeito central desta análise (Furlan, 2021). O processo de coleta de dados ocorreu entre 26 de maio de 2025 e seis de junho de 2025, garantindo o sigilo e a fidedignidade das informações por meio do Consentimento Livre e Esclarecido, em conformidade com as diretrizes éticas da prática científica (CNS, 2012; CNS, 2016). A amostra foi composta por cinco profissionais atuantes em uma grande instituição financeira brasileira com linhas de crédito específicas para veículos elétricos, ocupando cargos estratégicos como analistas seniores, coordenadores de operações e gestores de produtos.
O perfil dos respondentes revelou uma experiência consolidada no setor, com 80% da amostra possuindo mais de sete anos de atuação no financiamento de veículos. A diversidade de funções, incluindo um analista pleno responsável por cálculos de financiamento e um gestor de produtos, permitiu uma visão técnica e estratégica integrada. O instrumental de pesquisa foi estruturado em blocos, sendo o primeiro dedicado à caracterização dos participantes e o segundo à investigação dos riscos. Para cada risco identificado, buscou-se quantificar a probabilidade e o impacto, além de listar ações de mitigação. A análise dos dados permitiu a construção de uma Estrutura Analítica de Riscos e de uma Matriz de Riscos, ferramentas essenciais para a priorização de ameaças e a tomada de decisão estratégica (PMI, 2017; PMI, 2021). A decomposição hierárquica seguiu as etapas de identificação, decomposição, revisão e validação, organizando os elementos em categorias internas e externas.
Os riscos externos foram definidos a partir de variáveis macroeconômicas, regulatórias e tecnológicas que fogem ao controle direto da instituição financeira. Relatórios setoriais indicam que a tecnologia dos veículos elétricos gera incertezas quanto ao valor residual do bem (McKinsey & Company, 2023), enquanto a instabilidade de incentivos fiscais impacta a previsibilidade do mercado (IPEA, 2022). Estudos acadêmicos reforçam que a obsolescência tecnológica e a carência de infraestrutura de recarga são barreiras críticas (Silva e Pizzolato, 2022; Sousa et al., 2024). Já os riscos internos foram mapeados com base na expertise operacional, abrangendo processos, tecnologia e conhecimento organizacional. A probabilidade de ocorrência foi classificada em uma escala de cinco níveis, variando de muito baixa (1 a 19%) a muito alta (80 a 100%), enquanto o impacto foi segmentado em baixo, moderado e alto, refletindo o potencial de prejuízo financeiro para o credor (PMI, 2017).
A gestão dos riscos vinculados ao crédito de veículos elétricos no Brasil é impulsionada pela expansão do segmento e pelas características únicas desses ativos, exigindo que o credor reconheça e atenue ameaças à solidez financeira das operações (Oliveira, 2024; Avilo, 2025). A depreciação acelerada, resultante da evolução das baterias, e a liquidez incipiente do mercado de usados no Brasil representam desafios adicionais em comparação com mercados maduros como China e Estados Unidos (Jung et al., 2023; McKinsey & Company, 2023). A dimensão tecnológica, associada à vida útil da bateria, afeta diretamente o valor de revenda e exige metodologias de análise específicas (Yamamura et al., 2022; Sousa et al., 2024). O risco regulatório também se mostra relevante, visto que a retirada abrupta de incentivos fiscais pode gerar instabilidade (IPEA, 2023; Klee et al., 2024). A concentração regional dos pontos de recarga atua como um fator limitante da expansão, conforme evidenciado por análises técnicas (Frantz, 2023; Nunes e Barbosa, 2024).
A Estrutura Analítica de Riscos desdobrou o financiamento em categorias detalhadas. No nível externo, o mercado e a demanda apresentaram riscos de baixa adesão e consolidação tardia. A categoria tecnológica abrangeu avanços disruptivos e dúvidas sobre a vida útil das baterias. No ambiente econômico, destacaram-se os juros elevados, a instabilidade cambial e o custo de capital. A infraestrutura de recarga revelou a escassez de pontos e a desigualdade regional de acesso. No âmbito interno, a avaliação e modelagem de crédito identificaram a subestimação ou superestimação de garantias e a falta de histórico de mercado. Em produtos e ofertas, a ausência de personalização e o uso de modelos de financiamento padrão foram apontados como falhas. A liquidez de bens retomados e o baixo preparo técnico das operações internas completaram o mapeamento dos riscos controláveis pela instituição.
A Matriz de Riscos revelou que a maioria das ameaças possui natureza externa, com destaque para a demanda flutuante, o avanço tecnológico, os riscos regulatórios, econômicos e a falta de infraestrutura. A predominância desses fatores indica uma forte influência macroambiental sobre o cenário de crédito. Entre os riscos internos, a má modelagem de crédito e a dificuldade de liquidez dos bens retomados apresentaram alta probabilidade de ocorrência. O risco econômico, referente a taxas de juros e variações cambiais, foi classificado com alta probabilidade e alto impacto, dada a dependência de veículos importados e a vulnerabilidade a mudanças na economia global. A falta de pontos de carregamento também recebeu classificação de alta probabilidade e alto impacto, pois a carência de infraestrutura em rodovias gera receio no consumidor e limita a expansão do mercado (Silva e Pizzolato, 2022; Nunes e Barbosa, 2024).
A análise dos impactos evidenciou que a demanda flutuante e os riscos regulatórios possuem impacto moderado, uma vez que as instituições financeiras diversificam suas carteiras e os veículos elétricos ainda representam uma pequena parcela das vendas totais no Brasil. Estudos indicam que a participação desses veículos permanece inferior a 10% dos emplacamentos devido ao alto custo inicial e incertezas tecnológicas (Schvartz et al., 2024; Soares et al., 2024). O avanço tecnológico foi avaliado com impacto moderado, pois a dívida do financiamento é atrelada ao tomador do crédito e não exclusivamente ao bem, embora o impacto possa ser sentido em processos de recuperação judicial. Por outro lado, a má avaliação do bem e a modelagem inadequada de crédito resultam em impactos elevados, comprometendo a sustentabilidade das operações por não considerarem as especificidades dos veículos elétricos (Klee et al., 2024; Soares et al., 2024).
As estratégias de mitigação propostas incluem o desenvolvimento de políticas de crédito diferenciadas e o fortalecimento de parcerias público-privadas para a expansão da infraestrutura de recarga. Para mitigar o risco de obsolescência, sugere-se a adoção de prazos e modelos de financiamento que considerem a safra de produção e a vida útil estimada das baterias (Yamamura et al., 2022; Klee et al., 2024). A dependência da produção internacional exige o monitoramento constante de benefícios fiscais que fomentem a produção doméstica e reduzam a exposição a variações cambiais (Soares et al., 2024). No âmbito interno, a utilização de dados avançados e inteligência artificial pode aprimorar a modelagem de crédito, mitigando riscos de inadimplência. A articulação com parceiros especializados no mercado de revenda e plataformas digitais é fundamental para gerir a liquidez dos veículos retomados e controlar perdas financeiras (Avilo, 2025).
A integração entre dados empíricos e a base teórica permitiu identificar que o setor de financiamento de veículos elétricos no Brasil demanda inovação e capacidade adaptativa dos credores. As limitações do estudo, como o tamanho da amostra e a concentração em uma única instituição, sugerem a necessidade de pesquisas futuras que ampliem a base de respondentes e incluam outros atores da cadeia de valor da mobilidade elétrica. A adoção de ferramentas de gestão de projetos no contexto do crédito verde constitui um componente estratégico para a tomada de decisões em mercados emergentes. O alinhamento entre financiamento e políticas de crédito sustentável contribuirá para a consolidação do mercado de veículos elétricos no país, garantindo uma transição energética financeiramente viável e segura para os agentes envolvidos.
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar e analisar os riscos inerentes ao financiamento de veículos elétricos no Brasil sob a ótica do credor, evidenciando que a utilização da Estrutura Analítica de Riscos e da Matriz de Riscos proporcionou uma visão sistematizada das ameaças internas e externas. Os resultados demonstraram que, embora os riscos externos como a instabilidade econômica e a infraestrutura precária sejam predominantes e de alto impacto, as falhas internas na modelagem de crédito e na avaliação de garantias representam vulnerabilidades críticas que exigem a adaptação urgente dos modelos tradicionais de financiamento. A pesquisa validou que a sustentabilidade das operações de crédito verde depende da integração de variáveis tecnológicas específicas, como a degradação das baterias, e da criação de políticas de mitigação robustas que incluam parcerias estratégicas para a revenda de ativos. Assim, o estudo fornece subsídios práticos para que as instituições financeiras aprimorem sua gestão de riscos e contribuam para a expansão segura da mobilidade elétrica no cenário nacional.
Referências Bibliográficas:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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