28 de julho de 2026
Rentabilidade e alavancagem financeira sob o modelo DuPont em duas empresas têxteis brasileiras (2022–2024)
Davi Gallego Poso; Rafael Confetti Gatsios
DOI: 10.22167/2675-6528-202600704
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O setor têxtil brasileiro, caracterizado por elevada intensidade de capital e exposição a pressões competitivas e macroeconômicas, demanda análise aprofundada da rentabilidade para a compreensão do desempenho empresarial. Este estudo analisou a rentabilidade de duas empresas têxteis brasileiras entre 2022 e 2024, aplicando o Modelo DuPont para decompor o Retorno sobre os Ativos (ROA) e o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) em seus componentes operacionais e financeiros. A pesquisa, de natureza aplicada, descritiva e explicativa, empregou abordagem quantitativa baseada na análise documental das demonstrações financeiras publicadas pelas companhias. Os resultados revelaram trajetórias de desempenho diametralmente opostas: a Empresa Alfa apresentou deterioração progressiva do ROE, impulsionada pela erosão da margem líquida e amplificada pelo aumento da alavancagem financeira, resultando em destruição de valor. Em contraste, a Empresa Beta reverteu sua posição inicial de ROE negativo para um patamar significativamente positivo, devido à recomposição da eficiência operacional (margem líquida) e à redução da alavancagem. A decomposição DuPont evidenciou que a eficiência operacional foi o principal determinante das divergências, enquanto a alavancagem financeira atuou como amplificador dos resultados. Estes achados reforçaram a pertinência do Modelo DuPont para identificar os vetores estruturais responsáveis pela geração de valor e pela exposição ao risco financeiro no ambiente setorial competitivo.
Palavras-chave: Análise financeira; Eficiência operacional; Estrutura de capital; Rentabilidade empresarial; Setor têxtil.
1. Introdução
O setor têxtil e de confecção brasileiro possui uma relevância macroeconômica considerável, evidenciada por seu impacto significativo no emprego, na produção e na arrecadação. Em 2024, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT, 2024) registrou um faturamento de R$ 212,6 bilhões, com 25,3 mil empresas e 1,3 milhão de postos de trabalho diretos. Esses dados demonstram a capilaridade e a contribuição do setor para a economia nacional, com R$ 32,9 bilhões em salários e remunerações e R$ 24,4 bilhões em impostos e taxas.
Apesar de seu porte, o setor enfrenta desafios estruturais e pressões competitivas e macroeconômicas. No comércio exterior, o ano de 2024 contabilizou um déficit de US$ 5,7 bilhões, resultante de US$ 908 milhões em exportações e US$ 6,6 bilhões em importações (ABIT, 2024). A escala produtiva, com dois milhões de toneladas têxteis e 8,02 bilhões de peças de vestuário em 2023, e investimentos de R$ 4,6 bilhões no mesmo ano, coexiste com a necessidade de uma gestão financeira rigorosa. O Instituto Assaf (2025) aponta que o setor historicamente apresenta margens de rentabilidade mais estreitas e maior volatilidade na geração de valor, demandando controle acentuado do capital de giro e da estrutura de custos para manter a atratividade.
Nesse ambiente de capital intensivo e alta competitividade, a rentabilidade emerge como uma dimensão crucial para a avaliação do desempenho empresarial. A rentabilidade, conforme Assaf Neto (2014), representa a capacidade de uma empresa gerar resultados a partir dos recursos investidos, refletindo a eficiência na aplicação de capital próprio e de terceiros na criação de valor econômico. Gitman (2012) complementa, afirmando que os indicadores de retorno permitem relacionar o lucro obtido ao volume de ativos e ao patrimônio líquido, facilitando a análise comparativa entre empresas e períodos.
Contudo, a mensuração agregada da rentabilidade, por meio de indicadores sintéticos como o Retorno sobre os Ativos (ROA) e o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), tende a ocultar os determinantes estruturais do retorno. Esses indicadores informam o resultado final, mas não discriminam se a variação observada decorre de alterações na margem operacional, na eficiência de utilização dos ativos ou na intensidade do endividamento (Cardoso; Pinheiro, 2020). Adicionalmente, setores reagem de modo heterogêneo a recessões e variáveis macroeconômicas, o que afeta a interpretação do desempenho comparativo (Cardoso; Pinheiro, 2020), e a incerteza de política econômica influencia as decisões corporativas de endividamento (Barros et al., 2025).
Diante dessa complexidade, a decomposição analítica do retorno torna-se um procedimento metodologicamente essencial para identificar os vetores que explicam a geração de valor em nível organizacional (Cardoso; Pinheiro, 2020). O Modelo DuPont, desenvolvido na década de 1920, oferece um arcabouço conceitual adequado para essa análise, desagregando o ROA e o ROE em três componentes fundamentais: margem líquida, giro do ativo e multiplicador de alavancagem financeira (Assaf Neto, 2014; Matarazzo, 2010). Essa estrutura analítica permite identificar se o desempenho resulta da eficiência operacional, da intensidade de uso dos ativos ou da dependência de capital de terceiros, sendo particularmente pertinente para análises comparativas intra-setoriais.
Estudos anteriores reforçam a importância de uma análise aprofundada do desempenho financeiro. Avelar et al. (2022) observaram que os efeitos da COVID-19 em empresas brasileiras de capital aberto incluíram compressão da rentabilidade e aumento do endividamento, com impactos heterogêneos entre setores. Cardoso e Britto (2023) também identificaram variações setoriais nos impactos da IFRS 16 e da pandemia sobre indicadores financeiros. A interação entre o ambiente macroeconômico e as decisões financeiras é complexa e não linear (Venturini et al., 2019), e a gestão do capital de giro pode ter impacto significativo na rentabilidade (Nakamura et al., 2010), o que sublinha a necessidade de ferramentas como o Modelo DuPont para desvendar essas relações.
A relevância da rentabilidade como métrica de desempenho e a necessidade de compreender seus determinantes estruturais em um ambiente setorial competitivo justificam este estudo. Assim, o presente trabalho tem como objetivo analisar a rentabilidade de duas empresas têxteis brasileiras no período de 2022 a 2024, por meio da aplicação do Modelo DuPont, decompondo o Retorno sobre os Ativos (ROA) e o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) em seus componentes operacionais e financeiros, a fim de identificar os vetores responsáveis pelas diferenças observadas na geração de retorno e na estrutura de capital.
2. Material e Métodos
A pesquisa caracterizou-se como aplicada, descritiva e explicativa, visando à análise do desempenho financeiro de empresas têxteis brasileiras e à identificação dos fatores determinantes da rentabilidade (Creswell; Creswell, 2018; Gil, 2022). Adotou-se uma abordagem quantitativa, com coleta e análise de dados numéricos para classificação e análise por meio de técnicas estatísticas e de indicadores (Richardson, 2017). Os dados contábeis foram tratados numericamente para o cálculo de indicadores de rentabilidade, eficiência e alavancagem.
Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa configurou-se como documental, pela utilização de demonstrações financeiras publicadas, e como um estudo de caso comparativo. Essa estratégia de investigação é adequada para compreender fenômenos contemporâneos em profundidade, dentro de seu contexto real (Marconi; Lakatos, 2021; Yin, 2018), especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não são claramente evidentes.
O estudo focou em duas grandes empresas do setor têxtil brasileiro, Empresa Alfa e Empresa Beta, selecionadas intencionalmente e de forma não probabilística. Os critérios de seleção basearam-se na relevância setorial, na disponibilidade de dados financeiros e na representatividade no segmento (Richardson, 2017). Para preservar a confidencialidade das informações estratégicas e em conformidade com princípios éticos, as empresas foram identificadas pelos codinomes Empresa Alfa e Empresa Beta.
A Empresa Alfa é uma companhia de capital fechado, fundada na década de 1960, consolidada como uma das maiores produtoras de denim da América Latina. Seu modelo de negócio é verticalizado, com unidades fabris no Brasil e operações industriais em outros países. Publica suas demonstrações financeiras em seu portal de Relações com Investidores devido a obrigações de debêntures registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que viabilizou a obtenção dos dados para esta pesquisa.
A Empresa Beta é uma companhia de capital aberto, com ações negociadas na B3, fundada no século XIX. Possui diversas plantas fabris em Minas Gerais e atua nos segmentos de “jeanswear” e “workwear”. Por ser companhia aberta, está sujeita às normas de divulgação da CVM, publicando regularmente suas Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFPs) e Informações Trimestrais (ITRs), tornando-a um caso relevante para a análise comparativa proposta.
O período de análise compreendeu os exercícios fiscais de 2022 a 2024. Este recorte temporal permitiu avaliar o desempenho das empresas em um período pós-pandemia de COVID-19, caracterizado por reconfigurações nas cadeias de suprimentos globais e volatilidade macroeconômica. A coleta de dados foi realizada exclusivamente por meio de fontes secundárias, a partir das demonstrações financeiras padronizadas publicadas pelas empresas.
Os dados foram extraídos de duas peças contábeis fundamentais: o Balanço Patrimonial (BP) e a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) de cada empresa, para cada ano do período analisado. As variáveis contábeis utilizadas incluíram Receita Líquida de Vendas, Lucro Líquido do Exercício, Ativo Total e Patrimônio Líquido (Assaf Neto, 2014; Matarazzo, 2010). O tratamento dos dados consistiu na organização e padronização das informações em planilhas eletrônicas, mantendo os valores em milhares de reais (R$ mil).
A análise dos dados empregou o Modelo DuPont, um sistema de análise financeira que decompõe os indicadores de rentabilidade em seus componentes fundamentais (Matarazzo, 2010). Este modelo relaciona a DRE com o BP, evidenciando a interação entre eficiência operacional e estrutura de capital (Assaf Neto, 2014). Ele desagrega o Retorno sobre os Ativos (ROA) e o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) em indicadores de eficiência operacional e de estrutura de capital (Padoveze; Benedicto, 2010).
A aplicação do Modelo DuPont seguiu uma lógica sequencial. Inicialmente, calculou-se a Margem Líquida (ML), que reflete a eficiência operacional e a capacidade de controle de custos e despesas (Marion, 2019). Em seguida, determinou-se o Giro do Ativo (GA), que mede a intensidade de uso dos ativos para gerar receita de vendas (Matarazzo, 2010). O Multiplicador de Alavancagem Financeira (MAF) foi então calculado para indicar o grau de endividamento da empresa, ou seja, a proporção do ativo total financiada por capital de terceiros em relação ao capital próprio (Gitman, 2012).
Com base nesses componentes, realizou-se a decomposição do Retorno sobre os Ativos (ROA), que representa a capacidade da empresa de gerar lucro a partir de seus ativos, sendo o produto da Margem Líquida pelo Giro do Ativo (Assaf Neto, 2014). Posteriormente, o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) foi decomposto, integrando a análise operacional (margem e giro) com a dimensão financeira (alavancagem). A etapa final consistiu na análise comparativa dos resultados dos indicadores para ambas as empresas no período de 2022 a 2024, visando identificar os vetores responsáveis pelas variações no retorno e na estrutura de capital.
3. Resultados e Discussão
A análise da rentabilidade das duas empresas têxteis brasileiras, Alfa e Beta, no período de 2022 a 2024, revelou trajetórias de desempenho financeiro marcadamente distintas, conforme o objetivo deste estudo. Os resultados, obtidos pela aplicação do Modelo DuPont, permitiram decompor os indicadores de retorno em seus componentes operacionais e financeiros, evidenciando os vetores primários que impulsionaram as diferenças observadas na geração de valor e na estrutura de capital de cada companhia. Inicialmente, são apresentados os dados financeiros brutos que fundamentam os cálculos e as interpretações subsequentes.
Para a Empresa Alfa, a Receita Líquida de Vendas demonstrou uma retração significativa, passando de R$ 2.023.898 mil em 2022 para R$ 1.656.173 mil em 2024, o que representa uma queda acumulada de 18,2% ao longo do triênio. O Lucro Líquido do Exercício seguiu uma trajetória ainda mais preocupante, reduzindo de R$ 125.944 mil em 2022 para R$ 7.366 mil em 2023, e culminando em um prejuízo de R$ 117.461 mil em 2024. Essa deterioração acentuada do resultado líquido é um indicativo inicial das dificuldades operacionais enfrentadas pela empresa.
No que concerne à estrutura patrimonial da Empresa Alfa, o Ativo Total inicialmente reduziu de R$ 3.517.344 mil em 2022 para R$ 2.990.556 mil em 2023, mas apresentou uma recuperação para R$ 3.396.265 mil em 2024. O Patrimônio Líquido, por sua vez, registrou um declínio contínuo, passando de R$ 1.477.031 mil em 2022 para R$ 1.334.216 mil em 2024. Essa redução reflete o impacto cumulativo da diminuição da lucratividade e do prejuízo apurado, comprometendo a base de capital próprio da companhia ao longo do período analisado.
Em contraste, a Empresa Beta apresentou um cenário de recuperação e crescimento. Sua Receita Líquida de Vendas aumentou de R$ 903.708 mil em 2022 para R$ 989.630 mil em 2024, um crescimento acumulado de aproximadamente 9,5%, com a expansão mais notável ocorrendo em 2023. O desempenho do Lucro Líquido foi ainda mais expressivo: após registrar um prejuízo de R$ 17.950 mil em 2022, a empresa reverteu para um lucro de R$ 80.354 mil em 2023 e alcançou R$ 110.535 mil em 2024, demonstrando uma sólida recomposição da rentabilidade operacional.
A estrutura patrimonial da Empresa Beta também refletiu essa recuperação. O Ativo Total expandiu de R$ 669.059 mil em 2022 para R$ 844.884 mil em 2024, indicando um aumento na base de investimentos da empresa. Mais notavelmente, o Patrimônio Líquido cresceu de forma expressiva, passando de R$ 114.730 mil em 2022 para R$ 309.019 mil em 2024. Esse aumento substancial é um reflexo direto da retenção dos lucros apurados nos dois últimos exercícios, fortalecendo a estrutura de capital próprio da companhia e sua capacidade de financiamento interno.
Análise da Margem Líquida
A Margem Líquida, um dos componentes cruciais do Modelo DuPont, mede a eficiência com que uma empresa converte sua receita em lucro, refletindo diretamente seu poder de precificação e a capacidade de controlar custos e despesas. Os resultados para a Empresa Alfa revelaram uma deterioração drástica: a margem positiva de 6,22% em 2022 caiu para 0,40% em 2023 e tornou-se negativa em -7,09% em 2024. Essa trajetória descendente, com uma perda acumulada de 13,31 pontos percentuais, sugere que a empresa enfrentou forte pressão sobre sua lucratividade, possivelmente devido ao aumento dos custos operacionais, à intensificação da concorrência ou à redução do poder de precificação no mercado.
Em contraste, a Empresa Beta demonstrou uma recuperação notável em sua Margem Líquida. Partindo de uma margem negativa de -1,99% em 2022, a empresa reverteu o prejuízo e alcançou uma lucratividade expressiva de 8,06% em 2023, consolidando-se com 11,17% em 2024. Esse movimento representa um ganho acumulado de 13,16 pontos percentuais, indicando uma recomposição significativa da capacidade de geração de resultado, associada a melhorias na eficiência operacional e a um possível reequilíbrio de sua estrutura de custos. A capacidade de reverter um resultado negativo para um patamar tão positivo em um curto período é um diferencial marcante.
A análise da rentabilidade no contexto brasileiro recente, como apontado por Venturini et al. (2019), demonstra que a interação entre o ambiente macroeconômico e as decisões financeiras é complexa e não linear. A trajetória da Empresa Alfa pode indicar maior sensibilidade a condições adversas do mercado, enquanto o desempenho da Empresa Beta sugere um ajuste estrutural e recomposição do resultado em um cenário de transição econômica. Não se pode atribuir esses movimentos exclusivamente a uma fase específica do ciclo econômico, mas sim a uma combinação de fatores internos e externos.
Adicionalmente, Nakamura et al. (2010) investigaram o impacto da gestão de capital de giro na rentabilidade, encontrando uma relação negativa e significativa entre o ciclo de conversão de caixa e a rentabilidade. A melhora expressiva da Empresa Beta pode estar associada a ajustes eficazes na gestão do capital de giro, com impactos positivos sobre estoques, prazos de recebimento e obrigações operacionais, que se refletiram na recomposição do resultado. Por outro lado, a deterioração observada na Empresa Alfa pode sinalizar desalinhamentos na dinâmica operacional que repercutem negativamente sobre sua margem líquida, exigindo uma análise mais profunda da eficiência na utilização dos ativos.
Análise do Giro do Ativo
O Giro do Ativo (GA) é um indicador que avalia a eficiência com que a empresa utiliza seus ativos totais para gerar receita de vendas. Um GA mais elevado sugere maior produtividade dos investimentos realizados. Ambas as empresas analisadas apresentaram uma queda na eficiência de utilização de seus ativos ao longo do período, embora com patamares iniciais bastante distintos. A Empresa Beta demonstrou consistentemente uma capacidade superior de gerar receita a partir de sua base de ativos, registrando um GA de 1,35 em 2022, o que significa que para cada R$ 1,00 em ativos, a empresa gerava R$ 1,35 em receita.
Apesar da queda para 1,17 em 2024, o nível de eficiência da Empresa Beta permaneceu mais que o dobro do da Empresa Alfa. A Empresa Alfa, por sua vez, operou com um giro estruturalmente mais baixo, de 0,58 em 2022, o que é característico de indústrias de capital intensivo e verticalizadas. Contudo, a queda para 0,49 em 2024 sinaliza uma menor produtividade ou um aumento do ativo que não foi acompanhado por um crescimento proporcional das vendas, indicando um possível desequilíbrio entre investimentos e geração de receita.
A discussão sobre o Giro do Ativo e a aplicação do Modelo DuPont são reforçadas por Vieira et al. (2017), que analisaram empresas brasileiras de capital aberto, decompondo o Retorno sobre o Patrimônio Líquido em margem líquida, giro do ativo total e alavancagem. Os autores empregaram o giro como uma proxy direta de produtividade da base de ativos na geração de vendas. Nesse enquadramento, a diferença estrutural observada entre as Empresas Alfa e Beta no GA sugere estratégias distintas de utilização de ativos e intensidade de capital, as quais condicionam a decomposição da rentabilidade e a leitura comparativa intra-setorial no triênio analisado.
A redução do Giro do Ativo observada entre 2022 e 2024 deve ser interpretada com cautela analítica, pois o indicador resulta da interação entre variações na receita líquida e alterações na base de ativos. No período analisado, a desaceleração das vendas, combinada a oscilações no ativo total, especialmente na Empresa Alfa que apresentou recomposição patrimonial em 2024, contribuiu para a compressão do índice. Assim, a queda do GA não deve ser atribuída de forma direta a fatores conjunturais específicos, mas sim compreendida como um reflexo da dinâmica operacional e dos movimentos de investimento e financiamento registrados no triênio, que impactaram a eficiência na utilização dos recursos.
Decomposição do Retorno sobre o Ativo
O Retorno sobre o Ativo (ROA) é o produto da Margem Líquida pelo Giro do Ativo, representando a capacidade da empresa de gerar lucro a partir de seus ativos totais, combinando as dimensões de lucratividade e eficiência. Para a Empresa Alfa, a análise decomposta do ROA revelou uma queda drástica de 3,58% em 2022 para -3,46% em 2024. Essa deterioração foi majoritariamente impulsionada pela erosão da Margem Líquida. Embora o Giro do Ativo também tenha diminuído, a incapacidade de sustentar a lucratividade operacional foi o fator determinante para o resultado negativo. Em 2023, mesmo com um leve aumento no giro, a margem próxima de zero já havia neutralizado a rentabilidade dos ativos, e em 2024, a margem negativa, combinada a um giro menor, resultou em um ROA negativo, indicando que a empresa destruiu valor em suas operações.
Para a Empresa Beta, o cenário foi oposto. A recuperação do ROA, de -2,68% em 2022 para 13,08% em 2024, foi primariamente um efeito da Margem Líquida. A empresa conseguiu reverter o prejuízo e expandir sua lucratividade de forma consistente, o que mais do que compensou a leve queda na eficiência do giro do ativo. Isso demonstra que a estratégia da Empresa Beta foi focada na melhoria da rentabilidade operacional, tornando-a capaz de gerar um retorno sobre os ativos significativamente superior ao da concorrente, evidenciando uma gestão eficaz na conversão de vendas em lucro e na utilização de seus recursos.
Os achados observados podem ser discutidos à luz de Kolozsvari e Macedo (2016), que investigaram a influência da suavização de resultados sobre a persistência dos lucros no mercado brasileiro. A volatilidade observada no ROA das empresas Alfa e Beta pode refletir fatores operacionais e a natureza temporal do lucro apurado em cada exercício. A deterioração acentuada da Empresa Alfa sugere uma perda de sustentação do desempenho ao longo do período, enquanto a recuperação da Empresa Beta indica recomposição da capacidade de geração de resultado. A análise reforça que a qualidade e a persistência dos lucros são elementos centrais para interpretar a dinâmica da rentabilidade, especialmente quando se observam variações intertemporais expressivas.
Corroborando essa visão, Brito e Vasconcelos (2005), ao investigarem os efeitos da concorrência no desempenho de empresas brasileiras, encontraram evidências de que o aumento da competição pressiona negativamente as margens de lucro. A deterioração da margem da Empresa Alfa pode ser um sintoma de um ambiente competitivo mais acirrado no segmento em que atua, enquanto a Empresa Beta pode ter se beneficiado de um posicionamento de mercado mais resiliente ou de nichos menos expostos à concorrência internacional, permitindo a recuperação de sua margem e, consequentemente, de seu ROA. A divergência observada na decomposição do ROA entre as Empresas Alfa e Beta pode ser interpretada com base nas especificidades estruturais do setor têxtil, caracterizado por elevada intensidade de capital, forte dependência de insumos e exposição a ciclos de demanda e preços.
A deterioração da margem na Empresa Alfa, combinada a um giro estruturalmente mais baixo, sugere maior sensibilidade a pressões de custo ou a ajustes estratégicos ainda não convertidos em eficiência operacional. Por sua vez, o avanço consistente da margem na Empresa Beta, mesmo diante de leve redução no giro, indica capacidade de recomposição do resultado por meio de revisão do mix de produtos, racionalização de custos ou melhor captura de valor na cadeia produtiva. Assim, a diferença no desempenho não pode ser atribuída a um único fator isolado, mas à combinação entre estrutura de ativos, posicionamento competitivo e capacidade de adaptação operacional no período analisado, evidenciando a complexidade da gestão financeira no setor.
Análise do Multiplicador de Alavancagem Financeira
O Multiplicador de Alavancagem Financeira (MAF) mede o grau em que a empresa utiliza capital de terceiros para financiar seus ativos. Um MAF maior indica maior endividamento e, consequentemente, maior risco financeiro. As empresas seguiram estratégias opostas de estrutura de capital. A Empresa Alfa aumentou sua alavancagem financeira em 7,1% no período analisado, passando de um MAF de 2,38 em 2022 para 2,55 em 2024. Isso significa que, em 2024, para cada R$ 1,00 de capital próprio, a empresa utilizava R$ 1,55 de capital de terceiros, o que, especialmente em um cenário de queda na rentabilidade operacional (ROA), potencializa o risco financeiro e a exposição a perdas.
Em contraste, a Empresa Beta promoveu um forte processo de desalavancagem, reduzindo seu MAF em 53,2%, de 5,83 em 2022 para 2,73 em 2024. A empresa utilizou sua forte geração de lucro para fortalecer sua estrutura de capital, diminuindo a dependência de recursos de terceiros e, consequentemente, seu risco financeiro. Essa estratégia de desalavancagem é um indicativo de prudência financeira e de busca por maior solidez patrimonial, especialmente após um período de prejuízo inicial, demonstrando uma gestão ativa para mitigar riscos.
Esses resultados encontram respaldo em Bastos e Nakamura (2009), que identificaram uma relação negativa e estatisticamente significativa entre rentabilidade operacional (ROA) e níveis de endividamento em empresas brasileiras. Tal evidência sustenta a teoria do “Pecking Order”, segundo a qual empresas mais lucrativas tendem a financiar seus investimentos prioritariamente com recursos internos, reduzindo a necessidade de capital de terceiros. A trajetória da Empresa Beta mostra-se consistente com esse padrão: a elevação do desempenho operacional foi acompanhada por redução da alavancagem financeira, sugerindo fortalecimento da estrutura patrimonial por meio da retenção de lucros.
Em contraste, o aumento do MAF na Empresa Alfa ocorreu em um contexto de deterioração do ROA, configurando uma situação de maior exposição ao risco financeiro, especialmente quando a geração operacional não acompanha a expansão do endividamento. Tem-se o alerta de que a alavancagem financeira pode se tornar desfavorável quando o custo da dívida supera o retorno gerado pelos ativos, reduzindo a rentabilidade e aumentando o risco financeiro da empresa. A revisão sistemática recente de Abubakar e Anyonje (2025) evidencia que, embora níveis moderados de endividamento possam melhorar o desempenho, alavancagens excessivas tendem a correlacionar-se negativamente com a performance, pois os custos financeiros consomem parte substancial dos retornos operacionais.
Pode-se, portanto, afirmar que a situação da Empresa Alfa em 2024, caracterizada por um ROA negativo de -3,46% associado a um MAF crescente para 2,55, representa um cenário no qual o custo da dívida provavelmente superou o retorno efetivo dos ativos. Nesse contexto, a dívida amplificou as perdas operacionais, reduzindo de forma mais intensa o retorno aos acionistas do que a simples deterioração do ROA sugeriria quando observada isoladamente. Essa combinação de baixa rentabilidade operacional e aumento da alavancagem cria um ciclo vicioso de destruição de valor para os acionistas, ressaltando a importância de uma gestão equilibrada entre risco e retorno.
Decomposição do Retorno sobre o Patrimônio Líquido
O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) constitui a principal métrica de rentabilidade sob a perspectiva do acionista, expressando o resultado gerado em relação ao capital próprio investido. A decomposição pelo Modelo DuPont permite identificar se a variação do ROE decorre predominantemente da rentabilidade operacional dos ativos (ROA) ou do grau de alavancagem financeira (MAF), evidenciando a contribuição relativa de cada componente para o retorno final. A análise do ROE evidencia com clareza as diferentes trajetórias das empresas.
A Empresa Alfa viu seu ROE despencar de 8,53% em 2022 para -8,80% em 2024, uma queda de 17,33 pontos percentuais. A causa primária dessa deterioração foi a queda da performance operacional, refletida na deterioração do ROA. A empresa não conseguiu gerar retorno de seus ativos e, ao aumentar a alavancagem em 2024, apenas amplificou o retorno negativo para os acionistas, resultando em uma destruição de valor significativa. Essa combinação de fatores operacionais e financeiros negativos criou um cenário desafiador para os investidores da Empresa Alfa, indicando uma gestão ineficaz em ambos os pilares da rentabilidade.
Em contraste, a Empresa Beta protagonizou uma virada expressiva. Seu ROE saltou de -15,65% em 2022 para 35,77% em 2024, um avanço notável de 51,42 pontos percentuais. O motor dessa mudança foi o aumento do ROA, impulsionado pela recuperação da margem líquida. A empresa gerou lucro, utilizou-o para reduzir sua dívida, diminuindo o MAF, e mesmo com menor alavancagem, entregou um retorno sobre o capital próprio excepcional. Em 2023, o ROE de 40,48% foi o pico, beneficiando-se ainda de uma alavancagem relativamente alta (3,99) combinada com um ROA já forte (10,15%).
Em 2024, a Empresa Beta optou por uma estrutura de capital mais conservadora, o que reduziu o ROE para 35,77%, mas tornou o retorno mais sustentável e menos arriscado. Esses resultados podem ser discutidos à luz de Ibhagui e Olokoyo (2018), que analisaram empiricamente a relação entre alavancagem e desempenho e demonstraram que seus efeitos não são uniformes, variando conforme características da firma, em especial o porte. A combinação observada na Empresa Alfa em 2024 é consistente com um cenário em que o uso de dívida deixa de atuar como mecanismo de potencialização do retorno e passa a intensificar a pressão sobre o resultado do acionista, ampliando a sensibilidade do ROE a variações desfavoráveis do desempenho operacional.
Análise Comparativa e Interpretação dos Resultados
A análise integrada dos indicadores do Modelo DuPont para ambas as empresas revela trajetórias diametralmente opostas no período de 2022 a 2024. A Empresa Alfa apresentou uma deterioração progressiva em todos os indicadores operacionais, tanto na margem líquida quanto no giro do ativo, culminando em um Retorno sobre os Ativos (ROA) negativo em 2024. A decisão de aumentar a alavancagem financeira nesse contexto de baixa rentabilidade operacional amplificou as perdas, resultando em um Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) de -8,80%. Essa estratégia de tomar mais dívida em um cenário de baixa geração de valor operacional mostrou-se prejudicial ao retorno dos acionistas, evidenciando uma gestão de risco ineficaz.
Em contrapartida, a Empresa Beta executou uma recuperação notável, baseada principalmente na eficiência operacional. A melhoria da margem líquida, que passou de -1,99% em 2022 para 11,17% em 2024, foi o principal vetor de transformação. Simultaneamente, a empresa utilizou os lucros gerados para reduzir sua alavancagem financeira, que diminuiu de 5,83 para 2,73, fortalecendo sua estrutura de capital. Mesmo com a desalavancagem, o ROE atingiu 35,77% em 2024, demonstrando que a qualidade do retorno operacional foi suficiente para gerar alto valor ao acionista sem a necessidade de endividamento excessivo, indicando uma gestão financeira prudente e eficaz.
À luz desses achados, as trajetórias das Empresas Alfa e Beta podem ser interpretadas como respostas distintas a um ambiente econômico ainda marcado por ajustes pós-pandemia, conforme Avelar et al. (2022) observaram sobre a heterogeneidade dos impactos da COVID-19. A deterioração simultânea da margem e do giro na Empresa Alfa, acompanhada de aumento da alavancagem, sugere menor capacidade de absorção de choques e maior exposição a pressões financeiras em um cenário de rentabilidade comprimida. Essa vulnerabilidade destaca a importância da resiliência operacional em períodos de incerteza.
Em contraste, a Empresa Beta apresentou recomposição consistente da margem e redução do endividamento, indicando que a recuperação do desempenho operacional foi acompanhada por um fortalecimento estrutural. Assim, os resultados reforçam a evidência de que, em contextos de instabilidade macroeconômica, a qualidade do resultado operacional e a gestão prudente da estrutura de capital tendem a ser determinantes para a sustentabilidade do retorno ao acionista. A divergência de desempenho entre as empresas analisadas encontra eco na literatura recente sobre o setor industrial brasileiro, como Silva e Santana (2022) evidenciaram sobre a sensibilidade do ROA à capacidade de inovação e gestão eficiente de recursos, fatores que parecem explicar a resiliência da Empresa Beta.
Adicionalmente, a relação negativa entre o aumento da alavancagem e a queda da rentabilidade observada na Empresa Alfa corrobora os achados de Costa et al. (2022), que destacam como o endividamento excessivo em períodos de compressão de margens corrói o retorno aos acionistas. Do ponto de vista prático, os resultados desta pesquisa oferecem subsídios valiosos para a gestão de empresas têxteis. A trajetória da Empresa Beta demonstra que, em um setor de capital intensivo, a priorização da eficiência operacional, especialmente a margem líquida, como motor de geração de caixa, permite o fortalecimento da estrutura de capital por meio da desalavancagem, criando um modelo de negócio mais robusto e menos arriscado.
Para gestores e analistas, o estudo reforça que estratégias de crescimento baseadas em endividamento, como tentado pela Empresa Alfa, em momentos de baixa produtividade dos ativos tendem a destruir valor. Isso sugere que a reestruturação de custos e a otimização do giro devem preceder novas captações de recursos de terceiros. Em síntese, a aplicação do Modelo DuPont evidenciou que a eficiência operacional, refletida na margem líquida, foi o principal determinante das divergências de rentabilidade entre as empresas, enquanto a alavancagem financeira atuou como um amplificador dos resultados, tanto positivos quanto negativos, confirmando a pertinência do modelo para a identificação dos vetores estruturais da geração de valor no setor têxtil.
4. Conclusão
O presente estudo analisou a rentabilidade de duas empresas têxteis brasileiras no período de 2022 a 2024, por meio da decomposição do Retorno sobre os Ativos (ROA) e do Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) utilizando o Modelo DuPont. Verificou-se que as diferenças de rentabilidade entre as companhias foram determinadas, primariamente, pela eficiência operacional, refletida na margem líquida, e secundariamente, pelas decisões de estrutura de capital. A Empresa Alfa apresentou uma deterioração progressiva do ROE, impulsionada pela erosão da margem líquida e amplificada pelo aumento da alavancagem financeira, resultando em destruição de valor. Em contraste, a Empresa Beta reverteu sua posição inicial de ROE negativo para um patamar significativamente positivo, devido à recomposição da eficiência operacional e à redução da alavancagem. A decomposição DuPont evidenciou que a eficiência operacional foi o principal determinante das divergências, enquanto a alavancagem financeira atuou como amplificador dos resultados, tanto positivos quanto negativos. Estes achados oferecem subsídios valiosos para a gestão de empresas têxteis, demonstrando que a priorização da eficiência operacional, especialmente a margem líquida, como motor de geração de caixa, permite o fortalecimento da estrutura de capital por meio da desalavancagem, criando um modelo de negócio mais robusto e menos arriscado.
A análise integrada dos resultados reforça que, em um setor intensivo em capital e exposto a volatilidade macroeconômica, a sustentabilidade do retorno está mais associada à qualidade do resultado operacional do que à expansão da alavancagem. Para gestores e analistas, o estudo sugere que estratégias de crescimento baseadas em endividamento, em momentos de baixa produtividade dos ativos, tendem a destruir valor, indicando que a reestruturação de custos e a otimização do giro devem preceder novas captações de recursos de terceiros. Como limitação, o estudo concentrou-se em duas empresas e em um recorte temporal específico, o que pode restringir a generalização dos achados. Recomenda-se, para estudos futuros, a ampliação do recorte temporal para incluir períodos pré e pós-pandemia mais extensos, permitindo avaliar a persistência dos componentes do Modelo DuPont em diferentes fases do ciclo econômico. Sugere-se, ademais, a incorporação de um número maior de empresas do setor têxtil, viabilizando análises econométricas com dados em painel que permitam testar a influência da estrutura de capital, do porte, da intensidade de ativos e das condições macroeconômicas sobre o ROA e o ROE.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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