Resumo Executivo

27 de abril de 2026

Gestão ágil e suporte a jogadores em torneios de esports

Guilherme Augusto Speranza dos Santos; Josué Marcos de Moura Cardoso

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

No cenário contemporâneo dos esportes eletrônicos, observa-se uma transformação acelerada e profunda, marcada por um intenso processo de profissionalização que vem redefinindo a indústria do entretenimento em escala global (Taylor, 2015). A magnitude desse setor é evidenciada não apenas pelo volume financeiro movimentado, mas pela complexidade inerente à organização de competições de alto desempenho, que exigem estratégias de gestão extremamente bem definidas para garantir a eficiência operacional e o suporte integral aos participantes (Jenny et al., 2017). Organizar eventos dessa natureza representa um desafio logístico e administrativo sem precedentes, demandando uma execução impecável para atender às expectativas de um público global e de atletas que operam sob altíssima pressão (Parent, 2010). Esse crescimento exponencial trouxe novas responsabilidades para as organizações, especialmente no que tange ao bem-estar dos jogadores, uma vez que estudos recentes apontam uma incidência elevada de problemas de saúde física e mental em competidores profissionais (DiFrancisco-Donoghue et al., 2019). Diante desse quadro, torna-se imperativo o desenvolvimento de modelos de gestão que consigam conciliar a agilidade necessária para o ambiente digital com a robustez operacional exigida por megaeventos (Delello et al., 2021).

A relevância institucional dos esportes eletrônicos foi consolidada por marcos significativos, como a decisão do Comitê Olímpico Internacional de criar os primeiros jogos olímpicos voltados exclusivamente para essa modalidade, sinalizando o reconhecimento definitivo do setor no panorama esportivo mundial (Grohmann, 2025). No entanto, a gestão desses eventos enfrenta obstáculos particulares, como a alta rotatividade de participantes e a necessidade de interações constantes entre diversas áreas operacionais, incluindo logística, transmissão e hospitalidade. Em grandes competições, como a ocorrida na Arábia Saudita em 2024, a presença de mais de 1500 jogadores de diferentes nacionalidades e 200 equipes competindo em 20 modalidades distintas exemplifica a escala monumental que a gestão de projetos deve alcançar (EWC, 2025). Para lidar com tal complexidade, as metodologias ágeis, tradicionalmente aplicadas ao desenvolvimento de software, surgem como alternativas promissoras devido à sua base em ciclos curtos de entrega e alta capacidade de adaptação (Schwaber e Sutherland, 2020). O framework Scrum, especificamente, fundamenta-se em transparência, inspeção e adaptação, oferecendo papéis definidos e artefatos que permitem uma visibilidade clara do progresso e dos impedimentos (Rubin, 2012).

A aplicação de métodos ágeis no contexto de eventos esportivos de longa duração visa preencher uma lacuna acadêmica e prática, fornecendo ferramentas sistemáticas para aprimorar o suporte oferecido aos atletas. A necessidade de manter sincronizadas áreas como competição e suporte aos jogadores é crítica para assegurar que o evento entregue valor contínuo a todos os envolvidos (PMI, 2021). Estudos realizados na indústria de jogos eletrônicos no Brasil já indicam que o Scrum e o Kanban são as metodologias predominantes em estúdios de desenvolvimento, o que sugere uma abertura cultural para a adoção dessas práticas também na esfera competitiva (Pieva et al., 2025). A transposição desses conceitos para a gestão operacional de torneios busca não apenas a eficiência técnica, mas o fortalecimento teórico de um campo ainda em consolidação. O objetivo central reside em investigar como a adaptabilidade do Scrum pode servir como ferramenta para otimizar a experiência de jogadores e equipes profissionais, criando um modelo conceitual replicável que responda aos desafios de um ambiente em constante mudança e de alta exigência técnica.

Para a condução da investigação, adotou-se uma abordagem qualitativa estruturada por meio de um estudo de caso, método que permite a exploração aprofundada de um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto real (Yin, 2015). A unidade de análise selecionada foi a operação de gestão e suporte a jogadores durante a Esports World Cup 2025, evento de escala global realizado na Arábia Saudita ao longo de sete semanas consecutivas. A escolha desse caso justifica-se por sua complexidade operacional única, envolvendo premiações superiores a 60 milhões de dólares e uma infraestrutura logística massiva (EWC, 2025). A delimitação temporal da coleta de dados concentrou-se nas quatro semanas iniciais do torneio, período em que as práticas de gestão foram intensamente observadas e analisadas nos ambientes oficiais, como arenas de competição e hotéis de hospedagem. Essa estrutura metodológica buscou compreender o “como” e o “porquê” das dinâmicas sociais e operacionais, priorizando a profundidade das experiências em detrimento da mera quantificação numérica (Gil, 2017).

Os instrumentos de coleta de dados incluíram a observação participante, aproveitando a atuação direta no projeto analisado, e a aplicação de um questionário estruturado destinado a profissionais com experiência comprovada no setor. O questionário ficou disponível entre os dias 22 e 23 de maio de 2025, sendo respondido por 18 especialistas que atuaram em diversas frentes da operação de torneios. A caracterização da amostra revelou um grupo altamente qualificado: 55,6% dos respondentes trabalhavam diretamente com gestão de jogadores e administração de torneios, enquanto 22,2% atuavam em logística e operações. Além disso, a experiência internacional do grupo foi notável, com 44,4% dos participantes tendo trabalhado em mais de 15 eventos internacionais e 33,3% em seis a 10 competições de grande porte. Essa diversidade funcional e a senioridade dos envolvidos garantiram uma base de dados robusta para a triangulação das informações, permitindo confrontar as percepções subjetivas com as evidências objetivas coletadas durante a observação direta (Yin, 2015).

O processo de análise seguiu a técnica de análise temática indutiva, que permite identificar padrões e categorias emergentes a partir dos relatos e observações (Braun e Clarke, 2006). Os dados foram organizados para explorar os desafios de comunicação, a clareza nos processos de escalonamento de problemas e a autonomia das equipes operacionais. Para complementar a análise qualitativa, utilizou-se a notação Business Process Model and Notation para representar de forma estruturada os fluxos de trabalho sugeridos. O uso dessa linguagem gráfica padronizada é fundamental para promover uma comunicação clara entre especialistas técnicos e partes interessadas não especializadas, facilitando a compreensão de processos complexos (Dumas et al., 2018). Adicionalmente, a efetividade das propostas foi mensurada por meio do Customer Satisfaction Score, aplicado a jogadores e membros das equipes participantes entre 12 de julho e 04 de agosto de 2025. A coleta desses dados ocorreu de forma digital e anônima ao final de cada ciclo semanal, permitindo capturar impressões imediatas alinhadas ao modelo de entregas incrementais do Scrum.

A investigação detalhada dos procedimentos operacionais revelou que a gestão de eventos de esportes eletrônicos de longa duração exige uma coordenação minuciosa entre departamentos que muitas vezes operam em silos. A coleta de dados buscou entender a frequência com que as solicitações dos jogadores eram atendidas e se as estruturas existentes permitiam ajustes em tempo real. A análise documental e a observação participante focaram na identificação de gargalos que impediam a resolução rápida de incidentes, como alimentação, transporte e suporte técnico nas arenas. Todo o esforço metodológico foi orientado para validar se a introdução de rituais ágeis, como reuniões diárias e revisões de ciclo, poderia mitigar as falhas de comunicação identificadas na fase inicial da pesquisa. A ética foi mantida rigorosamente, garantindo o anonimato dos participantes e a veracidade das informações apresentadas, em conformidade com as diretrizes de pesquisa científica (CNS, 2012).

Os resultados obtidos por meio do questionário aplicado aos profissionais revelaram um cenário de alta pressão onde a agilidade na resposta a demandas imprevistas é fundamental. Quando questionados sobre a eficácia da comunicação entre departamentos, 61,1% dos respondentes consideraram-na eficaz, porém ressaltaram que tal eficácia dependia fortemente da liderança e da estrutura específica de cada evento. Uma parcela de 22,2% classificou a comunicação como razoavelmente eficaz, enquanto 11,1% a consideraram pouco eficaz. Esses dados sugerem que, embora a comunicação ocorra, ela carece de padronização e autonomia, especialmente em cenários dinâmicos onde a rotatividade de membros da equipe é alta. A percepção de incerteza foi ainda mais evidente no processo de escalonamento de problemas urgentes: 61,1% indicaram que o processo era apenas “mais ou menos claro”, evidenciando uma falha na definição de responsabilidades e fluxos de decisão (Vinot e Perez, 2024).

A análise sobre o tratamento de feedbacks durante o evento mostrou que 55,6% dos profissionais percebiam que as reclamações e sugestões dos jogadores eram atendidas apenas “às vezes” durante a própria competição. Apenas 16,7% observaram a adoção de ações corretivas imediatas, o que demonstra uma deficiência clara na existência de processos responsivos capazes de converter devolutivas em melhorias concretas em tempo real. Esse cenário reforça a necessidade de modelos adaptativos que permitam retrospectivas frequentes e a integração contínua de melhorias, conforme preconizado pela literatura de gestão ágil (Rubin, 2012). Os principais desafios operacionais identificados concentraram-se em quatro eixos: rigidez nos processos decisórios, falta de clareza nos fluxos de escalonamento, ineficiência no tratamento de feedbacks e falhas de comunicação interdepartamental. Tais achados dialogam com a literatura sobre megaeventos esportivos, que destaca a necessidade de coordenação integrada em ambientes de alta complexidade (Parent, 2010).

Com base nesses diagnósticos, propôs-se um modelo conceitual adaptado do Scrum para o suporte operacional em torneios. A estrutura sugerida dividiu as responsabilidades em quatro áreas principais: Product Owner, Scrum Master, Time de Produto e Times Operacionais. No contexto do evento, o papel de Product Owner seria desempenhado por gerentes de produto ou de relacionamento, responsáveis por coletar demandas e priorizar o backlog operacional em alinhamento com os interesses dos stakeholders. O Scrum Master atuaria como facilitador, removendo impedimentos e garantindo a aderência aos rituais semanais. O Time de Produto, composto por representantes das áreas operacionais, conduziria o planejamento e a revisão das entregas, enquanto os Times Operacionais executariam as atividades de campo, como logística e hospitalidade. Essa adaptação priorizou a entrega contínua de valor em ciclos semanais denominados sprints, ajustados ao ritmo frenético das competições (Schwaber e Sutherland, 2020).

A implementação prática desse modelo envolveu a criação de um cronograma semanal típico. A segunda-feira foi definida como o dia de chegada e início do ciclo, com a coleta de feedbacks do grupo anterior servindo de base para o planejamento da semana. A terça-feira focaria no check-in e na priorização do backlog. A quarta-feira, dedicada ao Media Day, seria o momento de alinhar as necessidades de produção e comunicação. Entre quinta-feira e domingo, durante as competições, seriam realizadas as Daily Meetings para alinhamento rápido e resolução de impedimentos imediatos. O ciclo se encerraria na segunda-feira seguinte com a Sprint Review, onde as entregas seriam validadas e o processo reiniciado. Essa estrutura visual e temporal busca reduzir a incerteza e aumentar a autonomia das equipes de ponta, permitindo que decisões operacionais sejam tomadas com maior rapidez e embasamento (Ferreira e Nobre, 2022).

A validação empírica do modelo proposto durante a Esports World Cup 2025 trouxe evidências quantitativas de sua eficácia. O índice de satisfação global, medido pelo CSAT Overall, apresentou um crescimento significativo, subindo de 4,1 na primeira semana para 4,6 na segunda semana, mantendo-se estável nos ciclos subsequentes. Esse avanço sugere que a adoção de rituais de planejamento e revisão semanal permitiu ajustes rápidos e assertivos na operação. Particularmente, a dimensão Tournament, que avalia a clareza dos processos e a comunicação da organização, evoluiu de uma média inicial de 3,6 para 4,4 na quarta semana. Esse resultado responde diretamente às fragilidades identificadas na pesquisa inicial, onde mais da metade dos profissionais apontava baixa clareza nos fluxos de escalonamento. A melhora indica que a definição clara de papéis e a realização de reuniões diárias contribuíram para reduzir as incertezas e aumentar a transparência (Rigby et al., 2016).

Outro indicador de destaque foi a categoria EWC Product, que alcançou a pontuação de 4,75 a partir da segunda semana, refletindo uma percepção de entrega de valor consistente e de alta qualidade. A estabilidade de indicadores positivos em dimensões como hospitalidade e alimentação reforça o papel do backlog operacional centralizado como um instrumento de integração entre diferentes áreas. Em ambientes de alta pressão, a combinação de comunicação síncrona e assíncrona, facilitada pelos rituais ágeis, mostrou-se essencial para manter o alinhamento das equipes. A capacidade de resposta rápida a problemas recorrentes, como falhas técnicas ou necessidades logísticas de última hora, foi sensivelmente aprimorada pela autonomia concedida aos times operacionais dentro do framework estabelecido (Denning, 2018).

A discussão dos resultados aponta que a adaptação do Scrum ao contexto dos esportes eletrônicos é não apenas viável, mas necessária para a evolução do setor. A correlação direta entre a aplicação das práticas ágeis e a melhoria na percepção dos participantes evidencia que a gestão centrada no cliente e na entrega incremental reduz o risco de desalinhamentos graves (PMI, 2021). No entanto, reconhece-se que a implementação bem-sucedida depende de uma mudança cultural nas organizações, que muitas vezes ainda operam sob modelos hierárquicos rígidos. A rotatividade de membros da equipe e a terceirização de funções continuam sendo desafios que exigem processos de integração rápidos e documentação clara, áreas onde o Scrum pode oferecer suporte através de seus artefatos transparentes. A experiência na Esports World Cup 2025 serve como um referencial para futuras implementações, demonstrando que a agilidade operacional impacta diretamente a performance e a satisfação dos atletas (Pieva et al., 2025).

Apesar dos avanços observados, o estudo apresenta limitações, como o foco em um único evento de proporções monumentais, o que pode dificultar a generalização direta para torneios de menor porte com restrições orçamentárias mais severas. A subjetividade inerente à observação participante também deve ser considerada, embora tenha sido mitigada pela triangulação com dados quantitativos de satisfação. Pesquisas futuras poderiam explorar a aplicação do modelo em diferentes modalidades de jogos e escalas de eventos, além de investigar indicadores de desempenho mais granulares, como o tempo médio de resolução de incidentes técnicos. A consolidação teórica desse campo exige registros mais robustos e a replicação do framework em diversos contextos geográficos e culturais para validar sua universalidade no ecossistema competitivo global (Jenny et al., 2017).

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao demonstrar que a aplicação do framework Scrum na gestão e suporte a jogadores em torneios de esportes eletrônicos promove melhorias significativas na eficiência operacional e na satisfação dos participantes. A estruturação de processos em ciclos semanais, com papéis definidos e rituais de alinhamento constantes, permitiu mitigar falhas crônicas de comunicação e escalonamento identificadas no setor. A evolução dos indicadores de satisfação de 4,1 para 4,6 comprova que a agilidade e a capacidade de resposta em tempo real são diferenciais críticos para o sucesso de megaeventos. O modelo proposto oferece uma base prática e teórica para a profissionalização da gestão de projetos em esports, reforçando que a entrega contínua de valor e a escuta ativa dos atletas são fundamentais para a sustentabilidade e excelência deste mercado em expansão global.

Referências Bibliográficas:

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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