11 de maio de 2026
Gestão da Qualidade e PDCA no Gerenciamento de Áreas Contaminadas
Narubia Gonçalves; Vanderléia de Souza da Silva
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
As áreas contaminadas representam locais onde a introdução de substâncias químicas resultou em concentrações capazes de gerar danos severos à saúde humana, aos recursos naturais e à qualidade ambiental de forma ampla (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo [CETESB], 2025). A Política Nacional do Meio Ambiente estabelece diretrizes para a preservação e recuperação da qualidade ambiental, reforçando que a gestão desses passivos é uma obrigação legal e social (Brasil, 1981). No cenário brasileiro, o Gerenciamento de Áreas Contaminadas é rigorosamente regulamentado pela Resolução CONAMA 420/2009, que define critérios e valores orientadores para a qualidade do solo e águas subterrâneas. Especificamente no estado de São Paulo, a fiscalização conduzida pela agência ambiental registrava, até agosto de 2025, um total de 6.946 áreas sob acompanhamento, das quais apenas 2.440 haviam atingido o status de reabilitadas para o uso declarado, enquanto 4.506 permaneciam em diferentes etapas do processo de remediação ou investigação (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo [CETESB], 2025). A complexidade inerente a esses projetos exige uma abordagem metodológica sequencial e rigorosa, onde cada fase técnica subsidia as decisões da etapa posterior. A reabilitação efetiva de um terreno depende diretamente de práticas consistentes de gestão, uma vez que a ausência de um gerenciamento da qualidade robusto compromete não apenas os custos operacionais e os prazos contratuais, mas também a integridade dos dados que fundamentam a segurança das pessoas expostas (Juran e DeFeo, 2015). Diferente do ambiente corporativo tradicional, onde a falha é medida primordialmente em termos de lucro e despesa, no contexto ambiental a falha traduz-se em passivos sociais e ecológicos de longo prazo, tornando o gerenciamento da qualidade indispensável para assegurar a conformidade legal e a proteção do ecossistema. A estrutura oferecida pela gestão de projetos moderna permite planejar, monitorar e controlar requisitos de forma a garantir entregas técnicas confiáveis e rastreáveis (Project Management Institute [PMI], 2023). Entretanto, observa-se que os projetos de recuperação ambiental ainda enfrentam lacunas significativas no que tange à padronização de processos, à rastreabilidade de informações de campo e à capacitação contínua das equipes envolvidas.
A fundamentação teórica para a melhoria desses processos baseia-se no ciclo de melhoria contínua, que organiza as ações em quatro etapas fundamentais para a maturidade organizacional. O objetivo central reside na identificação de práticas de gerenciamento da qualidade que possam ser aplicadas ao setor ambiental, analisando as falhas existentes a partir de uma base de dados real e propondo um plano estruturado que integre as exigências técnicas às boas práticas de gestão. Para tanto, a metodologia adotada caracteriza-se como um estudo de caso de natureza aplicada, com abordagem mista que combina dados quantitativos e qualitativos de caráter descritivo. O procedimento metodológico foi dividido em três frentes principais de investigação. A primeira consistiu em um levantamento de campo realizado entre maio e junho de 2025, por meio de um questionário eletrônico divulgado em fóruns técnicos especializados, obtendo 117 respostas válidas de gestores, consultores e técnicos de campo. A segunda frente envolveu a observação participativa em uma empresa multinacional com atuação em projetos de infraestrutura, energia e planejamento urbano, ocorrida no período de maio de 2024 a agosto de 2025. A terceira frente baseou-se em uma pesquisa documental exaustiva em normas técnicas, legislações vigentes e literatura especializada em gestão de projetos.
Na fase de planejamento do diagnóstico inicial, foram analisadas as legislações e normas técnicas diretamente relacionadas ao setor para identificar os requisitos aplicáveis em cada etapa operacional, como a instalação de poços de monitoramento e a coleta de amostras de solo. Essa sistematização organizou os requisitos legais obrigatórios, integrando-os às diretrizes do guia de processos de gerenciamento de projetos (Project Management Institute [PMI], 2021). A observação participativa permitiu acompanhar diferentes equipes e processos de escritório, revelando que, embora existissem diretrizes corporativas globais, a aplicação prática era inconsistente e muitas vezes desconectada das particularidades técnicas do gerenciamento ambiental. As observações foram sintetizadas em um diagrama de causa e efeito, agrupando as falhas em cinco dimensões críticas: métodos, pessoal, ferramentas, dados e execução de campo. Para validar as causas levantadas, realizou-se uma sessão de debate com a equipe técnica, permitindo confrontar as percepções individuais e refinar os pontos de vulnerabilidade do processo. O questionário aplicado aos 117 profissionais serviu para validar estatisticamente essas percepções, abordando dificuldades enfrentadas e a frequência de uso de ferramentas de controle. As respostas foram tratadas qualitativamente para identificar temas recorrentes e quantitativamente por meio de análise de frequência.
A partir do diagnóstico consolidado, elaborou-se um plano de ação preliminar utilizando a técnica de planejamento que define o que será feito, a justificativa, o local, o cronograma, os responsáveis, o método de execução e o custo estimado. Na etapa de execução desse plano, as medidas corretivas e preventivas foram implementadas de forma articulada. Como ferramenta central de gestão, adotou-se um software de organização de tarefas estruturado em quadros visuais alinhados aos grupos de processos de iniciação, planejamento, execução, monitoramento e encerramento. Para padronizar a documentação, foram desenvolvidos checklists de referência para atividades críticas. No âmbito da gestão de dados, estruturou-se um protocolo de fluxo de informação que abrange desde a entrada dos dados brutos de campo até o arquivamento final do projeto. A capacitação da equipe foi promovida por meio de treinamentos técnicos e da elaboração de guias operacionais passo a passo, garantindo que o conhecimento fosse disseminado e registrado como lições aprendidas. Cada ação foi monitorada em reuniões diárias, onde se analisava a aderência da equipe ao novo modelo de trabalho e o cumprimento dos prazos estabelecidos.
O monitoramento sistemático permitiu avaliar a eficácia das ações implementadas. Durante as reuniões de acompanhamento, registravam-se feedbacks que serviam para ajustar processos que se mostravam excessivamente burocráticos ou de difícil execução em campo. As verificações demonstraram avanços na padronização dos métodos e uma redução sensível nas falhas de registro de dados. Na fase final do ciclo de gestão, consolidaram-se as lições aprendidas e formalizou-se o Plano de Gerenciamento da Qualidade, que passou a reunir todas as diretrizes, métricas e responsabilidades. Esse documento tornou-se a referência oficial para novos projetos, garantindo que a lógica de melhoria contínua fosse incorporada à cultura organizacional. A análise dos dados coletados via questionário revelou que a amostra de respondentes era composta majoritariamente por analistas ambientais, representando 38,5% do total, seguidos por cargos de liderança como gerentes e coordenadores, que somavam 29,9%. Em termos de experiência, 37,6% dos profissionais possuíam mais de 10 anos de atuação no setor, enquanto 38,5% tinham menos de seis anos, indicando um cenário onde profissionais experientes convivem com uma parcela significativa de técnicos em fase de consolidação de conhecimento.
O diagnóstico detalhado pelo diagrama de causa e efeito evidenciou que a ausência de uma metodologia estruturada de gestão de projetos é o ponto mais crítico para a qualidade. Sem uma condução organizada das fases do projeto, perde-se a clareza sobre as entregas, resultando em falta de padronização e uso limitado de ferramentas de apoio. Esse cenário reflete uma baixa maturidade em gestão de projetos no setor ambiental, visto que o alcance da maturidade organizacional requer a adoção de ações consistentes e o desenvolvimento de competências em múltiplas instâncias (Rabechini Junior e Pessôa, 2005). Os resultados do questionário confirmaram essa percepção, mostrando que os controles de qualidade mais frequentes restringem-se a instrumentos básicos, como checklists e auditorias ocasionais, enquanto o planejamento específico de qualidade e sistemas formais de gestão aparecem em apenas uma parcela reduzida dos projetos. Os principais obstáculos apontados pelos profissionais foram os prazos reduzidos, orçamentos limitados e a falta de padronização de processos, o que corrobora as fragilidades identificadas na observação participativa.
Além dos fatores internos, a análise das respostas abertas expôs um fator sistêmico relevante: a pressão exercida pela lógica de mercado e a baixa fiscalização regulatória. Muitas vezes, propostas tecnicamente mais robustas perdem espaço para concorrentes de menor custo, que operam com escopos insuficientes para garantir a qualidade integral do gerenciamento. A fragilidade na atuação de alguns órgãos fiscalizadores contribui para a manutenção desse cenário, pois o mercado tende a responder na medida da exigência legal imposta. Portanto, o fortalecimento da fiscalização e a conscientização dos clientes sobre a relação direta entre investimento em gestão e redução de riscos são dimensões críticas para elevar o patamar dos projetos de remediação. Para enfrentar essas causas, o plano de ação focou na implantação de uma metodologia de gestão que trouxesse consistência e previsibilidade. A adoção de ferramentas digitais para o registro fotográfico georreferenciado em campo ampliou a rastreabilidade e a clareza das informações coletadas. O uso de aplicativos com leitor de arquivos georreferenciados permitiu a navegação offline em campo, facilitando a localização exata dos pontos de amostragem e reduzindo erros de posicionamento.
No escritório, a utilização de softwares de sistemas de informação geográfica foi fundamental para o tratamento e análise de dados, permitindo a elaboração de figuras preliminares com maior precisão. Esses benefícios estão em consonância com estudos que demonstram que a aplicação de ferramentas de geoprocessamento em projetos de áreas contaminadas gera maior eficiência na gestão das informações e rapidez na assimilação dos dados pela equipe técnica (Silva e Giacheti, 2025). No que tange à dimensão de pessoal, a clareza nas atribuições individuais proporcionada pela ferramenta de gestão de tarefas permitiu definir responsabilidades e prazos de forma transparente, favorecendo a comunicação interna. A implementação de modelos de feedback para as equipes de campo promoveu rotinas mais consistentes, complementadas por oficinas práticas e guias visuais para a execução de ensaios técnicos, como o slug test, reduzindo a variabilidade na execução das atividades.
A gestão das partes interessadas também se mostrou um componente vital para a qualidade. O mapeamento identificou atores internos e externos, incluindo clientes, órgãos reguladores, laboratórios de análises químicas, fornecedores e a comunidade local. Cada projeto apresenta particularidades: em alguns casos, o ocupante atual da área não é o responsável pela contaminação, o que exige estratégias de comunicação diferenciadas. O papel da comunidade local é especialmente sensível, pois, embora os dados sobre áreas contaminadas sejam públicos, a população muitas vezes desconhece a situação de vizinhança. Quando sensibilizada, a comunidade pode exercer influência significativa no andamento do projeto por meio de mobilizações sociais ou denúncias. O sucesso de um projeto não depende apenas de processos técnicos, mas da capacidade de engajar esses atores e administrar conflitos potenciais (Carvalho, 2018). No contexto ambiental, essa competência é crítica devido ao elevado impacto social e regulatório envolvido.
A análise crítica indica que áreas contaminadas complexas demandam modelos adaptativos de gestão, com metas intermediárias e revisões constantes à medida que o conhecimento sobre o subsolo evolui (Linquevis et al., 2025). A transformação de requisitos e expectativas em critérios objetivos de medição reforça o papel da gestão da qualidade como elemento integrador da entrega de valor. Durante a aplicação prática, observou-se que a equipe promoveu ajustes na organização das ferramentas de gestão, criando espaços específicos para a etapa de pré-campo, tratando-a como uma entrega formal do projeto. Isso evitou atrasos logísticos e garantiu que todos os equipamentos e insumos estivessem disponíveis para as campanhas de investigação. O protocolo de gestão de dados incluiu checklists de entrada e encerramento, assegurando que todas as informações fossem conferidas e armazenadas corretamente em repositórios compartilhados. Embora os dashboards de indicadores de desempenho ainda estivessem em fase de desenvolvimento, a capacitação da equipe em ferramentas de análise de dados demonstrou a continuidade do processo de amadurecimento organizacional.
A padronização do diário de campo garantiu que informações relevantes fossem registradas de forma sistemática, facilitando o acompanhamento remoto das atividades pelo escritório. Em um episódio específico, falhas consecutivas de um laboratório externo resultaram na perda de prazos de validade de amostras, o que foi tratado por meio de um plano de ação específico aprovado pelo cliente, solucionando a ocorrência e evitando novos prejuízos. A centralização de todos os instrumentos de apoio em uma estrutura de arquivos única garantiu acesso rápido e facilidade de consulta durante as reuniões de coordenação. A melhoria contínua é assegurada pela atualização periódica do plano de qualidade após a implementação de ajustes sugeridos pela equipe técnica. Os resultados confirmaram a efetividade das medidas propostas, indicando que a padronização e o uso de ferramentas de apoio são o caminho para reduzir retrabalhos e elevar a confiabilidade técnica das investigações ambientais.
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar as lacunas na gestão da qualidade e propor um plano estruturado que elevou a maturidade da equipe e a rastreabilidade dos dados em projetos de gerenciamento de áreas contaminadas. A análise evidenciou que falhas em métodos e ferramentas podem ser mitigadas através da aplicação rigorosa do ciclo de melhoria contínua e da padronização de processos operacionais. A implementação das ações demonstrou ser eficaz para aumentar a integração entre as equipes de campo e escritório, reduzir erros de registro e assegurar a conformidade com os requisitos legais e normativos. A adoção de ferramentas digitais e protocolos de dados robustos constitui uma base replicável para diferentes contextos organizacionais no setor ambiental. Recomenda-se que estudos futuros explorem a integração total de indicadores de desempenho em tempo real, ampliando a robustez da gestão e consolidando o gerenciamento de áreas contaminadas como uma prática científica conduzida com rigor e foco na qualidade socioambiental.
Referências Bibliográficas:
Brasil. 1981. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2 set. 1981. Seção 1, p. 17.
Carvalho, M.M. 2018. Fundamentos em gestão de projetos: construindo competências para gerenciar projetos. 5ed. Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-book. p. xvi. ISBN 9788597018950. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788597018950/. Acesso em: 9 ago. 2025.
Companhia Ambiental do Estado de São Paulo [CETESB]. 2025. Manual de gerenciamento de áreas contaminadas. Disponível em: https://cetesb.sp.gov.br/areas-contaminadas/documentacao/manual-de-gerenciamento-de-areas-contaminadas/informacoes-gerais/apresentacao-2/. Acesso em: 6 ago. 2025.
Juran, J.M.; Defeo, J.A. 2015. Fundamentos da qualidade para líderes. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil. E-book. p. 35. ISBN 9788582603468. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788582603468/. Acesso em: 9 ago. 2025.
Linquevis, F.; Hart, S.; Lima, P.L. 2025. Gestão de áreas contaminadas complexas: especialistas analisam entraves técnicos, normativos e institucionais e apontam caminhos para o aprimoramento da gestão em contextos de alta complexidade. Revista GAC – Preservação e Recuperação Ambiental 1(1): 4-7.
Project Management Institute [PMI]. 2021. A guide to the project management body of knowledge (PMBOK® Guide). Project Management Institute, Newtown Square, PA, EUA.
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Rabechini Junior, R.; Pessôa, M.S.P. 2005. Um modelo estruturado de competências e maturidade em gerenciamento de projetos. Produção 15(1): 34-43. DOI: 10.1590/S0103-65132005000100004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/prod/a/PqMJhF9G9CGQWrCyDHdFP8Q/. Acesso em: 8 ago. 2025.
Silva, D.J.; Giacheti, H.L. 2025. Utilização de QGIS e QField no planejamento, execução, coleta de dados em campo e gerenciamento de projetos de áreas contaminadas. Revista GAC – Preservação e Recuperação Ambiental 1(1): 10-20.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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