17 de setembro de 2026
Símbolos da Moda Esportiva: Consumo, Identidade e Status entre Consumidores Brasileiros
Mariane das Chagas; Sílvia Maria Morales Pereira
DOI: 10.22167/2675-6528-202602571
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A moda esportiva consolidou-se como linguagem simbólica de distinção social nas últimas décadas, impulsionada pela expansão do mercado de wellness e pela reconfiguração dos padrões de prestígio nas sociedades de consumo contemporâneas. O estudo objetivou compreender como os símbolos da moda esportiva influenciaram a construção de identidade e pertencimento e sua associação ao prestígio social entre consumidores brasileiros que adquiriram produtos do setor nos últimos 12 meses. Desenvolveu-se a pesquisa por meio de levantamento bibliográfico e pesquisa descritiva, com levantamento do tipo survey aplicado a uma amostra não probabilística por conveniência de 445 consumidores brasileiros de moda esportiva. Os principais resultados indicaram que a maioria dos respondentes associou marcas esportivas a percepções de status social; mais da metade reconheceu o wellness como novo símbolo de prestígio; e parcela expressiva percebeu o sportstyle como mais aceito em ambientes formais de trabalho. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização, como preferência por logotipos visíveis, influência de redes sociais e disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente rejeitadas, revelando uma dissociação entre a atribuição simbólica de status e o comportamento de sinalização ostensiva. O consumidor brasileiro de moda esportiva com elevado capital cultural operou por meio de sinais simbólicos sutis e não ostensivos, compatíveis com o fenômeno do consumo inconspícuo, no qual a distinção social se manifestou de forma internalizada.
Palavras-chave: Consumo inconspícuo; Distinção; Prestígio social; Sportstyle; Wellness.
1. Introdução
Na sociedade contemporânea hiperconectada, a identidade é moldada por elementos simbólicos e performativos, transcendendo critérios objetivos como profissão ou origem social (Lipovetsky e Serroy, 2015). As escolhas de produtos e estilos de vida tornam-se manifestações públicas de valores individuais e coletivos, com o consumo assumindo papel central na construção de pertencimento e diferenciação simbólica (Akarsu et al., 2025).
O ato de consumir vai além das necessidades funcionais, abrangendo dimensões emocionais, culturais e ideológicas que transformam bens em signos de posição e identidade. Nesse contexto, a aparência e o vestuário emergem como linguagens privilegiadas de capital simbólico, comunicando valores e aspirações que superam a utilidade funcional dos objetos (Bourdieu, 2007; Dantas e Abreu, 2020; Silva e Farias, 2022).
O conceito de status, derivado do latim stare, que significa “posicionar-se”, refere-se à posição de um indivíduo em relação aos demais numa dimensão socialmente valorizada, avaliada pelas dimensões econômica, cultural e social do capital (Bellezza, 2023; Bourdieu, 2007). O desejo de distinção e distanciamento dos estratos inferiores é um dos motores mais persistentes do comportamento de consumo (Bellezza, 2023).
Historicamente, esse impulso se manifestou pelo consumo conspícuo, caracterizado pela exibição ostensiva de bens e marcas de alto valor como sinais de riqueza e posição social, comunicando prestígio por meio de logotipos reconhecíveis (Dantas e Abreu, 2020). Contudo, com a popularização do luxo tradicional, emerge uma estratégia oposta e sofisticada: o consumo inconspícuo (Bellezza, 2023). Este se baseia na preferência por sinais sutis e de difícil imitação, como qualidade de materiais e detalhes de construção, acessíveis apenas a grupos com elevado capital cultural, em detrimento de marcações explícitas de marca (Bellezza, 2023).
Nesse regime simbólico, a distinção opera por refinamento acumulado e conhecimento especializado, tornando os sinais praticamente invisíveis a quem não compartilha do mesmo universo de referências (Bourdieu, 2007). A distinção, assim, deixa de ser exibida e passa a ser reconhecida apenas por pares, o que lhe confere um valor simbólico ainda mais elevado (Bellezza, 2023).
Em paralelo, um novo imaginário de distinção consolida-se nas últimas décadas: o “wellness”. Definido como a busca ativa por atividades, escolhas e estilos de vida que conduzem a um estado de saúde holística (Allem, 2024), o “wellness” redefine o corpo como capital simbólico e confere valor social e identitário ao consumo de produtos associados a um estilo de vida saudável (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020). O corpo disciplinado, a alimentação consciente e a prática esportiva regular emergem como marcadores de mérito e responsabilidade individual, sinalizando autocontrole e pertencimento a grupos de alto prestígio (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020).
É nesse encontro entre a reconfiguração dos sinais de status e a ideologia do “wellness” que a moda esportiva se consolida como veículo de uma transição cultural ampla (Akarsu et al., 2025). Peças antes restritas ao desempenho físico passam a representar vitalidade, disciplina e estilo de vida consciente, estendendo-se a contextos profissionais e sociais formais e conferindo ao “sportstyle” o estatuto de novo marcador de pertencimento simbólico (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020; Akarsu et al., 2025). À medida que esses produtos se popularizam, consumidores de elevado capital cultural buscam sinais cada vez mais sutis, compatíveis com a lógica do consumo inconspícuo, preservando a distinção por vias não ostensivas (Bellezza, 2023).
Justifica-se, portanto, investigar como os símbolos alternativos de status se manifestam por meio da moda esportiva no contexto brasileiro, visto que esse fenômeno reflete dinâmicas contemporâneas de diferenciação simbólica e pertencimento que ainda carecem de investigação empírica sistemática no país (Bellezza, 2023; Akarsu et al., 2025). Compreender esses códigos significa identificar de que forma valores como autenticidade, autocontrole e bem-estar passaram a operar como novos marcadores de prestígio e identidade (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020; Bourdieu, 2007). Desse modo, o objetivo deste estudo foi compreender como os símbolos da moda esportiva influenciam a construção de identidade e pertencimento, bem como de que forma seu consumo se associa ao status, expresso por meio do prestígio social entre consumidores brasileiros que adquiriram produtos do setor nos últimos 12 meses.
2. Material e Métodos
O presente estudo foi delineado como uma pesquisa de natureza exploratória e descritiva, buscando aprofundar a compreensão sobre o fenômeno em questão e analisar as características de grupos sociais. A abordagem metodológica incluiu um levantamento bibliográfico e uma pesquisa descritiva, conforme as diretrizes de Gil (2019; 2022) e Marconi e Lakatos (2021). O levantamento bibliográfico consistiu na consulta a livros e artigos científicos, enquanto a pesquisa exploratória visou ao refinamento do problema de pesquisa.
A pesquisa descritiva, por sua vez, possibilitou a análise de características de grupos sociais e seus padrões de comportamento, com o objetivo de identificar conexões entre as variáveis estudadas (Gil, 2019). Para a coleta de dados primários, empregou-se uma estratégia de levantamento do tipo “survey”, utilizando um questionário estruturado. Esta abordagem permitiu mensurar a percepção dos consumidores brasileiros em relação às marcas esportivas e sua associação ao status social.
A amostra utilizada foi do tipo não probabilística por conveniência, composta por consumidores brasileiros de moda esportiva. O questionário foi aplicado de maneira on-line, por meio da plataforma Google Forms, e permaneceu disponível para coleta de dados durante um período de trinta dias, de 16 de fevereiro de 2026 a 18 de março de 2026. Inicialmente, foram obtidas 644 respostas.
Após a fase de coleta, realizou-se a triagem das respostas. Foram consideradas válidas 445 respostas, que atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos. Estes critérios consistiram na aceitação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e na confirmação, por meio de uma pergunta filtro, de que o participante havia adquirido produtos de moda esportiva nos últimos doze meses. A pesquisa, por ser de opinião pública com participantes não identificados, não exigiu submissão a Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução CNS n° 510, de 07 de abril de 2016.
O instrumento de coleta de dados, um questionário estruturado, foi elaborado com base no estudo de Age (2025) e dividido em três blocos temáticos. O primeiro bloco dedicou-se à coleta de informações sociodemográficas dos participantes, abrangendo idade, gênero, renda e escolaridade, sem qualquer identificação pessoal dos respondentes, garantindo o anonimato.
O segundo bloco do questionário concentrou-se em investigar o comportamento de consumo dos participantes. Nele, foram abordadas questões relativas à frequência de compra de itens de moda esportiva, às marcas preferidas pelos consumidores e às motivações principais que impulsionavam suas decisões de compra, diferenciando entre aspectos funcionais e simbólicos dos produtos.
Por fim, o terceiro bloco do questionário foi projetado para examinar a percepção simbólica dos consumidores. Para isso, utilizou-se uma escala Likert de cinco pontos, onde um significava “Discordo totalmente” e cinco “Concordo totalmente”. Esta escala permitiu avaliar atributos como status, exclusividade, pertencimento, identidade e autenticidade associados aos produtos de moda esportiva. Uma cópia integral do questionário aplicado encontra-se disponível no Apêndice deste trabalho.
3. Resultados e Discussão
Os resultados da pesquisa revelaram um panorama complexo do consumo de moda esportiva entre os participantes, indicando uma orientação predominantemente funcional, mas com uma dimensão simbólica inegável e internalizada. A amostra, composta majoritariamente por mulheres (96,0%) com idades entre 40 e 61 anos (69,5%) e elevado nível de escolaridade (76,0% com ensino superior completo ou mais), apresentou um perfil de alto capital cultural. Essa característica da amostra é crucial, pois o consumo inconspícuo e a distinção por sinais sutis são comportamentos frequentemente associados a segmentos com repertório simbólico refinado, conforme apontado por Bellezza (2023) e Bourdieu (2007). A predominância feminina e a concentração etária, contudo, restringiram a generalização dos achados para a totalidade dos consumidores brasileiros de moda esportiva.
A frequência de compra de itens de moda esportiva demonstrou um padrão moderado, com a maioria dos respondentes adquirindo produtos semestralmente (39,1%) ou anualmente (36,6%). Compras trimestrais representaram 20,4% e mensais apenas 3,8%. Esse comportamento de aquisição menos recorrente pode ser interpretado como uma característica do consumo orientado por valor simbólico, que tende a envolver maior elaboração cognitiva e afetiva, em contraste com o consumo puramente utilitário (Akarsu et al., 2025). No entanto, uma interpretação alternativa sugere que a baixa recorrência pode simplesmente refletir os ciclos de reposição funcional de produtos esportivos, que possuem maior vida útil. A distinção entre essas duas leituras exigiria dados adicionais sobre motivação e valor de aquisição, não captados pelo instrumento, o que impõe cautela interpretativa.
No que tange às marcas de roupas esportivas mais consumidas, a pesquisa identificou a liderança da Adidas (43,4%) e da Nike (35,7%), seguidas por Lupo Sport (20,0%), Olympikus (18,0%) e ASICS (15,7%). A proeminência de marcas globais sublinha seu papel na construção de capital simbólico e na representação de um estilo de vida que transcende o contexto esportivo (Bertami et al., 2023). A presença significativa de marcas nacionais como Lupo Sport e Olympikus, por sua vez, indicou que fatores como funcionalidade e preço também competem com o prestígio da marca nas decisões de compra, revelando uma tensão entre valor funcional e simbólico no consumo de moda esportiva contemporânea (Bellezza, 2023). A diversidade de marcas citadas sugere um mercado pulverizado, embora a limitação de respostas possa ter suprimido a menção de marcas menos conhecidas.
Para calçados esportivos, a Adidas (41,8%) e a Nike (39,8%) também se destacaram, com Olympikus (29,0%), ASICS (27,4%) e Mizuno (16,6%) completando as posições seguintes. A manutenção das marcas globais no topo reforça sua posição como referenciais simbólicos para o consumidor brasileiro (Bertami et al., 2023). Contudo, a participação relativamente superior de marcas especializadas em desempenho técnico, como ASICS e Mizuno, no segmento de calçados, em comparação com o vestuário, sugere que a dimensão funcional pode ter um peso maior nas decisões de compra de calçados. A pesquisa, no entanto, não captou diretamente a diferenciação entre o uso por desempenho e o uso por estilo de vida, o que limita um aprofundamento dessa análise.
As ocasiões de uso da moda esportiva revelaram uma ampla difusão para além da prática de exercícios físicos, que ainda foi o contexto predominante (93,3%). Lazer em shoppings e parques (54,6%) e viagens (49,7%) também foram contextos frequentes. Notavelmente, 24,5% da amostra utilizou moda esportiva em atividades de trabalho, e 5,2% em eventos sociais. Essa expansão do uso para contextos não estritamente esportivos evidencia a incorporação de peças esportivas nos rituais cotidianos de apresentação social (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020), e pode ser interpretada como um sinal de status associado a um ritmo de vida ativo e produtivo, atributos valorizados na contemporaneidade (Bellezza, 2023). A baixa frequência de uso em eventos sociais, contudo, indicou que, para este perfil, o vestuário esportivo não funcionou como instrumento de exibição em contextos de alta visibilidade social.
Os fatores mais decisivos na compra de moda esportiva foram, em ordem decrescente, conforto e desempenho durante a prática física (79,1%), qualidade e durabilidade (65,6%) e preço (56,2%). Design e estética (35,7%), avaliações e comentários on-line (10,6%) e marca/status (4,7%) tiveram menor relevância declarada. A predominância de critérios funcionais na decisão de compra apontou para uma tensão inerente ao consumo simbólico contemporâneo. Consumidores com elevado capital cultural tendem a rejeitar a ostentação explícita em favor de sinais sutis de distinção (Bellezza, 2023), o que pode explicar a baixa saliência de marca e status como critério declarado. Além disso, as preferências incorporadas ao longo da trajetória social manifestam-se como escolhas aparentemente naturais, invisibilizando sua dimensão simbólica (Bourdieu, 2007). Assim, a valorização declarada de conforto e durabilidade não excluiu a operação de mecanismos simbólicos internalizados.
A percepção da dimensão simbólica do consumo de moda esportiva foi avaliada por meio de nove afirmativas em escala Likert. Questionados se o uso de determinadas marcas de moda esportiva se associava a percepções mais elevadas de status social, 71,2% dos respondentes concordaram com a afirmação (36,9% concordaram totalmente e 34,4% concordaram). Essa expressiva maioria confirmou que o vestuário esportivo opera como um sistema classificatório, onde as escolhas de consumo expressam posições no espaço social (Bourdieu, 2007). O estilo esportivo pode ser compreendido como um sinal alternativo de status, articulando distinção, autenticidade e um estilo de vida ativo em substituição ao luxo ostensivo tradicional (Bellezza, 2023). Esse resultado foi particularmente relevante ao ser comparado com a baixa menção de marca e status como fator de compra (4,7%), sugerindo que os respondentes reconheceram a dimensão simbólica das marcas, mas não a verbalizaram como motivação consciente de compra.
Sobre a proposição de que exibir um estilo de vida saudável por meio de roupas ou calçados constitui um novo símbolo de prestígio, 58,9% dos respondentes concordaram (35,1% concordaram e 23,8% concordaram totalmente). Para a maioria, a visibilidade de práticas saudáveis por meio do vestuário foi reconhecida como capital simbólico, alinhando-se ao movimento mais amplo em que o bem-estar deixou de ser uma condição privada e passou a funcionar como marcador de valor individual e distinção social (Jackson et al., 2022). O corpo saudável e disciplinado tornou-se uma linguagem legítima de prestígio contemporâneo, onde o cuidado com o corpo sinaliza autocontrole e pertencimento a grupos valorizados (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020). O vestuário esportivo, nesse contexto, atua como suporte visível dessa narrativa. Contudo, o percentual de concordância foi inferior ao da associação entre marcas e status social (58,9% versus 71,2%), indicando maior hesitação, possivelmente por associar explicitamente o cuidado corporal a uma lógica de distinção que a própria cultura do bem-estar tende a apresentar como não competitiva. A proporção expressiva de neutros (19,8%) reforçou essa leitura.
A afirmação sobre sentir-se parte de um grupo social específico ao usar determinadas marcas de moda esportiva foi majoritariamente rejeitada, com 51,7% de discordância (28,1% discordaram totalmente e 23,6% discordaram). Esse resultado contrasta com estudos que documentam a forte função identificatória das marcas esportivas entre jovens de periferias urbanas (Bertami et al., 2023). A diferença é interpretável à luz do perfil da amostra, onde mulheres de meia-idade com alta escolaridade podem privilegiar formas mais sutis de diferenciação, nas quais a distinção se expressa de maneira internalizada, um padrão compatível com o consumo inconspícuo (Bellezza, 2023). O contraste com a percepção de status social (71,2% de concordância) revelou uma dissociação analiticamente relevante: os respondentes perceberam a dimensão simbólica das marcas, mas não as utilizaram como mediadoras de pertencimento grupal explícito. O achado sugeriu que a distinção simbólica, para esse perfil, operou por mecanismos individualizados e não tribais, com o consumidor se posicionando socialmente pela marca, mas sem se identificar publicamente com um grupo por meio dela. A proporção de neutros (25,8%) impôs cautela na generalização do achado.
A afirmação de que a moda esportiva diz muito sobre quem é o respondente e sobre seus valores foi majoritariamente rejeitada, com 46,1% de discordância (25,4% discordaram totalmente e 20,7% discordaram parcialmente). A maioria não reconheceu conscientemente a moda esportiva como um veículo de expressão identitária explícita. Em conjunto com o dado de que 71,2% reconheceram a carga simbólica das marcas, isso sugeriu que o consumo simbólico operou de forma internalizada e não reflexiva, coerente com o mecanismo pelo qual preferências incorporadas ao repertório social tendem a ser vivenciadas como escolhas naturais, sem verbalização de sua dimensão simbólica (Bourdieu, 2007). A proporção de neutros (23,8%) temperou essa leitura, indicando que, para parte da amostra, essa mediação identitária não foi rejeitada de forma inequívoca.
A preferência por itens com logotipo facilmente identificado encontrou rejeição expressiva, com 72,8% de discordância (51,5% discordaram totalmente e 21,3% discordaram), sendo um dos achados mais relevantes. Consumidores com elevado capital cultural tendem a preferir sinais de status sutis, legíveis apenas por pares que compartilham o mesmo repertório simbólico (Bellezza, 2023), padrão também documentado na elite econômica brasileira que privilegia qualidade percebida e pertencimento discreto em detrimento da exibição de marca (Alcoforado, 2025). A rejeição ao logotipo não implicou ausência de consciência de marca, como evidenciado pelo reconhecimento da carga simbólica das marcas esportivas (71,2%), mas indicou que o consumo simbólico da amostra operou em um registro mais refinado, onde a distinção se dá pela escolha do tecido, do corte e da qualidade percebida, e não pela exibição ostensiva da marca. A intensidade da rejeição, com mais da metade dos respondentes discordando totalmente, conferiu clareza interpretativa ao achado, alinhando-o diretamente ao objetivo do estudo, embora a mensuração por autodeclaração não permita afirmar com segurança que essa rejeição se traduza em comportamento efetivo de compra.
A percepção sobre a crescente aceitação social da moda esportiva em ambientes formais ou de trabalho obteve resposta majoritariamente positiva, com 64,9% de concordância (40,0% concordaram e 24,9% concordaram totalmente). Esse resultado refletiu a expansão semiótica das roupas esportivas, onde o corpo ativo, produtivo e eficiente passou a representar um emblema de status na contemporaneidade (Bellezza, 2023), e a apresentação corporal disciplinada funciona como signo de competência e autocontrole em contextos profissionais (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020). Articulado com o uso declarado de moda esportiva em atividades de trabalho (24,5%), esse dado indicou que a transição do vestuário esportivo para contextos formais não foi apenas percebida como tendência, mas já praticada por parcela da amostra. A divergência entre os dois percentuais (64,9% de aceitação social versus 24,5% de uso efetivo) sugeriu que a aceitação social do fenômeno superou sua incorporação efetiva ao cotidiano profissional, o que pode refletir barreiras institucionais ou culturais em determinados ambientes de trabalho.
A afirmação sobre a influência das redes sociais e do desejo de ser visto em fotos nas escolhas de moda esportiva foi rejeitada pela expressiva maioria, com 74,4% de discordância (49,2% discordaram totalmente e 25,2% discordaram). Esse resultado comporta duas leituras complementares. A primeira considera que o perfil etário da amostra, concentrado entre 40 e 61 anos, apresenta naturalmente menor adesão à mediação digital do consumo (Becheri et al., 2023). A segunda sugere que a rejeição declarada pode refletir desejabilidade social, onde a influência da imagem digital no consumo de moda tende a ser subestimada pelos próprios consumidores, especialmente entre indivíduos com elevada escolaridade, para quem admitir essa influência poderia ser percebido como sinal de vulnerabilidade à pressão externa (Dantas e Abreu, 2020). A mensuração por autodeclaração não captou a influência real das redes sociais nas decisões de compra, lacuna que pesquisas futuras poderiam suprir com métodos de rastreamento comportamental.
A disposição a pagar mais por uma marca que represente o estilo de vida, mesmo existindo opções mais acessíveis de qualidade equivalente, apresentou alta rejeição, com 72,8% de discordância (50,3% discordaram totalmente e 22,5% discordaram). A baixa disposição a pagar prêmio confirmou o padrão observado nos fatores de compra, onde apenas 4,7% atribuíram relevância à marca ou status. Para a maioria da amostra, a função simbólica da moda esportiva não justificou sobrepreço explícito, o que é coerente com contextos nos quais a distinção tende a operar pela sutileza das escolhas e não necessariamente pelo investimento financeiro ostensivo (Bellezza, 2023).
A afirmação sobre a preferência por marcas reconhecidas especialmente por pessoas que compartilham do mesmo estilo de vida foi rejeitada pela maioria, com 65,4% de discordância (40,7% discordaram totalmente e 24,7% discordaram). A rejeição ao tribalismo de marca distinguiu o perfil desta amostra do segmento jovem identificado em outros estudos (Bertami et al., 2023), nos quais a pertença a um grupo consumidor funciona como motor de escolha. Para o perfil da amostra, prevaleceu a preferência por marcas valorizadas pela qualidade e autenticidade, e não pela exclusividade tribal declarada (Bellezza, 2023). Esse padrão, articulado à rejeição ao logotipo visível (72,8%) e ao sobrepreço simbólico (72,8%), conferiu solidez empírica à leitura do consumo inconspícuo como disposição estrutural do perfil estudado. A proporção de neutros (18,7%) sinalizou, contudo, que essa rejeição não foi inequívoca para a totalidade da amostra.
As categorias temáticas das respostas abertas sobre a principal mensagem que a moda esportiva transmite na sociedade atual revelaram que “saúde e estilo de vida saudável” foi a categoria mais frequente, mencionada por 33,0% dos respondentes, seguida por “conforto e praticidade” (27,4%) e “status e estilo” (13,0%). A prevalência de saúde e conforto como mensagem percebida confirmou que o vestuário esportivo foi primordialmente associado ao bem-estar e não ao status explícito. Esse resultado é coerente com a perspectiva de que, quando a ideologia do bem-estar é interiorizada como valor genuíno, ela tende a não ser percebida como sinal de prestígio pelos próprios indivíduos que a praticam (Jackson et al., 2022). A baixa frequência da resposta “status” não contradisse o resultado de que 71,2% reconheceram a associação de marcas esportivas a status social, mas reforçou a leitura de que o mecanismo simbólico operou de forma não reflexiva, compatível com a naturalização das disposições sociais incorporadas (Bourdieu, 2007). Análise comparativa entre os resultados
Na análise comparativa da percepção de status social associada a marcas esportivas segundo o gênero, as mulheres apresentaram uma média de 3,92, indicando concordância clara, enquanto os homens registraram uma média de 3,28. A percepção mais intensa da dimensão simbólica das marcas pelas respondentes femininas é compatível com a literatura que identifica o vestuário como linguagem privilegiada de distinção e afirmação identitária entre mulheres (Giordani e Hoffmann-Horochovski, 2020). Contudo, essa diferença deve ser interpretada com reserva, pois o subgrupo masculino correspondeu a apenas 4,0% da amostra, aproximadamente 18 respondentes, o que comprometeu a estabilidade estatística da média masculina e inviabilizou inferências robustas sobre diferenças de gênero no comportamento simbólico de consumo de moda esportiva.
A relação entre a faixa etária e a percepção do bem-estar como símbolo de prestígio mostrou que os consumidores entre 29 e 39 anos registraram a maior média (4,05), indicando concordância clara. Eles foram seguidos pelos maiores de 62 anos (3,49), pelos respondentes de 40 a 50 anos (3,46), pelos de 51 a 61 anos (3,36) e pelos de 18 a 28 anos (3,14), faixas cujas médias se situaram na zona de ambiguidade da escala. A maior adesão ao bem-estar como símbolo de prestígio entre consumidores de 29 a 39 anos pode ser compreendida à luz da relação entre essa faixa etária e a exposição intensificada à ideologia do bem-estar nas redes sociais e no ambiente de trabalho competitivo (Jackson et al., 2022). Esse grupo encontra-se em fase de consolidação profissional e construção de identidade pública, o que pode intensificar a percepção do corpo saudável como capital simbólico. A posição relativa da faixa acima de 62 anos, próxima às faixas intermediárias, sugeriu que a ressignificação do bem-estar como marcador de prestígio não se restringiu às gerações mais jovens, alcançando também a terceira idade. A diferenciação nítida entre a faixa de 29 a 39 anos e as demais conferiu consistência ao padrão identificado, permitindo associar o achado à literatura sobre a intensificação da ideologia do bem-estar em faixas etárias em consolidação profissional. A comparação entre faixas etárias, contudo, deve ser lida com cautela, especialmente no que se refere à faixa de 18 a 28 anos, cuja média foi calculada com apenas sete respondentes (1,6% da amostra), o que comprometeu a estabilidade estatística dessa comparação específica.
A média das respostas sobre a influência das redes sociais nas escolhas de moda esportiva por faixa etária indicou que os consumidores de 18 a 28 anos registraram a maior média (2,71), seguidos pelos de 29 a 39 anos (2,14), 40 a 50 anos (1,87), mais de 62 anos (1,84) e 51 a 61 anos (1,79). O gradiente etário confirmou que a influência declarada das redes sociais decresceu com o avanço da idade. Embora nenhuma faixa etária tenha apresentado média superior a 3,0, o que caracterizou rejeição generalizada à mediação digital, o grupo de 18 a 28 anos distinguiu-se dos demais ao situar-se em zona de ambiguidade, enquanto as demais faixas se concentraram em zona de discordância da escala. As plataformas digitais, em especial o “Instagram”, funcionam como infraestrutura de mercado capaz de formatar preferências de consumo de maneira mais eficaz entre usuários mais jovens (Becheri et al., 2023). A rejeição generalizada nas demais faixas etárias reforçou a hipótese de que, para o perfil predominante da amostra, a mediação digital não foi reconhecida como determinante das escolhas de consumo, leitura convergente com a rejeição de 74,4% observada no conjunto da amostra. A convergência entre o dado agregado e o desdobramento etário conferiu robustez à leitura de autonomia declarada do consumidor em relação à mediação digital, ao menos no perfil estudado. A média da faixa de 18 a 28 anos, contudo, foi calculada com apenas sete respondentes (1,6% da amostra), o que comprometeu a estabilidade estatística dessa comparação específica e impediu conclusões robustas sobre o comportamento desse subgrupo em relação às redes sociais.
A relação entre a renda familiar mensal e a disposição dos respondentes para pagar mais por marcas que representem seu estilo de vida revelou que o grupo com renda superior a R$ 24.315,00 registrou a maior média (2,44), seguido pelas faixas de R$ 4.864,00 a R$ 8.105,00 (2,07), de R$ 16.211,00 a R$ 24.315,00 (2,03), de R$ 8.106,00 a R$ 11.347,00 (aproximadamente 2,00), de R$ 11.348,00 a R$ 16.210,00 (aproximadamente 2,00), de R$ 1.622,00 a R$ 4.863,00 (1,74) e até R$ 1.621,00 (1,62). Embora tenha havido um gradiente ascendente da menor para a maior faixa de renda, todas as médias se situaram em zona de discordância da escala, o que caracterizou rejeição transversal ao sobrepreço por valor simbólico em todas as faixas de renda da amostra. A distinção simbólica via consumo tende a ser mais acessível a quem detém maior capital econômico (Bellezza, 2023), expectativa teórica que, nesta amostra, não se traduziu em disposição expressiva ao sobrepreço nem mesmo na faixa de maior renda, cuja média (2,44) permaneceu aquém da zona de concordância. Esse padrão foi convergente com a rejeição de 72,8% ao sobrepreço observada no conjunto da amostra e reforçou a hipótese de que, independentemente da renda, o perfil estudado resistiu à ideia de pagar mais por valor exclusivamente simbólico. A consistência da rejeição ao sobrepreço em todas as faixas de renda conferiu solidez ao achado e indicou que a lógica do consumo inconspícuo operou de maneira transversal ao capital econômico da amostra, característica que amplia o alcance interpretativo do resultado. As faixas de renda extremas, contudo, foram compostas por números reduzidos de respondentes, o que comprometeu parcialmente a estabilidade estatística das comparações nesses dois grupos específicos.
A frequência de compra e a percepção de status social associada a marcas esportivas apresentaram uma relação positiva. Os consumidores que compram trimestralmente registraram a maior média (4,18), seguidos pelos que compram mensalmente (4,12), semestralmente (3,86) e anualmente (3,75). Todas as faixas se situaram em zona de concordância clara da escala, com um gradiente moderado de 0,43 ponto entre o menor e o maior valor, o que sugeriu que a percepção simbólica das marcas esportivas se distribuiu de forma relativamente homogênea ao longo dos diferentes ritmos de consumo. A relação positiva entre frequência de compra e percepção simbólica sugeriu um processo de reforço mútuo entre a prática de consumo e a subjetivação de valores simbólicos, já que as disposições incorporadas ao longo da trajetória social funcionam simultaneamente como produto e como produtoras de práticas sociais (Bourdieu, 2007). Consumidores que compram com maior regularidade tendem a apresentar maior familiaridade com os códigos simbólicos do segmento, o que amplifica sua sensibilidade à dimensão de status das marcas. Esse resultado complementou o achado de que 71,2% dos respondentes reconheceram a carga simbólica das marcas, ao demonstrar que o reconhecimento simbólico ocorreu de forma transversal aos padrões de frequência de compra, intensificando-se entre os compradores mais frequentes. A convergência entre o dado agregado e o desdobramento por frequência conferiu consistência interpretativa à leitura do vestuário esportivo como sistema classificatório, mesmo entre consumidores com padrões distintos de aquisição. A média da faixa de compra mensal, contudo, foi calculada com apenas 17 respondentes (3,8% da amostra), o que comprometeu parcialmente a estabilidade estatística dessa comparação específica.
Em síntese, os resultados indicaram que o consumo de moda esportiva entre os participantes foi orientado predominantemente por critérios funcionais, embora a dimensão simbólica estivesse presente de forma inequívoca. A maioria reconheceu que determinadas marcas esportivas veiculam percepções de status social e que o estilo de vida saudável exibido via vestuário constitui um novo símbolo de prestígio. Além disso, o estilo esportivo foi percebido como mais aceito em ambientes formais do que no passado. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização simbólica, como a preferência por logotipos visíveis, a influência das redes sociais e a disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente recusadas. A discrepância entre o reconhecimento da dimensão simbólica das marcas e a rejeição declarada da ostentação e do sobrepreço constituiu evidência empírica do fenômeno do consumo inconspícuo no contexto brasileiro da moda esportiva, alinhando-se à literatura internacional recente sobre sinais alternativos de status (Bellezza, 2023) e investigações sobre o comportamento da elite econômica brasileira (Alcoforado, 2025). Os dados sugeriram que o perfil estudado operou por meio de sinais simbólicos sutis e não ostensivos, compatíveis com o consumo discreto, onde a distinção social se manifestou de forma internalizada, ancorada na valorização do bem-estar, da autenticidade e do autocontrole, respondendo assim ao objetivo de compreender como os símbolos da moda esportiva influenciam a construção de identidade e pertencimento e sua associação ao prestígio social.
4. Conclusão
O presente estudo buscou compreender como os símbolos da moda esportiva influenciam a construção de identidade e pertencimento, e de que forma seu consumo se associa ao prestígio social entre consumidores brasileiros. Verificou-se que a maioria dos respondentes associou marcas esportivas a percepções de status social e reconheceu o bem-estar como um novo símbolo de prestígio. Observou-se também que o estilo esportivo é percebido como mais aceito em ambientes formais de trabalho. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização simbólica, como a preferência por logotipos visíveis, a influência de redes sociais e a disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente rejeitadas. Essa dissociação entre a atribuição simbólica de status e o comportamento de sinalização ostensiva evidenciou o fenômeno do consumo inconspícuo no contexto brasileiro da moda esportiva, no qual a distinção social se manifesta de forma internalizada, ancorada na valorização da autenticidade, do autocontrole e do bem-estar. A principal contribuição do estudo reside na evidência empírica dessa dinâmica, alinhando-se à literatura internacional sobre sinais alternativos de status e oferecendo subsídios para o posicionamento de marcas no segmento.
Contudo, o estudo apresentou limitações importantes, como o viés de gênero e a concentração etária da amostra, majoritariamente feminina e de meia-idade, o que restringe a generalização dos resultados para outros segmentos demográficos. Além disso, os dados se basearam em percepção declarada, sem mensuração direta do comportamento efetivo de compra, o que pode estar sujeito a um viés de desejabilidade social. Para investigações futuras, recomenda-se a ampliação da amostra com maior representatividade de gênero e faixa etária, a incorporação de métodos complementares de mensuração do comportamento de consumo e o desenvolvimento de pesquisas qualitativas que aprofundem a compreensão das motivações simbólicas subjacentes às escolhas de consumo de moda esportiva, considerando a interseccionalidade entre gênero e geração.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Marketing do MBA USP/Esalq
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