28 de julho de 2026
Riscos e liquidez em investimentos de renda fixa no cenário bancário brasileiro
Débora da Silva Gomes; Angélica Castilho Gasparotto
DOI: 10.22167/2675-6528-202600705
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
Uma análise da relação entre risco e retorno dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs), ofertados por instituições financeiras com rentabilidade superior à média de mercado entre outubro de 2024 e abril de 2025, foi realizada. O estudo teve como objetivo analisar os CDBs de alta rentabilidade no mercado brasileiro, investigando a relação entre risco e retorno, discutindo os principais riscos associados, com ênfase em crédito e liquidez, e avaliando as limitações da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Adotou-se uma metodologia qualitativa, baseada no levantamento de documentos e informações públicas de órgãos reguladores e plataformas de investimento, com foco em instituições financeiras de médio porte, avaliando características como taxas, prazos e liquidez. Os resultados indicaram que a oferta de taxas superiores à média de mercado esteve, em grande parte, associada a uma maior necessidade de captação de recursos no curto prazo pelas instituições emissoras. O Banco Master destacou-se por oferecer remunerações mais elevadas, e observou-se que instituições com taxas mais altas tendiam a apresentar maior risco de liquidez. A liquidação extrajudicial do Banco Master, ocorrida após o período analisado, reforçou a importância de uma avaliação criteriosa que considerasse não apenas a rentabilidade, mas também os sinais de mercado e o comportamento estratégico das instituições. Concluiu-se que é fundamental considerar os aspectos estruturais e comportamentais da instituição no mercado e a sustentabilidade de suas estratégias de captação, além das taxas oferecidas.
Palavras-chave: Certificados de Depósito Bancário; Funding bancário; Investimentos bancários; Mercado financeiro; Risco e retorno.
1. Introdução
<p>O mercado de renda fixa brasileiro desempenha um papel relevante na intermediação financeira, oferecendo alternativas para investidores que buscam retornos estáveis, com menor volatilidade e níveis reduzidos de risco. Nesse cenário, os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) destacam-se como instrumentos amplamente utilizados. São títulos emitidos por instituições financeiras com o objetivo de captar recursos em troca de uma remuneração previamente acordada (Assaf Neto, 2020). Esses ativos são conhecidos por sua estrutura relativamente simples, por apresentarem retorno geralmente atrelado a indicadores de referência, como o Certificado de Depósito Interbancário (CDI), e por sua ampla disponibilidade no sistema financeiro (Gitman; Zutter, 2012).</p>
<p>Nos últimos anos, especialmente em um contexto de elevação da taxa Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira definida pelo Banco Central do Brasil (Assaf Neto, 2020), observou-se um maior interesse dos investidores por instrumentos de renda fixa. Essa busca visa a preservação de capital diante das oscilações do mercado. Nesse cenário, os CDBs ganharam destaque por serem considerados alternativas mais previsíveis em comparação com ativos de renda variável (Cintra; Roberto, 2025). Em ambientes de juros elevados, a atratividade dos CDBs aumentou, sobretudo quando comparados a aplicações mais conservadoras, como a poupança.</p>
<p>No entanto, a decisão de investimento não se baseia exclusivamente na remuneração oferecida, sendo necessário considerar os riscos envolvidos, nem sempre evidentes no momento da aplicação. A escolha por CDBs envolve uma relação direta entre risco e retorno. Embora possam oferecer remuneração superior à de outros ativos de renda fixa, esses títulos expõem o investidor a riscos específicos, como o risco de crédito do emissor e o risco de liquidez. Tais riscos tendem a ser subavaliados em cenários de busca por maior rentabilidade, o que reforça a necessidade de um estudo mais criterioso das instituições emissoras e das condições do mercado (Brealey; Myers; Allen, 2020).</p>
<p>A avaliação dos CDBs, portanto, considera não apenas a taxa de retorno, mas também fatores como a solidez da instituição financeira, o prazo da aplicação e o ambiente macroeconômico, uma vez que esses elementos influenciam diretamente o resultado do investimento (Brealey; Myers; Allen, 2020). O perfil do investidor também exerce influência relevante na escolha dos produtos financeiros. Investidores mais conservadores tendem a priorizar segurança e previsibilidade, enquanto aqueles com maior tolerância ao risco podem optar por alternativas com maior rentabilidade, ainda que associadas a maior exposição a instituições de menor porte ou a prazos mais longos (Gitman; Zutter, 2012).</p>
<p>Um aspecto importante para a segurança do investidor é o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que oferece proteção limitada. O FGC garante cobertura de até 250 mil reais por CPF ou CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado, com limite de um milhão de reais em um período de quatro anos (Fundo Garantidor de Créditos – FGC, 2025). Embora essa garantia contribua para a segurança, ela não elimina a necessidade de avaliar os riscos associados à instituição emissora (Assaf Neto, 2020). Muitos investidores, por vezes, não avaliam adequadamente a destinação dos recursos captados pelos CDBs, o que pode aumentar a exposição a riscos de liquidez. A liquidez estrutural, que é a capacidade da instituição de gerenciar suas fontes de financiamento de forma estável e compatível com suas operações de crédito, é crucial (Cardoso, 2019; Brito, 2005).</p>
<p>O comportamento de mercado observado entre outubro de 2024 e abril de 2025 revelou que algumas instituições financeiras ofertaram CDBs com rentabilidade significativamente acima da média. Esse fato, especialmente em bancos de médio porte, frequentemente indicava maior necessidade de captação de recursos no curto prazo. A posterior liquidação extrajudicial do Banco Master, que consistentemente ofereceu remunerações elevadas, reforça a importância de uma avaliação criteriosa que vá além da rentabilidade, considerando os sinais de mercado e o comportamento estratégico das instituições. Este contexto evidencia a lacuna prática no conhecimento dos investidores e a necessidade de aprofundar a compreensão da dinâmica entre altos retornos e riscos subjacentes.</p>
<p>Portanto, diante da complexidade e da necessidade de uma análise mais aprofundada, este trabalho teve como objetivo analisar os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de alta rentabilidade disponíveis no mercado brasileiro, investigando a relação entre risco e retorno desses investimentos, discutindo os principais riscos associados a esses títulos, com ênfase nos riscos de crédito e de liquidez, e avaliando as limitações da cobertura oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a fim de oferecer subsídios para a tomada de decisão de investidores e profissionais do mercado financeiro.</p>
2. Material e Métodos
<p>O presente trabalho foi desenvolvido por meio de uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, utilizando estudo de caso aliado ao levantamento de documentos públicos e dados secundários. A natureza aplicada da pesquisa buscou utilizar, de forma prática, os conhecimentos adquiridos para a averiguação crítica de um problema real do mercado financeiro, visando a geração de informações relevantes para investidores e profissionais da área. A abordagem qualitativa permitiu a compreensão dos fatores que influenciaram a relação entre risco e retorno nos instrumentos financeiros analisados.</p>
<p>A delimitação temporal da pesquisa compreendeu o período de outubro de 2024 a abril de 2025. Esse intervalo foi selecionado por ter apresentado ofertas de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade superior à média usualmente praticada no mercado. A escolha desse recorte temporal permitiu focar na dinâmica específica de captação e oferta de títulos de renda fixa em um cenário de mercado relevante.</p>
<p>A coleta de dados realizou-se por meio de fontes documentais e secundárias. Incluíram-se informações públicas disponibilizadas pelo Banco Central do Brasil (BCB), pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Adicionalmente, foram consultados relatórios de corretoras, instituições financeiras e bases de dados de mercado que apresentavam características de CDBs ofertados a investidores pessoa física.</p>
<p>No que se refere ao estudo de caso, foram analisadas instituições financeiras que, no período considerado, se destacaram pela oferta recorrente de CDBs com rentabilidade elevada. A ênfase recaiu sobre o Banco Master e o Banco Pine. A seleção dessas instituições ocorreu em função da frequência com que seus produtos apareceram nas ofertas de mercado e da disponibilidade de informações públicas que possibilitaram o estudo comparativo.</p>
<p>A análise dos dados foi conduzida por meio de pesquisa documental e de conteúdo. Utilizaram-se critérios previamente definidos, como a rentabilidade (em relação ao Certificado de Depósito Interbancário – CDI), os prazos de vencimento, a classificação de risco (“rating”), o porte das instituições emissoras e as características de liquidez dos títulos. A partir desses critérios, buscou-se identificar padrões, semelhanças e diferenças entre as instituições analisadas.</p>
<p>A opção pela abordagem qualitativa justificou-se pela necessidade de compreender o contexto em que os produtos foram ofertados, bem como as estratégias adotadas pelas instituições financeiras. Embora o estudo não tenha envolvido coleta direta de dados com investidores, a literatura foi utilizada como suporte para a compreensão de aspectos relacionados à percepção de risco, à confiança nas instituições e à tomada de decisão no processo de investimento.</p>
<p>Como característica metodológica, a pesquisa baseou-se exclusivamente em dados secundários e documentos públicos, não contemplando informações internas das instituições ou coleta direta com investidores. O recorte temporal adotado, de outubro de 2024 a abril de 2025, delimitou a janela de observação, focando nas condições de mercado e ofertas de CDBs dentro desse período específico.</p>
3. Resultados e Discussão
<p>A análise dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de alta rentabilidade, no período de outubro de 2024 a abril de 2025, revelou uma dinâmica de mercado complexa, onde a busca por retornos elevados esteve intrinsecamente ligada a fatores estruturais e estratégias de captação das instituições financeiras. Os resultados foram construídos a partir de informações públicas, incluindo reportagens, tabelas de rentabilidade e comunicados de órgãos reguladores como o Banco Central do Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Essa abordagem qualitativa permitiu uma compreensão aprofundada da relação entre risco e retorno, focando em instituições de médio porte e suas particularidades no cenário financeiro brasileiro.</p>
<p>O ambiente de mercado entre o final de 2024 e o início de 2025 foi marcado por uma taxa Selic elevada e por incertezas econômicas, o que intensificou a concorrência entre as instituições financeiras pela captação de recursos. Nesse cenário, a oferta de CDBs com taxas de remuneração significativamente superiores à média de mercado tornou-se mais frequente, especialmente para títulos atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Esse movimento foi particularmente notável em bancos de médio porte, que buscavam atrair investidores para financiar suas operações e expandir suas carteiras de crédito, refletindo uma necessidade ampliada de funding no curto prazo.</p>
<p>Levantamentos divulgados por veículos especializados em investimentos, como o InfoMoney, com base em dados da Quantum Finense, indicaram que algumas instituições ofereciam percentuais de CDI consideravelmente acima do padrão, especialmente em prazos mais longos. Por exemplo, em fevereiro e março de 2025, enquanto a taxa média dos CDBs de 24 meses se situava próxima de 100% do CDI, o Banco Master de Investimento destacou-se por ofertar remuneração de até 120% do CDI. Essa diferença expressiva sinalizava uma postura de captação mais agressiva por parte da instituição, buscando atrair capital de forma rápida em um mercado competitivo.</p>
<p>Critérios de seleção para comparação das instituições</p>
<p>Para aprofundar a análise, foram definidos critérios comparativos que incluíram os “ratings” de crédito, o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), o porte das instituições, a qualidade da carteira de crédito e a liquidez dos títulos. Essa metodologia permitiu uma avaliação multifacetada das instituições financeiras, com foco no Banco Master e no Banco Pine, selecionados pela recorrência de suas ofertas de CDBs de alta rentabilidade e pela disponibilidade de informações públicas. A comparação buscou identificar padrões e diferenças nas estratégias e perfis de risco de cada emissor, fornecendo uma base sólida para a interpretação dos achados.</p>
<p>“Rating” das instituições</p>
<p>As avaliações de crédito, ou “ratings”, fornecidas por agências como Moody’s e Fitch, são ferramentas importantes para investidores e instituições financeiras na tomada de decisão. Em 2024, o Banco Pine recebeu a nota A.br da Moody’s Local, enquanto o Banco Master obteve A-(bra) da Fitch, ambas na escala nacional brasileira. Embora provenientes de agências distintas, essas notas indicaram níveis de crédito semelhantes dentro da faixa nacional, sugerindo que, sob a perspectiva de risco de crédito formal, as duas instituições apresentavam perfis comparáveis para o mercado, o que as tornava adequadas para um estudo comparativo mais detalhado.</p>
<p>Comparação do retorno sobre o patrimônio (“Return on Equity” – ROE)</p>
<p>O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) é um indicador crucial para avaliar a viabilidade e a rentabilidade de uma instituição financeira, refletindo sua capacidade de gerar lucro a partir do capital investido. Em 2024, as demonstrações financeiras indicaram que o Banco Pine apresentou um ROE de 23,0%, enquanto o Banco Master registrou 28,5%. Ambos os percentuais foram considerados elevados para o período, demonstrando a capacidade de ambas as instituições de gerar valor. No entanto, o ROE superior do Banco Master sugeriu um perfil de gestão mais agressivo em suas operações e estratégias de investimento, buscando maximizar o retorno sobre o capital próprio.</p>
<p>Comparação de porte – Banco Master x Banco Pine</p>
<p>A análise do porte das instituições, baseada em seus patrimônios líquidos, revelou diferenças significativas. Em 2024, o Banco Master apresentava um patrimônio líquido de aproximadamente 4,7 bilhões de reais, indicando uma escala de operações mais ampla e uma estratégia de expansão mais agressiva. Em contraste, o Banco Pine possuía um patrimônio líquido de cerca de 1,227 bilhão de reais no mesmo ano, com uma atuação mais concentrada em crédito corporativo para médias empresas e uma estratégia operacional mais conservadora. Essa distinção no porte e na abordagem estratégica foi fundamental para compreender as diferentes necessidades de captação e os riscos associados a cada instituição.</p>
<p>Qualidade da Carteira de Crédito – Banco Master x Banco Pine</p>
<p>A avaliação qualitativa da carteira de crédito é um indicador essencial da solidez de uma instituição. No período de outubro de 2024 a abril de 2025, o Banco Pine demonstrou níveis reduzidos de inadimplência, crescimento gradual da carteira, ativos diversificados com presença de garantias e provisões compatíveis com o risco observado, mantendo uma tendência de estabilidade. Por outro lado, o Banco Master não divulgou informações consolidadas sobre inadimplência, apresentou crescimento acelerado da carteira, uma estrutura de ativos com menor transparência e informações limitadas sobre a suficiência de suas provisões, indicando um aumento do risco percebido no período. Esses dados sugerem que o Banco Master operava com uma gestão de risco menos transparente e potencialmente mais arriscada em comparação com o Banco Pine.</p>
<p>Análise de liquidez – Banco Master x Banco Pine</p>
<p>A liquidez, ou a capacidade de uma instituição honrar seus compromissos de curto prazo, foi outro ponto crucial de comparação. O Banco Pine exibiu uma estrutura de “funding” diversificada, com evolução da liquidez estável, sem eventos de liquidez formalmente identificados e capacidade de captação mantida, refletindo uma tendência de estabilidade. Em contrapartida, o Banco Master demonstrou maior concentração em instrumentos de captação, indícios de pressão na liquidez ao longo do período, ausência de divulgação formal de eventos de liquidez, indícios de maior dependência de captação e aumento da incerteza quanto à liquidez. Essa diferença na gestão de liquidez foi um forte indicativo das pressões enfrentadas pelo Banco Master para manter seus fluxos de caixa.</p>
<p>Comparação direta das ofertas de CDBs</p>
<p>A comparação direta das ofertas de CDBs, baseada em plataformas financeiras e reportagens especializadas, revelou estratégias distintas. O Banco Master oferecia CDBs pós-fixados (CDI) com rentabilidade de até 120% do CDI, e em outras ofertas, entre 110% e 115% do CDI, com liquidez apenas no vencimento. Essa instituição frequentemente se destacava nos rankings de maior rentabilidade e apresentava ofertas recorrentes em plataformas digitais. Em contraste, o Banco Pine oferecia CDBs pós-fixados (CDI) com rentabilidade de aproximadamente 108% a 112% do CDI, também com liquidez no vencimento, e CDBs prefixados entre 13,6% e 14,5% ao ano, associados a prazos intermediários. Embora competitivas, as taxas do Banco Pine estavam abaixo dos máximos do mercado, sugerindo uma estratégia mais moderada e menos agressiva.</p>
<p>Essa diferença nas ofertas indicou que o Banco Master adotava uma estratégia de captação mais agressiva, visando atrair recursos rapidamente, especialmente para prazos mais longos. As taxas elevadas podem ser interpretadas como um reflexo de um custo de “funding” mais alto, indicando uma maior dependência da captação via CDBs e uma possível sensibilidade às condições de liquidez. Por outro lado, a estratégia do Banco Pine, com remunerações competitivas, mas não extremas, sugeriu menor pressão por captação imediata e uma estrutura de “funding” mais equilibrada, compatível com uma abordagem operacional mais conservadora, conforme discutido por Brealey, Myers e Allen (2020).</p>
<p>Relação risco e retorno na análise qualitativa</p>
<p>A análise qualitativa da relação risco e retorno revelou que investidores de varejo frequentemente priorizam a rentabilidade nominal, subestimando fatores como o imposto de renda e o risco do emissor (Gitman; Zutter, 2012). Os dados de mercado e relatórios de corretoras confirmaram essa tendência, com alta demanda por títulos que ofereciam rentabilidades acima da média, mesmo quando associados a prazos mais longos ou a emissores de menor porte. Essa percepção de risco, muitas vezes subavaliada, foi um ponto central na compreensão da dinâmica dos CDBs de alta rentabilidade.</p>
<p>O comportamento das taxas observadas pôde ser compreendido a partir de quatro dimensões principais. A primeira, o risco de liquidez, manifestou-se na maioria dos CDBs de alta rentabilidade que não permitiam resgate antecipado. Nesses casos, a imobilização do capital, embora uma característica do produto, gerava risco ao impedir o investidor de realocar recursos em cenários de instabilidade da taxa Selic, perdendo oportunidades mais vantajosas. Os CDBs do Banco Master, com remuneração entre 110% e 120% do CDI, exemplificavam essa situação, oferecendo alta rentabilidade como compensação pela falta de liquidez antecipada, o que permitia à instituição captar recursos rapidamente.</p>
<p>A segunda dimensão foi o risco associado ao emissor. Mesmo com a proteção do FGC, investidores e plataformas consideram o porte, o modelo de captação e a composição do “funding” das instituições. Documentos da CVM (2023) e relatórios do Banco Central do Brasil (2024) indicaram que bancos de médio porte tendem a depender mais da captação via CDBs, especialmente de pessoas físicas. O Banco Master, com sua participação expressiva nesse tipo de captação, oferecia remunerações mais altas para atrair recursos e compensar a percepção de risco elevado, enquanto o Banco Pine mantinha uma política de taxas mais estável, menos exposta a pressões de liquidez.</p>
<p>As condições macroeconômicas e o risco sistêmico constituíram a terceira dimensão. Juros elevados, como os observados no período, aumentam a exigência de retorno para aplicações de médio e longo prazo. Nesse cenário, emissores que dependem intensamente de captação, como o Banco Master, tendiam a elevar suas taxas para tornar os títulos mais atraentes e garantir o fluxo de recursos. Por fim, a estrutura de prazo foi a quarta dimensão. Títulos com prazos mais longos incorporam maior incerteza quanto a variações na taxa Selic, inflação e políticas econômicas. Assim, taxas mais elevadas funcionavam como um prêmio pelo prazo, e o Banco Master concentrava suas ofertas mais agressivas em CDBs com vencimento a partir de 24 meses, alinhando-se a essa lógica de compensação por maior risco e incerteza temporal.</p>
<p>Interpretação dos resultados: possíveis determinantes das taxas elevadas ofertadas pelo Banco Master</p>
<p>A diferença nas taxas ofertadas pelo Banco Master em comparação com instituições de porte semelhante, como o Banco Pine, sugeriu diversos fatores determinantes para sua estratégia de captação. Entre eles, destacaram-se a necessidade ampliada de atrair recursos, a intensa competição no segmento de CDBs, a maior sensibilidade do investidor ao risco percebido, a grande dependência da captação via varejo e os prêmios elevados exigidos no mercado secundário. Essa combinação de fatores levava o Banco Master a oferecer remunerações significativamente mais altas para garantir o fluxo de capital necessário às suas operações e expansão.</p>
<p>A discrepância entre as taxas médias e máximas observadas no período analisado foi um aspecto relevante. Para prazos de 24 meses, a taxa média de 100% do CDI contrastava com ofertas de até 120% do CDI pelo Banco Master, conforme dados do InfoMoney (2025). Esse “spread” elevado pode ser interpretado como um prêmio de risco exigido pelos investidores, associado ao porte da instituição, à percepção de solvência e à maior sensibilidade à liquidez. No caso do Banco Master, a distância entre a média de mercado e suas ofertas reforçou a hipótese de uma estratégia de captação sob maior pressão, onde a rentabilidade elevada funcionava como um mecanismo agressivo de atração de recursos.</p>
<p>Reportagens especializadas também registraram que títulos do Banco Master eram negociados no mercado secundário com taxas superiores às ofertas primárias. Esse comportamento indicou um aumento na percepção de risco por parte dos investidores, que exigiam retornos adicionais para compensar as incertezas associadas ao emissor. Durante o período analisado, o Banco Master aparecia sistematicamente entre os emissores com as maiores taxas, enquanto o Banco Pine mantinha uma remuneração mais alinhada aos padrões de mercado para bancos de médio porte, evidenciando as distintas abordagens de gestão de risco e captação entre as duas instituições.</p>
<p>Eventos posteriores: contextualização da liquidação extrajudicial (2025)</p>
<p>Em novembro de 2025, após o período de análise deste estudo, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., em decorrência do descumprimento de exigências regulatórias e de fragilidades na gestão de riscos de capital. Embora esse evento não tenha sido parte do escopo principal da pesquisa, sua ocorrência posterior forneceu uma importante contextualização para os resultados observados. Não se estabeleceu uma relação causal direta entre as taxas elevadas e o desfecho da instituição, mas os elementos identificados ao longo da pesquisa, como a necessidade de captação, os prazos mais longos, a rentabilidade acima da média e o comportamento no mercado secundário, mostraram-se consistentes com um contexto de maior pressão por liquidez e risco ampliado.</p>
<p>Análise complementar: gestão de liquidez e fundamentos do “funding” bancário</p>
<p>A gestão de liquidez é um componente crítico para bancos de médio porte, que frequentemente concentram seu “funding” em instrumentos como CDBs, Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). Segundo o Banco Central do Brasil (2024), instituições desse porte são mais vulneráveis a variações na confiança do mercado. A necessidade de manter fluxos constantes de captação pode levar à oferta de taxas mais elevadas, o que reflete um aumento no custo de “funding” para a instituição. Essa dinâmica é crucial para entender as estratégias de remuneração adotadas.</p>
<p>A literatura da CVM (2023) enfatiza que desalinhamentos entre os prazos de captação e aplicação de recursos podem ampliar a exposição ao risco de liquidez, exigindo estratégias mais agressivas de remuneração para manter o equilíbrio financeiro. Reportagens do período analisado indicavam que o Banco Master buscava expandir sua carteira de crédito, o que justificava sua necessidade de captação via CDBs. Em cenários como esse, a oferta de taxas elevadas funciona como uma estratégia eficaz para atrair recursos rapidamente, mas também pode sinalizar uma maior pressão sobre a liquidez da instituição, conforme apontado por Cardoso (2019) e Brito (2005).</p>
<p>Em síntese, os resultados da pesquisa indicaram que o Banco Master adotou uma estratégia de captação mais agressiva, oferecendo taxas superiores à média do mercado, especialmente em prazos mais longos, o que refletia uma pressão por liquidez e uma necessidade de captar recursos de forma mais rápida. Em contraste, o Banco Pine manteve uma estratégia mais conservadora, com taxas competitivas, mas alinhadas aos padrões de mercado para instituições de porte semelhante. O ambiente macroeconômico de juros elevados intensificou a competição por recursos, pressionando as instituições a oferecerem remunerações mais atrativas. Essa dinâmica de rentabilidade não deve ser avaliada isoladamente, pois taxas altas podem refletir tanto uma oportunidade de investimento quanto sinais de risco ampliado, uma percepção que foi confirmada de forma retrospectiva no caso analisado, reforçando a importância de uma avaliação criteriosa que considere não apenas o retorno oferecido, mas também os fatores estruturais e comportamentais que sustentam a captação.</p>
4. Conclusão
<p>O estudo buscou analisar os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de alta rentabilidade no mercado brasileiro, investigando a relação entre risco e retorno, discutindo os principais riscos associados, com ênfase em crédito e liquidez, e avaliando as limitações da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Verificou-se que a oferta de taxas de remuneração superiores à média de mercado, observada entre outubro de 2024 e abril de 2025, esteve predominantemente associada a uma maior necessidade de captação de recursos de curto prazo pelas instituições emissoras. Identificou-se que o Banco Master se destacou por oferecer remunerações mais elevadas, enquanto instituições como o Banco Pine mantiveram uma estratégia de captação mais conservadora. Observou-se que a busca por alta rentabilidade expunha os investidores a riscos de liquidez, dada a ausência de resgate antecipado, e a riscos de crédito do emissor, mesmo com a proteção limitada do Fundo Garantidor de Créditos. As condições macroeconômicas de juros elevados e a estrutura de prazo dos títulos também influenciaram a dinâmica das taxas, com prazos mais longos exigindo prêmios maiores.</p>
<p>A principal contribuição do estudo reside na elucidação de que a decisão de investimento em CDBs de alta rentabilidade não pode se basear apenas no retorno nominal, mas exige uma análise criteriosa dos aspectos estruturais e comportamentais da instituição emissora, bem como da sustentabilidade de suas estratégias de captação. A liquidação extrajudicial do Banco Master, ocorrida após o período analisado, embora não causalmente ligada às taxas, reforçou a importância de considerar os sinais de mercado e a gestão de risco. Como limitação, a pesquisa fundamentou-se exclusivamente em dados secundários e documentos públicos, sem acesso a informações internas das instituições ou coleta direta com investidores, e o recorte temporal pode não ter capturado mudanças estruturais de longo prazo. Sugere-se para estudos futuros a realização de pesquisas quantitativas que aprofundem a relação entre rentabilidade, risco e indicadores financeiros das instituições emissoras.</p>
Referências Bibliográficas
ASSAF NETO, A. Mercado financeiro. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2020.
BANCO CENTRAL DO BRASIL (BCB). Relatório de estabilidade financeira. Brasília, 2024. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/relatorioestabilidadefinanceira. Acesso em: dez. 2025.
BREALEY, R. A.; MYERS, S. C.; ALLEN, F. Princípios de finanças corporativas. 13. ed. Nova Iorque: McGraw-Hill, 2020.
BRITO, N. R. O. Alocação de ativos em private banking. Porto Alegre: Bookman, 2005.
CARDOSO, V. R. S. Factors associated with the structural liquidity of banks in Brazil. Revista Contabilidade & Finanças, São Paulo, v. 30, n. 82, p. 1–17, 2019.
CINTRA, R. Brazilian domestic fixed income market: details matter. Short Study Series, n. 42. São Paulo: FGV Invest, 2025. Disponível em: https://eesp.fgv.br/sites/eesp.fgv.br/files/gvinvest_short_studies_series_42.pdf. Acesso em: 19 out. 2025.
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM). Boletim de riscos e mercado de capitais 2023. Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/cvm. Acesso em: 12 dez. 2025.
FUNDO GARANTIDOR DE CRÉDITOS (FGC). Sobre a garantia FGC. 2025. Disponível em: https://www.fgc.org.br/sobre-garantia-fgc. Acesso em: 19 out. 2025.
GITMAN, L. J.; ZUTTER, C. J. Princípios de administração financeira. 14. ed. São Paulo: Pearson, 2012.
INFOMONEY. Taxas de CDBs sobem para até 120% do CDI em fevereiro; vale a pena investir? São Paulo, 2025. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/taxas-de-cdbs-sobem-para-ate-120-do-cdi-em-fevereiro-vale-a-pena-investir/. Acesso em: dez. 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq
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