03 de agosto de 2026
Viabilidade da implantação de hospital na Zona Norte de São Paulo: uma análise multidimensional
Giulia Pires Coli; Vanderléia de Souza da Silva
DOI: 10.22167/2675-6528-202600850
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A desigualdade na oferta de serviços de saúde em grandes metrópoles, especialmente a carência de leitos hospitalares na Zona Norte de São Paulo, evidenciou a necessidade de ampliação da capacidade assistencial. Diante desse cenário, o estudo analisou a viabilidade da implantação de um novo hospital na Zona Norte de São Paulo, considerando as dimensões regulatória, social, urbana e de gestão de projetos. Adotou-se uma abordagem qualitativa, com estratégia de estudo de caso descritivo-exploratório, baseada em pesquisa documental sistemática. Utilizaram-se fontes secundárias como dados do IBGE, DATASUS, Rede Nossa São Paulo, documentos normativos e literatura acadêmica. A análise empregou ferramentas de gerenciamento de projetos, como Estrutura Analítica do Projeto (EAP), análise de riscos e mapeamento de partes interessadas. Os resultados revelaram demanda reprimida por serviços hospitalares na região e condições regulatórias e institucionais favoráveis ao empreendimento. Identificaram-se possibilidades de viabilização financeira por meio de arranjos de cofinanciamento, dependentes de decisões político-orçamentárias, e apontaram-se áreas urbanas potenciais para implantação, sujeitas a estudos locacionais específicos. Concluiu-se que a implantação do hospital demonstrou viabilidade nas dimensões analisadas, sendo o principal desafio a priorização política e a alocação de recursos públicos.
Palavras-chave: Gestão de projetos; Infraestrutura hospitalar; Planejamento em saúde; Políticas públicas; Saúde pública.
1. Introdução
O crescimento urbano acelerado e as profundas desigualdades territoriais nas grandes metrópoles brasileiras intensificaram os desafios inerentes à oferta equitativa de serviços de saúde. A disponibilidade de leitos hospitalares, em particular, emerge como um indicador crítico da capacidade de resposta dos sistemas de saúde às demandas epidemiológicas e demográficas da população. Na cidade de São Paulo, a Zona Norte destacou-se historicamente por um déficit significativo em sua infraestrutura hospitalar, o que sinaliza uma necessidade premente de ampliação da capacidade assistencial na região.
Essa assimetria na distribuição dos serviços hospitalares resulta em uma ineficiência sistêmica notável. Unidades localizadas em regiões centrais da cidade frequentemente operam com sobrecarga, enquanto pacientes de áreas periféricas enfrentam longos tempos de espera e precisam se deslocar grandes distâncias para acessar atendimentos de média e alta complexidade. A literatura especializada associa diretamente esse fenômeno a piores desfechos clínicos e ao aprofundamento das desigualdades em saúde (Carvalho et al., 2024). O princípio da equidade, fundamental no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, conforme estabelecido no artigo 196 da Constituição Federal de 1988, preconiza o acesso universal e igualitário à saúde (Brasil, 1988). Contudo, a distribuição geográfica dos hospitais é um dos principais determinantes do acesso, e sua concentração em áreas privilegiadas compromete a efetividade desse direito.
A dimensão do déficit na Zona Norte de São Paulo pode ser quantificada com precisão. A região abrange subprefeituras como Santana/Tucuruvi, Casa Verde/Cachoeirinha, Vila Maria/Vila Guilherme, Jaçanã/Tremembé, Freguesia do Ó/Brasilândia, Pirituba/Jaraguá e Perus/Anhanguera, totalizando aproximadamente 2,1 milhões de habitantes em uma área de 295,3 km² (IBGE, 2022; Agência Mural, 2024; Prefeitura de São Paulo, 2019). Apesar do crescimento populacional em algumas dessas subprefeituras, como Pirituba (dez por cento) e Perus (onze por cento) entre 2010 e 2022, a rede hospitalar permaneceu praticamente estática. Em 2020, levantamentos da Rede Nossa São Paulo (2020) evidenciaram que subprefeituras como Jaçanã/Tremembé e Perus sequer dispunham de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do SUS. Em contraste, apenas três subprefeituras centrais – Sé, Pinheiros e Vila Mariana – concentravam mais de sessenta por cento dos leitos de UTI do município, embora representassem apenas nove vírgula três por cento da população paulistana. A disparidade se acentuava com Pinheiros, que, com cerca de 257 mil habitantes, possuía 365 leitos de UTI do SUS, enquanto Vila Maria, com contingente populacional similar, contava com apenas dez leitos (IBGE, 2022; Agência Mural, 2024; Rede Nossa São Paulo, 2020).
As desigualdades persistiram em 2021, com Pinheiros apresentando 64,5 vezes mais leitos de UTI por 100 mil habitantes do que a subprefeitura de São Miguel (Rede Nossa São Paulo, 2022). Indicadores de saúde pública de 2025 confirmaram que os distritos da Zona Norte e Leste continuam com os piores resultados, incluindo mortalidade materna e infantil e tempo médio de espera para consultas na atenção primária (Rede Nossa São Paulo, 2025). O distrito de Anhanguera, na Zona Norte, registrou a menor idade média ao morrer da cidade, com 58 anos, em contraste com 82 anos em Alto de Pinheiros, na Zona Oeste (Diário Zona Norte, 2025). Embora a inauguração do Hospital Municipal da Brasilândia em 2020, com 270 leitos operacionais e investimento de R$ 275 milhões, tenha representado um avanço importante para a região noroeste da Zona Norte, esse reforço isolado não eliminou o déficit estrutural. As necessidades de leitos, calculadas pelos parâmetros do Ministério da Saúde de 2,5 a 3 leitos por mil habitantes (Brasil, 2002), superam amplamente a oferta existente, mesmo com a adição dessa unidade (Prefeitura de São Paulo, 2019, 2024a).
Nesse cenário de persistente desigualdade na distribuição de infraestrutura de saúde, a gestão de projetos emerge como uma disciplina estruturante para o planejamento e a execução de empreendimentos hospitalares de grande porte. A aplicação sistemática de conhecimentos, ferramentas e técnicas, desde a definição do escopo até o controle de riscos, aumenta significativamente a probabilidade de que iniciativas complexas sejam concluídas dentro do prazo, orçamento e requisitos de qualidade (PMI, 2017). Estudos empíricos demonstram que a adoção de boas práticas em gerenciamento de projetos pode reduzir atrasos e riscos regulatórios em projetos hospitalares públicos (Freire et al., 2016; Ferrante, 2022), contribuindo para a viabilização de empreendimentos que, de outra forma, poderiam enfrentar descontinuidade ou falhas.
A relevância deste estudo fundamenta-se na necessidade de subsidiar decisões públicas relacionadas à expansão da infraestrutura hospitalar em regiões com déficit assistencial, contribuindo para a promoção da equidade no acesso à saúde. Adicionalmente, o trabalho se justifica pela aplicação de ferramentas de gestão de projetos em um contexto real de planejamento de equipamentos públicos, ampliando a compreensão sobre como uma abordagem estruturada pode contribuir para a viabilização de empreendimentos complexos no setor público. Diante do exposto, o objetivo deste estudo é analisar a viabilidade da implantação de um novo hospital na Zona Norte de São Paulo, considerando as dimensões regulatória, social, urbana e de gestão de projetos.
2. Material e Métodos
O presente estudo adotou uma abordagem qualitativa, configurando-se como pesquisa aplicada de natureza descritiva e analítica. A estratégia de investigação utilizada foi o estudo de caso descritivo-exploratório, conforme preconizado por Gil (2017). Essa abordagem foi selecionada por sua adequação ao objetivo de compreender em profundidade o processo de diagnóstico e pré-planejamento de uma nova unidade hospitalar em território urbano periférico, na Zona Norte da cidade de São Paulo. A investigação abrangeu as dimensões epidemiológica, regulatória, urbana e de gestão de projetos, com foco nas fases de iniciação e planejamento do ciclo de vida do empreendimento.
A coleta de dados fundamentou-se exclusivamente em pesquisa documental sistemática, com consulta a fontes secundárias de natureza oficial, técnica e acadêmica, assegurando rastreabilidade e replicabilidade. As fontes incluíram dados censitários e demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), dados de saúde e leitos do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), e publicações da Rede Nossa São Paulo (2020, 2022, 2023, 2025). Foram também analisados documentos técnicos e normativos da Prefeitura de São Paulo e do Ministério da Saúde, publicações acadêmicas nas áreas de gestão de projetos e saúde pública, e contratos e relatórios do Programa Avança Saúde SP. Não se aplicaram critérios de seleção de participantes, uma vez que a pesquisa não envolveu seres humanos diretamente.
A análise dos dados foi conduzida por meio de análise de conteúdo temática. Os documentos foram sistematizados em função das dimensões analíticas do estudo, que incluíram a demanda e oferta de serviços hospitalares, os requisitos regulatórios, a viabilidade financeira e de financiamento, e a viabilidade urbana e locacional. Avaliou-se também a aplicabilidade das ferramentas de gerenciamento de projetos.
Os instrumentos de gerenciamento que estruturaram a análise foram elaborados com base nas boas práticas do Project Management Institute (PMI, 2017) e adaptados ao contexto hospitalar. O escopo do projeto foi definido por meio da ferramenta 5W2H, um acrônimo mnemônico que operacionalizou as entregas centrais do projeto, respondendo a perguntas sobre justificativa, objeto, método, responsabilidade e horizonte temporal (Finocchio Júnior, 2013). A Estrutura Analítica do Projeto (EAP) foi desenvolvida para fornecer uma visão hierárquica das entregas, abrangendo o diagnóstico das necessidades de saúde, o levantamento dos requisitos regulatórios, a análise dos desafios urbanos e logísticos, e a elaboração de instrumentos de gerenciamento.
O gerenciamento do cronograma abrangeu a definição e sequenciamento das atividades derivadas da EAP, a estimativa de suas durações e o desenvolvimento do cronograma consolidado. O sequenciamento seguiu o Método do Diagrama de Precedência (MDP), que representou graficamente as relações lógicas entre as atividades, permitindo a identificação do caminho crítico. A estimativa das durações baseou-se na técnica de três pontos, que considerou cenários provável, otimista e pessimista, refletindo as incertezas inerentes a projetos de infraestrutura pública. A experiência de um hospital inaugurado em São Paulo em 2020 serviu como parâmetro temporal de referência.
O gerenciamento dos riscos foi conduzido para identificar e analisar qualitativamente os eventos de risco, com o objetivo de mitigar impactos negativos. Os riscos foram identificados por meio de revisão documental e análise de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças (SWOT) do cenário institucional. A Estrutura Analítica de Riscos (EAR) organizou os eventos em categorias regulatória, de partes interessadas, financeira e técnico-urbana. A análise qualitativa utilizou a Matriz de Probabilidade e Impacto.
O gerenciamento das partes interessadas compreendeu os processos de identificação, análise e engajamento de todos os grupos ou organizações que poderiam impactar o projeto ou ser afetados por ele (PMI, 2017). A identificação baseou-se na Matriz de Poder e Interesse, que categorizou os stakeholders segundo sua capacidade de influenciar o projeto e seu nível de interesse nos resultados, permitindo a definição de estratégias de engajamento diferenciadas.
3. Resultados e Discussão
A análise da viabilidade para a implantação de um novo hospital na Zona Norte de São Paulo revelou um cenário complexo, mas com indicativos favoráveis, estruturado em torno de cinco dimensões principais: demanda e impacto social, regulação, financiamento, localização e a contribuição do instrumental de gerenciamento de projetos. Os resultados obtidos, fundamentados em pesquisa documental sistemática, permitiram a construção de um diagnóstico abrangente, que aponta para a necessidade e a factibilidade do empreendimento, embora com desafios específicos a serem superados. A aplicação de ferramentas de gestão de projetos foi crucial para organizar e mitigar os riscos inerentes a um projeto dessa magnitude no setor público.
A Estrutura Analítica do Projeto, concebida para este estudo, forneceu uma visão hierárquica e orientada a entregas, detalhando os pacotes de trabalho essenciais para a implantação da unidade hospitalar. Essa estrutura abrangeu desde a iniciação do projeto, com a elaboração do Termo de Abertura do Projeto e a identificação das partes interessadas, até o encerramento da pesquisa, incluindo o registro das lições aprendidas. A EAP assegurou que o escopo do projeto fosse integralmente coberto, eliminando ambiguidades e garantindo que todas as entregas previstas fossem consideradas, conforme o princípio da “regra dos 100%” (Xavier, 2009).
O gerenciamento do cronograma, desenvolvido com base na Estrutura Analítica do Projeto, utilizou o Método do Diagrama de Precedência para sequenciar as atividades e a técnica de três pontos para estimar suas durações, considerando cenários otimistas, prováveis e pessimistas. O horizonte temporal estimado para o projeto, desde a fase de iniciação até a abertura em regime de portas abertas, variou entre quatro e seis anos. Esse período foi calibrado pela experiência de um hospital inaugurado em São Paulo em 2020, cujo processo se estendeu por sete anos, com o caminho crítico concentrado nas atividades de licenciamento sanitário e aprovações regulatórias.
A gestão de riscos foi implementada com o objetivo de aumentar a probabilidade e o impacto de eventos positivos e reduzir os negativos, seguindo as diretrizes do Project Management Institute (PMI, 2017). A Estrutura Analítica de Riscos organizou os eventos identificados em quatro categorias: regulatório, stakeholder, financeiro e técnico ou urbano. A análise qualitativa, por meio da Matriz de Probabilidade e Impacto, classificou a severidade dos riscos, permitindo a priorização e o desenvolvimento de estratégias de resposta adequadas para cada um.
Entre os riscos identificados, os atrasos em licenciamentos sanitários foram classificados com severidade Alta, representando um desafio significativo. Outros riscos de alta severidade incluíram a resistência de comunidades e conselhos de saúde, restrições orçamentárias municipais e a escassez de profissionais de saúde especializados na Zona Norte. Para mitigar esses riscos, foram propostas estratégias como consultas prévias formais aos órgãos reguladores, consultas públicas e audiências participativas, cofinanciamento via programas como o Avança Saúde SP e mapeamento prévio de áreas municipais disponíveis.
O gerenciamento das partes interessadas envolveu a identificação, análise e engajamento de todos os grupos e organizações que poderiam impactar ou ser afetados pelo projeto. A Matriz de Poder e Interesse categorizou os stakeholders, definindo estratégias de engajamento diferenciadas. A Prefeitura de São Paulo e a Secretaria Municipal de Saúde, por exemplo, foram classificadas como de alto poder e alto interesse, exigindo um gerenciamento próximo com relatórios mensais e validação conjunta de entregas. Já a comunidade residente na Zona Norte, embora de baixo poder, demonstrou alto interesse, demandando informação contínua e canais de participação social.
Demanda: déficit documentado e benefícios esperados
O estudo confirmou um déficit substancial de leitos hospitalares na Zona Norte de São Paulo, quantificado por múltiplas fontes. Com uma população de aproximadamente 2,1 milhões de habitantes, a região necessita de 5.250 a 6.300 leitos, com base nos parâmetros do Ministério da Saúde de 2,5 a 3 leitos por mil habitantes (Brasil, 2002). Mesmo com a adição de uma unidade hospitalar inaugurada em 2020, que ofereceu 250 leitos, a capacidade total ainda cobriria apenas 72% das necessidades do território mais imediatamente beneficiado, evidenciando uma demanda reprimida persistente.
Subprefeituras como Perus e Jaçanã/Tremembé sequer dispunham de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do SUS em 2020, o que ilustra a gravidade da carência assistencial. Essa situação é consistente com o conceito de “vazio assistencial” em áreas periféricas de grandes metrópoles, onde a ausência de equipamentos hospitalares próximos está associada a maiores taxas de mortalidade por condições tratáveis e desfechos obstétricos desfavoráveis (Carvalho et al., 2024). Os indicadores de saúde pública da Rede Nossa São Paulo (2025) reforçam essa disparidade, com o distrito de Anhanguera, na Zona Norte, registrando a menor idade média ao morrer da cidade, de 58 anos, em contraste com 82 anos em Alto de Pinheiros.
Os benefícios esperados da implantação de uma nova unidade hospitalar são diretamente proporcionais à magnitude desse déficit. A redução dos tempos de deslocamento para pacientes em situação crítica é um impacto imediato, melhorando desfechos clínicos, especialmente em cardiologia e obstetrícia (Carvalho et al., 2024). Além disso, a nova unidade desafogaria os hospitais existentes, permitindo que operassem com menor sobrecarga e melhores indicadores de qualidade. A longo prazo, a criação de empregos qualificados, parcerias com instituições de ensino e o fortalecimento da rede de atenção especializada contribuiriam significativamente para o desenvolvimento social e econômico da região.
Desafios e viabilidade regulatória
A implantação de um novo hospital no Brasil está sujeita a um rigoroso conjunto normativo, incluindo a Resolução ANVISA RDC n. 50/2002, que estabelece os requisitos técnicos para projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde, e a Portaria GM/MS n. 3.390/2013, que institui a Política Nacional de Atenção Hospitalar e define critérios de habilitação no SUS. A análise demonstrou que esses instrumentos regulatórios foram aplicados com sucesso em empreendimentos recentes no município de São Paulo, como o hospital inaugurado em 2020, indicando a factibilidade normativa para projetos análogos.
O principal desafio regulatório identificado foi o risco de atrasos nos licenciamentos sanitários, classificado com severidade Alta. Esse tipo de risco é reconhecido como um dos mais severos em obras hospitalares públicas no Brasil (Ferrante, 2022), mas pode ser mitigado por meio da antecipação das consultas prévias aos órgãos reguladores. A experiência do hospital da Brasilândia, que levou sete anos desde a decisão de construção até a abertura, ilustra a importância de tratar o licenciamento como uma atividade crítica desde a fase de iniciação do projeto, devido à sua influência no cronograma geral do empreendimento.
Desafios e viabilidade financeira
A viabilidade financeira do projeto é um ponto crucial, com o risco de restrições orçamentárias municipais sendo o de maior impacto potencial, classificado como Alta. O investimento de R$ 275 milhões para o hospital inaugurado em São Paulo em 2020, parcialmente viabilizado pelo Programa Avança Saúde SP em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), serviu como referência. O custeio mensal de uma unidade sob gestão de Organização Social de Saúde (OSS) foi contratado em R$ 12 milhões em 2022, valor que se expandiu com a ampliação dos serviços em 2024.
O Programa Avança Saúde SP demonstrou a existência de capacidade institucional e arranjos de cofinanciamento para novos empreendimentos, com um investimento total de US$ 200 milhões e a entrega de 44 equipamentos em 2024. Isso indica que arranjos de cofinanciamento entre a gestão municipal e organismos internacionais são factíveis. A mitigação do risco de descontinuidade político-institucional, classificado como de severidade Média, envolve a documentação de acordos em instrumentos jurídicos vinculantes e o respaldo do Legislativo, conforme sugerido por Ferrante (2022) para projetos governamentais de grande porte.
Uma limitação importante na análise financeira foi a impossibilidade de projetar com precisão os valores de custeio de uma futura unidade. Os custos operacionais dependem de variáveis dinâmicas, como o mix de serviços, o perfil epidemiológico da população atendida e o porte da unidade, que só podem ser rigorosamente estimados por meio de um estudo de pré-investimento específico. No entanto, a existência de modelos de gestão por OSS e a experiência de cofinanciamento oferecem caminhos para a sustentabilidade financeira do empreendimento.
Desafios e viabilidade urbana e locacional
As subprefeituras de Perus e Pirituba foram identificadas como áreas prioritárias para a investigação locacional. Essas regiões combinam um crescimento demográfico recente expressivo, uma menor densidade de equipamentos de saúde e uma relativa disponibilidade de terrenos. A localização dessas subprefeituras em eixos viários metropolitanos importantes, como as Rodovias Anhanguera e Bandeirantes e a Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, favorece o acesso de veículos de emergência e o transporte de pacientes, o que é um fator positivo para a implantação de uma unidade hospitalar.
Contudo, o principal desafio locacional reside na insuficiência do transporte público de média e alta capacidade em bairros periféricos dessas subprefeituras. Esse fator pode limitar o acesso da população à unidade por meios coletivos, o que é consistente com a literatura que aponta a acessibilidade por transporte público como determinante para a utilização efetiva dos serviços de saúde pela população de menor renda (Carvalho et al., 2024). Além disso, as condições geotécnicas do solo, identificadas como risco, exigem análises detalhadas na fase de planejamento, pois variações geológicas podem impactar os métodos construtivos e os custos das fundações.
A análise locacional realizada neste estudo baseou-se em dados secundários, sem inspeção direta dos terrenos candidatos. Essa limitação aponta para a necessidade de um estudo de viabilidade locacional específico e aprofundado, que inclua avaliações in loco e considerações ambientais. A integração da acessibilidade viária e de transporte público no estudo de viabilidade urbana é fundamental para garantir que a futura unidade seja plenamente acessível à população que mais necessita.
Contribuição do gerenciamento de projetos para a viabilidade do empreendimento
O gerenciamento de projetos demonstrou ser um fator estruturante para a viabilidade do empreendimento proposto. A literatura especializada consistentemente aponta que a ausência de uma gestão estruturada é uma das principais causas de atrasos, sobrecustos e falhas de qualidade em projetos de infraestrutura pública (Freire et al., 2016; Ferrante, 2022). Os instrumentos desenvolvidos neste trabalho, como a Estrutura Analítica do Projeto, o registro de riscos e o mapeamento de partes interessadas, responderam diretamente a essa premissa.
A Estrutura Analítica do Projeto forneceu uma visão abrangente de todas as entregas, eliminando ambiguidades e assegurando a cobertura integral do escopo do projeto. O registro de riscos orientou a priorização dos eventos de maior severidade e direcionou ações de mitigação preventivas, enquanto o mapeamento de partes interessadas permitiu definir posturas diferenciadas para cada grupo de atores, maximizando o suporte político e social ao empreendimento. Essa abordagem estruturada contrasta com a trajetória de muitos projetos hospitalares públicos que, sem gerenciamento adequado, tendem a acumular atrasos e revisões de escopo.
Em síntese, a implantação de uma nova unidade hospitalar na Zona Norte de São Paulo apresenta viabilidade sob as dimensões analisadas, sustentada por uma necessidade documentada e quantificada, um marco regulatório aplicável sem barreiras intransponíveis, mecanismos potencialmente mobilizáveis de financiamento, um modelo operacional de referência via Organização Social de Saúde e a contribuição estruturante do gerenciamento de projetos. O principal obstáculo para a materialização da proposta reside na priorização política e na alocação orçamentária, e não em aspectos técnicos ou normativos, indicando que a decisão de avançar com o projeto é fundamentalmente uma questão de vontade política e planejamento estratégico de recursos públicos.
4. Conclusão
O presente estudo analisou a viabilidade da implantação de um novo hospital na Zona Norte de São Paulo, considerando as dimensões regulatória, social, urbana e de gestão de projetos. Verificou-se um déficit substancial de leitos hospitalares na região, com uma demanda reprimida que impacta negativamente os indicadores de saúde pública, como a menor idade média ao morrer em distritos periféricos. Identificou-se um marco regulatório consolidado e aplicável, com precedentes de sucesso em empreendimentos similares na cidade. Observou-se a existência de arranjos de cofinanciamento, como o Programa Avança Saúde SP, que demonstram a capacidade institucional para viabilizar financeiramente o projeto, embora condicionado a decisões político-orçamentárias. No âmbito urbano, subprefeituras como Perus e Pirituba foram apontadas como áreas prioritárias para investigação locacional, devido ao crescimento demográfico e à relativa disponibilidade de terrenos. A aplicação de ferramentas de gerenciamento de projetos, como a Estrutura Analítica do Projeto, o registro de riscos e o mapeamento de partes interessadas, demonstrou ser um fator estruturante para organizar o empreendimento e mitigar seus desafios, contribuindo para a promoção da equidade no acesso à saúde e para o desenvolvimento social e econômico da região.
Apesar da viabilidade técnica e normativa evidenciada, o estudo apresentou limitações importantes, como o caráter exclusivamente documental da pesquisa, sem validação empírica junto a stakeholders ou aplicação prática do projeto. Adicionalmente, não foi possível projetar com precisão os valores de custeio de uma futura unidade, dada a dependência de variáveis dinâmicas que demandam estudos de pré-investimento específicos. A análise locacional também se baseou em dados secundários, sem inspeção direta dos terrenos candidatos. Nesse sentido, sugere-se que investigações futuras avancem na realização de estudos de viabilidade econômico-financeira detalhados, análises locacionais in loco e na construção participativa do projeto com atores institucionais e sociais. Conclui-se que o principal obstáculo para a materialização da proposta reside na priorização política e na alocação orçamentária, e não em aspectos técnicos ou regulatórios, indicando que a decisão de avançar com o projeto é fundamentalmente uma questão de vontade política e planejamento estratégico de recursos públicos.
Referências Bibliográficas
Agência Mural. 2024. Censo 2022: confira a população em São Paulo por distrito. Agência Mural, São Paulo, 25 mar. 2024. Disponível em: <https://agenciamural.org.br>. Acesso em: abr. 2025.
Brasil. 1988. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988.
Carvalho, F.H.; Jesus, M.T.S.; Senra, L.X. 2024. Políticas públicas, gestão hospitalar e desenvolvimento local. Revista de Gestão e Secretariado, São Paulo, 15(11):1-25.
IBGE. 2022. Censo Demográfico 2022: resultados preliminares — população por distritos do município de São Paulo. IBGE, Rio de Janeiro.
Prefeitura de São Paulo. 2019. Termo de Referência — Hospital Municipal de Brasilândia. Secretaria Municipal da Saúde, São Paulo. Disponível em: <https://drive.prefeitura.sp.gov.br>. Acesso em: abr. 2025.
Rede Nossa São Paulo. 2020. A desigualdade na distribuição das UTIs em São Paulo. Rede Nossa São Paulo, São Paulo, 8 abr. 2020
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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