28 de julho de 2026
Metodologia Seis Sigma aplicada na redução de entupimentos de chutes em Terminal de Granéis Sólidos
Desirée Pires Oiticica; Stefano Francisco Pereira Duarte
DOI: 10.22167/2675-6528-202600732
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O presente trabalho aplicou a metodologia Seis Sigma na redução de entupimentos de chutes em um terminal de granéis sólidos, um problema que impactava diretamente a eficiência operacional e a capacidade de atendimento da cadeia siderúrgica. Teve como objetivo geral reduzir a ocorrência de entupimentos em chutes de transferência de carvão, contribuindo para a melhoria dos indicadores de desempenho do processo de desembarque. Adotou-se a abordagem de pesquisa-ação, associada ao método DMAIC, por meio da qual se definiu o problema, mediu-se o comportamento histórico do indicador de entupimento, analisaram-se as causas fundamentais, implementaram-se soluções físicas e operacionais e controlou-se a sustentabilidade dos resultados. Foram empregados recursos estatísticos, estratificações de dados, priorização estruturada de causas e soluções, além de ferramentas de gestão de projetos. O projeto evidenciou que a combinação entre melhorias de engenharia, ajustes operacionais e monitoramento sistemático dos indicadores permitiu elevar a estabilidade do processo, reduzir perdas potenciais de volume movimentado e fortalecer a governança sobre o desempenho do terminal. A meta global foi atingida, com o Índice de Entupimento médio no período de verificação (março a maio de 2024) sendo 20% inferior à meta proposta e 58% inferior à média do baseline, resultando em uma perda evitada de aproximadamente 19,3 mil toneladas, equivalente a R$ 296,5 mil, em três meses. Concluiu-se que a integração entre Seis Sigma e gestão de projetos mostrou-se eficaz para tratar um problema crônico de operação, oferecendo um modelo estruturado replicável em outros contextos industriais com desafios semelhantes.
Palavras-chave: DMAIC; Indicadores de Desempenho; Melhoria Contínua; Operações Portuárias.
1. Introdução
A indústria siderúrgica, setor vital da metalurgia, influencia o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, fornecendo insumos essenciais para diversos segmentos econômicos. Em 2023, o consumo nacional de aço foi impulsionado pela construção civil (38,9%), automotivo (23,4%) e bens de capital (20,2%) (AÇO BRASIL, 2024). A produção brasileira de 32 milhões de toneladas de aço bruto em 2023 posicionou o país como líder na América Latina e nono globalmente. A região Sudeste foi responsável por 85,5% dessa produção, com Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo como os principais contribuintes (AÇO BRASIL, 2024).
A rota predominante para a produção de ferro e aço, utilizando altos-fornos (70% da representatividade), emprega matérias-primas como minério de ferro, calcário e carvão mineral. É crucial como combustível e redutor de oxigênio. Estima-se o consumo de 780 kg de carvão para cada 1.000 kg de aço bruto (WORLD STEEL ASSOCIATION, 2025). A logística dessas matérias-primas é vital, e terminais especializados em granéis sólidos, como o Terminal de Praia Mole (TPM) em Vitória, Espírito Santo, são estratégicos para o abastecimento.
O Terminal de Praia Mole (TPM) é o maior terminal especializado em operações de descarga de granéis sólidos no Brasil, conforme VLI (2025), movimentando carvão mineral, coque de petróleo e minério de ferro. Sua localização permite atender às principais siderúrgicas. Em 2023, o TPM movimentou cerca de 10,47 milhões de toneladas de granéis sólidos. O processo de desembarque inicia com descarregadores de navio que alimentam correias transportadoras e chutes de transferência, operando a 2.200 toneladas por hora, direcionando produtos para clientes ou pátios de estocagem.
Nesse fluxo operacional, um ofensor significativo são os entupimentos de chutes de transferência, causados pelo acúmulo excessivo de material, que bloqueia o fluxo e pode gerar transbordos. Tais eventos provocam grandes paradas de produção, impactando negativamente indicadores operacionais, como disponibilidade de ativos e substituição de componentes. Além disso, aumentam o uso de mão de obra para limpeza, podem resultar em perda de produto e elevar a emissão de particulados (OLIVEIRA, 2024). Em 2022, os entupimentos no TPM representaram 10% das perdas do processo de desembarque, totalizando 247 horas de paralisação, equivalente a dez dias sem operação.
A recorrência e o impacto desses entupimentos configuram uma paralisação extrínseca, um evento que não deveria ocorrer em condições normais de processo, revelando uma lacuna na estabilidade operacional. Abordar essa problemática otimiza a produtividade e a eficiência do terminal. A redução dos entupimentos contribui diretamente para a melhoria de indicadores cruciais como a Taxa Comercial (TC) e a Eficiência Operacional (EO). Melhorar esses indicadores é essencial para a sustentabilidade e competitividade da organização, tornando a intervenção neste problema uma prioridade estratégica.
Diante da complexidade e do impacto do problema, a metodologia Seis Sigma foi selecionada para aprimorar a produtividade. O Seis Sigma é um sistema organizado e sistemático, focado na melhoria de processos, produtos e serviços, baseado em métodos estatísticos e científicos para reduzir não conformidades (LINDERMAN, 2002). Essa metodologia é frequentemente guiada pelo ciclo DMAIC (Define, Measure, Analyze, Improve, Control), que deriva do ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act). O método DMAIC oferece uma estrutura de cinco etapas para identificar, analisar e resolver problemas de forma eficaz (SANDERS; HILD, 2000).
A pesquisa-ação, conforme Thiollent (2022), complementa o Seis Sigma, interligando conhecimento teórico e ação prática, permitindo a extração de novos conhecimentos da intervenção. Para a aplicação do Seis Sigma, é essencial que o problema seja crônico, prioritário, sem causa ou solução sustentável conhecida, que existam dados históricos para sua caracterização e que abordagens anteriores não tenham sido eficazes, exigindo o uso de ferramentas estatísticas para análise de variabilidade (VALER, 2023). No contexto deste estudo, todos esses requisitos foram validados, confirmando a adequação da metodologia para a tratativa dos entupimentos.
A relevância deste trabalho reside em elevar os indicadores de performance do Terminal de Granéis Sólidos e mitigar os impactos dos entupimentos, por meio da aplicação estruturada de uma metodologia de melhoria contínua. A identificação das causas raiz e a implementação de soluções visam uma operação mais eficiente do desembarque de granéis sólidos. Assim, este estudo justifica-se pela necessidade de otimizar a eficiência operacional e a capacidade de atendimento da cadeia siderúrgica, e tem como objetivo geral reduzir a ocorrência de entupimentos em chutes de transferência de carvão, contribuindo para a melhoria dos indicadores de desempenho do processo de desembarque.
2. Material e Métodos
O presente estudo adotou uma abordagem de pesquisa-ação (Thiollent, 2022), interligando conhecimento teórico à prática para extrair novos saberes da intervenção. Associada a esta, aplicou-se a metodologia Seis Sigma, um sistema focado na melhoria de processos, produtos e serviços, baseado em métodos estatísticos e científicos para reduzir não conformidades (LINDERMAN, 2002). A condução do projeto foi estruturada pelo ciclo DMAIC (Define, Measure, Analyze, Improve, Control), derivado do ciclo PDCA, oferecendo cinco etapas para identificar, analisar e resolver problemas (SANDERS; HILD, 2000).
A pesquisa foi desenvolvida no Terminal de Praia Mole (TPM), em Vitória, Espírito Santo, focando nos entupimentos de chutes de transferência de carvão. A adequação do problema à metodologia Seis Sigma foi validada junto à equipe de Excelência Operacional. Esta validação confirmou que o problema era crônico, prioritário, sem causa ou solução sustentável conhecida, com dados históricos disponíveis e exigindo ferramentas estatísticas para análise de variabilidade (VALER, 2023).
Na etapa de Definição, o problema foi identificado e sua importância estabelecida. O escopo do projeto delimitou-se à redução do Índice de Entupimento (IE) em três chutes críticos: DN04, TC12 e TC17. O IE foi definido como a relação entre o tempo de paralisação gerada por entupimentos e o volume movimentado (Par_ent / Vol). A meta geral do projeto, de 5,39 h/Mt, foi estabelecida utilizando os métodos estatísticos de quartis e lacuna (VALER, 2023). O Project Charter ou Business Case foi o entregável desta fase, com baseline de janeiro a dezembro de 2022.
A etapa de Medição concentrou-se na análise do fenômeno, iniciando-se pela coleta, tratamento e formatação dos dados. A base bruta foi obtida do sistema de gestão da produção homologado da companhia, contendo informações sobre horas de operação, paralisações, eventos, volume movimentado, navios operados e mix de produtos. Realizaram-se checagens das bases de dados para garantir sua confiabilidade. Para a análise, empregaram-se recursos estatísticos e ferramentas de estratificação, como a árvore hierárquica e o diagrama de Pareto, para identificar focos críticos. A análise de variação utilizou histogramas, boxplots, gráficos de probabilidade normal e cartas de controle (VALER, 2023). As análises foram suportadas por uma ferramenta própria da empresa, Macrotab, similar ao Minitab, e pelo Microsoft Power BI.
Na etapa de Análise, o objetivo foi identificar e quantificar as causas fundamentais dos problemas prioritários. O levantamento de causas potenciais utilizou o mapa de processo, a ferramenta Fault Tree Analysis (FTA), sessões de brainstorming e a técnica dos 5 Porquês. A árvore de falhas construída desdobrou 11 eventos, resultando em 28 causas potenciais. Destas, 14 foram consideradas relevantes, e uma matriz de priorização foi aplicada para selecionar as causas mais impactantes, considerando critérios como alto impacto, baixo esforço, autonomia e baixo custo (VALER, 2023). As 4 causas priorizadas foram evidenciadas e quantificadas por meio de diagramas de dispersão, evidências fotográficas, gráficos do sistema on-line, análises de falha, documentos técnicos de Engenharia e literatura específica.
A etapa de Melhora focou na proposição e execução das soluções. Foram levantadas 9 possíveis soluções, todas consideradas significativas e executáveis. A partir delas, construiu-se um plano de ação detalhado, utilizando o modelo 5W2H (VALER, 2023). Este plano definiu 12 frentes de ação, que incluíram melhorias físicas nos chutes, como substituição de equipamentos e reposicionamento de sondas, e estratégias operacionais, como a estruturação do acompanhamento de indicadores e a definição de orientações de melhor rota e taxa por produto. O andamento das ações foi monitorado por meio de uma curva de avanço.
A etapa final, Controle, dedicou-se à verificação dos resultados, padronização e manutenção das melhorias. Verificou-se o atingimento da meta global e das metas específicas para cada chute. Para a padronização, criaram-se padrões para as alterações implementadas e desenvolveu-se um plano de monitoramento dos indicadores. Um OCAP (Out of Control Action Plan) foi elaborado, consistindo em um procedimento para a tomada de ações corretivas em caso de desvios. Adicionalmente, desenvolveram-se indicadores auxiliares, como o percentual de entupimentos, o tempo médio entre entupimentos e o tempo médio por entupimento, para um acompanhamento abrangente. O período de verificação dos resultados foi de março a maio de 2024.
3. Resultados e Discussão
A aplicação da metodologia Seis Sigma, estruturada pelo ciclo DMAIC, permitiu uma abordagem sistemática para a redução dos entupimentos de chutes no Terminal de Praia Mole, um problema que impactava diretamente a eficiência operacional e a capacidade de atendimento da cadeia siderúrgica. O estudo iniciou-se com a fase de Definição, onde o problema foi claramente delimitado e sua relevância para a organização foi estabelecida. Verificou-se que os entupimentos de chutes representavam um ofensor significativo, contribuindo para a redução de indicadores de desempenho como a Taxa Comercial e a Eficiência Operacional, conforme destacado na introdução do trabalho.
No ano de 2022, os entupimentos de chutes foram responsáveis por 247 horas de paralisação, o que corresponde a 11% do total de 2.164 horas de paralisações operacionais registradas no processo de desembarque. Essa perda de tempo equivale a aproximadamente dez dias sem operação, evidenciando a cronicidade e o impacto financeiro e operacional do problema. Para monitorar o sucesso do projeto, foi definido o Índice de Entupimento (IE), calculado como a relação entre o tempo de paralisação gerado por entupimentos e o volume movimentado, permitindo uma análise proporcional das horas operadas em cada chute.
A meta global do projeto foi estabelecida após a comparação de dois métodos estatísticos: quartis e lacuna. O método dos quartis sugeria uma meta de 2,12 h/Mt, implicando uma redução de 79% em relação à média do baseline, mas foi atingido apenas três vezes no período analisado. Em contraste, o método da lacuna propôs uma meta de 5,39 h/Mt, representando uma redução de 47% e sendo alcançada oito vezes no mesmo período. Optou-se pela meta de 5,39 h/Mt, considerada mais factível e sustentável para o projeto, com o critério de sucesso definido como a média do indicador nos três meses de verificação igual ou inferior a esse valor.
Na etapa de Medição, a análise do fenômeno revelou que, dos equipamentos, os chutes DN04, TC12 e TC17 eram os mais críticos, respondendo por 91 horas de paralisação, o que representava 37% do total. O chute TC01, embora também relevante, foi despriorizado devido a restrições orçamentárias e de tempo. A estratificação por natureza do material demonstrou que quase a totalidade dos entupimentos (97%) estava concentrada no carvão, confirmando o foco do projeto nesse tipo de granel sólido e descartando outras naturezas como causas críticas.
A análise detalhada por produto da natureza carvão identificou que os produtos CMVE, CBPC e CMPH eram os maiores contribuintes para as paralisações. Observou-se uma tendência de maior ocorrência de entupimentos em produtos de baixa e média volatilidade. A evolução temporal do Índice de Entupimento para os chutes críticos revelou picos em meses específicos, como agosto, novembro e dezembro, que foram associados à movimentação de produtos considerados críticos. Essa correlação sugeriu a necessidade de evitar certas combinações de equipamento e produto para otimizar o desempenho do processo.
Metas específicas foram calculadas para cada um dos chutes críticos, visando o alinhamento com a meta global. Para o DN04, a meta foi de 7,50 h/Mt (redução de 58%); para o TC12, 5,54 h/Mt (redução de 50%); e para o TC17, 2,53 h/Mt (redução de 50%). A média ponderada dessas metas específicas resultou em 5,19 h/Mt, um valor que se mostrou consistente com a meta global de 5,39 h/Mt estabelecida para o projeto, reforçando a coerência da estratégia de melhoria.
A etapa de Análise concentrou-se na identificação e quantificação das causas fundamentais. Por meio de um mapa de processo, brainstorming e a ferramenta Fault Tree Analysis (FTA), foram levantadas 28 causas potenciais, das quais 14 foram consideradas relevantes, considerando o orçamento e o tempo disponível. A priorização dessas causas foi realizada utilizando uma matriz que avaliou critérios como alto impacto, baixo esforço, autonomia e baixo custo, com pesos definidos pela equipe multidisciplinar.
A aplicação da matriz de priorização resultou na seleção de quatro causas fundamentais a serem atacadas: baixa angulação da rampa traseira do chute, problemas de chaparia (englobando chapas velhas, inadequadas, diferença de espessura e falta de recortes), falhas operacionais e posicionamento incorreto das sondas pêndulo. Essas causas foram evidenciadas e quantificadas por meio de diversas ferramentas, incluindo diagramas de dispersão, evidências fotográficas, dados de sistemas de acompanhamento online, análises de falha e documentos técnicos, garantindo a robustez da análise.
Na etapa de Melhora, foram propostas nove soluções para bloquear as causas fundamentais identificadas. Todas as soluções foram consideradas significativas e executáveis dentro do prazo do projeto, não sendo necessária uma priorização adicional. As soluções incluíram a troca de chutes com baixa angulação da rampa traseira, a instalação de chapas cerâmicas e o preenchimento de ressaltos para resolver os problemas de chaparia, a estruturação de acompanhamento operacional e a construção de orientações para melhor rota e taxa por produto para as falhas operacionais, e o reposicionamento das sondas pêndulo.
O plano de ação foi detalhado por meio do modelo 5W2H, resultando em 12 frentes de ação. Oito dessas frentes envolveram melhorias físicas nos chutes, como a substituição de equipamentos, instalação de novos sensores e reposicionamento de sondas. As demais frentes focaram em estratégias operacionais, incluindo a estruturação do acompanhamento de indicadores e a definição de orientações de melhor rota e taxa por produto, demonstrando uma abordagem multifacetada para o problema.
Estudos prévios e testes realizados, como os citados por Oliveira (2024), corroboraram a eficácia das soluções propostas. Aumentar a inclinação da rampa traseira do chute para valores superiores a 30° em relação à vertical, por exemplo, demonstrou impactar positivamente o balanço de massa das partículas, reduzindo o acúmulo de material e a ocorrência de entupimentos (GAVI, 2011). A medição das angulações das rampas traseiras dos chutes fixos do DN04 confirmou que os maiores índices de entupimento estavam associados a angulações mais baixas, justificando as ações de ajuste.
A substituição das chapas de revestimento por chapas cerâmicas nos chutes DN04 e TC12 também se mostrou eficaz. Testes indicaram que as chapas cerâmicas apresentavam menores valores de tangente dos ângulos de rolamento em comparação com outros materiais, como eletrodeposição preta e ferro fundido (OLIVEIRA, 2024). Essa característica, aliada a um menor coeficiente de atrito, favoreceu o escoamento do material, resultando em melhorias de desempenho quando aplicadas corretamente, evitando a formação de cantos mortos ou ressaltos entre as chapas.
Na etapa final de Controle, os resultados foram verificados no período de março a maio de 2024. O Índice de Entupimento médio para esse período foi de 4,31 h/Mt. Esse valor representou uma redução de 20% em relação à meta proposta de 5,39 h/Mt e uma diminuição de 58% em comparação com a média do baseline de 10,26 h/Mt. Embora o mês de maio tenha apresentado um resultado 23% superior à meta, os meses de março e abril ficaram 44% e 39% abaixo da meta, respectivamente, indicando que a meta global do projeto foi atingida com sucesso.
A verificação das metas específicas por chute revelou que o DN04 atingiu plenamente seu objetivo, com um Índice de Entupimento médio de 0,82 h/Mt, representando uma redução de 89% em relação à meta e 84% em relação à média do baseline. Contudo, os chutes TC12 e TC17 alcançaram apenas parcialmente suas metas, com médias de 6,45 h/Mt e 4,39 h/Mt, respectivamente, ficando acima das metas específicas propostas. Este resultado sugere a necessidade de reavaliar as ações implementadas para esses chutes, buscando ajustes adicionais para otimizar seu desempenho.
Os ganhos quantitativos do projeto foram significativos. No período de três meses de verificação, a redução dos entupimentos resultou em uma perda evitada de aproximadamente 19,3 mil toneladas de material movimentado, o que se traduziu em um ganho financeiro de cerca de R$ 296,5 mil. Ao anualizar esses resultados, projeta-se uma perda evitada de aproximadamente 77,3 mil toneladas, equivalente a R$ 1,19 milhão, valores que foram validados pela equipe de gestão econômica da companhia.
Além dos ganhos quantitativos, foram identificados diversos benefícios qualitativos por meio de entrevistas com os envolvidos. Destacam-se a redução de erros na apropriação de eventos de parada, o aumento do conhecimento das equipes sobre o problema e suas soluções, a melhoria da segurança e produtividade das equipes de limpeza industrial e operação, a contribuição para a redução de “quebra” de material para o cliente e a diminuição da emissão de particulados devido à menor ocorrência de transbordos de material dos chutes.
A padronização dos processos foi uma etapa crucial para a sustentabilidade dos resultados. Foi estruturado um fluxo para a definição da melhor rota e taxa por produto, envolvendo a previsão de produtos, reuniões de performance e análise contínua. Adicionalmente, foi desenvolvido um painel de indicadores para o acompanhamento diário, semanal e mensal do Índice de Entupimento e de indicadores auxiliares, como o percentual de entupimentos, o tempo médio entre entupimentos e o tempo médio por entupimento, consolidando um processo de decisão mais ágil e baseado em dados.
Para garantir a continuidade das melhorias e a resposta a eventuais desvios, foi elaborado um OCAP (Out of Control Action Plan), um procedimento em formato de fluxograma que orienta a tomada de ações corretivas. Esse plano estabelece os passos a serem seguidos caso o processo apresente anomalias, como ocorrências de entupimento acima do histórico ou fluxo de material acima do recomendado, assegurando a manutenção da estabilidade operacional e a sustentabilidade dos ganhos obtidos.
Em síntese, a aplicação da metodologia Seis Sigma, com o uso do ciclo DMAIC, demonstrou ser uma ferramenta eficaz para a resolução de um problema crônico de entupimentos em chutes de transferência de carvão. A abordagem estruturada permitiu identificar as causas raiz, implementar soluções de engenharia e operacionais, e estabelecer um sistema de controle e monitoramento. Os resultados alcançados, com a redução significativa do Índice de Entupimento e os ganhos quantitativos e qualitativos, validam a eficácia do projeto em contribuir para a melhoria dos indicadores de desempenho do processo de desembarque do terminal.
4. Conclusão
O presente estudo buscou reduzir a ocorrência de entupimentos em chutes de transferência de carvão em um terminal de granéis sólidos, visando aprimorar os indicadores de desempenho do processo de desembarque. Por meio da aplicação da metodologia Seis Sigma, estruturada no ciclo DMAIC, verificou-se que os entupimentos, um problema crônico que gerava significativas paralisações operacionais, estavam concentrados em chutes específicos (DN04, TC12 e TC17) e em produtos de carvão de baixa e média volatilidade. A análise aprofundada permitiu identificar causas fundamentais, como a baixa angulação das rampas dos chutes, problemas de chaparia, falhas operacionais e posicionamento inadequado de sondas pêndulo. A implementação de soluções de engenharia, como a substituição de chutes e a instalação de chapas cerâmicas, aliada a ajustes operacionais e ao monitoramento sistemático, resultou em uma melhoria substancial. O Índice de Entupimento médio no período de verificação (março a maio de 2024) foi 20% inferior à meta proposta e 58% inferior à média do baseline, evidenciando a estabilidade do processo e a redução de perdas potenciais de volume movimentado. Essa intervenção gerou uma perda evitada de aproximadamente 19,3 mil toneladas, equivalente a R$ 296,5 mil, em três meses, além de benefícios qualitativos como a melhoria da segurança e do conhecimento das equipes.
A principal contribuição deste trabalho reside na validação de um modelo estruturado, que integra o Seis Sigma e a gestão de projetos, eficaz para o tratamento de problemas operacionais crônicos, oferecendo um caminho replicável em outros contextos industriais com desafios semelhantes. Contudo, observou-se que, embora a meta global tenha sido atingida, os chutes TC12 e TC17 alcançaram apenas parcialmente suas metas específicas, indicando a necessidade de reavaliar as ações implementadas para esses equipamentos. Sugere-se, portanto, que estudos futuros aprofundem a investigação das causas residuais e a otimização das soluções para os chutes que não atingiram plenamente seus objetivos individuais, além de explorar a aplicabilidade do modelo DMAIC em outras áreas do terminal ou em diferentes operações de granéis sólidos, consolidando a governança sobre o desempenho e a melhoria contínua.
Referências Bibliográficas
Gavi, Jones. 2011. Solução em Transporte e Transferência de Materiais. Manual de Inspeção e Manutenção de Correias Transportadoras e seus Periféricos. 1 ed. Bios Editoração, Vitória, ES, Brasil.
Instituto Aço Brasil. 2024. Mercado brasileiro do aço: análise setorial e regional. Disponível em: <https://www.acobrasil.org.br/site/wp-content/uploads/2024/08/MBA_Edicao-2024.pdf>. Acesso em: 29 mar. 2025.
Linderman K. et al. 2002. Six Sigma: a goal-theoretic perspective. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/S0272-6963(02)00087-6>. Acesso em: 01 abr. 2025.
Oliveira, Guilherme P. 2024. Chutes de Transferência no Manuseio de Minérios: do Empirismo às Simulações Avançadas aplicando o Método dos Elementos Discretos (DEM). 1ed. Dialética, São Paulo, SP, Brasil.
Sanders, D; Hild, C.R. Common myths about six sigma. Quality Engineering, v. 13, n. 2, p. 269-276. 2000. Disponível em: <https://doi.org/10.1080/08982110108918650>. Acesso em: 02 abr. 2025.
Thiollent, M. 2022. Metodologia da Pesquisa-Ação [livro eletrônico]. 1ed. Cortez, São Paulo, SP, Brasil.
VALER – Educação VALE. 2023. Apostila do Curso Seis Sigma Green Belt. Vitória, ES, Brasil.
Valor da Logística Integrada [VLI]. 2025. Terminal Portuário Praia Mole (TPM). Disponível em: <https://www.vli-logistica.com.br/ativos-mapa/terminal-portuario-praia-mole-tpm/>. Acesso em: 31 mar. 2025.
World Steel Association. 2025. What is steel?. Disponível em: <https://worldsteel.org/about-steel/what-is-steel/>. Acesso em: 30 mar. 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

