Artigo

23 de julho de 2026

Vulnerabilidade econômica na vida adulta: uma análise da influência da educação financeira e de fatores comportamentais

Bruno Roberti Moraes de Souza; Acácia dos Santos

DOI: 10.22167/2675-6528-202600620

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Investigou-se a relação entre educação financeira, vieses comportamentais e vulnerabilidade financeira na vida adulta, a partir das percepções dos indivíduos. Para isso, caracterizou-se a pesquisa como aplicada, de abordagem quantitativa e natureza descritiva, e utilizou-se o método survey para coleta de dados por meio de questionário estruturado com questões em escala Likert. Os resultados revelaram que a vulnerabilidade financeira não se associou apenas à renda, mas também à ausência de educação financeira e à influência de fatores comportamentais, como impulsividade, falta de planejamento e aspectos emocionais. Observou-se que, apesar do conhecimento financeiro básico, os respondentes apresentaram dificuldades na aplicação prática, além de níveis significativos de ansiedade financeira, ausência de metas e desafios para poupar, impactando o bem-estar financeiro. Concluiu-se que a educação financeira, em conjunto com o desenvolvimento de competências comportamentais, desempenha papel fundamental no equilíbrio econômico, confirmando que a vulnerabilidade financeira decorre da interação entre conhecimento, comportamento e fatores emocionais. Reconheceu-se, ainda, que a educação financeira iniciada na infância pode aprimorar o controle financeiro na vida adulta.

Palavras-chave: Bem-estar financeiro; Comportamento de consumo; Educação financeira; Endividamento.

1. Introdução

As vulnerabilidades financeira, econômica e social são temas recorrentes em diversos estudos, frequentemente associadas a fatores como baixa renda, desafios de consumo e lacunas no conhecimento sobre gestão monetária. Autores como Nascimento (2019), Camargo et al. (2020), Trindade (2023), Silva e Vils (2024) e Soares (2024) apontam para definições interligadas desses conceitos. A vulnerabilidade é compreendida como um fenômeno multidimensional, resultante da interação de fatores internos e externos, características individuais e condições sociais que influenciam o comportamento financeiro. Essa condição pode levar ao desequilíbrio econômico e afetar qualquer indivíduo no contexto de consumo, conforme destacam Baker et al. (2005) e Camargo et al. (2020). Historicamente, as primeiras discussões sobre o termo surgiram em relação a entidades sem fins lucrativos, segundo Galdino (2020).

Nesse cenário, a educação financeira, a alfabetização e o letramento financeiro surgem como mecanismos essenciais. Eles vão além do conhecimento meramente matemático, focando no consumo responsável, como abordam Fontenelle (2017) e Camargo et al. (2020). A educação financeira básica, no âmbito educacional formal, é definida por Trindade (2023) como um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que capacitam os indivíduos a gerenciar recursos, planejar o futuro e mitigar riscos de endividamento. A relevância do tema é acentuada por dados alarmantes do Mapa da Inadimplência da Serasa (2026), que registrou 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro de 2026. A maior parte desses indivíduos estava nas faixas etárias de 41 a 60 anos (35,6%) e 26 a 40 anos (33,5%), evidenciando a abrangência do problema em diferentes estágios da vida adulta.

Apesar da importância, o Comitê Nacional de Educação Financeira (CONEF) (Brasil, 2026) reconhece o nível incipiente de letramento financeiro na população brasileira, o que compromete a tomada de decisões autônomas e informadas. Uma pesquisa realizada pelo Ibope e C6 Bank (2020) revelou que apenas 21% da população das classes A, B e C teve acesso à educação financeira na infância, indicando uma lacuna formativa que se reflete na vida adulta (Souza, 2022). A falta de educação financeira é associada à vulnerabilidade social e ao superendividamento, especialmente em grupos mais suscetíveis (Cunha, 2024). Gehlen et al. (2024) observaram que regiões com menor alcance de iniciativas de educação financeira apresentavam taxas de inadimplência mais elevadas, correlacionando baixos níveis de educação financeira com endividamento familiar.

A vulnerabilidade financeira adulta, portanto, não se explica apenas pela ausência de conhecimento técnico, mas também pela forma como se manifesta em condições socioeconômicas específicas (Nascimento, 2019). O campo das finanças comportamentais é crucial para entender como indivíduos, mesmo com algum conhecimento, podem tomar decisões equivocadas de consumo, poupança ou investimento (Serra et al., 2022). Vieses comportamentais como autoeficácia, excesso de confiança, aversão à perda, inércia, ansiedade e impulsividade (Serra et al., 2022; Azevedo, 2024), somados a contextos sociais, afetam o comportamento financeiro pessoal. As dificuldades financeiras na vida adulta, incluindo o endividamento, estão ligadas à educação financeira e à influência comportamental na aplicação de conhecimentos. Trindade (2023) e Silva (2022) ressaltam que a vulnerabilidade financeira adulta decorre de uma carência formativa que impede o desenvolvimento de recursos internos de gestão econômica. Assim, este estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre a interação desses elementos, buscando investigar, a partir das percepções dos participantes da pesquisa, a relação entre o nível de educação financeira e os vieses comportamentais que promovem a vulnerabilidade financeira em adultos.

2. Material e Métodos

Esta seção detalha a metodologia empregada no estudo, abrangendo a natureza da pesquisa, a abordagem metodológica, o tipo de pesquisa quanto aos objetivos, a estratégia de coleta de dados, a caracterização dos participantes, os instrumentos utilizados e as técnicas de análise, em conformidade com o objetivo de investigar a relação entre educação financeira, vieses comportamentais e vulnerabilidade financeira na vida adulta.

A pesquisa foi caracterizada como aplicada, buscando gerar conhecimento para aplicação prática na compreensão de um problema específico. Adotou-se uma abordagem quali-quantitativa, conforme Günther (2006), que permite não apenas a mensuração de dados, mas também a compreensão das relações entre variáveis que influenciam o comportamento humano em decisões financeiras e vieses comportamentais.

Quanto aos objetivos, o estudo foi de natureza descritiva, o que possibilitou observar, registrar e correlacionar variáveis sem a interferência do pesquisador, conforme Gil (2010) e Prodanov e Freitas (2013). Essa abordagem permitiu a análise de padrões e tendências no fenômeno investigado, focando nas percepções dos indivíduos.

A estratégia de pesquisa empregada foi o método *survey*, realizado por meio de um questionário estruturado. O instrumento foi desenvolvido e aplicado utilizando a plataforma Google Forms, garantindo a coleta de dados de forma padronizada e eficiente.

O questionário foi dividido em três blocos distintos. O Bloco 1 reuniu perguntas sociodemográficas, incluindo faixa etária, sexo, escolaridade, ocupação, renda e localidade. O Bloco 2 abordou hábitos e comportamentos financeiros, com foco em práticas cotidianas de consumo, poupança e endividamento.

O Bloco 3 do questionário concentrou-se na percepção dos participantes sobre o impacto dos conhecimentos financeiros adquiridos em suas decisões atuais. Por meio dessas informações, buscou-se identificar comportamentos que influenciam a decisão voltada à segurança ou risco de vulnerabilidade econômica.

A população do estudo foi composta por adultos em geral, e a amostra foi definida por conveniência, sendo de natureza não probabilística. A participação ocorreu de forma voluntária e anônima, com o instrumento de pesquisa aberto ao público em geral.

A divulgação do formulário foi realizada em redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, a partir da rede de contatos do pesquisador, com solicitação de compartilhamento. Esse procedimento visou alcançar o máximo de participantes de diferentes faixas etárias, regiões e níveis de escolaridade, buscando um resultado heterogêneo.

A coleta de dados do questionário foi iniciada em 25 de janeiro de 2026 e permaneceu disponível até 24 de fevereiro de 2026. Durante esse período, foram coletadas 124 respostas válidas para a análise.

Para garantir a consistência das estimativas e permitir análises exploratórias com segurança, a amostra de 124 participantes foi considerada adequada. Dalmoro e Vieira (2014) destacam que amostras reduzidas comprometem a variabilidade das respostas, enquanto um quantitativo em torno de 100 participantes já possibilita maior robustez, conforme Hair et al. (2019).

As questões do questionário foram elaboradas predominantemente em escala Likert de cinco pontos, com 18 perguntas, sendo 14 fechadas (múltipla escolha) e duas abertas. Essa estrutura permitiu mensurar o nível de concordância ou discordância dos participantes em relação às afirmações apresentadas.

Os cuidados éticos foram observados mediante a apresentação de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no início do questionário. A pesquisa foi acessada somente após o aceite do termo, garantindo a voluntariedade e o anonimato dos participantes, e a utilização dos dados exclusivamente para fins acadêmicos e científicos.

A técnica de análise dos dados empregada foi a análise de conteúdo, conforme Bardin (2016). As respostas coletadas foram categorizadas para identificar padrões e temas relacionados à educação financeira, vieses comportamentais e vulnerabilidade financeira na vida adulta.

Para a análise, foram definidas cinco categorias principais a partir da seleção das questões codificadas por tema. Essas categorias permitiram organizar as percepções dos participantes sobre o acesso e formação em educação financeira na infância, comportamentos de planejamento e autocontrole financeiro, comportamentos impulsivos e vieses comportamentais, aspectos emocionais e bem-estar financeiro, e a importância e políticas de educação financeira.

3. Resultados e Discussão

A presente seção tem como propósito apresentar e discutir os resultados obtidos por meio da aplicação do questionário estruturado, à luz do referencial teórico adotado, buscando identificar a relação entre educação financeira, vieses comportamentais e vulnerabilidade financeira na vida adulta. A análise foi realizada com base nas respostas coletadas, organizadas em categorias temáticas que contemplam aspectos relacionados à educação financeira, comportamentos financeiros, vieses cognitivos e fatores emocionais associados à vulnerabilidade econômica. Os dados empíricos foram interpretados para estabelecer conexões com a literatura revisada e avaliar em que medida corroboram ou não as hipóteses formuladas neste estudo, conforme a abordagem descritiva e quali-quantitativa da pesquisa.

A coleta de dados, realizada entre 25 de janeiro e 24 de fevereiro de 2026, resultou em 124 respostas, permitindo a observação de fenômenos cotidianos e a formulação de contribuições teóricas, como sugerido por Yin (2001). O perfil sociodemográfico dos participantes revelou que a maioria residia no estado de São Paulo (91%), distribuídos em 25 cidades e 10 estados. Predominaram respondentes do sexo feminino (70%), com 29% do sexo masculino e 1% que se declarou homossexual. Todas as faixas etárias foram representadas, com a maior concentração na faixa de 36 a 45 anos (33%) e a menor entre 18 e 25 anos (9%).

Em relação à formação e ocupação, a maioria dos participantes possuía nível educacional superior completo (39%) ou pós-graduação (37%). Quanto à situação ocupacional, 46% estavam empregados com carteira assinada e 31% atuavam como empreendedores ou autônomos. A distribuição de renda média mensal foi abrangente, com 31% declarando ganhos acima de R$ 10.000,00, e cerca de 20% em cada uma das faixas de R$ 5.001,00 a R$ 7.000,00 e de R$ 2.001,00 a R$ 4.000,00. Esses dados indicam que a amostra, embora específica, abrange diferentes realidades socioeconômicas, o que permite uma análise representativa das percepções sobre controle financeiro e vulnerabilidade, conforme apontado por Neri (2026).

A área de formação e atuação dos respondentes foi predominantemente ligada à gestão, incluindo profissionais de controladoria, análise financeira, riscos e compliance, com vínculos a atividades organizacionais e corporativas. Houve também participação de indivíduos das áreas de comunicação, marketing e tecnologia, e de outros segmentos das Ciências exatas, humanas e sociais, com menor representatividade da área da saúde. Esse perfil variado sugere que a pesquisa abrange pessoas com diferentes necessidades e níveis de controle financeiro, cujas percepções sobre a influência da educação financeira no comportamento podem ser representativas para diversos contextos, não se limitando apenas a grupos associados à vulnerabilidade social ou financeira.

Ao investigar os fatores que mais comprometem a saúde financeira familiar, os resultados destacaram a ausência de planejamento financeiro conjunto (35%) e gastos familiares imprevistos (41%) como os mais relevantes. Empréstimos e financiamentos (31%) e alimentação fora do domicílio (31%) também exerceram forte influência. Esses achados, que incluem serviços por assinatura não essenciais (6%), impulsividade nas decisões de consumo (14%), endividamento recorrente (16%), gastos com lazer e entretenimento (17%) e falta de diálogo sobre finanças (17%), evidenciam que a vulnerabilidade financeira é multifacetada, não se restringindo à baixa renda, mas englobando também a falta de conhecimento sobre finanças, como observado por Silva e Vils (2024).

A análise das dificuldades em manter hábitos financeiros saudáveis e as consequências do descontrole financeiro revelou a presença de fatores estruturais e comportamentais impactantes. Os principais entraves identificados foram a falta de conhecimento financeiro prático (31%) e a ausência de metas financeiras claras (29%), indicando que a lacuna não reside apenas no acesso à informação, mas na capacidade de aplicação e planejamento. Fatores comportamentais como o excesso de confiança na própria capacidade de controle (18%) e a instabilidade emocional ou psicológica (14%) reforçam a influência de aspectos subjetivos na gestão financeira, enquanto a influência de padrões de consumo socialmente valorizados (8%) também aponta para pressões sociais nas decisões.

As consequências do descontrole financeiro mostraram um impacto significativo no campo emocional, com 37% dos respondentes apontando ansiedade ou estresse financeiro como principal efeito. Outras consequências relevantes incluíram a dificuldade em poupar ou investir (25%) e o comprometimento do orçamento mensal (20%), indicando prejuízos diretos na organização financeira e na estabilidade econômica. Conflitos familiares relacionados a dinheiro (11%) e a necessidade de contrair novas dívidas (8%) também foram observados, demonstrando que o descontrole financeiro pode gerar efeitos em diversas dimensões da vida do indivíduo, corroborando a natureza multifatorial da vulnerabilidade financeira.

Em relação ao endividamento, 18% dos participantes afirmaram nunca ter enfrentado situações de dívida. Contudo, os principais motivos para o surgimento de dívidas foram a falta de reserva financeira (31%), despesas emergenciais com saúde e outros imprevistos (31%), e consumo acima da renda disponível (31%). Má gestão do orçamento familiar (23%) e desemprego ou instabilidade profissional (22%) também foram citados. Esses resultados indicam que, embora haja uma percepção de controle financeiro em parte da amostra, persistem fragilidades estruturais que se manifestam em contextos de imprevistos e ausência de planejamento preventivo, reforçando que a vulnerabilidade financeira pode ser situacional.

Os achados consolidam a compreensão de que o equilíbrio financeiro não depende exclusivamente da percepção individual de controle, mas da combinação entre preparo técnico, organização prática e capacidade de resposta a adversidades. Isso corrobora a hipótese de que a educação financeira, aliada ao desenvolvimento de competências comportamentais, desempenha um papel central na mitigação da vulnerabilidade econômica. A despeito do registro de recorde de endividamento no país, conforme dados da Serasa (2026), a pesquisa revelou um certo equilíbrio nas respostas sobre controle e surgimento de dívidas, destacando a complexidade do fenômeno.

Impacto da educação financeira para o comportamento na vida adulta

Para aprofundar a compreensão da relação entre educação financeira e vieses comportamentais, as respostas foram categorizadas em cinco eixos temáticos. A primeira categoria, “Acesso e formação em educação financeira na infância”, revelou que 71% dos respondentes discordam de ter recebido orientação familiar ou educação financeira formal na infância ou adolescência. De forma similar, 64% indicaram discordância sobre ter tido acesso suficiente a informações para lidar com dinheiro antes da vida adulta. Esses dados sugerem uma lacuna formativa significativa na fase inicial da vida, impactando a capacidade de lidar com finanças na vida adulta.

A percepção sobre as consequências dessa lacuna educacional é notável, com 88% dos participantes concordando que a ausência de educação financeira na infância pode gerar dificuldades financeiras na vida adulta. Esse reconhecimento amplo sublinha a importância da formação financeira precoce para a construção de hábitos financeiros saudáveis. Nascimento (2019) corrobora essa visão, destacando que a aquisição de habilidades financeiras desde cedo promove maior conscientização sobre riscos e pode reduzir a vulnerabilidade econômica, reforçando a relevância de iniciativas de educação financeira desde as etapas iniciais da formação, tanto familiar quanto escolar.

A segunda categoria, “Comportamentos de planejamento e autocontrole financeiro”, mostrou que 63% dos respondentes se sentem preparados para planejar seus gastos mensais, e 84% costumam refletir antes de compras de maior valor, indicando atitudes de consumo conscientes. Contudo, o hábito de poupar parte da renda mensal apresentou um cenário mais heterogêneo, com 51% de concordância, mas 32% de discordância e 18% de neutralidade, sugerindo que a poupança ainda não está plenamente consolidada para uma parcela da amostra. A capacidade de renunciar a ganhos imediatos em favor de benefícios futuros também mostrou dispersão, com 38% concordando com a dificuldade e 38% discordando, evidenciando percepções divididas sobre a priorização de objetivos de longo prazo.

Esses resultados indicam que, embora muitos participantes demonstrem planejamento e reflexão no consumo, persistem desafios na formação de hábitos consistentes de poupança e na gestão do tempo financeiro, especialmente em decisões que exigem postergar recompensas imediatas. Tais achados reforçam a importância da educação financeira no desenvolvimento de competências para o planejamento de longo prazo e no fortalecimento do autocontrole nas decisões econômicas cotidianas, evidenciando que a capacidade de aplicação prática do conhecimento é tão crucial quanto o próprio conhecimento.

Na terceira categoria, “Comportamentos financeiros impulsivos e vieses comportamentais”, 51% dos respondentes indicaram alguma dificuldade em aplicar conceitos financeiros no dia a dia, sugerindo uma lacuna entre o saber e o agir. Quanto às decisões financeiras impulsivas, 44% reconheceram tomá-las em certas situações, enquanto 38% discordaram e 19% foram neutros. Esse padrão indica que a impulsividade é um comportamento presente, mas não predominante em todos os participantes. A confiança excessiva e a subestimação de riscos financeiros foram discordadas por 45% dos respondentes, com 33% concordando e 22% neutros, o que pode indicar que parte dos participantes não reconhece plenamente a influência de vieses cognitivos em suas decisões, um fenômeno discutido na literatura de finanças comportamentais (Almansour et al., 2023; Utama et al., 2024).

A educação financeira é reconhecida como um componente essencial para a confiança, mas também pode gerar excesso de segurança, levando a atitudes financeiras ingênuas e uso imprudente de crédito, como apontam Almansour et al. (2023) e Utama et al. (2024). Contudo, houve forte consenso (91%) de que a educação financeira pode reduzir comportamentos impulsivos e decisões inadequadas, com 76% de concordância total. Esse resultado reforça a percepção de que o desenvolvimento de competências financeiras atua como um mecanismo importante para promover maior racionalidade e controle nas decisões econômicas individuais, embora a literatura também sugira que jovens, mesmo com conhecimento, podem ter confiança subjetiva em produtos digitais arriscados (Wang e Zou, 2024; Tiwari e Saxena, 2025; Jaiswal, 2025).

A quarta categoria, “Aspectos emocionais e bem-estar financeiro”, revelou que 66% dos respondentes já vivenciaram endividamento, ansiedade financeira ou impacto de fatores emocionais nas decisões. Esse resultado indica que o endividamento não é um fenômeno isolado, mas uma condição presente na trajetória financeira de uma parcela significativa da amostra, com impactos diretos na qualidade de vida e na estabilidade emocional. A presença de ansiedade ou preocupação frequente com finanças pessoais foi expressiva, sugerindo que o tema financeiro está associado a tensões psicológicas recorrentes e que a gestão do dinheiro transcende a dimensão racional, afetando o bem-estar emocional.

A influência de fatores emocionais nas decisões financeiras foi amplamente reconhecida pelos participantes, indicando que emoções como ansiedade, impulso ou insegurança podem interferir diretamente na administração dos recursos. Esse achado reforça a perspectiva das finanças comportamentais, que aponta que as decisões financeiras não são exclusivamente racionais, mas fortemente influenciadas por aspectos subjetivos. A percepção de que a vulnerabilidade econômica está relacionada não apenas à renda, mas também ao comportamento financeiro, foi amplamente concordada, sugerindo uma compreensão mais abrangente do conceito de vulnerabilidade como resultado da interação entre condições objetivas e fatores comportamentais e emocionais.

Os resultados indicam que os participantes reconhecem uma forte relação entre emoções, comportamento e saúde financeira, evidenciando que o bem-estar financeiro não depende apenas de fatores econômicos, mas também da capacidade de lidar com aspectos psicológicos envolvidos na gestão do dinheiro. A dimensão psicológica tem forte presença na avaliação da vulnerabilidade, envolvendo baixa autoestima e pressão social que podem levar a comportamentos de consumo impulsivo, como discute Cunha (2024). Essa intersecção entre vulnerabilidade social e psicológica deve ser considerada na análise do superendividamento, reforçando a complexidade do fenômeno.

A última categoria, “Importância e políticas de educação financeira”, destacou o alto grau de concordância dos respondentes quanto à relevância da educação financeira como instrumento de desenvolvimento individual e social. Houve um elevado nível de concordância com a afirmação de que a educação financeira é fundamental para a construção de uma vida adulta economicamente equilibrada. Esse resultado indica que os participantes reconhecem amplamente o papel estruturante da educação financeira no desenvolvimento de competências relacionadas ao planejamento, controle e tomada de decisão, alinhando-se à visão de Pinheiro (2025) sobre a necessidade de programas educacionais para jovens.

No que se refere à inclusão de programas de educação financeira na educação básica, verificou-se forte concordância entre os respondentes, sugerindo apoio significativo à institucionalização desse tipo de formação no sistema educacional. Esse dado evidencia a percepção de que a educação financeira deve ser trabalhada de forma precoce e estruturada, contribuindo para a formação de indivíduos mais preparados para lidar com desafios econômicos ao longo da vida. Além disso, a crença de que mudanças comportamentais podem melhorar a saúde financeira foi predominante, indicando que os participantes atribuem importância significativa à adoção de hábitos financeiros mais conscientes, reforçando a ideia de que a educação financeira envolve a transformação de comportamentos e atitudes, e não apenas a transmissão de conhecimento técnico.

Em síntese, os achados da pesquisa indicam que a vulnerabilidade financeira na vida adulta é um fenômeno multifatorial, influenciado por uma complexa interação entre o nível de educação financeira, a presença de vieses comportamentais e a influência de fatores emocionais. Embora haja um conhecimento financeiro básico entre os respondentes, a dificuldade na aplicação prática, a ansiedade financeira, a ausência de metas claras e os desafios para poupar impactam significativamente o bem-estar financeiro. A educação financeira, especialmente quando iniciada na infância e aliada ao desenvolvimento de competências comportamentais, emerge como um pilar fundamental para o equilíbrio econômico e a mitigação da vulnerabilidade, corroborando a hipótese de que o controle financeiro depende tanto do conhecimento quanto da capacidade de aplicação prática e controle emocional.

4. Conclusão

O presente estudo investigou a relação entre educação financeira, vieses comportamentais e vulnerabilidade financeira na vida adulta, a partir das percepções dos indivíduos. Verificou-se que a vulnerabilidade financeira não se associou apenas à renda, mas também à ausência de educação financeira e à influência de fatores comportamentais, como impulsividade, falta de planejamento e aspectos emocionais. Observou-se que, apesar do conhecimento financeiro básico, os respondentes apresentaram dificuldades na aplicação prática, além de níveis significativos de ansiedade financeira, ausência de metas e desafios para poupar, impactando o bem-estar financeiro. A principal contribuição do estudo reside em reforçar a centralidade dos fatores comportamentais na explicação da vulnerabilidade financeira, ampliando o debate ao evidenciar que o conhecimento financeiro, isoladamente, não garante sua aplicação prática. Os achados indicam a necessidade de desenvolvimento de políticas públicas e iniciativas educacionais que integrem educação financeira e competências comportamentais, contribuindo para decisões mais conscientes e sustentáveis.

Como limitação da pesquisa, destaca-se o uso de percepções autorrelatadas, que podem sofrer influência de vieses individuais, e a não representatividade probabilística da amostra, concentrada em um perfil específico de respondentes, o que restringe a generalização dos resultados. Para estudos futuros, recomenda-se a ampliação da amostra, com maior diversidade regional e socioeconômica, bem como a utilização de métodos quantitativos e longitudinais que permitam aprofundar a análise das relações entre educação financeira, comportamento e vulnerabilidade ao longo do tempo. Reconhece-se, ainda, que a educação financeira iniciada na infância pode aprimorar o controle financeiro na vida adulta, sugerindo a exploração de intervenções educacionais precoces.

Referências Bibliográficas

Camargo, R., Fontolan Jr, M., Strehlau, S. 2020. Vulnerabilidade e educação financeira: A visão de gerentes de banco. RIMAR – Revista Interdisciplinar de Marketing, 10(2), 95–105.

Nascimento, T.G. 2019. O papel do comportamento financeiro e da educação financeira no endividamento. Dissertação (mestrado profissional MPGC) – Fundação Getulio Vargas, São Paulo.

Silva, E.A.C.; Vils, L. 2024. Vulnerabilidade financeira e poupamça nas populações de baixa renda no Brasil. Anais do XII SINGEP-CIK – UNINOVE – São Paulo – SP – Brasil – 23 a 25/10/2024 – https://submissao.singep.org.br/12singep/proceedings/arquivos/107.pdf

Soares, B. S. 2024. Educação financeira e vulnerabilidade social: como a falta de preparo impacta a vida adulta (Trabalho de Conclusão de Curso, Graduação

Trindade, L. B. 2023. Um estudo da educação financeira no Brasil: uma proposta de categorização de elementos do letramento financeiro. Tese (Doutorado em Educação Matemática) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação Matemática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq

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10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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