Artigo

27 de julho de 2026

Peregrinação no Caminho da Fé utilizando a Gestão de Projetos

Daniela dos Santos Souza; Priscila Fortes

DOI: 10.22167/2675-6528-202600694

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O planejamento de uma peregrinação, quando estruturado de forma improvisada, pode comprometer a integridade física do peregrino. Este trabalho teve como objetivo estruturar o planejamento de uma peregrinação no Caminho da Fé, aplicando as boas práticas de gerenciamento de projetos. Para isso, foram utilizados os artefatos das fases de iniciação e planejamento, conforme o Guia PMBOK, adaptando processos corporativos à realidade de um projeto pessoal, configurando-se como um estudo de caso descritivo. O planejamento proporcionou maior clareza na definição de atividades, prazos, custos e riscos envolvidos, contribuindo para a redução de incertezas e o aumento da previsibilidade da jornada, com destaque para a adaptação à realidade do peregrino. A análise de custos evidenciou o impacto dos equipamentos no orçamento total, e a análise de riscos permitiu antecipar situações críticas relacionadas à saúde, ao percurso e à logística. Verificou-se que a abordagem empregada aumentou a segurança, a organização e a capacidade de resposta em situações adversas. Concluiu-se que a utilização da gestão de projetos como abordagem estruturada representa um diferencial na condução de iniciativas pessoais, podendo ser replicada em outros projetos com características semelhantes, servindo como base para a continuidade das fases de execução, monitoramento e controle.

Palavras-chave: Caminho da Fé; Planejamento preditivo; Projetos pessoais; Riscos; Segurança.

1. Introdução

Projetos representam instrumentos essenciais para a concretização de objetivos e a promoção de mudanças significativas, abrangendo tanto o ambiente organizacional quanto o pessoal. Eles são definidos como esforços temporários dedicados à criação de produtos, serviços ou resultados únicos, surgindo para solucionar problemas ou capitalizar oportunidades (PMI, 2021; Caixeta, 2006). O gerenciamento de projetos, por sua vez, orienta essas iniciativas por meio da aplicação integrada de conhecimentos, habilidades e ferramentas, exigindo disciplina, planejamento rigoroso e consistência em todas as suas fases (Xavier, 2018; Chaves et al., 2014). Este gerenciamento integra áreas de conhecimento cruciais como escopo, cronograma, custos e riscos, sendo fundamental para a condução coordenada e bem-sucedida de qualquer projeto (PMI, 2017).

Embora as práticas de gerenciamento de projetos sejam amplamente reconhecidas e aplicadas no contexto corporativo, sua relevância estende-se igualmente aos projetos de natureza pessoal. Iniciativas individuais frequentemente envolvem um alto grau de complexidade, incerteza e riscos, tornando a ausência de processos consistentes um fator que pode comprometer a qualidade e o alcance dos objetivos propostos (Santos, 2005). A aplicação de uma metodologia estruturada, portanto, pode transformar um empreendimento pessoal em um projeto organizado e com maior probabilidade de sucesso.

Nesse cenário, a peregrinação pelo Caminho da Fé emerge como um exemplo notável de projeto pessoal que demanda um planejamento cuidadoso devido às suas múltiplas variáveis. Inaugurado em 2003 em Águas da Prata-MG, este trajeto foi concebido para peregrinos que se dirigem ao Santuário Nacional de Aparecida (AACF, 2025). Inspirado no renomado Caminho de Santiago de Compostela, o Caminho da Fé consolidou-se como um desafio significativo, tanto físico quanto psicológico, atraindo devotos, esportistas e indivíduos em busca de autoconhecimento. Com uma extensão total superior a 2.000 km, incluindo aproximadamente 400 km na desafiadora Serra da Mantiqueira, o percurso apresenta trechos de média a alta dificuldade e variações climáticas consideráveis, exigindo preparo e atenção.

A ausência de um planejamento prévio e estruturado para enfrentar o Caminho da Fé pode expor o peregrino a uma série de vulnerabilidades, comprometendo sua integridade física e a logística necessária para a conclusão do percurso. A falta de preparo técnico e físico adequado, por exemplo, pode resultar em estresse e dores intensas, transformando a experiência de reflexão em sofrimento físico e emocional, muitas vezes devido à escolha inadequada de equipamentos (Moreira, 2007). Além disso, a carência de estudos prévios sobre o trajeto e a infraestrutura disponível pode gerar riscos de segurança e vulnerabilidade logística, especialmente em trechos isolados da serra (Viestel, 2023).

Relatos de peregrinos, como Olinto (2018), evidenciam o erro de subestimar a altimetria, a capacidade de caminhar longas etapas (até quarenta quilômetros por dia) e o peso da mochila, o que frequentemente leva à necessidade de serviços de “resgate” ou transporte de carga por exaustão. A Associação dos Amigos do Caminho da Fé (AACF, 2025) reforça a importância de realizar reservas antecipadas e tomar a vacina da febre amarela, sublinhando a necessidade de planejamento para mitigar riscos. É nesse contexto de desafios e incertezas que a aplicação das boas práticas de gerenciamento de projetos se revela crucial.

Uma abordagem estruturada permite coordenar as diversas variáveis envolvidas, reduzir incertezas e garantir que o propósito da peregrinação seja alcançado de forma segura e eficiente. Ao transformar uma iniciativa pessoal em um projeto formal, é possível antecipar problemas, otimizar recursos e tomar decisões mais informadas, elevando a previsibilidade e a capacidade de resposta diante de situações adversas. Portanto, diante da complexidade e da necessidade de coordenar múltiplas variáveis, reduzir incertezas e apoiar o alcance do objetivo da peregrinação, questiona-se: Como a utilização das ferramentas de gestão de projetos pode estruturar o planejamento de uma peregrinação, minimizando incertezas logísticas e riscos à integridade física?

A justificativa para este estudo reside na oportunidade de demonstrar a aplicabilidade e os benefícios do gerenciamento de projetos em um contexto pessoal, oferecendo um modelo prático para futuros peregrinos e para outras iniciativas individuais. Este trabalho tem como objetivo a elaboração de um planejamento estruturado para uma peregrinação no trecho entre Paraisópolis-MG e Aparecida-SP, aplicando os princípios do Guia PMBOK, focando em escopo, cronograma, custos e riscos, visando sistematizar o planejamento preditivo, apoiar a tomada de decisão e servir como referência para projetos pessoais similares.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem metodológica qualitativa, quantitativa e descritiva, conforme as diretrizes de Gil (2022). Configurou-se como um estudo de caso aplicado, cujo propósito foi descrever o planejamento de uma peregrinação específica no Caminho da Fé, utilizando as boas práticas de gerenciamento de projetos.

Para o desenvolvimento do trabalho, aplicaram-se os princípios do gerenciamento de projetos no formato preditivo, conforme descrito no Guia PMBOK (PMI, 2017). Essa abordagem foi adaptada por meio do conceito de “tailoring”, ajustando os processos tradicionalmente corporativos à realidade de um projeto de natureza pessoal, garantindo a sistematicidade do planejamento.

O estudo concentrou-se nas fases de iniciação e planejamento do projeto da peregrinação. O período de realização do estudo estendeu-se de setembro de 2025 a abril de 2026. A execução da peregrinação, objeto do planejamento, foi prevista para ocorrer entre os dias 29 de abril e 03 de maio de 2026, no formato de caminhada com treze participantes.

O local de aplicação do estudo de caso restringiu-se ao trecho do Caminho da Fé compreendido entre as cidades de Paraisópolis, em Minas Gerais, e Aparecida, em São Paulo. Este percurso seguiu os trechos oficialmente reconhecidos pela Associação dos Amigos do Caminho da Fé (AACF, 2025).

A coleta de dados foi realizada por meio de pesquisa documental, utilizando fontes primárias como o site oficial da AACF (2025) e fontes secundárias, que incluíram perfis de redes sociais de grupos de peregrinação e sites especializados em equipamentos para trekking. Complementarmente, efetuaram-se consultas diretas a pousadas e interações com os membros do grupo de peregrinos por meio de aplicativo de mensagem.

Essas consultas e interações tiveram caráter exclusivamente operacional, visando confirmar informações logísticas e alinhar aspectos do planejamento da peregrinação. Não se coletaram dados para análise de percepções, opiniões ou comportamentos das partes interessadas, mantendo o foco estrito nos procedimentos metodológicos.

A análise de viabilidade do projeto foi fundamentada no conceito de Business Case, conforme o PMBOK (PMI, 2017). Realizou-se um levantamento preliminar de informações para justificar a relevância do projeto e subsidiar a decisão de sua realização, antecedendo os processos de iniciação.

No grupo de processos de iniciação, definiu-se o novo projeto por meio da obtenção de autorização formal, elaborando-se o Termo de Abertura do Projeto (TAP). Identificaram-se as Partes Interessadas, sendo o próprio peregrino o gerente do projeto. Os objetivos foram estabelecidos utilizando a ferramenta SMART (Specific, Measurable, Achievable, Relevant, Time-bound), conforme Almeida (2017), para garantir clareza e mensurabilidade.

O TAP formalizou a justificativa do projeto, seus objetivos gerais e específicos, o escopo preliminar, as premissas e restrições identificadas, os riscos de alto nível, um cronograma macro com marcos principais e o orçamento preliminar. Este documento serviu como base para as etapas subsequentes de planejamento.

O grupo de processos de planejamento, conforme o PMI (2017), compreendeu a definição do escopo total do trabalho, o refinamento dos objetivos e o desenvolvimento do curso de ação necessário. Neste estudo de caso, aplicaram-se processos de planejamento relacionados às áreas de conhecimento de Integração, Escopo, Cronograma, Custos e Riscos.

O Plano de Gerenciamento do Projeto, vinculado à área de Gerenciamento da Integração, consistiu na documentação das ações necessárias para definir, integrar e coordenar os planos subsidiários do projeto (PMI, 2017). Este plano orientou a aplicação das demais áreas de conhecimento.

O processo de Coleta de Requisitos, que envolveu a determinação, documentação e gerenciamento das necessidades das partes interessadas (PMI, 2017), foi executado utilizando técnicas complementares. Empregou-se pesquisa documental no site oficial da AACF, consultas individuais aos participantes do grupo, pesquisa em redes sociais sobre experiências prévias e análise técnica de mapas e gráficos de elevação para altimetria.

A definição do escopo, conforme o PMI (2017), consistiu no desenvolvimento de uma descrição detalhada do projeto e do produto. O escopo foi elaborado com base na análise dos requisitos identificados, utilizando critérios de decisão segmentados em quatro categorias: temporais, logísticos, técnicos e de preparação.

Para a decomposição hierárquica do escopo total do trabalho, utilizou-se a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), definida pelo PMI (2017) como Work Breakdown Structure (WBS). A representação gráfica da EAP foi elaborada com o software XMind, enquanto a ferramenta ClickUp foi empregada para a operacionalização do planejamento, incluindo o sequenciamento das atividades, a estimativa de durações e o planejamento do cronograma.

O Dicionário da EAP foi elaborado para detalhar os pacotes de trabalho, especificando o escopo de cada item, as entregas esperadas, os critérios de aceitação, as premissas e as restrições. Este documento forneceu clareza sobre os elementos constituintes do projeto.

O desenvolvimento do cronograma, segundo o PMBOK (PMI, 2017), envolveu a análise de sequências de atividades, durações, requisitos de recursos e restrições. O cronograma foi desenvolvido com base nos requisitos identificados e na avaliação de restrições de data final, dificuldades do percurso (altimetria e quilometragem diária) e adversidades logísticas e climáticas.

O detalhamento das atividades foi orientado pela data final de 03 de maio de 2026, adotando a lógica de planejamento reverso (backward pass). As dependências entre as tarefas foram configuradas predominantemente como do tipo término-início. A estimativa de recursos contemplou demandas humanas e materiais, e a duração das atividades foi definida por estimativa análoga, fundamentada em experiências anteriores.

A estimativa de custos foi elaborada pela técnica “bottom up”, com pesquisa direta a fornecedores e consultas em fontes especializadas. Cotaram-se valores de hospedagem e alimentação, equipamentos técnicos, transporte de ida e volta, e custos relacionados aos treinos preparatórios. Incluiu-se uma reserva de contingência para riscos identificados e uma reserva gerencial.

O gerenciamento dos riscos do projeto, conforme o PMBOK (PMI, 2017), contemplou os processos de planejamento, identificação, análise, resposta e controle. Para a identificação dos riscos, utilizaram-se a análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats) e a técnica de análise de cenários hipotéticos “what-if”, complementadas por pesquisa em grupos especializados de peregrinação, consulta às orientações oficiais da AACF (2025) e experiências anteriores.

Os riscos foram organizados em categorias e priorizados com base na probabilidade de ocorrência e impacto, resultando na construção de uma matriz de riscos. Realizou-se uma análise qualitativa, adotando faixas de probabilidade estimadas (alta, média e baixa), e uma análise quantitativa, calculando o Valor Monetário Esperado (VME) pela multiplicação da probabilidade de ocorrência pelo impacto financeiro, para estimar a exposição monetária.

As estratégias de resposta aos riscos foram definidas com ênfase em ações preventivas, mitigadoras e de aceitação, compatíveis com a natureza do projeto, visando à redução da exposição aos riscos identificados. O planejamento de respostas incluiu reservas antecipadas, programa de treinamento físico, uso de equipamentos adequados e escolha estratégica da estação do ano.

3. Resultados e Discussão

A aplicação das boas práticas de gerenciamento de projetos na estruturação do planejamento de uma peregrinação no Caminho da Fé demonstrou ser um diferencial significativo, transformando uma iniciativa pessoal em um projeto com maior organização, previsibilidade e segurança. Diferentemente de abordagens improvisadas, a metodologia adotada permitiu uma gestão proativa das etapas, a mitigação de riscos potenciais e o suporte à tomada de decisão, contribuindo para que o percurso fosse cumprido dentro das condições estabelecidas. Este estudo evidenciou como a formalização do planejamento, mesmo em contextos pessoais, pode otimizar recursos e antecipar desafios, alinhando-se aos princípios de gerenciamento de projetos (PMI, 2017).

A fase de iniciação do projeto foi marcada pela elaboração de um Business Case, que se revelou fundamental para uma análise preliminar abrangente. Este documento antecedeu o Termo de Abertura do Projeto (TAP), fornecendo uma justificativa clara para a realização da peregrinação e delineando os requisitos iniciais. A formalização do TAP, após a aprovação do Business Case, estabeleceu o início oficial do projeto, definindo as partes interessadas e as estimativas preliminares. A utilização da ferramenta SMART (Specific, Measurable, Achievable, Relevant, Time-bound) foi crucial para alinhar as expectativas e os resultados esperados, conferindo clareza e mensurabilidade aos objetivos do projeto, um aspecto frequentemente ausente em planejamentos informais (Almeida, 2017).

Os objetivos SMART foram definidos com precisão: realizar a peregrinação pelo Caminho da Fé no trecho entre Paraisópolis-MG e Aparecida-SP, integralmente a pé, sem o uso de carro de apoio ou assessoria. A mensurabilidade foi estabelecida em caminhar aproximadamente 135 km em quatro dias, controlando os custos dentro de uma variação de até dez por cento do orçamento planejado. A viabilidade do objetivo foi considerada atingível mediante preparo físico prévio, planejamento das etapas e definição adequada de recursos e logística. A relevância do projeto focou em garantir uma peregrinação organizada, segura e alinhada às boas práticas de gestão, contribuindo para a redução de riscos. Temporalmente, a viagem foi programada para iniciar o deslocamento em 29 de abril, a caminhada em 30 de abril e a conclusão em 03 de maio de 2026, com a data final como uma restrição inegociável do projeto.

O planejamento do gerenciamento do escopo iniciou-se com a coleta de requisitos, essencial para identificar as necessidades das partes interessadas. Foram empregadas diversas técnicas, incluindo pesquisa documental no site oficial da Associação dos Amigos do Caminho da Fé (AACF, 2025) para obter informações sobre o percurso e pousadas credenciadas. Consultas individuais com os participantes do grupo permitiram definir datas e alinhar expectativas, enquanto a pesquisa em redes sociais e a análise técnica de altimetria em mapas e gráficos foram utilizadas para identificar boas práticas de prevenção de lesões, testar equipamentos e compreender as variações de altitude e dificuldade do terreno. Esses dados foram cruciais para a definição da infraestrutura, alinhamento de expectativas e identificação de requisitos para treinos preparatórios e pontos de parada estratégicos.

A definição do escopo detalhou o percurso de aproximadamente 135 km, considerando critérios temporais, climáticos, logísticos, técnicos e de preparação física. As premissas e justificativas iniciais do Termo de Abertura do Projeto guiaram a programação da peregrinação para o período de 30 de abril a 03 de maio de 2026, aproveitando um feriado nacional e as condições climáticas favoráveis do outono. A seleção de hospedagens seguiu a lista oficial da AACF (2025), distribuídas para uma média diária de 34 km de caminhada, ajustada à altimetria e ao perfil do grupo. Um programa de seis treinamentos preparatórios foi estabelecido entre janeiro e março de 2026, com orientações para a aquisição de equipamentos adequados, excluindo-se do escopo o transporte motorizado e atividades turísticas não relacionadas ao percurso principal.

Os requisitos identificados para o projeto foram categorizados para garantir clareza e direcionamento. Na categoria física, o condicionamento para caminhadas de longa distância foi um requisito, com o critério de sucesso sendo a capacidade de percorrer uma média de 34 km por dia durante quatro dias consecutivos. Para a categoria logística, a estrutura de suporte e deslocamento exigiu hospedagens confirmadas, pontos de alimentação mapeados e transporte organizado. Em equipamentos, a necessidade de itens técnicos essenciais para a jornada foi atendida com uma mochila técnica, calçado testado, roupas sazonais e um kit de primeiros socorros completo. A janela de preparação estruturada (temporal) e a sazonalidade estratégica do outono (climático) foram definidas para a conclusão dos treinamentos entre janeiro e março de 2026 e a execução em período de menor variação térmica e estabilidade pluviométrica no Sudeste, respectivamente.

A formalização do escopo por meio do gerenciamento de projetos conferiu transparência e precisão, culminando na criação da Estrutura Analítica do Projeto (EAP). Esta ferramenta, elaborada com o software XMind, permitiu a decomposição hierárquica do trabalho em pacotes gerenciáveis, detalhando o escopo de cada item, as entregas esperadas e os critérios de aceitação (PMI, 2017). O Dicionário da EAP especificou pacotes de trabalho como “Escopo Definido”, com o objetivo e percurso formalizados; “Cronograma Elaborado”, com datas e marcos finais validados; “Orçamento Definido”, com valores estimados e reserva de contingência; e “Riscos Identificados e Analisados”, com levantamento de ameaças e impactos e planos de resposta. Essa abordagem substituiu improvisações por um planejamento mais eficaz de riscos e recursos, contrastando com a condução informal que é suscetível a falhas e perda de controle.

O planejamento do gerenciamento do cronograma considerou como restrições principais a data fixa de chegada à Basílica de Aparecida e a necessidade de confirmar as reservas de hospedagem com antecedência. O cronograma foi estruturado para contemplar as exigências físicas do percurso, as distâncias diárias pré-definidas, o perfil topográfico e a gestão individual do ritmo, além de riscos logísticos e climáticos. Utilizou-se a lógica de planejamento reverso, partindo da data final de 03 de maio de 2026, e estabelecendo a necessidade de reservas com seis meses de antecedência e três meses para a preparação física. As dependências entre as tarefas foram configuradas predominantemente como término-início, com o caminho crítico do projeto totalizando 34 semanas de duração, garantindo a execução de cada etapa sem comprometer a data final.

Foram definidos cinco marcos-chave para o projeto, utilizados para acompanhar o progresso e validar os eventos principais em todas as fases da EAP. O “Escopo Definido” foi considerado crucial para o planejamento. A “Hospedagens Reservadas” representou um marco de segurança logística, dada a alta demanda. A “Preparação Física Concluída” marcou a prontidão para a execução da caminhada. O “Início da Caminhada” separou as fases de planejamento/preparação da execução real. Finalmente, a “Chegada à Aparecida” simbolizou o marco de sucesso do objetivo principal. Essa abordagem proporcionou visibilidade ao caminho crítico e ao sequenciamento lógico, permitindo determinar com precisão o momento de execução de cada etapa para assegurar a chegada do peregrino na data estabelecida.

O planejamento do gerenciamento dos custos foi elaborado com a técnica “bottom-up”, consolidando todos os valores em uma planilha para calcular o custo total e a distribuição por categoria. Incluiu-se uma reserva de contingência de três por cento, baseada nos riscos levantados no Business Case para projetos de incerteza moderada, e uma reserva gerencial de dez por cento do orçamento total. A linha de base de custos foi definida como referência para controle, com desvios dentro da reserva tratados internamente e valores superiores sujeitos a reavaliação orçamentária. O Orçamento no Término (ONT) total do projeto foi estimado em R$ 6.000,00, incluindo a reserva de contingência de R$ 180,00 e uma reserva gerencial de R$ 600,00.

A análise detalhada dos custos revelou que os equipamentos representam uma parcela significativa do investimento total. A categoria de equipamentos, incluindo mochila cargueira, bota de trekking, lanterna de cabeça, chapéu, canivete, bastão de caminhada e capa de chuva, totalizou R$ 2.136,00, correspondendo a 35,6% do ONT. O vestuário, com camisetas UV dry-fit, calça-bermuda, blusa térmica e meias de poliamida, somou R$ 1.035,00, representando 17,3% do ONT. O kit de curativos, essencial para a saúde do peregrino, totalizou R$ 284,00, ou 4,7% do ONT. Em conjunto, equipamentos e vestuário representam mais de 50% do investimento total estimado, evidenciando que o planejamento detalhado é crucial para evitar surpresas orçamentárias e permitir uma tomada de decisão baseada em dados mais assertivos.

Os custos relacionados aos treinos preparatórios, que incluíram deslocamento e alimentação, totalizaram R$ 780,00, correspondendo a 13,0% do ONT. As despesas de viagem, abrangendo transporte de ida e volta, hospedagem, credencial de registro, certificado de conclusão, alimentação durante o percurso, extras, lavanderia e banho na Basílica, somaram R$ 1.585,00, ou 26,4% do ONT. A reserva de contingência para eventuais imprevistos foi de R$ 180,00, representando 3,0% do ONT. Essa abordagem de planejamento dos custos auxiliou na apresentação dos custos reais da viagem e destacou o valor dos equipamentos e roupas adequadas, uma identificação que seria mais difícil em uma abordagem informal.

O planejamento do gerenciamento dos riscos, aplicado de forma predominantemente preventiva, foi essencial para a segurança da peregrinação. A análise de viabilidade do Business Case forneceu a base para essa etapa. Utilizou-se a ferramenta de análise SWOT, complementada pela técnica de cenários hipotéticos “what-if”, para explorar situações práticas com base em experiências anteriores e orientações da AACF (2025). Os riscos foram classificados em categorias como climáticos, físicos e logísticos, e priorizados com base na probabilidade de ocorrência e impacto, resultando na construção de uma matriz de riscos e na definição de estratégias de resposta.

Foram identificados diversos riscos e seus impactos. Na categoria de riscos físicos e de saúde, destacaram-se lesões musculares/articulares (causadas por terreno irregular e carga excessiva, com impacto de interrupção), exaustão física (ritmo acima da capacidade, com impacto de atraso ou desistência), desidratação (baixa ingestão de água, com impacto de queda de desempenho e mal-estar), consumo de água contaminada (fontes não tratadas, com problemas gastrointestinais), esquecimento de medicamentos (falha no preparo, com risco à saúde) e insolação/desgaste térmico (exposição ao clima, com mal-estar e risco físico). Esses achados sublinham a importância de um preparo físico adequado e da atenção à saúde do peregrino.

Na categoria de riscos operacionais, foram identificados mochila acima do peso (falta de planejamento, com sobrecarga física), equipamento inadequado (falta de teste, com bolhas e lesões), roupas inadequadas (falta de preparo, com desconforto e exposição) e falta de alimentação adequada (planejamento inadequado, com queda de energia). Os riscos logísticos incluíram problemas em pousadas (falhas operacionais, com atrasos e custo extra), perda de transporte (compra tardia, com impacto no cronograma) e desorientação no percurso (falta de atenção/mapa, com atrasos e risco). Por fim, os riscos ambientais envolveram clima adverso (chuva, calor, com atrasos e desgaste), terreno irregular/erosão (natureza do percurso, com quedas e torções) e animais/insetos (ambiente natural, com picadas e alergias).

A análise qualitativa classificou os riscos com base na probabilidade de ocorrência e no impacto. Lesões musculares/articulares (70% de probabilidade alta) e exaustão física (75% de probabilidade alta) foram classificadas como críticas, sendo muito comuns em trilhas longas e quase certas sem preparo ideal. Desidratação (50% alta), clima adverso (50% alta) e equipamento inadequado (45% alta) foram classificados como riscos altos, frequentes se não houver controle, normais em travessias longas e comuns se não testados antes. A mochila acima do peso (40% média) foi classificada como risco médio, muito recorrente em iniciantes. O consumo de água contaminada (20% média) e problemas em pousadas (20% média) foram considerados de impacto médio e baixo, respectivamente, enquanto a perda de transporte (15% média) foi classificada como risco baixo, mas existente.

A análise quantitativa dos riscos utilizou o Valor Monetário Esperado (VME) para estimar a exposição financeira de cada evento de risco. O VME total calculado foi de R$ 657,50, superando o valor da reserva de contingência. Embora o VME represente uma expectativa probabilística e não a ocorrência simultânea de todos os riscos, a reserva estabelecida foi considerada adequada, complementada por estratégias de mitigação. O plano de respostas aos riscos incluiu estratégias de prevenção, mitigação e aceitação. A prevenção envolveu reservas antecipadas de hospedagens e um programa de treinamento físico. A mitigação contemplou o uso de equipamentos adequados, treinos progressivos, bastões de caminhada, proteção contra chuva e cuidados com hidratação e alimentação. Riscos de baixo impacto foram aceitos dentro da reserva gerencial de dez por cento.

A comparação entre a peregrinação com e sem planejamento, baseada nas boas práticas do Guia PMBOK (PMI, 2017), evidenciou os benefícios da abordagem estruturada. Sem planejamento, o objetivo seria difuso, a execução improvisada, os custos imprevisíveis, os riscos reativos, as decisões intuitivas, a segurança vulnerável e o resultado incerto. Com o planejamento, o objetivo tornou-se definido e estruturado, a execução organizada por meio da EAP e do cronograma, os custos planejados com controles visuais, os riscos antecipados e tratados, as decisões baseadas em análise, a segurança com maior controle e prevenção, e o resultado mais previsível e eficiente. Essa análise comparativa reforça que a gestão de projetos é um diferencial na condução de iniciativas pessoais, ao reduzir a informalidade e ampliar a segurança, a previsibilidade e a capacidade de resposta diante dos desafios inerentes à peregrinação.

Em síntese, a aplicação das boas práticas de gerenciamento de projetos no planejamento da peregrinação no Caminho da Fé demonstrou ser uma abordagem robusta e eficaz. A estruturação do escopo, cronograma, custos e riscos, por meio de artefatos como o Termo de Abertura do Projeto, a Estrutura Analítica do Projeto, o cronograma detalhado, o orçamento e a matriz de riscos, permitiu uma visão clara e controlada de todas as variáveis envolvidas. Os resultados evidenciaram uma significativa redução de incertezas e um aumento da previsibilidade da jornada, com destaque para a antecipação de situações críticas relacionadas à saúde, ao percurso e à logística, garantindo que o objetivo de uma peregrinação segura e organizada fosse plenamente atendido.

4. Conclusão

O presente estudo buscou estruturar o planejamento de uma peregrinação no Caminho da Fé, no trecho entre Paraisópolis-MG e Aparecida-SP, por meio da aplicação das boas práticas de gerenciamento de projetos. Verificou-se que a adoção de uma metodologia preditiva, baseada nos princípios do Guia PMBOK, transformou uma iniciativa pessoal em um projeto com maior organização, previsibilidade e segurança. A fase de iniciação, com a elaboração do Business Case e do Termo de Abertura do Projeto, estabeleceu objetivos claros e mensuráveis, enquanto o gerenciamento do escopo, por meio da Estrutura Analítica do Projeto, permitiu a decomposição hierárquica das atividades e a definição precisa das entregas. O planejamento do cronograma, com a identificação do caminho crítico e marcos-chave, assegurou a visibilidade do sequenciamento lógico e a execução dentro das restrições temporais. Adicionalmente, a gestão de custos, que incluiu uma reserva de contingência e gerencial, evidenciou o impacto significativo dos equipamentos no orçamento total, fornecendo dados assertivos para a tomada de decisão.

A análise de riscos, realizada com ferramentas como SWOT e cenários hipotéticos, permitiu a identificação e priorização de ameaças físicas, operacionais, logísticas e ambientais, e a formulação de planos de resposta preventivos e mitigadores, aumentando a capacidade de reação a imprevistos. A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração prática de como a gestão de projetos pode ser adaptada a contextos pessoais, servindo como um modelo estruturado para futuros peregrinos e outras iniciativas individuais, reduzindo a informalidade e ampliando a segurança da jornada. Contudo, o estudo limitou-se às fases de iniciação e planejamento, não abrangendo a execução, monitoramento e controle. Para estudos futuros, recomenda-se a aplicação das práticas de gerenciamento nas fases subsequentes do ciclo de vida do projeto, bem como a documentação das lições aprendidas para aprimorar o modelo proposto e facilitar sua replicação em diferentes contextos com características semelhantes.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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