Artigo

28 de julho de 2026

Projetos humanitários ágeis: uma análise da aplicabilidade de métodos ágeis a projetos humanitários

Débora Ferreira Rodrigues; Carina Campese

DOI: 10.22167/2675-6528-202600715

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Contextos humanitários frequentemente apresentam desafios na definição de escopo e requisitos de projetos, caracterizados por incerteza e riscos. Esta pesquisa teve como objetivo demonstrar a aplicabilidade de métodos ágeis em projetos humanitários, utilizando o framework Scrum como referencial, e identificar os benefícios alcançados. Para isso, aplicou-se o framework Scrum hipoteticamente a três projetos humanitários reais, implementados por agências das Nações Unidas na Resposta à Crise Migratória da Venezuela, na Área de Proteção, entre 2018 e 2021. A metodologia incluiu um estudo de casos múltiplos fundamentado em dados públicos e a aplicação de um questionário a 23 profissionais da área para identificar benefícios. A análise evidenciou que métodos ágeis são aplicáveis a projetos humanitários e possuem potencial para gerar benefícios. Profissionais humanitários experientes reconheceram múltiplos benefícios da aplicação de métodos ágeis em seus projetos, correlacionando a gestão ágil com o fortalecimento do Princípio da Responsabilização perante as Pessoas Afetadas na Assistência Humanitária. Isso contribuiu para respostas mais responsivas e transparentes perante comunidades, doadores e parceiros. A pesquisa também indicou que organizações que incentivam o uso de métodos ágeis tendem a possuir profissionais mais capacitados e experientes em gestão ágil.

Palavras-chave: Abordagens adaptativas; Assistência Humanitária; Scrum.

1. Introdução

A gestão de projetos, em sua essência, busca planejar, executar e controlar atividades para alcançar objetivos específicos dentro de restrições de tempo, custo e escopo (PMI, 2021). Tradicionalmente, abordagens preditivas dominavam o campo, caracterizadas por um planejamento detalhado e sequencial. Contudo, a complexidade crescente dos cenários contemporâneos tem impulsionado a busca por abordagens mais flexíveis. Nesse contexto, a Assistência Humanitária emerge como um campo de atuação particularmente desafiador, onde a gestão de projetos assume uma importância crítica para salvar vidas, garantir a dignidade humana e aliviar o sofrimento de pessoas afetadas por crises (Maxwell e Gelsdorf, 2019).

Os projetos humanitários operam em ambientes marcados por emergências, conflitos, desastres e uma multiplicidade de fatores que geram incerteza e riscos negativos (Joia et al., 2019). Nas últimas décadas, a natureza dessas crises se transformou, tornando-se mais crônicas e de longa duração, com raízes profundas e ocorrência frequente em centros urbanos. Além disso, os desastres climáticos se tornaram mais frequentes e agravam as crises existentes (Maxwell e Gelsdorf, 2019). O sistema humanitário global, complexo e descentralizado, que se alinha à Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015), enfrenta um desafio crescente: em 2024, 305,1 milhões de pessoas necessitavam de ajuda, e o financiamento disponível, de 47,4 bilhões de dólares, não foi suficiente para cobrir o orçamento de 50,1 bilhões de dólares previsto para 2025 (OCHA, 2024).

Diante desse cenário de alta volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, as abordagens preditivas tradicionais mostram-se muitas vezes inadequadas. O sucesso de um projeto depende da adaptação a um contexto único, um processo conhecido como “tailoring” (PMI, 2021). As abordagens adaptativas, ou ágeis, surgiram para o desenvolvimento de produtos com requisitos indefinidos e sujeitos a mudanças frequentes (PMI, 2021). Seus princípios, inspirados no trabalho de Takeuchi e Nonaka (1986), enfatizam a velocidade, a flexibilidade, a sobreposição de fases de desenvolvimento e execução, o refinamento contínuo dos requisitos, o aprendizado iterativo e a interação constante com fontes externas, como usuários e fornecedores. Esses elementos foram sistematizados no “Manifesto Ágil” (Beck et al., 2001), que estabeleceu as bases para a gestão ágil.

O Project Management Body of Knowledge (PMBOK) sugere que a escolha da abordagem de gestão mais eficaz deve considerar fatores como o grau de incerteza dos requisitos, a instabilidade social e tecnológica, a complexidade do contexto, a frequência das mudanças e a capacidade da equipe (PMI, 2021). Em projetos humanitários, onde esses fatores são proeminentes, a aplicação de métodos ágeis torna-se particularmente relevante. Dentre os “frameworks” ágeis, o Scrum destaca-se como uma estrutura iterativa e incremental projetada para desenvolver produtos e gerenciar projetos complexos (Sabbagh, 2016). Criado e sistematizado por Ken Schwaber e Jeff Sutherland, conforme o “Guia do Scrum” (2020), ele é reconhecido por sua simplicidade, leveza e natureza não prescritiva, permitindo a entrega de incrementos funcionais do produto a cada ciclo.

Apesar da crescente necessidade de flexibilidade e adaptabilidade na gestão de projetos humanitários, existe uma lacuna na literatura especializada sobre a aplicação de métodos ágeis, e especificamente do “framework” Scrum, em contextos humanitários no Brasil e na América Latina (page 4, 23). A relevância de investigar essa aplicabilidade é reforçada pela complexidade das crises migratórias na região, como a Crise Migratória da Venezuela no Norte do Brasil, que exige respostas humanitárias ágeis e eficazes. A capacidade de fortalecer o Princípio da Responsabilização perante as Pessoas Afetadas (“Accountability to Affected People”) é um dos benefícios potenciais da gestão ágil, promovendo respostas mais transparentes e responsivas às comunidades, doadores e parceiros (UNHCR, 2020). Profissionais experientes no setor humanitário já reconhecem os benefícios da gestão ágil, indicando que organizações que incentivam seu uso tendem a ter equipes mais capacitadas.

Considerando a problemática e a lacuna teórica identificadas, esta pesquisa se justifica pela necessidade de gerar conhecimento situado sobre a aplicação de metodologias ágeis em um campo tão crítico. Assim, o presente estudo tem como objetivo demonstrar a aplicabilidade de métodos ágeis em projetos humanitários, por meio de aplicações hipotéticas do “framework” Scrum como referencial, e identificar os benefícios que seriam alcançados.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se por uma natureza exploratória e descritiva, buscando investigar a aplicabilidade de métodos ágeis em projetos humanitários. O estudo examinou os fatores que influenciam a escolha de abordagens adaptativas, relacionando-os às características dos projetos humanitários e testando hipóteses de aplicação. Especificamente, buscou-se verificar se métodos ágeis são aplicáveis a contextos humanitários voláteis e se são capazes de promover princípios humanitários essenciais, como o Princípio da Responsabilização perante Pessoas Afetadas.

Quanto ao delineamento metodológico, realizou-se uma pesquisa exploratória por meio de um estudo de casos múltiplos hipotéticos. Para a demonstração das hipóteses, selecionou-se um cenário humanitário de forma não probabilística, por conveniência e julgamento. A escolha desse cenário considerou a experiência profissional da pesquisadora como trabalhadora humanitária, visando gerar conhecimento específico e situado sobre a aplicação de métodos ágeis em contextos humanitários no Brasil e na América Latina, área com literatura especializada limitada.

Dentro do cenário selecionado, foram escolhidos três projetos que se adequavam às condições de análise. Para cada projeto, foram definidas três entregas e uma área de intervenção, especificamente a área de proteção, que serviram de base para a análise da aplicabilidade e a aplicação hipotética da metodologia ágil Scrum. O objetivo foi demonstrar a aplicabilidade do “framework” Scrum como referencial em projetos humanitários, por meio de aplicações hipotéticas, e identificar os benefícios potenciais.

A unidade de análise consistiu em três projetos humanitários reais, implementados por agências das Nações Unidas na Resposta à Crise Migratória da Venezuela, na Área de Proteção. Esses projetos foram executados entre 2018 e 2021. A aplicação hipotética do “framework” Scrum foi direcionada a esses projetos, que ocorreram no contexto da “Operação Acolhida”, a Resposta Humanitária à Crise Migratória da Venezuela nos Estados de Roraima e Amazonas, entre 2020 e 2022.

As técnicas de coleta de dados incluíram pesquisa bibliográfica, documental, levantamento de dados secundários e aplicação de questionário. A pesquisa bibliográfica e documental focou em temas como Gestão de Projetos, Abordagens Adaptativas, Métodos Ágeis, Scrum, Assistência Humanitária, Migração, Proteção e Gênero. Os dados secundários foram obtidos de fontes públicas e confiáveis, incluindo canais de comunicação oficiais das Nações Unidas (ONU, 2018; 2020; 2021; ONU Mulheres, 2021; UNFPA, 2018; 2022; UNICEF, s.d.), do Governo Brasileiro (MDS, 2025; MJ, s.d.) e da imprensa (G1, 2019).

Esses dados secundários, de natureza qualitativa, eram públicos e acessíveis, coletados por meios físicos e online. Para a coleta de dados primários, aplicou-se um questionário estruturado (Apêndice A) a 23 profissionais do setor humanitário. Esses participantes faziam parte da rede de contatos da pesquisadora, atuantes no Brasil e em outros países da América Latina.

O questionário foi elaborado com o propósito de coletar informações sobre conhecimentos, experiências e benefícios associados ao uso de métodos ágeis em projetos humanitários. A aplicação do questionário visou reunir impressões de profissionais com experiência na gestão e implementação de projetos humanitários sobre a utilização de Métodos Ágeis. O período para preenchimento do questionário estendeu-se até 22 de dezembro de 2025.

Em relação aos cuidados éticos, os participantes foram informados sobre o Termo de Autorização e Compromisso para Uso de Informações. Este termo assegurou que as informações coletadas seriam utilizadas única e exclusivamente para fins acadêmicos. Garantiu-se a confidencialidade dos dados, e o e-mail dos respondentes foi coletado apenas para controle e armazenado de forma segura, conforme o Termo de Compromisso de Utilização de Dados.

Para a análise dos dados coletados, empregou-se a análise estatística descritiva. Esta técnica foi baseada em frequências e percentuais, sendo considerada adequada ao objetivo exploratório da pesquisa e ao tamanho da amostra de participantes (Bigaton et al., 2024). A organização dos dados secundários, de caráter qualitativo, foi realizada a partir de sua disponibilidade em meios físicos e online.

3. Resultados e Discussão

A presente seção de Resultados e Discussão visa apresentar os achados da pesquisa, interpretando-os à luz do problema de estudo, dos objetivos propostos e da literatura que fundamenta a Assistência Humanitária e a gestão ágil. Inicialmente, explora-se o contexto teórico que justifica a aplicabilidade de métodos adaptativos em cenários humanitários. Em seguida, detalha-se a aplicação hipotética do framework Scrum em três projetos reais da Crise Migratória da Venezuela, no Norte do Brasil. Por fim, são analisados os benefícios percebidos por profissionais do setor, com foco na relação entre a gestão ágil e o Princípio da Responsabilização perante as Pessoas Afetadas.

A Assistência Humanitária, conforme definido por Maxwell e Gelsdorf (2019), compreende ações destinadas a salvar vidas, assegurar a dignidade humana e mitigar o sofrimento em contextos de crise. Esses ambientes são intrinsecamente marcados por emergências, conflitos e desastres, exigindo intervenção externa quando as capacidades locais são insuficientes e com o consentimento do Estado receptor (ONU, 1991). Nas últimas décadas, observou-se uma evolução na natureza dessas crises, que se tornaram mais crônicas, multifacetadas e frequentemente urbanas, além do agravamento por desastres climáticos (Maxwell e Gelsdorf, 2019).

O ecossistema humanitário global é complexo e descentralizado, integrando-se à Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015). Ele é composto por uma vasta rede de atores, incluindo o Movimento da Cruz Vermelha, agências da ONU, ONGs internacionais e locais, governos nacionais e as próprias comunidades afetadas (Maxwell e Gelsdorf, 2019). Este sistema é guiado por um arcabouço principiológico e normativo, como o Manual Esfera e as diretrizes do IASC (Esfera, 2020), que estabelecem padrões mínimos para uma resposta humanitária ética e eficaz.

Diante da alta volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade que caracterizam os cenários humanitários, as abordagens preditivas tradicionais frequentemente se mostram inadequadas. O sucesso de um projeto, portanto, depende da sua adaptação ao contexto específico, um processo conhecido como “tailoring” (PMI, 2021). As abordagens adaptativas, ou ágeis, surgiram para lidar com requisitos indefinidos e sujeitos a mudanças frequentes, conforme os princípios de velocidade, flexibilidade e aprendizado iterativo propostos por Takeuchi e Nonaka (1986) e sistematizados no “Manifesto Ágil” (Beck et al., 2001).

O PMBOK (PMI, 2021) sugere que a escolha da abordagem de gestão deve considerar fatores como o grau de incerteza dos requisitos, a instabilidade social e tecnológica, a complexidade do contexto, a frequência das mudanças e a capacidade da equipe. Em projetos humanitários, onde esses fatores são predominantes, a aplicação de métodos ágeis torna-se particularmente relevante. O Scrum, um framework iterativo e incremental, destaca-se por sua simplicidade e natureza não prescritiva, permitindo a entrega contínua de incrementos funcionais do produto (Sabbagh, 2016; Schwaber e Sutherland, 2020).

A análise do contexto humanitário atual, com suas crises prolongadas, múltiplos propulsores e raízes profundas, reforça a plausibilidade da aplicação de métodos ágeis. Fatores como alta incerteza, instabilidade social, volatilidade e recursos limitados (Joia et al., 2019) são riscos negativos que demandam flexibilidade. Assim, projetos humanitários constituem um terreno fértil para a aplicação de métodos ágeis, cabendo à gestão do projeto, por meio do “tailoring”, assegurar a adequação a cada caso específico.

A aplicação do Scrum na Assistência Humanitária

A aplicação hipotética do Scrum foi realizada em três projetos humanitários implementados por agências da ONU entre 2020 e 2022, no contexto da “Operação Acolhida”, a resposta humanitária à Crise Migratória da Venezuela nos estados de Roraima e Amazonas. Este cenário foi selecionado devido à sua magnitude e relevância regional e internacional. A crise migratória venezuelana representa um dos maiores movimentos migratórios da história da América Latina, com mais de 7,7 milhões de venezuelanos deslocados, dos quais 6,8 milhões residem na região (R4V, 2021).

O Brasil, como terceiro principal receptor desse fluxo migratório, enfrenta desafios complexos que exigem respostas humanitárias adaptativas. A disponibilidade de informações oficiais de governos, agências da ONU e plataformas de cooperação internacional sobre a “Operação Acolhida” permitiu uma análise aprofundada. O framework Scrum, com seus papéis, eventos e artefatos, foi hipoteticamente aplicado para demonstrar como sua estrutura iterativa e incremental poderia otimizar a programação e implementação de soluções humanitárias.

Projeto 1: Assistência financeira para mulheres venezuelanas

O primeiro projeto analisado foi o Programa Moverse, uma parceria entre UNFPA, ACNUR, ONU Mulheres e o Governo de Luxemburgo, com o objetivo de promover o empoderamento econômico, a liderança e a proteção de mulheres refugiadas e migrantes no Brasil. A solução humanitária consistiu em uma iniciativa de assistência financeira (Cash Based Intervention – CBI) implementada em Boa Vista, Roraima, durante a pandemia de Covid-19 em 2021 (ONU, 2021).

Foram concedidos dois tipos de auxílio: um emergencial de R$ 700 para mulheres venezuelanas afetadas pela Covid-19, e outro para incentivar o empreendedorismo, composto por três pagamentos de R$ 740, somados a um capital semente de R$ 2.000, com apoio de cursos do Senac (ONU Mulheres, 2021). A aplicação hipotética do Scrum focou na programação e implementação do CBI, com a Meta do Produto sendo o lançamento e operacionalização do programa pela Coordenação Humanitária, atuando como Dono do Produto.

O Backlog do Produto incluiria requisitos como a observância de padrões internacionais de CBI com abordagem de gênero, ser multipropósito, contribuir para o acesso a serviços de saúde e proteção (incluindo VBG), promover o empoderamento econômico e empreendedorismo, e garantir segurança sem criar novos riscos (IASC, 2018; ACNUR, 2018). No Primeiro Sprint, a Equipe Humanitária realizaria consultas e levantamentos de necessidades com partes interessadas e grupos focais de mulheres, definindo requisitos como montante, frequência, meio de transferência, acessibilidade e segurança (IASC, 2018; ACNUR, 2018; ONU Mulheres, 2020).

A equipe consideraria aspectos culturais, dificuldades de acesso a celulares e contas bancárias, familiaridade com aplicativos digitais, auxílios para transporte e alimentação, e insumos de prevenção da Covid-19. Estratégias para associar o CBI a informações e serviços de proteção e saúde seriam definidas. Os dois CBI-piloto seriam apresentados à Coordenação Humanitária na Revisão do Sprint para avaliação e validação, com o Dono do Produto validando o alcance da Meta do Sprint (Schwaber e Sutherland, 2020).

No Segundo Sprint, a Meta seria operacionalizar os auxílios-piloto com alcance limitado e implementar mecanismos de comunicação para coletar feedback das beneficiárias. O Backlog do Sprint abrangeria tarefas como acordos com bancos, pactuação de fluxos com redes de serviços de saúde e proteção, e a criação de canais de comunicação para informações, reclamações e informes de incidentes. Adicionalmente, um comitê de beneficiárias seria instalado para acompanhar e assessorar a iniciativa (IASC, 2018; ACNUR, 2018; ONU Mulheres, 2020).

Após o lançamento dos CBIs piloto, a equipe analisaria as percepções das beneficiárias, avaliando a adequação do montante e frequência dos valores, dificuldades de acesso a celulares, contas bancárias e documentação, riscos de VBG, segurança dos deslocamentos, obstáculos específicos para mulheres com deficiência e indígenas, e a eficácia dos canais de comunicação (IASC, 2018; ACNUR, 2018; ONU Mulheres, 2020). No Terceiro Sprint, a Meta seria incorporar melhorias para que os CBIs-piloto alcançassem os padrões de qualidade humanitários (Definição de Pronto), escalonando os auxílios para atender à Meta do Produto.

Esta etapa incluiria a implementação de sistemas de monitoramento e avaliação (M&A) eficientes para verificar progressos, mensurar resultados, identificar desvios, antecipar riscos e propor soluções tempestivas. O Scrum, neste projeto, teria o potencial de promover entregas rápidas e frequentes de partes operantes do produto, como os dois CBI-piloto, que evoluiriam para versões finais refinadas e abrangentes. Isso garantiria uma estrutura de trabalho alimentada pela percepção das beneficiárias, otimizando a qualidade e o impacto da solução humanitária.

Projeto 2: Espaços Seguros para mulheres e meninas

O segundo projeto, financiado pelo Fundo Central de Resposta de Emergência das Nações Unidas (CERF) e implementado pelo UNFPA em 2018, apoiou atividades de saúde sexual e reprodutiva e proteção para mulheres, meninas e pessoas LGBTQIA+ em deslocamento forçado em Roraima. A solução humanitária foram os “Espaços Seguros” (Women & Girls Safe Spaces – WGSS), locais físicos e psicologicamente seguros nos Postos de Interiorização e Triagem (PITRIG) de Pacaraima e Boa Vista (ONU, 2018; UNFPA, 2022).

Nesses espaços, as beneficiárias acessavam informações e serviços essenciais em saúde sexual e reprodutiva, resposta à VBG, gestão de casos, atividades psicossociais e de promoção do bem-estar, além de construir redes de apoio. A confidencialidade nas comunicações era um princípio fundamental (Esfera, 2020). A aplicação hipotética do Scrum visou a programação e implementação desses Espaços Seguros, com a Meta do Produto sendo os espaços programados e instalados nas duas cidades.

O Backlog do Produto preveria requisitos como a conformidade com o Guia para Espaços Seguros para Mulheres e Meninas (UNFPA, 2015b) e os Padrões para Prevenção e Resposta à VBG (UNFPA, 2015a). Seria essencial que as beneficiárias liderassem a coordenação e participassem ativamente da implementação, e que os espaços acolhessem mulheres com necessidades específicas (gestantes, lactantes, PcD, indígenas) e pessoas LGBTQIA+ de todos os gêneros. Mecanismos de comunicação com as beneficiárias e coordenação com a rede local de saúde e proteção também seriam cruciais (UNFPA, 2015b).

No Primeiro Sprint, a Meta seria realizar levantamentos de necessidades com beneficiárias e a rede local, coletando informações sobre preferências, barreiras de acesso e oportunidades. O Backlog do Sprint incluiria consultas a Grupos de Trabalho de Proteção e Saúde, serviços públicos locais e grupos focais com beneficiárias(os) para identificar atividades (artísticas, físicas, psicossociais, formativas), aspectos de segurança e acessibilidade. A oferta de serviços de saúde sexual e reprodutiva e gestão de casos de VBG seria feita por profissionais habilitados, e o nome dos Espaços Seguros seria escolhido pelas beneficiárias e divulgado nas línguas das populações migrantes (UNFPA, 2015b).

No Segundo Sprint, a Meta seria operacionalizar os Espaços Seguros e conduzir as contratações necessárias. O Backlog do Sprint abrangeria a contratação e capacitação inicial das equipes multidisciplinares (Coordenadora, Assistentes de Proteção, Mobilizadoras Comunitárias), priorizando profissionais do gênero feminino e mobilizadores de gêneros diversos (UNFPA, 2015b). Incluiria também aquisições de bens e serviços para instalações físicas que atendessem a requisitos como espaço para no mínimo 20 pessoas, sala privativa para escutas, áreas de amamentação e crianças, adaptação para PcD, localização segura e equipamentos de segurança.

Nesta Sprint, a equipe iniciaria diálogos com outros atores humanitários e a rede local para pactuar fluxos de referência e rotas de cuidado. A Meta do Terceiro Sprint abrangeria o lançamento e a abertura dos Espaços Seguros nas duas cidades. As equipes dos espaços seriam formadas, capacitadas e iniciariam as atividades em campo. O Backlog do Sprint preveria o estabelecimento de mecanismos de comunicação com beneficiárias que dessem suporte à condução transparente, ética e responsiva do projeto. A equipe humanitária implementaria mecanismos que permitissem feedback rápido, como caixas de sugestões e reclamações, consultas periódicas, formulários de satisfação anônimos e canais de denúncia de PSEA (UNFPA, 2015b).

A criação de canais de comunicação especiais seria considerada para urgências relacionadas à proteção, permitindo diálogos instantâneos, individuais e seguros entre sobreviventes e assistentes de proteção. O feedback das primeiras usuárias seria fundamental para o uso efetivo dos espaços e participação nas atividades, permitindo que as mulheres pudessem opinar sobre os incômodos, gargalos e oportunidades de melhoria. A Meta do Produto seria alcançada quando os Espaços Seguros estivessem operando conforme os padrões humanitários (UNFPA, 2015b). O Scrum, neste caso, seria útil para estruturar processos de programação e implementação, garantindo excelência operacional e ritmos sustentáveis de trabalho, reduzindo riscos de insucesso e minimizando o desalinhamento das soluções.

Projeto 3: Aplicativo para acesso a direitos e serviços por pessoas refugiadas e migrantes

O terceiro projeto, financiado pela União Europeia e implementado pelo UNFPA e ACNUR, visava fortalecer a proteção de mulheres refugiadas, migrantes e pessoas LGBTQIA+ venezuelanas em Roraima. A solução humanitária foi o aplicativo “Nina”, um assistente virtual ou “chatbot” que disponibiliza informações sobre serviços em diversas categorias, como saúde, documentação, acolhimento, VBG, apoio psicossocial, empregabilidade e direitos de pessoas LGBTQIA+ (ONU, 2020a; 2020b; TJRR, 2021).

A aplicação hipotética do Scrum focou na programação e lançamento do aplicativo Nina. O Backlog do Produto preveria o desenvolvimento de um aplicativo de informações em Português e Espanhol, associando métodos de “Design Thinking” e “Human Centered Design” ao Scrum. Os perfis de usuárias deveriam refletir a diversidade da população refugiada e migrante, sendo o aplicativo apropriado para adolescentes e gratuito. A equipe seria composta por 3 a 7 profissionais de diferentes especialidades, incluindo coordenação, assistentes de proteção com experiência em análise de requisitos e tecnologias digitais, e desenvolvedores(as) de software.

No Primeiro Sprint, a equipe realizaria uma análise preliminar do contexto, escutaria as beneficiárias e lançaria um Mínimo Produto Viável (MVP). O MVP, uma versão do produto com funcionalidades essenciais, permitiria testes com usuárias reais para validar hipóteses com agilidade e poucos recursos (Wildt, 2013). A equipe utilizaria mapeamentos de serviços de parceiros para subsidiar o banco de dados do aplicativo. O foco seria produzir um produto inacabado e simples para apresentar a ideia principal, coletar feedback e identificar fraquezas e oportunidades (Brown, 2008). A usabilidade do MVP seria avaliada com pequenos grupos de mulheres (IDEO, 2015), seguindo os padrões da ONU para levantamentos participativos (ACNUR, 2024).

No Segundo Sprint, a Meta seria a programação final do Nina e o alcance da Definição de Pronto. A equipe humanitária avaliaria se o MVP era desejável, útil, fácil de usar e acessível para diferentes grupos, utilizando técnicas de Design Centrado no Humano para extrair padrões e idealizar soluções (IDEO, 2015). A etapa de “Inspiração” poderia revelar que parte das usuárias não possui celular, que o acesso é limitado em muitas famílias, que preferem serviços próximos às suas moradias e que algumas precisam de assistência para usar o aplicativo.

Na etapa de “Ideação”, poderia ser proposto que a assistente virtual simulasse uma pessoa do gênero feminino, que um sistema de geolocalização permitisse o mapeamento de serviços próximos, e que o aplicativo fosse disponibilizado em tablets e totens em Espaços Seguros e serviços públicos para ampliar a acessibilidade. A versão final do produto incorporaria as soluções mais desejáveis, praticáveis e viáveis formuladas pela equipe (IDEO, 2015). A Coordenação Humanitária validaria os requisitos finais do Nina e atualizaria o Backlog do Produto, com a Meta do Sprint sendo concluída quando os desenvolvedores entregassem uma versão do aplicativo que respondesse aos padrões de qualidade.

No Terceiro Sprint, a Meta seria o “Release” ou “Lançamento Oficial” do aplicativo Nina e a execução de um Plano de Comunicação com Comunidades (CwC). Esta etapa corresponderia à fase de “Implementação” do produto em larga escala (Brown, 2008; IDEO, 2015). A equipe faria o Planejamento do Lançamento e definiria a Meta da Release, que seria a realização de um evento com representantes do Doador, agências da ONU, parceiras, atores públicos e beneficiárias (Sabbagh, 2016).

O Plano de Comunicação seria executado para divulgar o aplicativo com apoio de lideranças e mobilizadoras comunitárias, incluindo a instalação de totens e tablets em Espaços Seguros e serviços públicos, e o treinamento das equipes. O Sprint Backlog preveria a definição de um sistema de M&A eficiente para mensurar o uso e o impacto da iniciativa. O Scrum, associado à criação de um MVP, viabilizaria a rápida identificação de necessidades, gargalos e riscos, mitigando o desperdício de recursos com funcionalidades obsoletas ou de alto custo (Sabbagh, 2016).

Benefícios identificados

A análise dos resultados do questionário aplicado a 23 profissionais do setor humanitário, dos quais 12 eram do gênero feminino, 10 do masculino e 1 não identificado, revelou que os métodos ágeis já estão integrados ao trabalho humanitário. A maioria dos respondentes, 91%, afirmou ter experiência em gestão de projetos humanitários, atuando em funções de coordenação, planejamento, implementação, monitoramento ou avaliação. Predominaram profissionais com 1 a 5 anos de experiência (13 pessoas) e profissionais sêniores com mais de 6 anos (6 pessoas).

O nível de conhecimento sobre métodos ágeis foi considerado bom ou muito bom por 56% da amostra, regular por 21% e baixo por 17%. Um total de 22 pessoas demonstrou algum grau de conhecimento. Notavelmente, 16 pessoas (69%) afirmaram ter experiência na aplicação de métodos ágeis, e, nesse grupo, 75% possuíam conhecimento bom ou muito bom. Isso sugere uma correlação direta entre a experiência prática e o nível de conhecimento em gestão ágil.

O Scrum foi conhecido ou utilizado por 48% dos profissionais, enquanto o método Kanban foi mencionado por 43%. A ferramenta Trello foi a mais citada, com 91% de uso, e outras ferramentas como Notion, Asana, Jira, Microsoft Planner e Power BI foram apontadas por 60% da amostra. Esses dados indicam que a amostra é composta majoritariamente por profissionais experientes e com níveis satisfatórios de conhecimento em gestão de projetos humanitários e métodos ágeis.

Quanto ao apoio organizacional, 61% dos respondentes indicaram que suas organizações incentivam a capacitação em métodos ágeis, enquanto 39% não o fazem. Em relação à capacitação oferecida, 61% afirmaram que suas organizações apoiam ou promovem alguma forma de capacitação em métodos ágeis, enquanto 39% não. Entre os 21 profissionais que identificaram benefícios, 15 apontaram pelo menos um, 4 indicaram “não aplicável” e 2 “não identificaram nenhum benefício”.

Os benefícios mais frequentemente indicados foram: melhoria da comunicação com partes interessadas (52%), maior visibilidade e transparência do projeto (47%), melhoria da comunicação com as lideranças (47%), melhoria da produtividade e cumprimento de prazos (43%), definição mais assertiva dos requisitos do produto ou serviço (43%) e fortalecimento da equipe (39%). Um grupo significativo de 61% dos profissionais experientes em gestão ágil apontou como benefícios mais importantes a maior visibilidade e transparência do andamento do projeto (64%), o fortalecimento da equipe (64%), a comunicação com partes interessadas (57%), a definição mais assertiva dos requisitos do produto ou serviço (57%) e a produtividade e cumprimento de prazos (57%).

Esses achados demonstram que a aplicação de métodos ágeis pode fortalecer o Princípio da Responsabilização perante as Pessoas Afetadas (AAP), um pilar fundamental da Assistência Humanitária (UNHCR, 2020). A AAP exige maior transparência nos processos, decisões baseadas em evidências e um aumento na qualidade e impacto dos resultados, sendo um termômetro de ética e efetividade. Métodos ágeis, ao aprimorar a comunicação, aumentar a transparência e a qualidade das entregas, contribuem diretamente para os objetivos da AAP.

As abordagens adaptativas são particularmente compatíveis com programas humanitários plurianuais que respondem a crises prolongadas, pois permitem maior flexibilidade e adaptabilidade a mudanças, com fases de planejamento e implementação sobrepostas, como nos processos de criação de novos produtos de Nonaka e Takeuchi (1986). De fato, 20% dos respondentes confirmaram que a aplicação de métodos ágeis facilita a adaptação de projetos humanitários a mudanças, tornando-os mais responsivos e “accountable”.

O Scrum, especificamente, proporciona rotinas eficientes de comunicação entre partes interessadas e incentiva a criação de mecanismos de diálogo e participação eficazes, garantindo que as soluções sejam informadas e dialogadas com as comunidades interessadas (UNHCR, 2020). Contudo, um respondente apontou que o uso de métodos ágeis, especialmente o Scrum, gerou constrangimento e pressão em sua equipe. Isso ressalta a importância da “Liderança Ágil” e de ambientes psicologicamente seguros, onde prevaleçam transparência, respeito, confiança e diversidade (Maximini, 2018).

Em síntese, os resultados desta pesquisa demonstram a aplicabilidade de métodos ágeis em projetos humanitários, evidenciando seu potencial para gerar benefícios significativos, como melhoria da comunicação, maior transparência e fortalecimento da equipe. A aplicação hipotética do Scrum nos três projetos da Crise Migratória da Venezuela ilustrou como este framework pode otimizar a gestão em contextos de alta incerteza, promovendo respostas mais adaptativas e alinhadas ao Princípio da Responsabilização perante as Pessoas Afetadas. A experiência dos profissionais humanitários corrobora a relevância da gestão ágil, embora a necessidade de apoio organizacional e lideranças capacitadas seja crucial para seu sucesso.

4. Conclusão

O presente estudo buscou demonstrar a aplicabilidade de métodos ágeis em projetos humanitários, utilizando o framework Scrum como referencial, e identificar os benefícios alcançados. Verificou-se que o contexto humanitário, caracterizado por alta volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, é intrinsecamente compatível com a adoção de abordagens adaptativas. A aplicação hipotética do Scrum em três projetos reais da Crise Migratória da Venezuela, focados em assistência financeira, espaços seguros e um aplicativo de acesso a direitos, evidenciou como o framework pode otimizar a programação e implementação de soluções. Observou-se o potencial para promover entregas rápidas e frequentes de incrementos funcionais, além de uma estrutura de trabalho que incorpora continuamente a percepção das pessoas afetadas, garantindo maior adequação e impacto das soluções humanitárias.

Adicionalmente, identificou-se, por meio de um questionário aplicado a profissionais do setor, que a gestão ágil já está integrada ao trabalho humanitário. A maioria dos respondentes reconheceu múltiplos benefícios, como a melhoria da comunicação com partes interessadas, maior visibilidade e transparência do projeto, e o fortalecimento da equipe. Esses achados correlacionam a gestão ágil com o fortalecimento do Princípio da Responsabilização perante as Pessoas Afetadas, contribuindo para respostas mais responsivas e transparentes. Notou-se também que organizações que incentivam a capacitação em métodos ágeis tendem a possuir profissionais mais capacitados e experientes. A principal contribuição deste trabalho reside na geração de conhecimento situado sobre a aplicação de metodologias ágeis e do Scrum em contextos humanitários no Brasil e na América Latina, preenchendo uma lacuna na literatura especializada. Contudo, o estudo apresentou limitações inerentes ao seu desenho metodológico, como a natureza hipotética da aplicação do Scrum e o tamanho da amostra do questionário, que restringiu a inferência estatística. Para estudos futuros, sugere-se a investigação da implementação de trilhas de aprendizagem customizadas em gestão ágil para o setor humanitário, bem como a análise de como as organizações podem fomentar culturas que promovam ambientes psicologicamente seguros para a inovação e a adaptação contínua.

Referências Bibliográficas

Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários [OCHA]. 2024. Global Humanitarian Overview 2025. Disponível em <https://www.unocha.org/publications/report/world/global-humanitarian-overview-2025-enarfres>. Acesso em: 09 jun. 2025.

Joia, L. A.; Soler, A. M.; Bernat, G. B.; Rabechini, J. R. 2019. Gerenciamento de riscos em projetos. 4ed. FVG, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Maxwell, D.; Gelsdorf, K. H. 2019. Global Institutions. Understanding the Humanitarian World. 1ed. Routledge. Nova York, NY, Estados Unidos da América.

Organização das Nações Unidas [ONU]. 2015. Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Documento da Assembleia Geral das Nações Unidas, Nova York, 21 de outubro de 2015. A/RES/70/1. 35 p

Project Management Institute [PMI]. 2021. Padrão de gerenciamento de Projetos e Guia do conhecimento em gerenciamento de projetos (Guia PMBOK). 7ed. PMI, Newtown Square, PA.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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17 de setembro de 2026

Heterogeneidade Territorial do Bolsa Família: uma Análise por Clusters e Efeitos Fixos

O Programa Bolsa Família (PBF) representa uma das políticas de proteção social mais relevantes globalmente, o que justifica a investigação de seus efeitos diante das acentuadas e heterogêneas desigualdades regionais brasileiras. O estudo avaliou os reflexos socioeconômicos dos repasses do programa sobre a saúde, a educação e o mercado de trabalho nos municípios brasileiros, no período de 2004 a 2019. Para isso, aplicou-se a técnica de agrupamento K-means para segmentação territorial e estimaram-se modelos econométricos de dados em painel com efeitos fixos, tanto a nível nacional quanto segregados por clusters. Os resultados revelaram a natureza anticíclica do PBF no mercado de trabalho, com uma relação negativa entre repasses e vínculos empregatícios formais em quatro dos cinco clusters, sugerindo que os recursos foram mais intensos onde o mercado formal falhou. Na saúde, o programa associou-se à redução significante da mortalidade infantil evitável em municípios com maior equilíbrio socioeconômico, mas não apresentou efeito detectável em agrupamentos de maior precariedade estrutural, indicando que a transferência de renda é necessária, porém insuficiente sem infraestrutura de saúde funcional. Na educação, a análise por subperíodos mostrou atenuação progressiva do coeficiente nacional, refletindo a convergência das taxas de matrícula para um patamar de alta inércia temporal. Concluiu-se que o PBF cumpriu seu objetivo de proteção social de forma anticíclica e territorialmente focalizada, mas sua capacidade de transformar indicadores estruturais dependeu da sinergia com investimentos em infraestrutura pública.

Palavras-chave: Bolsa Família; Mortalidade Infantil; Municípios Brasileiros; Painel de Dados; Política Pública.

Gestão Tributária

17 de setembro de 2026

Limites Jurídicos e Práticos da Dedutibilidade Retroativa dos Juros sobre Capital Próprio

A gestão tributária adequada é crucial para a saúde financeira das empresas, especialmente no complexo sistema tributário brasileiro. Os Juros sobre Capital Próprio (JCP) constituem um mecanismo jurídico relevante para a remuneração do capital próprio, utilizado para otimizar a carga tributária. O estudo investigou a controvérsia sobre a dedutibilidade de JCP referentes a exercícios anteriores à deliberação societária que autoriza seu pagamento. Aplicou-se a metodologia de pesquisa e análise documental empírica, baseada em “Normative Systems”, para identificar cinco propriedades representativas dos argumentos jurídicos na jurisprudência administrativa e judicial. Analisaram-se acórdãos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), revelando padrões decisórios predominantes, divergências interpretativas, incoerências argumentativas e significativa insegurança jurídica. Os resultados indicaram forte tendência de invalidação dos planejamentos envolvendo JCP extemporâneos na esfera administrativa. Contudo, o julgamento do Tema 1319 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) seguiu direção oposta, consagrando tese favorável à dedutibilidade e estabelecendo um precedente paradigmático que pode influenciar a jurisprudência administrativa e redefinir os critérios decisórios.

Palavras-chave: CARF; gestão tributária; limitação temporal; lucro real; planejamento tributário.

17 de setembro de 2026

Símbolos da Moda Esportiva: Consumo, Identidade e Status entre Consumidores Brasileiros

A moda esportiva consolidou-se como linguagem simbólica de distinção social nas últimas décadas, impulsionada pela expansão do mercado de wellness e pela reconfiguração dos padrões de prestígio nas sociedades de consumo contemporâneas. O estudo objetivou compreender como os símbolos da moda esportiva influenciaram a construção de identidade e pertencimento e sua associação ao prestígio social entre consumidores brasileiros que adquiriram produtos do setor nos últimos 12 meses. Desenvolveu-se a pesquisa por meio de levantamento bibliográfico e pesquisa descritiva, com levantamento do tipo survey aplicado a uma amostra não probabilística por conveniência de 445 consumidores brasileiros de moda esportiva. Os principais resultados indicaram que a maioria dos respondentes associou marcas esportivas a percepções de status social; mais da metade reconheceu o wellness como novo símbolo de prestígio; e parcela expressiva percebeu o sportstyle como mais aceito em ambientes formais de trabalho. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização, como preferência por logotipos visíveis, influência de redes sociais e disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente rejeitadas, revelando uma dissociação entre a atribuição simbólica de status e o comportamento de sinalização ostensiva. O consumidor brasileiro de moda esportiva com elevado capital cultural operou por meio de sinais simbólicos sutis e não ostensivos, compatíveis com o fenômeno do consumo inconspícuo, no qual a distinção social se manifestou de forma internalizada.

Palavras-chave: Consumo inconspícuo; Distinção; Prestígio social; Sportstyle; Wellness.

17 de setembro de 2026

Modelo Validado de Formação de Competência Técnica e Habilidades Não Técnicas em Indústrias Químicas Complexas

Analisou-se a implementação de um processo sistemático para o desenvolvimento e a atualização de competências técnicas e habilidades não técnicas em Operações Industriais e Segurança de Processo em uma indústria química de alta complexidade, pertencente a uma multinacional localizada no Polo Petroquímico de Camaçari, Bahia. O estudo objetivou implementar um processo mensurável e sustentável que assegurou a competência técnica e não técnica de 100% dos operadores, em conformidade com a legislação estadual da Bahia, diretrizes de institutos internacionais e políticas corporativas. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso de abordagem mista, que envolveu diagnóstico documental, entrevistas semiestruturadas com 85 operadores experientes, análise de tarefas críticas e o desenvolvimento e aplicação piloto de um programa modular de treinamento. Este processo evidenciou a necessidade de alinhamento e atualização sistemática das competências requeridas. Os resultados obtidos indicaram a eficácia do modelo proposto, com 100% dos operadores concluindo os módulos teóricos e práticos e alcançando uma taxa de aprovação superior a 80%, além de conformidade operacional em campo. O trabalho contribuiu com um modelo estruturado de formação, incluindo matriz de competências, programas modulares de treinamento e diretrizes para certificação e recertificação, demonstrando potencial de replicação em outras unidades industriais de elevada complexidade e risco, e fortalecendo a segurança de processo e a sustentabilidade operacional.

Palavras-chave: Capacitação; Competência; Habilidades não técnicas; Segurança de processo; Treinamento.

Compliance E Esg

17 de setembro de 2026

Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

Palavras-chave: accountability; adaptação climática; gestão de riscos; governança multinível.

Digital Business

17 de setembro de 2026

Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

Palavras-chave: Automação de Marketing; Business Intelligence; Inbound Marketing; Integração de Sistemas; RD Station.

17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

Gestão Escolar Integrada: o Papel da Direção Administrativa na Capacitação da Equipe de Gestão Pedagógica para a Compreensão do Orçamento Escolar

A administração escolar foi abordada sob a perspectiva da integração entre gestores administrativos e pedagógicos, com foco na participação democrática, capacitação e qualificação dos atores. O objetivo geral consistiu na elaboração de um Guia de Orientações para Orçamento, direcionado à equipe de gestão pedagógica e mediado pela direção administrativa, visando instrumentalizar esses profissionais para a compreensão e participação nos processos financeiros e decisórios da instituição. Para tanto, o estudo desenvolveu-se em uma instituição particular privada, adotando uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, com procedimento metodológico de estudo de caso. A pesquisa mapeou desafios práticos e dificuldades de comunicação entre os setores, analisou referenciais teóricos da gestão escolar e estruturou o instrumento formativo proposto. Os resultados demonstraram que a ausência de integração entre as áreas administrativa e pedagógica pode comprometer a efetividade da gestão escolar, evidenciando a necessidade de processos formativos contínuos que promovam entendimento mútuo, cooperação e construção coletiva de soluções. O Guia proposto fortaleceu a gestão democrática, elevou a qualificação da equipe pedagógica e melhorou os processos decisórios institucionais, destacando o papel formativo e estratégico do diretor administrativo.

Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

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