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18 de junho de 2026
Liderança servidora: cultura de segurança e zero acidentes industriais
Fernando Brunner; Ewerton Mauro Visotto Faria
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A segurança do trabalho representa um pilar fundamental para a sustentabilidade operacional e o bem-estar dos colaboradores em ambientes industriais, sendo compreendida como um conjunto de medidas proativas destinadas a minimizar acidentes, prevenir doenças ocupacionais e salvaguardar a integridade física e mental dos trabalhadores. No cenário global, o tema tem ganhado crescente relevância, impulsionado por uma legislação trabalhista cada vez mais robusta, avanços tecnológicos e uma maior conscientização sobre a importância de ambientes laborais seguros, conforme apontado por Barbosa Filho (2007) e Filgueiras (2017). Contudo, apesar desses progressos, os desafios persistem, com impactos financeiros e sociais significativos. O Observatório Digital de Segurança e Saúde no Trabalho (ODSST, 2025) revelou que, em 2024, o Brasil registrou a concessão de 180,3 mil auxílios-doença por acidentes de trabalho, gerando um custo de R$ 354,7 milhões. Adicionalmente, uma pesquisa do SEST/SENAT (2023) estimou que os custos médios de um acidente de trabalho podem alcançar R$ 400 mil, englobando não apenas despesas diretas, mas também custos indiretos como a perda de produtividade, danos à imagem corporativa e a necessidade de treinamento de novos funcionários.
Diante desse panorama, as organizações têm reconhecido a cultura de segurança como um diferencial estratégico, capaz de otimizar a gestão operacional e controlar custos (Demir e Guneri, 2018). Para monitorar e aprimorar essa cultura, a análise e o acompanhamento de métricas de segurança, como a Taxa de Incidentes Reportáveis (TRIR), são essenciais. A TRIR, conforme a Administração de Segurança e Saúde Ocupacional americana (OSHA), é um indicador crucial para medir a frequência de incidentes (Erkal e Hallowell, 2023; AIChE, 2022). A empresa objeto deste estudo, uma multinacional do setor de papel e celulose com 530 funcionários diretos e terceiros em sua unidade no interior de São Paulo, e mais de 5 mil colaboradores distribuídos em outras dez unidades fabris no Brasil, posiciona a segurança como um de seus quatro valores essenciais. A política interna da organização (Política de Valores Interna, 2025) enfatiza que “nada é tão importante que não possa ser feito com segurança”, reforçando a necessidade de uma cultura proativa.
Nesse contexto, a pergunta de pesquisa que norteou o estudo foi: como reduzir o número de incidentes e criar uma cultura de segurança do trabalho por meio de uma liderança servidora em uma empresa do segmento industrial? O objetivo central consistiu em analisar como a cultura de segurança, fomentada pela liderança servidora, pode efetivamente reduzir o número de incidentes. A relevância desta análise reside nos impactos multifacetados da redução de incidentes, que abrangem desde a plenitude física dos funcionários e a criação de um ambiente laboral mais agradável até o aumento da produtividade e a diminuição de transtornos administrativos (De Sousa e Rodolpho, 2020). Além disso, a aplicabilidade estratégica do modelo proposto é notável, permitindo sua replicação para outras unidades de negócio da organização. A segurança, vista como um valor estratégico, alinha-se diretamente com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de número oito da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU, 2025), que visa “promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos”.
A liderança servidora, conceito central neste estudo, tem suas raízes na obra “The Servant as Leader” de Greenleaf (1977). O autor descreve o líder servidor como alguém motivado a servir sua equipe, transcendendo interesses pessoais e incorporando responsabilidade social e atenção às necessidades dos liderados (Patterson, 2003). Esse modelo de liderança se diferencia por sua ênfase na empatia, na escuta ativa e no compromisso com o desenvolvimento das pessoas. Spears (1995) foi um dos primeiros a traduzir as ideias de Greenleaf em dez características essenciais: ouvir, empatia, cura, consciência, persuasão, conceituação, previsão, administração, compromisso com o crescimento das pessoas e construção de comunidade (Dias e Moraes, 2020). Essas características delineiam um líder que atua como agente de transformação, priorizando o bem-estar e o desenvolvimento de seus liderados e do ambiente de trabalho. Outros modelos, como o de Laub (1999), que desenvolveu um instrumento para medir a liderança servidora em seis fatores (valorização das pessoas, desenvolvimento das pessoas, construção da comunidade, autenticidade, proporcionar liderança e compartilhar liderança), e o de Russell e Stone (2002), que a segmentaram em atributos funcionais e acompanhantes, também contribuem para a compreensão e mensuração desse construto, reforçando a importância da liderança servidora como um catalisador para uma cultura de segurança robusta (Van Dierendonck, 2011; Wong e Davey, 2007).
O estudo foi conduzido como um Business Case, de natureza descritiva e exploratória, focado na unidade industrial de uma multinacional do setor de papel e celulose localizada no interior de São Paulo, Brasil. Esta unidade emprega 530 funcionários, entre diretos e terceiros, e faz parte de uma organização maior com mais de 5 mil funcionários em dez unidades fabris no país. O período de análise abrangeu os anos de 2020 a 2025, com ênfase na comparação dos resultados de segurança e engajamento entre 2024 e 2025, após a implementação das intervenções.
A amostra para a coleta de dados quantitativos incluiu todos os incidentes registrados e as horas trabalhadas na unidade para o cálculo da TRIR, bem como a totalidade dos funcionários envolvidos em atividades preventivas para a determinação da taxa de engajamento. Para a coleta de dados qualitativos, foi realizada uma pesquisa com um grupo amostral aleatório de 64 respondentes, o que correspondeu a 16,8% do total de colaboradores da unidade.
Diversos instrumentos foram empregados para a coleta e análise dos dados. Registros internos da empresa forneceram os dados históricos da TRIR e das taxas de engajamento em segurança. Para a análise das causas dos acidentes, utilizou-se o Diagrama de Ishikawa, uma ferramenta gráfica que permite identificar e categorizar os fatores contribuintes para um problema específico (Miguel, 2001). A Matriz de Esforço e Impacto (Pyzdek, 2010) foi aplicada para priorizar os fatores identificados, avaliando o retorno potencial em relação aos recursos investidos. A Matriz de Decisão (Kotler, 2012), baseada na escala de Likert de 1 a 5 (Rozenfeld, 2006), foi utilizada para quantificar e classificar as contramedidas propostas em relação a critérios como impacto, esforço, custo, cultura e comportamento. Por fim, o Plano de Ação 5W2H (Falconi, 2013) foi empregado para estruturar as ações estratégicas, detalhando o que, por que, onde, quem, quando, como e quanto custa cada tarefa. Um formulário online, com 12 perguntas em escala Likert, foi o instrumento para a pesquisa qualitativa, comparando as percepções dos funcionários sobre a segurança e a liderança entre 2024 e 2025.
O processo de coleta de dados seguiu uma sequência estruturada. Inicialmente, foram levantados os dados históricos da TRIR e das taxas de engajamento em segurança dos anos de 2020 a 2024 a partir dos bancos de dados internos da empresa. Em seguida, foram realizadas reuniões com membros da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e a liderança para a aplicação colaborativa do Diagrama de Ishikawa. Nessas sessões, foram identificados e categorizados os fatores contribuintes para os acidentes de trabalho, abrangendo aspectos psicossociais, características pessoais, agentes materiais, ambiente de trabalho e métodos. Posteriormente, a Matriz de Esforço e Impacto foi aplicada para priorizar esses fatores, permitindo que a equipe se concentrasse nas soluções de maior retorno. Com base nessa priorização, foram formuladas contramedidas específicas, as quais foram avaliadas por meio da Matriz de Decisão. Cada contramedida recebeu uma pontuação em uma escala de Likert de 1 a 5, considerando seu impacto, esforço, custo, alinhamento cultural e potencial de mudança comportamental, conforme a metodologia de Rozenfeld (2006). As contramedidas com as maiores pontuações foram então detalhadas no Plano de Ação 5W2H, que especificou as responsabilidades, prazos e custos para cada atividade, garantindo clareza na execução (Falconi, 2013). Após a implementação do modelo de liderança servidora e das ações planejadas ao longo de 2025, novos dados de TRIR e engajamento foram coletados. Finalmente, a pesquisa de percepção foi aplicada aos 64 funcionários, e os resultados foram compilados para análise.
Os métodos de análise incluíram a avaliação quantitativa da TRIR, calculada como o número de incidentes reportáveis por 200 mil horas trabalhadas, e a taxa percentual de engajamento dos funcionários em atividades preventivas de segurança. A análise qualitativa dos resultados do Diagrama de Ishikawa e da Matriz de Esforço e Impacto permitiu a identificação das causas-raiz dos acidentes e a priorização das intervenções. A Matriz de Decisão foi analisada estatisticamente para ranquear as contramedidas. Os resultados da pesquisa de percepção foram submetidos a uma análise estatística descritiva, calculando as médias das pontuações de Likert para cada pergunta, o que permitiu avaliar as mudanças na percepção dos funcionários sobre a cultura de segurança e a eficácia da liderança entre os anos de 2024 e 2025.
Os dados coletados revelaram uma trajetória de segurança que culminou em resultados expressivos. A Taxa de Incidentes Reportáveis (TRIR), que apresentava uma tendência de crescimento nos anos anteriores, com um valor de 2,26 em 2024, indicando a ocorrência de dois a três acidentes a cada 200 mil horas trabalhadas, foi reduzida drasticamente para 0,0 em 2025. Essa erradicação de acidentes reportáveis representa uma transformação significativa, alinhando-se com a política de valores interna da empresa (Política de Valores Interna, 2025) que prioriza a segurança acima de tudo. Atingir zero incidentes demonstra a eficácia da transição de um modelo reativo para uma cultura de segurança proativa, superando as taxas de acidentes frequentemente observadas no setor industrial (Souza, 2021; Utama, 2020).
Paralelamente à redução da TRIR, o engajamento dos colaboradores em atividades preventivas de segurança também demonstrou um aumento notável. No primeiro semestre de 2024, a taxa de engajamento era de 65,85%, subindo para 87,50% no primeiro semestre de 2025 e alcançando 89,65% no segundo semestre de 2025, o que representa um aumento de 32,8% em comparação com o primeiro semestre de ambos os anos. Esse incremento na participação em inspeções de segurança, relatos de situações de risco, envolvimento na CIPA e análises pré-tarefa reflete uma maior conscientização e proatividade dos funcionários. Tal engajamento é um indicativo direto da eficácia da liderança servidora em fomentar um ambiente onde os colaboradores se sentem valorizados e responsáveis pela segurança, um aspecto crucial para a gestão eficiente de operações e controle de custos (Demir e Guneri, 2018).
Do ponto de vista financeiro, a implementação do modelo de liderança servidora resultou em uma economia substancial. Estima-se um cost avoidance de R$ 8,4 milhões em 2025, considerando a referência do SEST/SENAT (2023) sobre os custos médios de acidentes e as 160 mil horas trabalhadas por mês. Esse valor supera significativamente o investimento de R$ 276 mil no projeto, demonstrando que a segurança do trabalho, quando tratada como um valor estratégico, gera retornos financeiros robustos, além de benefícios intangíveis como a melhoria da reputação da empresa e a retenção de talentos (Junior, 2022).
A pesquisa qualitativa, realizada com 64 respondentes, corroborou os resultados quantitativos, com uma pontuação média de 3,9 na escala Likert, indicando um forte “Concordo” geral com as melhorias percebidas. As perguntas com maior pontuação, ambas com 4,1, foram: “Em comparação com o ano anterior (2024), a segurança é percebida como uma prioridade mais alta e mais visível na minha área de trabalho em 2025” e “Em 2025, sinto-me à vontade para relatar riscos, incidentes ou quase-acidentes sem medo de represálias”. Esses resultados evidenciam que a liderança servidora, ao adotar características como empatia, escuta ativa e compromisso com o crescimento das pessoas (Spears, 1995; Dias e Moraes, 2020), conseguiu quebrar a distância entre gestores e liderados, criando um ambiente de maior confiança e abertura para o relato de riscos. A percepção de maior prioridade da segurança reflete a internalização dos valores organizacionais, conforme a definição de cultura de segurança da AIEA (1991).
A aplicação do Diagrama de Ishikawa (Miguel, 2001) foi fundamental para identificar os fatores contribuintes para os acidentes de trabalho, categorizando-os em psicossociais, pessoais, materiais, ambientais e de método. Fatores como “liderança distante”, “atitudes inseguras” e “ferramentas adaptadas ou ausentes” foram identificados como de alto impacto. A Matriz de Esforço e Impacto (Pyzdek, 2010) permitiu priorizar esses fatores, direcionando as contramedidas para as áreas de maior retorno. A identificação da “liderança distante” como um fator crítico reforçou a necessidade de implementar o modelo de liderança servidora, que promove a proximidade e a participação ativa dos líderes nas atividades dos colaboradores. As contramedidas, como a estruturação de rotinas de gemba walk e a criação de campanhas de segurança mensais, foram desenvolvidas para abordar esses fatores de forma sistemática, conforme detalhado no plano de ação 5W2H (Falconi, 2013).
Apesar dos resultados promissores, o estudo possui algumas limitações. A análise foi restrita a uma única unidade industrial, o que pode afetar a generalização irrestrita dos achados para outros contextos industriais sem adaptações. Embora a amostra da pesquisa qualitativa (16,8% dos funcionários) seja representativa, uma amostra maior poderia fortalecer a robustez estatística dos resultados. Para pesquisas futuras, sugere-se a replicação deste modelo em outras unidades da multinacional para validar sua adaptabilidade e eficácia em diferentes cenários. Adicionalmente, seria valioso investigar os efeitos de longo prazo da liderança servidora na manutenção da cultura de segurança e na redução contínua de incidentes. Outras pesquisas poderiam explorar a relação entre a liderança servidora e métricas de bem-estar psicológico dos funcionários, bem como a retenção de talentos, para quantificar os benefícios intangíveis de uma cultura de segurança robusta.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a implementação da liderança servidora como estratégia central para a consolidação de uma cultura de segurança proativa resultou na erradicação de acidentes reportáveis (TRIR em 0,0) e em um aumento de 32,8% no engajamento dos colaboradores em atividades preventivas. Essa transformação gerou um cost avoidance estimado em R$ 8,4 milhões, consolidando a segurança do trabalho não apenas como uma obrigação legal, mas como um valor estratégico que promoveu a sustentabilidade operacional, o fortalecimento da marca e o alinhamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU para 2030.
Referências Bibliográficas:
BARBOSA FILHO, A. N. 2007. Segurança do Trabalho & Gestão Ambiental. 4. ed. São Paulo: Atlas.
DEMIR, P.; GUL, M.; GUNERI, A. F. 2018. Evaluating occupational health and safety service quality by SERVQUAL: a field survey study. Total Quality Management & Business Excellence, p. 1-18.
ERKAL, E. D. O.; HALLOWELL, M. 2023. Moving beyond TRIR: measuring & monitoring safety performance with high-energy control assessments. Professional Safety, v. 68, n. 5, p. 26-35.
FILGUEIRAS, V. A. 2017. Saúde e segurança do trabalho no Brasil. Brasília: Editora local, p. 19-78.
OBSERVATÓRIO DIGITAL DE SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO [ODSST]. [s.d.]. São Paulo: MPT/OIT. Disponível em: https://smartlabbr.org/sst/. Acesso em: 26 jul. 2025.
SEST/SENAT. 2023. Acidentes de trabalho: saiba como calcular os custos e evite problemas. Disponível em: https://www.sestsenat.org.br/. Acesso em: 15 jul. 2025.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Executivo em Liderança e Gestão do MBA USP/Esalq
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