Artigo

30 de julho de 2026

Serviços de Reciclagem Urbana: Integrando Gestão de Riscos e Pagamento por Serviços Ambientais Urbanos

Franciele Mendonça Ferreira; Sidney Lincoln Vitorino

DOI: 10.22167/2675-6528-202600807

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A sustentabilidade urbana depende do reconhecimento e da valoração de serviços essenciais prestados por comunidades da Base da Pirâmide (BoP), que frequentemente enfrentam fragilidades institucionais e invisibilidade econômica. O trabalho objetivou desenvolver um modelo de negócio sustentável fundamentado na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da BoP. Realizou-se uma pesquisa quantitativa e documental, com abordagem de estudo de caso descritivo e exploratório em um município de médio porte em Santa Catarina. Os dados foram coletados no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), empregando-se o método de valoração por custos evitados e ferramentas de gestão de riscos, como a Estrutura Analítica de Riscos (EAR) e a Matriz de Probabilidade e Impacto, fundamentadas no PMBOK. Os resultados evidenciaram que a atuação das 16 entidades associativas locais recuperou 13.750 toneladas de materiais, gerando uma economia potencial de R$ 3.9 milhões ao município em custos de manejo evitados. Identificou-se que os principais riscos são de ordem institucional e econômica, especificamente a ausência de marcos normativos e a volatilidade dos preços de recicláveis. Concluiu-se que a estruturação de um Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) urbano promove a resiliência financeira e a legitimidade institucional, convertendo as organizações da BoP em parceiros estratégicos para a gestão pública.

Palavras-chave: Base da Pirâmide; Economia Circular; PMBOK; Resíduos Sólidos; Valoração econômica.

1. Introdução

A sustentabilidade urbana contemporânea depende intrinsecamente do reconhecimento e da valoração de serviços essenciais, frequentemente prestados por comunidades da Base da Pirâmide (BoP). Tais serviços incluem a coleta, triagem e destinação de resíduos sólidos, conforme destacado por Agutu et al. (2024). Apesar de sua contribuição significativa para a economia circular e para a mitigação de impactos ambientais, essas comunidades e suas organizações, como cooperativas e associações, enfrentam fragilidades institucionais, econômicas e operacionais persistentes (Castillo-Ospina et al., 2025).

A informalidade e a subvalorização desse setor representam um risco crítico à viabilidade de modelos de negócio sustentáveis. Há uma escassez notável de estudos que gerem evidências e influenciem decisões de sustentabilidade capazes de integrar as organizações da BoP como uma estratégia eficaz de mitigação de riscos. Essa lacuna justifica a necessidade de pesquisa aprofundada, tanto no âmbito científico quanto prático, para compreender e fortalecer o papel dessas comunidades.

Embora o século XXI tenha sido marcado por um despertar global para a gestão de resíduos, o debate predominante tem se focado na dimensão técnica, subestimando as importantes dimensões sociais e comunitárias do processo (D’Alisa e Demaria, 2024; Fernando e Zutshi, 2023). Em economias emergentes, a mera existência de infraestrutura, como bancos de resíduos ou centros de triagem, não garante a sustentabilidade se não houver um alinhamento com a consciência ambiental e o reconhecimento dos atores envolvidos (Soesilo e Alfarizi, 2024). No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2010) institucionalizou a responsabilidade compartilhada e a inclusão dos catadores, mas a dependência de aterros sanitários ainda persiste, evidenciando a dificuldade de integrar o comportamento comunitário ao setor de reciclagem e comprometendo a eficiência do sistema (Gutberlet, 2015; Soesilo e Alfarizi, 2024; Uddin e Gutberlet, 2018).

A sustentabilidade atual exige uma transição para modelos que alinhem as lógicas de mercado, do Estado e da comunidade, utilizando a prestação de contas para dar visibilidade às organizações da BoP (Ligorio et al., 2022). A ciência da Administração, com suas diversas áreas de gestão, pode colaborar para resolver a invisibilidade dessas organizações, aplicando lógicas de transparência (Ligorio et al., 2022) e capacidades dinâmicas para enfrentar ambientes voláteis (Lima et al., 2019; Petit, 2012). As ferramentas de gestão de projetos, alinhadas às diretrizes do PMBOK, surgem como alternativas para mitigar riscos e promover a sustentabilidade (Castillo-Ospina et al., 2025; Fernando e Zutshi, 2023).

A Gestão de Projetos, conforme o PMBOK (PMI, 2021), organiza dez áreas de conhecimento para promover a eficiência circular. A Gestão de Riscos, em particular, é vital para mitigar incertezas econômicas e o green-hushing (Espinoza-Cisneros e Akhter, 2020; Karikari et al., 2025; Manu et al., 2025). Para que os instrumentos de valoração sejam confiáveis, é fundamental adotar sistemas de medição de desempenho que prevejam falhas e garantam a correção de rumos em tempo real (Chen, 2015; Khalilzadeh et al., 2021). Esta pesquisa propõe uma adaptação do conceito de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para o contexto urbano (Dextre et al., 2022; Díaz-Pinzón et al., 2025; Guo et al., 2020), entendendo o serviço ambiental como ecossocioeconômico, prestado por organizações humanas que, através da gestão de resíduos, geram externalidades positivas mensuráveis (Díaz-Pinzón et al., 2025; Zhu et al., 2025).

A relevância do tema é reforçada pelos dados de um município de médio porte em Santa Catarina, onde 16 entidades associativas recuperaram 13.750 toneladas de materiais, gerando uma economia potencial de R$ 3.937.450,00 em custos de manejo evitados para o município. Contudo, os principais riscos identificados são de ordem institucional e econômica, como a ausência de marcos normativos e a volatilidade dos preços de recicláveis. A pesquisa alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), fomentando o trabalho decente (ODS 8), a infraestrutura sustentável (ODS 9) e a governança urbana (ODS 11) (UNICEF, 2026). Diante desse cenário, este trabalho visou desenvolver um modelo de negócio sustentável fundamentado na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da Base da Pirâmide.

2. Material e Métodos

A pesquisa foi delineada para desenvolver um modelo de negócio sustentável, com foco na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da Base da Pirâmide (BoP). Para tanto, a metodologia foi estruturada para abordar a quantificação de benefícios, a integração de instrumentos econômicos, a redução de incertezas, o fortalecimento da governança, o fomento à inclusão socioeconômica e a estruturação do gerenciamento de riscos conforme as diretrizes do PMBOK.

Este trabalho caracterizou-se como uma pesquisa quantitativa e documental, adotando uma abordagem de estudo de caso com caráter descritivo e exploratório (Castillo-Ospina et al., 2025; Coelho et al., 2025). O delineamento da pesquisa consistiu na coleta de dados secundários oficiais, visando fundamentar a valoração dos serviços de gestão de resíduos prestados pela BoP e a gestão de riscos das organizações (Cook et al., 2024).

O estudo foi realizado em um município de médio porte localizado em Santa Catarina, referido como “Cidade X”. Este local foi selecionado por apresentar parâmetros de referência acessíveis e conveniência de acesso aos dados. A unidade de análise compreendeu as 16 entidades associativas de catadores de materiais recicláveis, que totalizavam aproximadamente 255 associados no período da pesquisa.

Os dados quantitativos foram obtidos exclusivamente do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS, 2024), o que garantiu padronização, rastreabilidade e comparabilidade institucional. O recorte temporal para os dados foi o ano de 2022, por representar o período mais recente e completo disponível no momento da coleta. A coleta de dados ocorreu entre 15 de dezembro de 2025 e 16 de janeiro de 2026.

Foram selecionados indicadores específicos do SNIS, incluindo a massa de resíduos (volumes coletados e recuperados pelas associações) e indicadores financeiros (custo unitário de manejo). Esses dados foram essenciais para o cálculo da valoração econômica dos serviços prestados pelas organizações da BoP.

A operacionalização da pesquisa seguiu uma abordagem sistemática, organizada em etapas sequenciais guiadas pela estrutura do PMBOK (PMI, 2021). Inicialmente, realizou-se um diagnóstico operacional, levantando-se os indicadores de eficiência do setor associativo da Cidade X, como a taxa de recuperação e a cobertura do serviço, a partir do SNIS.

Em seguida, aplicou-se o método de análise de custos evitados para monetizar as externalidades positivas geradas pelo desvio de resíduos de aterros. O valor econômico do serviço ambiental foi estimado considerando os gastos públicos que deixariam de ocorrer com o desvio de resíduos do aterro sanitário, conforme a lógica de valoração por custos evitados (Agutu et al., 2024).

A valoração foi operacionalizada por meio da relação entre os custos evitados (CE), a massa recuperada (MR) e o custo unitário do manejo (CU). Para o cálculo, utilizou-se o custo unitário médio fornecido pelo SNIS, que compreende as etapas de coleta, transporte e destinação final de forma agregada, sem discriminação individualizada das rubricas.

Posteriormente, as incertezas técnicas, sociais e políticas foram categorizadas e priorizadas por meio de ferramentas de gestão de riscos, como a Estrutura Analítica de Riscos (EAR) e a Matriz de Probabilidade e Impacto. Essas ferramentas foram organizadas sequencialmente segundo as diretrizes do PMBOK (PMI, 2021).

A EAR foi construída com base na lógica hierárquica proposta pelo PMBOK, permitindo decompor riscos amplos em categorias estruturais e subcategorias operacionais. Os riscos foram organizados em três eixos principais: institucionais, econômicos e operacionais. Cada risco foi avaliado segundo uma escala ordinal de 1 a 5 para probabilidade de ocorrência e impacto sobre a sustentabilidade do modelo.

O índice de criticidade de cada risco foi calculado pela multiplicação entre sua probabilidade e impacto (R = P × I), conforme metodologia consagrada em gestão de projetos. A análise foi orientada pela Visão Baseada em Recursos (Akalibey et al., 2023), tratando as capacidades das cooperativas como ativos estratégicos para a sustentabilidade urbana.

Essas técnicas permitiram avaliar de maneira integrada o desempenho operacional do sistema, sua viabilidade econômica e os riscos institucionais associados ao modelo proposto. Os dados foram triangulados para a confirmação dos achados e, posteriormente, analisados, seguindo a lógica de valoração por custos evitados e as ferramentas de gestão de riscos.

3. Resultados e Discussão

A Cidade X, um município de médio porte em Santa Catarina, apresentou um sistema formalizado de gestão de resíduos sólidos urbanos, caracterizado pela implementação da coleta seletiva e pela integração de cooperativas e associações de catadores às rotinas municipais. Diferentemente de contextos marcados por informalidade extrema, esta localidade possui uma estrutura administrativa capaz de monitorar indicadores operacionais, o que cria condições favoráveis para análises de desempenho e valoração econômica. Contudo, apesar desse grau de maturidade institucional, o sistema enfrenta gargalos estruturais recorrentes, como a ausência de mecanismos formais de reconhecimento econômico do serviço ambiental, a dependência da comercialização de recicláveis sujeita à volatilidade de preços e a fragilidade contratual com o poder público. Esses fatores convergem para a invisibilidade econômica das cooperativas e ampliam sua exposição a riscos operacionais e financeiros.

Sob essa ótica, o caso da Cidade X oferece potenciais analíticos relevantes, pois o serviço de reciclagem está integrado à política municipal e é monitorado por indicadores oficiais, permitindo a mensuração de externalidades positivas. Essa configuração é propícia para a aplicação de metodologias de valoração econômica e para o desenho de instrumentos inovadores, como o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) no contexto urbano. O diferencial do caso reside na possibilidade de analisar a reciclagem urbana não apenas como atividade operacional, mas como um serviço ecossocioeconômico, passível de reconhecimento institucional. Tal cenário torna o município um laboratório adequado para investigar modelos de negócio que integrem eficiência ambiental, inclusão produtiva e governança pública.

A operacionalização da pesquisa foi organizada em quatro etapas sequenciais, guiadas pela estrutura do PMBOK, para garantir uma abordagem sistemática desde a coleta de dados até a validação do modelo final (PMI, 2021). A primeira etapa consistiu no diagnóstico operacional, onde foram levantados os indicadores de eficiência do setor associativo da Cidade X, a partir do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS, 2024), identificando a taxa de recuperação e a cobertura do serviço. Nesta fase, os desafios de gestão e o potencial de inovação social das cooperativas locais foram balizados pelos critérios identificados por Coelho et al. (2023) para o contexto brasileiro.

Em seguida, foi realizada a aplicação do método de análise de custos evitados para monetizar as externalidades positivas geradas pelo desvio de resíduos de aterros. A partir disso, as incertezas técnicas, sociais e políticas foram categorizadas e priorizadas por meio de uma Estrutura Analítica de Riscos e da Matriz de Probabilidade e Impacto. Esta etapa de gerenciamento foi norteada pela perspectiva de resiliência em cadeias de suprimentos circulares, visando mitigar ameaças à continuidade do serviço ambiental (Fernando e Zutshi, 2023). A análise do setor associativo da Cidade X revelou a atuação de catadores de materiais recicláveis organizados em cooperativas e associações, totalizando dezesseis entidades associativas e aproximadamente 255 associados (SNIS, 2024).

A presença dessas organizações no sistema municipal de gestão de resíduos evidencia a prestação de um serviço ambiental, caracterizado pela redução da quantidade de materiais destinados a aterros sanitários (Ferreira et al., 2024; Suryawan e Lee, 2024). Esse processo reforça o papel estratégico dessas organizações e contribui para a ampliação da eficiência ambiental do sistema urbano de resíduos (Ferreira et al., 2026). Os indicadores de desempenho coletados junto ao SNIS (2024) permitiram quantificar as externalidades positivas geradas pelas entidades associativas. Em parceria com o poder público, essas entidades foram responsáveis pela recuperação de 13.750 toneladas de materiais recicláveis no ano de 2022.

A valoração econômica foi operacionalizada pelo método dos custos evitados, considerando o custo unitário de manejo do município. Este indicador foi extraído da relação entre a despesa total com manejo de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), que foi de R$ 41.736.000,00, e a massa total coletada, que correspondeu a 145.745 toneladas, resultando em um custo de R$ 286,36 por tonelada. Ao aplicar este custo à massa recuperada pelas organizações, evidenciou-se que a atuação dessas entidades gerou uma economia de custo evitado de R$ 3.937.450,00 para o município.

Esse montante representa a economia potencial gerada ao município pelo desvio de resíduos do aterro sanitário. Somando-se a isso, identificou-se um risco econômico significativo: a sustentabilidade das cooperativas está excessivamente atrelada à comercialização de materiais, expondo-as à volatilidade dos preços das commodities. Ao considerar que o serviço prestado gera uma economia anual próxima a R$ 4 milhões ao ano, a implementação de mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) baseados em desempenho atuaria como um redutor desse risco, garantindo maior estabilidade financeira às famílias associadas.

A proposição de um PSA urbano na Cidade X materializa a transição de modelos sugerida na literatura, ao alinhar as lógicas de Mercado, Estado e Comunidade. O modelo proposto integra a eficiência do mercado (via comercialização de recicláveis), a regulação e fomento do Estado (através do pagamento público por serviços ambientais) e o impacto social da Comunidade (pelo fortalecimento das organizações da BoP). Essa tríade permite que o sistema de gestão de resíduos transcenda a visão puramente operacional, tornando-se um arranjo institucional que reconhece o valor econômico de serviços tradicionalmente invisibilizados.

O desempenho operacional das entidades associativas no município reflete-se no volume de materiais recuperados anualmente. Com base nos dados do SNIS (2024), o sistema municipal atingiu uma taxa de recuperação de 23,98%. Contudo, é fundamental ressaltar que, para a análise da sustentabilidade do modelo de negócio, os dados do SNIS são agregados e não contribuem com a identificação individual das cooperativas e associações envolvidas. Essa limitação dificulta o reconhecimento econômico direto das organizações da Base da Pirâmide responsáveis pela prestação do serviço, contribuindo para sua invisibilidade institucional.

Diante dessa limitação, tornou-se necessário analisar a sustentabilidade por variáveis observáveis como autonomia financeira, reconhecimento institucional e diversificação de receitas. Além disso, o processo de quantificação e valoração dos serviços ambientais envolve mensurar danos evitados e externalidades positivas para tornar tangível a contribuição do negócio, assim como a aplicação de um plano de gerenciamento de riscos, baseado nas diretrizes do PMBOK, para reduzir a exposição a ameaças e maximizar oportunidades. A distribuição dos fluxos de resíduos na Cidade X evidenciou que 79.747,50 toneladas de resíduos foram destinadas à coleta convencional e recuperação de resíduos urbanos (RDO + RPU), enquanto 19.122,70 toneladas foram para reciclagem geral e 13.750,00 toneladas foram recuperadas especificamente por cooperativas e associações.

Embora esses indicadores comprovem a eficiência do serviço, observa-se uma clara falha de mercado, uma vez que não existem mecanismos que internalizem economicamente esses benefícios diretamente às cooperativas. Os processos de valoração são condicionados por estruturas institucionais, o que exige que a métrica técnica seja acompanhada de reconhecimento financeiro via instrumentos como o PSA para garantir a sustentabilidade do modelo (Tao et al., 2022). A geração de valor sustentável depende da capacidade de tornar visíveis e mensuráveis serviços que tradicionalmente permanecem fora das lógicas formais de mercado (Ligorio et al., 2022).

Os indicadores da taxa de recuperação de materiais recicláveis, assim como a taxa de cobertura do serviço de coleta, equivalente a 89,99%, demonstram que o serviço ambiental prestado é mensurável e monitorado por instrumentos oficiais de gestão pública. Esses indicadores permitem inferir ganhos ambientais associados à redução do volume de resíduos destinados ao aterro sanitário e à preservação de recursos naturais por meio da reciclagem. A reciclagem urbana, apesar de seu valor ambiental e social, permanece sub-remunerada devido à sua posição periférica nas cadeias formais de valor (Castillo-Ospina et al., 2025).

Analisando através da perspectiva da Administração Pública e da Gestão de Projetos, a ausência de valoração compromete a sustentabilidade financeira dos modelos e amplia a exposição a riscos operacionais (Espinoza-Cisneros e Akhter, 2020). Embora o serviço ambiental seja mensurado ao nível municipal, a ausência de desagregação por organização contribui para a invisibilidade econômica das cooperativas, reforçando a necessidade de instrumentos específicos de valoração. Além disso, os dados relativos aos custos do serviço de coleta e manejo de resíduos evidenciam que a recuperação de materiais recicláveis gera benefícios econômicos indiretos ao município, visto que contribui para a redução de gastos com transporte e disposição final.

Esses resultados indicam a existência de externalidades positivas passíveis de valoração econômica por meio de metodologias baseadas em custos evitados, reforçando a viabilidade técnica de instrumentos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) em contextos urbanos. A partir da análise, observa-se que a integração entre o desempenho operacional e a viabilidade econômica permite converter o serviço prestado pelas organizações da BoP em um modelo de negócio estruturado. O modelo de negócio sustentável baseado em PSA urbano proposto neste estudo articula uma proposta de valor de prestação contínua de serviço ambiental urbano mensurável (desvio de resíduos, eficiência do sistema).

Os clientes ou pagadores para este modelo seriam o poder público municipal, fundos ambientais e instrumentos híbridos de PSA urbano. As atividades-chave incluem coleta, triagem e destinação adequada de recicláveis, utilizando recursos-chave como capital humano (associados), capacidade organizacional e infraestrutura de triagem. Os indicadores de desempenho (KPIs) monitorados seriam a taxa de recuperação, a cobertura do serviço e os custos evitados. A estrutura de custos abrange operação, manutenção e logística, enquanto as fontes de receita seriam a comercialização de recicláveis e o PSA por desempenho.

Os riscos principais identificados são de natureza institucional, econômica e operacional, e a estratégia de mitigação envolve valoração, contratos por desempenho e gestão de riscos. Essa síntese evidencia que o Pagamento por Serviços Ambientais urbano não se configura apenas como um instrumento ambiental, mas como uma inovação institucional e gerencial, capaz de alinhar mensuração de desempenho, previsibilidade financeira e sustentabilidade organizacional. Para responder a essa questão, é fundamental delimitar o conceito de serviço ambiental adotado neste estudo.

Neste trabalho, o serviço é prestado por grupos humanos organizados em cooperativas que executam a triagem e contribuem com a destinação correta de resíduos, ampliando ativamente os benefícios ambientais. A abordagem se alinha a autores que defendem que atividades antrópicas geradoras de externalidades positivas, como a reciclagem, podem e devem ser enquadradas em esquemas de PSA urbanos ou híbridos (da Silva et al., 2021). A proposição de um PSA urbano emerge, neste contexto, como uma inovação em modelo de negócio, e não apenas como um instrumento ambiental.

O modelo funciona como um eixo de integração estratégica, conectando desempenho ambiental, previsibilidade financeira e legitimidade institucional. Essa lógica reforça a capacidade das organizações da BoP de diversificar receitas, reduzir dependência de contratos frágeis e fortalecer sua governança interna. A operacionalização da proposta sob a ótica da gestão de projetos requer o mapeamento dos fatores críticos de sucesso e as ameaças ao modelo. As incertezas técnicas, sociais e políticas foram organizadas em uma Estrutura Analítica de Riscos (EAR) e permitiram a decomposição dos riscos amplos em categorias estruturais e operacionais.

Essa hierarquização em três frentes principais (institucional, econômica e operacional) revelou riscos institucionais como regulatórios (ausência de marco normativo específico para PSA urbano, inviabilizando contratos) e políticos (descontinuidade administrativa municipal, interrompendo políticas públicas), além de riscos contratuais (fragilidade jurídica das associações, baixa capacidade de negociação formal). Os riscos econômicos incluíram mercado (volatilidade dos preços de recicláveis, oscilação de receita) e receita (dependência exclusiva da comercialização, ausência de diversificação de fontes de renda). Por fim, os riscos operacionais foram orçamentários (restrição fiscal municipal, limitações para implantação do PSA), infraestrutura (obsolescência de equipamentos, redução da capacidade produtiva) e capacidade/logística (limitação de expansão operacional e instabilidade na coleta seletiva, irregularidade no fluxo de materiais).

Após a identificação na EAR, procedeu-se à fase de análise qualitativa para a priorização dos eventos. Este processo utilizou métricas de frequência e severidade, classificando a probabilidade de ocorrência e o impacto sobre a sustentabilidade do modelo em uma escala de um a cinco. Por exemplo, um risco com probabilidade “Muito Alto” (acima de 80%) e impacto “Compromete a sustentabilidade estrutural” seria classificado como “Quase certa” e “Crítico”, respectivamente. Para garantir a padronização na avaliação, os resultados foram confrontados com uma classificação de nível de risco, que estabelece os limiares de tolerância e a criticidade para cada combinação de fatores.

Níveis de risco foram categorizados: “Baixo” (intervalo R de 1 a 5) com ação recomendada de monitoramento; “Médio” (6 a 10) com plano de contingência; “Moderado” (11 a 15) com mitigação estruturada; e “Alto/Crítico” (16 a 20) com intervenção estratégica prioritária. A consolidação desse cruzamento de dados resultou na matriz de probabilidade e impacto aplicada ao PSA urbano. Esta matriz reflete o posicionamento estratégico de cada risco mapeado, permitindo identificar quais ameaças exigem respostas imediatas de mitigação e quais oportunidades devem ser exploradas para garantir a viabilidade financeira e operacional do modelo de valoração proposto.

Para os riscos classificados como altos ou críticos, adotou-se a estratégia de mitigação via cláusulas contratuais de PSA. Por exemplo, a ausência de marco normativo e a descontinuidade política, ambos com R igual a vinte e classificados como críticos, demandam estratégias de estruturação jurídica do PSA e contratos plurianuais com institucionalização legal. A fragilidade contratual, com R igual a dezesseis e classificada como alta, requer capacitação jurídica e formalização. A volatilidade de mercado e a dependência exclusiva de venda, ambos com R igual a vinte e classificados como críticos, exigem diversificação via PSA por desempenho e internalização de externalidades.

Para os riscos moderados de ordem operacional, como a restrição fiscal municipal e a obsolescência de equipamentos (ambos com R igual a doze), a estratégia é a melhoria dos processos de triagem, visando aumentar a massa recuperada e, consequentemente, o valor dos custos evitados. A restrição fiscal municipal, classificada como moderada, sugere um PSA vinculado à economia fiscal comprovada. A obsolescência de equipamentos, também moderada, indica reinvestimento com receita do PSA. A limitação de expansão (R igual a nove, médio) requer planejamento gradual de ampliação, e a instabilidade logística (R igual a seis, baixo) demanda monitoramento operacional contínuo.

Com a aplicação deste modelo, o PSA urbano deixa de ser encarado como um simples repasse financeiro e passa a figurar como um instrumento de transferência de risco. No arranjo atual, o risco da volatilidade de preços do mercado de recicláveis, identificado como um risco crítico, é suportado inteiramente pelas associações. Ao estabelecer um pagamento fixo por desempenho ambiental, o modelo mitiga essa ameaça ao garantir uma receita previsível e independente das oscilações das commodities, transferindo parte da incerteza financeira das organizações da BoP para o Estado.

Esta priorização evidencia que os maiores fatores de vulnerabilidade não são técnicos, mas institucionais e econômicos, concentrando-se na ausência de institucionalização do valor ambiental. Essa análise reforça o argumento central da pesquisa: a sustentabilidade das organizações da BoP depende da formalização desse valor para reduzir a invisibilidade econômica e a dependência do mercado secundário. Sob a perspectiva do PMBOK, o processo completo compreendeu as seguintes etapas: identificação de riscos, análise qualitativa, priorização, definição de estratégias de resposta e monitoramento contínuo.

A estratégia predominante adotada para riscos críticos foi a mitigação estrutural, por meio da formalização contratual do PSA urbano. Para riscos operacionais, a estratégia recomendada envolve reforço progressivo de infraestrutura mediante previsibilidade de receita. A aplicação integrada da EAR e da Matriz de Probabilidade e Impacto demonstra que a gestão de riscos não é elemento acessório, mas componente essencial do desenho institucional do PSA. Ao estruturar formalmente as incertezas e definir respostas estratégicas, o modelo proposto fortalece a governança, reduz vulnerabilidades e amplia a resiliência organizacional.

Essa abordagem contribui teoricamente ao integrar economia ambiental, governança pública e gestão de projetos em um único arranjo analítico. A sustentabilidade deixa de ser tratada apenas como resultado ambiental e passa a ser interpretada como função da capacidade institucional de antecipar, classificar e mitigar riscos estruturais. A consolidação dos resultados de valoração e riscos culminou na proposição de um modelo de negócio voltado ao PSA urbano, utilizando o design de instrumentos econômicos de governança ambiental defendido por Cook et al. (2023) para garantir a viabilidade e o reconhecimento institucional da BoP.

O serviço ambiental urbano não se restringe a uma atividade operacional de coleta e triagem de resíduos, constituindo uma capacidade organizacional coletiva, exercida por cooperativas e associações da Base da Pirâmide (Castillo-Ospina et al., 2025; Fernando e Zutshi, 2023). Para a implementação de mecanismos formais de valoração, a gestão de riscos e a rastreabilidade dos dados são fundamentais. Na Cidade X, a dependência de contratos públicos e a volatilidade dos preços de mercado são riscos críticos. Baseado nas diretrizes do PMBOK, esses riscos observados na realidade local podem ser classificados e discutidos em três categorias principais.

Primeiramente, o risco institucional manifesta-se na invisibilidade econômica das entidades associativas da Cidade X, limitando seu reconhecimento oficial. Como não há um mecanismo de PSA, essas organizações ficam vulneráveis a mudanças de gestão municipal ou descontinuidade de programas. A adoção de um PSA urbano, baseado nos indicadores mensuráveis do SNIS (como a cobertura de 89,99%), mitigaria esse risco ao conferir legitimidade jurídica e estabilidade ao serviço prestado. A integração de mecanismos de monitoramento contínuo e a remuneração via PSA urbano podem atuar como mitigadores desses riscos ao desacoplar parcialmente a sustentabilidade das organizações das flutuações do mercado de commodities.

Ao integrar a mensuração oficial do SNIS à valoração econômica e à gestão estruturada de riscos, o modelo proposto transcende a lógica assistencialista e reposiciona as organizações da Base da Pirâmide como agentes estratégicos na prestação de serviços públicos essenciais (Ferreira et al., 2024). A fragilidade institucional e financeira reflete-se no risco operacional, comprometendo a capacidade de investimento em infraestrutura e equipamentos. Sob a perspectiva da Gestão de Projetos, o uso de contratos baseados em desempenho e no monitoramento contínuo da pesagem já existente asseguraria a continuidade do serviço, fortalecendo a resiliência das organizações da BoP.

Dessa forma, a gestão estruturada de riscos deixa de ser uma teoria acessória e passa a ser a condição central para que o modelo de negócio proposto seja viável. Sistemas de medição de desempenho, como o monitoramento da taxa de recuperação de 23,98%, são fundamentais para antecipar falhas e garantir que as organizações da Base da Pirâmide sejam tratadas como agentes estratégicos e não apenas assistenciais (Khalilzadeh et al., 2021; Ferreira et al., 2024). A análise integrada dessas variáveis permite que o modelo não apenas resolva gargalos operacionais locais, mas também se alinhe aos compromissos globais estabelecidos pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Ao assegurar a remuneração justa e reduzir a vulnerabilidade financeira dos associados na Cidade X através do PSA, o modelo fomenta o trabalho decente e o crescimento econômico previstos no ODS 8. Simultaneamente, a aplicação das diretrizes do PMBOK para estruturar a gestão de riscos e garantir a eficiência da taxa de recuperação contribui para o desenvolvimento de uma infraestrutura urbana resiliente e inovadora, atendendo aos preceitos do ODS 9. Por fim, a consolidação desse sistema de governança, fundamentada na valoração do desvio de mais de 13 mil toneladas de resíduos dos aterros, promove a sustentabilidade das cidades conforme preconizado pelo ODS 11, transformando as organizações da BoP em agentes estratégicos para a justiça social e a preservação ambiental.

O desenvolvimento do modelo de negócio sustentável, neste estudo, materializa-se na transição de uma lógica puramente comercial para uma lógica de prestação de serviços valorados. Ao integrar a métrica de custos evitados ao instrumento do PSA, o modelo proposto desacopla a sobrevivência das organizações da BoP da extrema volatilidade do mercado de commodities. Aliado à gestão estruturada de riscos preconizada pelo PMBOK, essa configuração confere resiliência financeira e legitimidade institucional às associações da Cidade X, transformando externalidades ambientais em ativos econômicos que sustentam a autonomia e a justiça social a longo prazo.

O estudo demonstra viabilidade técnica para a valoração por custos evitados e para estruturação de um modelo de negócio baseado em PSA urbano. Entretanto, é importante reconhecer limites metodológicos na fundamentação em dados secundários do SNIS, que refletem agregados municipais. Essa abordagem sistêmica, embora robusta para a proposição do modelo, deixa como lacuna para investigações futuras a avaliação individualizada das associações de materiais recicláveis, o que permitirá confrontar indicadores macrossetoriais com as realidades microestruturais de cada organização. Ainda assim, os resultados demonstram, com base nos dados públicos, que a reciclagem urbana gera valor econômico mensurável ao poder público e desloca o debate da esfera assistencial para a contratual. Com isso, as entidades da Base da Pirâmide passam a ser vistas como prestadoras de serviço ambiental estratégico.

Como contribuição prática, o caso serve de referência para municípios de porte semelhante que buscam internalizar economicamente esses benefícios. Além disso, o avanço científico aqui apresentado reside na mudança de enquadramento: da informalidade tolerada para a prestação de serviço formalmente valorada, onde a sustentabilidade organizacional depende do reconhecimento institucional do valor já entregue à sociedade. Em síntese, a pesquisa demonstrou que as organizações da Base da Pirâmide possuem capacidade operacional e potencial econômico para transcender a informalidade, desde que integradas a modelos de negócio que monetizem suas externalidades positivas, o que é alcançado pela valoração dos serviços e uma gestão de riscos estruturada, respondendo assim ao objetivo de desenvolver um modelo de negócio sustentável.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou desenvolver um modelo de negócio sustentável fundamentado na valoração de serviços e na gestão estratégica de riscos para organizações da Base da Pirâmide (BoP). Verificou-se que a atuação de dezesseis entidades associativas em um município de médio porte de Santa Catarina recuperou 13.750 toneladas de materiais recicláveis, gerando uma economia potencial de R$ 3.937.450,00 ao município em custos de manejo evitados. Identificou-se que os principais riscos enfrentados por essas organizações são de ordem institucional e econômica, destacando-se a ausência de marcos normativos específicos para o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) urbano e a volatilidade dos preços de recicláveis. A estruturação de um modelo de negócio baseado em PSA urbano, com a aplicação de ferramentas de gestão de riscos fundamentadas no PMBOK, demonstrou ser capaz de mitigar essas incertezas, conferindo resiliência financeira e legitimidade institucional às organizações da BoP.

A principal contribuição deste trabalho reside na proposição de um modelo que transforma as organizações da Base da Pirâmide em parceiros estratégicos para a gestão pública, ao formalizar e valorizar economicamente os serviços ambientais que prestam, deslocando-as de uma lógica assistencialista para uma contratual. Essa abordagem alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, fomentando o trabalho decente, a infraestrutura sustentável e a governança urbana. Contudo, o estudo apresentou limitações decorrentes da utilização de dados secundários agregados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), o que dificultou a avaliação individualizada das associações e restringiu a generalização imediata dos índices de risco. Sugere-se, para estudos futuros, a avaliação microestrutural das organizações, a aplicação do modelo em diferentes contextos municipais para validação da Estrutura Analítica de Riscos e a investigação do impacto do PSA urbano na governança interna e na qualidade de vida dos associados, sob a ótica da justiça social.

Referências Bibliográficas

Agutu, C.; Steffen, B.; Schmidt, T.S. 2024. How do technology-inherent characteristics affect valuation processes in innovation systems?. Environmental Innovation and Societal Transitions, v. 51, p. 100824, 2024.

Castillo-Ospina, D.A.; Pinto, M.R; Ometto, A.R. 2025. Waste picker organizations in recycling systems in latin american cases towards social inclusion in circular economy. Sustainable Futures, v. 10, p. 101549.

D’Alisa, G.; Demaria, F. 2024. Accumulation by contamination: Worldwide cost-shifting strategies of capital in waste management. World development, v. 184, p. 106725.

Fernando, S.J.; Zutshi, A. 2023. Municipal solid waste management in developing economies: A way forward. Cleaner Waste Systems, v. 5, p. 100103.

Soesilo, N. I., Alfarizi, M. 2024. Psycho-social conditions of urban communities in the complexity of waste management: Are awareness and waste banks the main solution?. Socio-Economic Planning Sciences, 93, 101834.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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