30 de julho de 2026
Riscos na preparação de instrutores em treinamentos de projetos aeronáuticos
Fernando Valério Celenza Bellini; Maria Helena Veloso Salgado
DOI: 10.22167/2675-6528-202600814
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
Projetos aeronáuticos demandam treinamentos técnicos eficazes, e a qualidade destes pode ser comprometida pelo tempo limitado para a preparação dos instrutores. O estudo analisou os riscos associados à preparação reduzida de instrutores em treinamentos de projetos aeronáuticos, com o propósito de identificar fatores que afetam a qualidade do treinamento e propor ações de mitigação baseadas em gestão de projetos. Adotou-se uma abordagem quantitativa, aplicando um questionário com escala Likert a profissionais do setor, e os dados foram analisados por estatística descritiva. Complementarmente, utilizou-se Matriz de Risco e Plano de Ação 5W2H para aprimorar a análise e sugerir melhorias. Os resultados revelaram que o tempo insuficiente para a preparação dos instrutores pode comprometer a profundidade do conteúdo e a efetividade do treinamento. Foram também identificados riscos ligados à comunicação entre equipes, à padronização de materiais e à ocorrência de retrabalho ou falhas operacionais. A pesquisa permitiu priorizar os riscos e desenvolver ações de mitigação focadas no planejamento do treinamento, na capacitação dos instrutores e na padronização dos processos. Concluiu-se que o planejamento adequado e a preparação estruturada dos instrutores são cruciais para reduzir riscos e assegurar a qualidade dos treinamentos em projetos aeronáuticos.
Palavras-chave: Capacitação profissional; Gestão de projetos; Gestão de riscos; Qualidade do treinamento; Transferência de conhecimento.
1. Introdução
A gestão de projetos tem se consolidado como um campo fundamental para a organização e condução de iniciativas complexas em diversos setores produtivos. Projetos são caracterizados por sua natureza temporária, pela necessidade de coordenação entre múltiplos stakeholders e pela exigência de integração entre recursos humanos, técnicos e organizacionais (Al-Marri et al., 2025). Nesse contexto, práticas estruturadas de planejamento, execução e monitoramento tornam-se essenciais para garantir que os objetivos estabelecidos sejam alcançados dentro dos limites de prazo, custo e qualidade.
Em ambientes organizacionais altamente especializados, como o setor aeronáutico, a aplicação de metodologias de gestão de projetos contribui para reduzir incertezas e aumentar a confiabilidade das atividades desenvolvidas (Bastos et al., 2025). Entre as áreas de conhecimento da gestão de projetos, a gestão de riscos assume papel central, especialmente em projetos que envolvem elevada complexidade tecnológica e exigências rigorosas de segurança e conformidade normativa. A gestão de riscos busca identificar, analisar e responder a eventos que possam afetar negativamente os objetivos do projeto, permitindo que os gestores antecipem possíveis problemas e adotem medidas preventivas ou corretivas, reduzindo a probabilidade de ocorrência de falhas e minimizando seus impactos (Acebes et al., 2024).
Outro aspecto relevante no contexto da gestão de projetos refere-se à gestão de recursos humanos e ao desempenho das equipes envolvidas na execução das atividades. Projetos complexos dependem da atuação coordenada de profissionais com diferentes níveis de especialização, o que exige não apenas competências técnicas, mas também processos estruturados de comunicação, capacitação e desenvolvimento profissional. A preparação adequada das equipes é um fator determinante para garantir que os conhecimentos necessários sejam aplicados de forma consistente durante a execução do projeto (Acebes et al., 2024).
No âmbito de projetos tecnológicos e industriais, a capacitação técnica por meio de treinamentos especializados representa um elemento estratégico para o sucesso das operações. A transferência de conhecimento técnico permite alinhar procedimentos, padronizar práticas operacionais e garantir que os profissionais envolvidos compreendam corretamente os sistemas, equipamentos e processos utilizados. Em setores que envolvem elevados níveis de precisão e segurança, como o aeronáutico, o treinamento desempenha papel essencial na prevenção de falhas operacionais e na manutenção da confiabilidade dos processos (Clemente et al., 2023).
A eficácia dos treinamentos depende diretamente da qualidade da preparação dos instrutores responsáveis pela condução das atividades formativas. Instrutores bem preparados são capazes de estruturar conteúdos de forma clara, adaptar a linguagem ao nível de conhecimento dos participantes e conduzir atividades que favoreçam a assimilação dos conceitos técnicos. Quando o processo de preparação é insuficiente, podem surgir dificuldades na transmissão das informações, inconsistências metodológicas ou lacunas na compreensão dos conteúdos pelos participantes (Iqbal et al., 2020).
A limitação de tempo para preparação dos instrutores representa um desafio relevante em muitos projetos, especialmente quando os cronogramas são restritos e as atividades precisam ser executadas em prazos reduzidos. A pressão por resultados rápidos pode reduzir o tempo disponível para revisão de materiais didáticos, planejamento das atividades de ensino e alinhamento entre as equipes técnicas responsáveis pelo conteúdo do treinamento. Esse cenário pode aumentar a probabilidade de falhas na transmissão do conhecimento e comprometer a efetividade das ações de capacitação (Bjørndal et al., 2024).
A qualidade do treinamento em projetos complexos depende da integração entre especialistas técnicos, instrutores e gestores, bem como de processos de comunicação claros que garantam alinhamento entre conteúdos, necessidades operacionais e objetivos do projeto. Além disso, o planejamento adequado do treinamento, com definição de prazos realistas para preparação dos instrutores e desenvolvimento dos materiais didáticos, contribui para reduzir improvisações e riscos associados à execução das atividades formativas. Nesse contexto, o treinamento também atua como mecanismo de mitigação de riscos, pois a capacitação adequada das equipes favorece a padronização de procedimentos, reduz erros operacionais e fortalece a confiabilidade das atividades desenvolvidas no projeto (Rocha et al., 2023). No setor aeronáutico, a necessidade de confiabilidade operacional e conformidade com normas técnicas torna ainda mais relevante a adoção de práticas estruturadas de gestão de projetos e gestão de riscos, dada a complexidade dos sistemas envolvidos e a exigência de precisão nos procedimentos operacionais (Alomar et al., 2025).
Dessa forma, compreender os fatores que podem comprometer a qualidade da preparação dos instrutores torna-se um passo importante para fortalecer a eficiência das atividades de capacitação. Nesse contexto, torna-se relevante investigar como o tempo disponível para preparação dos instrutores pode influenciar a qualidade dos treinamentos e a percepção dos profissionais envolvidos no processo. Assim, justifica-se o desenvolvimento deste estudo, que tem como objetivo analisar os riscos associados ao tempo reduzido de preparação dos instrutores em treinamentos realizados no contexto de projetos aeronáuticos, buscando identificar fatores que possam comprometer a qualidade do treinamento e propor ações de mitigação baseadas em ferramentas de gestão de projetos.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi delineada com caráter aplicado, adotando uma abordagem metodológica quantitativa e exploratória. O foco principal consistiu na análise dos riscos associados ao tempo reduzido de preparação dos instrutores em treinamentos conduzidos no contexto de projetos aeronáuticos. A escolha dessa abordagem justificou-se pela necessidade de compreender, a partir da percepção dos profissionais envolvidos, como fatores relacionados ao planejamento do treinamento, à comunicação entre equipes e à preparação dos instrutores podem influenciar a qualidade do processo formativo e o desempenho das atividades vinculadas ao projeto.
No que se refere ao método de pesquisa, utilizou-se o survey, uma vez que essa técnica é amplamente empregada em estudos exploratórios que buscam coletar dados diretamente a partir da percepção dos respondentes, por meio de questionários estruturados (Goodfellow, 2023). O estudo foi conduzido no contexto de projetos desenvolvidos por uma empresa brasileira de engenharia e tecnologia com atuação no setor aeroespacial e de defesa, especializada no desenvolvimento de soluções de alta complexidade para a indústria aeronáutica.
A organização estudada atua em atividades relacionadas ao desenvolvimento estrutural de aeronaves, engenharia de sistemas, integração tecnológica e suporte a programas aeronáuticos nacionais e internacionais. Nesse ambiente, caracterizado por elevado nível de exigência técnica, rigor regulatório e necessidade de precisão operacional, os processos de capacitação e treinamento técnico desempenham papel estratégico para garantir a adequada transferência de conhecimento entre equipes e a padronização das atividades operacionais.
O público-alvo da pesquisa foi composto por profissionais envolvidos em atividades de treinamento e gestão de projetos no contexto de projetos aeronáuticos, incluindo instrutores, coordenadores de treinamento, gerentes de projeto, especialistas técnicos e profissionais responsáveis pelo suporte técnico e organizacional das atividades de capacitação. Esses profissionais participam diretamente da preparação e condução dos treinamentos, do planejamento das atividades de capacitação e da integração entre equipes técnicas e instrutores.
A amostra caracterizou-se como não probabilística, do tipo intencional (ou por julgamento), uma vez que os participantes foram selecionados com base em sua atuação ou experiência profissional em treinamentos e atividades relacionadas a projetos aeronáuticos. Foram definidos como critérios de inclusão profissionais que atuam ou já atuaram em projetos aeronáuticos e que possuíam envolvimento direto em atividades de treinamento, preparação de instrutores, gestão de projetos ou suporte técnico às equipes operacionais. Como critério de exclusão, desconsideraram-se respostas de participantes que declarassem não possuir experiência nesse contexto.
O instrumento de coleta de dados foi um questionário estruturado, composto por 25 perguntas, que abrangiam blocos temáticos como perfil dos respondentes, planejamento e preparação dos treinamentos, qualidade e conformidade técnica das atividades de capacitação, comunicação e integração entre as equipes envolvidas, bem como gestão da equipe e desempenho dos instrutores. As afirmações avaliativas foram mensuradas por meio de uma escala Likert de cinco pontos, variando de 1 (Discordo totalmente) a 5 (Concordo totalmente).
Antes da aplicação definitiva, o instrumento de coleta de dados foi submetido a um pré-teste com três participantes pertencentes ao público-alvo da pesquisa, com o objetivo de verificar a clareza das questões, a compreensão dos enunciados e a adequação do questionário ao contexto investigado. Após pequenos ajustes de redação, o questionário foi disponibilizado em formato digital e encaminhado aos participantes por meio de formulário eletrônico.
O tempo médio estimado para preenchimento foi de 10 a 15 minutos, o que contribuiu para facilitar a participação dos profissionais envolvidos. A coleta de dados ocorreu no período de 11 de novembro de 2025 a 30 de janeiro de 2026. O questionário foi encaminhado a 25 profissionais, dos quais 21 responderam, correspondendo a uma taxa de retorno de 84%.
Após o encerramento da coleta, os dados foram organizados para análise quantitativa e qualitativa. A análise quantitativa foi conduzida por meio de estatística descritiva, com apresentação dos resultados em valores absolutos e percentuais, permitindo visualizar a distribuição das respostas por item e por bloco temático. Os gráficos foram elaborados através do software GraphPad Prisma versão 10.2.
A matriz de risco 5×5 foi elaborada a partir da consolidação das informações obtidas no questionário estruturado e nas questões abertas, seguindo um procedimento de classificação qualitativa dos eventos de risco identificados. Cada risco identificado foi submetido a um processo de classificação segundo dois critérios: probabilidade de ocorrência e impacto potencial sobre o contexto analisado. Para isso, adotou-se uma escala ordinal de cinco níveis para cada eixo, variando de 1 (nível muito baixo) a 5 (nível muito alto).
A atribuição desses níveis foi realizada com base na recorrência dos temas nas respostas dos participantes, na intensidade com que os riscos apareceram nas questões fechadas e na consistência entre os achados quantitativos e qualitativos. Após essa etapa, os riscos foram posicionados em uma matriz 5×5, formada pelo cruzamento entre probabilidade e impacto, permitindo sua distribuição em diferentes faixas de criticidade. A classificação final foi organizada em níveis graduais, possibilitando a hierarquização dos riscos de acordo com sua posição na matriz.
Complementarmente, aplicou-se um Plano de Ação 5W2H, elaborado a partir da priorização dos riscos identificados na Matriz de Risco, para a proposição de melhorias. Uma análise SWOT foi também aplicada como ferramenta complementar de interpretação estratégica, a partir dos dados obtidos no questionário e das respostas descritivas dos participantes, para organizar analiticamente os fatores internos e externos observados.
Em função da natureza aplicada da pesquisa, da inexistência de coleta de dados sensíveis e da participação exclusiva de profissionais adultos em contexto organizacional, o estudo foi dispensado de apreciação pelo sistema CEP/CONEP, estando respaldado pelo Formulário de Dispensa de Ética [FDE] emitido pela ESALQ/USP. Todos os participantes foram devidamente informados sobre os objetivos da pesquisa e manifestaram concordância com sua participação por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido [TCLE].
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados da pesquisa permitiu uma compreensão aprofundada dos riscos associados ao tempo reduzido de preparação dos instrutores em treinamentos de projetos aeronáuticos, conforme o objetivo do estudo. Os achados revelaram que a percepção dos profissionais envolvidos é crucial para identificar os pontos sensíveis do processo de capacitação. A amostra, composta majoritariamente por indivíduos com experiência direta em atividades de treinamento e gestão de projetos no setor aeronáutico, forneceu uma base sólida para a avaliação dos desafios e riscos, corroborando a relevância da vivência prática para a compreensão de fatores críticos (Abildgaard et al., 2018).
A caracterização dos respondentes demonstrou um elevado nível de experiência profissional no setor aeronáutico. Verificou-se que 19 participantes, correspondendo a 90,5% da amostra, possuíam experiência direta como instrutores ou responsáveis por treinamentos técnicos em projetos. Adicionalmente, a maioria dos participantes, 11 respondentes (52,4%), declarou ter mais de 10 anos de atuação em projetos aeronáuticos, enquanto 7 profissionais (33,3%) indicaram experiência entre 2 e 5 anos. Essa trajetória consolidada contribui para avaliações mais fundamentadas sobre os riscos no planejamento e execução de treinamentos técnicos.
Em relação à função desempenhada no projeto, a maior parcela da amostra, com 8 respondentes (38,1%), era composta por instrutores, o que indica que as percepções capturadas refletem predominantemente a visão de quem conduz diretamente os treinamentos técnicos. Além disso, foram identificados 3 gerentes de projeto (14,3%) e 2 especialistas técnicos (9,5%), funções que atuam na interface entre o planejamento do projeto e o suporte técnico aos treinamentos. Essa diversidade funcional, que inclui posições estratégicas, gerenciais e operacionais, oferece uma compreensão abrangente dos riscos em projetos complexos (Abreu et al., 2025).
Planejamento e preparação do treinamento: análise dos riscos associados
A percepção dos participantes sobre o planejamento e a preparação das atividades de treinamento revelou aspectos importantes. A maioria dos respondentes, totalizando 18 participantes (85,7%), percebeu que o cronograma do projeto previu tempo adequado para a preparação dos instrutores, com 11 (52,4%) concordando e 7 (33,3%) concordando totalmente. Contudo, 3 respondentes (14,3%) discordaram, indicando que, mesmo com planejamento formal, a suficiência do tempo pode variar, especialmente sob pressão de prazos ou múltiplas atividades simultâneas (Koszykowski et al., 2025).
A existência de planejamento estruturado das atividades de treinamento antes da execução foi amplamente reconhecida, com 17 participantes (81,0%) expressando percepção positiva (12 totalmente concordaram e 5 concordaram). Apenas 1 participante (4,8%) discordou, e 3 (14,3%) mantiveram posição neutra. Esses resultados sugerem que, em geral, há um processo de planejamento formal, o que é fundamental em ambientes altamente regulados como o setor aeronáutico para garantir o alinhamento entre objetivos, requisitos técnicos e competências (Abu Talib et al., 2025).
A disponibilidade prévia de materiais técnicos para a preparação dos instrutores também foi avaliada positivamente pela maioria, com 16 participantes (76,2%) concordando ou concordando totalmente. No entanto, 4 respondentes (19,0%) apresentaram posição neutra e 1 (4,8%) discordou. A disponibilização antecipada de materiais é essencial para que os instrutores revisem conteúdos, organizem estratégias didáticas e alinhem informações, contribuindo para a consistência do conhecimento transmitido (Rodrigues et al., 2020).
A clareza na definição do escopo do treinamento antes de sua aplicação foi percebida como um ponto forte, com 17 respondentes (81,0%) concordando ou concordando totalmente, e nenhum registrando discordância. A definição clara do escopo é um pilar do planejamento de projetos, orientando a preparação dos instrutores e garantindo que os conhecimentos transmitidos estejam alinhados às necessidades operacionais (de Vries et al., 2010). A ausência de discordância neste ponto reforça a importância atribuída a esta etapa.
Em contrapartida, a percepção sobre o impacto do tempo reduzido de preparação no risco de falhas na transmissão do conteúdo foi mais preocupante. Quatorze participantes (66,7%) reconheceram que a limitação de tempo pode aumentar a probabilidade de falhas na condução do treinamento, com 7 concordando e 7 concordando totalmente. Este achado é crucial, pois a preparação insuficiente pode gerar inconsistências, retrabalho ou lacunas na assimilação do conteúdo pelas equipes treinadas (De Castro et al., 2023).
Qualidade e conformidade técnica do treinamento
A avaliação da qualidade e conformidade técnica do treinamento revelou percepções mistas sobre o impacto da limitação de tempo. Doze participantes (57,1%) perceberam que a limitação de tempo comprometeu a qualidade do conteúdo ministrado, enquanto 7 (33,3%) discordaram. Essa divisão de percepções sugere que, embora haja um reconhecimento do risco, a experiência e o domínio técnico dos instrutores podem, em alguns casos, mitigar os efeitos negativos do tempo reduzido.
No que tange ao risco de inconsistência técnica nas informações apresentadas, a maioria dos participantes, 13 (61,9%), não identificou um risco significativo, discordando ou discordando totalmente da afirmação. Apenas 6 (28,6%) concordaram com a existência desse risco. Esse cenário pode ser atribuído ao elevado nível de experiência profissional dos instrutores e ao forte domínio técnico das equipes em projetos aeronáuticos, onde a experiência acumulada funciona como um mecanismo de mitigação de riscos na transmissão de conhecimento (Wei et al., 2025).
A conformidade com os requisitos regulatórios do setor aeronáutico foi amplamente confirmada, com 17 participantes (81,0%) percebendo que os treinamentos atenderam plenamente às exigências. Apenas 1 (4,8%) discordou, e 3 (14,3%) mantiveram posição neutra. Esse resultado é esperado em um setor com alta regulamentação e rigor nos processos de qualificação técnica, onde o cumprimento de normas é central para a gestão da qualidade e para evitar impactos operacionais, jurídicos e reputacionais (Cartile et al., 2025).
A ocorrência de retrabalho ou necessidade de reaplicação do treinamento apresentou uma percepção heterogênea. Sete participantes (33,3%) não identificaram essa necessidade, enquanto outros 7 (33,3%) perceberam a ocorrência de retrabalho. Adicionalmente, 7 (33,3%) mantiveram posição neutra. Essa heterogeneidade indica que, apesar da consistência técnica geral, situações pontuais podem demandar reforço ou reaplicação de conteúdo, especialmente em projetos complexos onde a assimilação pode exigir maior aprofundamento (Cartile et al., 2025).
A percepção de que a falta de preparação adequada dos instrutores pode gerar riscos operacionais futuros foi amplamente reconhecida por 14 participantes (66,7%). Este resultado reforça a ideia de que a qualidade do treinamento não deve ser analisada apenas sob a perspectiva imediata, mas também em relação aos possíveis efeitos a longo prazo na operação dos sistemas e procedimentos técnicos. Em um setor como o aeronáutico, a transferência inadequada de conhecimento pode resultar em erros operacionais e impactar a segurança (Kabashkin et al., 2025).
Comunicação e integração entre as equipes
A comunicação entre a gerência do projeto e os instrutores sobre as expectativas do treinamento foi percebida como clara e adequada por 17 participantes (81,0%). Apenas 1 (4,8%) discordou, e 3 (14,3%) apresentaram posição neutra. Essa percepção predominantemente positiva sobre o fluxo de comunicação é vital em contextos de treinamento técnico, pois a clareza nas expectativas orienta a preparação do conteúdo e garante que os instrutores compreendam os objetivos estratégicos da capacitação (Suresh et al., 2024).
Em relação à comunicação de mudanças no conteúdo do treinamento, as percepções foram mais equilibradas. Doze participantes (57,1%) consideraram que as mudanças foram comunicadas com antecedência suficiente, enquanto 3 (14,3%) discordaram e 6 (28,6%) apresentaram posição neutra. A presença significativa de respostas neutras sugere que, embora a comunicação ocorra, a antecedência das informações nem sempre é percebida de forma uniforme, o que pode indicar oportunidades de melhoria nos processos de comunicação.
A integração entre a equipe técnica e os instrutores responsáveis pelo treinamento foi amplamente positiva, com 19 participantes (90,5%) reconhecendo que a integração ocorreu de forma adequada. Apenas 2 (9,5%) apresentaram posição neutra, sem registro de discordância. Esses dados indicam uma cooperação efetiva, fundamental em projetos de elevada complexidade tecnológica para garantir a consistência entre o conteúdo do treinamento e as práticas operacionais aplicadas pelas equipes (Müller et al., 2024).
A pressão por prazos impactou negativamente a comunicação interna, segundo 11 participantes (52,4%). Em contrapartida, 7 (33,3%) discordaram, e 3 (14,3%) mantiveram posição neutra. Esse resultado evidencia que o fator tempo pode gerar tensão no fluxo de comunicação organizacional. Em projetos com prazos restritos, a necessidade de decisões rápidas e ajustes operacionais pode reduzir o tempo para alinhamentos detalhados, gerando ruídos de comunicação ou interpretações distintas sobre prioridades (Ko et al., 2019).
O alinhamento entre os objetivos estratégicos do projeto e o conteúdo do treinamento foi fortemente percebido, com 18 participantes (85,7%) reconhecendo essa correspondência. Três respondentes (14,3%) apresentaram posição neutra, sem registro de discordância. Esse resultado sugere que o treinamento foi estruturado de forma coerente com os objetivos estratégicos do projeto, direcionando os conteúdos transmitidos às necessidades operacionais e aos resultados esperados pela organização (De Castro et al., 2023).
Gestão da equipe e desempenho dos instrutores
A percepção sobre a preparação dos instrutores para conduzir o treinamento foi predominantemente positiva, com 19 participantes (90,5%) demonstrando sentir-se preparados. Apenas 2 (9,5%) apresentaram posição neutra, sem discordâncias. Esse resultado sugere que, apesar das restrições temporais identificadas no processo de preparação, a maioria dos instrutores percebeu possuir conhecimento técnico e segurança suficientes para conduzir as atividades de treinamento, o que é essencial para a execução eficaz em projetos aeronáuticos (De Castro et al., 2023).
A sobrecarga de atividades impactou o desempenho dos instrutores, segundo 11 respondentes (52,4%). Em contrapartida, 7 participantes (33,3%) não perceberam influência relevante, e 3 (14,3%) mantiveram posição neutra. Esses resultados indicam que, para uma parte considerável dos participantes, a acumulação de responsabilidades pode ter representado um fator de pressão. Em projetos com prazos restritos e múltiplas demandas, a distribuição equilibrada das atividades é crucial para evitar sobrecarga e preservar a qualidade das entregas (Varga et al., 2024).
O clima organizacional influenciou a eficácia do treinamento, conforme reconhecido por 16 participantes (76,2%). Apenas 3 (14,3%) discordaram ou discordaram totalmente, e 2 (9,5%) apresentaram posição neutra. Esses resultados indicam que fatores relacionados ao ambiente de trabalho, à colaboração entre equipes e ao apoio institucional podem exercer influência relevante sobre o desempenho dos instrutores e a qualidade do processo de aprendizagem, favorecendo a condução das atividades e a assimilação dos conteúdos.
A ausência de tempo adequado aumentou o estresse da equipe, de acordo com 9 participantes (42,9%). No entanto, 7 (33,3%) discordaram, e 5 (23,8%) apresentaram posição neutra. A distribuição relativamente equilibrada das respostas sugere que a percepção de estresse pode variar conforme a experiência profissional, a carga de trabalho individual e a familiaridade com o conteúdo. Em ambientes de alta exigência técnica, restrições de tempo podem gerar pressão adicional, especialmente quando a preparação precisa ser conciliada com outras responsabilidades operacionais.
Por fim, a preparação insuficiente dos instrutores pode impactar a imagem do projeto perante os stakeholders, uma percepção compartilhada por 15 participantes (71,4%). Em contrapartida, 5 (23,8%) discordaram totalmente, e 1 (4,8%) apresentou posição neutra. Esse resultado evidencia que a qualidade da preparação das equipes influencia a credibilidade e a capacidade de execução do projeto. Em projetos aeronáuticos, falhas na capacitação podem afetar não apenas o desempenho operacional, mas também a reputação institucional e a confiança dos envolvidos (Kabashkin et al., 2025).
Principais riscos identificados e ações de mitigação
A partir das questões abertas, os participantes destacaram que a limitação temporal pode afetar diversas dimensões do processo de treinamento. Entre os riscos mais citados estão a superficialidade ou incompletude do conteúdo, a dificuldade em aprofundar temas técnicos e a preparação inadequada do material didático. Essas limitações podem resultar em treinamentos superficiais, reduzindo a efetividade da transmissão do conhecimento, especialmente em ambientes de elevada complexidade tecnológica como o setor aeronáutico.
Outros riscos identificados incluem a dificuldade em adaptar a linguagem ao nível dos alunos e a menor utilização de exemplos práticos, o que compromete a efetividade do processo de aprendizagem e a avaliação do desempenho dos participantes. A padronização e consistência técnica também são afetadas, com riscos de inconsistências metodológicas, fragilidade na transmissão de conteúdos críticos e domínio incompleto de manuais técnicos e protocolos operacionais.
A comunicação e coordenação entre equipes também são vulneráveis, com a possibilidade de informações transmitidas de última hora e dificuldades de alinhamento entre instrutores, equipe técnica e gestão do projeto. Os impactos operacionais no projeto incluem a possibilidade de retrabalho futuro, erros de execução e aumento de prazo ou custos. Além disso, há riscos relacionados ao desempenho dos participantes, como a não atingimento do nível mínimo de conhecimento esperado ou a redução da efetividade do treinamento.
Apesar dos riscos, os participantes também apontaram fatores de mitigação observados, como a experiência prévia dos instrutores, certificações técnicas e o apoio de equipes locais, que contribuem para reduzir os impactos da limitação de tempo. Esses elementos são cruciais para manter a qualidade do treinamento mesmo em condições adversas, demonstrando a resiliência e o conhecimento acumulado dentro da organização.
A Matriz de Risco, elaborada a partir da análise dos resultados, hierarquizou os riscos identificados. Os riscos de “Conteúdo superficial ou incompleto no treinamento” e “Dificuldade na transmissão do conhecimento técnico” foram classificados como de nível “Muito alto”, com probabilidade 4 e impacto 5. Isso indica que esses fatores são os mais críticos, pois afetam diretamente a qualidade do conteúdo e a assimilação do conhecimento, podendo comprometer a preparação das equipes e aumentar a probabilidade de erros operacionais ou retrabalho.
Riscos de nível “Alto” incluíram a “Redução da efetividade do treinamento” (probabilidade 4, impacto 4), “Falhas na compreensão do conteúdo pelos participantes” (probabilidade 3, impacto 4) e “Erros de execução nas atividades operacionais posteriores” (probabilidade 2, impacto 5). Embora a probabilidade de erros operacionais possa ser menor, o impacto é elevado, o que exige atenção da gestão do projeto. Esses riscos indiretos, como aumento de custos e extensão do prazo, podem ser significativos em projetos de alta complexidade tecnológica.
Os riscos classificados como “Moderado” abrangeram “Inconsistência metodológica entre instrutores” (3×3), “Retrabalho ou necessidade de reaplicação do treinamento” (3×3), “Aumento do prazo do projeto” (2×3), “Aumento de custos do projeto” (2×3) e “Impacto na percepção dos stakeholders” (3×3). Esses riscos, embora de menor criticidade imediata, devem ser monitorados e tratados com ações preventivas ou estratégias de contingência para evitar comprometimento dos resultados esperados do projeto.
O Plano de Ação 5W2H foi desenvolvido para mitigar os riscos priorizados. O “Planejamento antecipado do treinamento” é uma ação prioritária, visando reduzir riscos associados ao tempo insuficiente de preparação dos instrutores. Isso envolve a definição prévia do cronograma de treinamento, maior tempo de preparação e alinhamento antecipado das atividades e objetivos. Essa medida é fundamental para reduzir a pressão temporal e garantir maior qualidade na estruturação do conteúdo, com um custo estimado baixo.
A “Criação de banco de materiais padronizados” é outra ação essencial, focada em reduzir o tempo de preparação e garantir a padronização do conteúdo. Isso inclui o desenvolvimento de templates, conteúdos base e exercícios padronizados, com um custo estimado baixo. A “Implementação de programa de capacitação de instrutores” busca fortalecer competências didáticas e técnicas, por meio de cursos de capacitação, certificação e atualização de conteúdos, com um custo estimado médio.
A “Implementação de sistema de mentoria entre instrutores” visa apoiar instrutores menos experientes, acompanhando-os por profissionais mais experientes, com um custo estimado baixo. “Reuniões de alinhamento entre equipe técnica e instrutores” são propostas para garantir clareza sobre objetivos e conteúdo do treinamento, com um custo estimado baixo. A “Avaliação de desempenho do treinamento” busca identificar melhorias no processo de capacitação, aplicando questionários de avaliação e análise, com um custo estimado baixo.
Adicionalmente, a “Incorporação de lições aprendidas” visa melhorar continuamente o processo de treinamento, registrando e analisando lições aprendidas para aplicação em projetos futuros, com um custo estimado baixo. A “Revisão periódica dos materiais didáticos” garante a atualização e aderência às normas técnicas, revisando os conteúdos técnicos utilizados no treinamento, também com um custo estimado baixo. Essas ações combinadas visam fortalecer a qualidade do treinamento e reduzir riscos operacionais em projetos aeronáuticos.
Em síntese, os resultados da pesquisa evidenciaram que a limitação de tempo para a preparação dos instrutores em projetos aeronáuticos impacta diretamente a qualidade e profundidade do conteúdo ministrado, a efetividade da transmissão do conhecimento técnico e o alinhamento entre as equipes. A percepção dos profissionais revelou a existência de riscos significativos, especialmente relacionados à superficialidade do conteúdo e à dificuldade na transmissão do conhecimento técnico. Contudo, a experiência dos instrutores e o planejamento estruturado mitigam alguns desses riscos, e as ações propostas, como o planejamento antecipado e a padronização de materiais, são cruciais para aprimorar a qualidade dos treinamentos e reduzir vulnerabilidades, respondendo assim ao objetivo central do estudo.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar os riscos associados ao tempo reduzido de preparação dos instrutores em treinamentos de projetos aeronáuticos, com o propósito de identificar fatores que comprometem a qualidade da capacitação e propor ações de mitigação baseadas em gestão de projetos. Verificou-se que a limitação temporal para a preparação dos instrutores impacta diretamente a profundidade do conteúdo ministrado e a efetividade da transmissão do conhecimento técnico. Os resultados evidenciaram riscos significativos, como a superficialidade ou incompletude do conteúdo, a dificuldade em aprofundar temas técnicos e a ocorrência de falhas na comunicação entre equipes. Identificou-se também a vulnerabilidade na padronização de materiais e a possibilidade de retrabalho ou falhas operacionais futuras.
A principal contribuição do trabalho reside na priorização desses riscos por meio de uma Matriz de Risco e na proposição de um Plano de Ação 5W2H. Este plano delineou medidas concretas, como o planejamento antecipado do treinamento, a criação de um banco de materiais padronizados e a implementação de programas de capacitação e mentoria para instrutores. Tais ações são cruciais para fortalecer a qualidade dos treinamentos e reduzir vulnerabilidades operacionais, reforçando que o planejamento adequado e a preparação estruturada dos instrutores são essenciais para assegurar a excelência na transferência de conhecimento em projetos aeronáuticos. Contudo, o estudo apresentou algumas limitações, como o tamanho reduzido da amostra e a dependência de um método predominantemente baseado na percepção dos participantes, o que pode introduzir subjetividade nas respostas. Além disso, a análise concentrou-se em um contexto específico de treinamentos aeronáuticos, o que restringe a generalização dos achados para outros setores. Sugere-se que estudos futuros ampliem o número de participantes e incluam diferentes contextos organizacionais ou industriais. Recomenda-se, ainda, a combinação de métodos qualitativos e quantitativos, incorporando indicadores objetivos de desempenho do treinamento e resultados operacionais posteriores, a fim de aprofundar a compreensão dos impactos da preparação dos instrutores sobre a qualidade dos treinamentos e o desempenho geral dos projetos.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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