24 de julho de 2026
Plataforma Modular para Desenvolvimento de Soluções de Visão Computacional em Ambientes Industriais
Catrine dos Santos Oliveira; Gabriel Gomes de Oliveira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600677
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A visão computacional consolidou-se como tecnologia estratégica para a automação e otimização de processos industriais, impulsionada pelos avanços do aprendizado de máquina e pela digitalização. Contudo, sua implementação em ambientes industriais apresentou desafios relacionados à complexidade técnica, fragmentação de ferramentas e alta demanda por especialização ao longo do ciclo de vida dos modelos. Nesse contexto, desenvolveu-se uma plataforma modular e extensível para o treinamento e a validação de modelos de visão computacional aplicados ao domínio industrial. A proposta integrou, em um fluxo unificado, as etapas de aquisição de dados, anotação, pré-processamento, treinamento, avaliação e disponibilização de modelos, fundamentando-se em princípios de Engenharia de Software e práticas de MLOps. A metodologia adotada caracterizou-se como exploratória e descritiva, com abordagem mista, que envolveu revisão bibliográfica, desenvolvimento iterativo da plataforma e validação em ambiente controlado. Como resultados, foram desenvolvidas a arquitetura base do sistema, a infraestrutura de backend e os serviços de processamento, a modelagem da estrutura de dados e os módulos funcionais de frontend. Validou-se, adicionalmente, o fluxo básico de funcionamento da plataforma utilizando datasets públicos e fontes de imagem em tempo real. Os resultados obtidos demonstraram a viabilidade técnica da abordagem proposta, evidenciando que a arquitetura definida oferece suporte ao desenvolvimento modular, à validação incremental e à evolução contínua da plataforma.
Palavras-chave: Aprendizado de máquina; Arquitetura de software; Automação industrial; MLOps; Sistemas distribuídos.
1. Introdução
A visão computacional tem se consolidado como uma tecnologia de relevância estratégica no cenário industrial contemporâneo, impulsionada pelos avanços exponenciais no aprendizado de máquina. Nos últimos anos, observou-se uma melhoria significativa no desempenho e na confiabilidade dos sistemas de visão computacional, o que permitiu sua ampla difusão em diversas aplicações práticas (Szeliski, 2022). Esse progresso é intrinsecamente ligado ao desenvolvimento contínuo das redes neurais, que possibilitaram avanços notáveis na interpretação automática de imagens e vídeos, viabilizando a classificação, detecção de objetos e reconhecimento de padrões visuais complexos (Goodfellow et al., 2016).
Essa evolução tecnológica se alinha diretamente com os princípios da Indústria 4.0, que preconiza a integração de sistemas produtivos com tecnologias digitais para otimizar a eficiência operacional, a qualidade e a produtividade (Dalenogare et al., 2018). No ambiente industrial, a visão computacional oferece uma gama diversificada de soluções. Exemplos incluem a visão tridimensional para indexação de objetos, essencial para a manipulação de peças por robôs colaborativos; o rastreamento e a contagem para controle de estoque; medições automáticas em inspeções dimensionais para conformidade com especificações técnicas; a detecção de defeitos em inspeções de qualidade; e a identificação de pessoas em áreas de risco. Tais aplicações são fundamentais para a redução de perdas, a maximização da eficiência e a manutenção dos padrões de qualidade em processos automatizados (Szeliski, 2022; Voulodimos et al., 2018; Malamas et al., 2003).
Apesar do vasto potencial, a implementação de soluções de visão computacional em ambientes industriais ainda enfrenta desafios substanciais. A complexidade técnica inerente a essas soluções, a fragmentação de ferramentas disponíveis no mercado e a exigência de um alto nível de especialização ao longo de todo o ciclo de vida dos modelos são barreiras significativas. Tarefas como coleta e anotação de dados, pré-processamento, treinamento e validação de modelos demandam conhecimento técnico aprofundado, o que impacta diretamente a escalabilidade e a padronização dos sistemas (Russakovsky et al., 2015). Além disso, muitas ferramentas existentes para anotação e treinamento dependem de infraestrutura em nuvem, o que pode limitar a flexibilidade para empresas que necessitam de soluções “on-premises”.
A complexidade não se restringe apenas ao desenvolvimento, mas também à garantia de um processo estruturado para a disponibilização e manutenção dessas soluções em ambientes produtivos. A ausência de mecanismos robustos de versionamento, monitoramento e integração entre as diversas etapas de desenvolvimento e implantação pode comprometer a estabilidade e a evolução contínua dos modelos de Inteligência Artificial ao longo do tempo (Kreuzberger et al., 2023). Nesse contexto, a adoção de práticas de Machine Learning Operations (MLOps) emerge como um pilar fundamental para assegurar a confiabilidade, a rastreabilidade e a continuidade operacional desses sistemas, promovendo uma gestão mais eficiente do ciclo de vida dos modelos.
Diante desses desafios e da crescente demanda por soluções de visão computacional eficientes e escaláveis, torna-se imperativo o desenvolvimento de ferramentas que simplifiquem e padronizem o ciclo de vida dos modelos. A fragmentação de ferramentas e a necessidade de equipes altamente especializadas para cada etapa do processo resultam em atrito operacional e custos elevados. Uma plataforma integrada pode mitigar esses problemas, oferecendo um fluxo de trabalho unificado que abranja desde a aquisição e anotação de dados até o treinamento, avaliação e implantação de modelos. Tal solução visa não apenas aprimorar a eficiência, mas também democratizar o acesso à visão computacional, permitindo que profissionais com diferentes níveis de especialização possam desenvolver e gerenciar soluções de forma mais autônoma.
A relevância deste estudo reside na aplicação de princípios de Engenharia de Software para mitigar a complexidade, o tempo e o esforço técnico associados à construção de soluções de visão computacional. Ao simplificar as etapas de desenvolvimento, teste e implantação de modelos, busca-se reduzir a lacuna entre o avanço técnico e a aplicação eficiente dessas tecnologias na indústria, promovendo padronização, maturidade e acessibilidade. Assim, este trabalho tem como objetivo geral desenvolver uma plataforma modular e extensível para treinamento e validação de modelos de visão computacional aplicados ao contexto industrial, integrando as etapas de aquisição de dados, anotação, pré-processamento, treinamento, avaliação e disponibilização de modelos em um fluxo unificado.
2. Material e Métodos
A pesquisa realizada caracterizou-se pela natureza exploratória e descritiva, com uma abordagem metodológica mista. No aspecto exploratório, buscou-se analisar soluções existentes e levantar requisitos, enquanto o caráter descritivo focou na documentação da arquitetura, módulos e funcionamento da plataforma. O delineamento metodológico adotado consistiu em uma Pesquisa-Ação e um Estudo de Caso Simplificado, envolvendo o desenvolvimento iterativo da plataforma e sua validação em um cenário aplicado, integrando todas as etapas do ciclo de vida dos modelos de visão computacional.
A unidade de análise central deste estudo foi a plataforma modular e extensível, projetada para o treinamento e a validação de modelos de visão computacional no contexto industrial. O desenvolvimento e os testes foram conduzidos em um ambiente computacional controlado, simulando as condições operacionais de um cenário industrial. Os procedimentos foram executados durante o período de elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, conforme o cronograma acadêmico estabelecido.
Para a coleta de dados, empregaram-se pesquisa bibliográfica, observação/experimentação e levantamento de dados secundários. A pesquisa bibliográfica consistiu na revisão de literatura especializada e documentação técnica sobre engenharia de software, Machine Learning Operations (MLOps) e visão computacional. Na observação/experimentação, executaram-se testes do pipeline da plataforma utilizando “datasets” públicos e fontes de imagem em tempo real, inicialmente com a câmera integrada de um computador pessoal e, posteriormente, com uma câmera de vigilância conectada à rede local.
O levantamento de dados secundários incluiu a utilização de “datasets” públicos e a documentação de frameworks como PyTorch, TensorFlow e YOLO, que subsidiaram a implementação e validação. Os procedimentos de desenvolvimento iniciaram-se com a análise de ferramentas e requisitos, por meio de revisão bibliográfica e avaliação de plataformas existentes. Em seguida, realizou-se a implementação modular dos pipelines de aquisição, anotação, pré-processamento, treinamento, avaliação e implantação.
A validação da plataforma ocorreu por meio do treinamento de modelos com “datasets” públicos e da avaliação do funcionamento da plataforma a partir de imagens e fluxos de vídeo capturados em tempo real. Os testes iniciais simularam uma câmera Internet Protocol (IP) usando a câmera integrada de um computador pessoal, e a validação posterior utilizou uma câmera conectada à rede, aproximando o ambiente de teste do contexto industrial.
A arquitetura da plataforma foi desenvolvida com Python para os serviços de processamento, como treinamento e inferência de modelos, e NestJS para o “backend” de orquestração. Para a persistência de dados estruturados, empregou-se o Prisma ORM em conjunto com o banco de dados relacional PostgreSQL. O armazenamento de arquivos de grande volume, como imagens e modelos treinados, foi realizado por meio de um mecanismo de “object storage” baseado na tecnologia MinIO.
A estrutura de dados da plataforma foi modelada em PostgreSQL para organizar informações relacionadas a projetos, câmeras, “datasets”, “frames”, anotações e treinamentos. Campos no formato JSON foram utilizados para armazenar informações dinâmicas, como configurações de câmeras e parâmetros de treinamento, conferindo flexibilidade à representação dos dados e facilitando a evolução do esquema.
A técnica de análise dos dados concentrou-se na validação do fluxo completo de funcionamento da plataforma. Avaliou-se a integração entre os diferentes módulos, desde a aquisição de dados até a aplicação dos modelos em novos dados. O desempenho e a aplicabilidade industrial da solução foram interpretados a partir da observação do funcionamento integrado e da capacidade da plataforma de suportar o ciclo de desenvolvimento de soluções de visão computacional.
3. Resultados e Discussão
Os resultados obtidos neste estudo detalham o desenvolvimento e a validação da plataforma proposta, que visa otimizar o ciclo de vida de modelos de visão computacional em ambientes industriais. A análise abrange a arquitetura do sistema, a implementação da infraestrutura de <i>backend</i>, a estruturação do <i>pipeline</i> de MLOps, a modelagem da estrutura de dados, os módulos funcionais do <i>frontend</i> e a validação do fluxo de funcionamento. A abordagem adotada buscou mitigar a complexidade e a fragmentação de ferramentas, aspectos críticos identificados na literatura (Russakovsky et al., 2015), oferecendo uma solução integrada que padroniza as etapas de desenvolvimento e implantação.
A arquitetura da plataforma foi concebida com uma clara separação de responsabilidades, distinguindo o <i>frontend web</i>, o <i>backend</i>, os serviços de processamento e os mecanismos de armazenamento. Essa divisão fundamental permite um desenvolvimento modular eficiente, facilita a validação incremental de componentes e suporta a evolução contínua da solução. A estrutura reflete princípios de arquiteturas orientadas a serviços e sistemas distribuídos contemporâneos, onde a decomposição em unidades independentes é crucial para gerenciar a complexidade e permitir o desenvolvimento isolado de componentes (Paudel et al., 2026). Tal organização é essencial para a escalabilidade e a flexibilidade exigidas em aplicações de visão computacional com processamento intensivo de dados (De Barrena et al., 2025).
A infraestrutura de <i>backend</i> foi implementada como o elemento central de orquestração do sistema, gerenciando projetos, <i>datasets</i> e treinamentos, além de coordenar a comunicação com os serviços especializados. O <i>backend</i>, desenvolvido em NestJS, foca na orquestração e no gerenciamento do fluxo da aplicação, enquanto os serviços de processamento, implementados em Python, concentram-se nas funcionalidades de processamento de dados e treinamento de modelos de visão computacional. Essa combinação tecnológica aproveita os pontos fortes de cada linguagem, promovendo flexibilidade e eficiência, e está alinhada com a especialização tecnológica dos módulos, o que otimiza tanto o desenvolvimento quanto a execução das tarefas.
Para a persistência dos dados, o <i>backend</i> emprega o Prisma ORM, que, em conjunto com o banco de dados relacional PostgreSQL, assegura a consistência das informações e a evolução controlada do esquema de dados. Essa escolha é vital para aplicações de visão computacional que demandam rastreabilidade e versionamento ao longo do ciclo de vida dos modelos. Os serviços de processamento incluem funcionalidades essenciais como captura de <i>frames</i>, treinamento de modelos e integração com o armazenamento de objetos, viabilizando a execução das etapas fundamentais do <i>pipeline</i> de visão computacional. A infraestrutura foi projetada para facilitar a expansão futura, permitindo a inclusão de novos algoritmos e configurações sem reestruturação significativa.
O funcionamento da plataforma é estruturado como um <i>pipeline</i> de dados, integrando as etapas de aquisição, anotação, pré-processamento, treinamento, avaliação e inferência de modelos de visão computacional. Essa organização unificada reduz a fragmentação do processo, que frequentemente ocorre em abordagens tradicionais com múltiplas ferramentas desconectadas. Conceitualmente, o <i>pipeline</i> pode ser interpretado como um processo estruturado alinhado aos princípios de <i>Business Process Management</i> (BPM), o que melhora a eficiência, o controle e a padronização das operações (Lizano-Mora et al., 2021). A evolução para o <i>Intelligent Business Process Management</i> (iBPM) sugere a incorporação de funcionalidades inteligentes, como anotação assistida, para reduzir a intervenção manual e aumentar a automação (Arno e Gabryelczyk, 2025).
A plataforma incorpora características associadas às práticas de MLOps, fundamentais para a rastreabilidade e o versionamento dos dados e modelos. A estrutura de armazenamento permite acompanhar a evolução dos <i>datasets</i> e dos treinamentos, possibilitando a reprodução de experimentos e o controle do ciclo de vida dos modelos. Essas funcionalidades são cruciais em sistemas de aprendizado de máquina, onde a gestão adequada dos dados e modelos impacta diretamente a confiabilidade e a manutenção das soluções (Kreuzberger et al., 2023). A integração entre as etapas do <i>pipeline</i> contribui para uma representação mais consistente do processo, favorecendo a efetividade das soluções desenvolvidas (Lee et al., 2020).
A estrutura de dados da plataforma foi modelada em PostgreSQL, permitindo o armazenamento organizado de informações cruciais como projetos, câmeras, <i>datasets</i>, <i>frames</i>, anotações e treinamentos. Essa estrutura é fundamental para a rastreabilidade dos dados e o versionamento dos modelos treinados ao longo do tempo. Embora baseada em um modelo relacional, a estrutura utiliza campos no formato JSON para informações dinâmicas, como configurações de câmeras e parâmetros de treinamento. Essa flexibilidade é vital em aplicações de visão computacional, onde diferentes modelos podem exigir estruturas de dados distintas, suportando a heterogeneidade sem uma estrutura fixa de atributos (Lv et al., 2009; Barret et al., 2024).
A flexibilidade do armazenamento é equilibrada com a consistência das camadas de aplicação por meio do uso de <i>Data Transfer Objects</i> (DTOs) no <i>backend</i> e interfaces tipadas no <i>frontend</i>. Essa abordagem garante previsibilidade no acesso aos dados e facilita a manutenção e evolução do sistema. Para o armazenamento de arquivos de grande volume, como imagens e modelos treinados, foi adotado um mecanismo de <i>object storage</i> baseado na tecnologia MinIO, integrado aos serviços de processamento e ao <i>backend</i>. Essa separação entre dados estruturados e arquivos de grande volume contribui para a escalabilidade e melhora o desempenho no acesso e manipulação desses dados, aspecto crucial em sistemas distribuídos que lidam com grandes volumes (Liao et al., 2019).
No <i>frontend web</i> da plataforma, foram implementados módulos funcionais para gerenciamento de projetos, coleta de dados, anotação e treinamento de modelos. Esses módulos permitem ao usuário configurar projetos, capturar dados de imagem, realizar anotações, exportar <i>datasets</i>, treinar e executar inferências por meio de uma interface gráfica intuitiva. O fluxo de utilização é estruturado a partir do gerenciamento de projetos, permitindo ao usuário visualizar e selecionar projetos existentes e acessar as diferentes etapas do processo de desenvolvimento de forma sequencial e orientada. As interfaces foram projetadas para simplificar o uso, mesmo para profissionais não especialistas em IA.
Apesar da organização sequencial, o fluxo não é restritivo, permitindo ao usuário retornar a etapas anteriores, realizar novas iterações e gerenciar diferentes versões de <i>datasets</i> e modelos, mantendo a rastreabilidade entre os dados e os resultados. Mecanismos de otimização da interação do usuário, como atalhos e configurações de preferências, foram implementados na anotação de dados para reduzir ações manuais e tornar o processo mais ágil. Os módulos encontram-se operacionais, possibilitando a execução do fluxo básico de criação e validação de soluções de visão computacional em um único ambiente, o que representa um avanço significativo na padronização e escalabilidade.
Inicialmente, a funcionalidade de exportação de <i>datasets</i> foi concebida para validação interna das anotações. Contudo, o desenvolvimento evoluiu para permitir a exportação completa dos <i>datasets</i>, incluindo imagens e anotações, em formatos amplamente utilizados como YOLO e COCO. Essa capacidade amplia a utilização dos dados em diferentes contextos de treinamento e validação de modelos. Um diferencial implementado é a geração de <i>Uniform Resource Locators</i> (URLs) pré-assinadas para acesso direto aos arquivos armazenados, o que contribui para a redução do tempo de geração dos arquivos exportados e melhora o desempenho do sistema, especialmente com grandes volumes de dados (Liao et al., 2019).
Essa evolução da funcionalidade de exportação promove maior autonomia e flexibilidade para o usuário, permitindo que os <i>datasets</i> sejam utilizados tanto dentro quanto fora da plataforma. Em ambientes industriais, essa característica é relevante para garantir a continuidade das operações em situações de indisponibilidade de recursos ou necessidade de manutenção, além de possibilitar que usuários com maior nível técnico realizem experimentações específicas. A solução, ao oferecer suporte ao fluxo completo de desenvolvimento, evita o acoplamento a um único ambiente, favorecendo a portabilidade e reutilização dos dados ao longo do ciclo de desenvolvimento.
Como complemento às etapas de treinamento, a plataforma permite a execução de inferência utilizando os modelos gerados, possibilitando a análise de novos dados a partir das soluções desenvolvidas. A inferência pode ser realizada tanto por meio da importação de imagens quanto pela conexão com câmeras, permitindo a avaliação do desempenho dos modelos em diferentes cenários sem a necessidade de coleta manual. O processo de inferência é integrado ao <i>backend</i> e aos serviços de processamento, suportando a execução de modelos de detecção de objetos baseados em <i>bounding boxes</i> e aplicações voltadas à detecção de pessoas em áreas restritas.
A implementação dessa funcionalidade possibilitou a validação do fluxo completo da plataforma, desde a coleta de dados até a aplicação dos modelos em novos dados. Os testes realizados demonstraram o funcionamento integrado entre os módulos, evidenciando a capacidade da solução de suportar o ciclo de desenvolvimento e aplicação de modelos de visão computacional. Durante os testes em tempo real utilizando câmeras, foi possível validar a viabilidade da execução de inferência contínua na plataforma, com funcionamento adequado em cenários controlados e com baixo volume de requisições. Contudo, a exploração dessa funcionalidade em cenários com múltiplas conexões simultâneas e maior volume de dados não foi aprofundada nesta etapa do trabalho, indicando a necessidade de evolução no gerenciamento de <i>streams</i> e no tratamento de erros para sua aplicação em contextos industriais mais exigentes.
A validação do fluxo da plataforma envolveu um processo completo que contemplou as etapas de aquisição de dados, armazenamento, anotação, treinamento e inferência, com o objetivo de verificar a integração entre os diferentes módulos do sistema. Inicialmente, os testes foram conduzidos em um ambiente controlado, utilizando a câmera integrada de um computador pessoal para simular a entrada de dados por meio de uma câmera IP. Essa abordagem permitiu validar o funcionamento básico da plataforma e identificar possíveis ajustes no fluxo de processamento, consolidando a base para testes mais complexos.
Posteriormente, o fluxo foi avaliado com o uso de uma câmera conectada à rede local, aproximando o cenário de teste de um contexto mais próximo ao ambiente industrial. Essa etapa possibilitou observar o comportamento da plataforma em condições mais realistas de operação, especialmente no que se refere à integração entre os componentes e ao processamento contínuo de dados. Os resultados obtidos demonstram a viabilidade da solução proposta, evidenciando que a arquitetura implementada é capaz de suportar o fluxo completo de desenvolvimento de aplicações de visão computacional. A realização de testes em diferentes níveis de complexidade contribuiu para a identificação de pontos de melhoria e para a consolidação da proposta como uma solução integrada e funcional.
Apesar dos resultados promissores e da validação do fluxo da plataforma, alguns aspectos ainda demandam evolução para sua aplicação em cenários mais exigentes. Entre eles, destaca-se o aprimoramento do gerenciamento de processamento em tempo real, especialmente em situações com múltiplas conexões simultâneas, cuja exploração não foi aprofundada nesta etapa do trabalho. Adicionalmente, a arquitetura da plataforma foi projetada para suportar a expansão para diferentes tipos de anotação e abordagens de visão computacional, por meio de uma estrutura de dados flexível e do uso de mecanismos de abstração, o que indica um caminho natural de evolução da solução proposta.
A plataforma proposta diferencia-se das abordagens existentes por integrar as etapas de coleta de dados, anotação, exportação, treinamento e inferência em um único ambiente, fundamentando-se no paradigma do iBPM (Arno e Gabryelczyk, 2025). Abordagens tradicionais frequentemente utilizam múltiplas ferramentas independentes, gerando atrito operacional e silos de dados, com um processo pouco estruturado e dependente de especialistas técnicos. A plataforma, por sua vez, oferece um fluxo centralizado e com suporte a testes, reduzindo a complexidade operacional e garantindo rastreabilidade nativa desde a coleta bruta até a inferência do modelo.
A execução de inferência, que em abordagens tradicionais é geralmente separada do ambiente de desenvolvimento, é integrada nativamente ao fluxo da plataforma. Além disso, a plataforma é estruturada para uso em ambiente industrial, diferentemente de soluções que não são necessariamente direcionadas. A flexibilidade e evolução são suportadas pela arquitetura modular e orientada a serviços, enquanto abordagens existentes dependem das ferramentas utilizadas isoladamente. Essa unificação do design do processo, desenvolvimento da aplicação e observabilidade em um fluxo contínuo e organizado reduz o atrito operacional e permite que usuários não especialistas, os “citizen developers”, configurem soluções sem dependência exclusiva de departamentos de Tecnologia da Informação.
A arquitetura modular adotada possibilita a separação entre os componentes de orquestração, processamento e armazenamento, mantendo o desacoplamento entre os serviços e permitindo sua evolução de forma independente. Essa característica diferencia a solução de abordagens menos estruturadas, nas quais a expansão de funcionalidades pode demandar alterações mais complexas no sistema (Kreuzberger et al., 2023; De Barrena et al., 2025). A integração do ciclo completo de desenvolvimento com mecanismos de rastreabilidade e versionamento dos dados e modelos alinha a plataforma a práticas contemporâneas de MLOps, superando a fragmentação de funcionalidades observada em ferramentas tradicionais.
De forma geral, os resultados obtidos indicam que a abordagem adotada é tecnicamente viável e coerente com os objetivos da pesquisa. A plataforma implementada foi capaz de suportar o fluxo básico de desenvolvimento de soluções de visão computacional, contemplando desde a coleta e anotação de dados até o treinamento e a execução de inferência. A validação do fluxo, realizada em diferentes cenários de teste, evidenciou o funcionamento integrado dos componentes do sistema, permitindo a execução contínua das etapas do processo sem a necessidade de ferramentas externas. Os resultados demonstram que a solução atende aos requisitos propostos, viabilizando a construção e aplicação de modelos de forma organizada e estruturada, o que representa um avanço significativo para a democratização e eficiência da visão computacional industrial.
4. Conclusão
O presente estudo teve como objetivo desenvolver uma plataforma modular e extensível para o treinamento e a validação de modelos de visão computacional aplicados ao contexto industrial, integrando as etapas de aquisição de dados, anotação, pré-processamento, treinamento, avaliação e disponibilização de modelos em um fluxo unificado. Verificou-se que a arquitetura da plataforma foi concebida com uma clara separação de responsabilidades, distinguindo o frontend web, o backend, os serviços de processamento e os mecanismos de armazenamento, o que permitiu um desenvolvimento modular eficiente. A infraestrutura de backend, implementada em NestJS, atuou como elemento central de orquestração, e os serviços de processamento, desenvolvidos em Python, concentraram-se nas funcionalidades de processamento de dados e treinamento de modelos. Para a persistência, utilizou-se PostgreSQL com Prisma ORM e MinIO para armazenamento de objetos, garantindo rastreabilidade e versionamento. Os módulos funcionais do frontend possibilitaram o gerenciamento de projetos, coleta e anotação de dados, treinamento e inferência por meio de uma interface intuitiva, no qual o modelo realiza a detecção conforme configurado. A validação do fluxo completo da plataforma, desde a aquisição de dados até a inferência, foi realizada com sucesso utilizando datasets públicos e fontes de imagem em tempo real, demonstrando a viabilidade técnica da abordagem proposta. A principal contribuição reside na redução da complexidade técnica e da fragmentação de ferramentas, oferecendo um ambiente unificado que padroniza o ciclo de vida dos modelos de visão computacional, alinhado às práticas de MLOps e ao paradigma do iBPM, o que favorece a escalabilidade e a acessibilidade para usuários não especialistas.
Apesar dos resultados promissores, identificou-se como limitação a necessidade de aprimoramento no gerenciamento de processamento em tempo real, especialmente em cenários com múltiplas conexões simultâneas, cuja exploração não foi aprofundada nesta etapa do trabalho. Contudo, a arquitetura da plataforma foi projetada para suportar a expansão para diferentes tipos de anotação e abordagens de visão computacional, por meio de uma estrutura de dados flexível e mecanismos de abstração. Sugere-se para estudos futuros o aprimoramento das estratégias de disponibilização dos modelos gerados, incluindo abordagens mais estruturadas de deploy, como a utilização de imagens base para diferentes cenários de aplicação e a execução de inferência em dispositivos de borda. Adicionalmente, a integração de assistentes baseados em inteligência artificial para auxiliar na definição de parâmetros operacionais e boas práticas representa um caminho promissor para reduzir ainda mais a complexidade técnica e apoiar a tomada de decisão. Conclui-se que a solução proposta contribui significativamente para a aproximação entre o desenvolvimento de modelos de visão computacional e sua aplicação prática em ambientes industriais, oferecendo uma abordagem estruturada, integrada e adaptável às demandas do contexto.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq
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