23 de julho de 2026
Perdas Não Técnicas e Desempenho Financeiro nas Distribuidoras Energisa e Light entre 2023 e 2024
Bruno Peres Meneguetti; Leandro Vila Torres
DOI: 10.22167/2675-6528-202600622
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
As perdas não técnicas representam um desafio operacional significativo no setor de distribuição de energia elétrica, afetando diretamente a eficiência econômica das concessionárias. O estudo analisou a relação entre os níveis de perdas não técnicas e o desempenho operacional de distribuidoras de energia elétrica no Brasil. Objetivou-se avaliar como as perdas não técnicas influenciaram o indicador financeiro EBITDA de empresas do setor. Para isso, realizou-se uma pesquisa aplicada, de abordagem quantitativa e natureza documental. Coletaram-se dados públicos da Agência Nacional de Energia Elétrica e demonstrações financeiras trimestrais das empresas Energisa e Light, abrangendo o período do primeiro trimestre de 2023 ao quarto trimestre de 2024. Os dados foram organizados em séries temporais trimestrais e analisados por estatística descritiva, análise gráfica e cálculo do coeficiente de correlação de Pearson entre os percentuais de perdas não técnicas e os valores de EBITDA. Os resultados indicaram que a Energisa apresentou níveis mais baixos e estáveis de perdas não técnicas, acompanhados por maior estabilidade na geração de EBITDA. Em contraste, a Light exibiu percentuais mais elevados de perdas e maior volatilidade no desempenho operacional. A análise de correlação evidenciou uma relação inversa entre as variáveis nas duas empresas, sugerindo que níveis mais elevados de perdas associaram-se à redução ou maior instabilidade do EBITDA. Concluiu-se que a gestão eficiente das perdas não técnicas constitui um fator relevante para a sustentabilidade financeira das distribuidoras de energia elétrica.
Palavras-chave: Desempenho financeiro; Distribuição de energia elétrica; EBITDA; Eficiência operacional; Regulação setorial.
1. Introdução
O setor de distribuição de energia elétrica no Brasil desempenha um papel estratégico na sustentação do crescimento econômico e no bem-estar social. Ele assegura o fornecimento contínuo e eficiente de energia aos diversos segmentos produtivos e residenciais. Nesse contexto, a eficiência operacional das concessionárias constitui um fator determinante para a sustentabilidade do sistema elétrico, especialmente diante das exigências regulatórias, da pressão por modicidade tarifária e da necessidade de atração de investimentos (Savian et al., 2021).
Entre os principais desafios enfrentados pelas distribuidoras, destacam-se as perdas não técnicas (PNTs). Elas são definidas como a parcela da energia distribuída que não é devidamente faturada em decorrência de furtos, fraudes, falhas de medição ou deficiências administrativas (Savian et al., 2021; Saeed et al., 2020). A literatura aponta que essas perdas configuram um dos problemas mais críticos das distribuidoras modernas, sobretudo em países emergentes, onde fatores institucionais, sociais e tecnológicos dificultam o controle do consumo irregular de energia elétrica (Savian et al., 2021; Leite et al., 2020).
Do ponto de vista da eficiência operacional, as perdas não técnicas impactam diretamente a capacidade das concessionárias de converter energia distribuída em receita efetivamente faturada. Isso compromete o desempenho econômico-financeiro das empresas. Nesse sentido, indicadores como o EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) são amplamente utilizados para avaliar a geração de caixa operacional e a eficiência das distribuidoras, uma vez que refletem o resultado da atividade principal antes de efeitos financeiros e contábeis (Correia et al., 2023). Estudos indicam que elevações nos níveis de PNTs tendem a reduzir margens operacionais, aumentar a volatilidade dos resultados e afetar a previsibilidade dos fluxos de caixa (Carr; Thomson, 2022).
No contexto regulatório brasileiro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabelece limites para o reconhecimento das perdas não técnicas nos processos tarifários. Apenas a parcela considerada eficiente pode ser repassada às tarifas, sendo que excedentes devem ser absorvidos pelas próprias concessionárias. Esse mecanismo regulatório reforça a importância do controle das perdas, uma vez que níveis elevados de PNTs podem gerar impactos financeiros diretos e comprometer a sustentabilidade das distribuidoras (ANEEL, 2024; Cardoso Mendonça et al., 2024). Além disso, a literatura destaca que as perdas não técnicas possuem origem multifatorial, estando associadas à vulnerabilidade socioeconômica, à estrutura urbana das áreas de concessão e às limitações tecnológicas das empresas (Correa; Sousa; Ribeiro, 2022). O enfrentamento dessas perdas exige não apenas ações de fiscalização, mas também investimentos em inovação, como a implementação de medidores inteligentes e sistemas de redes elétricas inteligentes (smart grids), capazes de ampliar o controle e a rastreabilidade do consumo (Savian et al., 2022; Leite et al., 2020).
As distribuidoras Energisa (ENGI3) e Light (LIGT3) representam exemplos contrastantes desse cenário. Enquanto a Energisa apresenta, de forma geral, maior controle das perdas não técnicas, refletindo maior estabilidade operacional e previsibilidade financeira, a Light enfrenta desafios estruturais relacionados à elevada incidência de perdas comerciais em sua área de concessão. Essa diferença torna as empresas casos relevantes para análise comparativa, especialmente no que se refere à relação entre eficiência operacional e desempenho financeiro.
No âmbito empírico, pesquisas recentes têm buscado analisar a relação entre variáveis operacionais e desempenho financeiro no setor elétrico. Embora haja evidências de que perdas comerciais influenciam negativamente indicadores financeiros, ainda são limitados os estudos que mensuram estatisticamente essa relação com base em dados recentes e comparáveis entre diferentes concessionárias (Cardoso Mendonça et al., 2024). Tal lacuna evidencia a necessidade de investigações que integrem variáveis técnicas e financeiras, contribuindo para o avanço da literatura sobre eficiência no setor elétrico.
Diante desse contexto, justifica-se a realização deste estudo pela necessidade de compreender, de forma empírica e quantitativa, como as perdas não técnicas se relacionam com indicadores de desempenho econômico-financeiro no setor elétrico brasileiro. Tal análise contribui não apenas para o avanço acadêmico, mas também para a tomada de decisão por gestores, investidores e formuladores de políticas públicas. Assim, o presente estudo busca responder à seguinte pergunta de pesquisa: existe relação estatisticamente significativa entre o nível de perdas não técnicas e o EBITDA trimestral das distribuidoras de energia elétrica analisadas?
Para orientar a investigação, foram formuladas as seguintes hipóteses de pesquisa: H1: Maiores níveis de perdas não técnicas estão associados à redução do EBITDA das distribuidoras. H2: A relação entre perdas não técnicas e EBITDA tende a ser mais sensível em empresas que apresentam níveis de perdas acima do limite regulatório estabelecido.
A escolha do intervalo temporal, compreendido entre o primeiro trimestre de 2023 e o quarto trimestre de 2024, justifica-se por abranger um período recente, posterior aos efeitos mais críticos da pandemia, caracterizado por maior estabilidade operacional e maior disponibilidade de dados financeiros e regulatórios. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL, 2024), as perdas não técnicas representaram cerca de 6,7% da energia injetada na rede de distribuição em 2023, mantendo-se como um dos principais desafios do setor. Ademais, distribuidoras como a Light figuram entre aquelas com maiores níveis de perdas comerciais no país, reforçando a relevância da análise proposta (TCU, 2024). Por fim, espera-se que os resultados deste estudo contribuam para a compreensão da relação entre eficiência operacional e desempenho econômico-financeiro no setor elétrico, fornecendo subsídios para o aprimoramento das estratégias de gestão das distribuidoras e das políticas regulatórias voltadas à redução das perdas no sistema de distribuição de energia elétrica. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é analisar a relação entre as perdas não técnicas e o EBITDA das distribuidoras de energia elétrica Energisa (ENGI3) e Light (LIGT3), no período compreendido entre o primeiro trimestre de 2023 e o quarto trimestre de 2024.
2. Material e Métodos
O estudo foi caracterizado como uma pesquisa aplicada, de abordagem quantitativa e natureza documental, com caráter descritivo-correlacional. O objetivo principal foi analisar a relação entre as perdas não técnicas (PNTs) e o EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) de distribuidoras de energia elétrica. A pesquisa aplicada buscou gerar conhecimento para a solução de problemas práticos no desempenho econômico-financeiro das concessionárias e na análise de risco para investidores. A abordagem quantitativa permitiu a mensuração objetiva da relação entre variáveis operacionais e financeiras, enquanto o caráter descritivo-correlacional visou identificar padrões e associações estatísticas, sem implicar causalidade.
A unidade de análise consistiu nas distribuidoras de energia elétrica Energisa (ENGI3) e Light (LIGT3), selecionadas por suas características operacionais distintas no setor elétrico brasileiro, o que possibilitou uma análise comparativa. O período de estudo abrangeu o primeiro trimestre de 2023 ao quarto trimestre de 2024, totalizando oito trimestres. Essa escolha temporal foi definida para contemplar dados recentes, completos e comparáveis, refletindo as condições regulatórias e operacionais atuais do setor.
Os dados utilizados foram obtidos exclusivamente de fontes públicas e oficiais, garantindo confiabilidade e transparência. Coletaram-se informações de demonstrações financeiras trimestrais e relatórios de resultados divulgados ao mercado pelas empresas analisadas. Adicionalmente, foram consultadas bases de dados regulatórias da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) contendo indicadores de perdas não técnicas, além de publicações técnicas setoriais e literatura científica especializada. A coleta focou nos percentuais de perdas não técnicas e nos valores de EBITDA para o período estabelecido.
Os dados coletados foram organizados em séries temporais trimestrais em planilhas eletrônicas. Para assegurar a comparabilidade, os dados foram padronizados em base trimestral, verificando-se a consistência e o alinhamento temporal das séries. Realizou-se uma análise exploratória para identificar valores atípicos (outliers). Os outliers foram avaliados quanto à sua consistência com os dados originais e mantidos quando representativos do comportamento real das variáveis ou ajustados em caso de inconsistências evidentes.
Como procedimento estatístico, aplicaram-se técnicas de estatística descritiva e análise de correlação. A estatística descritiva foi utilizada para resumir as características dos dados. O coeficiente de correlação de Pearson foi calculado para avaliar a intensidade e a direção da relação linear entre as variáveis quantitativas contínuas de perdas não técnicas e EBITDA. As análises estatísticas foram realizadas com o auxílio do software Microsoft Excel, utilizando suas ferramentas de análise de dados. Adicionalmente, adotou-se a simulação de cenários financeiros para estimar valores projetados de EBITDA em situações hipotéticas de redução de perdas não técnicas.
A pesquisa não envolveu a participação direta ou indireta de seres humanos, experimentação com animais ou riscos ao meio ambiente, não sendo necessária a submissão a comitê de ética. O estudo limitou-se à análise de dados secundários de domínio público, respeitando as normas éticas e regulatórias vigentes. A amostra intencional e reduzida, composta por apenas duas empresas, e o período de análise restrito a oito trimestres, constituem limitações metodológicas. A dependência da qualidade dos dados oficiais e a ausência de controle sobre variáveis externas também foram consideradas no escopo do estudo.
3. Resultados e Discussão
A análise documental dos relatórios técnicos da Agência Nacional de Energia Elétrica e das demonstrações financeiras trimestrais das distribuidoras Energisa e Light, referentes ao período do primeiro trimestre de 2023 ao quarto trimestre de 2024, permitiu a obtenção dos resultados desta pesquisa. O foco inicial recaiu sobre a evolução das perdas não técnicas e seus reflexos no desempenho operacional, mensurado pelo EBITDA. Os trimestres finais de cada exercício, especificamente o quarto trimestre de 2023 e o quarto trimestre de 2024, foram particularmente relevantes, consolidando as tendências anuais das companhias.
Evolução Trimestral das Perdas Não Técnicas (PNTs)
A evolução das perdas não técnicas (PNTs) nas distribuidoras Energisa e Light foi examinada com base em dados da ANEEL e relatórios financeiros, cobrindo o período de 2023 a 2024. As PNTs, que englobam furtos, fraudes, erros de medição e falhas administrativas, representam energia distribuída não faturada, configurando um desafio operacional crítico que impacta diretamente a receita e a eficiência econômica das concessionárias (Savian et al., 2021; Saeed et al., 2020).
Os dados revelaram que a Energisa manteve níveis de PNTs consistentemente mais baixos e estáveis, reduzindo de 6,4% no primeiro trimestre de 2023 para 5,5% no quarto trimestre de 2024. Esse padrão de estabilidade e declínio sugere uma gestão eficiente dos processos de monitoramento de consumo e das ações de combate a fraudes, mantendo os indicadores próximos aos limites regulatórios da ANEEL. Em contrapartida, a Light exibiu percentuais de PNTs significativamente mais elevados e voláteis, iniciando em 19,8% e alcançando 23,7% no mesmo período, indicando desafios estruturais complexos na fiscalização e controle do consumo irregular.
A estabilidade da Energisa é atribuída à governança operacional robusta, investimentos consistentes e características favoráveis de suas áreas de concessão, com menor complexidade socioeconômica. Operacionalmente, a empresa investiu continuamente na modernização da infraestrutura de medição, digitalização da rede e ferramentas analíticas, permitindo a detecção eficiente de irregularidades e recuperação de energia não faturada. A consistência desses investimentos e a adoção de políticas estruturadas promovem resultados sustentáveis, reduzindo a volatilidade dos indicadores operacionais e refletindo-se na maior estabilidade do EBITDA.
Na Light, os níveis elevados de PNTs refletem dificuldades estruturais, especialmente em Áreas de Severas Restrições Operacionais (ASRO), onde limitações de acesso e contextos de vulnerabilidade social restringem a fiscalização. A redução de investimentos em combate às perdas em 2023 e a expansão da geração distribuída também contribuíram para a manutenção de altos níveis de perdas. Para mitigar, a Light adotou estratégias como a “blindagem de rede” e o sistema Light Conecta para mapear áreas críticas. Esses desafios resultam da interação complexa entre fatores socioeconômicos, limitações de acesso e decisões estratégicas, alinhando-se à literatura que associa alta densidade populacional e vulnerabilidade a maiores perdas (Barros, 2023).
O impacto regulatório das PNTs é crucial, pois a ANEEL estabelece limites para o reconhecimento dessas perdas nos processos tarifários. Excedentes são absorvidos pela concessionária, gerando perdas econômicas diretas (Barros, 2023). Esse mecanismo reforça a importância do controle eficiente das PNTs para a sustentabilidade financeira, evidenciando que empresas com perdas controladas apresentam maior estabilidade operacional e menor exposição a riscos. O controle eficiente das perdas depende de fatores tecnológicos, institucionais e sociais, como digitalização da rede, modernização de medidores e fiscalização robusta, sendo fundamental para a eficiência econômica das distribuidoras.
Evolução do EBITDA das Distribuidoras
A avaliação do desempenho financeiro foi conduzida pelo EBITDA, indicador amplamente reconhecido para mensurar a capacidade de geração de caixa operacional das empresas, refletindo o resultado da atividade principal antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Correia et al., 2023). A Energisa apresentou uma trajetória de crescimento e estabilidade, passando de R$ 1.180 milhões no primeiro trimestre de 2023 para R$ 1.410 milhões no quarto trimestre de 2024, associada ao controle efetivo das PNTs e previsibilidade da receita. Em contraste, a Light exibiu maior volatilidade, com oscilações de R$ 820 milhões para R$ 680 milhões no mesmo período, parcialmente explicada pelos elevados níveis de PNTs que impactam sua capacidade de faturamento.
A literatura sobre gestão de perdas no setor elétrico interpreta que o EBITDA espelha a eficiência operacional, com variações indicando mudanças na capacidade de converter energia distribuída em receita faturada. Perdas comerciais são um fator primordial na deterioração do desempenho econômico, gerando custos sem receita (Barros, 2023). A estabilidade do EBITDA da Energisa reflete sua maior eficiência na gestão de PNTs, garantindo previsibilidade de receita e menor exposição a riscos. A volatilidade do EBITDA da Light, por sua vez, está ligada aos seus altos níveis de perdas, que reduzem a eficiência econômica e aumentam a instabilidade dos resultados financeiros, agravada pelo impacto regulatório que exige a absorção de perdas acima dos limites.
Variação do EBITDA
Para uma compreensão dinâmica do desempenho financeiro, calculou-se a variação percentual do EBITDA entre os trimestres, identificando padrões de estabilidade ou volatilidade. A Energisa registrou variações predominantemente positivas e contidas, como 3,2% no segundo trimestre de 2023 e 3,9% no quarto trimestre de 2024, com uma única queda de -1,8% no primeiro trimestre de 2024, indicando maior previsibilidade. A Light, em contraste, demonstrou variações acentuadas e voláteis, incluindo quedas de -8,5% e -12,3%, intercaladas por recuperações, refletindo a pressão dos elevados níveis de perdas comerciais que geram custos sem receita (Barros, 2023).
A menor volatilidade da Energisa corrobora que empresas com maior controle sobre as PNTs alcançam maior previsibilidade de receita. A eficiência no controle de perdas comerciais estabiliza a base de receitas e o EBITDA. A literatura enfatiza que níveis elevados ou flutuantes de PNTs amplificam a volatilidade do desempenho financeiro, dificultando o planejamento e exigindo investimentos adicionais em fiscalização (Barros, 2023). O ambiente regulatório, com limites de perdas eficientes da ANEEL, também amplifica a volatilidade do EBITDA em empresas com PNTs elevadas, pois a absorção de perdas excedentes reduz diretamente a receita operacional.
Relação entre PNT e EBITDA
A análise comparativa entre os percentuais de PNT e os valores de EBITDA revelou uma relação inversa e relevante. A Energisa demonstrou PNTs significativamente menores e em declínio (6,4% a 5,5%), enquanto seu EBITDA apresentou trajetória estável e crescente (R$ 1.180 milhões a R$ 1.410 milhões), sugerindo que a redução das perdas contribuiu para a rentabilidade. A Light, por sua vez, exibiu PNTs substancialmente mais elevados e voláteis (19,8% a 23,7%), refletindo-se em um EBITDA com oscilações mais intensas e sem crescimento claro, indicando maior sensibilidade do desempenho financeiro às variações nas perdas comerciais. A literatura reforça que PNTs reduzem diretamente a receita operacional e comprometem indicadores financeiros (Barros, 2023).
Análise de Correlação entre PNT e EBITDA
Para quantificar a relação, calculou-se o coeficiente de correlação de Pearson entre PNT e EBITDA. Os resultados indicaram correlação negativa em ambas as empresas, sugerindo que PNTs mais elevadas tendem a se associar à redução do desempenho operacional. Para a Energisa, o coeficiente foi de -0,97, evidenciando uma relação negativa muito forte, onde a redução gradual das PNTs está fortemente associada ao aumento do EBITDA. Esse comportamento é explicado pela conversão de mais energia em receita operacional, fortalecendo o resultado da distribuidora, conforme a literatura sobre gestão de perdas (Barros, 2023) que destaca o impacto direto das PNTs no fluxo de receitas e eficiência econômica.
No caso da Light, o coeficiente de correlação foi de -0,72, indicando uma relação negativa menos intensa. Esse resultado sugere que o aumento das PNTs está associado à redução ou maior volatilidade do EBITDA da empresa. A Light opera em área de concessão com complexidade socioeconômica elevada, o que historicamente contribui para altos níveis de perdas comerciais, impedindo a conversão de parte significativa da energia distribuída em receita efetiva. O combate às PNTs demanda investimentos adicionais em fiscalização e modernização, que podem elevar custos operacionais no curto prazo, pressionando o resultado da companhia e reforçando a importância de estratégias robustas.
Implicações para o desempenho das distribuidoras
Os achados reforçam a hipótese central de que as PNTs são um fator relevante para o desempenho econômico-financeiro das distribuidoras. A redução das perdas comerciais é fundamental para aumentar a eficiência operacional, melhorar a sustentabilidade financeira, reduzir custos para consumidores e fortalecer a estabilidade do sistema elétrico (Barros, 2023). Políticas focadas no controle e mitigação das PNTs, como medidores inteligentes, fiscalização intensiva e programas de regularização, são instrumentos estratégicos para aprimorar o desempenho econômico das empresas, otimizando a eficiência operacional e fortalecendo a capacidade de geração de caixa e a consistência dos resultados.
Validação Estatística e Limitações da Análise
Embora os resultados indiquem associação negativa entre PNT e EBITDA, é crucial destacar que correlação não implica causalidade. O coeficiente de Pearson mensura apenas a intensidade e direção de uma relação linear, não permitindo inferir que variações nas PNTs causem diretamente mudanças no desempenho operacional. Outros fatores não controlados, como variações tarifárias, custos operacionais, mudanças regulatórias, inadimplência e condições macroeconômicas, podem influenciar o EBITDA. Portanto, a relação deve ser interpretada com cautela, recomendando-se métodos econométricos mais robustos, como regressões múltiplas, para futuras investigações.
A análise foi baseada em séries trimestrais, permitindo a comparação das variáveis ao longo do tempo. Os coeficientes de correlação de -0,97 para a Energisa e -0,72 para a Light indicaram correlações negativas muito forte e moderada, respectivamente. Contudo, a ausência de um teste formal de significância estatística (p-valor) para esses coeficientes representa uma limitação, impedindo afirmar, com confiança estatística, se as correlações são significativas ou aleatórias. Para aprimorar futuras pesquisas, recomenda-se a inclusão do cálculo do p-valor, definição de nível de significância, ampliação da amostra temporal e incorporação de variáveis de controle. Apesar dessas limitações, os resultados fornecem evidências iniciais relevantes sobre a relação entre PNTs e desempenho operacional, contribuindo para a compreensão da eficiência econômica das distribuidoras.
Em síntese, a análise da relação entre as perdas não técnicas e o desempenho operacional das distribuidoras Energisa e Light, no período de 2023 a 2024, revelou diferenças marcantes. A Energisa demonstrou níveis de perdas não técnicas mais baixos e estáveis, o que se associou a uma trajetória mais consistente e previsível na geração de EBITDA, indicando maior eficiência na gestão operacional e estabilidade financeira. Por outro lado, a Light exibiu percentuais de perdas significativamente mais elevados e maior volatilidade, refletindo-se em oscilações mais intensas do EBITDA e maior sensibilidade do desempenho operacional às variações nas perdas comerciais. A correlação negativa observada entre as variáveis em ambas as empresas sugere que o aumento das perdas comerciais tende a impactar negativamente o desempenho operacional, embora essa relação seja complexa e influenciada por múltiplos fatores.
4. Conclusão
O presente estudo analisou a relação entre as perdas não técnicas e o EBITDA das distribuidoras de energia elétrica Energisa e Light, no período compreendido entre o primeiro trimestre de 2023 e o quarto trimestre de 2024. Verificou-se que a Energisa apresentou níveis de perdas não técnicas consistentemente mais baixos e estáveis, variando de 6,4% para 5,5%, o que se associou a uma trajetória de EBITDA mais estável e crescente, passando de R$ 1.180 milhões para R$ 1.410 milhões. Em contraste, a Light exibiu percentuais de perdas não técnicas significativamente mais elevados e voláteis, de 19,8% a 23,7%, refletindo-se em um EBITDA com oscilações mais intensas, de R$ 820 milhões para R$ 680 milhões. A análise de correlação de Pearson evidenciou uma relação inversa entre as variáveis em ambas as empresas, com coeficientes de -0,97 para a Energisa e -0,72 para a Light, indicando que níveis mais elevados de perdas não técnicas tendem a se associar à redução ou maior instabilidade do desempenho operacional. Esses achados reforçam a compreensão de que a gestão eficiente das perdas não técnicas constitui um fator relevante para a sustentabilidade financeira das distribuidoras de energia elétrica, contribuindo para a previsibilidade da receita e a estabilidade dos resultados operacionais.
A principal contribuição deste estudo reside na oferta de evidências empíricas e quantitativas sobre o impacto das perdas não técnicas no desempenho financeiro de distribuidoras de energia elétrica no Brasil, fornecendo subsídios para aprimorar estratégias de gestão e políticas regulatórias. Contudo, o estudo possui limitações, como a amostra reduzida de apenas duas empresas e o período de análise restrito a oito trimestres. A dependência da qualidade dos dados públicos e a ausência de controle sobre variáveis externas, como fatores macroeconômicos e regulatórios, também são aspectos a serem considerados. Adicionalmente, a análise baseou-se em correlação estatística, não permitindo inferir causalidade, e não incorporou formalmente o teste de significância estatística (p-valor) para os coeficientes de correlação. Para investigações futuras, recomenda-se a ampliação da amostra temporal e do número de distribuidoras, a inclusão de variáveis de controle e a aplicação de métodos econométricos mais robustos, como regressões múltiplas, para aprofundar a compreensão dos impactos econômicos associados às perdas não técnicas.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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