Artigo

03 de agosto de 2026

TinyDeskData: Um framework declarativo de transformações SQL no Google Apps Script

Gabriel Orlandini Moschioni; Lucas José de Souza

DOI: 10.22167/2675-6528-202600832

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A pesquisa abordou o desafio de gerenciar volumes moderados de dados, denominados “not too big data”, em contextos organizacionais que exigem governança, qualidade e reprodutibilidade, mas sem a complexidade de infraestruturas de grande escala. Avaliou-se a viabilidade de um framework declarativo para orquestração de transformações SQL, desenvolvido em JavaScript para o ambiente Google Apps Script e executado no BigQuery. O framework foi concebido como uma alternativa acessível para aplicar boas práticas de engenharia analítica. Inspirado em abordagens consolidadas como o paradigma ELT e ferramentas como o dbt, o sistema implementou resolução automática de dependências, materializações explícitas, testes automatizados de qualidade de dados e geração de logs estruturados, reduzindo a necessidade de código imperativo de controle. A viabilidade técnica da solução foi avaliada por meio de um estudo de caso baseado no Jaffle Shop Classic. Os resultados demonstraram que o framework executou pipelines analíticos completos, auditáveis e replicáveis, com uma configuração declarativa concisa. Concluiu-se que o framework proposto constitui uma alternativa pragmática para equipes com recursos limitados, ampliando o acesso a boas práticas de engenharia de dados sem a complexidade de infraestruturas de grande escala.

Palavras-chave: ELT; Engenharia analítica; “Not too big data”; Orquestração de dados; Qualidade de dados.

1. Introdução

A produção e o uso de dados tornaram-se elementos centrais na infraestrutura de organizações de diversos portes. Processos que antes eram integralmente analógicos migraram para sistemas digitais, e a proliferação de sensores e aplicativos resultou em um aumento exponencial das fontes de informação disponíveis para análise em tempo real.

Esse cenário impulsionou o interesse no conceito de Big Data, originalmente sintetizado por Laney (2001) pela combinação de volume, velocidade e variedade. Posteriormente, o conceito foi ampliado com dimensões como veracidade e valor (Gandomi e Haider, 2015). A ascensão do Big Data influenciou profundamente a engenharia de dados, levando ao desenvolvimento de arquiteturas e ferramentas de processamento distribuído, como os ecossistemas Hadoop e Spark, projetados para lidar com dados em escala massiva (White, 2012; Zaharia et al., 2016).

No entanto, muitas equipes analíticas não operam em uma escala que justifique a complexidade operacional associada a essas infraestruturas de Big Data. Mesmo com volumes de dados na ordem de gigabytes, é comum existir pressão por atualizações frequentes, integração de múltiplas fontes e validações sistemáticas de qualidade. Esses contextos situam-se em um espaço intermediário entre os ambientes de Big Data e o tratamento pontual com planilhas e scripts locais, sendo denominados neste trabalho como “not too big data”. Para esses cenários, a necessidade de governança e reprodutibilidade, comparáveis às práticas modernas, é um problema de engenharia que exige soluções com custo operacional compatível para equipes enxutas.

Do ponto de vista da engenharia de software, a gestão de pipelines analíticos é um desafio. Ferramentas como o dbt (data build tool) demonstraram a eficácia de abordagens declarativas para organizar transformações SQL em grafos acíclicos direcionados (DAGs). Essas ferramentas permitem que o desenvolvedor descreva o que deve ser produzido, enquanto o framework gerencia a ordem de execução, aplica estratégias de materialização e registra artefatos de auditoria (DBT Labs, 2026a).

Apesar de sua eficácia, a adoção de ferramentas como o dbt frequentemente exige uma cadeia de infraestrutura complexa, incluindo controle de versão externo, integração contínua/entrega contínua (CI/CD), gerenciamento de segredos e um orquestrador dedicado. Essas exigências representam barreiras significativas para equipes com recursos limitados, criando uma lacuna por ferramentas que apliquem os princípios da “analytics engineering” em ambientes mais acessíveis, sem a necessidade de infraestrutura especializada.

O Google Apps Script (GAS) surge como uma alternativa promissora para preencher essa lacuna. É uma plataforma amplamente disponível para organizações que utilizam Google Workspace, oferecendo execução gerenciada em nuvem, autenticação integrada, integração nativa com Google Drive e BigQuery, e um mecanismo de agendamento por triggers. Tais características eliminam a necessidade de provisionamento de servidores ou configuração de ambientes externos (Google, 2026a), reduzindo as barreiras operacionais de adoção.

Apesar das facilidades operacionais do GAS, o ecossistema carece de frameworks que incorporem os benefícios da orquestração declarativa de transformações SQL, incluindo resolução automática de dependências, testes de qualidade e geração de logs estruturados. A contribuição deste trabalho para a área de engenharia de software reside em demonstrar que princípios maduros da engenharia analítica podem ser implementados em ambientes alternativos e mais acessíveis, ampliando o alcance dessas práticas sem impor as complexidades de infraestrutura tipicamente associadas a elas. Assim, este trabalho busca avaliar a viabilidade de um framework declarativo para orquestração de transformações SQL no ambiente Google Apps Script, com execução no BigQuery, como alternativa acessível à aplicação de boas práticas de engenharia analítica em contextos organizacionais que lidam com volumes moderados de dados, mas mantêm exigências de governança, qualidade e reprodutibilidade, sem dispor de infraestrutura de grande escala.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa é de natureza aplicada, com objetivo exploratório, orientada ao desenvolvimento e avaliação de um artefato tecnológico. O objetivo central não foi testar hipóteses causais nem produzir generalizações estatísticas, mas investigar a viabilidade e as implicações práticas de uma solução computacional voltada a um problema recorrente em contextos organizacionais específicos.

Quanto à natureza dos dados, adotou-se abordagem qualitativa, uma vez que o fenômeno de interesse foi avaliado de forma interpretativa e descritiva. Isso ocorreu por meio da análise funcional do artefato, da observação de sua execução em cenário real e da avaliação crítica de evidências geradas, sem o recurso a mensurações estatísticas ou amostras representativas de população.

O delineamento adotado foi o estudo de caso instrumental (Gil, 2017; Yin, 2015), modalidade em que o caso não é estudado por seu interesse intrínseco, mas como meio para iluminar um fenômeno ou questão mais ampla. Neste trabalho, a viabilidade de implementar princípios de “analytics engineering” em um ambiente não especializado constituiu o foco principal. A unidade-caso foi o próprio artefato tinyDeskData.

O Google Apps Script (GAS) foi selecionado como ambiente de implementação devido à sua ampla disponibilidade em organizações que utilizam Google Workspace. A plataforma oferece execução gerenciada em nuvem, autenticação e autorização nativas, integração direta com Google Drive e BigQuery, e mecanismos de agendamento por triggers (Google, 2026a). Essas características foram consideradas para reduzir barreiras operacionais e favorecer a replicabilidade do experimento.

As restrições técnicas do GAS, como limites de tempo de execução, cotas de uso de APIs e ausência de paralelismo nativo, influenciaram diretamente as decisões de design do artefato. Tais elementos foram tratados como constitutivos do contexto de pesquisa, moldando a concepção do framework para operar dentro dessas limitações.

Para a coleta de dados, utilizaram-se duas técnicas complementares. A pesquisa bibliográfica fundamentou teoricamente as decisões de design do artefato, por meio do levantamento de práticas consolidadas da engenharia analítica, especialmente aquelas difundidas pelo dbt. Isso incluiu a resolução automática de dependências, definição explícita de materializações, execução de testes de qualidade de dados e geração de logs para rastreabilidade.

A pesquisa documental abrangeu a análise do código-fonte do framework desenvolvido, dos arquivos de configuração do pipeline de caso, dos logs de execução gerados e dos resultados dos testes de qualidade. Essas evidências primárias foram produzidas pelo próprio artefato durante a execução do estudo de caso, fornecendo subsídios para a avaliação de sua funcionalidade e comportamento.

O desenvolvimento do artefato seguiu um processo iterativo. Este processo envolveu o levantamento de requisitos a partir da literatura, a modelagem da arquitetura e dos módulos, e a implementação incremental em JavaScript no ambiente do GAS. Ciclos curtos de validação empírica foram realizados por meio de execuções reais no BigQuery. O código-fonte completo do framework encontra-se disponível em repositório público: https://github.com/moschionigabriel/tinydeskdata.

A avaliação do artefato foi conduzida por demonstração e análise de evidências, conforme proposto na literatura para estudos de caso de artefatos tecnológicos. Três classes principais de evidências foram consideradas: evidências funcionais, evidências de governança mínima e evidências de usabilidade técnica. Cada classe buscou verificar aspectos específicos do comportamento do framework.

A viabilidade funcional do framework foi avaliada por meio da execução completa do pipeline Jaffle Shop Classic (DBT Labs, 2026a). Este é um caso de referência amplamente utilizado pela comunidade de “analytics engineering” para demonstrar pipelines ELT com camadas, dependências e testes de qualidade.

O pipeline implementado no estudo de caso compreendeu duas etapas orquestradas: a ingestão de três fontes de dados (raw_orders, raw_customers e raw_payments) a partir de planilhas do Google Drive para o dataset seeds no BigQuery; e a modelagem de cinco transformações SQL organizadas em duas camadas, staging (stg_customers, stg_orders, stg_payments) e modelos finais (customers, orders), no dataset transform.

O tinyDeskData foi implementado como uma biblioteca JavaScript autocontida, estruturada em uma IIFE (“immediately invoked function expression”) que expõe três métodos públicos: `move`, `model` e `orchestrate`. Internamente, a execução de cada método é organizada como uma cadeia de funções compostas por meio de uma função `_pipeline`, que aplica sequencialmente transformações sobre um objeto de configuração.

O método `move` foi responsável pela etapa de ingestão. Ele aceita um objeto declarativo que especifica uma origem e um destino para os dados. Foram suportadas como fontes planilhas do Google Sheets, arquivos Excel (.xlsx) e CSV armazenados no Google Drive, consultas SQL ao BigQuery e funções escritas em Google Apps Script. Os dados puderam ser carregados no BigQuery ou exportados como CSV para o Drive.

O método `model` implementou a camada de transformação. Seu fluxo interno foi composto por cinco etapas encadeadas: leitura do código SQL bruto a partir de arquivos `.sql.html` hospedados no projeto do GAS; extração automática de dependências por meio de análise sintática da função `ref()`; ordenação topológica do grafo de modelos; compilação do código SQL; e execução sequencial dos modelos no BigQuery com aplicação de testes e estratégia de materialização.

A etapa de compilação foi projetada para resolver construções de template inspiradas na linguagem Jinja utilizada pelo dbt (DBT Labs, 2026b), como a função `ref()`, blocos condicionais e laços. O framework suportou quatro estratégias de materialização: `view`, `table`, `insert` e `incremental`, esta última com subestratégias `append`, `delete+insert` e `merge`.

Para cada modelo, o framework materializou o resultado em uma tabela temporária (`nome_tmp`) e executou testes de qualidade sobre essa tabela intermediária. Somente após a aprovação de todos os testes, o resultado foi promovido para a tabela definitiva. Caso algum teste falhasse, a tabela temporária era removida e o pipeline abortado.

O framework implementou quatro tipos de testes de qualidade, todos executados como consultas SQL sobre a tabela temporária de cada modelo antes de sua promoção. Os testes incluíram `unique` (verificação de duplicatas), `not_null` (identificação de valores nulos), `accepted_values` (validação de valores em um conjunto definido) e `relationships` (verificação de integridade referencial entre tabelas).

O método `orchestrate` atuou no nível mais alto de abstração, coordenando a execução de múltiplos nós, que podiam ser operações de `move` ou `model`, em uma ordem determinada por dependências explícitas. A orquestração também foi responsável pela criação e persistência de logs estruturados em formato JSON no Google Drive a cada execução, fornecendo um histórico auditável das execuções do pipeline.

A configuração completa do pipeline, incluindo ingestão, modelagem e orquestração, foi expressa em um único arquivo JavaScript. Este arquivo definiu estruturas declarativas para seeds (origem e destino), modelagem (schemas, estratégias de materialização, descrições e testes) e orquestração (nós e dependências). A lógica imperativa resumiu-se a uma única chamada à função `tinyDeskData.orchestrate(orchestra)`.

A execução de referência do pipeline Jaffle Shop Classic foi conduzida no ambiente do Google Apps Script em 14 de abril de 2026, com persistência automática do log estruturado gerado pelo método `orchestrate` no Google Drive. O log estruturado completo da execução encontra-se disponível no repositório público do projeto no GitHub.

3. Resultados e Discussão

A avaliação da viabilidade do framework tinyDeskData foi estruturada em torno de três classes principais de evidências: funcionais, de governança mínima e de usabilidade técnica. O comportamento do artefato foi observado durante a execução de um pipeline analítico baseado no Jaffle Shop Classic no ambiente BigQuery, permitindo uma análise crítica à luz da literatura e das limitações inerentes ao contexto. Os resultados obtidos demonstram a capacidade do framework em orquestrar transformações SQL, ao mesmo tempo em que revelam aspectos importantes sobre sua aplicabilidade e o alinhamento com as boas práticas da engenharia analítica em cenários de “not too big data”.

Arquitetura e estrutura do framework

O tinyDeskData foi concebido como uma biblioteca JavaScript autocontida, organizada em uma IIFE (immediately invoked function expression) que expõe três métodos públicos essenciais: `move`, `model` e `orchestrate`. Internamente, a execução de cada um desses métodos é gerenciada por uma cadeia de funções que se compõem sequencialmente através de uma função `_pipeline`. Essa abordagem funcional de composição por redução garante que o resultado de cada etapa alimente a próxima, promovendo a legibilidade e a extensibilidade do fluxo interno sem introduzir dependências complexas entre os módulos do framework.

O método `move` é o responsável pela etapa de ingestão de dados, atuando como uma camada EL (extract-load) dentro do ecossistema Google. Ele aceita um objeto declarativo que especifica a origem e o destino dos dados, oferecendo flexibilidade para diversas fontes, incluindo planilhas do Google Sheets, arquivos Excel (.xlsx) e CSV armazenados no Google Drive, consultas SQL diretas ao BigQuery e até funções personalizadas escritas em Google Apps Script. Para o destino, os dados podem ser carregados em tabelas do BigQuery ou exportados como arquivos CSV para o Google Drive, eliminando a necessidade de ferramentas externas de ingestão.

A camada de transformação é implementada pelo método `model`, cujo fluxo interno é composto por cinco etapas encadeadas. Primeiramente, ocorre a leitura do código SQL bruto a partir de arquivos .sql.html hospedados no projeto do Google Apps Script. Em seguida, o framework realiza a extração automática de dependências por meio da análise sintática da função `ref()`, que identifica as relações entre os modelos. A terceira etapa é a ordenação topológica do grafo de modelos, seguida pela compilação do código SQL, que resolve referências, variáveis de template e blocos condicionais como `is_incremental()`. Por fim, os modelos são executados sequencialmente no BigQuery, aplicando testes e estratégias de materialização.

A compilação do código SQL no tinyDeskData demonstrou a capacidade de resolver três tipos de construções de template, inspiradas na linguagem Jinja utilizada pelo dbt. Isso inclui a função `ref()`, que substitui referências simbólicas entre modelos por identificadores completos de tabela no BigQuery, e blocos condicionais que permitem a inclusão ou exclusão de trechos de SQL com base na existência prévia da tabela de destino. Além disso, o framework suporta laços, possibilitando a geração dinâmica de cláusulas SQL a partir de listas de valores declaradas no próprio template, confirmando a viabilidade de um motor de templates SQL dentro das restrições do Google Apps Script.

O framework também oferece suporte a quatro estratégias de materialização para os modelos. A estratégia `view` registra o modelo como uma visão lógica no BigQuery, sem persistência física dos dados, sendo ideal para camadas de staging e limpeza que não exigem armazenamento permanente. A estratégia `table` persiste o resultado como uma tabela com substituição completa a cada execução, adequada para modelos finais recalculados integralmente. Já a estratégia `insert` adiciona novos registros a uma tabela existente sem eliminar os anteriores, útil para tabelas de acumulação onde o histórico deve ser preservado. Por fim, a estratégia `incremental` oferece três subestratégias: `append` para novos registros sem verificação de duplicatas, `delete+insert` para remoção de registros existentes com base em chaves e inserção dos novos, e `merge` para aplicar uma operação upsert com base em chave única, sendo estas últimas ideais para atualizações parciais de tabelas dimensionais.

O método `orchestrate` opera no nível mais alto de abstração, coordenando a execução de múltiplos nós, que podem ser operações de `move` ou `model`, em uma ordem determinada por dependências explícitas entre eles. Este método também é responsável pela criação e persistência de logs estruturados em formato JSON no Google Drive. A arquitetura geral do framework tinyDeskData integra as fontes de dados com os métodos `move`, `model` e `orchestrate`, direcionando os resultados para destinos como tabelas BigQuery ou arquivos CSV no Drive, e gerando logs JSON no Drive. O pipeline interno do método `model` compreende leitura SQL, extração de dependências, ordenação topológica, compilação e execução com testes e materialização, tudo isso como uma composição funcional por redução.

Evidências funcionais

A viabilidade funcional do framework foi demonstrada pela execução completa do pipeline Jaffle Shop Classic, um caso de referência amplamente utilizado na comunidade de “analytics engineering” para ilustrar pipelines ELT com camadas, dependências e testes de qualidade. O pipeline implementado no estudo de caso envolveu duas etapas orquestradas: a ingestão de três fontes de dados (raw_orders, raw_customers e raw_payments) a partir de planilhas do Google Drive para um dataset de seeds no BigQuery, e a modelagem de cinco transformações SQL organizadas em duas camadas – staging (stg_customers, stg_orders, stg_payments) e modelos finais (customers, orders) – no dataset de transformação.

A resolução automática de dependências entre modelos constituiu um dos resultados mais relevantes. A função `_modelSetDependencies` percorreu o código SQL de cada modelo, identificando chamadas à função `ref()` por expressão regular e construindo dinamicamente o grafo de dependências. Em seguida, a função `_topologicalSort` aplicou o algoritmo de Kahn (Kahn, 1962) para determinar uma ordem de execução que respeitasse as precedências. Isso garantiu que os modelos de staging fossem construídos antes dos modelos finais, sem a necessidade de especificação manual da ordem de execução pelo desenvolvedor, o que é um pilar da abordagem declarativa.

No estudo de caso, os três modelos de staging foram materializados como views, uma decisão alinhada ao seu papel como camadas de limpeza e padronização que não exigem persistência física. Os modelos finais, `customers` e `orders`, foram materializados com a estratégia `insert`. A execução do pipeline foi bem-sucedida, com todos os cinco modelos compilados, executados e persistidos no BigQuery sem erros. O processo completo, desde a ingestão até a materialização final, foi concluído com uma única chamada à função `orchestrate`, demonstrando a capacidade do framework de gerenciar um fluxo de dados complexo de forma integrada.

Um aspecto crucial da implementação é a estratégia de execução em tabela temporária seguida de promoção condicional. Para cada modelo, o framework primeiro materializa o resultado em uma tabela temporária com um nome provisório (`nome_tmp`). Somente após a aprovação de todos os testes de qualidade sobre essa tabela intermediária, o resultado é promovido para a tabela definitiva. Caso algum teste falhe, a tabela temporária é removida e o pipeline é abortado com uma mensagem de erro. Esse ciclo de vida, que inclui compilação do SQL, execução em tabela temporária, testes de qualidade e promoção condicional, previne que dados corrompidos ou inconsistentes contaminem as camadas downstream, funcionando como uma proteção análoga a uma transação em bancos de dados relacionais, embora sem suporte nativo a rollback atômico no BigQuery.

Evidências de governança mínima

A segunda classe de evidências focou nos mecanismos de governança implementados pelo framework, especificamente os testes automatizados de qualidade de dados e a geração de logs estruturados. O tinyDeskData implementa quatro tipos de testes de qualidade, todos executados como consultas SQL sobre a tabela temporária de cada modelo antes de sua promoção ao destino final. O teste `unique` verifica a inexistência de valores duplicados em uma coluna, enquanto o teste `not_null` identifica a presença de valores nulos. O teste `accepted_values` valida se todos os valores de uma coluna pertencem a um conjunto explicitamente definido, e o teste `relationships` verifica a integridade referencial entre tabelas, detectando chaves órfãs por meio de uma operação de junção externa.

Esses quatro tipos de testes correspondem aos testes genéricos do dbt, sendo implementados no tinyDeskData como consultas dinâmicas construídas em tempo de execução. No estudo de caso, o pipeline aplicou um total de 15 asserções de qualidade distribuídas pelos cinco modelos. Os modelos de staging validaram a unicidade e nulidade das chaves primárias (customer_id, order_id e payment_id), além de restrições de valores aceitos para campos categóricos como `status` em `stg_orders` e `payment_method` em `stg_payments`.

Os modelos finais ampliaram o escopo de testes, incluindo a verificação de integridade referencial. Por exemplo, o campo `customer_id` na tabela `orders` foi testado contra a tabela `customers` por meio do teste `relationships`, garantindo que todo pedido estivesse associado a um cliente existente. A aprovação de todas as 15 asserções demonstrou que o pipeline produziu dados internamente consistentes e válidos, conforme as regras de domínio definidas pelo desenvolvedor. A integração dos testes ao ciclo de vida de cada modelo, e não como uma etapa separada, é uma decisão de design significativa, pois vincula a verificação de qualidade à condição de progresso do pipeline.

Essa propriedade, descrita como “fail-fast com propagação de bloqueio”, contribui significativamente para a confiabilidade do pipeline, assegurando que erros de qualidade sejam detectados na camada mais próxima de sua origem. Este mecanismo é fundamental para a qualidade de dados, um conceito multidimensional que abrange acurácia, consistência e completude (Wang e Strong, 1996), dimensões que são parcialmente cobertas pelos quatro tipos de testes implementados no framework. A detecção precoce de inconsistências impede que dados problemáticos se propaguem para as camadas subsequentes, mantendo a integridade do sistema analítico.

Em relação à rastreabilidade, o método `orchestrate` gera automaticamente um arquivo de log em formato JSON a cada execução do pipeline. Este log registra o nome da orquestração, os timestamps de início e fim da execução global, e para cada nó individualmente, os timestamps de início e fim, o tipo de operação (move ou model), e os resultados detalhados. No caso de modelos, os logs incluem os resultados de cada teste de qualidade aplicado, com indicação da coluna, do tipo de teste, do status (PASS ou FAIL) e do número de registros que falharam. Esse arquivo é persistido no Google Drive em uma pasta configurável, criando um histórico auditável das execuções do pipeline.

A presença de logs estruturados é particularmente relevante para equipes com recursos limitados, que nem sempre dispõem de infraestrutura dedicada de monitoramento. O log em JSON pode ser consultado programaticamente, importado para ferramentas de análise ou inspecionado manualmente para fins de auditoria. No contexto do paradigma de “analytics engineering”, a rastreabilidade é um requisito fundamental para a confiança nos dados produzidos (Hevner et al., 2004), e o mecanismo implementado pelo tinyDeskData atende a esse requisito de forma simples e portável, facilitando a auditoria e a depuração dos pipelines analíticos.

Evidências de usabilidade técnica

A terceira classe de evidências avaliou a clareza e concisão da configuração declarativa do pipeline em comparação com abordagens imperativas equivalentes. A premissa do paradigma declarativo na engenharia de dados é que o desenvolvedor deve descrever o que precisa ser produzido, e não como o sistema deve executar cada passo. No estudo de caso, a configuração completa do pipeline, incluindo ingestão, modelagem e orquestração, foi expressa em um único arquivo JavaScript de aproximadamente 70 linhas. Este arquivo define três estruturas declarativas: um array de seeds, um objeto de modelagem com a lista de modelos e seus schemas, e um objeto de orquestração que compõe os nós e suas dependências. A lógica imperativa se resume a uma única chamada: `tinyDeskData.orchestrate(orchestra)`.

Essa separação entre configuração e execução é estruturalmente análoga ao que o dbt oferece por meio de seus arquivos YAML e SQL. No entanto, o tinyDeskData apresenta uma diferença relevante ao consolidar a configuração, o código SQL e a orquestração em um único ambiente (o editor do Google Apps Script). Isso elimina a necessidade de ferramentas externas de controle de versão, CI/CD ou gerenciadores de ambiente. Para equipes que já operam dentro do ecossistema Google Workspace, essa consolidação reduz significativamente a barreira de entrada, tornando a adoção de boas práticas de engenharia analítica mais acessível.

A aplicação de metadados ilustra outro aspecto da usabilidade declarativa. Ao definir descrições para modelos e colunas no objeto de configuração, o framework automaticamente propaga essas informações para o catálogo do BigQuery por meio da função `_applyMetadata`, que utiliza o método `Tables.patch` da API. Isso significa que a documentação técnica dos dados produzidos pelo pipeline é mantida de forma coesa com a configuração, sem exigir etapas adicionais de catalogação. Essa funcionalidade simplifica a manutenção da documentação e garante que ela esteja sempre sincronizada com a estrutura dos dados.

Execução de referência e evidências temporais

A execução de referência do pipeline Jaffle Shop Classic foi realizada no ambiente do Google Apps Script em 14 de abril de 2026, com a persistência automática do log estruturado gerado pelo método `orchestrate` no Google Drive. O pipeline completo foi executado em 54 segundos. A etapa de ingestão (nó `ingestion`) consumiu 15 segundos, enquanto a etapa de modelagem (nó `modeling`) levou 39 segundos. O tempo total de execução situa-se bem abaixo do limite de seis minutos imposto pelo Google Apps Script para contas gratuitas, o que evidencia a viabilidade operacional do framework para pipelines de porte comparável ao caso de referência.

No que se refere à integridade dos dados, as 20 asserções de qualidade distribuídas pelos cinco modelos foram integralmente aprovadas, sem registros de falha em nenhuma coluna testada. Este resultado confirma que o mecanismo de tabela temporária seguido de promoção, combinado aos quatro tipos de teste implementados, operou conforme o previsto para o caso de referência. O log estruturado completo da execução encontra-se disponível no repositório público do projeto no GitHub, permitindo a auditoria e a verificação detalhada de cada etapa do processo.

Em síntese, os resultados demonstram que o tinyDeskData é um framework viável para orquestrar transformações SQL em ambientes Google Apps Script, com execução no BigQuery. Ele permite a construção de pipelines analíticos completos, auditáveis e replicáveis, utilizando uma configuração declarativa concisa. O framework atende às exigências de funcionalidade, governança mínima e usabilidade técnica, oferecendo uma alternativa pragmática para equipes com recursos limitados que buscam aplicar boas práticas de engenharia analítica em contextos de “not too big data”, sem a complexidade de infraestruturas de grande escala.

4. Conclusão

Este trabalho avaliou a viabilidade de um framework declarativo para orquestração de transformações SQL no ambiente Google Apps Script, com execução no BigQuery, como alternativa acessível à aplicação de boas práticas de engenharia analítica em contextos organizacionais que lidam com volumes moderados de dados, mas mantêm exigências de governança, qualidade e reprodutibilidade, sem dispor de infraestrutura de grande escala. Verificou-se que o framework tinyDeskData, desenvolvido em JavaScript, demonstrou capacidade de executar pipelines analíticos completos, auditáveis e replicáveis. Os achados indicaram que a solução implementou com sucesso a resolução automática de dependências, materializações explícitas, testes automatizados de qualidade de dados e geração de logs estruturados, reduzindo a necessidade de código imperativo de controle. A avaliação por meio de um estudo de caso baseado no Jaffle Shop Classic confirmou a funcionalidade do artefato, a governança mínima por meio de 20 asserções de qualidade aprovadas e a usabilidade técnica, evidenciada por uma configuração declarativa concisa que gerenciou um fluxo de dados complexo em 54 segundos. Assim, o framework proposto constitui uma alternativa pragmática para equipes com recursos limitados, ampliando o acesso a boas práticas de engenharia de dados sem a complexidade de infraestruturas de grande escala.

Apesar da viabilidade demonstrada, a análise dos resultados revelou limitações importantes. O Google Apps Script impõe limites de tempo de execução que podem restringir a aplicabilidade do framework a pipelines de complexidade moderada, reforçando seu posicionamento no nicho de “not too big data”. A ausência de paralelismo nativo no GAS implica que os modelos são executados sequencialmente, impactando o tempo total de execução em grafos de dependência mais amplos. Além disso, o framework não incorpora internamente mecanismos de versionamento de esquema, snapshots de dados ou gestão de ambientes, embora o ecossistema do Google Apps Script ofereça as fundações para tais implementações. A estratégia de distribuição do framework, por importação direta de código via URL, não oferece garantias de estabilidade de versão ou mecanismos de atualização controlada. Para estudos futuros, sugere-se a investigação de mecanismos de paralelismo, versionamento de esquema e integração com ferramentas de CI/CD no ecossistema do Google Apps Script, visando aprimorar a robustez e a escalabilidade da solução.

Referências Bibliográficas

DBT Labs. 2026a. Jaffle Shop Classic (repositório GitHub). Disponível em: <https://github.com/dbt-labs/jaffle-shop-classic>. Acesso em: 09 fev. 2026.

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White, T. 2012. Hadoop: the Definitive Guide. 3ed. O’Reilly Media, Sebastopol, CA, USA.

Zaharia, M.; Xin, R.S.; Wendell, P.; Das, T.; Armbrust, M.; Dave, A.; Meng, X.; Rosen, J.; Venkataraman, S.; Franklin, M.J.; Ghodsi, A.; Gonzalez, J.; Shenker, S.; Stoica, I. 2016. Apache Spark: A unified engine for big data processing. Communications of the ACM 59(11): 56-65.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq

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11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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