10 de agosto de 2026
Ruídos de comunicação em um canteiro de obras em Sorocaba: Impactos na gestão de pessoas
Aline da Guia Vaz; Bruno Gomes Pereira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600527
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A comunicação organizacional mostrou-se relevante para o desempenho de equipes e a gestão de pessoas em canteiros de obras, ambientes marcados por interdependência e pressão por prazos. Objetivou-se analisar os efeitos dos ruídos de comunicação na gestão de pessoas em um canteiro de obras localizado em Sorocaba, São Paulo. A pesquisa, de natureza descritiva e abordagem quantitativa, empregou o método survey. Aplicou-se um questionário online, composto por 17 perguntas, a 18 profissionais atuantes diretamente no canteiro, entre 12 e 16 de janeiro de 2026. Os resultados revelaram que, embora parte significativa dos participantes tenha afirmado receber instruções claras com frequência, a comunicação geral foi majoritariamente avaliada como regular. Falhas comunicacionais foram percebidas como frequentes, com 94,4% dos respondentes relatando vivência de conflitos causados por essas falhas. Os ruídos principais identificados relacionaram-se à clareza das instruções, à definição dos canais e à insuficiência de alinhamentos formais. Concluiu-se que os ruídos de comunicação impactaram a gestão de pessoas ao favorecer conflitos, retrabalhos, desalinhamentos e desgaste nas relações de trabalho, evidenciando a necessidade de ações estruturadas de melhoria da comunicação no ambiente de obra.
Palavras-chave: Ambiente organizacional; Conflitos interpessoais; Fluxo de informações; Produtividade na construção civil; Tomada de decisão.
1. Introdução
A comunicação é um processo fundamental nas relações humanas, essencial para o estabelecimento da troca de mensagens e a construção de entendimento mútuo. Conforme Jakobson (1960), este processo envolve elementos como emissor, receptor, mensagem, canal, código e contexto, cuja interação harmoniosa é crucial para a eficácia. Mais do que a simples transmissão de informações, comunicar implica construir significado entre as partes envolvidas, exigindo clareza, contexto e feedback contínuo (McShane e Von Glinow, 2021).
No ambiente organizacional, a comunicação assume um papel estratégico, atuando como o elo que conecta os objetivos estratégicos da empresa às ações práticas das equipes no dia a dia. Ela é vital para a disseminação de instruções, metas, mudanças e feedbacks, sendo o conjunto de práticas formais e informais que promovem o fluxo de informações entre os diferentes níveis e áreas de uma organização (Lopes et al., 2022). Em setores como a construção civil, caracterizados pela interdependência de tarefas, pressão por prazos e a coexistência de diversas equipes, fornecedores e lideranças técnicas, a complexidade comunicacional é significativamente acentuada.
Contudo, a eficácia da comunicação pode ser comprometida por ruídos, que são interferências físicas, psicológicas ou semânticas que dificultam, interrompem ou distorcem a mensagem. Berlo (1960) define ruído como qualquer fator que impeça o processo comunicacional de alcançar sua eficácia, podendo surgir em qualquer etapa, desde a emissão até a recepção da mensagem. No contexto organizacional, esses ruídos são uma das principais fontes de ineficiência, levando a interpretações equivocadas, desalinhamentos operacionais e retrabalhos.
A problemática dos ruídos de comunicação é particularmente acentuada em canteiros de obras. Estudos recentes indicam que falhas na troca de informações entre setores técnicos e administrativos são recorrentes neste ambiente, frequentemente resultando em retrabalhos, atrasos e conflitos interpessoais (Soares et al., 2022). Além disso, a pesquisa de Silva e Oliveira (2021) no Boletim de Gerenciamento de Obras revelou que mais de setenta por cento dos engenheiros e técnicos de campo relatam não receber instruções completas ou claras de suas lideranças, evidenciando que os ruídos não são apenas de natureza tecnológica ou física, mas também relacional e estrutural.
A falta de comunicação eficaz impacta diretamente a gestão de pessoas, correlacionando-se com o aumento do índice de rotatividade, conflitos interpessoais e queda na produtividade em obras públicas, conforme apontado por Vieira et al. (2023). A comunicação, nesse sentido, deve ser vista como uma ferramenta de liderança e não meramente como um meio técnico de transmissão de informações. Ruídos ambientais, como o excesso de barulho e a informalidade nos processos, também afetam a saúde emocional dos trabalhadores, reduzindo a capacidade de concentração, a escuta ativa e a cooperação (Zhang et al., 2024).
Esses ruídos representam uma barreira significativa para os resultados em obras, afetando o dia a dia da gestão de pessoas. Erros operacionais, conflitos interpessoais e retrabalhos, muitas vezes atribuídos a falhas técnicas, revelam-se, em sua causa raiz, consequências de fragilidades no processo comunicacional. Tais falhas comprometem não apenas a produtividade e a qualidade das entregas, mas também geram desgaste nas relações interpessoais, prejudicando o clima organizacional e a cooperação entre os membros da equipe (Vieira et al., 2023). Diante desse cenário, torna-se essencial compreender a extensão e as manifestações desses ruídos, justificando a necessidade de ações estruturadas para aprimorar a comunicação interna e mitigar seus impactos negativos na gestão de pessoas.
Assim, este trabalho teve como objetivo analisar os efeitos dos ruídos de comunicação na gestão de pessoas em um canteiro de obras localizado em Sorocaba, no interior do estado de São Paulo.
2. Material e Métodos
Esta pesquisa caracterizou-se como descritiva, por buscar identificar e analisar como os ruídos de comunicação se manifestaram e impactaram a gestão de pessoas em um canteiro de obras. Conforme Gil (2021), pesquisas descritivas têm como finalidade observar, registrar, analisar e interpretar fenômenos sem manipulá-los, sendo apropriadas para estudos organizacionais que visam compreender características, percepções e comportamentos de determinado grupo.
A abordagem metodológica adotada foi quantitativa, com utilização do método survey, por meio da aplicação de questionário estruturado. Segundo Lakatos e Marconi (2019), a abordagem quantitativa permite mensurar frequências, padrões e tendências, fornecendo base objetiva para a análise dos dados. O uso do survey mostrou-se adequado ao contexto da pesquisa, pois possibilitou o levantamento padronizado de percepções dos profissionais atuantes no canteiro de obras, em consonância com o que propõe Andrade (2019) para estudos com coleta sistemática de opiniões e comportamentos.
O universo da pesquisa correspondeu a um canteiro de obras de grande porte, vinculado a um empreendimento imobiliário de alto padrão localizado no município de Sorocaba, no interior do estado de São Paulo. Em conformidade com as diretrizes institucionais, o nome da empresa e da obra não foi revelado no trabalho. A delimitação do universo pesquisado permitiu contextualizar os resultados dentro de uma realidade específica de obra, com múltiplas frentes de trabalho, diferentes níveis hierárquicos e intensa necessidade de alinhamento entre equipes.
A amostra foi composta por 18 profissionais, número correspondente ao total de colaboradores que receberam o link do questionário e que atuavam diretamente no canteiro no momento da coleta. Entre os participantes estavam profissionais de diferentes funções e níveis de responsabilidade, incluindo engenheiros(as), mestres de obra, líderes de frente, técnicos(as) de segurança, administrativos e almoxarifes.
Foram considerados como critérios de inclusão: estar ativo no canteiro no período da pesquisa e exercer função com interface frequente com outras equipes e processos internos. Foram excluídos profissionais externos ao canteiro e colaboradores sem participação direta na rotina operacional da obra. O instrumento de coleta de dados foi um questionário online, composto por 17 perguntas.
A maioria das questões era fechada, utilizando múltipla escolha, escalas do tipo Likert e perguntas dicotômicas. Incluiu-se também uma questão aberta ao final, destinada ao registro de sugestões dos participantes sobre a comunicação no canteiro. O tempo médio de preenchimento foi estimado em aproximadamente sete minutos.
A coleta de dados foi realizada entre os dias 12 e 16 de janeiro de 2026, por meio da plataforma Google Forms. O questionário foi disponibilizado online e enviado uma única vez aos 18 profissionais participantes. Antes do início das perguntas, foi apresentado um texto introdutório informando o objetivo da pesquisa, o caráter voluntário da participação, o anonimato das respostas e a finalidade acadêmica da coleta.
Após o encerramento do período de coleta, os dados foram exportados da plataforma Google Forms para planilha do Microsoft Excel. As respostas foram organizadas em tabelas e gráficos para visualização e análise estatística descritiva simples, com base em frequências absolutas, frequências relativas e leitura comparativa entre variáveis. Segundo Lakatos e Marconi (2019), a estatística descritiva permite sintetizar e organizar os dados de modo a favorecer sua interpretação.
Os gráficos foram elaborados com o objetivo de evidenciar visualmente os padrões observados, contribuindo para maior clareza na apresentação dos resultados, conforme orientam Cervo, Bervian e Silva (2021). A análise dos dados foi conduzida com base nos conceitos definidos na revisão bibliográfica, especialmente aqueles relacionados à clareza das instruções, qualidade da comunicação, ruídos comunicacionais, frequência de falhas, conflitos interpessoais e impactos na rotina dos colaboradores.
As respostas à questão aberta foram lidas integralmente e agrupadas por similaridade temática, com identificação de recorrências relacionadas à necessidade de reuniões mais objetivas, melhor alinhamento entre equipes, padronização de canais e maior clareza nas orientações. Esse procedimento seguiu a lógica da análise categorial de conteúdo, que, conforme Bardin (2016), permite interpretar manifestações textuais a partir de núcleos de sentido recorrentes.
Em relação aos procedimentos éticos, a pesquisa observou os princípios de confidencialidade, anonimato e participação voluntária. Antes do início das perguntas, os participantes tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), apresentado no próprio formulário, com informações sobre os objetivos da pesquisa, o caráter voluntário da participação, o anonimato das respostas e a finalidade acadêmica da coleta, concordando em participar antes do preenchimento do questionário.
Considerando que a pesquisa foi realizada com questionário de percepção, sem identificação nominal dos respondentes no texto do TCC e sem exposição de dados sensíveis, o estudo foi conduzido com preservação da identidade dos participantes e da organização analisada. A Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre ética em pesquisas com seres humanos, foi observada em todas as etapas do estudo.
3. Resultados e Discussão
Os resultados da pesquisa permitiram uma análise aprofundada dos ruídos de comunicação e seus impactos na gestão de pessoas no canteiro de obras em Sorocaba. Inicialmente, a caracterização do perfil dos participantes revelou uma amostra composta majoritariamente por profissionais diretamente vinculados à área de engenharia e ao suporte técnico-administrativo da obra. Dos dezoito participantes, onze eram engenheiros(as), quatro assistentes de engenharia e três administrativos de obra. Essa composição, com predominância de funções técnicas e de gestão, é crucial para a relevância das percepções coletadas, uma vez que esses profissionais estão no cerne dos fluxos comunicacionais e da tomada de decisões no ambiente de trabalho.
A diversidade de cargos e a atuação direta na rotina operacional e gerencial do canteiro ampliam a capacidade da pesquisa de captar diferentes perspectivas sobre os desafios da comunicação. Conforme McShane e Von Glinow (2021), a comunicação organizacional é intrinsecamente mais complexa em contextos com múltiplos papéis e alta interdependência de tarefas, como é o caso da construção civil. A presença de profissionais de diferentes níveis hierárquicos na amostra, com forte interface relacional e comunicacional, fortaleceu a análise, indicando que os resultados refletem as experiências de indivíduos ativamente envolvidos na circulação e interpretação das informações no canteiro.
Em relação ao tempo de atuação no canteiro de obras, os dados demonstraram uma distribuição variada, com seis participantes (33%) atuando entre sete e doze meses, cinco (28%) com até três meses de experiência, e quatro (22%) com mais de dois anos. Dois participantes (11%) tinham entre um e dois anos de atuação, e um (6%) entre quatro e seis meses. Essa heterogeneidade de vivência é significativa, pois a percepção da comunicação organizacional é construída e moldada pelas interações cotidianas e pelo tempo de inserção do indivíduo no ambiente de trabalho. Marchiori (2018) enfatiza que os processos comunicacionais se consolidam a partir das relações estabelecidas e da experiência compartilhada, o que enriquece a interpretação dos resultados ao considerar diferentes níveis de familiaridade com a dinâmica da obra.
A análise do grau de escolaridade dos participantes revelou que doze (67%) possuíam ensino superior completo, e seis (33%) apresentavam formação em nível de pós-graduação. Esse perfil, majoritariamente composto por profissionais com elevada qualificação técnica e acadêmica, sugere um público com maior capacidade de análise crítica e compreensão dos processos organizacionais. McShane e Von Glinow (2021) apontam que profissionais com maior nível de formação tendem a ter expectativas mais elevadas quanto à clareza, coerência e alinhamento das mensagens, e são mais sensíveis à ausência de feedback e à informalidade excessiva. Assim, as falhas de comunicação neste contexto são percebidas com maior intensidade e criticidade, indicando que os ruídos identificados não decorrem da falta de compreensão técnica, mas sim de fragilidades nos processos de comunicação da gestão do canteiro, conforme Lopes et al. (2022).
A investigação sobre os principais meios de comunicação utilizados no canteiro de obras evidenciou a predominância do WhatsApp, com quatorze participantes indicando-o como o canal mais frequente. Em menor proporção, o e-mail foi mencionado por dois participantes, e o rádio comunicador e as reuniões presenciais por um participante cada. Esse achado demonstra uma forte dependência de canais digitais, rápidos e acessíveis para a comunicação cotidiana. Embora a agilidade desses meios possa favorecer a circulação de informações, ela também pode ampliar o risco de ruídos quando há ausência de padronização, clareza ou definição de uso para cada tipo de mensagem, conforme Terra, Dreyer e Raposo (2021). A predominância do WhatsApp, portanto, sugere uma comunicação funcional e imediata, mas potencialmente vulnerável a falhas de alinhamento e interpretação.
A percepção dos participantes quanto à clareza das instruções recebidas para a execução de suas atividades revelou que a maioria, 83,3%, afirmou recebê-las com frequência, e 11,1% indicaram que isso ocorre sempre. Contudo, 5,6% relataram que a clareza das instruções ocorre raramente. Embora a comunicação instrucional seja percebida positivamente pela maioria, a existência de uma parcela da equipe exposta a falhas é significativa. A literatura, como McShane e Von Glinow (2021), destaca a clareza das instruções como fator essencial para a eficiência operacional e redução de erros, especialmente em ambientes complexos como canteiros de obras. Instruções ambíguas ou incompletas aumentam a probabilidade de interpretações divergentes, comprometendo a coordenação e a confiança entre equipes, o que, na construção civil, está associado a retrabalho, atrasos e tensões interpessoais (Silva e Oliveira, 2021).
As formas de comunicação utilizadas para informar mudanças de planejamento e prioridades no canteiro de obras apresentaram um cenário diversificado. Oito participantes indicaram reuniões e alinhamentos presenciais, cinco mencionaram comunicação pessoal direta e verbal, e quatro citaram WhatsApp, e-mail ou planilhas. Além disso, dois participantes relataram que as informações são comunicadas “em cima da hora”, sugerindo que parte das mudanças é percebida como tardia ou pouco planejada. Essa variedade de canais e a falta de um padrão predominante indicam uma fragilidade na padronização do fluxo informacional. Marchiori (2018) ressalta que a comunicação organizacional eficaz não se limita à circulação de informações, mas à forma como são compartilhadas e compreendidas, o que, neste contexto, pode contribuir para desalinhamentos e falhas operacionais.
A avaliação geral da qualidade da comunicação no canteiro de obras pelos participantes revelou que 50% a classificaram como regular, e 39% como boa. Apenas 6% a consideraram excelente, enquanto 5% a classificaram como ruim. Esses resultados indicam que, embora a comunicação seja funcional, ela não atinge um nível de excelência na maioria das percepções. A percepção de comunicação como “regular” pode gerar insegurança, ambiguidades e maior dependência de interpretações individuais, conforme McShane e Von Glinow (2021). Lopes et al. (2022) destacam que a ausência de comunicação estruturada e consistente é um fator chave para falhas de alinhamento entre planejamento e execução na construção civil. A predominância da classificação “regular” sugere que os fluxos comunicacionais atendem parcialmente às demandas, mas são insuficientes para garantir alinhamento pleno e reduzir ruídos.
A frequência de falhas de comunicação que impactam as atividades dos participantes foi um achado relevante. Metade dos respondentes (50%) afirmou que as falhas ocorrem frequentemente, enquanto 44% indicaram que ocorrem raramente, e 6% relataram que ocorrem sempre. Esse dado evidencia que, para uma parcela significativa da equipe, os ruídos são uma experiência recorrente no ambiente de obra. Berlo (1960) explica que ruídos comunicacionais podem surgir em qualquer etapa do processo e se intensificam em ambientes de pressão e interdependência. McShane e Von Glinow (2021) complementam que falhas frequentes elevam o estresse, aumentam conflitos e reduzem a confiança. No canteiro analisado, essa percepção de falhas frequentes aponta para fragilidades estruturais nos processos de comunicação, com efeitos cumulativos que geram retrabalhos, atrasos e desgaste nas relações (Soares et al., 2022).
As principais consequências das falhas de comunicação no canteiro de obras foram identificadas como falta de alinhamento (oito participantes), atrasos (cinco participantes) e retrabalhos (quatro participantes). Um participante também associou simultaneamente retrabalho e atraso. Esse resultado demonstra que os ruídos não se limitam à percepção abstrata, mas se convertem em impactos concretos na execução das atividades e na coordenação entre equipes. Marchiori (2018) enfatiza que a comunicação organizacional se consolida na construção compartilhada de sentidos, e falhas comprometem o alinhamento de ações e expectativas. Soares et al. (2022) reforçam que, na construção civil, ruídos resultam em retrabalhos, atrasos e conflitos, evidenciando que a falta de alinhamento observada não é um efeito isolado, mas um indicativo de fragilidade no fluxo informacional da obra.
A percepção sobre a abertura da liderança para esclarecimento de dúvidas foi predominantemente positiva, com treze participantes indicando que a abertura existe e cinco que ocorre parcialmente. Não houve registros de percepção totalmente negativa. Esse achado sugere que os ruídos de comunicação não podem ser atribuídos exclusivamente à indisponibilidade da liderança para ouvir ou esclarecer dúvidas. Marchiori (2018) destaca que a efetividade da comunicação organizacional depende não apenas da abertura relacional, mas também da forma como os sentidos são construídos e compartilhados. McShane e Von Glinow (2021) ressaltam que a comunicação eficaz exige clareza, feedback e coerência. Assim, mesmo com uma percepção positiva da abertura da liderança, a persistência de falhas, conflitos e desalinhamentos sugere que o problema comunicacional é mais amplo, envolvendo também canais, timing, padronização e interpretação das informações.
A contribuição da comunicação para o trabalho em equipe no canteiro de obras foi percebida de forma predominantemente positiva. Doze participantes afirmaram que a comunicação sempre favorece o trabalho em equipe, e seis que o faz frequentemente. Não houve respostas indicando que a comunicação raramente ou nunca favorece. Esse resultado reforça que a comunicação não é vista apenas como um mecanismo operacional, mas como um fator relacional que sustenta a cooperação entre os profissionais. Marchiori (2018) destaca que a comunicação organizacional se constrói nas relações e no compartilhamento de sentidos, sendo crucial para a integração e convivência. Vieira et al. (2023) complementam que a qualidade da comunicação influencia o entrosamento e o desempenho coletivo, evidenciando sua centralidade na gestão de pessoas, mesmo que seu potencial não se concretize de forma plenamente estruturada no cotidiano da obra.
A percepção sobre a geração de conflitos entre colegas e equipes por ruídos de comunicação indicou que onze participantes afirmaram que sim, e seis que às vezes. Apenas um participante respondeu que não. Esse resultado demonstra que a maioria dos participantes reconhece que os ruídos de comunicação geram ou podem gerar conflitos no ambiente de trabalho, com impactos que se estendem para além da esfera operacional, atingindo as relações interpessoais e a convivência. Soares et al. (2022) apontam que, na construção civil, ruídos frequentemente se traduzem em tensões e desgastes. Marchiori (2018) ressalta que falhas no compartilhamento e interpretação de informações fragilizam a confiança e a cooperação, reforçando a relevância dos ruídos comunicacionais para a gestão de pessoas no canteiro de obras.
A ocorrência de situações de conflito causadas por falha de comunicação foi quase unânime, com 94,4% dos respondentes afirmando já ter presenciado ou vivenciado tais situações, e apenas 5,6% respondendo negativamente. Esse achado é particularmente relevante, pois revela uma aparente contradição: embora parte significativa dos respondentes receba instruções claras com frequência, a quase totalidade vivencia conflitos decorrentes de falhas comunicacionais. Isso sugere que a comunicação no canteiro não se resume à transmissão de ordens, mas envolve interpretação, feedback, alinhamento e construção de significado (McShane e Von Glinow, 2021). No ambiente da construção civil, onde as atividades são interdependentes, esses conflitos impactam a produtividade e o clima organizacional, manifestando-se em retrabalho, atraso e desgaste relacional (Soares et al., 2022).
A influência da comunicação sobre a motivação e o desempenho no trabalho também foi investigada. Quinze participantes afirmaram que a forma como as informações são passadas influencia positivamente, enquanto dois indicaram influência negativa, e apenas um respondeu que não influencia. Esse resultado demonstra que, para a maioria, a comunicação não é um fator neutro, mas capaz de afetar diretamente a disposição para o trabalho e a atuação cotidiana. Marchiori (2018) destaca que a abertura dos canais e a construção do diálogo fortalecem a comunicação, conferindo-lhe dimensão estratégica. A qualidade da comunicação no canteiro, portanto, afeta não apenas a execução das atividades, mas também o engajamento e a experiência dos profissionais, reforçando a importância de uma comunicação organizacional eficaz para o desenvolvimento institucional.
A questão aberta sobre sugestões para a melhoria da comunicação no canteiro de obras permitiu aprofundar a compreensão dos resultados quantitativos. As respostas se concentraram em quatro frentes principais: maior clareza e objetividade nas orientações, fortalecimento do alinhamento entre equipes e setores, realização de reuniões mais objetivas e frequentes, e ampliação da escuta e da abertura no relacionamento entre liderança e colaboradores. Destacaram-se manifestações como “mais alinhamento entre os setores”, “orientações mais claras”, “reuniões mais objetivas” e “escutarem mais”, além da necessidade de maior liberdade para esclarecimento de dúvidas “sem ser repreendido por isso”. Essas falas reforçam que os ruídos não são falhas pontuais, mas fragilidades amplas na forma como as informações circulam e são compreendidas, mesmo com percepções positivas sobre práticas existentes, como a melhoria das reuniões diárias.
O interesse dos participantes em receber treinamentos ou orientações sobre comunicação interna no canteiro de obras foi elevado, com 72,2% afirmando que sim e 27,8% indicando “talvez”. Nenhuma resposta foi negativa. Esse dado demonstra uma abertura significativa da equipe para processos de desenvolvimento e reconhecimento de que os ruídos não se restringem a falhas individuais, mas estão relacionados à necessidade de aprimoramento organizacional e fortalecimento das práticas de gestão de pessoas. O interesse por capacitação em comunicação interpessoal é crucial para favorecer relações mais transparentes e reduzir conflitos (Kanaane, 2017). Ações educativas voltadas à comunicação interna podem contribuir para a melhoria do clima organizacional, o alinhamento entre planejamento e execução, e o fortalecimento da gestão de pessoas (Vieira et al., 2023).
Em síntese, os resultados da pesquisa revelaram que, embora a comunicação no canteiro de obras seja percebida como funcional e a liderança demonstre abertura para esclarecimento de dúvidas, a qualidade geral da comunicação foi avaliada majoritariamente como regular. Os ruídos comunicacionais são frequentes e se manifestam em falta de alinhamento, atrasos e retrabalhos, com quase a totalidade dos profissionais tendo vivenciado conflitos decorrentes dessas falhas. A predominância de canais informais, a diversidade de métodos para comunicar mudanças e a percepção de que a comunicação influencia a motivação e o desempenho, somados ao alto interesse em treinamentos, evidenciam que a comunicação no canteiro de obras, apesar de reconhecida como importante, ainda não está plenamente estruturada como ferramenta estratégica de gestão de pessoas, demandando ações consistentes para mitigar seus impactos negativos e responder ao objetivo do estudo.
4. Conclusão
Este estudo teve como objetivo analisar os efeitos dos ruídos de comunicação na gestão de pessoas em um canteiro de obras localizado em Sorocaba, São Paulo. Verificou-se que, embora uma parcela significativa dos profissionais tenha afirmado receber instruções claras com frequência, a qualidade geral da comunicação foi majoritariamente avaliada como regular. Os principais ruídos identificados relacionaram-se à clareza das orientações, à definição dos canais e à insuficiência de alinhamentos formais. Observou-se que as falhas comunicacionais foram percebidas como frequentes, e quase a totalidade dos respondentes, 94,4%, relatou ter vivenciado ou presenciado conflitos decorrentes dessas falhas. Tais ruídos impactaram a gestão de pessoas ao favorecer conflitos interpessoais, retrabalhos, desalinhamentos operacionais e desgaste nas relações de trabalho, evidenciando que a comunicação no canteiro, apesar de reconhecida como importante para o trabalho em equipe e a motivação, ainda não se encontrava plenamente estruturada como ferramenta estratégica.
A principal contribuição deste trabalho reside em reforçar a importância de uma comunicação organizacional estruturada como elemento estratégico para a gestão de pessoas em canteiros de obras, indo além da mera transmissão de informações. Os resultados apontam para a necessidade de ações consistentes que promovam maior clareza e objetividade nas orientações, fortaleçam o alinhamento entre equipes e setores, e ampliem a escuta ativa da liderança. Uma limitação do estudo foi a sua realização em um único canteiro de obras, com uma amostra restrita. Para estudos futuros, recomenda-se ampliar a amostra e avaliar comparativamente os efeitos de intervenções voltadas ao desenvolvimento da comunicação interna, a fim de aprofundar a compreensão sobre a eficácia de tais ações na mitigação dos ruídos e no fortalecimento da gestão de pessoas.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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