Resumo Executivo

30 de abril de 2026

Gestão de riscos climáticos na restauração ecológica: especialistas

Laura Cristina Pantaleão; Nubia Gabriela Pereira Carvalho

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A restauração ecológica configura-se como um processo fundamental para auxiliar na recuperação de ecossistemas que sofreram danos, degradação ou destruição total, visando o restabelecimento de uma condição o mais próxima possível do estado de referência original para recuperar funções ecológicas e a biodiversidade (SER, 2004). No cenário contemporâneo, a restauração florestal destaca-se como uma das estratégias mais relevantes para a mitigação das mudanças climáticas, uma vez que as florestas desempenham um papel crucial no sequestro de carbono atmosférico. No entanto, o sucesso dessas iniciativas é frequentemente ameaçado pelo aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos, que geram impactos negativos diretos na sobrevivência das espécies e na resiliência dos ecossistemas em recuperação (Jäger et al., 2024). A escolha dos métodos de restauração, que podem incluir o plantio de mudas, a semeadura direta ou a condução da regeneração natural, deve ser rigorosamente baseada nos fatores de degradação, nas condições do solo e nas características da área do entorno (Brancalion et al., 2015). Tais ações demandam esforços substanciais de planejamento, execução e monitoramento, enfrentando o desafio de garantir que o ecossistema restaurado atinja a maturidade e a complexidade de uma floresta madura (Crouzeilles et al., 2017).

O processo de restauração de florestas é intrinsecamente complexo e exige não apenas conhecimento técnico especializado, mas também recursos financeiros significativos para sua viabilização (Brancalion et al., 2019). A ocorrência de secas prolongadas, por exemplo, pode potencializar incêndios florestais que interrompem o processo de regeneração natural e destroem anos de investimento em campo (Santos et al., 2018). Da mesma forma, inundações causadas por chuvas extremas resultam na mortalidade elevada de mudas e na perda de sementes, comprometendo a eficácia das intervenções. Nesse contexto, a gestão de projetos assume uma função estratégica ao oferecer uma base estruturada para planejar e monitorar ações complexas. O gerenciamento de projetos envolve a aplicação de conhecimentos, habilidades e técnicas para cumprir requisitos de prazo, escopo e orçamento, garantindo a entrega de valor (PMI, 2021). No âmbito ambiental, esse valor manifesta-se na melhoria da qualidade da água, na conservação da biodiversidade e na regulação climática, beneficiando tanto as comunidades locais quanto as organizações que buscam atingir metas socioambientais.

Um componente vital do gerenciamento é a gestão de riscos, definida como o processo de lidar com eventos incertos que podem impactar os objetivos do projeto de forma positiva ou negativa. A identificação e o monitoramento de riscos devem ocorrer durante todo o ciclo de vida da iniciativa para minimizar ameaças e potencializar oportunidades, considerando o efeito agregado da incerteza sobre os resultados esperados (PMI, 2021). A gestão de riscos climáticos em projetos florestais torna-se, portanto, uma necessidade premente, especialmente em um país com alto déficit de vegetação nativa e vastas áreas degradadas que demandam restauração. Apesar da importância do tema, observa-se uma lacuna na literatura técnica sobre a identificação e o gerenciamento desses riscos específicos em projetos de restauração no Brasil. O aprimoramento dessas práticas é essencial para aumentar a previsibilidade e a sustentabilidade das intervenções em múltiplas dimensões, garantindo que os investimentos aplicados resultem em benefícios ecológicos duradouros.

A metodologia adotada para a investigação caracterizou-se como uma pesquisa exploratória e descritiva, utilizando uma abordagem mista, quantitativa e qualitativa, para identificar e priorizar os riscos climáticos percebidos por especialistas que atuam na área de restauração ecológica no Brasil. A coleta de dados foi estruturada por meio de um questionário digital, composto por perguntas abertas e fechadas, distribuído em quatro blocos temáticos distintos para garantir a abrangência da análise. O uso desse instrumento permitiu o registro direto das respostas pelos participantes, otimizando o tempo de coleta e assegurando o anonimato dos respondentes (Gil, 2017). O questionário foi veiculado em redes sociais profissionais e direcionado a especialistas com experiência comprovada no setor. O primeiro bloco do instrumento focou na obtenção de informações sobre o perfil e a atuação profissional dos respondentes; o segundo bloco avaliou a percepção dos riscos climáticos, solicitando a atribuição de probabilidade e impacto a diferentes eventos; o terceiro bloco investigou a consideração desses riscos no planejamento e as estratégias de mitigação adotadas; e o quarto bloco verificou a adoção de práticas formais de gestão e os desafios enfrentados pelos gestores.

Para a análise e priorização dos riscos, foi elaborada uma matriz baseada na metodologia de Probabilidade x Impacto, seguindo as diretrizes estabelecidas pelo Project Management Institute (PMI, 2021). O processo iniciou-se com a identificação dos principais riscos climáticos capazes de afetar os projetos de restauração, fundamentada tanto na literatura técnica quanto na percepção preliminar dos especialistas. Os riscos selecionados para avaliação detalhada incluíram o aumento da temperatura média, alterações no regime de chuvas, ocorrência de secas mais intensas, redução na disponibilidade hídrica e mudanças microclimáticas locais. Para cada um desses riscos, os participantes atribuíram notas em uma escala qualitativa de um a cinco, onde um representava um nível muito baixo e cinco representava um nível muito alto, tanto para a probabilidade de ocorrência quanto para o impacto potencial nos resultados do projeto.

O nível de risco foi calculado matematicamente por meio do produto entre a média das notas de probabilidade e a média das notas de impacto. Os resultados foram então classificados em cinco faixas de severidade para facilitar a interpretação e a tomada de decisão: crítico (valores ≥20), alto (12–19), moderado (6–11), baixo (3–5) e muito baixo (valores <3). Essa classificação permitiu a organização dos riscos em uma matriz visual do tipo semáforo, ferramenta essencial para a priorização de ações de mitigação. Os dados coletados foram tabulados em planilhas eletrônicas e processados para a geração de estatísticas descritivas, permitindo a visualização clara das tendências e das divergências de percepção entre os profissionais consultados. A amostra final foi composta por 24 especialistas, cujas formações e experiências proporcionaram uma visão multifacetada sobre os desafios operacionais e estratégicos da restauração frente às mudanças do clima.

A análise do perfil dos participantes revelou que 50% dos especialistas possuem graduação em Engenharia Florestal, enquanto os demais apresentam formações em Biologia, Engenharia Ambiental, Agronomia, Ecologia, Agroecologia e Geografia. Essa diversidade de formação é relevante, pois a restauração ecológica é um campo interdisciplinar que exige conhecimentos integrados de ciências agrárias, da terra e biológicas. A presença de profissionais qualificados é um dos componentes fundamentais para o sucesso de qualquer projeto, e a especialização contínua por meio de cursos de pós-graduação supre a ausência de uma graduação específica na área (Sansevero et al., 2017). Quanto ao porte das áreas de atuação, verificou-se que 50% dos respondentes trabalham em projetos com extensões superiores a 500 hectares, 8% em áreas entre 201 e 500 hectares, 25% entre 51 e 200 hectares e 17% em projetos de até 50 hectares. O tamanho da área é um fator determinante para a gestão, pois projetos de grande porte demandam maior complexidade administrativa, orçamentária e operacional, exigindo abordagens de gerenciamento de riscos mais detalhadas (PMI, 2021).

No que diz respeito ao planejamento técnico e operacional, 63% dos especialistas afirmaram que os projetos em que atuam possuem planejamento e gestão de riscos formalizados. Entretanto, 33% informaram que, embora exista planejamento técnico, não há uma gestão formal de riscos, e 4% não souberam informar. Esses dados indicam que uma parcela significativa das iniciativas de restauração ainda não implementa formalmente práticas de gerenciamento de riscos, que são imprescindíveis para garantir a previsibilidade e o suporte à tomada de decisão ao longo do ciclo de vida do projeto (PMI, 2021). Sobre a consideração dos efeitos das mudanças climáticas no planejamento, 54% dos respondentes afirmaram que esses fatores são sempre considerados, 42% indicaram que são considerados às vezes e 4% relataram que nunca são levados em conta. A incorporação parcial ou inexistente desses impactos é preocupante, dado que o contexto atual aponta para mudanças aceleradas nos regimes climáticos, com aumento da frequência de eventos extremos como secas prolongadas e incêndios (Fettig et al., 2013; Kurz et al., 2008).

As estratégias de adaptação mais adotadas nos projetos, segundo os especialistas, incluem o manejo preventivo contra incêndios, a adequação dos cronogramas de plantio e a seleção de espécies mais resilientes. Nota-se que, mesmo na ausência de uma gestão de riscos estruturada, os projetos incorporam práticas tradicionais da área florestal para mitigar riscos conhecidos, como a mortalidade de mudas. O plantio é tradicionalmente realizado durante a estação chuvosa, mas as mudanças recentes na precipitação têm exigido maior flexibilidade e a revisão dos cronogramas para garantir a sobrevivência das mudas. Há uma crescente discussão sobre a necessidade de incorporar estratégias de manejo adaptativo, como a introdução de espécies que se projetam como mais adequadas sob cenários futuros de clima (Aubin et al., 2011; Park & Talbot, 2012). Essa abordagem enfatiza a importância de alinhar as decisões de planejamento às previsões climáticas de longo prazo, garantindo a viabilidade ecológica e a contribuição da restauração para a mitigação das mudanças climáticas.

Quanto à execução da gestão de riscos climáticos, 63% dos respondentes afirmaram que as atividades são realizadas de forma pontual e empírica, sem um processo formal. Apenas 21% indicaram que a gestão é conduzida de maneira estruturada com ferramentas específicas, enquanto 17% informaram a ausência total de gestão de riscos. A falta de um processo estruturado limita a capacidade dos projetos de antecipar impactos e reduzir vulnerabilidades de forma consistente (PMI, 2021; Chazdon et al., 2020). Apesar disso, a percepção da importância do tema é elevada: 67% dos especialistas consideram a gestão de riscos climáticos muito importante e 33% a consideram importante para o sucesso dos projetos. Essa discrepância entre a importância percebida e a prática efetiva sugere que existem barreiras significativas para a implementação dessas metodologias no cotidiano operacional.

Os principais desafios apontados para a gestão de riscos climáticos foram a escassez de dados e modelos climáticos aplicáveis (citada por mais de 60% dos participantes), a falta de conhecimento técnico específico, a baixa priorização da agenda de riscos por parte dos gestores e a insuficiência de recursos financeiros. A governança tem um papel central ao fornecer o framework necessário para integrar a gestão de riscos à rotina dos projetos, tornando-a uma prática sistêmica e não apenas episódica (PMI, 2021). Além disso, o impacto orçamentário é um fator crítico; o planejamento deve prever fundos de reserva de contingência para implementar respostas a eventos inesperados, como secas intensas ou ataques de pragas decorrentes de desequilíbrios climáticos. A ausência de informações climáticas confiáveis dificulta a adoção de medidas preventivas adequadas, comprometendo a resiliência das ações de restauração a longo prazo.

A análise da matriz de risco permitiu classificar os eventos climáticos de acordo com sua severidade. O aumento na frequência e intensidade de secas (R1), o aumento da temperatura média (R2), as alterações no regime de chuvas (R3) e a redução na disponibilidade hídrica (R4) foram todos classificados como riscos críticos, apresentando altos índices de probabilidade e impacto. As mudanças microclimáticas locais (R5) foram classificadas como risco alto. Essa classificação evidencia que as alterações climáticas representam ameaças substanciais ao sucesso da restauração ecológica, reforçando a urgência de incorporar a análise de riscos no planejamento das iniciativas. A matriz serve como uma ferramenta estratégica de apoio à decisão, permitindo que os gestores concentrem esforços nos riscos de maior criticidade e definam limites aceitáveis de exposição (PMI, 2021).

Os resultados indicam que a gestão de riscos climáticos deve envolver todas as partes interessadas, incluindo técnicos, gestores e financiadores, para alinhar as respostas à realidade operacional e institucional. A prevenção de riscos tende a ser menos onerosa e mais eficaz do que a remediação de danos após a ocorrência de impactos negativos. Conhecendo os níveis de risco, os especialistas podem planejar melhor a escolha de espécies, a implementação de práticas de conservação de solo e água e o fortalecimento da diversidade funcional e genética das áreas restauradas. A formalização e a sistematização da gestão de riscos ainda permanecem restritas, mas sua adoção sistemática é essencial para transformar o conhecimento técnico existente em procedimentos consistentes que aumentem a probabilidade de êxito das intervenções de restauração frente às incertezas climáticas crescentes.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que o estudo identificou os riscos climáticos críticos para a restauração ecológica no Brasil, como o aumento de secas e temperaturas, e evidenciou que, embora os especialistas reconheçam a alta importância da gestão de riscos, sua aplicação prática ainda é predominantemente empírica e pontual. A falta de dados específicos e de recursos financeiros foram apontadas como as principais barreiras, ressaltando a necessidade de formalizar processos de gerenciamento e adotar estratégias de manejo adaptativo para garantir a resiliência dos ecossistemas restaurados e a eficácia dos investimentos socioambientais a longo prazo.

Referências Bibliográficas:

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dos Santos, J. F. C.; Gleriani, J. M.; Velloso, S. G. S.; de Souza, G. S. A.; do Amaral, C. H.; Torres, F. T. P.; Medeiros, N. G.; dos Reis, M. 2018. Wildfires as a major challenge for natural regeneration in Atlantic Forest. Science of the Total Environment. 650, 809-821.

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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