Artigo

05 de agosto de 2026

Proposta de procedimento para gestão de equipamentos em uma construtora

Julia Garcia Paes; Lorena Hernández Mastrapa

DOI: 10.22167/2675-6528-202601012

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A gestão de recursos na construção civil revelou-se um fator estratégico, impulsionada pela necessidade de controle de custos, prazos e eficiência operacional. Identificaram-se fragilidades na gestão de equipamentos de uma construtora, como ausência de rastreabilidade, desorganização física e inconsistência de informações. O estudo objetivou elaborar um procedimento para aprimorar a gestão de equipamentos da ferramentaria centralizada da empresa, aplicando princípios e métodos da gestão de projetos e de recursos. Adotou-se uma abordagem aplicada, descritiva e propositiva, por meio de um estudo de caso que envolveu análise documental, observação direta e diagnóstico das práticas existentes. Propôs-se a implementação de um sistema integrado de gestão, baseado em lacres de identificação individual, etiquetas Kanban e uma planilha eletrônica para registro e acompanhamento. Os resultados demonstraram a estruturação de um sistema que promoveu maior organização do almoxarifado, padronização dos processos e melhoria na rastreabilidade dos equipamentos, facilitando a visualização de informações e o apoio à tomada de decisão. A proposta foi desenvolvida com base em recursos já disponíveis, priorizando soluções de baixo custo e fácil aplicação. Concluiu-se que o modelo proposto apresentou potencial para aprimorar a gestão de equipamentos, contribuindo para a eficiência operacional e a utilização dos recursos na empresa e em contextos similares.

Palavras-chave: Almoxarifado; Construção civil; Kanban; Rastreabilidade.

1. Introdução

A construção civil, um dos setores mais dinâmicos e estratégicos da economia global, caracteriza-se por sua intrínseca complexidade e pelos múltiplos desafios inerentes aos seus projetos. Estes desafios abrangem desde prazos acirrados e orçamentos limitados até a exigência de alta qualidade na entrega e a volatilidade do mercado imobiliário (Carvalho e Rabechini Jr., 2011). Nesse cenário, a gestão de projetos emerge como um pilar fundamental para o sucesso das empreitadas. O Project Management Institute (2021) define o gerenciamento de projetos como a aplicação de conhecimentos, habilidades, ferramentas e técnicas às atividades do projeto para atender aos seus requisitos. A implementação eficaz dessas práticas na construção civil é crucial, pois permite maior previsibilidade, assertividade nos cronogramas e orçamentos, e uma redução significativa de falhas, contribuindo diretamente para a entrega de valor. A ausência de práticas estruturadas de gerenciamento, por outro lado, frequentemente resulta em atrasos, desperdícios e baixa qualidade nas obras, evidenciando a necessidade de abordagens sistemáticas para garantir resultados consistentes e sustentáveis (Carvalho e Rabechini Jr., 2011).

Dentro do escopo da gestão de projetos, o gerenciamento de recursos assume importância estratégica, especialmente na construção civil. Esta área, conforme delineado pelo Project Management Institute (2021), visa assegurar que os recursos necessários para a execução das atividades estejam disponíveis no momento certo, na quantidade e qualidade adequadas para otimizar o desempenho do projeto. A gestão de recursos materiais, em particular, é indispensável para a melhoria da eficiência operacional, abrangendo o controle de equipamentos, insumos e materiais, e promovendo a diminuição de desperdícios e custos desnecessários, o que eleva a produtividade em campo (Almeida et al., 2022). Souza (2015) reforça que o gerenciamento de recursos deve ser encarado como um processo estratégico, não meramente operacional, pois o controle contínuo dos recursos facilita a integração entre a capacidade produtiva e as necessidades do projeto, mitigando riscos e aumentando a previsibilidade dos resultados. A má gestão desses recursos pode acarretar perdas financeiras substanciais, atrasos no cronograma e comprometimento da qualidade final do empreendimento. Para otimizar o controle e a organização, métodos como o Kanban, oriundo do Sistema Toyota de Produção, têm se mostrado eficazes. O Kanban é uma ferramenta de gestão visual que auxilia no controle de estoques, na organização do fluxo de materiais e na redução de desperdícios, promovendo maior visibilidade e fluidez nos processos (Ohno, 1997; Slack et al., 2018).

No contexto de uma construtora de grande porte, com atuação regional consolidada e múltiplas obras em andamento, a gestão de equipamentos em sua ferramentaria centralizada revelou-se um ponto crítico. Essa ferramentaria, que funciona como almoxarifado de ferramentas imobilizadas, é responsável por suprir as demandas de diversas obras, que emprestam os equipamentos temporariamente conforme a necessidade. Contudo, o setor de engenharia dessa regional identificou fragilidades significativas nos processos de gestão desses recursos. Observa-se, com frequência, extravios, danos e incerteza quanto às condições de uso dos equipamentos e à necessidade de manutenções preventivas ou corretivas. A ausência de rastreabilidade efetiva e a inconsistência das informações sobre a localização e o estado dos itens comprometem severamente o planejamento e a execução das atividades, pois esses equipamentos são compartilhados por todas as obras da regional. Como consequência direta, verificam-se atrasos na execução de tarefas dependentes desses recursos, além de desperdícios e gastos desnecessários, resultando em insatisfação dos setores solicitantes e impactos negativos na eficiência operacional global. Adicionalmente, a falta de capacitação da equipe responsável pela gestão dos recursos na ferramentaria centralizada emerge como desafio para a implementação de melhorias.

Diante do exposto e da complexidade dos projetos de construção civil, a otimização da gestão de equipamentos é imperativa para a eficiência operacional e sustentabilidade das empresas. A necessidade de mitigar perdas, reduzir custos e assegurar a disponibilidade de recursos justifica a busca por soluções eficazes. Assim, este estudo visa elaborar um procedimento para aprimorar a gestão de equipamentos da ferramentaria centralizada da construtora em questão, aplicando princípios e métodos da gestão de projetos e de gerenciamento de recursos, a fim de promover uma utilização mais eficiente e controlada dos equipamentos.

2. Material e Métodos

O presente estudo foi classificado como uma pesquisa aplicada, de natureza descritiva e propositiva, buscando compreender e descrever os métodos de gestão de recursos utilizados na empresa estudada, sem interferir diretamente na realidade analisada. Adotou-se a abordagem de estudo de caso, que permitiu uma análise aprofundada de uma única unidade organizacional. Quanto aos métodos técnicos, o trabalho caracterizou-se como documental, utilizando registros internos da organização, e por observação direta do ambiente estudado, conforme preconizado por Zanella (2013) e Gil (2017) para investigações detalhadas.

O contexto da pesquisa foi uma construtora de grande porte, com atuação consolidada no mercado da construção civil na região sul do Brasil, especificamente na cidade de Londrina, no Paraná. A empresa opera com múltiplos projetos simultâneos, contando com aproximadamente dez obras em andamento na localidade. A unidade de análise central do estudo foi a ferramentaria centralizada da construtora, que funciona como um almoxarifado de ferramentas imobilizadas, responsável por suprir as demandas de equipamentos para as diversas obras da regional. O período de observação e levantamento de dados concentrou-se na situação operacional atual da ferramentaria.

Considerando a natureza do estudo de caso, não houve uma população ou amostra no sentido estatístico tradicional, uma vez que a investigação se concentrou em uma única unidade organizacional específica. A seleção dessa ferramentaria centralizada foi motivada pela identificação de fragilidades significativas nos processos de gestão de equipamentos, como extravios, danos e incerteza sobre as condições de uso, conforme apontado pelo setor de engenharia da construtora. Essa abordagem permitiu um detalhamento aprofundado do fenômeno, essencial para a elaboração de uma proposta de melhoria contextualizada.

A coleta de dados foi realizada por meio de uma combinação de técnicas, incluindo a análise de documentos internos da construtora, como registros administrativos e planilhas de controle existentes. Complementarmente, empregou-se a observação direta do ambiente da ferramentaria, permitindo um diagnóstico preciso das práticas atuais de gestão de equipamentos e ferramentas. Essa fase inicial de levantamento buscou identificar as falhas, limitações e oportunidades de aprimoramento nos processos internos, fornecendo a base empírica para o desenvolvimento da proposta metodológica.

A estrutura do estudo foi delineada em etapas sequenciais, alinhadas aos procedimentos de gestão de recursos conforme o Project Management Institute (2021). As fases de planejamento, execução, monitoramento e controle foram aplicadas para guiar o desenvolvimento da pesquisa. O objetivo principal dessas etapas foi auxiliar na elaboração de uma proposta de melhoria para a gestão de equipamentos, garantindo que o procedimento fosse sistemático e abrangente, desde a compreensão do cenário atual até a formulação de soluções aplicáveis e viáveis para a construtora.

Na fase de planejamento, realizou-se um levantamento detalhado da situação atual do almoxarifado de ferramentas, por meio de observações e análise dos processos já estabelecidos. Esta etapa visou identificar falhas, limitações e oportunidades de melhoria nos procedimentos internos de gestão de equipamentos. Em seguida, na fase de execução, procedeu-se à análise do diagnóstico obtido e à criação da proposta de procedimento. Foram desenvolvidas diretrizes específicas para o aprimoramento da gestão dos equipamentos, com foco na integração entre a organização física do espaço e o controle de registros.

A etapa final de monitoramento e controle envolveu a definição dos elementos necessários para a aplicação da proposta, com ênfase na padronização dos processos e no acompanhamento contínuo das informações. A solução desenvolvida considerou a realidade da empresa e a utilização de recursos já disponíveis, visando garantir a viabilidade e aplicabilidade. O procedimento foi concebido com base nos princípios do método Kanban, uma ferramenta de gestão visual reconhecida por sua eficácia no controle de estoques, organização do fluxo de materiais e redução de desperdícios (Ohno, 1997; Slack et al., 2018).

Para a implementação do procedimento, adotou-se um sistema de controle visual integrado. A etapa inicial consistiu na definição de um sistema de identificação dos equipamentos por meio de lacres numerados. Esses lacres foram aplicados individualmente e de forma permanente em todos os itens do almoxarifado, desde o seu recebimento. Essa medida teve como finalidade principal garantir a rastreabilidade contínua dos equipamentos, permitindo o acompanhamento de sua movimentação e localização ao longo de todo o ciclo de vida dentro da empresa, otimizando o controle.

Em paralelo à identificação individual, realizou-se a organização física do almoxarifado, dispondo os equipamentos em prateleiras de maneira padronizada para otimizar o espaço e a visualização dos itens. Associado a essa organização, desenvolveu-se um modelo de etiqueta de identificação de prateleira. Essa etiqueta sinaliza visualmente o local de armazenamento e o tipo de ferramenta alocada, contribuindo para a padronização e disposição do almoxarifado. Adicionalmente, cada etiqueta contém um QR Code que direciona o usuário a uma planilha digital de gestão dos equipamentos.

Um segundo modelo de instrumento de controle foi desenvolvido para gerenciar a retirada de equipamentos. Este instrumento, posicionado próximo às prateleiras em um local de fácil visualização, fornece informações básicas para consulta rápida. Inclui dados como a identificação do item, seu status de disponibilidade, a obra de destino e a data de devolução programada. Esse recurso foi projetado para otimizar o tempo de busca e facilitar a rotina operacional no almoxarifado, promovendo maior agilidade e precisão nas operações de empréstimo e devolução de ferramentas.

Simultaneamente ao desenvolvimento do sistema de identificação física, elaborou-se uma planilha eletrônica no software Microsoft Excel. Esta planilha foi destinada ao registro, organização e acompanhamento de todos os equipamentos da construtora. A estrutura da planilha foi dividida em duas abas principais para cada item. A primeira aba, denominada “Histórico de Utilização”, registra informações cruciais como o número do lacre, o modelo do equipamento, a obra de destino, o período de utilização, o status de devolução e o registro de manutenções realizadas, oferecendo um panorama completo do uso.

A segunda aba da planilha eletrônica foi concebida para o planejamento da utilização dos equipamentos, conhecida como “Forecast”. Essa funcionalidade permite ao responsável pela gestão do almoxarifado programar o uso dos itens de forma visual e organizada, antecipando as necessidades futuras. O recurso contribui significativamente para a prevenção de conflitos de uso entre as obras, a redução de atrasos na disponibilidade dos equipamentos e a melhoria geral da eficiência operacional, assegurando que os recursos estejam disponíveis quando e onde forem necessários.

Os dados coletados por meio da análise documental e da observação direta foram tratados de forma qualitativa, visando a um diagnóstico aprofundado das práticas existentes na ferramentaria. A análise concentrou-se na identificação de falhas no controle dos equipamentos, como a ausência de rastreabilidade, a desorganização física e a inconsistência das informações. Com base nesse diagnóstico, procedeu-se à elaboração da proposta de procedimento, que integra os princípios de gestão de projetos e gerenciamento de recursos para otimizar a utilização dos equipamentos.

O estudo reconheceu algumas limitações metodológicas inerentes ao contexto da pesquisa. Destacam-se o baixo nível de organização inicial do almoxarifado e a potencial dificuldade na manutenção e conservação dos processos estabelecidos pela equipe responsável pelo local. Esses fatores podem comprometer a efetividade do sistema proposto após sua aplicação, exigindo um esforço contínuo para a capacitação e engajamento da equipe. A pesquisa não incluiu a mensuração de indicadores de desempenho pós-implementação, o que seria um passo para trabalhos futuros.

3. Resultados e Discussão

A análise dos resultados obtidos no presente estudo revelou um cenário inicial de significativas fragilidades na gestão de equipamentos da ferramentaria centralizada da construtora, culminando na elaboração e proposição de um procedimento metodológico que visa aprimorar essa gestão. O diagnóstico inicial, conforme documentado por observações diretas e análise de registros, evidenciou uma desorganização acentuada e a ausência de um sistema formal e integrado de controle de recursos. Esta condição é ilustrada de forma contundente nas Figuras 1, 2 e 3, que retratam a disposição caótica dos equipamentos, a falta de identificação visual e a inexistência de critérios padronizados de armazenamento.

Figura 1. Vista geral do almoxarifado de ferramentas, evidenciando a disposição desorganizada dos equipamentos e ausência de padronização

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A desorganização observada no almoxarifado, com ferramentas dispostas aleatoriamente em prateleiras, armários e até mesmo no chão, conforme as Figuras 1, 2 e 3, não é apenas um problema estético, mas uma barreira substancial à eficiência operacional e à segurança. A ausência de identificação visual clara e de registros formais de retirada, devolução e condição de uso criava um ambiente propício a extravios, danos e incertezas sobre a disponibilidade e o estado de conservação dos itens. Essa situação corrobora as preocupações levantadas por Almeida et al. (2022), que destacam como a má gestão de recursos materiais na construção civil pode levar a desperdícios e custos desnecessários, impactando diretamente a produtividade em campo. A dificuldade em localizar um equipamento específico ou em determinar sua condição de uso resultava em atrasos nas obras, retrabalho e, consequentemente, em um aumento dos custos operacionais.

A falta de rastreabilidade e a inconsistência das informações, decorrentes da dependência exclusiva de uma planilha eletrônica digitalizada não integrada à rotina operacional, comprometiam a confiabilidade dos dados e a capacidade de tomada de decisão. Carvalho e Rabechini Jr. (2011) enfatizam que a ausência de práticas estruturadas de gerenciamento de projetos, incluindo a gestão de recursos, resulta em atrasos, desperdícios e baixa qualidade nas obras. No contexto da construtora estudada, essa lacuna no controle de equipamentos gerava uma cascata de problemas, desde a insatisfação dos setores solicitantes até impactos negativos na eficiência operacional global da empresa. A incapacidade de prever a disponibilidade de um equipamento ou de planejar sua manutenção preventiva tornava a gestão reativa e ineficaz, um cenário que Souza (2015) adverte ser o oposto de uma gestão de recursos estratégica. A desorganização física e a ausência de controle visual, como evidenciado nas imagens, dificultavam não apenas a localização, mas também a inspeção e a identificação de necessidades de manutenção, elevando o risco de falhas em campo e a necessidade de substituição prematura de equipamentos.

Diante desse diagnóstico, a proposta metodológica desenvolvida baseou-se nos princípios do método Kanban, uma ferramenta de gestão visual reconhecida por sua eficácia no controle de estoques, organização do fluxo de materiais e redução de desperdícios (Ohno, 1997; Slack et al., 2018). A escolha do Kanban justifica-se pela sua simplicidade, adaptabilidade e foco na visualização do fluxo de trabalho, o que se alinha perfeitamente à necessidade de transformar um ambiente desorganizado em um sistema transparente e eficiente. A implementação de um sistema de controle visual integrado, combinando elementos físicos e digitais, foi concebida para promover maior organização, padronização dos processos e, crucialmente, a rastreabilidade dos equipamentos. Este alinhamento com a literatura demonstra a busca por soluções robustas e comprovadas, que possam endereçar as complexidades da gestão de recursos na construção civil.

A etapa inicial da proposta consistiu na definição de um sistema de identificação dos equipamentos por meio de lacres numerados, aplicados individualmente e de forma permanente em todos os itens do almoxarifado desde o seu recebimento. A Figura 2 apresenta um exemplo desse lacre numerado.

Figura 2. Exemplo de lacre numerado aplicado em equipamentos para identificação dos itens

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A introdução dos lacres numerados, conforme ilustrado na Figura 2, representa um pilar fundamental da proposta, estabelecendo um sistema de identificação única e permanente para cada equipamento. Esta medida é crucial para garantir a rastreabilidade contínua dos itens ao longo de todo o seu ciclo de vida dentro da empresa, desde o recebimento até a devolução e manutenção. A rastreabilidade é um componente essencial da gestão de ativos, permitindo não apenas saber onde um equipamento está, mas também seu histórico de uso, manutenções e condição atual. Isso se alcontra em consonância com as diretrizes do Project Management Institute (2021), que enfatizam a importância do gerenciamento de recursos para garantir que os ativos estejam disponíveis no momento certo e em condições adequadas. A capacidade de rastrear cada item individualmente mitiga significativamente o problema de extravios e a incerteza sobre a localização, um dos principais desafios identificados no diagnóstico inicial.

Além disso, a identificação individualizada por lacres facilita auditorias de inventário, reduzindo o tempo e o esforço necessários para verificar o estoque físico. Em um ambiente de construção civil com múltiplos projetos simultâneos, como o da construtora em estudo, a agilidade na identificação e localização de equipamentos é um diferencial competitivo. A ausência de um sistema como este, como observado inicialmente, gerava perdas de tempo significativas e, em muitos casos, a necessidade de alugar ou comprar equipamentos adicionais devido à incapacidade de localizar os próprios ativos da empresa. A padronização da identificação também simplifica o treinamento de novos colaboradores e reduz a dependência do conhecimento individual sobre a localização dos itens, promovendo uma cultura de organização e responsabilidade. A durabilidade e a permanência dos lacres são aspectos críticos para a sustentabilidade do sistema, exigindo a escolha de materiais resistentes às condições do ambiente de obra e almoxarifado.

Em paralelo à identificação individual, realizou-se a organização física do almoxarifado, dispondo os equipamentos em prateleiras de maneira padronizada para otimizar o espaço e a visualização dos itens. Esta organização física é um reflexo direto dos princípios do 5S (Seiri, Seiton, Seiso, Seiketsu, Shitsuke), que buscam criar um ambiente de trabalho limpo, organizado e eficiente. A padronização da disposição não apenas melhora a estética do local, mas, mais importante, reduz o tempo de busca por equipamentos, minimiza o risco de acidentes e facilita a identificação de itens faltantes ou mal alocados. A clareza na organização física é um pré-requisito para a eficácia de qualquer sistema de controle visual, pois permite que a equipe identifique rapidamente o que está disponível e onde está localizado.

Associado a essa organização, desenvolveu-se um sistema de identificação estruturado em dois modelos distintos e complementares. O primeiro modelo corresponde à etiqueta de identificação da prateleira, que sinaliza visualmente o local de armazenamento e o tipo de ferramenta alocada. Essa etiqueta contém um QR Code que direciona o usuário a uma planilha digital de gestão dos equipamentos, integrando o controle físico ao digital. O segundo modelo refere-se a um instrumento de controle de retirada, posicionado próximo às prateleiras, fornecendo informações básicas para consulta rápida, como identificação do item, status de disponibilidade, obra de destino e data de devolução programada. As Figuras 5 e 6, embora não incluídas na seleção final de figuras para este texto devido ao limite imposto, ilustram esses modelos, utilizando como exemplo a ferramenta bomba de recalque. Esses instrumentos visam otimizar o tempo de busca e facilitar a rotina operacional no almoxarifado, promovendo maior agilidade e precisão nas operações de empréstimo e devolução de ferramentas. A integração do QR Code é um avanço significativo, pois permite o acesso instantâneo a informações detalhadas sobre o equipamento, superando as limitações das etiquetas físicas que podem conter apenas dados básicos. Essa conectividade digital é um exemplo de como a tecnologia pode potencializar a gestão visual, conforme apontado por Tortorella et al. (2020) e o Project Management Institute (2021), que destacam a importância da integração entre gestão visual e ferramentas digitais para o monitoramento e a confiabilidade das informações.

Simultaneamente ao desenvolvimento do sistema de identificação física, elaborou-se uma planilha eletrônica no software Microsoft Excel, destinada ao registro, organização e acompanhamento de todos os equipamentos da construtora. A planilha foi estruturada em duas abas principais para cada item, representando uma evolução significativa em relação à planilha digitalizada anterior, que não estava integrada à rotina operacional. A primeira aba, denominada “Histórico de Utilização”, registra informações cruciais como o número do lacre, o modelo do equipamento, a obra de destino, o período de utilização, o status de devolução e o registro de manutenções realizadas. A Figura 7, embora não incluída na seleção final de figuras para este texto devido ao limite imposto, apresenta o layout dessa aba com um exemplo de preenchimento. Esta aba oferece um panorama completo do uso de cada equipamento, permitindo uma análise aprofundada de seu ciclo de vida.

O “Histórico de Utilização” é uma ferramenta poderosa para a gestão proativa de equipamentos. Ao registrar o período de utilização e o status de devolução, a empresa pode identificar padrões de uso, otimizar a alocação de recursos e planejar manutenções preventivas com base no tempo de operação ou na frequência de uso. Isso se alinha com as práticas de manutenção preditiva e preventiva, que visam maximizar a vida útil dos equipamentos e reduzir falhas inesperadas, minimizando interrupções nas obras e custos de reparo emergenciais. A capacidade de registrar manutenções realizadas, por exemplo, permite à construtora avaliar a eficácia dos serviços de manutenção, identificar equipamentos que exigem atenção frequente e tomar decisões informadas sobre a substituição de ativos. Essa abordagem estratégica da gestão de recursos é fundamental para o aprimoramento da eficiência operacional, conforme defendido por Souza (2015), que argumenta que o gerenciamento de recursos deve ser tratado como um processo estratégico, e não apenas operacional.

A segunda aba da planilha eletrônica foi concebida para o planejamento da utilização dos equipamentos, conhecida como “Forecast”. Essa funcionalidade permite ao responsável pela gestão do almoxarifado programar o uso dos itens de forma visual e organizada, antecipando as necessidades futuras. A Figura 8, embora não incluída na seleção final de figuras para este texto devido ao limite imposto, apresenta o modelo dessa aba com um exemplo de preenchimento. O recurso “Forecast” contribui significativamente para a prevenção de conflitos de uso entre as obras, a redução de atrasos na disponibilidade dos equipamentos e a melhoria geral da eficiência operacional, assegurando que os recursos estejam disponíveis quando e onde forem necessários. Esta funcionalidade é um exemplo claro da aplicação dos princípios de planejamento e controle de projetos, conforme o Project Management Institute (2021), que destaca a importância de gerenciar os recursos do projeto para garantir que estejam disponíveis no momento certo, em quantidade e qualidade adequadas.

O planejamento antecipado do uso dos equipamentos, possibilitado pela aba “Forecast”, transforma a gestão de reativa para proativa. Em um ambiente de múltiplas obras simultâneas, a coordenação da utilização de equipamentos compartilhados é um desafio constante. Sem um sistema de previsão, as obras frequentemente competem pelos mesmos recursos, resultando em atrasos, ociosidade de equipes e, em última instância, em custos adicionais. O “Forecast” permite que o gestor do almoxarifado visualize a demanda futura, identifique potenciais gargalos e tome medidas corretivas, como a realocação de equipamentos, o agendamento de manutenções em períodos de baixa demanda ou a aquisição/aluguel de itens adicionais com antecedência. Essa capacidade de antecipação não apenas otimiza a utilização dos ativos existentes, mas também melhora a previsibilidade dos projetos, um fator crítico para o sucesso na construção civil, como apontado por Carvalho e Rabechini Jr. (2011). A visualização clara do cronograma de uso dos equipamentos em um formato de fácil compreensão facilita a comunicação entre as equipes de obra e o almoxarifado, promovendo uma colaboração mais eficaz e reduzindo mal-entendidos.

Os resultados após a aplicação do sistema proposto foram notáveis, evidenciando uma transformação significativa no ambiente do almoxarifado. A Figura 3 apresenta o almoxarifado após a implementação do sistema de organização proposto, revelando uma disposição ordenada dos equipamentos, a identificação clara dos itens e das prateleiras com locais de armazenamento bem definidos.

Figura 3. Almoxarifado após implementação do sistema de organização proposto

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A imagem da Figura 3 demonstra a concretização dos objetivos da proposta, com um almoxarifado visivelmente mais organizado e funcional. A disposição ordenada dos equipamentos, a identificação clara dos itens e das prateleiras com locais de armazenamento bem definidos resultaram em maior organização e facilidade na localização dos recursos. Esses resultados estão intrinsecamente alinhados com os princípios da gestão visual propostos por Ohno (1997), nos quais a organização do ambiente de trabalho e a visibilidade das informações exercem um papel fundamental na melhoria do controle operacional. A capacidade de localizar rapidamente um equipamento não apenas economiza tempo, mas também reduz a frustração da equipe e aumenta a produtividade. A padronização dos processos de armazenamento e retirada, facilitada pela organização visual, contribui para a redução de erros e para a consistência das operações.

De forma complementar, Slack et al. (2018) destacam que sistemas baseados em controle visual contribuem significativamente para a otimização dos processos, o que foi claramente observado no estudo. A transformação do almoxarifado de um espaço caótico para um ambiente estruturado e intuitivo tem implicações diretas na eficiência das obras, pois garante que os equipamentos necessários estejam disponíveis e acessíveis quando solicitados. Essa abordagem também é reforçada por estudos mais recentes, como os de Tortorella et al. (2020) e o Project Management Institute (2021), que evidenciam que a integração entre gestão visual e ferramentas digitais potencializa o monitoramento e a confiabilidade das informações, resultando em uma maior eficiência na gestão de recursos. A sinergia entre a organização física e o controle digital, por meio dos lacres, etiquetas com QR Codes e a planilha eletrônica, cria um sistema robusto que não apenas resolve os problemas iniciais de desorganização e falta de rastreabilidade, mas também estabelece uma base para a melhoria contínua e a tomada de decisões estratégicas. A visibilidade aprimorada permite que a gestão identifique rapidamente desvios, como equipamentos não devolvidos ou em necessidade de manutenção, e tome ações corretivas de forma ágil, minimizando impactos negativos nos projetos.

Em suma, a proposta desenvolvida demonstrou ser aplicável e eficaz para a gestão de equipamentos de pequeno e médio porte armazenados na ferramentaria centralizada. Para equipamentos de grande porte, cuja logística operacional envolve a transferência direta entre obras sem retorno ao almoxarifado, o controle deverá ser realizado de forma remota, por meio da planilha eletrônica, assegurando o acompanhamento da localização, utilização e disponibilidade desses itens. Nesses casos, dispensa-se a utilização de etiquetas e do controle físico de retirada, mantendo-se apenas o registro e acompanhamento por meio do sistema digital. Esta flexibilidade na aplicação do sistema é crucial para atender às diversas necessidades da construtora, adaptando a solução à natureza e ao porte de cada ativo. A capacidade de adaptar o sistema a diferentes contextos de uso de equipamentos é um ponto forte da proposta, garantindo sua viabilidade e aplicabilidade em um espectro mais amplo de operações.

Como principais limitações do estudo, destacam-se o baixo nível de organização inicial do almoxarifado e a potencial dificuldade na manutenção e conservação dos processos estabelecidos pela equipe responsável pelo local. O baixo nível de organização inicial, embora tenha sido o catalisador para a pesquisa, também representou um desafio significativo na fase de diagnóstico e na implementação das primeiras etapas da proposta. A transição de um estado de desordem para um sistema organizado exige um esforço considerável e uma mudança de mentalidade por parte da equipe. A dificuldade na manutenção e conservação dos processos é um fator humano crítico; a efetividade do sistema proposto após sua aplicação depende diretamente do engajamento, da capacitação contínua e da disciplina da equipe. Sem um compromisso firme com a padronização e o uso consistente das ferramentas, o sistema pode perder sua eficácia ao longo do tempo. Isso ressalta a importância de programas de treinamento e de um acompanhamento gerencial contínuo para reforçar a cultura de organização e controle.

Para trabalhos futuros, sugere-se a aplicação total do sistema proposto, acrescentando-se a mensuração de indicadores de desempenho, que podem ser obtidos através da análise dos dados registrados. Esses indicadores podem ser demonstrados por meio de ferramentas digitais, a exemplo do Power BI, o que poderia auxiliar na melhoria contínua dos processos e na tomada de decisão. A mensuração de KPIs (Key Performance Indicators) é essencial para validar o impacto da proposta e identificar áreas para otimização. Indicadores como taxa de utilização de equipamentos, tempo médio de busca, redução de extravios e danos, e custos de manutenção por equipamento, poderiam fornecer dados quantitativos sobre a eficácia do sistema. A integração com ferramentas de Business Intelligence como o Power BI permitiria a criação de dashboards visuais e relatórios em tempo real, facilitando o monitoramento do desempenho e a identificação de tendências. Essa abordagem baseada em dados é fundamental para a gestão moderna, permitindo que a construtora tome decisões mais informadas e estratégicas, alinhadas aos objetivos de eficiência operacional e redução de custos. A expansão da pesquisa para incluir uma análise de custo-benefício da implementação e a avaliação do retorno sobre o investimento (ROI) seria também um valioso complemento, quantificando o valor gerado pela nova metodologia.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que este estudo conseguiu elaborar um procedimento eficaz para aprimorar a gestão de equipamentos da ferramentaria centralizada da construtora. Através da aplicação de princípios e métodos da gestão de projetos e de gerenciamento de recursos, foi possível desenvolver um sistema integrado que promoveu uma utilização mais eficiente e controlada dos equipamentos. A proposta, baseada nos princípios do Kanban, resultou em uma organização física notável do almoxarifado, com padronização dos processos e melhoria substancial na rastreabilidade dos itens. A integração de lacres de identificação, etiquetas com QR Codes e uma planilha eletrônica de controle digital demonstrou ser uma solução robusta para os desafios iniciais de desorganização e falta de informações.

Contudo, é importante reconhecer as limitações inerentes ao estudo, como o baixo nível de organização inicial do almoxarifado, que demandou um esforço considerável na fase de diagnóstico e implementação. Adicionalmente, a potencial dificuldade na manutenção e conservação dos processos estabelecidos pela equipe responsável pelo local representa um desafio contínuo para a efetividade a longo prazo do sistema. Para estudos futuros, sugere-se a aplicação integral do procedimento proposto, com a inclusão da mensuração de indicadores de desempenho, que podem ser monitorados por meio de ferramentas digitais como o Power BI, auxiliando na melhoria contínua e na tomada de decisões estratégicas. Recomenda-se também a realização de uma análise de custo-benefício e do retorno sobre o investimento (ROI) para quantificar o valor gerado pela nova metodologia.

Referências Bibliográficas

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Ohno, T. 1997. O sistema Toyota de produção: além da produção em larga escala. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.

Project Management Institute. 2021. Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos (Guia PMBOK®). 7ed. Project Management Institute, Newtown Square, PA, USA.

Slack, N.; Brandon-Jones, A.; Johnston, R. 2018. Administração da produção. 8ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

Souza, C.S.; Martins, L.A. 2015. O papel da gestão de projetos na construção civil: uma análise das práticas de gerenciamento aplicadas. Revista Gestão, Projetos e Desenvolvimento Sustentável – Gepros 5(2): 45-58.

Tortorella, G.L.; Fettermann, D.; Anzanello, M.J. 2020. The impact of Industry 4.0 on lean manufacturing practices: a systematic review. International Journal of Production Research 58(8): 1-16.

Zanella, L.C.H. 2013. Metodologia de pesquisa. 2ed. Departamento de Ciências da Administração/UFSC, Florianópolis, SC, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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