Artigo

23 de julho de 2026

Vazamentos de dados no Brasil sob a ótica da LGPD

Carolina Nogueira Arêas; Heinrich Da Solidade Santos

DOI: 10.22167/2675-6528-202600646

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A crescente digitalização de processos e serviços impulsionou a ocorrência de incidentes de dados, tornando a segurança da informação um pilar crítico para a sustentabilidade organizacional. Objetivou-se analisar o cenário brasileiro de incidentes de dados e diagnosticar as vulnerabilidades e conformidades vigentes. A metodologia empregou pesquisa qualitativa e exploratória, pautada no levantamento de casos de vazamentos ocorridos no Brasil. Esses casos foram analisados e comparados para identificar fragilidades, respostas organizacionais e sanções estabelecidas. Os resultados evidenciaram que a ausência de governança de dados e o descumprimento de protocolos de privacidade foram fatores determinantes para a magnitude dos incidentes estudados. A comparação entre os casos também ressaltou a relevância da atuação regulatória no país para a mitigação de danos aos titulares. Concluiu-se que o fortalecimento de infraestruturas tecnológicas, aliado a uma cultura rigorosa de proteção de dados, é fundamental para reduzir a recorrência de exposições indevidas no ambiente digital brasileiro.

Palavras-chave: Conformidade legal; LGPD; Segurança da informação.

1. Introdução

O cenário global contemporâneo é marcado por um desenvolvimento tecnológico contínuo e exponencial. Nas últimas décadas, o volume de dados disponíveis cresceu de forma acelerada, e a combinação da digitalização crescente com a imensa quantidade de dados gerados trouxe consigo desafios significativos relacionados à proteção dessas informações. Chaves et al. (2023) apontam que o grande volume de dados gerados, armazenados e compartilhados impacta tanto a comunidade científica quanto a sociedade em geral, exigindo novas estratégias para a gestão e segurança desses ativos digitais.

No Brasil, esse cenário de intensa digitalização não é diferente. O país tem enfrentado, nos últimos anos, uma série de incidentes de vazamento de dados pessoais, que afetam tanto órgãos públicos quanto empresas privadas. Esse fenômeno é impulsionado pelo avanço dos serviços digitais e pela crescente dependência tecnológica, que permeia atividades profissionais e o cotidiano, expondo dados sensíveis de milhões de indivíduos. Silva et al. (2023) destacam que o Brasil já oferecia cerca de 73,1% de seus serviços públicos por canais digitais, o que amplia significativamente a superfície de exposição a riscos. Os autores ressaltam que essa migração massiva para o ambiente digital não foi acompanhada por uma governança de cibersegurança proporcional, evidenciando que muitas instituições carecem de recursos e pessoal treinado para identificar e responder a ataques, tornando o ecossistema vulnerável.

Essa ampla exposição digital acarreta diversos problemas, com o uso indevido de dados vazados em fraudes e golpes crescendo consideravelmente e gerando impactos significativos. Magro Webber e Antonelo (2025) enfatizam que a proteção da privacidade e a integridade das informações pessoais, especialmente dados sensíveis, são condições indispensáveis para o cumprimento dos direitos garantidos pela Constituição. Isso demonstra que o tratamento inadequado dessas informações transcende o campo tecnológico, atingindo a esfera dos direitos fundamentais. Assim, o fortalecimento das medidas de segurança da informação torna-se uma questão não apenas técnica, mas também jurídica e social de grande relevância.

Nesse contexto, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), Lei nº 13.709/2018, promulgada em 2018, estabeleceu um marco regulatório fundamental para a proteção da privacidade e da segurança da informação no país. No entanto, a persistência e a recorrência de vazamentos de dados levantam questionamentos sobre a real eficácia das medidas de segurança adotadas pelas instituições, o cumprimento efetivo da LGPD e a capacidade da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de fiscalizar e aplicar sanções de maneira efetiva. Essa lacuna prática e teórica sobre a operacionalização da LGPD no enfrentamento de incidentes de dados justifica a necessidade de uma análise aprofundada.

Diante dessa problemática, o presente trabalho busca contribuir para a compreensão da dinâmica dos vazamentos de dados no Brasil e a atuação da LGPD. A pesquisa justifica-se pela urgência em avaliar a aplicabilidade e o impacto das sanções e mecanismos de resposta no cenário nacional, fornecendo subsídios para o fortalecimento da governança de dados. O presente trabalho teve como objetivo analisar a eficácia da LGPD na mitigação de vazamentos de dados no Brasil, por meio de um estudo comparativo entre incidentes ocorridos no país, buscando analisar as principais vulnerabilidades organizacionais e avaliar a aplicabilidade e o impacto das sanções impostas pela ANPD e órgãos relacionados por meio da comparação dos casos selecionados, com o intuito de compreender como esses mecanismos operam na prática.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se por uma abordagem qualitativa e exploratória, visando aprofundar a compreensão sobre a dinâmica dos vazamentos de dados no Brasil sob a ótica da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A natureza qualitativa permitiu uma análise detalhada e interpretativa dos fenômenos estudados, enquanto a abordagem exploratória foi fundamental para investigar um tema complexo e em constante evolução, com o objetivo de identificar padrões e relações.

O delineamento metodológico adotado foi o estudo de casos múltiplos, conforme a metodologia proposta por Yin (2015). Essa escolha permitiu tratar cada incidente de vazamento de dados como um experimento individual, possibilitando a busca por resultados semelhantes (replicação literal) ou contrastantes (replicação teórica). A utilização de múltiplos casos, em vez de um único, buscou conferir maior robustez e convicção às evidências, contribuindo para a identificação de padrões de vulnerabilidades e estratégias de resposta comuns a diferentes incidentes.

A unidade de análise empírica consistiu em incidentes de vazamento de dados pessoais ocorridos no Brasil, abrangendo tanto o setor público quanto o setor privado. O escopo temporal da pesquisa estendeu-se desde o ano de 2018, período da promulgação da LGPD, até o ano de 2025, quando a norma atingiu um estágio de aplicação mais consolidado. Esse recorte permitiu observar a evolução das respostas institucionais e a eficácia das sanções em diferentes fases de maturidade da legislação.

A seleção dos incidentes foi realizada em duas etapas distintas. Primeiramente, efetuou-se uma visão geral por meio de ferramentas de busca online, utilizando termos específicos para identificar entre oito e dez dos principais incidentes de vazamento de dados nos setores público e privado brasileiros. Posteriormente, os resultados obtidos foram submetidos a uma triagem rigorosa, baseada em fontes jornalísticas, para a escolha da amostra final.

A amostra foi delimitada em dez casos, sendo cinco incidentes representativos do setor público e cinco do setor privado. Os critérios de inclusão para a seleção desses casos basearam-se na individualidade, no volume de dados envolvidos e na cronologia dos eventos, garantindo uma representatividade que abarcasse o período de interesse da pesquisa e as particularidades de cada setor.

A coleta de dados fundamentou-se na análise documental e no registro de arquivos. Foram utilizados documentos públicos de órgãos de fiscalização, publicações científicas e comunicados oficiais emitidos pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Adicionalmente, textos e matérias jornalísticas especializadas foram empregados para complementar as informações e subsidiar a análise comparativa dos casos.

Os procedimentos de coleta de dados incluíram a identificação e o levantamento de informações sobre os incidentes, suas causas, as respostas organizacionais adotadas e as sanções estabelecidas. A análise documental permitiu aprofundar a compreensão sobre as vulnerabilidades organizacionais, as medidas corretivas implementadas e o grau de adequação aos princípios de segurança e prevenção estabelecidos pela LGPD.

A análise dos dados foi conduzida de forma qualitativa, por meio de uma abordagem comparativa e interpretativa dos casos selecionados. Buscou-se identificar semelhanças e diferenças nos fatores que contribuíram para a ocorrência dos incidentes, bem como nas respostas institucionais adotadas. A análise também visou mapear os impactos sociais, econômicos e jurídicos decorrentes dos vazamentos, além de identificar as causas técnicas, organizacionais ou humanas que os ocasionaram.

Para a organização e apresentação dos dados, utilizou-se a construção de quadros e gráficos comparativos, que auxiliaram na sistematização das informações sobre os incidentes. Essa organização permitiu uma visualização clara dos desafios enfrentados pelas instituições e contribuiu para a formulação de boas práticas em proteção de dados pessoais, alinhando-se à estrutura sistemática da LGPD, que serviu como referencial normativo para a avaliação dos casos.

Os cuidados éticos foram observados ao longo de todo o processo de pesquisa, garantindo a confidencialidade das informações e a preservação da identidade das partes envolvidas, quando aplicável. A pesquisa utilizou apenas dados de domínio público, conforme disponíveis em documentos oficiais e fontes jornalísticas, sem a necessidade de interação direta com indivíduos ou instituições para a coleta de dados primários.

3. Resultados e Discussão

A análise do cenário brasileiro de proteção de dados pessoais, conforme o objetivo deste estudo, revelou um panorama complexo e desafiador, marcado pela recorrência de incidentes de segurança que testam a eficácia da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A pesquisa, ao comparar dez casos de vazamentos ocorridos tanto no setor público quanto no privado, identificou que, embora a natureza dos dados expostos, como Cadastros de Pessoas Físicas (CPFs), nomes e endereços, apresente semelhanças entre os setores, as vulnerabilidades exploradas e os modelos de governança de dados exibem distinções notáveis. No setor privado, os incidentes frequentemente decorrem de desafios na proteção contra a comercialização indevida de dados, enquanto no setor público, a exposição de informações sensíveis aponta para a fragilidade de sistemas interconectados e a dificuldade em proteger bases de dados centralizadas.

Os incidentes analisados ao longo da pesquisa evidenciam um espectro diversificado de vulnerabilidades que, apesar de suas origens distintas, convergem para a violação dos princípios estabelecidos pela LGPD. Observou-se que as falhas incluem tanto eventos de natureza acidental quanto condutas institucionais inadequadas que podem dar margem a desfechos ilícitos. A maior incidência de episódios está ligada a vulnerabilidades de infraestrutura, lacunas de governança e ataques cibernéticos, conforme a análise dos casos. É fundamental compreender que o acesso não autorizado a uma base de dados, mesmo sem a publicação posterior das informações, já constitui um incidente de vazamento de dados, rompendo o pilar da confidencialidade, conforme a LGPD.

Exemplos como o ataque de ransomware ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) e os ataques ao ConecteSUS e ao Ministério da Saúde, que comprometeram a disponibilidade das plataformas, ilustram essa violação de privacidade por meio do acesso indevido. Nesses casos, a obtenção de acesso administrativo aos arquivos ou a interrupção dos serviços por invasão já configura o incidente de segurança, independentemente da publicidade ou sequestro das informações. Essa perspectiva amplia a compreensão sobre a abrangência dos vazamentos de dados, que não se limitam apenas à divulgação pública, mas também ao comprometimento da integridade e disponibilidade dos sistemas.

Visão Geral dos Incidentes Analisados

A análise dos incidentes revelou que a natureza dos acidentes de vazamento de dados, embora classificada em categorias como desvio de finalidade, erro humano, ataque cibernético e infraestrutura/governança, frequentemente apresenta interdependência. Por exemplo, um ataque cibernético muitas vezes é viabilizado por uma infraestrutura frágil ou pela ausência de uma governança de dados adequada. A falha na gestão e no suporte, portanto, pode ser um fator crucial que abre portas para invasões, tornando essas categorias mais conectadas do que isoladas na prática. Essa interconexão sublinha a necessidade de uma abordagem holística para a segurança da informação, que contemple tanto aspectos técnicos quanto de gestão.

Resumo das Falhas Identificadas

As ocorrências analisadas demonstram que as vulnerabilidades identificadas, embora variadas, convergem para a violação dos princípios da LGPD. As falhas abrangem desde eventos acidentais até condutas institucionais inadequadas que podem levar a desfechos ilícitos. A maior parte dos incidentes está associada a vulnerabilidades de infraestrutura, lacunas de governança e ataques cibernéticos. A compreensão de que o acesso não autorizado, por si só, já configura um vazamento de dados, independentemente da publicação, é crucial para a aplicação da LGPD, que define o incidente como o momento em que um terceiro não autorizado obtém acesso à base de dados, violando a confidencialidade.

No setor público, o incidente no TJRS, que foi alvo de um ransomware, exemplifica a necessidade de acesso administrativo para que o bloqueio dos arquivos ocorresse, caracterizando um acesso indevido. Similarmente, os ataques ao ConecteSUS e ao Ministério da Saúde, que comprometeram a disponibilidade das plataformas, também ilustram a violação da privacidade por acesso não autorizado. Esses casos reforçam que a segurança da informação não se restringe à proteção contra a divulgação, mas também à garantia da integridade e disponibilidade dos dados, conforme os preceitos da LGPD.

Análise da Evolução na Resposta a Incidentes no Setor Privado

A análise comparativa dos casos no setor privado revela uma evolução na postura das instituições brasileiras após a consolidação normativa da ANPD. No período anterior à vigência oficial da LGPD, exemplificado pelos casos do Banco Inter (2018) e Netshoes (2018), observou-se um comportamento defensivo e de negação. O Banco Inter, inicialmente, negou o vazamento de chaves criptográficas, confirmando a falha apenas após investigação do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT). Essa postura de omissão confrontou o paradigma da LGPD, que estabelece a transparência como um dever institucional, e resultou em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) de R$ 1,5 milhão (G1 Economia, 2018), demonstrando que a ausência de transparência eleva o ônus financeiro e reputacional.

No caso da Netshoes (2018), o MPDFT também firmou um TAC, determinando a notificação individual dos titulares afetados e o pagamento de indenização de R$ 500 mil (MPDFT, 2019). Em ambos os casos, a comunicação aos titulares deveria ter sido espontânea e tempestiva, em observância ao Capítulo I da LGPD. A revogação do certificado de segurança do Banco Inter devido a um *keyCompromise* (Tecnoblog, 2018) e a necessidade de um novo certificado emitido pela DigiCert evidenciam a gravidade técnica do episódio e a importância de medidas de segurança robustas para a integridade dos acessos.

A partir de 2022, os incidentes como os do Mercado Livre (2022) e da Netshoes (2024) indicam uma transição da negação para uma notificação controlada. O Mercado Livre, ao detectar acesso não autorizado ao código-fonte, acionou medidas de contenção e iniciou uma análise da infraestrutura (Tecnoblog, 2022), diferenciando-se da postura do Banco Inter. Contudo, a comunicação inicial foi genérica, motivando notificações de órgãos de defesa do consumidor para detalhamento (PROCON-SP, 2022). A Netshoes (2024) também reforçou protocolos de segurança e realizou comunicação preliminar, mas a ANPD solicitou detalhamento técnico (G1 Tecnologia, 2024), evidenciando que a celeridade na resposta, embora um avanço, ainda atua mais como contenção de danos jurídicos do que como compromisso voluntário com o direito à informação do cidadão.

A Resolução CD/ANPD n°4/2023, que estabeleceu prazos e ritos rigorosos para a notificação de incidentes, impulsionou essa celeridade. No entanto, o comportamento observado no setor privado sugere que essa movimentação em direção à transparência é muitas vezes induzida pelo receio de multas, convertendo a comunicação em uma estratégia de mitigação de riscos, e não necessariamente em uma cultura de abertura espontânea e eficiente. O caso da RaiaDrogasil (2021) exemplifica essa dinâmica, onde ajustes técnicos e a efetividade das medidas de conformidade para dados sensíveis só ocorreram após a intervenção direta e os questionamentos da ANPD em 2023 (Agência Brasil, 2025). Isso demonstra que a atuação da Autoridade Nacional é determinante para o cuidado com os dados pessoais, mesmo que a conformidade não seja espontânea.

Resposta a Incidentes no Setor Público

O setor público, regido pelo interesse coletivo, possui uma responsabilidade fundamental perante o cidadão, e a prestação de contas é indispensável na resposta a incidentes de vazamento de dados. Os incidentes de 2021, envolvendo o ConecteSUS, o Ministério da Saúde e o TJRS, que consistiram em ataques cibernéticos resultando na indisponibilidade de sistemas, foram respondidos com a divulgação de estimativas de restabelecimento dos serviços e a sinalização de investigação, seguida pelo detalhamento das causas e fundamentos técnicos. Mesmo em fase de maturação da ANPD, esses episódios evidenciaram um compromisso com a transparência.

Posteriormente, sob a vigência de uma ANPD já consolidada, os cenários seguiram o princípio de transparência. No caso do Sisbajud (2025), a instituição realizou uma comunicação ampla após a exposição de chaves Pix, adotando medidas de segurança e viabilizando a consulta individual para os cidadãos afetados (CNJ, 2025). Outro exemplo relevante foi o caso dos Correios (2025), que envolveu o vazamento de dados cadastrais de aproximadamente 2% de sua base, onde a empresa adotou medidas imediatas de segurança e notificou a ANPD, conforme a legislação (G1 Política, 2025). Em suma, a atuação do setor público frente a incidentes cibernéticos demonstrou compromisso e eficiência de comunicação, reafirmando seu dever de responsabilidade e integridade no trato com os dados públicos.

Impactos aos Titulares e a Transgressão de Direitos Fundamentais

A análise dos incidentes sob a ótica do Capítulo I da LGPD revela que a violação de dados pessoais transcende a esfera técnica, configurando uma transgressão ao direito fundamental de autodeterminação informativa. A perda de controle sobre os próprios dados expõe o titular a diversas consequências. No setor privado, os casos Serasa, Netshoes e Banco Inter ilustram exposições severas de registros cadastrais e financeiros que alimentam o ecossistema do crime cibernético, resultando em uma vulnerabilidade permanente que expõe o consumidor a golpes mesmo anos após o vazamento. Essa situação compromete a segurança digital do indivíduo e a sua capacidade de gerenciar suas próprias informações.

A gravidade desses vazamentos reside na perda definitiva de eficácia dos direitos previstos no Artigo 18 da LGPD. Uma vez que os dados são capturados e comercializados ilegalmente, o exercício do direito à eliminação (inciso VI) ou ao bloqueio (inciso IV) torna-se juridicamente inviável, pois o controlador original perde o domínio sobre a circulação das informações. Da mesma forma, a transparência sobre o uso compartilhado (inciso VII) é comprometida, já que a empresa perde a capacidade de informar quem possui o dado. Em última análise, a violação da segurança converte os direitos do titular em garantias meramente simbólicas, visto que nem a revogação do consentimento (inciso IX) é capaz de proteger o titular de bancos de dados que agora residem em infraestruturas criminosas.

Somando-se ao risco financeiro, o caso RaiaDrogasil evidencia um impacto de ordem ética, no qual ocorreu a utilização de dados sensíveis no âmbito da saúde para a construção de perfis comportamentais visando fins de publicidade direcionada (ANPD, 2025). Esse tratamento inadequado de informações de saúde viola a privacidade de dados sensíveis, conforme o Capítulo II, Seção II da LGPD, ao transformar o histórico médico em insumo mercadológico. Tal estratégia expõe o titular a táticas de indução ao consumo, onde a publicidade personalizada de medicamentos é usada para aumentar o lucro da empresa, aproveitando-se da vulnerabilidade do cidadão. Essa conduta viola o inciso I do Artigo 11, uma vez que o tratamento de dados não contou com o consentimento específico e destacado do titular para essa finalidade comercial.

O caso da RaiaDrogasil, que teve início em 2021, quando a rede de farmácias solicitava a biometria dos clientes em troca de descontos, levou o Programa de Defesa do Consumidor (PROCON) a emitir uma notificação pedindo esclarecimentos. Em resposta, a empresa optou por descontinuar a prática antes de qualquer imposição legal direta. A instituição também enfrentou sanções do Procon-MT por violações à LGPD (Silva e Cunha, 2023). Cerca de dois anos depois, em maio de 2023, a ANPD iniciou um processo de fiscalização que resultou, em fevereiro de 2025, na abertura de um Processo Administrativo Sancionador. Em conjunto, a Autoridade aplicou uma medida preventiva obrigando a RaiaDrogasil a oferecer alternativas de identificação aos clientes, além de exigir transparência sobre o prazo de retenção dos dados e o detalhamento sobre como essas informações são compartilhadas com outras empresas do grupo econômico (Agência Brasil, 2025).

Fragilidades no Dever de Guarda do Setor Público

No setor público, o vazamento de dados representa uma falha grave no dever de guarda, agravada pelo fato de o Estado tratar dados cuja entrega pelo cidadão é obrigatória para o exercício da cidadania, ou seja, o cidadão não pode evitar essa relação de dependência com as instituições estatais. O incidente no TJRS expôs uma fragilidade estrutural crítica, onde a falha na proteção do acesso ao ambiente virtual, que concentra a maior parte do ecossistema do tribunal, evidencia uma deficiência na classificação de criticidade dos ativos. Em uma estrutura de governança adequada, ambientes centrais exigem controles de segurança superiores, pois a exposição desses ativos compromete todo o sistema.

No caso do Ministério da Saúde (2020), a violação ao princípio da segurança foi desencadeada quando um colaborador do Hospital Albert Einstein publicou uma planilha contendo as senhas master dos sistemas em seu perfil público no GitHub. O funcionário relatou que a inclusão do arquivo visava a realização de testes, mas a planilha não foi removida após a tarefa (G1, 2020). Esse episódio revela que a fragilidade não residia apenas no erro humano individual, mas na falta de mecanismos que impedissem que chaves de acesso a dados de 16 milhões de pessoas fossem tratadas como arquivos em repositórios abertos. Este incidente de 2020 expôs uma vulnerabilidade crítica na gestão interna, diferente do ataque sofrido pelo órgão em 2021, que focou na indisponibilidade dos sistemas.

Tal exposição no Ministério da Saúde poderia ter sido impedida pela adoção de controles automatizados de varredura, como o *secret scanning*, que analisa automaticamente o código e arquivos em busca de padrões de chaves, tokens ou senhas. Além disso, a constante divulgação de boas práticas para os funcionários é fundamental, reforçando que a planilha deveria ter sido submetida a verificações mais rigorosas, especialmente em testes envolvendo senhas críticas, o que demonstra que o funcionário não estava adequadamente treinado. A ausência desses mecanismos evidencia que a falha não foi meramente acidental, mas o resultado de lacunas na implementação de medidas técnicas e de governança necessárias para assegurar a proteção de dados exigida nos Artigos 46 e 47 da LGPD.

Falhas de Governança no Setor Privado

Diferentemente do setor público, o setor privado é majoritariamente movido pela busca do lucro, o que pode levar à negligência quanto à atuação preventiva (Art. 6º, VII, da LGPD) e à implementação de medidas de segurança adequadas ao risco (Art. 46), comprometendo a integridade dos dados dos titulares. A megaexposição de dados da Serasa em 2021 exemplifica falhas críticas de governança, onde a vulnerabilidade não reside apenas em invasões externas, mas na própria estruturação do modelo de negócio. A investigação do Ministério Público Federal (MPF) sugere que a comercialização massiva e o enriquecimento de bases de dados facilitaram a perda de controle da cadeia de custódia, permitindo que informações estruturadas circulassem sem rastreabilidade de origem (Sigilo, 2021).

De forma análoga, a RaiaDrogasil demonstrou uma falha de governança por desvio de finalidade e negligência no compartilhamento com terceiros, ao integrar dados sensíveis para criar perfis comportamentais sem base legal adequada, ferindo os preceitos da LGPD, especificamente o Artigo 7º (dados pessoais comuns) ou o Artigo 11 (dados sensíveis). Assim, ambos os casos revelam que a segurança da informação tem associação direta à gestão e falham não em um *firewall* técnico, mas no dever e na conformidade ética. A priorização de interesses econômicos sobre a proteção de dados pode resultar em vulnerabilidades sistêmicas que comprometem a privacidade dos titulares.

Comparação da Regulação e Sanções da ANPD

A resposta das autoridades brasileiras aos incidentes de segurança apresenta uma dualidade no tratamento sancionatório, variando conforme a natureza jurídica do agente de tratamento. A fiscalização do setor privado insere-se em um ecossistema múltiplo, que abrange a ANPD, Procons, o Ministério Público e o Judiciário. Tal estrutura visa impor ética e controle a um segmento cuja natureza é marcada pela busca por lucro. No caso do setor público, este é alvo de medidas que visam a correção de processos e a transparência institucional para um setor voltado para o interesse público. Essa divisão está fundamentada no Artigo 52, § 3º da LGPD, que veda expressamente a aplicação de multas pecuniárias a órgãos públicos.

Tal estrutura justifica-se pela premissa de que multar o Estado penalizaria o próprio cidadão por meio do redirecionamento de recursos públicos, sem necessariamente garantir a melhoria da infraestrutura de TI. Diferentemente do setor privado, onde a sanção busca desestimular o lucro sobre o risco, no setor público o objetivo central é estabelecer segurança em serviços essenciais e garantir que o Estado cumpra seu dever de custódia sobre os dados dos cidadãos. Essa distinção regulatória reflete a compreensão das diferentes motivações e impactos dos incidentes em cada setor, buscando equilibrar a responsabilização com a manutenção dos serviços públicos essenciais.

Sanções Administrativas e Medidas Corretivas no Setor Público

Como mencionado, os órgãos públicos possuem restrições quanto às sanções, limitadas pelo Artigo 52, § 3º da LGPD, visando assegurar a transparência e a responsabilização institucional sem comprometer o erário ou a prestação de serviços essenciais à coletividade. No episódio das Chaves Pix no Sisbajud (2025), a resposta de transparência foi imediata por parte do Banco Central, que informou publicamente a ocorrência do incidente envolvendo 11.724 chaves Pix. O comunicado detalhou que não foram expostos dados sensíveis, como senhas ou saldos, nem informações sob sigilo bancário, e determinou-se que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informasse o canal para consulta dos cidadãos afetados (Banco Central do Brasil, 2025).

Nesse contexto, a ANPD atuou de forma coordenada com o Banco Central e o CNJ para garantir a conformidade com o Artigo 48 da LGPD, que exige a comunicação tempestiva de incidentes. Por essa razão, a Autoridade geralmente não emite uma nota separada caso o controlador, no caso, o CNJ ou o Banco Central, já tenha cumprido o papel de informar o público conforme a legislação exige. Dessa forma, a atuação da ANPD no setor público manifesta-se prioritariamente pelo monitoramento das medidas de transparência e pela exigência de reforço nos protocolos de segurança. Essa atividade ocorre por meio da abertura de processos administrativos destinados a verificar se as medidas corretivas adotadas pelo órgão foram suficientes.

O acesso a esses registros, especificamente aos autos dos processos de fiscalização, deve ser solicitado por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) nos casos em que tais documentos não são disponibilizados para consulta direta nos canais oficiais. Contudo, não foram encontrados documentos públicos detalhando a investigação da ANPD sobre esses casos específicos, o que sugere uma lacuna na publicidade das ações de fiscalização em relação ao setor público. Essa ausência de detalhamento público pode dificultar a avaliação completa da eficácia das medidas corretivas e da responsabilização institucional.

Práticas na Prevenção de Acidentes

No decorrer da pesquisa, foram abordadas diversas naturezas de vazamentos de dados, algumas interdependentes e outras isoladas. Em relação à falha humana, observou-se que o erro decorreu da falta de atenção. Para mitigar esse tipo de risco, tanto empresas privadas quanto o setor público devem adotar programas de capacitação e palestras de boas práticas, com foco não apenas técnico, mas também comportamental. Isso inclui treinamentos sobre engenharia social e *phishing*, além de revisões periódicas de processos, visando consolidar uma cultura de segurança que envolva todos os setores da organização. A conscientização e o treinamento contínuos são essenciais para reduzir a probabilidade de erros humanos que podem levar a incidentes de segurança.

Outro aspecto identificado foi o desvio de finalidade, caracterizado por uma má conduta deliberada com foco no lucro. Nesses cenários, em que a instituição pode estar ciente da exploração indevida, a principal ferramenta de contenção é a regulação rigorosa. Tal fiscalização é exercida atualmente pela ANPD e outros órgãos correlatos, que impõem sanções e diretrizes para coibir o uso de dados fora do escopo autorizado. A atuação regulatória é crucial para desincentivar práticas que priorizam o lucro em detrimento da privacidade e segurança dos dados dos titulares, garantindo a conformidade com os princípios da LGPD.

Ademais, as falhas de infraestrutura podem ser mitigadas por diversas frentes, conforme discutido no tópico “Fragilidades na Governança e no Dever de Guarda do Setor Público”. Destaca-se o emprego de controles automatizados de varredura (*secret scanning*) e o uso de cofres de senhas (*key vaults*). De forma complementar, a adoção da arquitetura *Zero Trust* mostra-se essencial, estabelecendo o princípio de que nenhum usuário ou dispositivo deve ser considerado confiável por padrão, independentemente de sua localização na rede. Essas medidas técnicas são fundamentais para fortalecer as barreiras de proteção e reduzir a superfície de ataque.

Em relação à mitigação em governança, o foco é administrativo. É fundamental a implementação do conceito de *Privacy by Design*, garantindo que a proteção de dados seja integrada desde a concepção de qualquer projeto ou sistema. Somado a isso, o estabelecimento de políticas rígidas de controle de acesso assegura que o fluxo informacional seja restrito e mais confiável. Contudo, cabe destacar que a existência de mecanismos de mitigação não garante sua aplicabilidade, pois muitas organizações enfrentam restrições financeiras que inviabilizam a adoção das medidas propostas teoricamente (Galvão et al., 2024). A viabilidade econômica é um fator limitante que precisa ser considerado na implementação de boas práticas de segurança.

Em síntese, os resultados evidenciam que a ausência de governança de dados e o descumprimento de protocolos de privacidade foram fatores determinantes para a magnitude dos incidentes estudados, tanto no setor público quanto no privado. A atuação regulatória da ANPD, embora com distinções entre os setores, mostrou-se crucial para mitigar danos aos titulares e impulsionar uma maior transparência e responsabilização institucional. O fortalecimento de infraestruturas tecnológicas, aliado a uma cultura rigorosa de proteção de dados e à implementação de práticas como *Privacy by Design* e *Zero Trust*, é fundamental para reduzir a recorrência de exposições indevidas no ambiente digital brasileiro e garantir a eficácia da LGPD na proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou analisar o cenário brasileiro de incidentes de dados e diagnosticar as vulnerabilidades e conformidades vigentes, avaliando a eficácia da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) na mitigação desses eventos. Verificou-se que a recorrência de vazamentos de dados no Brasil é impulsionada por uma complexa interação de falhas de governança, vulnerabilidades de infraestrutura e ataques cibernéticos, tanto no setor público quanto no privado. Observou-se que, embora a natureza dos dados expostos apresente semelhanças entre os setores, as vulnerabilidades exploradas e os modelos de governança de dados exibem distinções notáveis. No setor privado, a resposta institucional evoluiu de uma postura de negação para uma notificação controlada, muitas vezes motivada pelo receio de sanções, enquanto no setor público, demonstrou-se um compromisso mais consistente com a transparência e a comunicação eficiente. Identificou-se que a atuação regulatória da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) foi crucial para impulsionar a responsabilização e a adoção de medidas corretivas, mitigando danos aos titulares, cujos direitos fundamentais de autodeterminação informativa são severamente comprometidos pela perda de controle sobre suas informações.

Apesar dos avanços regulatórios, a pesquisa revelou limitações significativas, como a escassez de literatura científica consolidada sobre os casos estudados e a dificuldade em acessar detalhes públicos das investigações da ANPD no setor público, o que impede uma avaliação completa da eficácia das medidas corretivas. Adicionalmente, constatou-se que restrições financeiras podem inviabilizar a adoção de mecanismos de mitigação propostos teoricamente por muitas organizações. Para estudos futuros, sugere-se aprofundar a análise sobre a viabilidade econômica da implementação de medidas de segurança e aprimorar a publicidade das ações de fiscalização da ANPD. O fortalecimento de infraestruturas tecnológicas, a consolidação de uma cultura rigorosa de proteção de dados e a reeducação de profissionais digitais são essenciais para reduzir a recorrência de exposições indevidas e assegurar a plena eficácia da LGPD no ambiente digital brasileiro.

Referências Bibliográficas

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Banco Central do Brasil [BCB]. 2025. BC comunica ocorrência em entidade pública. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/20770/nota.

Chaves, I.T.; Fernandes, M.C.; Bertoleza, N.L.C.; Dias, G.A.; Sousa, M.R.F. 2023. Percepções e práticas no âmbito do compartilhamento e reuso de dados: análise dos pesquisadores vinculados aos Programas de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Brasil. Em Questão 29: e-127977.

Conselho Nacional de Justiça [CNJ]. 2025. Comunicado de Incidente de Segurança. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/comunicado-de-incidente-de-seguranca/

Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor [PROCON-SP]. 2022. Procon-SP notifica Mercado Livre. Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor. Disponível em: https://www.procon.sp.gov.br/procon-sp-notifica-mercado-livre/

G1 Bem-estar. 2020. Vazamento de senhas do Ministério da Saúde expõe informações de pessoas que fizeram testes de Covid-19. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/11/26/vazamento-de-senhas-do-ministerio-da-saude-expoe-informacoes-de-pessoas-que-fizeram-testes-de-covid-19-diz-jornal.ghtml.

G1 Economia. 2018. Banco Inter faz acordo de R$ 1,5 milhão com Ministério Público em caso de vazamento de dados. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2018/12/19/banco-inter-faz-acordo-de-r15-milhao-com-ministerio-publico-em-caso-de-vazamento-de-dados.ghtml.

G1 Política. 2025. Correios alertam usuários sobre vazamento de dados pessoais. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/06/25/correios-alertam-usuarios-sobre-vazamento-de-dados-pessoais.ghtml

G1 Tecnologia. 2024. Netshoes diz que dados de clientes podem ter sido vazados após incidente cibernético. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2024/07/17/netshoes-diz-que-dados-de-clientes-podem-ter-sido-vazados-apos-incidente-cibernetico.ghtml.

Galvão, H.L.; Oliveira, A.L.; Gino, B.S.B.D.; Viana, H.J.; Araújo, F.G.L.; Benevinuto, N.M.S.; Silva, D.L.F. 2024. Incidentes de Segurança: Regulação e Prática de Vazamento de Dados Pessoais Frente à LGPD. Id on Line Revista de Psicologia 18(70): e-4042.

Instituto Brasileiro de Defesa da Proteção de Dados Pessoais [Instituto Sigilo]. 2021. O mega vazamento de dados do Serasa. Disponível em: https://sigilo.org.br/o-mega-vazamento-de-dados-do-serasa/.

Ministério Público do Distrito Federal e Territórios [MPDFT]. 2019. MPDFT e Netshoes firmam acordo para pagamento de danos morais coletivos após vazamento de dados. Disponível em: https://www.mpdft.mp.br/portal/index.php/comunicacao-menu/sala-de-imprensa/noticias/noticias-2019/10570-mpdft-e-netshoes-firmam-acordo-para-pagamento-de-danos-morais-coletivos-apos-vazamento-de-dados.

Silva, A.J.; Silva, B.W.; Canedo, E.D. 2023. What is the future of Brazil’s cybersecurity governance?. Cadernos EBAPE.BR 21(6): e2023-0100.

Silva, Angélica Baptista; Cunha, Francisco José Aragão Pedroza (Orgs.). 2023. Lei Geral de Proteção de Dados e o controle social da saúde. 1. ed. Editora Rede Unida, Porto Alegre, RS, Brasil.

Tecnoblog. 2018. Banco Inter teve certificado revogado após chave de criptografia privada vazar na internet. Atualizado em dez. 2021. Disponível em: https://tecnoblog.net/noticias/banco-inter-certificado-revogado-vazamento-chave-privada/.

Tecnoblog. 2022. Mercado Livre é invadido por hackers do ConecteSUS e tem dados vazados. Disponível em: https://tecnoblog.net/noticias/mercado-livre-e-invadido-por-hackers-do-conectesus-e-tem-dados-vazados/

Webber, D.M. e Antonelo, A. 2025. O vazamento de dados pessoais sensíveis e a necessidade de comprovação do dano para fins de responsabilidade civil. Revista Brasileira de Direito Civil em Perspectiva 10(2): 10937.

Yin, R.K. 2015. Estudo de Caso: Planejamento e Métodos. 5. ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq

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17 de setembro de 2026

Heterogeneidade Territorial do Bolsa Família: uma Análise por Clusters e Efeitos Fixos

O Programa Bolsa Família (PBF) representa uma das políticas de proteção social mais relevantes globalmente, o que justifica a investigação de seus efeitos diante das acentuadas e heterogêneas desigualdades regionais brasileiras. O estudo avaliou os reflexos socioeconômicos dos repasses do programa sobre a saúde, a educação e o mercado de trabalho nos municípios brasileiros, no período de 2004 a 2019. Para isso, aplicou-se a técnica de agrupamento K-means para segmentação territorial e estimaram-se modelos econométricos de dados em painel com efeitos fixos, tanto a nível nacional quanto segregados por clusters. Os resultados revelaram a natureza anticíclica do PBF no mercado de trabalho, com uma relação negativa entre repasses e vínculos empregatícios formais em quatro dos cinco clusters, sugerindo que os recursos foram mais intensos onde o mercado formal falhou. Na saúde, o programa associou-se à redução significante da mortalidade infantil evitável em municípios com maior equilíbrio socioeconômico, mas não apresentou efeito detectável em agrupamentos de maior precariedade estrutural, indicando que a transferência de renda é necessária, porém insuficiente sem infraestrutura de saúde funcional. Na educação, a análise por subperíodos mostrou atenuação progressiva do coeficiente nacional, refletindo a convergência das taxas de matrícula para um patamar de alta inércia temporal. Concluiu-se que o PBF cumpriu seu objetivo de proteção social de forma anticíclica e territorialmente focalizada, mas sua capacidade de transformar indicadores estruturais dependeu da sinergia com investimentos em infraestrutura pública.

Palavras-chave: Bolsa Família; Mortalidade Infantil; Municípios Brasileiros; Painel de Dados; Política Pública.

Gestão Tributária

17 de setembro de 2026

Limites Jurídicos e Práticos da Dedutibilidade Retroativa dos Juros sobre Capital Próprio

A gestão tributária adequada é crucial para a saúde financeira das empresas, especialmente no complexo sistema tributário brasileiro. Os Juros sobre Capital Próprio (JCP) constituem um mecanismo jurídico relevante para a remuneração do capital próprio, utilizado para otimizar a carga tributária. O estudo investigou a controvérsia sobre a dedutibilidade de JCP referentes a exercícios anteriores à deliberação societária que autoriza seu pagamento. Aplicou-se a metodologia de pesquisa e análise documental empírica, baseada em “Normative Systems”, para identificar cinco propriedades representativas dos argumentos jurídicos na jurisprudência administrativa e judicial. Analisaram-se acórdãos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), revelando padrões decisórios predominantes, divergências interpretativas, incoerências argumentativas e significativa insegurança jurídica. Os resultados indicaram forte tendência de invalidação dos planejamentos envolvendo JCP extemporâneos na esfera administrativa. Contudo, o julgamento do Tema 1319 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) seguiu direção oposta, consagrando tese favorável à dedutibilidade e estabelecendo um precedente paradigmático que pode influenciar a jurisprudência administrativa e redefinir os critérios decisórios.

Palavras-chave: CARF; gestão tributária; limitação temporal; lucro real; planejamento tributário.

17 de setembro de 2026

Símbolos da Moda Esportiva: Consumo, Identidade e Status entre Consumidores Brasileiros

A moda esportiva consolidou-se como linguagem simbólica de distinção social nas últimas décadas, impulsionada pela expansão do mercado de wellness e pela reconfiguração dos padrões de prestígio nas sociedades de consumo contemporâneas. O estudo objetivou compreender como os símbolos da moda esportiva influenciaram a construção de identidade e pertencimento e sua associação ao prestígio social entre consumidores brasileiros que adquiriram produtos do setor nos últimos 12 meses. Desenvolveu-se a pesquisa por meio de levantamento bibliográfico e pesquisa descritiva, com levantamento do tipo survey aplicado a uma amostra não probabilística por conveniência de 445 consumidores brasileiros de moda esportiva. Os principais resultados indicaram que a maioria dos respondentes associou marcas esportivas a percepções de status social; mais da metade reconheceu o wellness como novo símbolo de prestígio; e parcela expressiva percebeu o sportstyle como mais aceito em ambientes formais de trabalho. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização, como preferência por logotipos visíveis, influência de redes sociais e disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente rejeitadas, revelando uma dissociação entre a atribuição simbólica de status e o comportamento de sinalização ostensiva. O consumidor brasileiro de moda esportiva com elevado capital cultural operou por meio de sinais simbólicos sutis e não ostensivos, compatíveis com o fenômeno do consumo inconspícuo, no qual a distinção social se manifestou de forma internalizada.

Palavras-chave: Consumo inconspícuo; Distinção; Prestígio social; Sportstyle; Wellness.

17 de setembro de 2026

Modelo Validado de Formação de Competência Técnica e Habilidades Não Técnicas em Indústrias Químicas Complexas

Analisou-se a implementação de um processo sistemático para o desenvolvimento e a atualização de competências técnicas e habilidades não técnicas em Operações Industriais e Segurança de Processo em uma indústria química de alta complexidade, pertencente a uma multinacional localizada no Polo Petroquímico de Camaçari, Bahia. O estudo objetivou implementar um processo mensurável e sustentável que assegurou a competência técnica e não técnica de 100% dos operadores, em conformidade com a legislação estadual da Bahia, diretrizes de institutos internacionais e políticas corporativas. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso de abordagem mista, que envolveu diagnóstico documental, entrevistas semiestruturadas com 85 operadores experientes, análise de tarefas críticas e o desenvolvimento e aplicação piloto de um programa modular de treinamento. Este processo evidenciou a necessidade de alinhamento e atualização sistemática das competências requeridas. Os resultados obtidos indicaram a eficácia do modelo proposto, com 100% dos operadores concluindo os módulos teóricos e práticos e alcançando uma taxa de aprovação superior a 80%, além de conformidade operacional em campo. O trabalho contribuiu com um modelo estruturado de formação, incluindo matriz de competências, programas modulares de treinamento e diretrizes para certificação e recertificação, demonstrando potencial de replicação em outras unidades industriais de elevada complexidade e risco, e fortalecendo a segurança de processo e a sustentabilidade operacional.

Palavras-chave: Capacitação; Competência; Habilidades não técnicas; Segurança de processo; Treinamento.

Compliance E Esg

17 de setembro de 2026

Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

Palavras-chave: accountability; adaptação climática; gestão de riscos; governança multinível.

Digital Business

17 de setembro de 2026

Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

Palavras-chave: Automação de Marketing; Business Intelligence; Inbound Marketing; Integração de Sistemas; RD Station.

17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

Gestão Escolar Integrada: o Papel da Direção Administrativa na Capacitação da Equipe de Gestão Pedagógica para a Compreensão do Orçamento Escolar

A administração escolar foi abordada sob a perspectiva da integração entre gestores administrativos e pedagógicos, com foco na participação democrática, capacitação e qualificação dos atores. O objetivo geral consistiu na elaboração de um Guia de Orientações para Orçamento, direcionado à equipe de gestão pedagógica e mediado pela direção administrativa, visando instrumentalizar esses profissionais para a compreensão e participação nos processos financeiros e decisórios da instituição. Para tanto, o estudo desenvolveu-se em uma instituição particular privada, adotando uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, com procedimento metodológico de estudo de caso. A pesquisa mapeou desafios práticos e dificuldades de comunicação entre os setores, analisou referenciais teóricos da gestão escolar e estruturou o instrumento formativo proposto. Os resultados demonstraram que a ausência de integração entre as áreas administrativa e pedagógica pode comprometer a efetividade da gestão escolar, evidenciando a necessidade de processos formativos contínuos que promovam entendimento mútuo, cooperação e construção coletiva de soluções. O Guia proposto fortaleceu a gestão democrática, elevou a qualificação da equipe pedagógica e melhorou os processos decisórios institucionais, destacando o papel formativo e estratégico do diretor administrativo.

Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

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