11 de maio de 2026
Scrum em Times Multiculturais: Desafios e Benefícios
Natália Ariele Ignácio; Gabriela de Vasconcelos
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A capacidade de adaptação estabelece-se como uma habilidade essencial no cotidiano contemporâneo, tanto na esfera pessoal quanto na profissional. Métodos outrora consolidados tornam-se obsoletos com rapidez, cedendo espaço a novas abordagens que guardam consonância com a velocidade acelerada das transformações globais (Cancañón; Tovar, 2024). Tais adaptações são perceptíveis na própria descrição da realidade atual, que migrou de ambientes caracterizados como voláteis, incertos, complexos e ambíguos para uma configuração definida pela fragilidade, ansiedade, não linearidade e incompreensibilidade. Nesse cenário, os núcleos corporativos buscam modificar-se para promover o crescimento organizacional contínuo (Cancañón; Tovar, 2024). Para empresas que necessitam de processos definidos para aprimorar a dinâmica de equipes e gerar valor, surge um contraste nítido entre as metodologias tradicionais e as adaptativas. As abordagens preditivas, como o modelo em cascata, orientam-se por um planejamento estruturado e fixo desde o início, apresentando rigidez e resistência a mudanças (PMI, 2021). Em oposição, as metodologias ágeis fundamentam-se em feedbacks constantes, onde a observação de resultados e os ajustes ao longo do projeto são cruciais para o êxito (Martin, 2019). Organizações que adotam o agilismo praticam uma liderança colaborativa, divergindo da gestão rígida tradicional (Cockburn; Highsmith, 2001).
Para operacionalizar processos em ambientes de alta complexidade, grandes corporações globais implementaram o Scrum, que utiliza equipes multifuncionais e auto-organizáveis estruturadas em ciclos denominados sprints. A Sony, por exemplo, tornou seus sistemas de gerenciamento de projetos e desenvolvimento de software mais eficazes após adotar essa prática (Schwaber; Sutherland, 2020). De forma semelhante, a Dell obteve maior responsividade ao cliente e reduziu em 60% os defeitos encontrados pelos consumidores ao migrar para o modelo ágil (Scrum at Scale, 2021). Além do uso do Scrum, tais organizações compartilham a característica de serem globais e possuírem times multiculturais. A adoção de metodologias ágeis em ambientes plurais favorece o desenvolvimento de subculturas aderentes a valores como a comunicação aberta, o que coopera para uma esfera de trabalho favorável à colaboração intercultural (Burk et al., 2023). No entanto, a instalação dessa metodologia em empresas de alcance mundial exige esforços substanciais, envolvendo não apenas a mudança de práticas diárias, mas a alteração da forma de pensar e dos costumes organizacionais (Cohn, 2011). O enfoque no Scrum, como o método mais popular em nível de equipe (Digital.ai, 2023), permite desvendar os benefícios e obstáculos inerentes a esse processo de transição em contextos de diversidade cultural.
A investigação dos objetivos propostos fundamenta-se em uma abordagem exploratória e descritiva, visando delimitar o estudo mediante a obtenção de informações detalhadas sobre o fenômeno (Gil, 2002). A pesquisa descritiva permite analisar e interpretar fatos correlatos sem a interferência direta do pesquisador (Campos, 2019). O delineamento metodológico estruturou-se como um estudo de caso de cunho quali-quanti, realizado em uma empresa multinacional especializada em softwares para o setor moveleiro. O locus da pesquisa caracteriza-se por um modelo de trabalho variado, abrangendo regimes presenciais, híbridos e remotos, distribuídos por regiões como América Latina, América do Norte, Europa, Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico. A coleta de dados concentrou-se em equipes que envolvem colaboradores agilistas das áreas de Marketing e Desenvolvimento. O universo amostral totalizou 37 profissionais, incluindo nacionalidades diversas como alemães, franceses, italianos, norte-americanos e brasileiros. Para garantir a validade estatística, utilizou-se o cálculo amostral com margem de erro de 10% e confiabilidade de 95%, indicando a necessidade de pelo menos 27 respondentes, meta superada pela participação integral dos 37 colaboradores convidados.
O instrumento de pesquisa consistiu em um questionário estruturado em cinco seções, validado previamente por especialistas e baseado em referenciais teóricos consolidados. A primeira seção contextualizou o perfil sociodemográfico e profissional (Campos, 2019). A segunda avaliou a percepção sobre a adoção do Scrum e seus princípios (Schwaber; Sutherland, 2020; Beck et al., 2001). A terceira identificou os impactos positivos percebidos (Cohn, 2011; Martin, 2019). A quarta verificou os obstáculos enfrentados (Cockburn; Highsmith, 2001; Digital.ai, 2023), enquanto a quinta coletou percepções qualitativas sobre melhorias (Gil, 2002). O pré-teste foi realizado com dois agilistas experientes das áreas de tecnologia e logística, garantindo a clareza das perguntas e a funcionalidade da estrutura (Lakatos; Marconi, 2017). A aplicação ocorreu entre 16 e 23 de junho. A análise dos dados quantitativos empregou estatística descritiva univariada, utilizando cálculos de frequências absolutas e relativas, além da identificação da moda para perguntas em escala de Likert (Babin et al., 2005; Malhotra, 2019). Para a questão aberta, aplicou-se a análise de conteúdo categorial, permitindo a organização das respostas em categorias temáticas e a extração de padrões interpretativos (Bardin, 2016; Minayo, 2014).
A caracterização do perfil dos respondentes revelou uma predominância de adultos jovens, com 56,8% da amostra situada na faixa etária entre 25-34 anos. Em termos de gênero, 56,8% identificaram-se como masculinos, 40,5% como femininos e 2,7% como não binários. O nível de escolaridade é elevado, com 62,2% possuindo graduação completa e 21,6% com pós-graduação ou MBA. A atuação profissional concentra-se nas áreas de Marketing (59,5%) e Desenvolvimento (40,5%). Quanto à senioridade, 51,4% ocupam cargos de nível sênior, seguidos por 32,4% em nível pleno, o que indica uma amostra composta por profissionais experientes que conhecem profundamente os processos organizacionais. No que tange à experiência prévia, 56,8% já haviam utilizado metodologias ágeis antes de integrarem a organização atual, enquanto 43,2% não possuíam contato anterior com tais práticas. Esse dado sugere que uma parcela significativa da equipe necessitou de suporte e treinamento intensivo para se adequar à cultura ágil da empresa, reforçando a necessidade de que o domínio técnico seja acompanhado por competências interpessoais e adaptabilidade cultural (Schwaber; Sutherland, 2020).
Ao avaliar a implementação do Scrum, 45,9% dos participantes demonstraram concordância parcial e 18,9% concordância total com a afirmação de que a metodologia está bem estabelecida em suas equipes. Entretanto, 13,5% mantiveram-se neutros e 21,6% discordaram, evidenciando que ainda existem oportunidades de melhoria na aplicação do método. A clareza sobre os objetivos das reuniões e os papéis desempenhados foi confirmada por 43,2% dos colaboradores de forma frequente e por 24,3% de forma constante. Por outro lado, 21,6% percebem esses elementos apenas esporadicamente e 10,8% raramente os assimilam. Tais falhas de comunicação e alinhamento podem impactar negativamente a eficácia das cerimônias ágeis. A regularidade e o impacto positivo das cerimônias, como Planning, Daily, Review e Retrospective, são percebidos “às vezes” por 29,7% e “frequentemente” por 27% da amostra. Embora a metodologia esteja em fase de consolidação, sua execução ainda se mostra desigual entre as diferentes equipes, o que demanda uma mudança de mentalidade organizacional para uma implementação plenamente bem-sucedida (Cohn, 2011).
Os benefícios percebidos com a adoção do Scrum são significativos. O aumento da colaboração entre os membros da equipe foi reconhecido por 62,2% dos respondentes. A visibilidade sobre as entregas e o andamento dos projetos apresentou uma percepção positiva ainda maior, com 73% de concordância. Além disso, 67,6% afirmaram que a metodologia contribui para a assertividade das entregas, alinhando-as às expectativas dos clientes. Esses resultados corroboram a visão de que o Scrum favorece a transparência e a inspeção, pilares fundamentais do empirismo ágil (Schwaber; Sutherland, 2020). A proximidade com o cliente e a eliminação de desperdícios também são vantagens associadas a esse modelo (Poppendieck; Poppendieck, 2003). Contudo, a presença de respostas neutras e discordantes indica que a eficácia do método depende de fatores como a maturidade da equipe e a liderança ativa em contextos multiculturais (Dingsøyr et al., 2010).
No campo dos desafios, a falta de clareza nos papéis e a carência de treinamento foram os obstáculos mais citados, cada um apontado por 43,2% dos colaboradores. A resistência à mudança e a falta de comprometimento da liderança também foram mencionadas como barreiras relevantes. No que concerne à influência das diferenças culturais, 59,5% dos respondentes mantiveram-se indiferentes, o que pode indicar uma naturalização da diversidade nas equipes globais. Entretanto, 37,8% perceberam a interferência cultural como algo positivo, associando-a a trocas mais ricas e maior empatia. A diversidade cultural atua como potencializadora da inovação, desde que acompanhada por mecanismos de integração (Mäkelä et al., 2010). Por outro lado, a ausência de atenção ao contexto cultural pode gerar dificuldades de comunicação e desalinhamento na aplicação das práticas (Dorairaj et al., 2012). A recorrência de dificuldades estruturais sugere que algumas equipes promoveram uma adoção superficial do framework, sem incorporar totalmente seus valores fundamentais (Schwaber; Sutherland, 2020).
As sugestões oferecidas pelos participantes para melhorar a implementação do Scrum destacam a necessidade de maior clareza de papéis e responsabilidades, citada por 10 respondentes. A melhoria da comunicação interna e entre setores foi sugerida por seis profissionais, assim como a centralização e simplificação de ferramentas e documentos. Outras recomendações incluíram a redução da quantidade de reuniões, a desburocratização de processos e o maior investimento em treinamentos específicos sobre o método. Tais apontamentos demonstram que a eficácia das equipes ágeis está diretamente ligada à definição clara de funções (Dingsøyr et al., 2010) e à necessidade de alinhamento cultural sustentado por uma liderança ativa (Kotter, 2007). A busca por simplificação documental reflete o princípio ágil de valorizar indivíduos e interações acima de processos e ferramentas (Beck et al., 2001).
A análise qualitativa das sugestões revela um amadurecimento dos colaboradores, que reconhecem que o Scrum não se limita a um conjunto de cerimônias, mas exige uma mudança cultural profunda. O estabelecimento de prioridades claras nas sprints e a avaliação precisa do esforço são vistos como fundamentais para o cotidiano operacional. A necessidade de flexibilizar as sprints para que as adaptações funcionem melhor em cada contexto específico também foi ressaltada. Em suma, os resultados indicam que a implementação do Scrum em ambientes multiculturais promove ganhos em colaboração, transparência e eficiência, embora enfrente desafios intrínsecos relacionados à comunicação e à estrutura de papéis. A consolidação do método depende do fortalecimento dos princípios ágeis e do apoio contínuo da liderança para sanar os obstáculos averiguados (Highsmith, 2002).
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a investigação permitiu identificar que a implementação da metodologia Scrum em uma organização global multicultural gera benefícios expressivos, notadamente no aumento da colaboração e na visibilidade dos processos, embora enfrente desafios estruturais severos. Os principais obstáculos residem na falta de clareza quanto aos papéis dos membros e na necessidade de treinamentos mais robustos que considerem a diversidade das equipes. A percepção de indiferença quanto às diferenças culturais sugere uma integração funcional, mas a carência de alinhamento em comunicações críticas aponta para a necessidade de uma gestão intercultural mais ativa. O Scrum demonstra ser uma ferramenta poderosa para a agilidade organizacional, desde que sua aplicação transcenda a execução de rituais e se consolide como uma mudança de mentalidade apoiada pela liderança e adaptada às particularidades de cada contexto regional.
Referências Bibliográficas:
Babin, B.; Hair, J.; Money, A.H.; Samouel, P. 2005. Fundamentos de métodos de pesquisa em administração. 1ed. Bookman Editora, Porto Alegre, RS, Brasil.
Bardin, L. 2016. Análise de conteúdo. 1ed. Edições 70, São Paulo, SP, Brasil.
Beck, K.; Beedle, M.; Bennekum, A.; Cockburn, A.; Cunningham, W.; Fowler, M.; Grenning, J.; Highsmith, J.; Hunt, A.; Jeffries, R.; Kern, J.; Marick, B.; Martin, R.C.; Mellor, S.; Schwaber, K.; Sutherland, J.; Thomas, D. 2001. The Agile Manifesto. Disponível em: <https://agilemanifesto.org/>.
Burk, L.; Mötefindt, D.; Neumann, M.; Welsch, D. 2023. Navigating Cultural Diversity: Barriers and Potentials in Multicultural Agile Software Development Teams. Disponível em: <https://arxiv.org/abs/2311.12061>.
Campos, L. F. L. 2019. Métodos e Técnicas de Pesquisa em Psicologia. 6ed. Alínea, Campinas, SP, Brasil.
Cancañón, C. E. Z.; Tovar, R. A. 2024. Mudança organizacional sustentável: Com metodologias ágeis e pensamento Lean. 1ed. Ecoe Ediciones, Bogotá, Colombia.
Cockburn, A; Highsmith, J. 2001. Agile Software Development: The People Factor. Computer, v.34, n.11, p.131-133.
Cohn, M. 2011. Desenvolvimento de Software com Scrum: Aplicando Métodos Ágeis com Sucesso. 1ed. Bookman Editora, Porto Alegre, RS, Brasil.
Digital.ai. 2023. 17th Annual State of Agile Report. Disponível em: <https://info.digital.ai/rs/981-LQX-968/images/RE-SA-17th-Annual-State-Of-Agile-Report.pdf?version=0>.
Gil, A. C. 2002. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Lakatos, E. M.; Marconi, M. A. 2017. Fundamentos de metodologia científica. 8ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Malhotra, N. 2019. Pesquisa de marketing: uma orientação aplicada. 7ed. Bookman Editora, Porto Alegre, RS, Brasil.
Martin, R. C.. 2019. Clean Agile: Back to Basics. 1ed. Editora Pearson.
Project Management Institute [PMI]. 2021. Um guia de conhecimento em gerenciamento de projetos. 7ed. Project Management Institute, PA, EUA.
Schwaber, K.; Sutherland, J. 2020. The Scrum Guide. Disponível em: <https://scrumguides.org/docs/scrumguide/v2020/2020-Scrum-Guide-US.pdf>.
Scrum at Scale. 2021. Dell Technologies Data Protection: Scrum@Scale Transformation. Disponível em: <https://www.scrumatscale.com/gary-dismukes-dell-data-protection-scrumatscale-transformation/>.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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