30 de julho de 2026
Método Scrum no gerenciamento de cronograma – Estudo de caso de um galpão logístico
Felipe Marques da Costa Paisan; Brayan Dias Dauria
DOI: 10.22167/2675-6528-202600783
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A construção civil brasileira enfrenta desafios significativos no gerenciamento de cronogramas, com atrasos recorrentes que elevam custos e comprometem a credibilidade das organizações. As metodologias tradicionais de gestão de projetos frequentemente apresentam limitações para lidar com a complexidade e imprevisibilidade de obras civis. O estudo teve como objetivo analisar a aplicação da metodologia Scrum em um estudo de caso de uma obra na construção civil para mitigar atrasos no cronograma. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso qualitativo e quantitativo, desenvolvido a partir da análise de um galpão logístico que apresentou atrasos durante sua execução. Utilizaram-se técnicas de observação direta, análise de produtividade e simulação da aplicação do método Scrum com sprints semanais de validação. Os resultados identificaram déficits críticos de produtividade nas fases iniciais, como 31,8% nas fundações e 38,4% nos pré-moldados, que teriam sido detectados precocemente através da realização de sprints. Essa detecção precoce permitiria a mobilização imediata de recursos adicionais, evitando a propagação dos atrasos. Concluiu-se que a metodologia Scrum possibilita a detecção antecipada de desvios, a implementação de correções imediatas e a otimização de recursos, tornando-se uma ferramenta eficaz para aprimorar o controle de cronogramas na construção civil.
Palavras-chave: Construção civil; Gestão de projetos; Metodologias ágeis; Scrum.
1. Introdução
A construção civil brasileira enfrenta desafios significativos no gerenciamento de cronogramas, com atrasos recorrentes que elevam custos e comprometem a credibilidade das organizações. O cumprimento do cronograma é um fator crítico para o sucesso de obras civis, impactando obrigações contratuais e objetivos estratégicos dos
stakeholders
. A gestão do tempo nesse setor é complexa, caracterizada pela alta interdependência de atividades, variabilidade da mão de obra, dependência de fornecedores e fatores externos, como as condições climáticas (Kerzner, 2017; PMI, 2021).
Metodologias tradicionais, como o Diagrama de Gantt e o Método do Caminho Crítico (CPM), embora pilares na gestão de projetos, frequentemente falham em ambientes dinâmicos e imprevisíveis, gerando replanejamentos reativos e atrasos (PMI, 2021). Esses métodos, que proporcionam uma visão geral das metas e do andamento da obra, baseiam-se em pressupostos simplificados sobre a natureza dos projetos.
Cicmil et al. (2006) questionam a adequação das abordagens tradicionais de gestão de projetos ao analisarem a realidade prática dos empreendimentos. Os autores argumentam que existe uma lacuna significativa entre as metodologias convencionais e a complexidade real dos projetos, especialmente em relação à capacidade de lidar com a imprevisibilidade e as incertezas comuns. As ferramentas tradicionais falham em reconhecer as dinâmicas sociais, políticas e organizacionais que emergem durante a execução. Esta crítica evidencia a necessidade de repensar o gerenciamento de projetos para melhor acomodar a realidade complexa e incerta dos empreendimentos contemporâneos.
Diante dessa problemática, as metodologias ágeis de gerenciamento de projetos surgem como uma alternativa para aprimorar o controle do cronograma. As abordagens ágeis priorizam a adaptação contínua, a colaboração entre os envolvidos e o acompanhamento frequente do progresso das atividades (Highsmith, 2010). Elas oferecem uma alternativa superior ao possibilitar ajustes incrementais baseados em
feedback
contínuo, evitando a necessidade de compressão emergencial e os riscos associados a essa prática.
Nesse contexto, o método Scrum, criado por Ken Schwaber e Jeff Sutherland (2020), destaca-se por estruturar o trabalho em ciclos curtos e periódicos, conhecidos como
Sprints
. Esses ciclos favorecem o planejamento incremental, dividindo o projeto em partes menores e funcionais, o que facilita a rápida identificação de desvios. Os princípios fundamentais do Scrum de inspeção e adaptação são cruciais, pois permitem à equipe detectar impedimentos operacionais e identificar oportunidades de melhoria contínua através de retrospectivas aprofundadas (Schwaber & Sutherland, 2020).
A aplicação do método Scrum, portanto, apresenta potencial para mitigar atrasos, promovendo maior transparência no acompanhamento das atividades e possibilitando ajustes frequentes no cronograma. Isso alinha o planejamento à realidade do canteiro de obras, contribuindo para superar as limitações das metodologias tradicionais e aumentar a previsibilidade da execução (Serrador & Pinto, 2015). A detecção precoce de déficits de produtividade em estágios iniciais, como os 31,8% observados nas fundações durante um
sprint
simulado, permite a mobilização imediata de recursos adicionais antes que o atraso se consolide e se propague em efeito cascata sobre as atividades subsequentes (Cicmil et al., 2006; Kerzner, 2017).
O presente estudo baseia-se em um estudo de caso de uma construção de um galpão logístico com área total coberta de 25.000 m², localizado na cidade de Conde, Paraíba. Esse empreendimento, executado entre novembro de 2024 e dezembro de 2025, apresentou um atraso de 57 dias em relação ao cronograma previsto durante as fases de fundação à cobertura. A investigação detalhada revelou que os desvios de prazo estiveram diretamente associados à adoção exclusiva de metodologias tradicionais de gerenciamento de projetos, o que reforça a relevância de investigar alternativas mais adaptativas.
Diante desse cenário, este trabalho teve como objetivo analisar a aplicação da metodologia Scrum em um estudo de caso de obra civil para mitigar atrasos no cronograma.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza qualitativa e quantitativa, adotando uma abordagem descritiva e comparativa. Essa escolha metodológica permitiu a observação aprofundada do fenômeno em seu contexto real e a análise de dados objetivos relacionados ao desempenho da execução da obra. O método de pesquisa empregado foi o estudo de caso único, conforme as diretrizes de Gil (2017), estratégia adequada para investigar fenômenos complexos em situações reais.
A unidade de análise consistiu na execução de um galpão logístico, com área total coberta de 25.000 m², localizado na cidade de Conde, Paraíba. O empreendimento, composto por 112 fundações em sapatas e 112 pilares pré-moldados, teve sua execução entre novembro de 2024 e dezembro de 2025. Durante esse período, observou-se um atraso de 57 dias em relação ao cronograma inicialmente previsto, especialmente nas fases de fundação à cobertura.
A obra foi estruturada em quatro fases executivas distintas, cada uma com seus respectivos equipamentos e equipes: fundações, montagem dos pré-moldados, montagem estrutural e cobertura. Cada fase utilizou equipamentos específicos, como escavadeira e guindastes, e equipes dedicadas para sua execução, permitindo a análise detalhada dos processos.
A coleta de dados foi realizada por meio de observação direta e acompanhamento sistemático da execução em campo. Diariamente, registraram-se informações quantitativas e qualitativas sobre o desempenho da obra. Coletaram-se dados sobre quantidades de serviços executados (sapatas, pilares, estrutura metálica, cobertura), produtividades de equipamentos (escavadeira, guindastes) e tempo de execução por etapa. Observaram-se também perdas de produtividade, gargalos operacionais, interferências entre equipes, falhas de gestão, ociosidade de equipamentos e perdas de oportunidade na tomada de decisão.
Ao final de cada semana, elaborou-se um relatório de evolução física da obra, no qual se comparou o cronograma planejado com o cronograma efetivamente executado. Esses relatórios serviram como base para a análise dos desvios de prazo e produtividade, permitindo uma avaliação contínua do progresso do empreendimento.
Para a aplicação metodológica do Scrum, utilizou-se como apoio teórico-conceitual as diretrizes de gerenciamento de projetos descritas pelo PMI (2021), complementadas pelo framework Scrum de Schwaber e Sutherland, com base no Scrum Guide (2020). A pesquisa fundamentou-se na análise de práticas de gestão aplicadas ao contexto da construção civil, com ênfase na avaliação do impacto do gerenciamento ágil sobre o cumprimento de prazos.
O Scrum foi conceitualmente adaptado ao contexto da construção civil, dividindo-se o cronograma em ciclos curtos de execução, denominados Sprints, com duração de uma semana. Para a implementação desse cenário hipotético, elegeram-se os papéis do Scrum Team (Product Owner, Scrum Master e Development Team) e os eventos do Scrum (Sprint, Sprint Planning, Daily Scrum, Sprint Review e Sprint Retrospective), conforme sugerido por Schwaber e Sutherland (2020).
Os procedimentos de análise dos dados foram desenvolvidos em quatro etapas. Na Etapa I, analisou-se o cronograma planejado, identificando as datas previstas para cada atividade crítica. Na Etapa II, levantou-se a execução real, registrando as datas de início e término das atividades para identificar os atrasos. Na Etapa III, analisaram-se os desvios operacionais, levantando-se os desvios de produtividade, tempo e quantitativo de maquinários empregados.
A Etapa IV consistiu na elaboração de um cenário comparativo com o método Scrum, reorganizando hipoteticamente o cronograma com base nos princípios do planejamento incremental, priorização de atividades críticas e acompanhamento contínuo. Essa estrutura metodológica possibilitou comparar o desempenho real da obra com um cenário alternativo fundamentado em práticas ágeis de gerenciamento, visando discutir a viabilidade do Scrum como ferramenta de apoio à gestão de obras na construção civil.
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados obtidos neste estudo permitiu identificar discrepâncias significativas entre o cronograma planejado e a execução real da obra, bem como avaliar, em caráter hipotético, os possíveis impactos da aplicação da metodologia Scrum no gerenciamento do projeto. Os resultados corroboram as evidências apresentadas por Serrador e Pinto (2015), que demonstram que projetos gerenciados com metodologias ágeis tendem a apresentar maiores taxas de sucesso quando comparados àqueles conduzidos exclusivamente por métodos tradicionais. A simulação da aplicação do método Scrum evidenciou que a identificação precoce de desvios de produtividade poderia ter evitado o atraso acumulado observado na execução real, conforme será detalhado nas etapas subsequentes.
Etapa I – Análise do cronograma planejado
A primeira etapa da pesquisa concentrou-se na análise do cronograma inicialmente previsto para a execução da cobertura do galpão logístico. O planejamento estabelecia um prazo total de 96 dias para a conclusão da obra, com término programado para 30 de abril de 2025. O cronograma foi estruturado em três fases principais: fundação, pré-moldados e estrutura metálica. A fase de fundação possuía duração prevista de 53 dias, entre 18 de dezembro de 2024 e 28 de fevereiro de 2025. A etapa de pré-moldados estava programada para 65 dias, de 13 de janeiro de 2025 a 21 de março de 2025, enquanto a estrutura metálica possuía previsão de 63 dias, entre 03 de fevereiro de 2025 e 30 de abril de 2025. Observou-se que o planejamento apresentava um sequenciamento adequado das atividades, permitindo o paralelismo entre as frentes de trabalho sem interferências significativas, o que, segundo o PMI (2021), constitui um pilar fundamental para o sucesso de projetos complexos.
Etapa II – Análise do cronograma real executado
Na segunda etapa, foi realizada a análise do cronograma efetivamente executado, revelando uma duração total de 153 dias para a obra, com conclusão em 18 de julho de 2025. Esse período representa um aumento de 59,4% em relação ao prazo inicialmente estimado. A fase de fundação, que tinha previsão de 53 dias, estendeu-se por 78 dias, encerrando-se apenas em 04 de abril de 2025. A etapa de pré-moldados, prevista para iniciar em 13 de janeiro de 2025, teve início somente em 29 de janeiro de 2025 e foi concluída em 21 de maio de 2025. A estrutura metálica, por sua vez, iniciou-se em 23 de abril de 2025 e foi finalizada em 18 de julho de 2025. Essa perda significativa do sequenciamento planejado gerou um efeito cascata sobre as atividades subsequentes, um aspecto amplamente discutido por Cicmil et al. (2006) e Kerzner (2017), que destacam a propagação exponencial de atrasos em fases iniciais quando não há mecanismos sistemáticos de monitoramento e intervenção.
Etapa III – Levantamento dos desvios reais e produtividade reais e necessárias por equipamento
A terceira etapa dedicou-se ao levantamento quantitativo dos desvios reais de produtividade e à análise do desempenho por equipamento e frente de trabalho. A comparação entre o cronograma inicialmente previsto e o cronograma efetivamente executado revelou uma diferença expressiva no prazo final do empreendimento. Enquanto o planejamento previa a conclusão da cobertura do galpão logístico em 96 dias, com término programado para 30 de abril de 2025, a execução real demandou 153 dias, encerrando-se em 18 de julho de 2025. A execução real apresentou um atraso total de 57 dias, o que corresponde a 59,4% superior ao planejado. Essa análise detalhada permitiu identificar os pontos críticos de desempenho em cada fase da obra.
Na fase de Fundações (Sapatas), observou-se um atraso de 25 dias, representando uma extensão de 47,2% sobre o planejado. A produtividade real foi de 1,44 sapatas por dia, significativamente abaixo da produtividade prevista de 2,11 sapatas por dia. Isso resultou em um déficit de performance de 31,8% abaixo do necessário, utilizando apenas uma escavadeira. Este desvio inicial teve um impacto considerável no cronograma geral, evidenciando a importância da detecção precoce de problemas de produtividade em etapas fundamentais do projeto.
A fase de Pré-moldados apresentou um atraso adicional de 31 dias, correspondendo a 62% de extensão sobre o planejado. A produtividade real foi de 1,38 pilares por dia, em contraste com a produtividade prevista de 2,24 pilares por dia. Esse desempenho resultou em um déficit de performance de 38,4% abaixo do necessário, com a utilização de um guindaste. Os atrasos acumulados nessas fases iniciais demonstram a vulnerabilidade do cronograma quando não há mecanismos ágeis de adaptação e correção, conforme apontado por Cicmil et al. (2006) sobre a inadequação de abordagens tradicionais em ambientes complexos.
Em contraste com as fases iniciais, a Fase de Estrutura de Cobertura demonstrou uma redução de 17 dias, equivalente a 34% de aceleração sobre o planejado. A produtividade real alcançou 757,58 m² por dia, superando a produtividade prevista de 500 m² por dia, o que gerou um superávit de performance de 51,5% superior ao necessário. Para esta fase, foram utilizados um guindaste e uma equipe de montagem. Da mesma forma, a Fase de Cobertura apresentou uma redução de 13 dias, ou 22,4% de aceleração, com produtividade real de 555,56 m² por dia, superando a produtividade necessária de 431,03 m² por dia. Isso representou um superávit de performance de 28,9% superior ao necessário, utilizando um guindaste e uma equipe de montagem. Esse padrão de déficits nas fases iniciais e superávits nas fases finais corrobora o fenômeno da “compressão de cronograma” descrito por Kerzner (2017), onde equipes mobilizam recursos adicionais em etapas avançadas para compensar atrasos acumulados, frequentemente com impactos negativos nos custos e na qualidade.
Etapa IV – Elaboração de cenário comparativo com Scrum
A metodologia Scrum, aplicada hipoteticamente ao projeto, permitiria a identificação precoce de desvios por meio de sprints de teste semanais, possibilitando correções imediatas antes que os problemas impactassem o cronograma geral. A proposta de divisão em sprints considerou o cronograma total de 96 dias, organizado em 20 sprints semanais, alinhando-se aos princípios fundamentais do Scrum de Schwaber e Sutherland (2020), que recomendam ciclos curtos de trabalho para maximizar oportunidades de inspeção e adaptação. Essa estruturação, como destacam Moe et al. (2010), facilita a eficácia das equipes Scrum pela compreensão compartilhada dos objetivos e pela capacidade de auto-organização.
Para a aplicação do Scrum, foi necessário eleger o Scrum Team, composto pelo Product Owner (cliente/proprietário ou gestor responsável pela priorização das entregas), o Scrum Master (coordenador ou engenheiro de obra, responsável por treinar e liderar a equipe na prática do Scrum) e o Development Team (equipes técnicas e operacionais). Os Scrum Events, como o Sprint (ciclo de tempo fixo para entrega de valor), Sprint Planning (reunião inicial para definir metas), Daily Scrum (reunião diária de 15 minutos para inspeção do progresso), Sprint Review (reunião final para inspecionar resultados com stakeholders) e Sprint Retrospective (reunião final para refletir sobre o processo e identificar melhorias), seriam implementados para garantir o acompanhamento contínuo e a adaptação do projeto.
Sprints críticos de validação
A análise do cenário hipotético com Scrum identificou sprints onde validações críticas do projeto seriam realizadas, particularmente nos sprints 1, 5, 7 e 8. Esses sprints críticos caracterizam-se por momentos de comparação entre a produtividade real e a planejada, detecção de impedimentos operacionais e identificação de oportunidades de melhoria contínua por meio de retrospectivas aprofundadas. A identificação desses pontos de validação alinha-se aos pilares de inspeção e adaptação do Scrum (Schwaber & Sutherland, 2020), permitindo que a equipe detecte problemas e implemente melhorias para evitar atrasos ou potencializar ganhos de produtividade.
No Sprint 1, focado no teste de produtividade das sapatas (18/12/2024 a 24/12/2024), o monitoramento diário revelou que a equipe executou apenas 1,44 sapatas por dia, significativamente abaixo das 2,11 sapatas planejadas. Essa diferença resultou em um déficit de 31,8% na produtividade esperada, o que colocaria em risco a meta de conclusão em 53 dias. A retrospectiva do sprint teria identificado a causa raiz do problema, que era a produtividade insuficiente do equipamento e da equipe. A ação corretiva imediata, possibilitada pelo Scrum, seria a mobilização de uma escavadeira adicional e o reforço da equipe para o Sprint 2, evitando a propagação do déficit por toda a obra, conforme defendido por Schwaber e Sutherland (2020) e Moe et al. (2010).
O Sprint 5, dedicado ao teste de produtividade dos pilares (15/01/2025 a 21/01/2025), apresentou uma situação similar. Os dados coletados revelaram a execução de apenas 1,38 pilares por dia, em contraste com os 2,24 pilares diários planejados. Este cenário, com um déficit de 38,4% na produtividade esperada, comprometia a meta de 50 dias para a etapa. A retrospectiva apontaria novamente para recursos insuficientes como causa raiz, e a resposta ágil do Scrum seria a mobilização de um guindaste adicional e o reforço da equipe para o Sprint 6, demonstrando a capacidade de adaptação contínua que Highsmith (2010) enfatiza como crucial em projetos complexos.
O Sprint 7 (29/01/2025 a 04/02/2025) focou em dois aspectos: a verificação de conflitos operacionais e a produtividade da estrutura metálica. Primeiramente, buscou-se verificar se três guindastes poderiam trabalhar simultaneamente sem conflitos, o que foi validado como viável, permitindo manter o paralelismo das atividades. Paralelamente, a produtividade real da montagem da estrutura metálica superou as expectativas, com 757,58 m² executados diariamente, bem acima dos 500,00 m² planejados. Este superávit de 51,5% abriu a oportunidade de reduzir a meta de 50 dias para esta fase, e a ação corretiva estratégica seria verificar o cronograma de execução dos pilares para garantir o sequenciamento adequado, evitando que o ganho em uma frente fosse perdido por falta de sincronização com outras atividades.
O Sprint 8 (05/02/2025 a 11/02/2025) continuou a tendência positiva observada na estrutura metálica, com o objetivo de verificar a produtividade real da execução da cobertura. A equipe superou novamente as expectativas, executando 555,56 m² de cobertura diariamente, em comparação com os 431,00 m² planejados. Com um superávit de 29,0% na produtividade, identificou-se mais uma oportunidade de otimização, com potencial para reduzir a meta de 58 dias. A retrospectiva confirmaria a sustentabilidade dessa produtividade elevada, e a ação corretiva seguiria a mesma lógica do sprint anterior: verificar o cronograma da estrutura metálica para garantir o sequenciamento adequado, integrando cada otimização individual ao contexto geral do projeto.
Benefícios da metodologia Scrum aplicada
Os resultados obtidos nesta pesquisa evidenciam benefícios significativos da aplicação da metodologia Scrum, especialmente na detecção precoce de desvios, implementação de correções imediatas e otimização de recursos. Esses achados convergem com as evidências empíricas de Serrador e Pinto (2015), que demonstram que abordagens ágeis estão associadas a maiores índices de sucesso em projetos, tanto em eficiência quanto no cumprimento de objetivos. Highsmith (2010) complementa, destacando que os benefícios das metodologias ágeis extrapolam aspectos técnicos, abrangendo melhorias na comunicação da equipe, transparência dos processos e capacidade de adaptação a mudanças.
Um dos aspectos mais relevantes observados refere-se à capacidade do Scrum de identificar problemas de produtividade em momentos estratégicos da execução. No estudo em questão, essa característica mostrou-se evidente já no Sprint 1, quando foi possível detectar um déficit na produtividade das sapatas, situação que se repetiu no Sprint 5, durante a análise da etapa dos pilares. Esse acompanhamento contínuo, estruturado em ciclos curtos de inspeção, cria pontos regulares de controle e reduz significativamente o risco de que desvios passem despercebidos até se tornarem problemas críticos para o cronograma. Conforme argumenta Kerzner (2017), a identificação tardia de falhas constitui uma das principais causas de insucesso em projetos de construção, uma vez que restringe as possibilidades de intervenção gerencial. Schwaber e Sutherland (2020) enfatizam que a transparência proporcionada pelos artefatos do Scrum torna visíveis tanto o progresso quanto os impedimentos, favorecendo a antecipação de riscos. Moe et al. (2010) complementam essa discussão ao destacar que equipes que operam em ciclos iterativos desenvolvem maior sensibilidade para reconhecer sinais precoces de baixa performance.
Outro benefício central evidenciado pela análise diz respeito à capacidade de transformar a detecção precoce em ação corretiva imediata. Nos cenários simulados, a identificação rápida dos déficits de produtividade possibilitaria a mobilização adicional de equipamentos e o reforço das equipes antes que os atrasos impactassem o cronograma global da obra. Essa agilidade é particularmente relevante em projetos caracterizados por alta interdependência entre as etapas, nos quais atrasos localizados tendem a desencadear um efeito cascata sobre as fases subsequentes. Nesse sentido, Highsmith (2010) destaca que a principal vantagem das metodologias ágeis reside na possibilidade de realizar ajustes incrementais ao longo do processo, evitando a necessidade de replanejamentos disruptivos em estágios avançados do projeto. O PMI (2021) reforça essa perspectiva ao apontar que abordagens adaptativas são especialmente adequadas para contextos voláteis, complexos e marcados por incertezas, como o da construção civil.
Adicionalmente, os resultados evidenciam ganhos importantes relacionados à otimização de recursos. O controle sistemático proporcionado pela metodologia Scrum favorece uma alocação mais racional de equipamentos e equipes, permitindo que os recursos sejam direcionados prioritariamente às frentes de trabalho com maior déficit de produtividade. No caso analisado, essa lógica teria possibilitado concentrar esforços nas etapas de fundação e pré-moldados, antes da expansão para outras frentes, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência global do projeto. Segundo Kerzner (2017), a gestão de recursos constitui um desafio permanente no gerenciamento de projetos, por exigir o equilíbrio entre custo, prazo e qualidade. Schwaber e Sutherland (2020) acrescentam que o Scrum contribui para esse equilíbrio ao limitar o trabalho em progresso e manter o foco nas atividades prioritárias. Em consonância com essa perspectiva, Serrador e Pinto (2015) apontam que projetos conduzidos por metodologias ágeis tendem a apresentar menor incidência de retrabalho e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis. Sommerville (2019), por sua vez, ressalta que os processos iterativos favorecem o aprendizado organizacional contínuo, contribuindo para aperfeiçoamentos progressivos nas estimativas e na alocação de capacidade ao longo do projeto.
Em síntese, os resultados reforçam que a aplicação da metodologia Scrum no contexto analisado não apenas favoreceria maior controle sobre o cronograma, mas também contribuiria para uma gestão mais eficiente, adaptativa e estrategicamente orientada dos recursos e das decisões operacionais. A simulação demonstrou que a detecção precoce de desvios de produtividade, como os 31,8% nas fundações e 38,4% nos pré-moldados, por meio de sprints semanais, permitiria a mobilização imediata de recursos adicionais, evitando a propagação dos atrasos e respondendo diretamente ao objetivo de mitigar atrasos no cronograma da obra civil.
4. Conclusão
O presente estudo analisou a aplicação da metodologia Scrum em um estudo de caso de obra civil com o objetivo de mitigar atrasos no cronograma. Verificou-se que o empreendimento, um galpão logístico, enfrentou um atraso significativo de 57 dias em relação ao planejamento original, totalizando 153 dias de execução. A análise detalhada dos desvios de produtividade revelou déficits críticos nas fases iniciais, com a etapa de fundações apresentando uma performance 31,8% abaixo do necessário e a fase de pré-moldados registrando um déficit de 38,4%. Em contraste, as fases de estrutura de cobertura e cobertura final demonstraram superávits de 51,5% e 28,9%, respectivamente, indicando um esforço de compressão do cronograma para compensar os atrasos iniciais. A simulação da aplicação do Scrum evidenciou que a detecção precoce desses desvios, por meio de sprints semanais de validação, teria permitido a mobilização imediata de recursos adicionais e o reforço das equipes, evitando a propagação dos atrasos e a necessidade de compensações reativas em etapas posteriores. Assim, a metodologia Scrum demonstrou ser uma ferramenta eficaz para aprimorar o controle de cronogramas na construção civil, possibilitando a detecção antecipada de desvios, a implementação de correções imediatas e a otimização de recursos.
A principal contribuição do estudo reside na demonstração do potencial do Scrum para promover uma gestão de projetos mais adaptativa e eficiente no setor da construção civil, superando as limitações das metodologias tradicionais em ambientes complexos e imprevisíveis. Contudo, reconhece-se como limitação o caráter hipotético da aplicação da metodologia Scrum, uma vez que a análise foi baseada em simulações e não em uma implementação real desde o início do projeto. Para pesquisas futuras, sugere-se a realização de estudos longitudinais que apliquem o Scrum na prática, desde as fases iniciais de execução de obras civis, com acompanhamento contínuo dos indicadores de desempenho. Adicionalmente, a integração do Scrum com ferramentas de gestão visual, como o quadro Kanban, apresenta-se como uma oportunidade promissora para aumentar a transparência e o controle do cronograma, contribuindo para o aprendizado organizacional e a melhoria contínua dos processos.
Referências Bibliográficas
Cicmil, S. et al. (2006). Rethinking Project Management: researching the actuality of projects. International Journal of Project Management, v. 24, n. 8, p. 675-686, nov.
Gil, A. C. (2017). Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas.
Highsmith, J. (2010). Agile project management: creating innovative products. 2. ed. Boston: Addison-Wesley.
Kerzner, H. (2017). Gestão de projetos: as melhores práticas. 3. ed. Porto Alegre: Bookman.
Moe, N. B.; Dingsøyr, T.; Dybå, T. (2010). A teamwork model for understanding an agile team: A case study of a Scrum project. Information and Software Technology, v. 52, n. 5, p. 480–491.
PMI – PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. (2021). A guide to the project management body of knowledge (PMBOK® Guide). 7. ed. Newtown Square: PMI.
Schwaber, K.; Sutherland, J. (2020). The Scrum Guide: the definitive guide to Scrum: the rules of the game.
Serrador, P.; Pinto, J. K. (2015). Does Agile work? A quantitative analysis of agile project success. International Journal of Project Management, v. 33, n. 5, p. 1040–1051.
Sommerville, I. (2019). Engenharia de software. 10. ed. São Paulo: Pearson.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

