15 de maio de 2026
Análise de atrasos na entrega de sal hipossódico: estudo de caso
Rosane Leardini; Isabela Romanha de Alcantara
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A crescente preocupação com os impactos do consumo excessivo de sódio na saúde pública global tem impulsionado a busca por alternativas alimentares mais saudáveis, especialmente no cenário brasileiro, onde os índices de ingestão deste mineral superam significativamente os limites recomendados. Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, 2024), o monitoramento do teor de sódio em alimentos industrializados entre os anos de 2022 e 2023 revelou um aumento expressivo no consumo de produtos ultraprocessados por diversas faixas etárias. Estes alimentos, conforme define Monteiro (2010), são formulações industriais que utilizam derivados de alimentos com pouca ou nenhuma presença de ingredientes íntegros, incorporando corantes, aromatizantes e aditivos com elevada concentração de sódio, como observado em salgadinhos, embutidos e refeições do tipo fast food. A Pesquisa de Orçamentos Familiares indica que o consumo desses itens no Brasil saltou de 16% entre 2008 e 2009 (IBGE, 2010) para 18,4% no período entre 2017 e 2018 (IBGE, 2020). Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda uma ingestão máxima de dois gramas de sódio por dia, a média brasileira atinge 9,3 g, o que correlaciona diretamente o consumo mineral ao aumento de doenças crônicas não transmissíveis, incluindo hipertensão arterial, diabetes e patologias cardiovasculares.
Diante deste panorama alarmante, a meta global estabelecida pela Organização Mundial da Saúde prevê uma redução de 30% na ingestão média de sódio até o ano de 2025 (ANVISA, 2024). No Brasil, onde as doenças crônicas não transmissíveis respondem por 30% dos óbitos, políticas públicas como a Política Nacional de Alimentação e Nutrição e o Plano Nacional de Redução de Consumo de Sal incentivam a diminuição voluntária do sódio pela indústria. Este cenário fomentou a demanda por aditivos alternativos, destacando-se o sal hipossódico, que apresenta uma redução de 50% no teor de sódio em sua composição original. A organização objeto deste estudo, uma fabricante de médio porte localizada na região metropolitana de Campinas, no interior de São Paulo, consolidou-se como fornecedora global de sais inorgânicos e nutrientes. Entretanto, o crescimento acelerado e a ausência de um planejamento estratégico robusto resultaram em dificuldades operacionais, manifestadas principalmente por atrasos recorrentes na entrega do sal hipossódico. Conforme aponta Lima Junior (2003), a carência de planejamento estratégico gera impactos negativos que transcendem a estrutura financeira, afetando a imagem institucional e a competitividade, podendo comprometer a continuidade do negócio.
A fundamentação metodológica deste estudo pauta-se em uma abordagem descritiva e exploratória, visando detalhar as variáveis que influenciam o fenômeno dos atrasos produtivos. De acordo com Gil (2019), a pesquisa descritiva utiliza técnicas padronizadas para descobrir associações entre variáveis e descrever características de grupos ou fenômenos específicos. Complementarmente, o caráter exploratório permite maior familiaridade com o problema, possibilitando o aprimoramento de ideias e a construção de hipóteses fundamentadas (Gil, 2019). O procedimento técnico adotado consistiu em um estudo de caso de natureza qualitativa e participante, o qual, segundo Yin (2001), é essencial para compreender os motivos e os processos que levam à ocorrência de problemas organizacionais complexos. O foco da investigação concentrou-se no processo produtivo do aditivo alimentar sal hipossódico, buscando estabelecer relações causais entre as falhas operacionais e o descumprimento dos prazos acordados com os clientes.
A coleta de dados ocorreu durante os meses de março, abril e maio de 2025, utilizando como fonte primária os relatórios internos do sistema de gestão Cognum. Estes documentos forneceram dados quantitativos sobre o volume de pedidos, a quantidade de lotes entregues com atraso e a capacidade produtiva instalada. Paralelamente, realizaram-se entrevistas não estruturadas com dez colaboradores da linha de produção diretamente envolvidos na fabricação do sal. O objetivo destas interações foi validar se as instruções de preparo contidas nas fichas de fabricação eram seguidas rigorosamente e se o lead time estipulado era condizente com a realidade dos equipamentos disponíveis. A análise dos dados foi estruturada em duas etapas distintas: a primeira utilizou o Diagrama de Ishikawa para identificar as causas raízes dos atrasos sob a ótica dos seis fatores produtivos conhecidos como 6M; a segunda etapa consistiu na elaboração de um plano de ação fundamentado na ferramenta 5W2H, visando mitigar cada causa identificada de forma sistemática.
O detalhamento do processo operacional revelou que a produção do sal hipossódico inicia-se com o cadastro do pedido no sistema Cognum pelo setor de vendas, seguido pela abertura da ficha de fabricação pelo Planejamento e Controle da Produção. Esta ficha especifica o número do lote, a quantidade, as matérias-primas e as etapas técnicas definidas pelo setor de Pesquisa e Desenvolvimento. O produto resulta da mistura de cloreto de potássio e cloreto de sódio, passando inicialmente por uma moagem para garantir a homogeneidade granulométrica. Após a pesagem rigorosa para manter as proporções, os sais são submetidos à homogeneização e, posteriormente, ao peneiramento para evitar contaminações físicas. A cada batelada de 1000 kg, amostras são enviadas ao laboratório de controle de qualidade para análise dos teores de sódio e potássio. Somente após a aprovação laboratorial o insumo é embalado. Como os equipamentos são compartilhados com outros itens do portfólio, a produção não é diária, dependendo da disponibilidade de máquinas e da separação prévia de insumos pelo setor de recebimento.
Os resultados obtidos no período avaliado demonstraram uma tendência de crescimento tanto na demanda quanto na ineficiência logística. Em março, de um total de 51 mil kg vendidos, 4000 kg foram entregues com atraso, representando um índice de 7,84%. No mês de abril, o volume de vendas subiu para 61 mil kg, enquanto os atrasos saltaram para 12 mil kg, atingindo 19,67%. Em maio, o cenário agravou-se com 82 mil kg vendidos e 23 mil kg entregues fora do prazo, resultando em um percentual de atraso de 28,05%. A análise técnica indicou que o tempo padrão para produzir uma batelada de 1000 kg é de duas horas e 45 minutos, distribuídos em 15 minutos de moagem, 20 minutos de pré-mistura e pesagem, uma hora de homogeneização, 20 minutos de peneiramento e 50 minutos de embalamento. Para suportar a demanda, a empresa opera em três turnos: o primeiro e o segundo com nove horas de duração e o terceiro com sete horas, totalizando 25 horas de disponibilidade teórica, as quais se mostraram insuficientes diante das falhas identificadas.
A investigação por meio do Diagrama de Ishikawa revelou problemas críticos no fator máquina. O homogeneizador, equipamento vital para o processo, operava 24 horas por dia sem interrupções para manutenção preventiva, o que resultava em quebras frequentes e paradas não planejadas. Além disso, o excesso de trocas de produtos (set up) para atender outros itens do portfólio consumia horas produtivas valiosas. Conforme discutido por Guimarães, Nogueira e Silva (2012), a implementação da manutenção produtiva total é fundamental para garantir a produtividade líquida, pois permite programar paradas e evitar falhas catastróficas. Como solução, o plano 5W2H estabeleceu que o homogeneizador passaria a ser dedicado exclusivamente ao sal hipossódico em dias de grandes pedidos, além da instituição de uma parada mensal obrigatória no último sábado de cada mês para lubrificação de eixos e troca de correias, coordenada pelo setor de manutenção com custo de horas extras programadas.
No âmbito do fator método, identificou-se um elevado índice de reprovação laboratorial devido à falta de padronização no tempo de homogeneização entre os diferentes turnos. Operadores frequentemente reduziam o tempo de mistura para menos de 30 minutos, resultando em lotes heterogêneos que exigiam reprocesso. A intervenção consistiu na criação de uma instrução de trabalho específica, revisando a ordem de fabricação para fixar o tempo de homogeneização em 30 minutos. Testes laboratoriais comprovaram que este intervalo, se respeitado rigorosamente, é suficiente para garantir a conformidade técnica, permitindo dobrar a capacidade desta etapa em comparação ao tempo anteriormente estimado de uma hora. Esta padronização eliminou a confusão operacional e reduziu o lead time total do produto.
Quanto ao fator mão de obra, as entrevistas revelaram que os colaboradores não possuíam treinamento técnico sobre a diferenciação química entre cloreto de sódio e cloreto de potássio, o que ocasionava erros frequentes na pesagem da pré-mistura. A alta rotatividade de operadores dentro de um mesmo lote também contribuía para a inconsistência dos processos. O plano de ação determinou a realização de treinamentos específicos para padronizar o preparo e a decisão estratégica de manter equipes fixas para a produção do sal hipossódico. A redução da rotatividade permitiu que os operadores desenvolvessem maior perícia no manuseio dos insumos, diminuindo drasticamente os reprocessos por falha humana.
Em relação ao fator material, observou-se que a variação na granulometria do cloreto de potássio, proveniente de múltiplos fornecedores, impactava a fluidez e a homogeneidade do produto final. Lotes com cristais maiores apresentavam dificuldades de mistura mesmo após a moagem. A solução proposta foi a homologação de um fornecedor único que garantisse a especificação técnica constante. Adicionalmente, falhas na comunicação entre o Planejamento e Controle da Produção e o setor de compras resultavam em falta de insumos, pois o lead time de aquisição não era respeitado. O novo fluxo de trabalho passou a prever o planejamento antecipado das compras com base na demanda de vendas, garantindo níveis de estoque condizentes com o ritmo produtivo e evitando paradas por desabastecimento.
O fator meio ambiente revelou que a umidade relativa da matéria-prima influenciava diretamente a etapa de peneiramento. Insumos com umidade próxima a 0,5% excediam o tempo de 20 minutos na peneira, enquanto materiais com umidade inferior a 0,2% apresentavam melhor fluidez. A padronização do fornecedor também resolveu este problema, uma vez que o parceiro selecionado fornecia o sal mais seco. No local de produção, a falta de organização do almoxarifado fazia com que materiais de outros produtos ocupassem o espaço destinado ao sal hipossódico, gerando esperas de várias horas para a separação dos insumos. A melhoria na comunicação entre o analista de almoxarifado e o planejamento permitiu a separação única e antecipada de toda a matéria-prima necessária para o dia de produção, otimizando o fluxo logístico interno.
Por fim, no fator medida, constatou-se a ausência de indicadores de desempenho e de estudos sobre a capacidade produtiva real. O setor de vendas aceitava pedidos com prazo de sete dias úteis sem consultar a disponibilidade fabril, gerando uma sobrecarga que resultava em horas extras excessivas e atrasos inevitáveis. A implementação de indicadores de produtividade por horas trabalhadas e a definição de metas de prazos de entrega baseadas na capacidade real permitiram à diretoria visualizar a necessidade de investimentos futuros em novos equipamentos e contratações. Os resultados encontrados assemelham-se aos estudos de Cassel e Waszczuk (2019), que demonstram que atrasos em indústrias são frequentemente reflexos de um contexto organizacional onde produção, logística e compras não estão devidamente coordenadas. A comparação com a pesquisa de Pereira (2024) reforça que, embora a gestão da qualidade seja um investimento estratégico, sua eficácia depende do alinhamento entre o nível operacional e as estratégias macro da organização.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a aplicação do Diagrama de Ishikawa e da ferramenta 5W2H permitiu identificar e propor soluções para as falhas nos seis pilares produtivos que causavam os atrasos na entrega do sal hipossódico. A análise demonstrou que a falta de padronização, a ausência de manutenção preventiva e a falha na comunicação intersetorial eram os principais gargalos operacionais. As ações propostas, focadas na especialização da mão de obra, na dedicação de equipamentos e na gestão rigorosa de insumos, mostraram-se viáveis e de baixo custo, com potencial para reduzir significativamente os índices de atraso que chegaram a 28,05% em maio. Apesar da limitação em mensurar os ganhos financeiros exatos decorrentes da redução de multas e fretes extras, o estudo evidenciou que a otimização dos processos internos é fundamental para a competitividade e o crescimento sustentável da empresa no mercado de aditivos alimentares.
Referências Bibliográficas:
ANVISA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 2024. Relatório do Monitoramento do Teor de Sódio em Alimentos Industrializados. Brasília, DF, Brasil.
CASSEL, R. A.; WASZCZUK, R. 2019. Redução do percentual de atrasos em entregas de uma empresa siderúrgica do Rio Grande do Sul. Tese apresentada a Faculdade de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil.
GIL, A.C. 2019. Como elaborar projetos de pesquisa. 6ed. Atlas. São Paulo, SP, Brasil.
GUIMARÃES, L.M; NOGUEIRA, C.F; SILVA, M.D.B. 2012. Manutenção Industrial: Implementação da manutenção produtiva total (TPM). Revista e-xacta, v. 5, n. 1, p. 175-197. Editora UniBH. Belo Horizonte, MG, Brasil.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2010. POF – Pesquisa de orçamentos familiares. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2020. POF – Pesquisa de orçamentos familiares. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
LIMA JUNIOR, P.N. 2003. Uma estratégia chamada ‘Planejamento Estratégico’: deslocamentos espaciais e atribuições de sentido na teoria do planejamento urbano. Tese apresentada a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
MONTEIRO, C.A. 2010. Uma nova classificação de alimentos baseada na extensão e propósito do seu processamento. Cadernos de saúde Pública, v.26, n. 11, p.2039-2049.
PEREIRA, A.M.M.A. 2024. Análise da estrutura e das ferramentas do custo da qualidade aplicadas ao processo produtivo do sal marinho em Mossoró-RN. Tese apresentada a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Mossoró, RN, Brasil.
YIN, R.K. 2001. Estudo de caso: planejamento e métodos. 2ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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