10 de setembro de 2026
Previsão de Taxa de Evasão Escolar por Cidades: Comparação de Modelos de Aprendizado Supervisionado
Felipe Fonseca Rocha; Miriam Martin
DOI: 10.22167/2675-6528-202602214
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A evasão escolar representa um desafio multifacetado, com impactos individuais, políticos e sociais. Um estudo buscou desenvolver um modelo preditivo da taxa de evasão escolar por cidades brasileiras, empregando técnicas de aprendizado de máquina. Coletaram-se dados públicos educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (INEP) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes ao período de 2011 a 2020, totalizando 2.370.968 registros por escola e taxas de evasão agregadas por município para Ensino Fundamental e Médio. Modelos supervisionados de regressão, como Regressão Linear, Árvores de Decisão, Random Forest e Redes Neurais, foram aplicados, e a precisão das estimativas foi avaliada por meio das métricas erro quadrático médio (MSE) e R². O modelo Random Forest apresentou o melhor desempenho. Para o Ensino Fundamental, obteve-se um MSE de 0.002 e um R² entre 0,320 e 0,530. No Ensino Médio, a performance foi inferior, com MSE variando entre 0.022 e 0.018 e um R² entre 0,10 e 0,25. Concluiu-se que a presença de quadras de esporte e outras benfeitorias na infraestrutura das escolas são fatores de alta correlação com a taxa de evasão.
Palavras-chave: Bases públicas; Desempenho educacional; Infraestrutura escolar; Random Forest; Regressão.
1. Introdução
A educação é um direito fundamental, conforme estabelecido na Constituição Federal (Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, 1988). Contudo, a garantia desse direito não se limita ao acesso, mas também à permanência dos estudantes nas instituições de ensino. Nesse contexto, a evasão e o abandono escolar representam desafios significativos, com impactos profundos na vida dos alunos, no desempenho das escolas e no desenvolvimento da sociedade como um todo (Ramos e Gonçalves Junior, 2024).
É crucial diferenciar o abandono da evasão escolar. O abandono ocorre quando o estudante interrompe os estudos em um ano letivo, mas retorna no ano seguinte. A evasão escolar, por sua vez, caracteriza-se pela interrupção dos estudos sem que haja retorno nos anos subsequentes para a conclusão (Santos et al., 2019). Este trabalho foca especificamente na evasão escolar, um fenômeno complexo e multifacetado.
A evasão escolar é frequentemente o desfecho de um processo que envolve diversas questões sociais e estruturais. Entre os fatores que contribuem para esse cenário estão a desigualdade social, a discriminação racial, a distância da escola em relação ao domicílio, a desestruturação familiar e as deficiências do próprio sistema escolar, como a infraestrutura inadequada, a ausência de professores e a baixa qualidade do ensino (Branco et al., 2020; Ramos e Gonçalves Junior, 2024). No Brasil, em 2024, estima-se que 8,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não haviam concluído o Ensino Médio devido ao abandono ou evasão, sendo que 72,5% desses jovens eram pretos ou pardos. A necessidade de trabalhar e a falta de interesse nos estudos são apontadas como as principais causas por esses jovens (IBGE, 2024).
Os impactos da evasão escolar transcendem o ambiente educacional, gerando desdobramentos individuais, políticos e sociais. No âmbito individual, resulta em baixa qualificação para o mercado de trabalho. Politicamente, representa a perda de investimentos em instituições de ensino e do tempo dedicado pelos profissionais. Socialmente, contribui para o aumento da desigualdade, criminalidade e violência (Oliveira et al., 2024; Rosa et al., 2023).
Embora diversos estudos quantitativos e qualitativos busquem identificar os fatores preditivos da evasão, muitos se concentram em características relacionadas ao estudante (Ramos e Gonçalves Junior, 2024; Silva Júnior e Silva, 2024). A interrupção educacional e as lacunas pedagógicas, somadas aos problemas sociais e às expectativas econômicas das famílias, são elementos que contribuem para os altos índices de evasão, exigindo uma abordagem que envolva múltiplos atores (Branco et al., 2020). Nesse contexto, o aprendizado de máquina (ML) emerge como uma ferramenta promissora para monitorar e prever a evasão escolar (Figueiredo e Salles, 2017; Teodoro e Kappel, 2020).
O aprendizado de máquina, um ramo da inteligência artificial, consiste no estudo e desenvolvimento de algoritmos que aprendem a partir de dados (Mitchell, 2006). Sua aplicação é particularmente eficaz no manuseio de grandes bases de dados, onde as técnicas estatísticas convencionais podem ser limitadas (Jordan e Mitchell, 2015). Esses modelos permitem a identificação precoce de estudantes em risco de evasão ou de características institucionais que favorecem o evento.
A utilização de modelos preditivos pode, portanto, auxiliar na adoção de medidas preventivas e no desenvolvimento de políticas públicas que promovam a permanência escolar. Contudo, a seleção do modelo mais adequado apresenta desafios, pois exige um equilíbrio entre a acurácia preditiva e a interpretabilidade dos resultados (Figueiredo e Salles, 2017). A relevância deste estudo reside na necessidade de prover ferramentas analíticas que auxiliem gestores educacionais na tomada de decisão.
Assim, este estudo teve como objetivo prever a evasão escolar por cidade brasileira através da aplicação de técnicas de aprendizado de máquina e identificar os determinantes da estrutura das escolas na evasão escolar, garantindo que os modelos utilizados não apenas apresentassem alta acurácia, como também fornecessem explicações compreensíveis sobre os fatores determinantes da evasão escolar.
2. Material e Métodos
Este estudo quantitativo e preditivo analisou a taxa de evasão escolar por cidade brasileira entre 2011 e 2020. Foram utilizados dados secundários públicos da taxa de evasão escolar e do censo das escolas, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (INEP). A amostra incluiu todas as escolas públicas participantes do Censo Escolar da Educação Básica no período, excluindo escolas privadas e aquelas com dados faltantes sobre evasão.
Para prever a taxa de evasão escolar e identificar fatores influenciadores, foram aplicados e comparados modelos de aprendizado de máquina (ML) supervisionado: Regressão Linear, Árvores de Decisão, “Random Forest” e Redes Neurais. A comparação focou na acurácia, interpretabilidade e desempenho preditivo dos modelos.
A Regressão Linear (Montgomery et al., 2012; Wooldridge, 2020) foi utilizada como modelo basal para predição quantitativa, estimando coeficientes que minimizam a soma dos quadrados dos resíduos (MQO) (Hastie et al., 2009; James et al., 2013). Foi calculada pela fórmula (1):
y = β0 + β1×1+…+ẞpxp + є (1)
Onde Y é a variável dependente; x1, x2,…,xp são variáveis independentes; β0, β1,…, βρ são os parâmetros ou coeficientes; e є é o componente de erro aleatório.
As Árvores de Decisão (Hastie et al., 2009) são métodos não paramétricos que segmentam dados recursivamente, otimizando a pureza dos nós com métricas como o Erro Quadrático Médio (MSE) para regressão. Oferecem alta interpretabilidade e utilizam “pruning” para mitigar o “overfitting” (Tukey et al., 1984).
O “Random Forest” (Breiman, 2001) baseia-se no “bagging” (“Bootstrap Aggregating”), construindo múltiplas árvores de decisão independentes a partir de subconjuntos aleatórios de dados e atributos. O resultado é obtido pela média (regressão), reduzindo a variância e aumentando a robustez (Breiman, 1996).
As Redes Neurais (Haykin, 2009; Haykin, 2011) são sistemas de processamento paralelo que ajustam pesos sinápticos via retropropagação. Sua vantagem reside na capacidade de mapear funções não-lineares complexas (Cybenko, 1989) e alta generalização (LeCun et al., 2015; Goodfellow et al., 2016).
Os dados foram coletados nas bases públicas de microdados do Censo Escolar da Educação Básica (INEP, 2025a) e no diretório do INEP (Inep, 2025) para as taxas de evasão. As variáveis incluíram identificadores geográficos (município, região, UF), características de infraestrutura escolar (água, alimentação, banda larga, biblioteca, computador, cozinha, quadra de esportes, sala de leitura, energia, esgoto, internet, laboratórios, destinação do lixo), turnos de ensino (diurno, noturno), tipos de educação (indígena, EJA Fundamental e Médio), ano do censo, número de docentes e matrículas por nível de ensino (fundamental e médio, integral), número de turmas, sigla da UF, dependência administrativa e convênio com o poder público. As taxas de evasão escolar foram coletadas por ano e por série para o Ensino Fundamental (1º ao 9º ano) e Ensino Médio (1º ao 3º ano).
A preparação dos dados envolveu a padronização da codificação de arquivos .CSV (ISO-8859-1 para UTF-8), organização por ano e carregamento sequencial para lidar com o volume de mais de 3 milhões de registros. Os dados foram padronizados em codificação, estrutura de colunas e formatos de data. Foi realizada filtragem de colunas relevantes (infraestrutura, administração, localização) e conversão de colunas de data para “datetime”. Registros com valores nulos em variáveis geográficas-chave foram excluídos. Variáveis categóricas foram tratadas com codificação numérica e “one-hot encoding” (variáveis “dummy”) para adequação aos modelos de ML, transformando categorias em colunas binárias (1 para presença, 0 para ausência). A base foi agregada por município e ano para criar indicadores de benfeitorias e taxa de docentes por aluno. Dados de transição de matrícula foram pré-processados para derivar variáveis “proxy” de evasão e integrados ao conjunto principal. Valores nulos e ausentes para a taxa de evasão foram removidos, e colunas não correspondentes à evasão para os anos escolares considerados foram excluídas. A taxa total de evasão por etapa escolar (fundamental e médio) foi utilizada para predição. Variáveis do censo não comuns ao período 2011-2020 foram excluídas. Todas as variáveis foram padronizadas para uma escala entre 0 e 1. Variáveis numéricas foram convertidas em taxas de docentes por alunos ou por turma para mitigar efeitos de escala. O tratamento de multicolinearidade foi realizado via Fator de Inflação da Variância (VIF) usando a biblioteca “Statsmodels” (Dormann et al., 2013), calculado pela fórmula (2):
VIF = 1 / (1 – Ri^2) (2)
Onde Ri^2 representa o coeficiente de variação não ajustado para a regressão da i-ésima variável independente sobre as demais.
A validação preditiva dos modelos utilizou particionamento em treinamento e teste. Para “Random Forest”, Árvores de Decisão e Redes Neurais, aplicou-se o método “holdout” (80% treinamento, 20% teste) para equilibrar viés e variância e prevenir “overfitting” (Hastie et al., 2009). Para a Regressão Linear, o modelo foi aplicado à totalidade do período amostral, focando na significância estatística dos coeficientes e na explicação da variância dos dados (Montgomery et al., 2012; Shmueli, 2011). A divisão 80/20 foi aleatória para preservar a distribuição das classes. Para robustez, os modelos de ML foram submetidos à validação cruzada “k-fold” (k=5) (Kohavi, 1995; Stone, 2018), onde o conjunto de treinamento foi dividido em 5 subconjuntos. Em cada iteração, 4 subconjuntos ajustaram os parâmetros e 1 foi reservado para teste. A performance agregada foi a média aritmética dos resultados das k iterações (Hastie et al., 2009), calculada pela fórmula (3):
CV(x) = (1/k) * sum(MSE_i) (3)
Onde k é o número de dobras (k=5) e MSEi é o erro quadrado médio.
Os quatro modelos de ML (Regressão Linear, Árvores de Decisão, “Random Forest” e Redes Neurais) foram implementados e comparados, buscando equilibrar capacidade preditiva e interpretabilidade, avaliadas por métricas de erro (MSE) e valores SHAP. A Tabela 1 detalha as características desses modelos:
Tabela 1. Característica dos modelos de ML aplicados para análise e predição da evasão escolar
| Variável | Descrição da Variável |
|---|---|
| CO_MUNICIPIO | Código do Município |
| CO_REGIAO | Código da região geográfica |
| CO_UF | Código da UF |
| IN_AGUA_INEXISTENTE | Abastecimento de água – Não há abastecimento de água |
| IN_AGUA_REDE_PUBLICA | Abastecimento de água – Rede pública |
| IN_ALIMENTACAO | Alimentação escolar para os alunos – PNAE/FNDE |
| IN_BANDA_LARGA | Internet Banda Larga |
| IN_BIBLIOTECA | Dependências físicas existentes e utilizadas na escola – Biblioteca |
| IN_BIBLIOTECA_SALA_LEITURA | Dependências físicas existentes e utilizadas na escola – Biblioteca e/ou Sala de leitura |
| IN_COMPUTADOR | Equipamentos existentes na escola para uso técnico e administrativo – Computador |
| IN_COZINHA | Dependências físicas existentes e utilizadas na escola – Cozinha |
| IN_DIURNO | Turno – Diurno – Horário de início da turma de escolarização entre 05h e 16h |
| IN_EDUCACAO_INDIGENA | Educação Escolar Indígena |
| IN_EJA_FUND | Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Ensino Fundamental (Possui uma ou mais matrículas) |
| IN_EJA_MED | Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Ensino Médio (Possui uma ou mais matrículas) |
| IN_ENERGIA_INEXISTENTE | Abastecimento de energia elétrica – Não há energia elétrica |
| IN_ENERGIA_REDE_PUBLICA | Abastecimento de energia elétrica – Rede pública |
| IN_ESGOTO_INEXISTENTE | Esgoto sanitário – Não há esgotamento sanitário |
| IN_ESGOTO_REDE_PUBLICA | Esgoto sanitário – Rede pública |
| IN_INTERNET | Acesso à Internet |
| IN_LABORATORIO_CIENCIAS | Dependências físicas existentes e utilizadas na escola – Laboratório de ciências |
| IN_LABORATORIO_INFORMATICA | Dependências físicas existentes e utilizadas na escola – Laboratório de informática |
| IN_LIXO_SERVICO_COLETA | Destinação do lixo – Serviço de coleta |
| IN_NOTURNO | Turno – Noturno – Turno de início da turma de escolarização entre 17h e 04h |
| IN_QUADRA_ESPORTES | Dependências físicas existentes e utilizadas na escola – Quadra de esportes coberta ou descoberta |
| IN_SALA_LEITURA | Dependências físicas existentes e utilizadas na escola – Sala de Leitura |
| NO_REGIAO | Nome da região geográfica |
| NO_UF | Nome da Unidade da Federação |
| NU_ANO_CENSO | Ano do Censo |
| QT_DOC_FUND | Número de Docentes do Ensino Fundamental |
| QT_DOC_MED | Número de Docentes do Ensino Médio |
| QT_MAT_FUND | Número de Matrículas no Ensino Fundamental |
| QT_MAT_FUND_INT | Número de Matrículas no Ensino Fundamental – Tempo Integral |
| QT_MAT_MED | Número de Matrículas no Ensino Médio |
| QT_MAT_MED_INT | Número de Matrículas no Ensino Médio – Tempo Integral |
| QT_TUR_FUND | Número de Turmas de Ensino Fundamental |
| QT_TUR_MED | Número de Turmas de Ensino Médio |
| SG_UF | Sigla da Unidade da Federação |
| TP_CONVENIO_PODER_PUBLICO | Dependência do convênio com o poder público |
| TP_DEPENDENCIA | Dependência Administrativa |
| TP_LOCALIZACAO | Localização |
Fonte: elaborado pelos autores
A interpretabilidade foi medida por “Shapley Additive Explanations” (SHAP) e “Feature Importance”, implementadas em “Python” com as bibliotecas “Scikit-learn”, “TensorFlow/Keras” e “Pandas”. O método SHAP atribui um valor de importância a cada variável, superando as limitações de métricas convencionais (RMSE, R²) ao capturar interações não lineares e fornecer interpretabilidade local (Lundberg e Lee, 2017; Shmueli, 2011). A modelagem envolveu a calibração dos algoritmos com configurações padrão e busca de hiperparâmetros ótimos. Para “Random Forest”, utilizou-se “RandomizedSearchCV” (20 iterações), explorando estimadores (100-300), profundidade máxima e critérios de divisão de nós para reduzir variância e erro. As Redes Neurais foram configuradas com 2 a 3 camadas ocultas (até 256 neurônios), otimizador Adam e “early stopping” (20% dos dados para validação) para prevenir sobreajuste. A Árvore de Decisão foi submetida a “Grid Search” para controlar profundidade e requisitos mínimos de amostras por folha. A Regressão Linear foi expandida com técnicas de regularização “Ridge, Lasso e Elastic Net”, ajustando parâmetros alpha (0.1 a 10.0) e razão L1 para penalizar coeficientes e realizar seleção de atributos.
3. Resultados e Discussão
Análise descritiva dos dados
A análise exploratória dos 55.690 registros da taxa de evasão escolar em cidades brasileiras, no período de 2011 a 2020, revelou a distribuição das taxas de evasão ao longo do currículo escolar. Observou-se que as maiores taxas de evasão concentram-se nos 9º ano do Ensino Fundamental, e nos 1º e 2º anos do Ensino Médio, conforme ilustrado na Figura 1. A Tabela 2 evidencia a presença de outliers, indicando que algumas cidades apresentaram índices de evasão significativamente superiores à média nacional em anos específicos.
Figura 1. Distribuição da taxa de evasão por série (2011-2020)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Tabela 2. Mínimo e máximo da taxa de evasão por Série escolar (2011-202)
| Características | Regressão Linear | Árvore de Decisão | “Random Forest” | Redes Neurais |
|---|---|---|---|---|
| Interpretabilidade | Alto | Alto | Médio | Baixo |
| Complexidade | Baixo | Médio | Alto | Muito Alto |
| Risco de “Overfitting” | Baixo | Alto | Baixo | Médio |
| Adequação Não-Linear | Não | Sim | Sim | |
| Custo Computacional | Baixo | Médio | Alto | Muito Alto |
Fonte: Resultados originais da pesquisa.
A transformação dos 2.370.968 registros do censo escolar para agregação por município permitiu identificar disparidades nas variáveis, conforme sumarizado na Tabela 3. As variáveis categóricas de infraestrutura foram processadas via one-hot encoding, e as quantitativas (docentes, turmas) normalizadas em taxas por matrículas, para refletir a densidade de recursos em relação ao volume de alunos por localidade.
Tabela 3. Sumário das variáveis após limpeza e remoção VIF (dados padronizados)
| Série | 2011 Média (%) | 2011 Max (%) | 2012 Média (%) | 2012 Max (%) | 2013 Média (%) | 2013 Max (%) | 2014 Média (%) | 2014 Max (%) | 2015 Média (%) | 2015 Max (%) | 2016 Média (%) | 2016 Max (%) | 2017 Média (%) | 2017 Max (%) | 2018 Média (%) | 2018 Max (%) | 2019 Média (%) | 2019 Max (%) | 2020 Média (%) | 2020 Max (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| F1 | 0.93 | 32.6 | 0.84 | 30.6 | 0.78 | 43.3 | 0.8 | 26.2 | 0.76 | 22.5 | 0.68 | 28.9 | 0.66 | 16.1 | 0.64 | 31.1 | 0.71 | 24.8 | 0.85 | 42 |
| F2 | 1.13 | 35.4 | 1 | 34.4 | 0.87 | 28.7 | 0.86 | 15.7 | 0.84 | 29.1 | 0.7 | 19.3 | 0.71 | 23.9 | 0.65 | 22 | 0.67 | 19.1 | 0.82 | 41.7 |
| F3 | 1.36 | 33.5 | 1.16 | 39.5 | 1.06 | 30.9 | 1.06 | 17.1 | 0.98 | 31.2 | 0.87 | 16.2 | 0.85 | 19.1 | 0.8 | 28.9 | 0.76 | 14.8 | 0.87 | 37.3 |
| F4 | 1.59 | 37.7 | 1.47 | 40.4 | 1.31 | 30.8 | 1.29 | 22.7 | 1.25 | 18.2 | 1.05 | 19.4 | 1.07 | 25.7 | 0.97 | 34.9 | 0.93 | 16.8 | 0.89 | 44.8 |
| F5 | 2.64 | 52.9 | 2.37 | 50.5 | 2.18 | 30.5 | 2.18 | 29.1 | 2.01 | 21.9 | 1.83 | 48 | 1.73 | 24.3 | 1.65 | 30.6 | 1.56 | 55.2 | 1.94 | 55.8 |
| F6 | 4.58 | 55.9 | 4.36 | 34.2 | 4.06 | 27.2 | 3.95 | 49.6 | 3.55 | 33.1 | 3.22 | 47.3 | 3.2 | 25.6 | 3.2 | 27 | 2.4 | 31.6 | 2.18 | 29.1 |
| F7 | 4.84 | 39.2 | 4.71 | 57.1 | 4.61 | 30.5 | 4.48 | 25.2 | 4.03 | 39.7 | 3.61 | 22 | 3.64 | 25 | 3.86 | 25 | 2.72 | 19.1 | 2.46 | 34.9 |
| F8 | 5.9 | 49.3 | 5.54 | 31.2 | 5.18 | 37.3 | 5.18 | 43.8 | 4.5 | 35.7 | 4.36 | 25.7 | 4.12 | 24.8 | 4.43 | 44.9 | 3.16 | 30.3 | 2.84 | 50 |
| F9 | 8.38 | 68.6 | 8.31 | 55.8 | 7.79 | 52.9 | 8.19 | 66.6 | 7.17 | 57.6 | 6.7 | 53.3 | 6.8 | 52.1 | 7.14 | 45.2 | 5.15 | 47 | 6.84 | 70.5 |
| M1 | 14.04 | 48.5 | 13.8 | 60 | 13.63 | 45.5 | 13 | 41.8 | 11.99 | 57.1 | 11.92 | 55.6 | 11.34 | 61.8 | 13.67 | 56 | 8.89 | 47.7 | 8.29 | 78.9 |
| M2 | 11.95 | 72.4 | 11.79 | 92.9 | 11.52 | 58.8 | 12.17 | 52.3 | 10.11 | 85.7 | 10.65 | 100 | 10.29 | 66.7 | 11.57 | 58.8 | 8.09 | 81.2 | 7.64 | 97.7 |
| M3 | 6.85 | 57.7 | 6.61 | 81.4 | 6.09 | 39.7 | 6.05 | 58.3 | 5.47 | 41.9 | 5.27 | 42 | 5.46 | 57.6 | 6.08 | 50 | 3.98 | 41 | 2.91 | 75.4 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa.
A análise de correlação de Pearson, apresentada na Figura 2, revelou que diversas variáveis de infraestrutura escolar, como a presença de quadras, banda larga, laboratório de informática e a inexistência de fornecimento de energia e esgoto, apresentaram alta correlação com a taxa de evasão.
Figura 2. Matriz de correlação das variáveis analisadas após VIF

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A modelagem preditiva foi iniciada com a regressão linear, que avaliou de forma simplificada a influência da infraestrutura e dos recursos humanos na evasão escolar. Contudo, este modelo demonstrou baixa capacidade de predição, com um R² inferior a 20%, valor considerado baixo (Cohen, J. 1988).
Implementação dos modelos
Este estudo implementou e comparou quatro modelos de Machine Learning: Regressão Linear, Árvores de Decisão, Random Forest e Redes Neurais. A Tabela 4 apresenta uma comparação técnica entre esses algoritmos, destacando características como interpretabilidade, complexidade, risco de overfitting, adequação não-linear e custo computacional. O modelo Random Forest se destacou por equilibrar a capacidade de mapear padrões não lineares da evasão escolar com um risco controlado de sobreajuste, resultando em métricas de erro inferiores aos demais métodos testados.
Tabela 4. Característica dos modelos de ML aplicados para análise e predição da evasão escolar
| Variável | Descrição da Variável |
|---|---|
| CO_MUNICIPIO | Código do Município |
| NU_ANO_CENSO | Ano do Censo |
| TX_EV_FUN | Taxa de evasão do Ensino Fundamental |
| TX_EV_MED | Taxa de evasão do Ensino Médio |
| TX_EV_FUN_1 | Taxa de evasão do 1 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_2 | Taxa de evasão do 2 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_3 | Taxa de evasão do 3 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_4 | Taxa de evasão do 4 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_5 | Taxa de evasão do 5 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_6 | Taxa de evasão do 6 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_7 | Taxa de evasão do 7 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_8 | Taxa de evasão do 8 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_FUN_9 | Taxa de evasão do 9 ano do Ensino Fundamental |
| TX_EV_MED_1 | Taxa de evasão do 1 ano do Ensino Médio |
| TX_EV_MED_2 | Taxa de evasão do 2 ano do Ensino Médio |
| TX_EV_MED_3 | Taxa de evasão do 3 ano do Ensino Médio |
Fonte: elaborado pelos autores
A Tabela 5 apresenta as métricas de desempenho dos modelos após o filtro VIF e padronização. Para o Ensino Fundamental, o erro quadrático médio (MSE) foi de aproximadamente 0,002 para todos os modelos, e o coeficiente de determinação (R²) variou entre 0,320 e 0,530, considerado substancial (Cohen, J. 1988). Isso indica que entre 32% e 53% da variabilidade dos dados pode ser explicada pelas variáveis independentes. Para o Ensino Médio, o MSE variou de 0,022 a 0,018, e o R² entre 0,10 e 0,25, considerado fraco e moderado (Cohen, J. 1988), sugerindo menor poder de explicação.
Tabela 5. Resultados dos Modelos: Resumo Estatístico após Filtro VIF e Padronização
| Variáveis | Média | Desvio Padrão | Mínimo | Máximo |
|---|---|---|---|---|
| TX_EV_FUN | 0.03 | 0.02 | 0.00 | 0.33 |
| TX_EV_MED | 0.10 | 0.05 | 0.00 | 0.66 |
| IN_AGUA_INEXISTENTE | 0.02 | 0.08 | 0.00 | 0.92 |
| IN_BANDA_LARGA | 0.43 | 0.30 | 0.00 | 1.00 |
| IN_BIBLIOTECA | 0.29 | 0.24 | 0.00 | 1.00 |
| IN_COZINHA | 0.77 | 0.21 | 0.02 | 1.00 |
| IN_EDUCACAO_INDIGENA | 0.01 | 0.06 | 0.00 | 0.98 |
| IN_ENERGIA_INEXISTENTE | 0.02 | 0.07 | 0.00 | 0.94 |
| IN_ESGOTO_INEXISTENTE | 0.03 | 0.09 | 0.00 | 0.92 |
| IN_LABORATORIO_CIENCIAS | 0.08 | 0.10 | 0.00 | 1.00 |
| IN_LABORATORIO_INFORMATICA | 0.36 | 0.23 | 0.00 | 1.00 |
| IN_QUADRA_ESPORTES | 0.28 | 0.22 | 0.00 | 1.00 |
| IN_SALA_LEITURA | 0.15 | 0.18 | 0.00 | 1.00 |
| IN_ESTADUAL | 0.21 | 0.14 | 0.00 | 1.00 |
| IN_RURAL | 0.47 | 0.31 | 0.00 | 1.00 |
| TX_DOC_MAT_FUND | 0.07 | 0.02 | 0.03 | 0.24 |
| TX_DOC_MAT_MED | 0.09 | 0.04 | 0.00 | 1.00 |
| TX_DOC_TUR_MAT_FUND | 0.00 | 0.00 | 0.00 | 0.02 |
| TX_DOC_TUR_MAT_MED | 0.01 | 0.01 | 0.00 | 1.00 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Os resultados para o Ensino Fundamental indicaram desempenho superior e maior estabilidade, com o modelo Random Forest apresentando o maior R² (0,5349), explicando mais de 53% da variância dos dados, além de menores erros absolutos (MAE = 0,0086) e quadráticos (RMSE = 0,0123). A validação cruzada confirmou a consistência do modelo, com um baixo desvio padrão (Std = 0,00019) no Random Forest, indicando que o modelo não é sensível a variações na amostragem de treino.
Para o Ensino Médio, os modelos selecionados não se mostraram tão eficientes, com desempenho inferior em comparação ao Ensino Fundamental. O Random Forest, embora o melhor, obteve um R² de apenas 0,2576. Isso sugere que a evasão no Ensino Médio pode ter uma natureza mais estocástica ou depender de variáveis externas não capturadas no conjunto de dados atual, como fatores socioeconômicos e a idade do aluno (Salata, 2019).
A análise comparativa do RMSE revelou uma diferença acentuada entre as etapas de ensino, com um erro de 0,0123 para o Ensino Fundamental e 0,0430 para o Ensino Médio. Essa diferença, de quase quatro vezes na magnitude do erro residual, indica que a capacidade preditiva do modelo é superior no Ensino Fundamental. A evasão no Ensino Médio parece ser um fenômeno de maior variabilidade e complexidade, possivelmente influenciado por fatores exógenos não integralmente capturados pelos dados de infraestrutura escolar (Shirasu, 2014; Machado et al., 2024). O modelo para o Ensino Fundamental pode fornecer mais subsídios para decisões de investimento em políticas públicas preventivas, enquanto o erro elevado no Ensino Médio sugere a necessidade de variáveis adicionais ou abordagens mais segmentadas.
A regressão linear apresentou o desempenho mais baixo (R² = 0,1015), indicando que a relação entre as variáveis é possivelmente não linear, o que se alinha com a complexidade do fenômeno e a influência de fatores não considerados no modelo, dificultando o ajuste por modelos lineares.
Interpretabilidade por SHAP
Os gráficos de SHAP Bee Swarm (Figuras 3 e 4) foram utilizados para interpretar a contribuição das variáveis. Pontos vermelhos (valores altos) à esquerda indicam fatores protetivos que reduzem a taxa de evasão, enquanto pontos vermelhos à direita indicam fatores de risco que aumentam a taxa de evasão.
Figura 3. Figura Resumo “SHAP”: Contribuições por “feature Random forest” – Ensino Fundamental

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Figura 4. Resumo “SHAP”: Contribuições por “feature Random forest” – Ensino Médio

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise via SHAP demonstrou que, embora a Regressão Linear aponte corretamente a direção das correlações (por exemplo, banda larga reduz evasão), ela subestima a heterogeneidade do sistema educacional. Os modelos de Redes Neurais e Random Forest se distinguiram por capturar a magnitude variável desses impactos (Figuras 3 e 4). A análise gráfica revelou que a ausência de infraestrutura básica, como energia e esgoto, não gera um prejuízo linear, mas sim exponencial em contextos de alta vulnerabilidade, atuando como fator excludente. Ao ponderar a infraestrutura física (IN_QUADRA_ESPORTES) e indicadores de gestão de turma (TX_DOC), o Random Forest ofereceu um diagnóstico mais holístico, justificando sua escolha como modelo de referência para políticas públicas.
A análise SHAP revelou as alavancas de combate à evasão. No Ensino Fundamental, a infraestrutura básica (energia, quadra) tem grande importância correlacionada, indicando nível de investimento e desenvolvimento socioeconômico da cidade. No Ensino Médio, fatores associados à qualidade pedagógica (TX_DOC) e tecnológica (IN_LABORATORIO_INFORMATICA) apresentaram maior contribuição. Isso sugere que investir nessas instalações e em recursos humanos pode contribuir para a diminuição da evasão, embora não resolva o problema por completo. É importante notar que esta análise estabeleceu correlações, e não causalidades.
A avaliação de SHAP permitiu entender a contribuição de infraestruturas escolares na redução da evasão. Por exemplo, a ausência de quadra de esportes aumentou a previsão de evasão em cerca de 1 ponto percentual. Essa análise pode auxiliar gestores municipais a identificar escolas com fatores que contribuem para a evasão e a direcionar investimentos para a retenção de alunos.
Em síntese, este estudo demonstrou que o modelo Random Forest apresentou o melhor desempenho na previsão da taxa de evasão escolar, especialmente para o Ensino Fundamental. Os resultados indicaram que a evasão no Ensino Fundamental está fortemente correlacionada com a infraestrutura escolar, enquanto no Ensino Médio, a complexidade do fenômeno e a influência de fatores socioeconômicos e etários são mais proeminentes. A interpretabilidade via SHAP destacou a importância de infraestruturas básicas e recursos pedagógicos como preditores da evasão, oferecendo subsídios para o desenvolvimento de políticas públicas direcionadas à permanência dos alunos.
4. Conclusão
Este estudo teve como objetivo prever a evasão escolar por cidade brasileira por meio de técnicas de aprendizado de máquina e identificar os determinantes da estrutura das escolas nesse fenômeno. Verificou-se que o modelo Random Forest apresentou o melhor desempenho preditivo, especialmente para o Ensino Fundamental, com um erro quadrático médio de aproximadamente 0,002 e um coeficiente de determinação (R²) entre 0,320 e 0,530. Para o Ensino Médio, a performance foi inferior, com R² variando entre 0,10 e 0,25, o que sugeriu uma maior complexidade do fenômeno nessa etapa. A análise de interpretabilidade via SHAP revelou que a presença de infraestrutura básica, como quadras de esporte, e a qualidade pedagógica, como a taxa de docentes, são fatores altamente correlacionados com a redução da evasão. A ausência de infraestrutura essencial, como energia e esgoto, demonstrou um impacto exponencial na elevação da taxa de evasão, atuando como um fator excludente em contextos de alta vulnerabilidade.
A principal contribuição deste trabalho reside na oferta de uma ferramenta analítica robusta, o modelo Random Forest, que pode auxiliar gestores educacionais na tomada de decisões estratégicas para direcionar investimentos em políticas públicas preventivas. Contudo, o estudo apresentou limitações, especialmente na predição da evasão no Ensino Médio, onde fatores socioeconômicos e a idade do aluno, não integralmente capturados pelos dados de infraestrutura escolar, parecem exercer maior influência. Para estudos futuros, recomenda-se a integração de bases de dados socioeconômicas, como as do IBGE e CadÚnico, visando aprimorar o poder preditivo para o Ensino Médio. Sugere-se também a evolução da metodologia para abordagens de inferência causal, explorando a dimensão temporal dos dados para verificar se intervenções específicas em infraestrutura precedem efetivamente a redução das taxas de evasão, o que pode refinar as diretrizes para a alocação eficiente de recursos públicos na educação brasileira.
Referências Bibliográficas
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Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 1988. Disponível em: . Acesso em: 1 set. 2025.
IBGE. 2024. PNAD Contínua: Educação 2024: informativo. Disponível em: .
Oliveira, M.Z. de; Moreira, T. da C.; Machado, W. de L.; & Machado, J.S. 2024. Identificação de Fatores de Risco para Evasão Escolar em Ensino Fundamental e Médio. Avaliação Psicológica 2
Ramos, A.C.; & Gonçalves Junior, O. 2024. Abandono e evasão escolar sob a ótica dos sujeitos envolvidos. Educação e Pesquisa 50: e268037.
Santos, M.C.S.; Delatorre, L.R.; Ceccato, M. das G.B.; & Bonolo, P. de F. 2019. Programa Bolsa Família e indicadores educacionais em crianças, adolescentes e escolas no Brasil: revisão sistemática. Ciência & Saúde Coletiva 24: 2233-2247.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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