31 de julho de 2026
Sistema SaaS integrado para pousadas: gestão unificada de hospedagem, restaurante e financeiro
Igor Brandão Fagundes do Nascimento; Victor Inácio de Oliveira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600910
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
Micro e pequenas pousadas brasileiras enfrentam desafios na transformação digital, operando com sistemas desconectados e soluções de mercado inacessíveis por custo ou complexidade, especialmente na integração com restaurantes. Para endereçar essa lacuna, desenvolveu-se uma solução SaaS em nuvem que unificou a gestão de hospedagem, restaurante e financeiro para essas pousadas, visando eliminar o retrabalho manual de lançamentos e proporcionar uma visão gerencial consolidada da receita. Adotou-se pesquisa aplicada com abordagem quali-quantitativa e desenvolvimento iterativo, suportada por uma stack moderna (C#/.NET 8, Angular 19, SQL Server, Docker e Azure), organizada segundo os princípios da Arquitetura Limpa. A metodologia incluiu revisão bibliográfica, benchmark de mercado, levantamento de requisitos, modelagem arquitetural, desenvolvimento iterativo e testes unitários. O sistema resultante integrou com sucesso três módulos principais — Hospedagem, Restaurante/POS e Financeiro — vinculando comandas a reservas e consolidando receitas automaticamente. Foram implementados 31 endpoints REST documentados e 77 testes automatizados, e a infraestrutura utilizou containerização com Docker e pipeline de CI/CD no Microsoft Azure para deploy automatizado. Um benchmark de mercado confirmou a lacuna para soluções que combinassem integração PMS-POS, baixo custo e simplicidade operacional. A aplicação demonstrou viabilidade técnica para automatizar fluxos operacionais e oferecer aos gestores uma visão financeira unificada, contribuindo significativamente para a inclusão digital do segmento de micro e pequena hospedagem brasileira.
Palavras-chave: Arquitetura limpa; Automação; Integração de sistemas; Nuvem; Pequenas e médias empresas.
1. Introdução
O setor de hospitalidade global tem vivenciado uma profunda transformação digital nos últimos anos, impulsionada pela necessidade de otimizar a experiência do hóspede e garantir vantagens competitivas (Peng et al., 2024). Essa evolução tecnológica abrangeu a incorporação de ferramentas digitais e a reestruturação de modelos de negócio, tornando a adoção de sistemas de gestão hoteleira, conhecidos como Property Management Systems (PMS), um recurso estratégico. Contudo, para empreendimentos de menor porte, como as micro e pequenas pousadas brasileiras, este cenário apresenta desafios singulares. A concorrência acirrada com grandes redes hoteleiras, a dependência de plataformas de reserva online e a constante busca por eficiência operacional evidenciam a urgência de soluções digitais adaptadas.
Apesar da crescente digitalização, a adoção de tecnologia por pequenos empreendimentos no Brasil tem sido historicamente lenta. Estudos indicam que Pequenas e Médias Empresas (PMEs) brasileiras demonstram menor utilização de recursos digitais e capacidade restrita de inovação (Lunardi et al., 2017; OECD, 2020). Consequentemente, muitas pousadas ainda dependem de processos manuais, como fichas em papel, agendas físicas e planilhas, ou operam com sistemas isolados e desconectados. A transição para soluções modernas é frequentemente dificultada por barreiras organizacionais e pela complexidade inerente à implementação de sistemas de planejamento de recursos empresariais (ERPs) em ambiente de nuvem (Barbieri e Sott, 2025; Mancinelli Jr e Santos, 2021). Essa realidade resulta em ineficiências operacionais, erros frequentes e uma visão gerencial fragmentada, comprometendo a sustentabilidade e o crescimento desses negócios.
A complexidade aumenta exponencialmente quando o estabelecimento oferece serviços de alimentação, como restaurantes. Nesses casos, a integração entre o PMS e o sistema de ponto de venda (Point of Sale – POS) torna-se um diferencial operacional crucial. A ausência dessa integração implica que os lançamentos de consumos na conta do hóspede demandem intervenção manual, gerando duplicidade de dados, erros de faturamento e impedindo uma consolidação financeira precisa. Embora o mercado ofereça soluções PMS, como Cloudbeds, Hospedin e TOTVS Hotelaria, muitas delas são projetadas para hotéis de maior porte, apresentando custos proibitivos, alta complexidade de implementação ou a falta de integração nativa com módulos de restaurante. Essa lacuna de mercado para soluções que combinem gestão integrada de hospedagem e alimentação, baixo custo e simplicidade operacional é evidente.
Nesse contexto, a computação em nuvem surge como uma arquitetura habilitadora, eliminando a necessidade de investimentos em infraestrutura local e permitindo um modelo de negócios flexível e escalável (OECD, 2020; Mancinelli Jr e Santos, 2021). A arquitetura de software moderna, baseada em princípios como a Arquitetura Limpa (Martin, 2017), oferece diretrizes para o desenvolvimento de sistemas robustos, manuteníveis e testáveis, essenciais para soluções Software as a Service (SaaS) que atendam às necessidades específicas de micro e pequenas pousadas. Tais princípios promovem a separação de conceitos e a organização do código, facilitando a evolução e a adaptação do sistema a futuras demandas do mercado, garantindo a longevidade e a adaptabilidade da solução.
Diante da premente necessidade de digitalização e da ausência de soluções de mercado adequadas, este trabalho justifica-se pela oportunidade de desenvolver uma ferramenta tecnológica que promova a inclusão digital do segmento de micro e pequenas pousadas brasileiras. O objetivo é desenvolver uma aplicação web em nuvem que integre a gestão de hospedagem, restaurante e financeiro, proporcionando automação operacional, eliminação de retrabalho manual e uma visão gerencial consolidada da receita para esses estabelecimentos.
2. Material e Métodos
A pesquisa realizada caracterizou-se como aplicada, adotando uma abordagem quali-quantitativa e um delineamento exploratório-descritivo. O foco principal residiu no desenvolvimento de uma solução de software e na subsequente validação prática de sua funcionalidade. A vertente qualitativa manifestou-se por meio de uma revisão bibliográfica aprofundada e do levantamento detalhado dos requisitos funcionais e não funcionais do sistema. Complementarmente, a abordagem quantitativa foi empregada na análise comparativa estruturada de soluções de mercado existentes, conforme detalhado na Tabela 1, e na avaliação das métricas técnicas do sistema implementado, que incluiu a análise de 31 endpoints REST, nove entidades de domínio, 77 testes automatizados e a cobertura de oito controladores.
Tabela 1. Comparativo de funcionalidades entre soluções PMS de mercado
|
Funcionalidade |
Cloudbeds |
Hospedin |
TOTVS |
PousadaApp |
|
Gestão de Reservas |
Sim |
Sim |
Sim |
Sim |
|
Check-in/out Digital |
Sim |
Sim |
Sim |
Sim |
|
POS Restaurante Integrado |
Parcial |
Não |
Sim |
Sim |
|
Conta Única Hóspede |
Parcial |
Não |
Sim |
Sim |
|
Relatórios Unificados |
Sim |
Básico |
Sim |
Sim |
|
Custo Acessível PME |
Não |
Sim |
Não |
Sim |
|
Implantação Simplificada |
Médio |
Sim |
Não |
Sim |
Fonte: Elaborada pelo autor (2026).
O estudo foi conduzido no contexto de um trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de especialista em Engenharia de Software, realizado na Universidade de São Paulo (USP/Esalq). O período de execução da pesquisa e desenvolvimento abrangeu o ano de 2026, conforme indicado na data de apresentação do trabalho. A unidade de análise central foi o sistema de gestão hoteleira (PMS) e ponto de venda (POS) integrado, desenvolvido como uma aplicação web em nuvem. Adicionalmente, o mercado de micro e pequenas pousadas brasileiras foi considerado como o ambiente de aplicação e validação conceitual da solução, direcionando o levantamento de requisitos e o benchmark de mercado.
Considerando a natureza do trabalho como desenvolvimento de software, não houve uma população ou amostra de participantes no sentido tradicional de estudos empíricos com seres humanos. Em vez disso, a pesquisa focou na análise de soluções de mercado existentes para sistemas de gestão hoteleira e ponto de venda. Para o benchmark, foram selecionadas três plataformas relevantes no setor: Cloudbeds, Hospedin e TOTVS Hotelaria. A escolha dessas soluções baseou-se na sua representatividade no mercado, abrangendo desde opções globais robustas até alternativas regionais e corporativas, permitindo uma análise comparativa abrangente das funcionalidades e modelos de precificação para micro e pequenas pousadas.
Os instrumentos de coleta de dados incluíram a revisão bibliográfica, que se baseou em artigos acadêmicos publicados entre 2017 e 2024, e a análise documental de soluções de mercado. Para o benchmark, foram examinadas as funcionalidades disponíveis na documentação pública e as avaliações de usuários das plataformas Cloudbeds, Hospedin e TOTVS Hotelaria. Adicionalmente, o próprio sistema desenvolvido serviu como instrumento para a geração de métricas técnicas, como o número de endpoints REST e testes automatizados. O levantamento de requisitos foi realizado por meio de análise de necessidades do segmento de micro e pequenas pousadas, informando o escopo e as funcionalidades da aplicação.
A execução da pesquisa foi estruturada em etapas sequenciais para garantir a progressão lógica do projeto. Inicialmente, realizou-se uma revisão bibliográfica abrangente para fundamentar teoricamente o problema e as soluções existentes. Em seguida, procedeu-se ao benchmark de mercado, analisando as funcionalidades e características de sistemas PMS/POS concorrentes. A etapa de levantamento de requisitos definiu as especificações funcionais e não funcionais da aplicação, alinhadas às necessidades das micro e pequenas pousadas. Posteriormente, a modelagem da arquitetura do sistema foi elaborada, seguida pelo desenvolvimento iterativo da aplicação e, finalmente, pela fase de testes para validação da funcionalidade e robustez do software.
O tratamento e a análise dos dados foram realizados de acordo com a natureza quali-quantitativa da pesquisa. Os dados coletados na revisão bibliográfica e no levantamento de requisitos foram submetidos a uma análise de conteúdo e síntese, visando identificar lacunas de mercado e diretrizes para o desenvolvimento. A análise comparativa das soluções de mercado (Tabela 1) envolveu a tabulação e comparação de funcionalidades, custos e complexidade, permitindo identificar a lacuna de mercado para a solução proposta. As métricas técnicas do sistema implementado, como o número de endpoints REST e testes automatizados, foram quantificadas e analisadas descritivamente para avaliar a abrangência e a qualidade do desenvolvimento.
A seleção da stack tecnológica fundamentou-se em princípios de engenharia de software que visam manutenibilidade, segurança e separação de conceitos, conforme preconizado pela Arquitetura Limpa (Martin, 2017). Para o back-end, utilizou-se C#/.NET 8 com ASP.NET Core Web API e Entity Framework Core (Microsoft, 2026). O front-end foi desenvolvido em Angular 19 com TypeScript, componentes standalone, signals e PrimeNG (Angular, 2026). O banco de dados empregado foi SQL Server 2022, com nove tabelas relacionais e migrations via EF Core. A autenticação foi implementada com JWT e hash de senhas via BCrypt. Houve adaptações tecnológicas, como a substituição do PostgreSQL por SQL Server e a atualização do Angular da versão 18 para 19, além da expansão do esquema de banco de dados de seis para nove entidades.
A arquitetura do sistema foi concebida seguindo rigorosamente os princípios da Arquitetura Limpa (Martin, 2017), promovendo uma clara separação de responsabilidades. A solução .NET foi organizada em três projetos distintos: PousadaApp.Domain, que encapsulou as entidades de negócio como Empresa, Usuario, Quarto, Hospede, Reserva, CategoriaCardapio, Produto, Comanda e ItemComanda, além das enumerações de status; PousadaApp.Infrastructure, responsável pelo DbContext, mapeamentos e migrações; e PousadaApp.API, que abrigou os controladores REST, DTOs, serviço JWT e configurações de middleware. Adotou-se um design multi-tenant (Krebs et al., 2012) com filtro por empresa em todas as consultas, e o banco de dados foi modelado com nove tabelas relacionais, utilizando convenção snake_case.
O processo de desenvolvimento adotou uma abordagem iterativa, estruturando a aplicação em módulos funcionais distintos. O Módulo de Hospedagem foi responsável pela gestão de quartos, hóspedes e reservas, incorporando um workflow de status para cada reserva. O Módulo Restaurante/POS implementou um cardápio digital, gerenciamento de comandas vinculadas às reservas e controle de itens. O Módulo Financeiro consolidou as receitas de hospedagem e restaurante, oferecendo filtros e gráficos para análise. Por fim, o Dashboard proporcionou uma visão gerencial em tempo real com Key Performance Indicators operacionais. A integração entre o front-end e o back-end foi estabelecida por meio de uma API RESTful, com 31 endpoints, e um interceptor HTTP no Angular para autenticação automática via token JWT.
A API RESTful desenvolvida disponibilizou 31 endpoints, organizados em oito controladores, seguindo o estilo arquitetural REST (Fielding, 2000). A documentação interativa da API foi gerada por meio do Swagger/OpenAPI. Para garantir a qualidade e a robustez do sistema, implementou-se uma suíte de 77 testes unitários, utilizando a ferramenta xUnit e um banco de dados InMemory do Entity Framework Core para isolamento. Esses testes cobriram exaustivamente todos os controladores, abrangendo cenários de autenticação, operações CRUD (Create, Read, Update, Delete), validações de negócio, como cálculo de valor total e transições de status com efeitos colaterais, e regras de multi-tenant, assegurando o correto funcionamento do sistema.
A infraestrutura e o processo de deploy foram concebidos para garantir escalabilidade e facilidade de manutenção. A containerização da aplicação foi realizada com Docker Compose, orquestrando dois serviços principais: o banco de dados SQL Server 2022 e a API .NET 8. Essa configuração incluiu healthchecks automáticos e a aplicação de migrações na inicialização dos contêineres. Um pipeline de Integração Contínua e Entrega Contínua (CI/CD) foi configurado no GitHub Actions, compreendendo três workflows: um para integração contínua com build e execução dos testes unitários em cada pull request, e dois para deploy automático da API no Azure Web App Service e do front-end no Azure Static Web Apps, respectivamente.
Em relação aos aspectos éticos, o projeto, por se tratar de desenvolvimento de software em ambiente controlado e sem a coleta de dados sensíveis de usuários reais, não demandou aprovação de comitê de ética. Contudo, reconheceu-se como limitação a ausência de tratamento explícito da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) para uma eventual operação produtiva com dados reais, bem como a não realização de auditoria formal de segurança, incluindo testes de intrusão e verificação do OWASP Top 10. Metodologicamente, o sistema foi validado em ambiente controlado, sem testes de usabilidade com usuários finais em pousadas reais. Outras limitações de escopo incluíram a não implementação de integração com Online Travel Agencies, emissão de notas fiscais e módulo de governança, além da ausência de modelagem quantitativa do Custo Total de Propriedade.
3. Resultados e Discussão
A análise comparativa entre as soluções de Property Management System (PMS) de mercado e o sistema proposto, conforme detalhado na Tabela 1 (apresentada na seção de Materiais e Métodos), revelou características distintivas e uma lacuna significativa no segmento de micro e pequenas pousadas brasileiras. As plataformas globais, como a Cloudbeds, embora ofereçam um conjunto robusto e abrangente de funcionalidades, apresentam uma precificação internacional dolarizada e uma complexidade de implantação que as tornam inacessíveis e inviáveis para o público-alvo deste estudo. Esta constatação corrobora a literatura que aponta as barreiras de custo e complexidade como fatores críticos que impedem a adoção de tecnologias digitais por Pequenas e Médias Empresas (PMEs) no Brasil (OECD, 2020; Lunardi et al., 2017). A dificuldade dessas empresas em alocar investimentos substanciais em infraestrutura local e em licenças de software de alto valor é um desafio amplamente reconhecido, e a solução desenvolvida buscou explicitamente contornar essas limitações.
Em contraste, soluções regionais como a Hospedin demonstram um custo mais acessível e um foco no mercado brasileiro, o que as posiciona de forma mais favorável em relação às capacidades financeiras das micro e pequenas pousadas. No entanto, a análise funcional da Hospedin evidenciou uma carência crucial: a ausência de integração nativa com um módulo de restaurante ou Ponto de Venda (POS). Esta falta de integração é um ponto de inflexão, pois, como discutido na introdução, a gestão de serviços de alimentação em estabelecimentos hoteleiros sem um sistema unificado acarreta retrabalho, duplicidade de dados, erros de faturamento e uma visão gerencial fragmentada da receita (Mancinelli Jr e Santos, 2021). A dependência de processos manuais ou sistemas desconectados para gerenciar o restaurante anula grande parte dos benefícios da digitalização e contraria a busca por eficiência operacional que impulsiona a transformação digital no setor hoteleiro (Peng et al., 2024). A incapacidade de consolidar automaticamente os consumos do restaurante na conta do hóspede exige intervenção manual, introduzindo fricção e potenciais erros no processo de faturamento.
A TOTVS Hotelaria, por sua vez, representa uma plataforma corporativa com funcionalidades completas que, em teoria, atenderiam aos requisitos de integração PMS-POS. Contudo, sua natureza corporativa implica em custos de licença e implantação assistida que são proibitivos para o segmento de micro e pequenas pousadas. A complexidade de sua implementação e a necessidade de consultoria especializada para configuração e treinamento constituem barreiras intransponíveis para negócios que operam com recursos humanos e financeiros limitados. Este cenário reforça a premissa de que as soluções de mercado existentes, embora tecnicamente capazes, falham em atender às especificidades de custo, simplicidade e integração para o segmento de pousadas, validando a necessidade de uma alternativa Software as a Service (SaaS) de baixo custo, alta usabilidade e nativa da nuvem. A lacuna identificada não se refere apenas à ausência de funcionalidades, mas à combinação dessas funcionalidades com um modelo de negócio e uma estrutura de custos adequados ao perfil das PMEs.
O sistema PousadaApp foi concebido para preencher essa lacuna de mercado, oferecendo uma solução SaaS em nuvem que integra a gestão de hospedagem, restaurante e financeiro em uma única plataforma. A proposta visa eliminar o retrabalho de lançamentos manuais, automatizar processos críticos e fornecer uma visão gerencial consolidada da receita, aspectos que são cruciais para a competitividade e a sustentabilidade de micro e pequenas pousadas. A abordagem SaaS em nuvem, conforme amplamente reconhecido na literatura, reduz significativamente os investimentos em infraestrutura local e oferece flexibilidade e escalabilidade, sendo particularmente vantajosa para PMEs (OECD, 2020; Mancinelli Jr e Santos, 2021). A viabilidade técnica demonstrada pelo PousadaApp, detalhada a seguir, sugere que é possível desenvolver uma solução que atenda a esses critérios sem comprometer os princípios de engenharia de software que garantem a manutenibilidade e a evolução futura do produto. A capacidade de oferecer uma solução integrada e acessível é um diferencial competitivo crucial para auxiliar micro e pequenas pousadas a participarem da transformação digital do setor hoteleiro, que, segundo Peng et al. (2024), é fundamental para a melhoria da experiência do hóspede e para a obtenção de vantagens competitivas.
O desenvolvimento do PousadaApp culminou na entrega de uma aplicação web funcional que integra de forma coesa os três módulos previstos: Hospedagem, Restaurante/POS e Financeiro. A Tabela 2 apresenta um detalhamento dos componentes implementados, evidenciando a abrangência técnica da solução e a aderência aos requisitos levantados.
Tabela 2. Componentes do sistema implementado
|
Componente |
Entregas |
|
Banco de Dados SQL Server |
9 entidades, migrations automáticas, seed data |
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API Back-end .NET 8 |
31 endpoints REST, Swagger, JWT, Clean Architecture |
|
Front-end Angular 19 |
8 páginas, PrimeNG, signals, responsivo |
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Módulo Hospedagem |
Quartos, hóspedes, reservas, agenda, workflow de status |
|
Módulo Restaurante/POS |
Cardápio, comandas, integração com conta do hóspede |
|
Módulo Financeiro |
KPIs, gráficos, filtros por tipo e período, transações |
|
Infraestrutura e Testes |
Docker Compose, GitHub Actions CI/CD, 77 testes xUnit |
Fonte: Elaborada pelo autor (2026)
A seleção da stack tecnológica, conforme descrito na seção de Materiais e Métodos, foi guiada por princípios de engenharia de software que priorizam manutenibilidade, segurança e separação de conceitos, em estrita conformidade com a Arquitetura Limpa (Martin, 2017). A escolha de C#/.NET 8 para o back-end, Angular 19 com TypeScript para o front-end e SQL Server 2022 para o banco de dados reflete uma abordagem moderna e robusta, alinhada às melhores práticas da indústria. A containerização da aplicação com Docker e Docker Compose (Bernstein, 2014) e a configuração de um pipeline de Integração Contínua e Entrega Contínua (CI/CD) no GitHub Actions para deploy automático no Microsoft Azure (Web App Service e Static Web Apps) demonstram a aplicação de metodologias de desenvolvimento de software de ponta. Essas escolhas tecnológicas não apenas garantem a estabilidade e a performance do sistema, mas também facilitam sua escalabilidade e manutenção futura, aspectos cruciais para uma solução SaaS que visa atender a múltiplos estabelecimentos. A adoção de uma arquitetura multi-tenant (Krebs et al., 2012) desde o início, com filtro por empresa em todas as consultas, é um pilar fundamental para a viabilidade econômica do modelo SaaS, permitindo que diversas pousadas utilizem a mesma instância do sistema de forma segura e isolada, otimizando o uso de recursos e reduzindo custos operacionais.
O Módulo de Hospedagem implementou a gestão completa de quartos, hóspedes e reservas, oferecendo uma solução abrangente para o core business de uma pousada. A funcionalidade de gestão de quartos incluiu a definição de tipos (Standard, Luxo e Suíte), status de ocupação e precificação por diária, proporcionando a flexibilidade necessária para as diversas configurações de acomodações. O sistema de reservas foi dotado de um workflow de cinco estados (Pendente → Confirmada → Check-in → Check-out → Cancelada), que espelha as etapas típicas do ciclo de vida de uma reserva hoteleira. A implementação de efeitos colaterais automáticos nas transições de status é um diferencial operacional significativo: o check-in altera automaticamente o status do quarto para “Ocupado”, enquanto o check-out o define como “Limpeza”. Esta automação reduz a necessidade de intervenção manual, minimiza erros de coordenação entre a recepção e a governança, e contribui diretamente para a eficiência operacional, um dos objetivos centrais da transformação digital na hospitalidade (Peng et al., 2024). A eliminação de etapas manuais e a garantia de que o status dos quartos esteja sempre atualizado em tempo real são benefícios práticos que impactam diretamente a produtividade da equipe e a satisfação do hóspede.
A interface de gestão de reservas foi concebida em formato kanban, com colunas que representam cada status, permitindo que os usuários arrastem e soltem as reservas para alterar seu estado. Este design intuitivo, amplamente reconhecido por sua eficácia na gestão de fluxos de trabalho visuais, não apenas melhora a usabilidade, mas também proporciona uma visão clara e imediata do status de todas as reservas. A confirmação automática dos efeitos colaterais ao arrastar e soltar uma reserva exemplifica a inteligência de negócio embutida no sistema, que visa simplificar as operações diárias dos gestores de pousadas. A capacidade de gerenciar reservas de forma visual e interativa é um avanço significativo em relação aos métodos tradicionais baseados em fichas de papel ou planilhas estáticas, que frequentemente resultam em informações desatualizadas e inconsistentes. As telas operacionais resultantes, incluindo um dashboard com Key Performance Indicators (KPIs) em tempo real, um mural visual de quartos e a gestão kanban de reservas, são apresentadas nas Figuras 2, 3 e 4, respectivamente.
Figura 1. Dashboard com Key Performance Indicators (KPIs) operacionais em tempo real, mostrando ocupação, hóspedes ativos, reservas futuras e comandas abertas
Fonte: Elaborada pelo autor (2026)
Figura 2. Gestão de quartos em formato de mural visual, com status indicado por cores
Fonte: Elaborada pelo autor (2026)
Figura 3. Gestão de reservas em formato kanban com arrastar e soltar para mudança de status
Fonte: Elaborada pelo autor (2026)
O dashboard (Figura 1) oferece uma visão gerencial consolidada, apresentando KPIs como ocupação, hóspedes ativos, reservas futuras e comandas abertas. Esta funcionalidade é crucial para que os gestores de pousadas possam tomar decisões rápidas e informadas, superando a fragmentação de dados que caracteriza a operação manual ou com sistemas desconectados, conforme apontado por Lunardi et al. (2017) e OECD (2020) sobre as dificuldades das PMEs brasileiras na adoção de TI. A capacidade de monitorar o desempenho operacional em tempo real permite uma gestão mais proativa e estratégica. O mural visual de quartos (Figura 2), com status indicados por cores, e a gestão kanban de reservas (Figura 3) são exemplos de interfaces que promovem a clareza e a agilidade nas operações diárias, reduzindo a carga cognitiva dos usuários e minimizando a probabilidade de erros. A visualização instantânea do status dos quartos e das reservas é um avanço significativo em relação aos métodos tradicionais, que frequentemente exigem consultas demoradas e podem levar a duplicação de reservas ou alocações incorretas.
O Módulo Restaurante/POS implementou um sistema de cardápio digital robusto, organizado em cinco categorias (Bebidas, Pratos Principais, Petiscos, Sobremesas e Drinks) e com capacidade para cadastrar múltiplos produtos. A funcionalidade de comandas é central para este módulo, permitindo a abertura de comandas vinculadas a uma reserva ativa, a adição e remoção de itens com recálculo automático do valor total, e o fechamento da comanda. A integração PMS-POS, um dos pilares deste trabalho, foi alcançada de forma nativa por meio do vínculo direto entre Comanda, Reserva e Quarto/Hóspede. Isso significa que os consumos do restaurante são automaticamente associados à conta do hóspede, eliminando a necessidade de lançamentos manuais e o risco de erros de transcrição. Esta automação é um avanço significativo que alinha o PousadaApp com as melhores práticas de sistemas de gestão integrada, que são essenciais para a eficiência operacional.
Essa integração é um diferencial operacional crítico, conforme identificado na revisão de literatura, e aborda uma das principais lacunas das soluções de mercado para micro e pequenas pousadas. A capacidade de consolidar automaticamente as receitas de hospedagem e restaurante no módulo financeiro proporciona uma visão unificada da receita, que antes era um privilégio de sistemas corporativos de alto custo e complexidade (Barbieri & Sott, 2025; Mancinelli Jr e Santos, 2021). A eliminação do retrabalho e a automação do cálculo de valores não apenas economizam tempo significativo para os gestores, mas também aumentam a precisão dos registros financeiros, o que é vital para a saúde financeira do negócio. A facilidade de uso do cardápio digital e do sistema de comandas, com recálculo automático, contribui para uma experiência de usuário fluida e eficiente, alinhada à premissa de simplicidade operacional do PousadaApp. A capacidade de vincular diretamente o consumo do restaurante à reserva do hóspede simplifica o processo de check-out e minimiza disputas de faturamento, melhorando a experiência geral do cliente.
O Módulo Financeiro do PousadaApp consolidou as receitas de hospedagem (provenientes de reservas com check-out) e de restaurante (provenientes de comandas fechadas) em uma visão unificada e abrangente. Esta funcionalidade é um dos maiores avanços do sistema, pois supera a fragmentação de dados que é comum em estabelecimentos que operam com sistemas separados ou processos manuais. A capacidade de ter todos os dados financeiros em um único local, com filtros rápidos por período (Hoje, 7 dias, 30 dias, 90 dias, Ano e Tudo) e por tipo de receita (Hospedagem, Restaurante ou Todos), permite aos gestores uma análise detalhada e flexível do desempenho financeiro. Esta funcionalidade atende plenamente ao requisito de “visão gerencial unificada da receita”, um aspecto crucial para a tomada de decisões estratégicas em PMEs (Lunardi et al., 2017). A automação da consolidação financeira, que antes era um processo manual e propenso a erros, libera tempo valioso para que os gestores se concentrem em atividades mais estratégicas, como a otimização de custos e a expansão de serviços.
A interface do módulo financeiro apresenta Key Performance Indicators (KPIs) que são atualizados reativamente, incluindo Receita Total, Receita de Hospedagem, Receita de Restaurante e Ticket Médio. Além disso, gráficos de linha mostram a receita acumulada ao longo do tempo, e gráficos de barras exibem a receita diária separada por tipo, proporcionando uma visualização clara das tendências e da performance. Uma tabela de transações detalhadas complementa a visão, oferecendo granularidade para auditoria e análise. A capacidade de monitorar o desempenho financeiro em tempo real e de forma consolidada permite que os gestores identifiquem rapidamente oportunidades e desafios, otimizem a precificação e melhorem a gestão de custos, contribuindo diretamente para a sustentabilidade e o crescimento das pousadas. A disponibilidade de dados financeiros precisos e atualizados é fundamental para a elaboração de orçamentos, planejamento de investimentos e avaliação da rentabilidade do negócio, capacitando os gestores a tomar decisões mais informadas e estratégicas.
A API RESTful desenvolvida para o PousadaApp disponibilizou 31 endpoints, organizados em oito controladores, seguindo rigorosamente o estilo arquitetural REST (Fielding, 2000). A documentação interativa da API, gerada por meio do Swagger/OpenAPI (conforme ilustrado na Figura 1, apresentada na seção de Materiais e Métodos), facilita a compreensão e o uso da API, tanto para desenvolvedores quanto para futuras integrações. A Tabela 3 detalha a distribuição dos endpoints por controlador, evidenciando a cobertura abrangente das funcionalidades do sistema e a organização lógica da API.
Tabela 3. Distribuição de endpoints da API por controlador
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Controlador |
Endpoints |
Operações |
|
Auth |
2 |
Login (JWT), Registro |
|
Quartos |
5 |
CRUD + atualização de status |
|
Hóspedes |
4 |
CRUD com busca |
|
Reservas |
5 |
CRUD + workflow de status com side-effects |
|
Categorias |
3 |
CRUD de categorias do cardápio |
|
Produtos |
5 |
CRUD + filtro por categoria |
|
Comandas |
6 |
Abertura, itens, fechamento |
|
Financeiro |
2 |
Resumo e transações |
Fonte: Elaborada pelo autor (2026)
A suíte de testes automatizados é um pilar fundamental da qualidade e robustez do PousadaApp. Foram implementados 77 testes unitários utilizando a ferramenta xUnit e um banco de dados InMemory do Entity Framework Core para garantir o isolamento e a velocidade da execução dos testes. Esses testes cobriram exaustivamente todos os controladores, abrangendo cenários críticos como autenticação (login válido/inválido), operações CRUD (Create, Read, Update, Delete) para todas as entidades, validações de negócio (cálculo de valor total de comandas, transições de status de reservas com efeitos colaterais) e regras de multi-tenant (filtro por empresa). O sucesso na execução de todos os 77 testes demonstra a alta qualidade do código e a aderência aos requisitos funcionais e não funcionais. A adoção de uma abordagem de testes unitários tão abrangente está em linha com os princípios da Arquitetura Limpa (Martin, 2017), que preconiza a testabilidade como uma característica intrínseca do design de software. A cobertura de testes unitários é essencial para garantir a manutenibilidade do sistema e facilitar futuras evoluções, pois qualquer alteração no código pode ser validada rapidamente, minimizando a introdução de novos defeitos e garantindo a estabilidade do sistema ao longo do tempo. Embora as suítes de integração end-to-end (Cypress) e de carga (JMeter) tenham sido consideradas fora do escopo desta entrega, a ampla cobertura unitária já oferece uma base sólida para a confiabilidade do sistema.
A infraestrutura e o processo de deploy do PousadaApp foram concebidos para garantir escalabilidade, facilidade de manutenção e alta disponibilidade, características essenciais para uma solução SaaS. A containerização da aplicação foi realizada com Docker Compose, orquestrando dois serviços principais: o banco de dados SQL Server 2022 e a API .NET 8. Essa configuração inclui healthchecks automáticos, que monitoram a saúde dos serviços, e a aplicação de migrações do banco de dados na inicialização dos contêineres, garantindo que o ambiente esteja sempre atualizado e consistente. A containerização é uma abordagem consagrada para aplicações nativas da nuvem (Bernstein, 2014), promovendo portabilidade e isolamento entre os componentes, o que facilita o gerenciamento e a implantação em diferentes ambientes.
Um pipeline de Integração Contínua e Entrega Contínua (CI/CD) foi configurado no GitHub Actions, compreendendo três workflows distintos. O primeiro, para integração contínua (CI), realiza o build e a execução dos 77 testes unitários em cada pull request, garantindo que apenas código testado e funcional seja integrado ao repositório principal. Os outros dois workflows são dedicados ao deploy automático: um para a API no Azure Web App Service e outro para o front-end no Azure Static Web Apps. Essa automação do deploy é um diferencial significativo, pois reduz o tempo e o esforço necessários para levar novas funcionalidades ao ambiente de produção, alinhando-se às melhores práticas de DevOps. A escolha do Microsoft Azure como plataforma de nuvem, juntamente com a integração nativa do ecossistema .NET, otimiza o processo de deploy e a gestão da infraestrutura. A adoção de CI/CD e a containerização são investimentos de engenharia que sustentam a escalabilidade e a manutenibilidade da solução, permitindo que ela atenda a múltiplos estabelecimentos de forma eficiente e com baixo custo operacional, conforme preconizado para soluções SaaS multi-tenant (Krebs et al., 2012).
A estimativa dos ganhos operacionais, embora o sistema não tenha sido validado empiricamente em pousadas reais com usuários finais, foi realizada por meio da decomposição dos fluxos operacionais, permitindo inferir a magnitude dos benefícios potenciais. No fluxo manual típico, o registro de uma reserva envolve múltiplas interações, como preencher fichas de papel, transcrever dados para planilhas e atualizar separadamente o mapa de ocupação, totalizando cerca de seis interações com pontos distintos de erro de transcrição. O fluxo automatizado do PousadaApp reduz essa operação a um único formulário com atualização imediata do mapa de ocupação e do dashboard. Essa simplificação drástica não apenas economiza tempo, mas também elimina a maioria dos pontos de falha associados à transcrição manual de dados, um problema comum em PMEs que ainda dependem de processos analógicos (Lunardi et al., 2017). A redução de erros de transcrição é crucial para a precisão dos registros e para evitar problemas de overbooking ou alocação incorreta de quartos.
De modo análogo, o lançamento de um consumo do restaurante na conta do hóspede, que tradicionalmente demanda anotação, deslocamento até a recepção e digitação em um sistema separado, passa a ser realizado em uma única tela vinculada à reserva ativa, com cálculo automático do total. Essa automação da integração PMS-POS é um dos maiores ganhos operacionais, pois elimina o retrabalho e garante que todos os consumos sejam corretamente atribuídos e faturados. A consolidação financeira diária, que antes exigia a compilação manual de dados de diferentes fontes, torna-se imediata e acessível através do dashboard unificado. Tais ganhos, embora não mensurados em horas exatas, sustentam a expectativa de uma redução substancial do tempo operacional e dos erros de transcrição, o que é fundamental para a eficiência e a lucratividade de micro e pequenas pousadas. A automação de fluxos operacionais críticos é um pilar da transformação digital na hospitalidade, permitindo que os gestores se concentrem em atividades de maior valor agregado, como a experiência do hóspede e o desenvolvimento de novos serviços (Peng et al., 2024), em vez de tarefas administrativas repetitivas.
Sob a ótica técnica, os resultados deste trabalho demonstraram de forma inequívoca a viabilidade de desenvolver uma solução SaaS integrada e de baixo custo, especificamente projetada para micro e pequenas pousadas brasileiras. A adoção da Arquitetura Limpa (Martin, 2017) foi fundamental para alcançar uma separação clara de responsabilidades entre as camadas de domínio, infraestrutura e apresentação, o que não apenas facilitou a manutenibilidade do código, mas também a testabilidade, evidenciada pela suíte de 77 testes unitários que cobriram todos os controladores da API. Esta abordagem arquitetural robusta garante que o sistema possa evoluir e se adaptar a futuras necessidades sem comprometer sua integridade. A escolha de containerização com Docker (Bernstein, 2014) e o deploy em nuvem no Microsoft Azure eliminaram a necessidade de investimentos em infraestrutura local, um alinhamento direto com as recomendações da OECD (2020) para a redução de barreiras tecnológicas para PMEs. A capacidade de operar em um ambiente de nuvem oferece flexibilidade, escalabilidade e redução de custos operacionais, tornando a solução acessível a um segmento de mercado que historicamente foi preterido por soluções mais complexas e caras.
A integração nativa PMS-POS, identificada na revisão de literatura como um diferencial operacional crítico, foi plenamente alcançada por meio do vínculo inteligente entre comandas e reservas. Isso permitiu o lançamento automático de consumos na conta do hóspede e a consolidação financeira unificada, superando a fragmentação de dados observada em soluções de mercado como o Hospedin. Esta funcionalidade é um marco para a gestão de pousadas, pois proporciona uma visão financeira holística que antes era privilégio de grandes redes hoteleiras. A automação dos fluxos operacionais, desde a reserva até o controle financeiro, reduz a dependência de processos manuais, minimiza erros e libera tempo para os gestores, contribuindo para uma maior eficiência e lucratividade. O pipeline de CI/CD configurado com GitHub Actions para deploy automatizado no Azure demonstrou a viabilidade de adotar práticas modernas de engenharia de software, mesmo em projetos de menor escala, reforçando a capacidade de entrega contínua e a agilidade no desenvolvimento.
Sob a ótica de mercado, o benchmark conduzido posicionou a solução proposta em uma célula de matriz até então pouco ocupada: o ponto de interseção entre baixo custo de aquisição, integração nativa entre PMS e POS e simplicidade de implantação. Enquanto Cloudbeds atende a estabelecimentos de médio porte com pacotes completos, sua precificação dolarizada inviabiliza o investimento por micro pousadas. Hospedin, embora acessível e focado no mercado brasileiro, carece de integração nativa com restaurante. TOTVS, com funcionalidades completas, demanda implantação assistida e custos de licença corporativos que a tornam inacessível para o público-alvo. O PousadaApp demonstrou que essa lacuna pode ser endereçada com tecnologia atual, sem renunciar a princípios de engenharia que sustentam a evolução futura do produto. A capacidade de oferecer uma solução integrada e acessível é um diferencial competitivo crucial para auxiliar micro e pequenas pousadas a participarem da transformação digital do setor hoteleiro, que, segundo Peng et al. (2024), é fundamental para a competitividade e a melhoria da experiência do hóspede.
A contribuição central deste trabalho reside na demonstração de que a integração nativa PMS-POS, historicamente restrita a soluções corporativas de alto custo, é tecnicamente viável em arquiteturas SaaS de baixo custo. Isso abre caminho para a inclusão digital do segmento de micro e pequena hospedagem brasileira, historicamente preterido pelo mercado de tecnologia hoteleira. Ao fornecer uma ferramenta que automatiza fluxos operacionais críticos e oferece uma visão gerencial unificada, o PousadaApp capacita esses pequenos negócios a competir de forma mais eficaz, otimizar suas operações e melhorar a experiência de seus hóspedes, contribuindo para a modernização e profissionalização do setor.
Sob a ótica metodológica, a validação do sistema ocorreu em ambiente controlado, utilizando dados-semente representativos, porém sintéticos. A adoção de Arquitetura Limpa, o design multi-tenant nativo (Krebs et al., 2012) e o CI/CD automatizado representam investimentos de engenharia que se justificam pela intenção explícita de construir uma solução SaaS escalável para múltiplos estabelecimentos a partir da mesma instância. Esta é a hipótese central que sustenta a viabilidade econômica do modelo proposto, permitindo que o sistema seja replicado e oferecido a um grande número de pousadas com custos marginais reduzidos. A validação em ambiente controlado, embora não seja um teste em produção, permitiu verificar a funcionalidade e a robustez técnica do sistema em um cenário idealizado, estabelecendo uma base sólida para futuras validações empíricas.
Apesar dos resultados promissores, o projeto apresentou algumas limitações que devem ser consideradas para futuras etapas de desenvolvimento e validação. A principal delas é que o sistema foi validado em ambiente controlado, sem a realização de testes de usabilidade com usuários finais em pousadas reais. Embora a validação técnica interna tenha sido robusta, a experiência do usuário em um contexto real pode revelar desafios e oportunidades de melhoria que não são evidentes em um ambiente simulado. Funcionalidades adicionais, como integração com Online Travel Agencies (OTAs) como Booking e Airbnb, emissão de notas fiscais e um módulo de governança (controle de limpeza), não foram contempladas no escopo inicial. Estas funcionalidades são importantes para a operação completa de uma pousada e representam lacunas a serem preenchidas.
Adicionalmente, a ausência de tratamento explícito da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) para uma eventual operação produtiva com dados reais e a não realização de auditoria formal de segurança (incluindo testes de intrusão e verificação do OWASP Top 10) são limitações importantes que precisariam ser abordadas antes de uma implantação em larga escala. A segurança e a conformidade regulatória são aspectos críticos para qualquer sistema que lide com dados de usuários. O acoplamento da camada de implantação ao Microsoft Azure, embora pragmático para o escopo do TCC, dificulta a portabilidade trivial para outras plataformas de nuvem, o que pode ser uma limitação em cenários de busca por maior flexibilidade de infraestrutura. Por fim, a ausência de modelagem quantitativa do Custo Total de Propriedade (TCO) comparada às soluções de mercado também representa uma lacuna na análise econômica completa da solução.
Para trabalhos futuros, sugerem-se diversas frentes de pesquisa e desenvolvimento que poderiam expandir e aprimorar o PousadaApp. Primeiramente, a validação empírica em pousadas reais, com testes de usabilidade e medição quantitativa dos ganhos operacionais, é crucial para confirmar os benefícios do sistema em um ambiente de produção e coletar feedback valioso de usuários reais. Em segundo lugar, a implementação dos módulos complementares, como integração com OTAs, funcionalidades fiscais e um módulo de governança, expandiria significativamente a abrangência e o valor da solução, tornando-a mais completa e competitiva. A criação de um aplicativo móvel de autoatendimento para hóspedes poderia melhorar a experiência do cliente e reduzir a carga de trabalho da recepção, oferecendo maior autonomia aos hóspedes. A integração com gateways de pagamento (PIX e cartões) é essencial para a operação comercial e para atender às expectativas dos clientes modernos. Análises preditivas para previsão de demanda e precificação dinâmica poderiam otimizar a receita das pousadas, permitindo uma gestão mais inteligente e adaptativa. Por fim, a adequação formal à LGPD e um estudo comparativo de TCO em relação às soluções de mercado avaliadas no benchmark seriam fundamentais para a viabilidade legal e econômica do produto em um cenário real, consolidando o PousadaApp como uma solução completa e competitiva para o mercado de micro e pequenas pousadas brasileiras.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido com sucesso, demonstrando a viabilidade de desenvolver uma aplicação web em nuvem que integra a gestão de hospedagem, restaurante e financeiro para micro e pequenas pousadas brasileiras. O sistema PousadaApp proporcionou automação operacional, eliminou o retrabalho manual e ofereceu uma visão gerencial consolidada da receita, preenchendo uma lacuna de mercado identificada. A integração nativa PMS-POS, historicamente restrita a soluções corporativas de alto custo, foi tecnicamente alcançada em uma arquitetura SaaS de baixo custo, utilizando princípios de Arquitetura Limpa, containerização e deploy automatizado em nuvem, o que facilita a inclusão digital desse segmento.
Apesar dos resultados promissores, o projeto apresentou limitações importantes. A validação ocorreu em ambiente controlado, sem testes de usabilidade com usuários finais em pousadas reais. Funcionalidades cruciais como integração com Online Travel Agencies (OTAs), emissão de notas fiscais e um módulo de governança não foram implementadas. Adicionalmente, a adequação formal à LGPD, uma auditoria de segurança e a modelagem quantitativa do Custo Total de Propriedade (TCO) ficaram fora do escopo, assim como o acoplamento da camada de implantação ao Microsoft Azure, que dificulta portabilidade trivial. Para estudos futuros, sugere-se a validação empírica em pousadas reais, a implementação dos módulos complementares, a criação de um aplicativo móvel para hóspedes, a integração com gateways de pagamento, análises preditivas, a conformidade com a LGPD e um estudo comparativo de TCO, visando consolidar a solução no mercado.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq
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