Resumo Executivo

Mba Executivo Em Liderança E Gestão

18 de junho de 2026

Profissionalização da Gestão na IMAEV: Sucessão e Escala

Filipe Dourado Sucupira; Luiz Gustavo Antonio de Souza

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

As empresas familiares constituem a espinha dorsal da infraestrutura corporativa brasileira, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto (PIB) e para a geração de empregos, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Contudo, a literatura especializada em gestão industrial frequentemente aponta que a longevidade dessas organizações é comprometida pela transição complexa de um modelo de gestão intuitivo para um profissionalizado. O principal desafio reside na delegação de conhecimento e autoridade, que tradicionalmente permanecem centralizados nos fundadores, dificultando a sustentabilidade em momentos de disrupção (Bernhoeft, 2010; Bornholdt, 2005). A ausência de processos formalizados e a dependência do conhecimento tácito, ou seja, aquele adquirido pela experiência e difícil de ser articulado ou transferido, representam vulnerabilidades críticas para a continuidade do negócio (Davis, 2020; Dau, 2021).

O conhecimento tácito, embora valioso para a agilidade e a tomada de decisão em estágios iniciais, torna-se um obstáculo à medida que a empresa busca escala e perenidade. A falta de documentação e a concentração de informações em poucas pessoas-chave criam um risco substancial de perda de capital intelectual em cenários de mudança ou ausência desses indivíduos. A profissionalização, nesse contexto, implica a conversão desse conhecimento tácito em explícito, por meio de processos documentados, sistemas de gestão e indicadores de desempenho (Oliveira, 2006; Ribeiro, 2013). Tal transição é fundamental para que a organização se torne menos dependente de indivíduos e mais resiliente a choques externos e internos.

A IMAEV, uma empresa familiar do setor de automação industrial fundada em 1983, operou por quase quatro décadas com um modelo de gestão centralizada, fortemente baseado no conhecimento tácito e no know-how técnico de seu núcleo familiar. Embora funcional em seus estágios iniciais, essa abordagem gerou uma dependência excessiva da memória pessoal e uma notável falta de documentação. O ano de 2020, em particular, atuou como um catalisador para uma crise estrutural na IMAEV. A perda de um cofundador, cuja figura era central na administração, somada aos desafios impostos pela pandemia, expôs a vulnerabilidade da empresa. A ausência abrupta de informações críticas, não registradas em sistemas ou manuais, resultou em confusão administrativa, ameaçando a sustentabilidade das operações e a qualidade do atendimento ao cliente.

Diante desse cenário, a profissionalização da IMAEV emergiu como uma necessidade imperativa para sua sobrevivência e continuidade. O foco deste estudo foi derivar e implementar práticas de gestão baseadas em dados e processos documentados e reproduzíveis, utilizando ferramentas de gestão como Customer Relationship Management (CRM) e Key Performance Indicators (KPIs). O objetivo central foi codificar e escalar as atividades de gestão já em andamento, transformando a abordagem empírica em um modelo baseado em dados e processos formalizados. Isso visava reduzir a dependência de indivíduos, promover a escalabilidade do negócio e institucionalizar a expertise acumulada ao longo de 40 anos, criando uma base sólida para uma transferência geracional segura e profissionalizada, garantindo a continuidade e o crescimento da empresa sem a dependência da presença física dos sócios (Oliveira, 2002; Terence, 2002).

A pesquisa foi conduzida sob a forma de um estudo de caso, uma abordagem metodológica que permite uma análise aprofundada de um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto real, especialmente quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não são claramente evidentes (Robbins, 2005). A IMAEV, como empresa familiar no setor de automação industrial, representou a unidade de análise, permitindo investigar a transição de um modelo de gestão tácito para um profissionalizado. O período de análise abrangeu os anos de 2020 a 2025, focando nos eventos que precipitaram a necessidade de profissionalização e nos resultados subsequentes das iniciativas implementadas.

Para compreender as causas-raiz da gestão empírica e centralizada, aplicou-se a técnica dos “5 Porquês”. O problema inicial identificado foi a “Gestão sem dados e sem rumo”. A primeira pergunta, “Por que?”, revelou que as decisões eram baseadas na experiência individual e não em processos documentados ou dados estruturados. A segunda “Por que?” apontou que o conhecimento era tácito e concentrado em poucas pessoas-chave, sem formalização. A terceira “Por que?” indicou a ausência de um plano de sucessão ou documentação de processos ao longo da história da empresa. A quarta “Por que?” evidenciou que a cultura organizacional priorizava a agilidade e a confiança familiar em detrimento da formalização e padronização. Finalmente, a quinta “Por que?” concluiu que a empresa não antecipou a necessidade de profissionalização para garantir a continuidade e a escalabilidade, sendo o falecimento da cofundadora o gatilho para essa percepção. Essa análise detalhada permitiu desvendar as camadas subjacentes do problema, fornecendo uma base sólida para as recomendações.

Complementarmente, realizou-se uma análise SWOT (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) para avaliar o contexto da profissionalização na IMAEV. As forças incluíram a experiência e tradição no mercado industrial, a qualidade reconhecida dos produtos e o relacionamento sólido com clientes antigos, que são ativos valiosos para qualquer empresa familiar. As fraquezas identificadas foram a gestão centralizada e intuitiva, a ausência de um funil de vendas e processos comerciais padronizados, a dependência de conhecimento tácito, a dificuldade em escalar operações e vendas, e a falta de ferramentas de gestão e acompanhamento de performance. As oportunidades englobaram a digitalização do mercado e a adoção de novas tecnologias (CRMs), a expansão para novos mercados e segmentos, a demanda por produtos de qualidade no setor e a profissionalização como um diferencial competitivo. Por fim, as ameaças consistiram na concorrência com empresas mais estruturadas, crises econômicas e instabilidade do mercado, perda de talentos e conhecimento, e a resistência interna à mudança. A combinação dessas análises permitiu uma compreensão holística da situação da IMAEV, delineando o caminho para a gestão profissionalizada.

A coleta de dados foi realizada de forma sistemática, utilizando o sistema CRM Agendor e relatórios financeiros integrados. Para estabelecer uma linha de base, foi feita uma análise retrospectiva do desempenho da empresa antes da profissionalização, especificamente em 2020, quando a gestão era predominantemente intuitiva. A partir de 2021, a coleta de dados tornou-se contínua e estruturada, com o CRM registrando informações detalhadas sobre o pipeline de vendas, o mix de produtos, o faturamento por categoria e o número de clientes ativos. Os relatórios financeiros, por sua vez, forneceram dados sobre rentabilidade e controle tributário. A metodologia de análise consistiu no acompanhamento de séries temporais, comparando o desempenho anual de 2021 a 2025 com a linha de base de 2020. Essa abordagem permitiu identificar tendências e avaliar o impacto das iniciativas de profissionalização ao longo do tempo. Buscou-se entender a correlação entre a padronização dos processos comerciais, a redistribuição de funções e o aumento do ticket médio e da produtividade interna. A análise qualitativa complementou os dados quantitativos, avaliando o nível de maturidade alcançado em cada pilar estratégico (Recursos Humanos, Produção, Comercial, Financeiro e Governança), por meio da observação de reuniões de gestão, documentação de novos processos e registros de treinamentos. O objetivo era garantir que a tomada de decisão passasse de reativa para proativa, orientada por dados e tendências históricas (Oliveira, 2002; Terence, 2002).

A profissionalização na IMAEV se desdobrou em fases distintas, refletindo um processo de evolução contínua da mudança organizacional, em vez de um cronograma linear (Seldin et al., 2000; Barreto et al., 2013). A primeira fase, de consolidação das bases de gestão, focou em limitar a dependência de atividades tácitas e introduzir previsibilidade nas rotinas. No campo de recursos humanos, uma análise da estrutura de cargos revelou sobreposição de funções e baixa padronização. Isso levou à substituição dos critérios de cargo, tarefa e progressão por um plano profissional baseado em expertise técnica. Embora a padronização de cargos na fábrica e o plano de carreira técnico tenham sido concluídos, ainda existem deficiências na avaliação de desempenho e na sistematização dos programas de treinamento. Na produção, o conhecimento acumulado sobre operação e qualidade, antes tácito, foi formalizado com a introdução de reuniões regulares de produção, realizadas duas vezes por semana, para monitorar necessidades, prioridades e entregas. Esse mecanismo transformou uma prática informal em uma observação estruturada das operações, com o objetivo de estabilizar o fluxo e rastrear demandas, conforme preconizado por Bornholdt (2005) para a governança eficaz.

A segunda fase, de estruturação dos pilares estratégicos, ampliou a profissionalização, integrando informações, tomada de decisão e desempenho organizacional, com maior ênfase nas áreas comercial e financeira. O pilar comercial foi o motor da transformação, com a empresa organizando suas informações de forma mais data-driven, rastreando indicadores e estruturando relacionamentos com clientes. A implementação do CRM Agendor e a estruturação de KPIs comerciais foram cruciais, proporcionando visibilidade sem precedentes sobre o pipeline de vendas e o mix de produtos. Essa mudança permitiu uma compreensão aprimorada do processo de vendas e da atividade do portfólio, servindo como trampolim para a análise de gestão de desempenho comercial, alinhando-se com a necessidade de digitalização do mercado e novas tecnologias (Wagner III e Hollenbeck, 2010).

Os resultados quantitativos evidenciam o impacto dessas transformações. O faturamento anual total da IMAEV cresceu de 1.786.320 reais em 2021 para uma projeção de 2.320.536 reais em 2025. Esse aumento, especialmente notável entre 2024 (1.914.902 reais) e 2025, demonstra a eficácia da organização dos processos comerciais e da análise de rentabilidade por categoria em elevar o patamar competitivo da empresa. Antes de 2023, a ausência de categorização de produtos dificultava a análise de margem. A partir de 2023, com a introdução das categorias PEÇA, REFORMA, ITEM e EQUIPAMENTO, foi possível identificar quais linhas de produtos apresentavam maior lucratividade e valor agregado. Por exemplo, em 2025, a categoria EQUIPAMENTO contribuiu com 1.822.873 reais para o faturamento total, enquanto PEÇA, REFORMA e ITEM contribuíram com 155.863 reais, 15.789 reais e 326.012 reais, respectivamente. Essa categorização permitiu decisões estratégicas mais informadas sobre o portfólio (Oliveira, 2002).

O ticket médio por categoria também apresentou variações significativas, refletindo a otimização da estratégia de vendas e precificação. Para PEÇA, o ticket médio foi de 3.429 reais em 2023, 2.669 reais em 2024 e 3.890 reais em 2025. REFORMA registrou 7.561 reais em 2023, 7.795 reais em 2024 e 5.615 reais em 2025. ITEM teve 7.944 reais em 2023, 8.774 reais em 2024 e 11.042 reais em 2025. EQUIPAMENTO, com o maior ticket médio, alcançou 33.859 reais em 2023, 30.087 reais em 2024 e 34.120 reais em 2025. O aumento do ticket médio para ITEM e EQUIPAMENTO em 2025 sugere a capacidade da empresa de capturar oportunidades com maior valor agregado, um indicativo de maior maturidade comercial (Davis, 2020). A evolução do número de clientes ativos também é um indicador crucial da saúde do negócio. Embora não houvesse dados estruturados para 2021 e 2022, a partir de 2023, a empresa registrou 71 clientes ativos, subindo para 73 em 2024 e 78 em 2025. Esse aumento gradual, ainda que modesto, demonstra a capacidade da IMAEV de reter e atrair novos clientes em um ambiente de gestão profissionalizado, essencial para a escalabilidade (Dau, 2021).

No pilar financeiro, o desenvolvimento de categorias analíticas para os itens vendidos foi um avanço relevante. A categorização profunda do portfólio permitiu identificar linhas de produtos com maior lucratividade e valor agregado, auxiliando na reavaliação estratégica. A empresa passou a analisar a composição das vendas e a qualidade econômica juntamente com a receita, reduzindo riscos fiscais e legais e aumentando a conformidade administrativa. A análise de rentabilidade por categoria e o controle tributário estão em andamento, consolidando uma visão mais rica da sustentabilidade financeira. Durante essa fase, também foram incentivadas mudanças organizacionais internas, como a transferência de funções e a reescrita de cargos, visando aumentar a produtividade, alinhar-se com o momento atual da empresa e eliminar desperdícios.

A terceira fase, de avaliação, escala e institucionalização, concentra-se na consolidação das melhorias e na sustentação das mudanças. No eixo de governança e liderança, o processo de sucessão familiar foi concluído com sucesso, representando um marco definitivo de maturidade institucional. A redefinição de papéis e a redistribuição de funções garantiram que a IMAEV não dependesse mais da presença física ou da memória individual dos fundadores, estabelecendo uma instituição regida por métodos replicáveis (Leone, 2005; Oliveira, 2006). A liderança atual, concentrada entre os sucessores, possui uma cadeia de tarefas mais clara, com atividades estratégicas e operacionais separadas. Contudo, desafios persistem na implementação de uma cultura de feedback, avaliação de desempenho e adoção de práticas de liderança harmoniosas. Treinamentos de liderança externa e a implementação de uma cultura de feedback estão planejados, visando a institucionalização de uma lógica organizacional estável e reproduzível (Barreto et al., 2013).

Uma limitação do estudo reside na fase de consolidação da taxa de conversão, que, devido ao longo ciclo de projetos industriais, exige monitoramento de longo prazo para evitar distorções sazonais. Pesquisas futuras poderiam aprofundar a análise da correlação entre a taxa de conversão e o ciclo de vendas, bem como explorar a eficácia de programas de treinamento de liderança e cultura de feedback em empresas familiares do setor industrial. Além disso, a avaliação do impacto da profissionalização em métricas de satisfação do cliente e engajamento dos funcionários poderia fornecer uma visão mais holística dos benefícios da transformação. A análise da resistência à mudança interna, identificada como uma ameaça na análise SWOT, também poderia ser um foco para estudos futuros, investigando estratégias eficazes para mitigar tais desafios em contextos de profissionalização (Seldin et al., 2000). O plano de monitoramento contínuo estabelecido inclui acompanhamento mensal de KPIs comerciais e financeiros para identificar desvios, revisões trimestrais para auditoria interna dos processos de RH e Produção, e a definição de responsabilidades claras para a liderança comercial e a direção geral, garantindo a integração estratégica entre os pilares.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a profissionalização da gestão é um pilar fundamental para a sustentabilidade e a perenidade de empresas familiares no setor industrial. A transição de um modelo baseado em conhecimento tácito para uma administração orientada por processos e dados não apenas mitigou riscos sucessórios, mas também atuou como um catalisador de eficiência e crescimento econômico. A área comercial serviu como motor de transformação, com a implementação do CRM e a estruturação de KPIs proporcionando visibilidade sem precedentes sobre o pipeline de vendas e o mix de produtos. O crescimento do faturamento total de 1,78 milhão de reais em 2021 para 2,32 milhões de reais em 2025 é uma prova quantitativa da elevação do patamar competitivo da empresa. No âmbito da governança, a conclusão bem-sucedida do processo de sucessão familiar, com a redefinição de papéis e a redistribuição de funções, garantiu que a IMAEV deixasse de ser dependente da presença física ou da memória individual de seus fundadores. A redução do passivo tributário e a padronização das rotinas fabris complementam essa estrutura, conferindo à nova liderança uma base sólida para a expansão futura. A profissionalização não deve ser encarada como um destino final, mas como uma disciplina contínua de melhoria operacional, apta a escalar operações e enfrentar os desafios do mercado de automação industrial com uma estrutura administrativa resiliente e preparada para as próximas gerações.

Referências Bibliográficas:

Barreto, Leilianne M.T.S. et al. Cultura organizacional e liderança: uma relação possível? R. Adm., São Paulo, v. 48, n. 1, p. 34-52, 2013

Bernhoeft, R. Empresa familiar: desvendando competências, racionalidades e afetos. São Paulo. Editora Atlas. 2010

Bornholdt, Werner. Governança na empresa familiar: Implementação e prática. São Paulo: Bookman, 2005.

Dau, Gabriel. Empresa familiar: como profissionalizar o negócio da família. Jun. 2021. Disponível em: https://www.jornalcontabil.com.br/empresa-familiar-como-profissionalizar-o-negocio-da-familia/. Acesso em: 10 de outubro de 2023.

Davis, John A. Profissionalizando a empresa familiar: não é o que se pensa. Mar. 2020. Disponível em: https://cfeg.com/wp-content/uploads/2020/03/JDavis-Profissionalizando-a-Empresa-Familiar-20200324-1.pdf. Acesso em: 11 de outubro de 2023.

Leone, Nilda Maria. Sucessão na empresa familiar: Preparando as mudanças para garantir sobrevivência no mercado globalizado. São Paulo, Atlas, 2005.

Oliveira, D. P. R. Planejamento Estratégico. São Paulo: Atlas, 2002.

Oliveira, Djalma de Pinho Rebouças. Empresa familiar: Como fortalecer o empreendimento e otimizar o processo sucessório. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2006.

Ribeiro, Humberto Moura. Profissionalização e sucessão nas empresas familiares. 2013

Robbins, Stephen. Comportamento Organizacional. 11. ed. São Paulo: Pearson Education, 2005.

Seldin, Renata; RAINHO, Maria Alice Ferruccio; CAULLIRAUX, Heitor Mansur. O Papel da Cultura Organizacional na Implantação de Sistemas Integrados de Gestão: uma abordagem sobre resistência a mudanças. 2000.

Terence, A. C. F. Planejamento estratégico na pequena empresa como ferramenta de competitividade: desenvolvimento e avaliação de um roteiro prático para o processo de elaboração do planejamento. 210p. Dissertação (Mestrado) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2002

Wagner III, John A.; Hollenbeck, John R. II. Comportamento Organizacional: criando vantagem competitiva. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2010.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Executivo em Liderança e Gestão do MBA USP/Esalq

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