24 de julho de 2026
Sucessão feminina em empresa familiar: desafios e oportunidades entre agropecuaristas de Catalão e Região (GO)
Cynthia Correia Costa Gomide; André Luiz Fadel
DOI: 10.22167/2675-6528-202600671
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A participação da mulher na sucessão da empresa agrícola familiar, com foco nos desafios e oportunidades enfrentados por agropecuaristas de Catalão e região (GO), foi analisada. O estudo objetivou compreender o processo de sucessão em empresas agrícolas familiares sob a perspectiva de mulheres, identificando barreiras, oportunidades e estratégias para fortalecer sua participação como sucessoras. A pesquisa, de natureza qualitativa e quantitativa, empregou um estudo de caso múltiplo e coletou dados por questionário semiestruturado junto a 50 mulheres associadas à Associação Mulheres do Agro de Catalão e Região (AMACRE). Identificou-se um perfil educacional elevado entre as participantes, com 64% possuindo Ensino Superior, e predominância da atividade pecuária. Verificou-se que 54% das propriedades tinham sucessão definida, com a mulher indicada em 52% dos casos, mas apenas 22% possuíam planejamento formalizado. Constatou-se que 84% das mulheres percebiam a necessidade de se provar mais que os homens, enfrentando desafios como preconceito cultural, exigência de comprovação de competência e falta de apoio familiar. Concluiu-se que, além da capacitação técnica, é essencial uma atuação integrada com políticas de igualdade de gênero e incentivos à formalização sucessória para consolidar o protagonismo feminino e a sustentabilidade das empresas agrícolas familiares.
Palavras-chave: Agronegócio; Amacre; Desigualdade de gênero; Mulheres no agro; Planejamento sucessório.
1. Introdução
A participação da mulher na sociedade tem evoluído significativamente, transcendendo papéis tradicionais e conquistando maior independência em diversos setores, incluindo o mercado de trabalho. No contexto rural, essa transformação é notável. Os avanços tecnológicos e a modernização das atividades agrícolas demandam habilidades de gestão, conhecimento técnico e adaptação a novas tecnologias, características que muitas mulheres incorporam com excelência.
Contudo, apesar da crescente qualificação e engajamento, a mulher rural ainda enfrenta considerável resistência na sucessão familiar em empresas agrícolas. O ambiente rural, historicamente dominado por homens, impõe às mulheres a constante necessidade de provar sua competência e legitimidade para assumir posições de liderança (Siqueira et al., 2025).
Dados do Censo Agropecuário de 2017 (IBGE, 2019) indicam que, das 5,07 milhões de propriedades rurais no Brasil, aproximadamente 947 mil (18,7%) eram geridas por mulheres. A participação feminina na gestão ainda é minoritária.
A região Centro-Oeste, onde Goiás está inserido, apresenta um dos menores índices, com apenas seis por cento de propriedades rurais geridas por mulheres. Estudos mais recentes da Embrapa (2023), focados em estabelecimentos pecuários e agropecuários, reportam 10,2% de gestão feminina.
Essa “invisibilidade” da atuação feminina no setor pecuário, especialmente no Centro-Oeste, reflete barreiras culturais profundas que dificultam não apenas a gestão, mas também o reconhecimento formal das mulheres como sucessoras. A baixa participação na região pode estar ligada a fatores culturais e sociais que perpetuam a predominância masculina na sucessão familiar agrícola (Energia das Mulheres da Terra, 2020).
O aumento da escolaridade é um dos principais motores para o crescimento do protagonismo feminino no agronegócio (Barros et al., 2018). No entanto, Cordeiro, Biff e Paffaro (2019) identificam aspectos culturais, emocionais, de confiança, econômicos e múltiplos papéis como causas da desigualdade de gênero no campo.
A formação acadêmica elevada atua como capital cultural que se converte em capital simbólico, conferindo prestígio e autoridade (Bourdieu, 2019). Isso é essencial para validar a competência feminina e superar o “teto de vidro” (Eagly e Carli, 2007) em um ambiente que exige validação constante.
Apesar da qualificação e do engajamento ativo das mulheres na cadeia produtiva (Rocha Junior e Baltar, 2022), a transição geracional no agronegócio familiar é marcada por desafios. A persistência de preconceitos culturais e a necessidade de comprovação contínua da competência feminina são obstáculos ao pleno reconhecimento e à formalização da sucessão.
A divisão sexual do trabalho, que historicamente relega a mulher a funções secundárias (Scott, 1995; Kergoat, 2010), ainda desvaloriza o trabalho feminino e dificulta sua ascensão à liderança formal. A lacuna na formalização do planejamento sucessório é outro ponto crítico, expondo as mulheres a riscos futuros e fragilizando a segurança da transição geracional (Sznitowski, Sousa e Thiago, 2021; Toledo e Zonin, 2021).
Diante desse cenário, este estudo se justifica pela necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a participação da mulher na sucessão familiar agrícola, visando a subsidiar ações para a igualdade de gênero e a sustentabilidade rural. O objetivo é compreender como se dá o processo de sucessão nas empresas agrícolas familiares sob a perspectiva das mulheres associadas à Associação de Agricultoras do Sudeste de Goiás, identificando barreiras, oportunidades e estratégias para fortalecer sua participação como sucessoras.
2. Material e Métodos
Este estudo se caracterizou como uma pesquisa aplicada, combinando abordagens qualitativa e quantitativa, com natureza exploratória e descritiva. A estratégia metodológica central adotada foi o estudo de caso múltiplo, conforme proposto por Yin (2015), o que permitiu a investigação aprofundada de diferentes realidades dentro do fenômeno da sucessão familiar. Essa abordagem possibilitou uma compreensão detalhada das particularidades regionais, ao mesmo tempo em que estabeleceu um diálogo com padrões observados em âmbito nacional, visando a elucidar o papel da mulher na sucessão da empresa agrícola familiar.
A unidade de análise consistiu na participação da mulher no processo de sucessão em empresas agrícolas familiares. Os dados primários foram coletados junto a 50 mulheres associadas à Associação Mulheres do Agro de Catalão e Região (AMACRE), uma entidade sem fins lucrativos fundada em 03 de julho de 2023, com sede em Catalão, Goiás. O recorte empírico no município de Catalão e região de Goiás justificou-se pela relevância da agricultura familiar na área e pelo crescente protagonismo das mulheres no agronegócio goiano, especialmente por meio de coletivos organizados como a AMACRE.
A pesquisadora, sendo associada a essa rede e sucessora em sua própria propriedade rural, vivenciou diretamente os desafios, tensões e possibilidades que envolvem a transição geracional sob a perspectiva feminina. Essa imersão conferiu ao estudo um olhar situado, sensível e comprometido com as demandas reais do grupo. A amostra caracterizou-se como não probabilística por conveniência, sendo composta por mulheres de diferentes faixas etárias, níveis de escolaridade, tipos de atividade produtiva e regiões do estado de Goiás.
As participantes foram selecionadas por serem mulheres atuantes, gestoras ou herdeiras de propriedades rurais localizadas no estado de Goiás. Apesar das limitações inerentes a esse tipo de amostragem, a diversidade dos casos analisados possibilitou uma compreensão ampliada do fenômeno estudado. Essa diversidade foi considerada coerente com a proposta do estudo de caso múltiplo, permitindo explorar nuances e contextos variados dentro do tema central da pesquisa.
A coleta de dados empíricos realizou-se por meio da aplicação de um questionário semiestruturado, desenvolvido especificamente para este estudo. O instrumento foi composto por questões fechadas e abertas, aplicado digitalmente via plataforma Google Forms. O questionário foi direcionado exclusivamente a mulheres que se enquadravam nos critérios de participação, atuantes, gestoras ou herdeiras de propriedades rurais na região de Goiás.
As questões fechadas do questionário visaram à obtenção de dados quantitativos descritivos, permitindo caracterizar o perfil das participantes e as condições gerais da sucessão. Por sua vez, as questões abertas possibilitaram a apreensão de dados qualitativos, focando nas percepções, experiências e narrativas das participantes sobre o processo de sucessão familiar e as desigualdades de gênero enfrentadas no meio rural.
A análise dos dados foi conduzida de forma integrada, combinando os dados quantitativos, as respostas qualitativas do questionário e a literatura especializada pertinente, conforme as diretrizes de Bardin (2011). Os dados quantitativos foram tratados por meio de estatística descritiva, enquanto os dados qualitativos foram ponderados a partir da análise de conteúdo.
A análise de conteúdo envolveu as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, o que permitiu a identificação e organização de categorias temáticas. Essas categorias foram relacionadas à sucessão feminina, à percepção da desigualdade de gênero e ao planejamento sucessório. A triangulação dos dados obtidos contribuiu para maior robustez analítica do estudo.
A triangulação permitiu confrontar as evidências empíricas coletadas por meio das respondentes com os referenciais teóricos e dados nacionais existentes sobre o tema. Este procedimento metodológico fortaleceu a validade dos resultados e das interpretações apresentadas, garantindo uma análise mais abrangente e fundamentada sobre a participação da mulher na sucessão familiar agrícola.
3. Resultados e Discussão
O presente estudo, focado na participação feminina na sucessão de empresas agrícolas familiares em Catalão e região (GO), revelou um cenário complexo, marcado por avanços na qualificação e engajamento das mulheres, mas também pela persistência de barreiras culturais e institucionais. A análise dos dados coletados junto às associadas da Associação Mulheres do Agro de Catalão e Região (AMACRE) permitiu identificar um perfil de sucessoras ativas e preparadas, cujas percepções sobre os desafios e oportunidades no processo sucessório divergem, em alguns aspectos, da média nacional rural, mas confirmam a necessidade de validação constante e de formalização para a plena consolidação do protagonismo feminino no agronegócio.
Perfil sociodemográfico e atuação das respondentes
A amostra do estudo, composta por 50 mulheres associadas à AMACRE, apresentou uma distribuição etária com predominância de gerações intermediárias, onde as faixas de 46 a 55 anos e 36 a 45 anos somaram 52% do total. Essa concentração indica que a atuação feminina na gestão e sucessão rural já se encontra mais consolidada entre mulheres com experiência e maturidade profissional. Embora haja representatividade em todas as categorias etárias, a maior proporção em faixas mais maduras sugere um engajamento crescente e uma consolidação do papel da mulher no campo ao longo do tempo, permitindo uma análise aprofundada das percepções sobre a sucessão familiar.
Em relação à escolaridade, as participantes demonstraram um nível educacional significativamente elevado, divergindo da média rural nacional. Verificou-se que 64% das mulheres possuíam Ensino Superior, sendo 32% com Graduação, 32% com Pós-graduação e 22% com Mestrado ou Doutorado. Apenas uma parcela reduzida, 10%, possuía Ensino Médio ou Fundamental. Esse achado corrobora a literatura que aponta o aumento da escolaridade como um dos principais impulsionadores do protagonismo feminino no agronegócio (Barros et al., 2018), e também se alinha à revisão sistemática de Monteiro et al. (2024), que associa a maior escolaridade à permanência no campo e à participação nas decisões produtivas e sucessórias.
Sob a perspectiva da Teoria do Capital Humano, conforme Becker (1987), o investimento em educação eleva a produtividade e a eficiência na alocação de recursos. Ward (1987) complementa, destacando que o capital humano dos sucessores, que engloba educação, experiência e habilidades gerenciais, é crucial para a continuidade e o desempenho das empresas familiares. Assim, o alto nível de instrução observado nas respondentes não apenas reflete uma tendência de qualificação, mas também a acumulação de competências críticas necessárias para assumir a liderança em um setor altamente competitivo, funcionando como uma estratégia de legitimação em um ambiente historicamente masculino.
Quanto ao tipo de atividade predominante nas propriedades, a pecuária liderou as respostas, representando 42,2% da amostra, seguida por atividades mistas com 31,1% e agricultura com 26,7%. Esse dado está em consonância com o perfil do Centro-Oeste, região caracterizada por grandes propriedades e forte vocação pecuária, onde o tamanho médio dos estabelecimentos é superior à média nacional (IBGE, 2019). A atuação das mulheres nas propriedades também demonstrou um engajamento ativo, com 41,3% declarando atuar “Em ambas” (operações e gestão), 30,4% apenas na “Gestão”, 23,9% como herdeiras sem atuação direta e 4,3% exclusivamente na “Operação”. Isso confirma que a mulher na região não é uma figura passiva, mas está envolvida ativamente na cadeia produtiva, conforme discutido por Rocha Junior e Baltar (2022).
Cruzamento entre escolaridade e atuação
A análise do cruzamento entre o nível de escolaridade e a forma de atuação na propriedade revelou uma forte correlação entre alta qualificação acadêmica e envolvimento integral nas atividades rurais. Das 20 respondentes que atuam “Em ambas” (operação e gestão), 60% possuíam pós-graduação ou título *stricto sensu*. Além disso, das 14 mulheres que “Não atuam, mas são herdeiras”, 50% apresentavam pós-graduação ou mestrado/doutorado. Apenas uma respondente (2%) atuava exclusivamente na operação e possuía Graduação, indicando que a qualificação formal está presente mesmo nas atividades mais operacionais.
Esses dados sugerem que a formação superior não afasta as mulheres da prática rural, mas, ao contrário, funciona como um elemento de legitimação e empoderamento. A educação, nesse contexto, permite que as mulheres assumam papéis integrados na cadeia produtiva, alinhando-se aos argumentos de Barros et al. (2018) sobre a escolaridade como motor do protagonismo feminino no agronegócio. Bourdieu (2019) explica que o capital cultural, como a educação, pode ser convertido em capital simbólico, conferindo prestígio, autoridade e reconhecimento. Em um ambiente historicamente masculino, o diploma atua como um mecanismo de validação da competência feminina, facilitando a transição entre a técnica operacional e a estratégia gerencial e auxiliando na superação do “teto de vidro” (Eagly e Carli, 2007).
Cenário da sucessão familiar
Ao investigar a existência de sucessão definida na família, 54% das respondentes afirmaram que “Sim”, enquanto 18% disseram “Não” e 28% indicaram que a sucessão estava “Em discussão”. Esse percentual de indefinição ou ausência de planejamento reflete uma realidade comum no campo brasileiro, onde a transição sucessória frequentemente ocorre de forma informal ou tardia. A falta de clareza na definição da sucessão pode gerar incertezas e conflitos futuros, comprometendo a estabilidade e a continuidade da empresa agrícola familiar.
Em relação a quem é considerado o sucessor principal, 52% das respondentes (26 mulheres) indicaram a mulher, 22% (11) afirmaram estar indefinido, 14% (7) informaram ambos e 12% (6) apontaram o homem. Este resultado difere significativamente dos dados do Censo Agropecuário de 2017 (IBGE, 2019), que indicam apenas 19% de propriedades do agronegócio geridas por mulheres no Brasil, e dos dados da Embrapa (2023), que apontam 6% na região Centro-Oeste. Essa discrepância pode ser atribuída ao viés de seleção da amostra, composta por mulheres já engajadas e organizadas na AMACRE, representando um grupo de vanguarda (Sampieri et al., 2013). Contudo, o fato de 12% ainda indicarem o homem como sucessor principal, mesmo neste grupo, reforça a persistência da preferência masculina na herança da terra.
Percepção sobre desigualdade de gênero
A percepção das respondentes sobre seu próprio preparo para assumir a sucessão na propriedade rural foi avaliada em uma escala Likert de 1 a 5. Os resultados indicaram uma distribuição heterogênea, com uma média de 3,36 e mediana de 3, suger concentrada na faixa intermediária da escala. Especificamente, 10% se consideraram “totalmente despreparadas”, 10% “pouco preparadas”, 32% com “preparo moderado/parcial”, 22% “bem preparadas” e 26% “totalmente preparadas”. Essa percepção moderada de preparo pode ser interpretada não apenas como reflexo de lacunas formativas, mas também como uma expressão da necessidade de validação social e institucional da competência feminina, um aspecto que transcende a qualificação técnica e envolve dimensões culturais e simbólicas da sucessão rural, conforme Biff e Paffaro (2019) destacam o fator “confiança” como uma barreira.
Outros pontos destacados com alta concordância sobre a desigualdade de gênero na sucessão familiar foram: 84% das mulheres concordam que “precisam se provar mais que os homens”, 74% que “homens têm mais chances de assumir a sucessão no agronegócio”, 66% que “o gênero influencia diretamente na decisão da sucessão familiar”, 60% que “a cultura regional influencia na exclusão da mulher da sucessão” e 46% que “a família incentiva mais homens a permanecer no campo”. Essas percepções confirmam a persistência de uma barreira invisível de preconceito, mesmo diante da alta escolaridade e atuação prática das mulheres. Uma das respondentes expressou: “Mesmo trazendo resultados os homens ainda acham que eles que estão certos!”, ilustrando a “invisibilidade” da atuação feminina, conforme descrito pela Embrapa (2023).
Esse cenário, onde as mulheres sentem a necessidade de comprovar sua competência de forma contínua, é reforçado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2023). A FAO observa que estereótipos de gênero e a desvalorização do trabalho feminino persistem em sistemas agrícolas na América Latina, mesmo em contextos de transformação demográfica. A análise sociológica de Scott (1995) e Kergoat (2010) é pertinente, pois propõem o gênero como uma categoria constitutiva de relações sociais, onde a divisão sexual do trabalho frequentemente relega a mulher a funções secundárias ou invisíveis, e a desvalorização do trabalho feminino está intrinsecamente ligada a estruturas patriarcais que definem o “produtor” como masculino. A necessidade de validação constante, portanto, é um sintoma dessas estruturas profundas de exclusão.
Planejamento sucessório formal
Apesar da definição da sucessão em 54% das famílias, a formalização do planejamento sucessório ainda é um ponto crítico. Apenas 22% das respondentes afirmaram possuir algum tipo de planejamento formal, como testamento (10%), contrato (2%), holding (4%) ou outro instrumento jurídico (6%). A maioria das mulheres (62%) respondeu não ter nenhum planejamento formalizado, enquanto 16% não sabiam. Essa baixa taxa de formalização expõe as mulheres a riscos futuros e fragiliza a segurança da transição geracional, dependendo da boa vontade familiar e da informalidade.
Contudo, há uma clara consciência sobre a importância do planejamento sucessório. Aproximadamente 96% das respondentes concordaram que o planejamento sucessório pode facilitar a sucessão feminina, e a maioria (30 mulheres) concordou que a ausência de planejamento sucessório dificulta a sucessão da mulher. Isso indica que as mulheres reconhecem a necessidade de instrumentos jurídicos para garantir seus direitos, mas esbarram na resistência familiar ou na cultura de informalidade para implementá-los. A literatura aponta que a capacitação e a inovação tendem a aumentar a presença feminina, e o planejamento é uma ferramenta de gestão essencial para essa inovação (ABAG, 2020). A baixa formalização se alinha ao observado por Sznitowski, Sousa e Thiago (2021) e Toledo e Zonin (2021), que destacam a resistência ao planejamento formal devido a fatores culturais e ao receio de antecipar conflitos familiares.
Desafios identificados
As respostas à questão aberta sobre o maior desafio para a mulher assumir a sucessão foram categorizadas em três eixos temáticos principais. O primeiro é o “Preconceito e machismo cultural”, evidenciado por relatos como “O preconceito enraizado que agronegócio é ramo masculino” e “Ser respeitada e incluída pelo machismo que rodeia o agro”. Essas falas ilustram as barreiras invisíveis e os estereótipos de gênero que associam a liderança rural exclusivamente ao homem, exigindo das mulheres uma luta constante por reconhecimento e inclusão em um ambiente dominado por normas masculinas.
O segundo desafio é a “Necessidade de comprovar competência”, com evidências como “Ter que provar várias vezes que é boa no que faz! E mesmo trazendo resultados os homens ainda acham que eles que estão certos!” e “Ser testada infinitas vezes para provarmos que somos capazes”. Essa exigência de desempenho superior ao dos homens para obter o mesmo reconhecimento e legitimidade reflete a pressão constante sobre as mulheres para validar suas habilidades e conhecimentos, mesmo quando já demonstram resultados positivos, reforçando a ideia de que a competência feminina é constantemente questionada e subestimada.
O terceiro eixo temático é a “Falta de apoio familiar e preparo técnico”, com relatos como “Desafio é a própria família porque ainda se acredita que o homem tem mais capacidade gerencial que a mulher” e “Não ter sido treinada para gerir a fazenda”. Essas evidências apontam para a ausência de incentivo interno na família e a carência de treinamento técnico inicial para a gestão da propriedade, indicando que a maior dificuldade muitas vezes provém do próprio ambiente familiar, onde irmãos homens podem ser mais influenciados a seguir a carreira no campo, perpetuando a desigualdade de oportunidades e o subinvestimento na capacitação das mulheres para a liderança.
Esses desafios corroboram os fatores culturais e de confiança apontados por Cordeiro, Biff e Paffaro (2019), a “invisibilidade” destacada pela Embrapa (2023) e a literatura sobre o “teto de vidro” (Eagly e Carli, 2007), além da “invisibilidade produtiva” de mulheres rurais (FAO, 2023). A análise desses desafios ganha profundidade quando conectada aos conceitos de socialização de gênero e divisão sexual do trabalho, onde Kergoat (2010) argumenta que a divisão do trabalho não é apenas técnica, mas política, estabelecendo hierarquias de valor. Scott (1995) reforça que o gênero opera como um elemento primário de significação das relações de poder, explicando por que, mesmo com alta qualificação técnica, as mulheres ainda enfrentam resistência cultural para serem vistas como líderes legítimas na sucessão familiar. Tal cenário reforça a necessidade de intervenções que transcendam a capacitação técnica, enfrentando as barreiras estruturais de preconceito que perpetuam a assimetria na sucessão rural.
Em síntese, os resultados evidenciaram que, embora as mulheres associadas à AMACRE em Catalão (GO) possuam um perfil educacional elevado e atuem ativamente na gestão e operação das propriedades, essa qualificação técnica não se traduz automaticamente em reconhecimento social ou segurança jurídica. A persistência de barreiras culturais, a necessidade de comprovação constante da competência e a baixa formalização do planejamento sucessório são obstáculos significativos. Portanto, a consolidação da participação feminina na sucessão agrícola exige não apenas a capacitação individual, mas também uma atuação integrada que promova a conscientização familiar, o apoio institucional para a formalização jurídica e políticas públicas que garantam a igualdade de gênero e o acesso a recursos e tomada de decisão no agronegócio.
4. Conclusão
O presente estudo buscou compreender o processo de sucessão em empresas agrícolas familiares sob a perspectiva de mulheres associadas à Associação Mulheres do Agro de Catalão e Região (AMACRE), identificando as barreiras, oportunidades e estratégias para fortalecer sua participação como sucessoras. Verificou-se que as participantes possuíam um perfil educacional elevado, com 64% delas detendo Ensino Superior, e atuavam ativamente na gestão e operação de propriedades predominantemente pecuárias. Observou-se que, embora 54% das propriedades já tivessem a sucessão definida, com a mulher indicada em 52% desses casos, apenas 22% contavam com planejamento sucessório formalizado. Identificou-se que 84% das mulheres percebiam a necessidade de se provar mais que os homens, enfrentando desafios como o preconceito cultural, a exigência de comprovação de competência e a falta de apoio familiar.
A análise dos resultados revelou que, apesar da alta qualificação técnica e do engajamento prático, essa preparação não se traduz automaticamente em reconhecimento social ou segurança jurídica para as mulheres no agronegócio. A principal contribuição do estudo reside na explicitação de que a consolidação do protagonismo feminino na sucessão agrícola transcende a capacitação individual, exigindo uma atuação integrada. Esta deve promover a conscientização familiar para a mudança cultural, o apoio institucional para a formalização jurídica do planejamento sucessório e a implementação de políticas públicas que garantam a igualdade de gênero no acesso a recursos e na tomada de decisões. Uma limitação do estudo decorre da amostra ser composta por mulheres já engajadas na AMACRE, o que pode indicar um viés de seleção e não representar a média geral do produtor rural, mas sim um grupo de vanguarda. Contudo, mesmo neste grupo, a persistência da preferência masculina na herança da terra foi notada, reforçando a necessidade de intervenções estruturais.
Referências Bibliográficas
Associação Brasileira do Agronegócio [ABAG]. 2020. Mulheres no Agronegócio. Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro. Relatório sobre as mulheres e o seu papel nas zonas rurais. Sumário Executivo, fase 1 – 2016. Disponível em: https://abag.com.br/perfil-da-mulher-no-agronegocio-brasileiro-sumario-executivo-2016/. Acesso em: 14 jan. 2026.
Bardin, L. 2011. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.
Barros, G. S. C.; Castro, N. R.; Gilio, L.; Souza Junior, M. L.; Morais, A. C. P.; Almeida, A. N. 2018. Mulheres no Agronegócio.Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [CEPEA], Piracicaba, v. 1, n.1. Disponível em: https://www.cepea.org.br/upload/kceditor/files/Mulheres%20no%20agro_FINAL(3).pdf. Acesso em: 14 mar. 2025.
Bourdieu, P. 2019. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
Cordeiro, A.; Biff, M.; Paffaro, R. 2019. Mulheres do Agro: inspirações para vencer desafios dentro e fora da porteira. São Paulo: Letramento.
Eagly, A. H.; Carli, L. L. 2007. Through the labyrinth: the truth about how women become leaders. Boston: Harvard Business School Press.
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária [Embrapa]. 2023. Mulheres dirigem 1,7 milhão de propriedades rurais no Brasil e continuam quase invisíveis. Embrapa. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/85746945/mulheres-dirigem-17-milhao-de-propriedades-rurais-no-brasil-e-continuam-quase-invisiveis. Acesso em: 18 jan. 2026.
Energia das Mulheres da Terra. 2020. Mapa, Embrapa e IBGE apresentam os dados sobre mulheres rurais.On-line, Energia das Mulheres da Terra. Disponível em https://www.EMBRAPA.br/busca-de-notícias/-/noticia/50779965/mapa-embrapae-ibge-apresentam-os-dados-sobre-mulheres-rurais. Acesso em: 14 mar. 2025.
Food and Agriculture Organization of the United Nations [FAO]. 2023. La situación de las mujeres en los sistemas agroalimentarios: un enfoque regional para América Latina y el Caribe. FAO, Santiago. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/items/458f99c9-3117-43d9-80d6-3cc932504c1f. Acesso em: 31 mar. 2026.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE]. 2019. Censo Agropecuário 2017: Resultados definitivos. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: https://censos.ibge.gov.br/agro/2017. Acesso em: 15 jun. 2025.
Kergoat, 2010 [Referência completa não encontrada no documento original]
Monteiro, E. P.; Martins, C. M.; Araújo, J. G. de; Brabo, M. F.; Santos, M. A. S. dos. 2024. Sucessão na agricultura familiar brasileira: uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Educação do Campo, v. 9, e15729.
Rocha Junior, C. J. Z. da; Baltar, C. S. 2022. Women’s participation in the management of Brazilian rural enterprises. Research, Society and Development, 11(16).
Siqueira, K. M. de; Junges, V. de C.; Facco, A. L. R.; Dal-Soto, F.; Pieniz, L. C. C. 2025. Sucessão familiar: desafios enfrentados por mulheres no contexto da agricultura. In.: XXVII Engema – Encontro Internacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente, 1 a 4 dez.
SZnitowski, A. M.; Sousa, P. C.; Thiago, F. 2021. Indicadores organizacionais e planejamento sucessório em empreendimentos rurais de grande porte: um estudo no estado de Mato Grosso. Interações, Campo Grande, v. 22, n. 1, p. 123-138.
Toledo, E. N. B.; Zonin, V. J. 2021. A sucessão geracional no meio rural em cinco estados brasileiros: possibilidades e limites. Emancipação, Ponta Grossa, v. 21, e2114643, p. 1-16.
Yin, R. K. 2015. Estudo de caso. 5. ed. Porto Alegre: Bookman.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

