05 de agosto de 2026
Orçamento Base Zero: Uma Análise de seus Resultados na Gestão Financeira de uma Empresa de Saneamento
Joscelin Esther Kunze; Bruna Ribeiro Silva
DOI: 10.22167/2675-6528-202600984
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
Um estudo foi conduzido para investigar os impactos da implementação do Orçamento Base Zero (OBZ) na gestão financeira de uma empresa do setor de saneamento. Objetivou-se analisar os resultados financeiros da companhia, com foco nos indicadores de liquidez, endividamento e EBITDA, no período de 2020 a 2024. A pesquisa caracterizou-se como aplicada, com abordagem quantitativa e qualitativa, utilizando dados secundários extraídos das demonstrações financeiras da empresa. A análise dos indicadores financeiros permitiu avaliar o desempenho econômico-financeiro antes e após a adoção do OBZ, implementado em 2023. Os resultados revelaram que, no período anterior à implementação do OBZ, a empresa enfrentava um cenário de restrições financeiras, caracterizado por baixa liquidez, elevado endividamento e redução da eficiência operacional. Contudo, a partir de 2023, observou-se uma significativa recuperação nos indicadores de curto prazo, melhora do EBITDA e maior eficiência na gestão de recursos, atribuídas à adoção de práticas mais rigorosas de controle orçamentário e à revisão de despesas e investimentos. Concluiu-se que o OBZ contribuiu para o fortalecimento da gestão financeira e o aprimoramento da eficiência operacional da companhia. Entretanto, persistiram limitações estruturais, como a dependência de capital de terceiros e restrições na liquidez de longo prazo. A análise de uma única empresa e o curto período de avaliação pós-implementação foram identificados como limitações, sugerindo a necessidade de estudos futuros com maior abrangência temporal e setorial para generalização dos achados.
Palavras-chave: Controle orçamentário; Eficiência operacional; Endividamento; EBITDA; Liquidez.
1. Introdução
O ambiente empresarial contemporâneo, dinâmico e competitivo, exige das organizações a adoção de práticas de gestão financeira robustas para assegurar sua sustentabilidade e crescimento (Assaf Neto, 2018). Nesse contexto, o planejamento orçamentário emerge como um instrumento estratégico indispensável, capacitando as empresas a definir metas, prever receitas e despesas, e otimizar a alocação de recursos de forma eficiente e transparente (Chiavenato, 2003). O setor de saneamento básico no Brasil exemplifica essa complexidade, sendo intensivo em capital e regido por um ambiente regulatório em constante evolução. A Lei Federal nº 14.026, de 2020, o Marco Legal do Saneamento, estabeleceu metas ambiciosas para a universalização dos serviços, tornando a gestão financeira ainda mais crítica. A empresa foco deste estudo, uma companhia pública de economia mista com mais de cinco décadas de atuação no sul do Brasil, atende a 194 municípios, detendo 65% de participação no mercado estadual. Com o Governo do Estado como acionista majoritário, a empresa necessita de investimentos substanciais, estimados em cerca de dois bilhões de reais até 2026, para cumprir as metas regulatórias e expandir seus serviços, evidenciando a urgência de uma gestão orçamentária eficaz.
Diante da premente necessidade de aprimorar a gestão de recursos e a eficiência operacional, metodologias orçamentárias inovadoras, como o Orçamento Base Zero (OBZ), são essenciais. Desenvolvido por Peter A. Pyhrr na década de 1970, o OBZ distingue-se dos modelos tradicionais por exigir que todas as despesas sejam justificadas a partir do zero em cada novo ciclo orçamentário, desconsiderando históricos de gastos anteriores (Pyhrr, 1970). Este método exige a elaboração de “pacotes de decisão” detalhados, com análise minuciosa de cada atividade, custo e benefício. Ao promover uma análise crítica e profunda de cada gasto, o OBZ visa eliminar despesas desnecessárias, otimizar a alocação de recursos e fortalecer a disciplina financeira da organização. Embora sua implementação demande tempo considerável, esforço e um alto nível de detalhamento informacional, além de um forte engajamento dos gestores (Kaplan e Atkinson, 2012), ele atua como um instrumento de governança e transparência. Em empresas públicas e de economia mista, o OBZ é crucial em contextos de restrição orçamentária e necessidade de maior controle dos gastos (Junior, 2020). A efetividade do orçamento empresarial depende da adoção de uma metodologia estruturada e integrada à gestão estratégica (Silva, 2024).
No período anterior à implementação do Orçamento Base Zero, especificamente entre 2020 e 2022, a empresa objeto deste estudo enfrentava um cenário de acentuadas restrições financeiras. Os indicadores de liquidez apresentavam patamares críticos, limitando a capacidade de honrar obrigações de curto e longo prazo. O endividamento era elevado, indicando crescente dependência de capital de terceiros e elevando o risco financeiro (Gitman, 2010). A eficiência operacional estava comprometida. Fatores externos, como os impactos da pandemia de COVID-19, que resultaram em queda de arrecadação e aumento da inadimplência, e a necessidade de investimentos vultosos para adequação ao novo marco regulatório, exacerbaram essas fragilidades. Essa conjuntura evidenciava a urgência de uma reestruturação profunda, buscando maior rigor no controle de gastos e alinhamento estratégico.
A escassa produção científica sobre a aplicação e os impactos do Orçamento Base Zero em empresas do setor de saneamento, especialmente no contexto brasileiro de economia mista e sob o novo marco regulatório, justifica a relevância deste estudo. Compreender como essa metodologia pode influenciar a sustentabilidade financeira e a eficiência operacional de organizações com características tão específicas é fundamental para o avanço do conhecimento e para a formulação de melhores práticas gerenciais. Assim, o presente estudo objetiva analisar os resultados financeiros de uma empresa do setor de saneamento após a implementação do Orçamento Base Zero, com foco na avaliação dos indicadores de liquidez, endividamento e EBITDA no período de 2020 a 2024, a fim de verificar os efeitos da adoção dessa metodologia na gestão financeira da organização.
2. Material e Métodos
A pesquisa desenvolvida caracterizou-se como aplicada, com o propósito de analisar os resultados financeiros de uma empresa do setor de saneamento após a implementação do Orçamento Base Zero. Adotou-se uma abordagem metodológica mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos para uma compreensão aprofundada do fenômeno estudado. O delineamento da investigação foi de natureza exploratória e descritiva, permitindo a identificação de características e a análise de relações entre as variáveis financeiras e a metodologia orçamentária. Este estudo de caso possibilitou uma análise empírica detalhada dos dados, focando na aplicação prática do Orçamento Base Zero na reestruturação financeira da organização.
O estudo concentrou-se em uma empresa pública de economia mista, de capital aberto, com mais de cinco décadas de atuação no setor de saneamento básico na região sul do Brasil. Esta companhia é responsável pela prestação de serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário em 194 municípios, atendendo a aproximadamente 3 milhões de pessoas. O Governo do Estado detém a participação majoritária de 90,17% no capital social, e a empresa contava com 2.784 empregados em 2024. A unidade de análise foi a própria organização, permitindo investigar os impactos do Orçamento Base Zero em um contexto específico e relevante para o setor.
A seleção da unidade de análise ocorreu por conveniência, focando-se na empresa que implementou o Orçamento Base Zero, conforme o objetivo central da pesquisa. Não houve uma população amostral definida no sentido estatístico, uma vez que o estudo se configurou como um caso único, visando aprofundar a compreensão de um fenômeno específico em uma organização com características particulares. A escolha dessa empresa foi justificada pela sua relevância no setor de saneamento e pela recente adoção da metodologia orçamentária, que a tornou um objeto de estudo pertinente para a análise proposta.
A coleta de dados baseou-se exclusivamente em informações secundárias, extraídas dos relatórios anuais consolidados da empresa, abrangendo o período de 2020 a 2024. Os principais instrumentos de coleta foram o Balanço Patrimonial e o Demonstrativo do Resultado do Exercício, documentos contábeis que forneceram os dados financeiros necessários para a análise. Essas informações foram obtidas por meio da página de Relações com Investidores da companhia, garantindo a fidedignidade e a publicidade dos dados utilizados. Fontes complementares também foram consultadas para aprofundamento analítico e comparativo.
O foco da coleta de dados recaiu sobre contas contábeis específicas, consideradas essenciais para a avaliação dos indicadores financeiros. Foram analisadas as contas de caixa e equivalentes de caixa, ativo realizável a longo prazo, fornecedores, empréstimos e financiamentos. Adicionalmente, as contas de despesas operacionais, de vendas e administrativas foram examinadas. Essa seleção permitiu uma visão abrangente da estrutura financeira e do desempenho operacional da empresa, antes e após a implementação do Orçamento Base Zero, que ocorreu em 2023, conforme o escopo temporal do estudo.
Os procedimentos metodológicos foram estruturados em etapas distintas. Inicialmente, realizou-se uma pesquisa bibliográfica abrangente, com o objetivo de fundamentar teoricamente o estudo. Esta fase buscou identificar a literatura existente sobre o Orçamento Base Zero, sua aplicação como ferramenta de planejamento orçamentário e estratégico em organizações, e seus potenciais impactos na gestão financeira. A pesquisa bibliográfica foi crucial para estabelecer o embasamento conceitual necessário para a interpretação dos dados empíricos e para contextualizar a relevância da metodologia no cenário empresarial e público.
Em seguida, procedeu-se ao levantamento de dados secundários, conforme detalhado anteriormente, por meio da pesquisa documental nas demonstrações financeiras da empresa. Após a coleta, os dados foram organizados e estruturados utilizando a ferramenta Microsoft Excel. O Excel foi empregado para sistematizar as informações, realizar os cálculos dos indicadores financeiros e preparar os dados para a análise comparativa. Essa etapa foi fundamental para garantir a clareza, a objetividade e a rastreabilidade das informações financeiras ao longo do período analisado, facilitando a identificação de tendências e variações.
A análise dos dados foi realizada por meio de uma abordagem crítica das variações nos indicadores financeiros, comparando o desempenho da empresa antes e após a implementação do Orçamento Base Zero em 2023. Essa análise comparativa permitiu avaliar os efeitos da nova metodologia na gestão financeira da organização. O tratamento dos dados envolveu a aplicação de fórmulas específicas para cada indicador, conforme a literatura especializada em finanças corporativas. A interpretação dos resultados buscou identificar padrões e tendências que pudessem ser associados à adoção do OBZ.
Para medir o desempenho econômico-financeiro da empresa, foram calculados e analisados diversos indicadores. Os indicadores de liquidez, que avaliam a capacidade da empresa de honrar suas obrigações de curto e longo prazo, incluíram a Liquidez Corrente, a Liquidez Geral e a Liquidez Seca. A Liquidez Corrente foi calculada pela razão entre o Ativo Circulante e o Passivo Circulante (Assaf Neto, 2018). A Liquidez Geral considerou o Ativo Circulante mais o Realizável a Longo Prazo, dividido pelo Passivo Circulante mais o Exigível a Longo Prazo. A Liquidez Seca excluiu os estoques e despesas antecipadas do Ativo Circulante, dividindo o resultado pelo Passivo Circulante (Gitman, 2010).
O Índice de Endividamento foi utilizado para analisar a estrutura de capital da empresa, mensurando a relação entre o Passivo Total e o Patrimônio Líquido (Assaf Neto, 2014). Este indicador permitiu avaliar o grau de participação de capitais de terceiros na estrutura financeira da companhia. A eficiência operacional foi analisada por meio do cálculo do EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization), que representa o Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações. O EBITDA foi calculado somando-se o Lucro Operacional Líquido às Depreciações e Amortizações (Assaf Neto, 2018), fornecendo uma medida da capacidade de geração de resultados operacionais.
Como limitações metodológicas do estudo, destacou-se a análise de uma única empresa, o que restringe a generalização dos resultados para o setor de saneamento como um todo. A natureza de estudo de caso, embora aprofundada, não permite inferências para outras organizações. Adicionalmente, o período de avaliação após a implementação do Orçamento Base Zero foi relativamente curto, o que pode limitar a observação de efeitos de longo prazo da metodologia. Essas restrições indicam a necessidade de estudos futuros com maior abrangência temporal e setorial para consolidar as conclusões.
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados financeiros da empresa de saneamento, no período de 2020 a 2024, revela um panorama complexo, marcado por desafios estruturais e uma notável recuperação após a implementação do Orçamento Base Zero (OBZ) em 2023. Esta seção aprofunda a interpretação dos indicadores de liquidez, endividamento e eficiência operacional, confrontando os achados com a literatura especializada e discutindo suas implicações práticas para a gestão financeira da organização. O objetivo central é desvendar o impacto da nova gestão e da metodologia OBZ sobre a saúde financeira da companhia.
A avaliação da liquidez geral da empresa, conforme apresentado na Tabela 1, demonstra uma limitação persistente na capacidade de honrar suas obrigações totais ao longo do período analisado. Em 2020 e 2021, o índice de liquidez geral manteve-se em 0,4, indicando que a empresa possuía apenas 40 centavos em ativos realizáveis para cada real de dívida total. Essa insuficiência de ativos para cobertura das obrigações de curto e longo prazo é um sinal de alerta significativo, conforme destacado por Assaf Neto (2018), que enfatiza a importância da liquidez para a sustentabilidade financeira. Gitman (2010) complementa que níveis reduzidos ou em declínio desses indicadores podem sinalizar possíveis dificuldades financeiras, o que se alinha perfeitamente ao cenário pré-OBZ da empresa.
Tabela 1. Índice de Liquidez Geral do período
|
Ano |
2020 |
2021 |
2022 |
2023 |
2024 |
|
(+) Ativo Circulante |
497.461 |
483.085 |
532.122 |
917.694 |
1.050.772 |
|
(+) Realizável a Longo prazo |
243.710 |
255.641 |
1.019.345 |
1.065.924 |
1.133.589 |
|
(=) |
741.171 |
738.726 |
1.551.467 |
1.983.618 |
2.184.361 |
|
(+) Passivo Circulante |
571.202 |
446.507 |
704.144 |
733.898 |
953.579 |
|
(+) Exigível a Longo Prazo |
1.205.624 |
1.265.639 |
1.357.990 |
1.825.549 |
2.031.497 |
|
(=) |
1.776.826 |
1.712.146 |
2.062.134 |
2.559.447 |
2.985.076 |
|
(=) Liquidez Geral |
0,4 |
0,4 |
0,8 |
0,8 |
0,7 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A persistência de um índice de liquidez geral abaixo de 1,0, mesmo com uma leve melhora para 0,8 em 2022 e 2023, e uma subsequente queda para 0,7 em 2024, sugere uma limitação estrutural na capacidade de pagamento de longo prazo. Este achado pode ser justificado pelo contexto adverso enfrentado pela empresa nos anos iniciais da análise, incluindo os impactos da pandemia de Covid-19. A proibição de cortes no fornecimento de serviços e a concessão de benefícios tarifários, somadas a períodos de forte estiagem que exigiram planos emergenciais e investimentos não previstos, contribuíram para o aumento do endividamento e a consequente pressão sobre a liquidez. Tais eventos, por não estarem contemplados no orçamento inicial, desorganizaram o fluxo de caixa e a capacidade de planejamento financeiro de longo prazo. A natureza do setor de saneamento, que demanda investimentos massivos em infraestrutura com retornos de longo prazo, naturalmente impõe desafios à liquidez geral, pois grande parte dos ativos é de difícil e lenta conversão em caixa, enquanto as obrigações de financiamento podem ser substanciais. A implicação prática é que, para além das melhorias operacionais, a empresa necessita de uma revisão estratégica de sua estrutura de capital e de fontes de financiamento que se alinhem melhor ao perfil de seus ativos e à natureza de seus investimentos de longo prazo.
Em contraste com a liquidez geral, os indicadores de liquidez de curto prazo, como a liquidez corrente e a liquidez seca, apresentaram uma dinâmica mais volátil, com uma notável recuperação a partir de 2023. Conforme evidenciado na Tabela 2 (não inserida aqui, mas referenciada no documento original), a liquidez corrente iniciou em 0,9 em 2020, melhorou para 1,1 em 2021, mas deteriorou-se para 0,8 em 2022. Similarmente, a liquidez seca, apresentada na Tabela 3 (não inserida aqui, mas referenciada no documento original), seguiu um padrão semelhante, com 1,0 em 2020, 1,2 em 2021 e 0,9 em 2022. Essa deterioração em 2022, apesar da leve melhora na liquidez geral, reflete o aumento dos estoques, dos custos operacionais e das obrigações financeiras de curto prazo, pressionando a capacidade da empresa de honrar seus compromissos imediatos. A situação limítrofe em 2020 e a posterior queda em 2022 são indicativos de uma gestão de capital de giro que enfrentava sérios desafios, com recursos insuficientes para cobrir as dívidas de curto prazo, conforme a interpretação de Assaf Neto (2018) para índices abaixo de 1,0.
A partir de fevereiro de 2023, com a entrada de uma nova gestão e a subsequente implementação do Orçamento Base Zero (OBZ), observou-se uma melhora significativa nos indicadores de liquidez de curto prazo. A liquidez corrente atingiu 1,3 em 2023 e manteve-se em 1,1 em 2024, enquanto a liquidez seca alcançou 1,4 em 2023 e 1,2 em 2024. Essa recuperação é um reflexo direto das medidas de reestruturação financeira adotadas, incluindo a renegociação de prazos com fornecedores, ajustes no fluxo de pagamento de salários e, crucialmente, a revisão detalhada de contratos e despesas promovida pelo OBZ. A metodologia do Orçamento Base Zero, conforme Pyhrr (1970), exige que cada gasto seja justificado a partir do zero, sem considerar históricos anteriores, o que força uma análise crítica e a eliminação de despesas ineficientes. Essa abordagem rigorosa, ao suspender projetos não prioritários e instituir revisões trimestrais de todas as contas e orçamentos, permitiu uma alocação mais eficiente dos recursos e uma gestão mais eficaz do capital de giro. A melhora no faturamento, impulsionada por reajustes tarifários e pela ampliação dos serviços de esgotamento sanitário, também contribuiu para o fortalecimento da posição de liquidez de curto prazo. Kaplan e Atkinson (2012) argumentam que sistemas de controle gerencial que exigem maior rigor analítico contribuem para uma gestão mais eficiente dos recursos, o que se alinha com os resultados observados após a adoção do OBZ. As implicações práticas dessa melhora são a redução do risco de insolvência de curto prazo, maior capacidade de negociação com fornecedores e um ambiente mais estável para o planejamento operacional.
A análise do endividamento da empresa, apresentada na Tabela 5 (não inserida aqui, mas referenciada no documento original), revela uma estrutura de capital com alta dependência de recursos de terceiros. Em 2020, o índice de endividamento foi de 1,3, indicando que para cada real de capital próprio, a empresa possuía R$ 1,30 em dívidas. Embora tenha havido uma redução para 1,0 em 2021, refletindo um equilíbrio entre capital próprio e de terceiros, possivelmente devido a aportes de capital, o indicador voltou a subir para 1,1 em 2022 e se manteve em 1,3 em 2023 e 2024. Esse comportamento é característico de empresas do setor de saneamento, que são intensivas em capital e dependem significativamente de financiamentos externos para seus vastos investimentos em infraestrutura e expansão operacional. Assaf Neto (2014) explica que índices de endividamento elevados indicam maior participação de capitais de terceiros, elevando o risco financeiro.
O aumento do endividamento a partir de 2022, conforme também corroborado pelo Apêndice A (não inserido aqui, mas referenciado no documento original) com variações positivas no endividamento total, está diretamente relacionado à intensificação da captação de recursos. A empresa recorreu a empréstimos e emissões de dívida, incluindo operações de crédito e debêntures, para financiar tanto os investimentos em infraestrutura, essenciais para cumprir as metas de universalização do saneamento (Lei Federal nº 14.026/2020), quanto para recompor o capital de giro. O aumento das despesas financeiras, especialmente a partir de 2023, reforça essa dependência. Gitman (2010) adverte que, embora o endividamento possa ser sustentável em setores com receitas estáveis e previsíveis, como o saneamento, níveis elevados de dívida aumentam a exposição ao risco financeiro, especialmente em cenários de elevação das taxas de juros e restrições de crédito. A implicação prática é que a empresa deve buscar um equilíbrio entre a necessidade de investimentos e a capacidade de geração de caixa para suportar essas obrigações, evitando que o custo da dívida comprometa sua sustentabilidade no longo prazo. A gestão do endividamento, mesmo em um setor capital-intensivo, exige estratégias de diversificação de fontes de financiamento e otimização da estrutura de capital para mitigar riscos.
A eficiência operacional da empresa foi avaliada por meio do EBITDA, cujos resultados são apresentados na Tabela 6 (não inserida aqui, mas referenciada no documento original). O EBITDA, que representa o Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações, é um indicador crucial da capacidade de geração de resultados operacionais, desconsiderando efeitos financeiros, tributários e contábeis (Assaf Neto, 2018). Observou-se um crescimento moderado do EBITDA entre 2020 (R$ 393.527 mil) e 2021 (R$ 401.146 mil), seguido de uma retração em 2022 (R$ 367.397 mil). Essa redução em 2022 pode ser atribuída ao aumento dos custos operacionais e à elevação dos estoques, além dos impactos remanescentes do período pós-pandemia, conforme detalhado na Tabela 7 (não inserida aqui, mas referenciada no documento original), que mostra o aumento dos custos dos bens e serviços e das despesas operacionais. A Margem EBITDA, apresentada no Apêndice B (não inserido aqui, mas referenciado no documento original), corrobora essa tendência, caindo de 34,41% em 2020 para 26,06% em 2022, indicando uma perda de eficiência operacional nesse período.
A partir de 2023, no entanto, o EBITDA demonstrou uma recuperação robusta, atingindo R$ 466.283 mil, e um crescimento expressivo em 2024, alcançando R$ 765.361 mil. A Margem EBITDA também se recuperou para 28,53% em 2023 e atingiu 39,24% em 2024. Esse desempenho positivo é multifatorial, sendo diretamente influenciado pelo reajuste tarifário e pela ampliação da receita decorrente da entrada em operação de novos sistemas de esgotamento sanitário. Contudo, um fator determinante foi a adoção de medidas de reestruturação financeira e operacional, incluindo a implementação do Orçamento Base Zero e um controle mais rigoroso das despesas. O OBZ, ao exigir a justificativa de cada gasto, promoveu uma revisão de despesas, resultando em ganhos de eficiência operacional. Assaf Neto (2018) argumenta que quanto maior o EBITDA, mais eficiente é a formação de caixa proveniente das operações, e a recuperação observada indica um fortalecimento da capacidade da empresa de gerar valor a partir de suas atividades essenciais. As implicações práticas são o aumento da capacidade de autofinanciamento, maior atratividade para investidores e credores, e uma base mais sólida para futuros investimentos e expansão, essenciais para o cumprimento das metas regulatórias do setor de saneamento.
A análise integrada dos indicadores de liquidez, endividamento e EBITDA, sintetizada na Tabela 2, evidencia claramente a transição da empresa de um cenário de restrição financeira para um de recuperação e fortalecimento operacional após a implementação do Orçamento Base Zero.
Tabela 2. Resultado dos Indicadores
|
Ano |
Liquidez Geral |
Liquidez Corrente |
Liquidez Seca |
Endividamento |
EBITDA |
|
2020 |
0,4 |
0,9 |
0,9 |
1,3 |
393.527 |
|
2021 |
0,4 |
1,1 |
1,2 |
1,0 |
401.146 |
|
2022 |
0,8 |
0,8 |
0,9 |
1,1 |
367.397 |
|
2023 |
0,8 |
1,3 |
1,4 |
1,3 |
466.263 |
|
2024 |
0,7 |
1,1 |
1,2 |
1,3 |
765.361 |
Fonte: Resultados Originais da Pesquisa
No período de 2020 a 2022, a companhia enfrentou uma conjuntura desafiadora, caracterizada pela deterioração da liquidez (geral, corrente e seca), elevação do endividamento e redução da eficiência operacional (EBITDA e Margem EBITDA). Esse período foi marcado por fatores externos, como a pandemia e a estiagem, e por fragilidades internas na gestão orçamentária, que não conseguia absorver os choques e as demandas por investimentos. A partir de 2023, observa-se uma reversão desse quadro, impulsionada pela adoção de práticas mais rigorosas de gestão orçamentária, revisão de despesas e priorização de investimentos, elementos centrais da metodologia OBZ. A recuperação do EBITDA e a melhoria na gestão do capital de giro são os resultados mais evidentes dessa mudança de abordagem.
O gráfico que consolida os três indicadores de liquidez (não numerado como figura no documento original, mas visualmente presente na página 13) permite uma visualização integrada dessas variações ao longo do período. Ele ilustra que, enquanto a liquidez geral permaneceu consistentemente abaixo da unidade, evidenciando uma limitação estrutural na capacidade de pagamento de longo prazo, a liquidez corrente e a liquidez seca apresentaram maior variabilidade, com uma queda em 2022 e uma recuperação significativa a partir de 2023. Essa recuperação reflete os efeitos positivos das medidas de reestruturação financeira e da implementação do OBZ. A persistência da liquidez geral abaixo de 1,0, mesmo com a melhora nos indicadores de curto prazo, sugere que, embora a empresa tenha aprimorado sua capacidade de gerenciar obrigações imediatas, os desafios estruturais de financiamento de longo prazo e a dependência de capital de terceiros ainda são proeminentes.
A dependência de capital de terceiros, evidenciada pelo aumento do endividamento, é uma característica típica do setor de saneamento, que exige investimentos contínuos e de grande porte. No entanto, essa dependência amplia a exposição ao risco financeiro, especialmente em cenários de taxas de juros elevadas e restrições de crédito, conforme alertam Assaf Neto (2014) e Gitman (2010). A sustentabilidade da empresa no longo prazo dependerá de sua capacidade de equilibrar o crescimento, o nível de endividamento e a geração consistente de resultados operacionais. A implementação do OBZ, nesse contexto, não apenas contribuiu para a racionalização dos gastos e o fortalecimento da disciplina financeira, mas também reforçou a transparência e a accountability, aspectos cruciais para uma empresa pública de economia mista. Pyhrr (1970) e Chiavenato (2003) destacam que o planejamento financeiro e orçamentário, especialmente com abordagens como o OBZ, são ferramentas essenciais para antecipar cenários e definir estratégias voltadas à eficiência e à sustentabilidade. A efetividade do orçamento empresarial, como apontado por Silva (2024), está intrinsecamente ligada à adoção de uma metodologia estruturada e integrada à gestão estratégica.
As implicações práticas desses achados são múltiplas. A recuperação da liquidez de curto prazo e do EBITDA demonstra que o OBZ foi uma ferramenta eficaz para otimizar a gestão operacional e o capital de giro. A capacidade de gerar mais caixa operacional e de cobrir dívidas de curto prazo confere à empresa maior flexibilidade e resiliência em suas operações diárias. Contudo, os desafios estruturais de longo prazo, como a liquidez geral e o endividamento, exigem uma atenção contínua e estratégica. A empresa deve continuar a buscar fontes de financiamento que se alinhem ao perfil de seus ativos de longo prazo, como parcerias público-privadas (PPPs) e outras modalidades de captação de recursos que não comprometam excessivamente sua estrutura de capital. A gestão de riscos financeiros, incluindo a sensibilidade a flutuações nas taxas de juros, torna-se ainda mais crítica.
Apesar dos avanços observados, a análise de uma única empresa, como limitação metodológica do estudo, restringe a generalização dos resultados para o setor de saneamento como um todo. A natureza de estudo de caso, embora aprofundada, não permite inferências para outras organizações. Adicionalmente, o período de avaliação após a implementação do Orçamento Base Zero foi relativamente curto (2023-2024), o que pode limitar a observação de efeitos de longo prazo da metodologia. Essas restrições indicam a necessidade de estudos futuros com maior abrangência temporal e setorial para consolidar as conclusões. Futuras pesquisas poderiam incluir estudos comparativos com outras empresas do setor, tanto públicas quanto privadas, para identificar melhores práticas e avaliar a adaptabilidade do OBZ em diferentes contextos organizacionais. Acompanhamentos longitudinais mais extensos também seriam valiosos para analisar a sustentabilidade dos resultados e a evolução dos indicadores financeiros ao longo de um período mais prolongado, oferecendo uma compreensão mais robusta dos impactos do OBZ. A escassa produção científica sobre a aplicação do OBZ em contextos empresariais e de gestão pública, conforme Junior (2020), reforça a relevância deste estudo e a necessidade de aprofundamento da pesquisa na área.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao analisar os resultados financeiros de uma empresa do setor de saneamento após a implementação do Orçamento Base Zero (OBZ), com foco nos indicadores de liquidez, endividamento e EBITDA no período de 2020 a 2024. Os resultados evidenciaram que, no período anterior à adoção do OBZ (2020-2022), a empresa enfrentava um cenário de restrições financeiras, com baixa liquidez, elevado endividamento e redução da eficiência operacional. A partir de 2023, com a implementação do OBZ e uma nova gestão, observou-se uma significativa recuperação nos indicadores de liquidez de curto prazo e no EBITDA, refletindo um aprimoramento do controle orçamentário, maior racionalização dos gastos e fortalecimento da disciplina financeira. Contudo, a liquidez geral permaneceu abaixo da unidade e o endividamento manteve-se elevado, indicando desafios estruturais de longo prazo e dependência de capital de terceiros, típicos do setor de saneamento, mas que exigem atenção contínua para a sustentabilidade.
Este estudo, contudo, apresenta limitações importantes. A análise foi realizada com base em uma única empresa, o que restringe a generalização dos resultados para o setor de saneamento como um todo. Além disso, o período de avaliação após a implementação do Orçamento Base Zero foi relativamente curto (2023-2024), o que pode limitar a observação de efeitos de longo prazo da metodologia. A natureza de empresa pública de economia mista também introduz particularidades de governança e ambiente regulatório que dificultam comparações diretas. Para estudos futuros, recomenda-se a ampliação da abrangência temporal e setorial, a realização de estudos comparativos com outras empresas do setor, tanto públicas quanto privadas, e acompanhamentos longitudinais mais extensos para analisar a sustentabilidade dos resultados e a evolução dos indicadores financeiros em um período mais prolongado.
Referências Bibliográficas
Assaf Neto, A. 2014. Estrutura e análise de balanços. 11 ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Assaf Neto, A. 2018. Finanças corporativas e valor. 7 ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Atkinson, A. A.; Kaplan, R. S.; Matsumura, E. M.; Young, S. M. 2012. Contabilidade gerencial: informação para tomada de decisão e execução da estratégia. 6 ed. Pearson, São Paulo, SP, Brasil.
Chiavenato, I. 2008. Administração financeira: uma abordagem introdutória. 3 ed. Elsevier, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Gitman, L. J. 2010. Princípios de administração financeira. 12 ed. Pearson Education do Brasil, São Paulo, SP, Brasil.
Pyhrr, P. A. 1970. Zero-base budgeting: a practical management tool for evaluating expenses. John Wiley & Sons, New York, EUA.
Silva, O. J. et al. 2024. Determinantes para implementação do orçamento empresarial nas organizações. Trabalho de Conclusão de Curso de Ciências Contábeis da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

