Artigo

30 de julho de 2026

Serviços de Reciclagem Urbana: Integrando Gestão de Riscos e Pagamento por Serviços Ambientais Urbanos

Franciele Mendonça Ferreira; Sidney Lincoln Vitorino

DOI: 10.22167/2675-6528-202600807

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A sustentabilidade urbana depende do reconhecimento e da valoração de serviços essenciais prestados por comunidades da Base da Pirâmide (BoP), que frequentemente enfrentam fragilidades institucionais e invisibilidade econômica. O trabalho objetivou desenvolver um modelo de negócio sustentável fundamentado na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da BoP. Realizou-se uma pesquisa quantitativa e documental, com abordagem de estudo de caso descritivo e exploratório em um município de médio porte em Santa Catarina. Os dados foram coletados no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), empregando-se o método de valoração por custos evitados e ferramentas de gestão de riscos, como a Estrutura Analítica de Riscos (EAR) e a Matriz de Probabilidade e Impacto, fundamentadas no PMBOK. Os resultados evidenciaram que a atuação das 16 entidades associativas locais recuperou 13.750 toneladas de materiais, gerando uma economia potencial de R$ 3.9 milhões ao município em custos de manejo evitados. Identificou-se que os principais riscos são de ordem institucional e econômica, especificamente a ausência de marcos normativos e a volatilidade dos preços de recicláveis. Concluiu-se que a estruturação de um Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) urbano promove a resiliência financeira e a legitimidade institucional, convertendo as organizações da BoP em parceiros estratégicos para a gestão pública.

Palavras-chave: Base da Pirâmide; Economia Circular; PMBOK; Resíduos Sólidos; Valoração econômica.

1. Introdução

A sustentabilidade urbana contemporânea depende intrinsecamente do reconhecimento e da valoração de serviços essenciais, frequentemente prestados por comunidades da Base da Pirâmide (BoP). Tais serviços incluem a coleta, triagem e destinação de resíduos sólidos, conforme destacado por Agutu et al. (2024). Apesar de sua contribuição significativa para a economia circular e para a mitigação de impactos ambientais, essas comunidades e suas organizações, como cooperativas e associações, enfrentam fragilidades institucionais, econômicas e operacionais persistentes (Castillo-Ospina et al., 2025).

A informalidade e a subvalorização desse setor representam um risco crítico à viabilidade de modelos de negócio sustentáveis. Há uma escassez notável de estudos que gerem evidências e influenciem decisões de sustentabilidade capazes de integrar as organizações da BoP como uma estratégia eficaz de mitigação de riscos. Essa lacuna justifica a necessidade de pesquisa aprofundada, tanto no âmbito científico quanto prático, para compreender e fortalecer o papel dessas comunidades.

Embora o século XXI tenha sido marcado por um despertar global para a gestão de resíduos, o debate predominante tem se focado na dimensão técnica, subestimando as importantes dimensões sociais e comunitárias do processo (D’Alisa e Demaria, 2024; Fernando e Zutshi, 2023). Em economias emergentes, a mera existência de infraestrutura, como bancos de resíduos ou centros de triagem, não garante a sustentabilidade se não houver um alinhamento com a consciência ambiental e o reconhecimento dos atores envolvidos (Soesilo e Alfarizi, 2024). No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2010) institucionalizou a responsabilidade compartilhada e a inclusão dos catadores, mas a dependência de aterros sanitários ainda persiste, evidenciando a dificuldade de integrar o comportamento comunitário ao setor de reciclagem e comprometendo a eficiência do sistema (Gutberlet, 2015; Soesilo e Alfarizi, 2024; Uddin e Gutberlet, 2018).

A sustentabilidade atual exige uma transição para modelos que alinhem as lógicas de mercado, do Estado e da comunidade, utilizando a prestação de contas para dar visibilidade às organizações da BoP (Ligorio et al., 2022). A ciência da Administração, com suas diversas áreas de gestão, pode colaborar para resolver a invisibilidade dessas organizações, aplicando lógicas de transparência (Ligorio et al., 2022) e capacidades dinâmicas para enfrentar ambientes voláteis (Lima et al., 2019; Petit, 2012). As ferramentas de gestão de projetos, alinhadas às diretrizes do PMBOK, surgem como alternativas para mitigar riscos e promover a sustentabilidade (Castillo-Ospina et al., 2025; Fernando e Zutshi, 2023).

A Gestão de Projetos, conforme o PMBOK (PMI, 2021), organiza dez áreas de conhecimento para promover a eficiência circular. A Gestão de Riscos, em particular, é vital para mitigar incertezas econômicas e o green-hushing (Espinoza-Cisneros e Akhter, 2020; Karikari et al., 2025; Manu et al., 2025). Para que os instrumentos de valoração sejam confiáveis, é fundamental adotar sistemas de medição de desempenho que prevejam falhas e garantam a correção de rumos em tempo real (Chen, 2015; Khalilzadeh et al., 2021). Esta pesquisa propõe uma adaptação do conceito de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para o contexto urbano (Dextre et al., 2022; Díaz-Pinzón et al., 2025; Guo et al., 2020), entendendo o serviço ambiental como ecossocioeconômico, prestado por organizações humanas que, através da gestão de resíduos, geram externalidades positivas mensuráveis (Díaz-Pinzón et al., 2025; Zhu et al., 2025).

A relevância do tema é reforçada pelos dados de um município de médio porte em Santa Catarina, onde 16 entidades associativas recuperaram 13.750 toneladas de materiais, gerando uma economia potencial de R$ 3.937.450,00 em custos de manejo evitados para o município. Contudo, os principais riscos identificados são de ordem institucional e econômica, como a ausência de marcos normativos e a volatilidade dos preços de recicláveis. A pesquisa alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), fomentando o trabalho decente (ODS 8), a infraestrutura sustentável (ODS 9) e a governança urbana (ODS 11) (UNICEF, 2026). Diante desse cenário, este trabalho visou desenvolver um modelo de negócio sustentável fundamentado na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da Base da Pirâmide.

2. Material e Métodos

A pesquisa foi delineada para desenvolver um modelo de negócio sustentável, com foco na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da Base da Pirâmide (BoP). Para tanto, a metodologia foi estruturada para abordar a quantificação de benefícios, a integração de instrumentos econômicos, a redução de incertezas, o fortalecimento da governança, o fomento à inclusão socioeconômica e a estruturação do gerenciamento de riscos conforme as diretrizes do PMBOK.

Este trabalho caracterizou-se como uma pesquisa quantitativa e documental, adotando uma abordagem de estudo de caso com caráter descritivo e exploratório (Castillo-Ospina et al., 2025; Coelho et al., 2025). O delineamento da pesquisa consistiu na coleta de dados secundários oficiais, visando fundamentar a valoração dos serviços de gestão de resíduos prestados pela BoP e a gestão de riscos das organizações (Cook et al., 2024).

O estudo foi realizado em um município de médio porte localizado em Santa Catarina, referido como “Cidade X”. Este local foi selecionado por apresentar parâmetros de referência acessíveis e conveniência de acesso aos dados. A unidade de análise compreendeu as 16 entidades associativas de catadores de materiais recicláveis, que totalizavam aproximadamente 255 associados no período da pesquisa.

Os dados quantitativos foram obtidos exclusivamente do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS, 2024), o que garantiu padronização, rastreabilidade e comparabilidade institucional. O recorte temporal para os dados foi o ano de 2022, por representar o período mais recente e completo disponível no momento da coleta. A coleta de dados ocorreu entre 15 de dezembro de 2025 e 16 de janeiro de 2026.

Foram selecionados indicadores específicos do SNIS, incluindo a massa de resíduos (volumes coletados e recuperados pelas associações) e indicadores financeiros (custo unitário de manejo). Esses dados foram essenciais para o cálculo da valoração econômica dos serviços prestados pelas organizações da BoP.

A operacionalização da pesquisa seguiu uma abordagem sistemática, organizada em etapas sequenciais guiadas pela estrutura do PMBOK (PMI, 2021). Inicialmente, realizou-se um diagnóstico operacional, levantando-se os indicadores de eficiência do setor associativo da Cidade X, como a taxa de recuperação e a cobertura do serviço, a partir do SNIS.

Em seguida, aplicou-se o método de análise de custos evitados para monetizar as externalidades positivas geradas pelo desvio de resíduos de aterros. O valor econômico do serviço ambiental foi estimado considerando os gastos públicos que deixariam de ocorrer com o desvio de resíduos do aterro sanitário, conforme a lógica de valoração por custos evitados (Agutu et al., 2024).

A valoração foi operacionalizada por meio da relação entre os custos evitados (CE), a massa recuperada (MR) e o custo unitário do manejo (CU). Para o cálculo, utilizou-se o custo unitário médio fornecido pelo SNIS, que compreende as etapas de coleta, transporte e destinação final de forma agregada, sem discriminação individualizada das rubricas.

Posteriormente, as incertezas técnicas, sociais e políticas foram categorizadas e priorizadas por meio de ferramentas de gestão de riscos, como a Estrutura Analítica de Riscos (EAR) e a Matriz de Probabilidade e Impacto. Essas ferramentas foram organizadas sequencialmente segundo as diretrizes do PMBOK (PMI, 2021).

A EAR foi construída com base na lógica hierárquica proposta pelo PMBOK, permitindo decompor riscos amplos em categorias estruturais e subcategorias operacionais. Os riscos foram organizados em três eixos principais: institucionais, econômicos e operacionais. Cada risco foi avaliado segundo uma escala ordinal de 1 a 5 para probabilidade de ocorrência e impacto sobre a sustentabilidade do modelo.

O índice de criticidade de cada risco foi calculado pela multiplicação entre sua probabilidade e impacto (R = P × I), conforme metodologia consagrada em gestão de projetos. A análise foi orientada pela Visão Baseada em Recursos (Akalibey et al., 2023), tratando as capacidades das cooperativas como ativos estratégicos para a sustentabilidade urbana.

Essas técnicas permitiram avaliar de maneira integrada o desempenho operacional do sistema, sua viabilidade econômica e os riscos institucionais associados ao modelo proposto. Os dados foram triangulados para a confirmação dos achados e, posteriormente, analisados, seguindo a lógica de valoração por custos evitados e as ferramentas de gestão de riscos.

3. Resultados e Discussão

A Cidade X, um município de médio porte em Santa Catarina, apresentou um sistema formalizado de gestão de resíduos sólidos urbanos, caracterizado pela implementação da coleta seletiva e pela integração de cooperativas e associações de catadores às rotinas municipais. Diferentemente de contextos marcados por informalidade extrema, esta localidade possui uma estrutura administrativa capaz de monitorar indicadores operacionais, o que cria condições favoráveis para análises de desempenho e valoração econômica. Contudo, apesar desse grau de maturidade institucional, o sistema enfrenta gargalos estruturais recorrentes, como a ausência de mecanismos formais de reconhecimento econômico do serviço ambiental, a dependência da comercialização de recicláveis sujeita à volatilidade de preços e a fragilidade contratual com o poder público. Esses fatores convergem para a invisibilidade econômica das cooperativas e ampliam sua exposição a riscos operacionais e financeiros.

Sob essa ótica, o caso da Cidade X oferece potenciais analíticos relevantes, pois o serviço de reciclagem está integrado à política municipal e é monitorado por indicadores oficiais, permitindo a mensuração de externalidades positivas. Essa configuração é propícia para a aplicação de metodologias de valoração econômica e para o desenho de instrumentos inovadores, como o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) no contexto urbano. O diferencial do caso reside na possibilidade de analisar a reciclagem urbana não apenas como atividade operacional, mas como um serviço ecossocioeconômico, passível de reconhecimento institucional. Tal cenário torna o município um laboratório adequado para investigar modelos de negócio que integrem eficiência ambiental, inclusão produtiva e governança pública.

A operacionalização da pesquisa foi organizada em quatro etapas sequenciais, guiadas pela estrutura do PMBOK, para garantir uma abordagem sistemática desde a coleta de dados até a validação do modelo final (PMI, 2021). A primeira etapa consistiu no diagnóstico operacional, onde foram levantados os indicadores de eficiência do setor associativo da Cidade X, a partir do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS, 2024), identificando a taxa de recuperação e a cobertura do serviço. Nesta fase, os desafios de gestão e o potencial de inovação social das cooperativas locais foram balizados pelos critérios identificados por Coelho et al. (2023) para o contexto brasileiro.

Em seguida, foi realizada a aplicação do método de análise de custos evitados para monetizar as externalidades positivas geradas pelo desvio de resíduos de aterros. A partir disso, as incertezas técnicas, sociais e políticas foram categorizadas e priorizadas por meio de uma Estrutura Analítica de Riscos e da Matriz de Probabilidade e Impacto. Esta etapa de gerenciamento foi norteada pela perspectiva de resiliência em cadeias de suprimentos circulares, visando mitigar ameaças à continuidade do serviço ambiental (Fernando e Zutshi, 2023). A análise do setor associativo da Cidade X revelou a atuação de catadores de materiais recicláveis organizados em cooperativas e associações, totalizando dezesseis entidades associativas e aproximadamente 255 associados (SNIS, 2024).

A presença dessas organizações no sistema municipal de gestão de resíduos evidencia a prestação de um serviço ambiental, caracterizado pela redução da quantidade de materiais destinados a aterros sanitários (Ferreira et al., 2024; Suryawan e Lee, 2024). Esse processo reforça o papel estratégico dessas organizações e contribui para a ampliação da eficiência ambiental do sistema urbano de resíduos (Ferreira et al., 2026). Os indicadores de desempenho coletados junto ao SNIS (2024) permitiram quantificar as externalidades positivas geradas pelas entidades associativas. Em parceria com o poder público, essas entidades foram responsáveis pela recuperação de 13.750 toneladas de materiais recicláveis no ano de 2022.

A valoração econômica foi operacionalizada pelo método dos custos evitados, considerando o custo unitário de manejo do município. Este indicador foi extraído da relação entre a despesa total com manejo de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), que foi de R$ 41.736.000,00, e a massa total coletada, que correspondeu a 145.745 toneladas, resultando em um custo de R$ 286,36 por tonelada. Ao aplicar este custo à massa recuperada pelas organizações, evidenciou-se que a atuação dessas entidades gerou uma economia de custo evitado de R$ 3.937.450,00 para o município.

Esse montante representa a economia potencial gerada ao município pelo desvio de resíduos do aterro sanitário. Somando-se a isso, identificou-se um risco econômico significativo: a sustentabilidade das cooperativas está excessivamente atrelada à comercialização de materiais, expondo-as à volatilidade dos preços das commodities. Ao considerar que o serviço prestado gera uma economia anual próxima a R$ 4 milhões ao ano, a implementação de mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) baseados em desempenho atuaria como um redutor desse risco, garantindo maior estabilidade financeira às famílias associadas.

A proposição de um PSA urbano na Cidade X materializa a transição de modelos sugerida na literatura, ao alinhar as lógicas de Mercado, Estado e Comunidade. O modelo proposto integra a eficiência do mercado (via comercialização de recicláveis), a regulação e fomento do Estado (através do pagamento público por serviços ambientais) e o impacto social da Comunidade (pelo fortalecimento das organizações da BoP). Essa tríade permite que o sistema de gestão de resíduos transcenda a visão puramente operacional, tornando-se um arranjo institucional que reconhece o valor econômico de serviços tradicionalmente invisibilizados.

O desempenho operacional das entidades associativas no município reflete-se no volume de materiais recuperados anualmente. Com base nos dados do SNIS (2024), o sistema municipal atingiu uma taxa de recuperação de 23,98%. Contudo, é fundamental ressaltar que, para a análise da sustentabilidade do modelo de negócio, os dados do SNIS são agregados e não contribuem com a identificação individual das cooperativas e associações envolvidas. Essa limitação dificulta o reconhecimento econômico direto das organizações da Base da Pirâmide responsáveis pela prestação do serviço, contribuindo para sua invisibilidade institucional.

Diante dessa limitação, tornou-se necessário analisar a sustentabilidade por variáveis observáveis como autonomia financeira, reconhecimento institucional e diversificação de receitas. Além disso, o processo de quantificação e valoração dos serviços ambientais envolve mensurar danos evitados e externalidades positivas para tornar tangível a contribuição do negócio, assim como a aplicação de um plano de gerenciamento de riscos, baseado nas diretrizes do PMBOK, para reduzir a exposição a ameaças e maximizar oportunidades. A distribuição dos fluxos de resíduos na Cidade X evidenciou que 79.747,50 toneladas de resíduos foram destinadas à coleta convencional e recuperação de resíduos urbanos (RDO + RPU), enquanto 19.122,70 toneladas foram para reciclagem geral e 13.750,00 toneladas foram recuperadas especificamente por cooperativas e associações.

Embora esses indicadores comprovem a eficiência do serviço, observa-se uma clara falha de mercado, uma vez que não existem mecanismos que internalizem economicamente esses benefícios diretamente às cooperativas. Os processos de valoração são condicionados por estruturas institucionais, o que exige que a métrica técnica seja acompanhada de reconhecimento financeiro via instrumentos como o PSA para garantir a sustentabilidade do modelo (Tao et al., 2022). A geração de valor sustentável depende da capacidade de tornar visíveis e mensuráveis serviços que tradicionalmente permanecem fora das lógicas formais de mercado (Ligorio et al., 2022).

Os indicadores da taxa de recuperação de materiais recicláveis, assim como a taxa de cobertura do serviço de coleta, equivalente a 89,99%, demonstram que o serviço ambiental prestado é mensurável e monitorado por instrumentos oficiais de gestão pública. Esses indicadores permitem inferir ganhos ambientais associados à redução do volume de resíduos destinados ao aterro sanitário e à preservação de recursos naturais por meio da reciclagem. A reciclagem urbana, apesar de seu valor ambiental e social, permanece sub-remunerada devido à sua posição periférica nas cadeias formais de valor (Castillo-Ospina et al., 2025).

Analisando através da perspectiva da Administração Pública e da Gestão de Projetos, a ausência de valoração compromete a sustentabilidade financeira dos modelos e amplia a exposição a riscos operacionais (Espinoza-Cisneros e Akhter, 2020). Embora o serviço ambiental seja mensurado ao nível municipal, a ausência de desagregação por organização contribui para a invisibilidade econômica das cooperativas, reforçando a necessidade de instrumentos específicos de valoração. Além disso, os dados relativos aos custos do serviço de coleta e manejo de resíduos evidenciam que a recuperação de materiais recicláveis gera benefícios econômicos indiretos ao município, visto que contribui para a redução de gastos com transporte e disposição final.

Esses resultados indicam a existência de externalidades positivas passíveis de valoração econômica por meio de metodologias baseadas em custos evitados, reforçando a viabilidade técnica de instrumentos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) em contextos urbanos. A partir da análise, observa-se que a integração entre o desempenho operacional e a viabilidade econômica permite converter o serviço prestado pelas organizações da BoP em um modelo de negócio estruturado. O modelo de negócio sustentável baseado em PSA urbano proposto neste estudo articula uma proposta de valor de prestação contínua de serviço ambiental urbano mensurável (desvio de resíduos, eficiência do sistema).

Os clientes ou pagadores para este modelo seriam o poder público municipal, fundos ambientais e instrumentos híbridos de PSA urbano. As atividades-chave incluem coleta, triagem e destinação adequada de recicláveis, utilizando recursos-chave como capital humano (associados), capacidade organizacional e infraestrutura de triagem. Os indicadores de desempenho (KPIs) monitorados seriam a taxa de recuperação, a cobertura do serviço e os custos evitados. A estrutura de custos abrange operação, manutenção e logística, enquanto as fontes de receita seriam a comercialização de recicláveis e o PSA por desempenho.

Os riscos principais identificados são de natureza institucional, econômica e operacional, e a estratégia de mitigação envolve valoração, contratos por desempenho e gestão de riscos. Essa síntese evidencia que o Pagamento por Serviços Ambientais urbano não se configura apenas como um instrumento ambiental, mas como uma inovação institucional e gerencial, capaz de alinhar mensuração de desempenho, previsibilidade financeira e sustentabilidade organizacional. Para responder a essa questão, é fundamental delimitar o conceito de serviço ambiental adotado neste estudo.

Neste trabalho, o serviço é prestado por grupos humanos organizados em cooperativas que executam a triagem e contribuem com a destinação correta de resíduos, ampliando ativamente os benefícios ambientais. A abordagem se alinha a autores que defendem que atividades antrópicas geradoras de externalidades positivas, como a reciclagem, podem e devem ser enquadradas em esquemas de PSA urbanos ou híbridos (da Silva et al., 2021). A proposição de um PSA urbano emerge, neste contexto, como uma inovação em modelo de negócio, e não apenas como um instrumento ambiental.

O modelo funciona como um eixo de integração estratégica, conectando desempenho ambiental, previsibilidade financeira e legitimidade institucional. Essa lógica reforça a capacidade das organizações da BoP de diversificar receitas, reduzir dependência de contratos frágeis e fortalecer sua governança interna. A operacionalização da proposta sob a ótica da gestão de projetos requer o mapeamento dos fatores críticos de sucesso e as ameaças ao modelo. As incertezas técnicas, sociais e políticas foram organizadas em uma Estrutura Analítica de Riscos (EAR) e permitiram a decomposição dos riscos amplos em categorias estruturais e operacionais.

Essa hierarquização em três frentes principais (institucional, econômica e operacional) revelou riscos institucionais como regulatórios (ausência de marco normativo específico para PSA urbano, inviabilizando contratos) e políticos (descontinuidade administrativa municipal, interrompendo políticas públicas), além de riscos contratuais (fragilidade jurídica das associações, baixa capacidade de negociação formal). Os riscos econômicos incluíram mercado (volatilidade dos preços de recicláveis, oscilação de receita) e receita (dependência exclusiva da comercialização, ausência de diversificação de fontes de renda). Por fim, os riscos operacionais foram orçamentários (restrição fiscal municipal, limitações para implantação do PSA), infraestrutura (obsolescência de equipamentos, redução da capacidade produtiva) e capacidade/logística (limitação de expansão operacional e instabilidade na coleta seletiva, irregularidade no fluxo de materiais).

Após a identificação na EAR, procedeu-se à fase de análise qualitativa para a priorização dos eventos. Este processo utilizou métricas de frequência e severidade, classificando a probabilidade de ocorrência e o impacto sobre a sustentabilidade do modelo em uma escala de um a cinco. Por exemplo, um risco com probabilidade “Muito Alto” (acima de 80%) e impacto “Compromete a sustentabilidade estrutural” seria classificado como “Quase certa” e “Crítico”, respectivamente. Para garantir a padronização na avaliação, os resultados foram confrontados com uma classificação de nível de risco, que estabelece os limiares de tolerância e a criticidade para cada combinação de fatores.

Níveis de risco foram categorizados: “Baixo” (intervalo R de 1 a 5) com ação recomendada de monitoramento; “Médio” (6 a 10) com plano de contingência; “Moderado” (11 a 15) com mitigação estruturada; e “Alto/Crítico” (16 a 20) com intervenção estratégica prioritária. A consolidação desse cruzamento de dados resultou na matriz de probabilidade e impacto aplicada ao PSA urbano. Esta matriz reflete o posicionamento estratégico de cada risco mapeado, permitindo identificar quais ameaças exigem respostas imediatas de mitigação e quais oportunidades devem ser exploradas para garantir a viabilidade financeira e operacional do modelo de valoração proposto.

Para os riscos classificados como altos ou críticos, adotou-se a estratégia de mitigação via cláusulas contratuais de PSA. Por exemplo, a ausência de marco normativo e a descontinuidade política, ambos com R igual a vinte e classificados como críticos, demandam estratégias de estruturação jurídica do PSA e contratos plurianuais com institucionalização legal. A fragilidade contratual, com R igual a dezesseis e classificada como alta, requer capacitação jurídica e formalização. A volatilidade de mercado e a dependência exclusiva de venda, ambos com R igual a vinte e classificados como críticos, exigem diversificação via PSA por desempenho e internalização de externalidades.

Para os riscos moderados de ordem operacional, como a restrição fiscal municipal e a obsolescência de equipamentos (ambos com R igual a doze), a estratégia é a melhoria dos processos de triagem, visando aumentar a massa recuperada e, consequentemente, o valor dos custos evitados. A restrição fiscal municipal, classificada como moderada, sugere um PSA vinculado à economia fiscal comprovada. A obsolescência de equipamentos, também moderada, indica reinvestimento com receita do PSA. A limitação de expansão (R igual a nove, médio) requer planejamento gradual de ampliação, e a instabilidade logística (R igual a seis, baixo) demanda monitoramento operacional contínuo.

Com a aplicação deste modelo, o PSA urbano deixa de ser encarado como um simples repasse financeiro e passa a figurar como um instrumento de transferência de risco. No arranjo atual, o risco da volatilidade de preços do mercado de recicláveis, identificado como um risco crítico, é suportado inteiramente pelas associações. Ao estabelecer um pagamento fixo por desempenho ambiental, o modelo mitiga essa ameaça ao garantir uma receita previsível e independente das oscilações das commodities, transferindo parte da incerteza financeira das organizações da BoP para o Estado.

Esta priorização evidencia que os maiores fatores de vulnerabilidade não são técnicos, mas institucionais e econômicos, concentrando-se na ausência de institucionalização do valor ambiental. Essa análise reforça o argumento central da pesquisa: a sustentabilidade das organizações da BoP depende da formalização desse valor para reduzir a invisibilidade econômica e a dependência do mercado secundário. Sob a perspectiva do PMBOK, o processo completo compreendeu as seguintes etapas: identificação de riscos, análise qualitativa, priorização, definição de estratégias de resposta e monitoramento contínuo.

A estratégia predominante adotada para riscos críticos foi a mitigação estrutural, por meio da formalização contratual do PSA urbano. Para riscos operacionais, a estratégia recomendada envolve reforço progressivo de infraestrutura mediante previsibilidade de receita. A aplicação integrada da EAR e da Matriz de Probabilidade e Impacto demonstra que a gestão de riscos não é elemento acessório, mas componente essencial do desenho institucional do PSA. Ao estruturar formalmente as incertezas e definir respostas estratégicas, o modelo proposto fortalece a governança, reduz vulnerabilidades e amplia a resiliência organizacional.

Essa abordagem contribui teoricamente ao integrar economia ambiental, governança pública e gestão de projetos em um único arranjo analítico. A sustentabilidade deixa de ser tratada apenas como resultado ambiental e passa a ser interpretada como função da capacidade institucional de antecipar, classificar e mitigar riscos estruturais. A consolidação dos resultados de valoração e riscos culminou na proposição de um modelo de negócio voltado ao PSA urbano, utilizando o design de instrumentos econômicos de governança ambiental defendido por Cook et al. (2023) para garantir a viabilidade e o reconhecimento institucional da BoP.

O serviço ambiental urbano não se restringe a uma atividade operacional de coleta e triagem de resíduos, constituindo uma capacidade organizacional coletiva, exercida por cooperativas e associações da Base da Pirâmide (Castillo-Ospina et al., 2025; Fernando e Zutshi, 2023). Para a implementação de mecanismos formais de valoração, a gestão de riscos e a rastreabilidade dos dados são fundamentais. Na Cidade X, a dependência de contratos públicos e a volatilidade dos preços de mercado são riscos críticos. Baseado nas diretrizes do PMBOK, esses riscos observados na realidade local podem ser classificados e discutidos em três categorias principais.

Primeiramente, o risco institucional manifesta-se na invisibilidade econômica das entidades associativas da Cidade X, limitando seu reconhecimento oficial. Como não há um mecanismo de PSA, essas organizações ficam vulneráveis a mudanças de gestão municipal ou descontinuidade de programas. A adoção de um PSA urbano, baseado nos indicadores mensuráveis do SNIS (como a cobertura de 89,99%), mitigaria esse risco ao conferir legitimidade jurídica e estabilidade ao serviço prestado. A integração de mecanismos de monitoramento contínuo e a remuneração via PSA urbano podem atuar como mitigadores desses riscos ao desacoplar parcialmente a sustentabilidade das organizações das flutuações do mercado de commodities.

Ao integrar a mensuração oficial do SNIS à valoração econômica e à gestão estruturada de riscos, o modelo proposto transcende a lógica assistencialista e reposiciona as organizações da Base da Pirâmide como agentes estratégicos na prestação de serviços públicos essenciais (Ferreira et al., 2024). A fragilidade institucional e financeira reflete-se no risco operacional, comprometendo a capacidade de investimento em infraestrutura e equipamentos. Sob a perspectiva da Gestão de Projetos, o uso de contratos baseados em desempenho e no monitoramento contínuo da pesagem já existente asseguraria a continuidade do serviço, fortalecendo a resiliência das organizações da BoP.

Dessa forma, a gestão estruturada de riscos deixa de ser uma teoria acessória e passa a ser a condição central para que o modelo de negócio proposto seja viável. Sistemas de medição de desempenho, como o monitoramento da taxa de recuperação de 23,98%, são fundamentais para antecipar falhas e garantir que as organizações da Base da Pirâmide sejam tratadas como agentes estratégicos e não apenas assistenciais (Khalilzadeh et al., 2021; Ferreira et al., 2024). A análise integrada dessas variáveis permite que o modelo não apenas resolva gargalos operacionais locais, mas também se alinhe aos compromissos globais estabelecidos pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Ao assegurar a remuneração justa e reduzir a vulnerabilidade financeira dos associados na Cidade X através do PSA, o modelo fomenta o trabalho decente e o crescimento econômico previstos no ODS 8. Simultaneamente, a aplicação das diretrizes do PMBOK para estruturar a gestão de riscos e garantir a eficiência da taxa de recuperação contribui para o desenvolvimento de uma infraestrutura urbana resiliente e inovadora, atendendo aos preceitos do ODS 9. Por fim, a consolidação desse sistema de governança, fundamentada na valoração do desvio de mais de 13 mil toneladas de resíduos dos aterros, promove a sustentabilidade das cidades conforme preconizado pelo ODS 11, transformando as organizações da BoP em agentes estratégicos para a justiça social e a preservação ambiental.

O desenvolvimento do modelo de negócio sustentável, neste estudo, materializa-se na transição de uma lógica puramente comercial para uma lógica de prestação de serviços valorados. Ao integrar a métrica de custos evitados ao instrumento do PSA, o modelo proposto desacopla a sobrevivência das organizações da BoP da extrema volatilidade do mercado de commodities. Aliado à gestão estruturada de riscos preconizada pelo PMBOK, essa configuração confere resiliência financeira e legitimidade institucional às associações da Cidade X, transformando externalidades ambientais em ativos econômicos que sustentam a autonomia e a justiça social a longo prazo.

O estudo demonstra viabilidade técnica para a valoração por custos evitados e para estruturação de um modelo de negócio baseado em PSA urbano. Entretanto, é importante reconhecer limites metodológicos na fundamentação em dados secundários do SNIS, que refletem agregados municipais. Essa abordagem sistêmica, embora robusta para a proposição do modelo, deixa como lacuna para investigações futuras a avaliação individualizada das associações de materiais recicláveis, o que permitirá confrontar indicadores macrossetoriais com as realidades microestruturais de cada organização. Ainda assim, os resultados demonstram, com base nos dados públicos, que a reciclagem urbana gera valor econômico mensurável ao poder público e desloca o debate da esfera assistencial para a contratual. Com isso, as entidades da Base da Pirâmide passam a ser vistas como prestadoras de serviço ambiental estratégico.

Como contribuição prática, o caso serve de referência para municípios de porte semelhante que buscam internalizar economicamente esses benefícios. Além disso, o avanço científico aqui apresentado reside na mudança de enquadramento: da informalidade tolerada para a prestação de serviço formalmente valorada, onde a sustentabilidade organizacional depende do reconhecimento institucional do valor já entregue à sociedade. Em síntese, a pesquisa demonstrou que as organizações da Base da Pirâmide possuem capacidade operacional e potencial econômico para transcender a informalidade, desde que integradas a modelos de negócio que monetizem suas externalidades positivas, o que é alcançado pela valoração dos serviços e uma gestão de riscos estruturada, respondendo assim ao objetivo de desenvolver um modelo de negócio sustentável.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou desenvolver um modelo de negócio sustentável fundamentado na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da Base da Pirâmide (BoP). Verificou-se que a atuação de dezesseis entidades associativas em um município de médio porte de Santa Catarina recuperou 13.750 toneladas de materiais recicláveis, gerando uma economia potencial de R$ 3.937.450,00 ao município em custos de manejo evitados. Identificou-se que os principais riscos enfrentados por essas organizações são de ordem institucional e econômica, destacando-se a ausência de marcos normativos específicos para o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) urbano e a volatilidade dos preços de recicláveis. A estruturação de um modelo de negócio baseado em PSA urbano, com a aplicação de ferramentas de gestão de riscos fundamentadas no PMBOK, demonstrou ser capaz de mitigar essas incertezas, conferindo resiliência financeira e legitimidade institucional às organizações da BoP.

A principal contribuição deste trabalho reside na proposição de um modelo que transforma as organizações da Base da Pirâmide em parceiros estratégicos para a gestão pública, ao formalizar e valorizar economicamente os serviços ambientais que prestam, deslocando-as de uma lógica assistencialista para uma contratual. Essa abordagem alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, fomentando o trabalho decente, a infraestrutura sustentável e a governança urbana. Contudo, o estudo apresentou limitações decorrentes da utilização de dados secundários agregados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), o que dificultou a avaliação individualizada das associações e restringiu a generalização imediata dos índices de risco. Sugere-se, para estudos futuros, a avaliação microestrutural das organizações, a aplicação do modelo em diferentes contextos municipais para validação da Estrutura Analítica de Riscos e a investigação do impacto do PSA urbano na governança interna e na qualidade de vida dos associados, sob a ótica da justiça social.

Referências Bibliográficas

Agutu, C.; Steffen, B.; Schmidt, T.S. 2024. How do technology-inherent characteristics affect valuation processes in innovation systems?. Environmental Innovation and Societal Transitions, v. 51, p. 100824, 2024.

Castillo-Ospina, D.A.; Pinto, M.R; Ometto, A.R. 2025. Waste picker organizations in recycling systems in latin american cases towards social inclusion in circular economy. Sustainable Futures, v. 10, p. 101549.

D’Alisa, G.; Demaria, F. 2024. Accumulation by contamination: Worldwide cost-shifting strategies of capital in waste management. World development, v. 184, p. 106725.

Fernando, S.J.; Zutshi, A. 2023. Municipal solid waste management in developing economies: A way forward. Cleaner Waste Systems, v. 5, p. 100103.

Soesilo, N. I., Alfarizi, M. 2024. Psycho-social conditions of urban communities in the complexity of waste management: Are awareness and waste banks the main solution?. Socio-Economic Planning Sciences, 93, 101834.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

17 de setembro de 2026

Heterogeneidade Territorial do Bolsa Família: uma Análise por Clusters e Efeitos Fixos

O Programa Bolsa Família (PBF) representa uma das políticas de proteção social mais relevantes globalmente, o que justifica a investigação de seus efeitos diante das acentuadas e heterogêneas desigualdades regionais brasileiras. O estudo avaliou os reflexos socioeconômicos dos repasses do programa sobre a saúde, a educação e o mercado de trabalho nos municípios brasileiros, no período de 2004 a 2019. Para isso, aplicou-se a técnica de agrupamento K-means para segmentação territorial e estimaram-se modelos econométricos de dados em painel com efeitos fixos, tanto a nível nacional quanto segregados por clusters. Os resultados revelaram a natureza anticíclica do PBF no mercado de trabalho, com uma relação negativa entre repasses e vínculos empregatícios formais em quatro dos cinco clusters, sugerindo que os recursos foram mais intensos onde o mercado formal falhou. Na saúde, o programa associou-se à redução significante da mortalidade infantil evitável em municípios com maior equilíbrio socioeconômico, mas não apresentou efeito detectável em agrupamentos de maior precariedade estrutural, indicando que a transferência de renda é necessária, porém insuficiente sem infraestrutura de saúde funcional. Na educação, a análise por subperíodos mostrou atenuação progressiva do coeficiente nacional, refletindo a convergência das taxas de matrícula para um patamar de alta inércia temporal. Concluiu-se que o PBF cumpriu seu objetivo de proteção social de forma anticíclica e territorialmente focalizada, mas sua capacidade de transformar indicadores estruturais dependeu da sinergia com investimentos em infraestrutura pública.

Palavras-chave: Bolsa Família; Mortalidade Infantil; Municípios Brasileiros; Painel de Dados; Política Pública.

Gestão Tributária

17 de setembro de 2026

Limites Jurídicos e Práticos da Dedutibilidade Retroativa dos Juros sobre Capital Próprio

A gestão tributária adequada é crucial para a saúde financeira das empresas, especialmente no complexo sistema tributário brasileiro. Os Juros sobre Capital Próprio (JCP) constituem um mecanismo jurídico relevante para a remuneração do capital próprio, utilizado para otimizar a carga tributária. O estudo investigou a controvérsia sobre a dedutibilidade de JCP referentes a exercícios anteriores à deliberação societária que autoriza seu pagamento. Aplicou-se a metodologia de pesquisa e análise documental empírica, baseada em “Normative Systems”, para identificar cinco propriedades representativas dos argumentos jurídicos na jurisprudência administrativa e judicial. Analisaram-se acórdãos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), revelando padrões decisórios predominantes, divergências interpretativas, incoerências argumentativas e significativa insegurança jurídica. Os resultados indicaram forte tendência de invalidação dos planejamentos envolvendo JCP extemporâneos na esfera administrativa. Contudo, o julgamento do Tema 1319 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) seguiu direção oposta, consagrando tese favorável à dedutibilidade e estabelecendo um precedente paradigmático que pode influenciar a jurisprudência administrativa e redefinir os critérios decisórios.

Palavras-chave: CARF; gestão tributária; limitação temporal; lucro real; planejamento tributário.

17 de setembro de 2026

Símbolos da Moda Esportiva: Consumo, Identidade e Status entre Consumidores Brasileiros

A moda esportiva consolidou-se como linguagem simbólica de distinção social nas últimas décadas, impulsionada pela expansão do mercado de wellness e pela reconfiguração dos padrões de prestígio nas sociedades de consumo contemporâneas. O estudo objetivou compreender como os símbolos da moda esportiva influenciaram a construção de identidade e pertencimento e sua associação ao prestígio social entre consumidores brasileiros que adquiriram produtos do setor nos últimos 12 meses. Desenvolveu-se a pesquisa por meio de levantamento bibliográfico e pesquisa descritiva, com levantamento do tipo survey aplicado a uma amostra não probabilística por conveniência de 445 consumidores brasileiros de moda esportiva. Os principais resultados indicaram que a maioria dos respondentes associou marcas esportivas a percepções de status social; mais da metade reconheceu o wellness como novo símbolo de prestígio; e parcela expressiva percebeu o sportstyle como mais aceito em ambientes formais de trabalho. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização, como preferência por logotipos visíveis, influência de redes sociais e disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente rejeitadas, revelando uma dissociação entre a atribuição simbólica de status e o comportamento de sinalização ostensiva. O consumidor brasileiro de moda esportiva com elevado capital cultural operou por meio de sinais simbólicos sutis e não ostensivos, compatíveis com o fenômeno do consumo inconspícuo, no qual a distinção social se manifestou de forma internalizada.

Palavras-chave: Consumo inconspícuo; Distinção; Prestígio social; Sportstyle; Wellness.

17 de setembro de 2026

Modelo Validado de Formação de Competência Técnica e Habilidades Não Técnicas em Indústrias Químicas Complexas

Analisou-se a implementação de um processo sistemático para o desenvolvimento e a atualização de competências técnicas e habilidades não técnicas em Operações Industriais e Segurança de Processo em uma indústria química de alta complexidade, pertencente a uma multinacional localizada no Polo Petroquímico de Camaçari, Bahia. O estudo objetivou implementar um processo mensurável e sustentável que assegurou a competência técnica e não técnica de 100% dos operadores, em conformidade com a legislação estadual da Bahia, diretrizes de institutos internacionais e políticas corporativas. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso de abordagem mista, que envolveu diagnóstico documental, entrevistas semiestruturadas com 85 operadores experientes, análise de tarefas críticas e o desenvolvimento e aplicação piloto de um programa modular de treinamento. Este processo evidenciou a necessidade de alinhamento e atualização sistemática das competências requeridas. Os resultados obtidos indicaram a eficácia do modelo proposto, com 100% dos operadores concluindo os módulos teóricos e práticos e alcançando uma taxa de aprovação superior a 80%, além de conformidade operacional em campo. O trabalho contribuiu com um modelo estruturado de formação, incluindo matriz de competências, programas modulares de treinamento e diretrizes para certificação e recertificação, demonstrando potencial de replicação em outras unidades industriais de elevada complexidade e risco, e fortalecendo a segurança de processo e a sustentabilidade operacional.

Palavras-chave: Capacitação; Competência; Habilidades não técnicas; Segurança de processo; Treinamento.

Compliance E Esg

17 de setembro de 2026

Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

Palavras-chave: accountability; adaptação climática; gestão de riscos; governança multinível.

Digital Business

17 de setembro de 2026

Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

Palavras-chave: Automação de Marketing; Business Intelligence; Inbound Marketing; Integração de Sistemas; RD Station.

17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

Gestão Escolar Integrada: o Papel da Direção Administrativa na Capacitação da Equipe de Gestão Pedagógica para a Compreensão do Orçamento Escolar

A administração escolar foi abordada sob a perspectiva da integração entre gestores administrativos e pedagógicos, com foco na participação democrática, capacitação e qualificação dos atores. O objetivo geral consistiu na elaboração de um Guia de Orientações para Orçamento, direcionado à equipe de gestão pedagógica e mediado pela direção administrativa, visando instrumentalizar esses profissionais para a compreensão e participação nos processos financeiros e decisórios da instituição. Para tanto, o estudo desenvolveu-se em uma instituição particular privada, adotando uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, com procedimento metodológico de estudo de caso. A pesquisa mapeou desafios práticos e dificuldades de comunicação entre os setores, analisou referenciais teóricos da gestão escolar e estruturou o instrumento formativo proposto. Os resultados demonstraram que a ausência de integração entre as áreas administrativa e pedagógica pode comprometer a efetividade da gestão escolar, evidenciando a necessidade de processos formativos contínuos que promovam entendimento mútuo, cooperação e construção coletiva de soluções. O Guia proposto fortaleceu a gestão democrática, elevou a qualificação da equipe pedagógica e melhorou os processos decisórios institucionais, destacando o papel formativo e estratégico do diretor administrativo.

Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade