Artigo

23 de julho de 2026

Metas e KPIs em vendas complexas de energia sob volatilidade climática e regulatória

Camila Emanuele Lourenço; Lucas Gustavo de Souza Fonseca

DOI: 10.22167/2675-6528-202600634

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Em comercializadoras de eletricidade atuantes no Ambiente de Contratação Livre (ACL), a definição de parâmetros de desempenho revelou-se um ponto sensível da gestão comercial, dada a oscilação de preços, mudanças normativas e características da carteira que alteram as condições de negociação e desafiam a comparação entre períodos. O estudo investigou abordagens de definição de metas e KPIs para vendas complexas no setor de energia, avaliando como a volatilidade climática e o risco regulatório influenciaram sua calibragem, o engajamento das equipes e a comparabilidade ao longo do tempo, em um horizonte de 12 meses. Para isso, realizou-se uma pesquisa qualitativa, com estudo de caso múltiplo, por meio de roteiro de entrevista aplicado a cinco representantes de cinco organizações do ACL, incluindo gestores e vendedores sênior com experiência mínima de cinco anos, selecionados por amostragem por julgamento. Os dados foram examinados por análise de conteúdo. Concluiu-se que os critérios de avaliação não seguiram um padrão fixo, sendo definidos a partir de combinações entre margem, volume, carteira, risco e papel econômico dos contratos, com revisões periódicas e extraordinárias diante de mudanças do mercado. Verificou-se ainda que a legitimidade do sistema dependeu de clareza de critérios, distinção entre esforço e efeito externo, valorização de indicadores de processo e suporte de governança e liderança. Como contribuição gerencial, a pesquisa indicou a necessidade de sistemas de avaliação mais contextualizados, revisáveis e coerentes com a dinâmica competitiva do ACL.

Palavras-chave: Ambiente de Contratação Livre; controlabilidade; desempenho; governança comercial.

1. Introdução

  O setor de energia se caracteriza por alta complexidade e interdependência entre fatores econômicos, climáticos e regulatórios, tornando a gestão comercial um desafio constante. Empresas nesse mercado lidam com ciclos longos de negociação, contratos bilaterais e uma cadeia de decisões complexa, elevando a incerteza. A necessidade de indicadores estruturados para mensurar o desempenho é crucial. A volatilidade dos preços, agravada por eventos climáticos e políticas públicas, transforma metas e indicadores de vendas em ferramentas estratégicas de adaptação e direcionamento organizacional (Reuters, 2024; Burin, 2023). 

  A oscilação dos preços da energia está diretamente associada às condições hidrológicas e às flutuações meteorológicas que determinam oferta e demanda. Períodos de seca, fenômenos como El Niño e La Niña, e variações na temperatura global interferem no equilíbrio entre produção hidrelétrica, térmica e fontes renováveis, provocando movimentos bruscos no preço de curto prazo (Dias et al., 2024). Essa instabilidade dificulta a comparação linear entre períodos, pois as condições de mercado mudam rapidamente, desafiando as empresas a estabelecerem metas coerentes e alcançáveis. 

  Além das oscilações climáticas, o mercado de energia está sujeito a variáveis exógenas que afetam a previsibilidade do desempenho comercial. A liberalização gradual do setor e as mudanças regulatórias alteram a estrutura competitiva e o comportamento dos agentes. Decisões governamentais sobre tarifas, encargos e incentivos podem redefinir margens e interferir na dinâmica de contratação (Albani et al., 2025). O risco regulatório, portanto, impõe às empresas a tarefa de ajustar continuamente seus métodos de acompanhamento de desempenho, pois alterações em regras de comercialização e políticas de subsídio podem transformar rapidamente o cenário (Feil et al., 2024). 

  Nesse contexto de alta incerteza, modelos tradicionais de definição de metas, como o SMART (específicas, mensuráveis, atingíveis, relevantes e temporais), embora amplamente difundidos, revelam limitações (Pietsch et al., 2024). A rigidez dessas metas pode levar a avaliações descoladas da realidade de mercado, especialmente quando o desempenho é influenciado por choques externos. É mais efetivo adotar modelos que incluam margens de tolerância e mecanismos de revisão periódica, permitindo ajustes com base em dados atualizados e condições concretas de operação. 

  Outro elemento importante é a percepção de controlabilidade. A literatura em gestão de desempenho destaca que avaliar profissionais por fatores que eles não podem controlar gera desmotivação e conflitos (Züreich, 2023). Quando as metas refletem fatores sob influência direta do colaborador, o comprometimento e o esforço tendem a aumentar. Esse princípio é particularmente interessante em vendas complexas, onde o processo decisório é coletivo e envolve múltiplas variáveis externas. Preservar a sensação de justiça e controlabilidade é fator crítico para o sucesso do sistema de metas. 

  As evidências indicam que o equilíbrio entre indicadores de resultado (faturamento, margem e retenção de clientes) e indicadores de processo (qualidade das propostas e avanço nas etapas de negociação) é fundamental para sustentar o desempenho no longo prazo. Organizações que avaliam apenas resultados financeiros tendem a estimular comportamentos oportunistas de curto prazo, enquanto aquelas que valorizam a qualidade do processo fortalecem a cooperação e a aprendizagem contínua (Homburg et al., 2024; Oh et al., 2023). Em mercados de energia, essa combinação é ainda mais necessária, pois fatores externos podem mascarar o verdadeiro desempenho da equipe. 

  Diante desse cenário, torna-se relevante compreender como as empresas do setor de energia estruturam seus sistemas de metas e indicadores em um ambiente sujeito a volatilidade climática e a risco regulatório constante (Lauro et al., 2023; Albani et al., 2025). Desta maneira, o objetivo deste trabalho foi investigar abordagens de definição de metas e KPIs para vendas complexas no setor de energia, avaliando como a volatilidade climática e o risco regulatório influenciam sua calibragem, o engajamento das equipes e a comparabilidade ao longo do tempo, no horizonte dos últimos 12 meses. 

2. Material e Métodos

  A pesquisa realizada teve natureza aplicada, buscando gerar conhecimento diretamente utilizável para a solução de um problema prático de gestão. O foco esteve no desenho e na calibração de metas e indicadores em vendas complexas no setor de energia, com o objetivo de oferecer orientações gerenciais e critérios de decisão aplicáveis na prática (Gil, 2017). Esse enfoque permitiu que os procedimentos metodológicos fossem alinhados à relevância do tema para o contexto empresarial. 

  Adotou-se uma abordagem metodológica qualitativa, que privilegiou a compreensão aprofundada das percepções, significados, práticas e justificativas dos profissionais envolvidos com a definição e o uso de metas e KPIs. Essa escolha foi fundamental para captar as nuances do contexto e as relações causais percebidas, as quais seriam de difícil apreensão em delineamentos meramente quantitativos (Creswell e Poth, 2018). A opção qualitativa mostrou-se coerente com o objetivo de entender processos e racionalidades sob condições de incerteza. 

  A estratégia de pesquisa empregada foi o estudo de caso múltiplo, que permitiu a análise de cinco organizações atuantes no segmento de comercialização de energia no Ambiente de Contratação Livre (ACL). Essa abordagem possibilitou a comparação entre diferentes casos sob um mesmo fenômeno de interesse, concentrando-se na dinâmica de preços e seus desdobramentos na definição, ajuste e leitura de metas e KPIs (Yin, 2018). O recorte temporal da investigação foi delimitado ao horizonte dos últimos 12 meses. 

  A seleção dos participantes foi realizada por amostragem por julgamento, elegendo-se intencionalmente cinco representantes, um de cada organização do ACL. Os participantes incluíram gestores e vendedores sênior, todos com experiência mínima de cinco anos em vendas e ao menos um ano na empresa atual. Esse critério garantiu homogeneidade de contexto, focando na volatilidade de preços, gestão de “spread”, risco de curto prazo e processos de migração de clientes, o que favoreceu a comparabilidade das narrativas (Malhotra, 2019). Para fins de anonimização, os entrevistados foram identificados de E1 a E5. 

  Como instrumento de coleta de dados, utilizaram-se entrevistas em profundidade, técnica considerada adequada para explorar experiências, crenças e raciocínios dos participantes (Duarte, 2004). O roteiro de entrevista foi estruturado em três seções principais, articuladas à problemática e aos construtos da pesquisa. A primeira seção abordou metas e KPIs no ACL, incluindo critérios de definição e revisão, gatilhos de volatilidade de preços e mudanças regulatórias, e percepção de controlabilidade. 

  A segunda seção do roteiro focou na execução comercial e acompanhamento, investigando rotinas e indicadores de processo, conexão com resultados e suporte de ferramentas e relatórios. A terceira seção tratou de governança, comunicação e liderança, explorando a comunicação de metas e revisões, rituais de governança e práticas de liderança associadas à justiça e ao engajamento. A estrutura e o encadeamento das questões foram concebidos para assegurar alinhamento entre os objetivos do estudo, as seções do instrumento e as categorias analíticas. 

  As entrevistas foram conduzidas por meio de áudio no WhatsApp, com duração aproximada de 40 a 60 minutos. Obteve-se autorização prévia dos participantes para gravação, o que assegurou a fidelidade do material empírico e possibilitou o retorno aos registros para conferência e codificação. Após a coleta, os áudios foram transcritos com o auxílio da ferramenta Zapia, preservando a integralidade do conteúdo e facilitando a organização do “corpus” para a etapa de análise. Os participantes foram orientados a se referir às práticas e experiências vivenciadas nos últimos 12 meses, conforme o período de interesse do estudo. Entrevistas remotas mediadas por tecnologias digitais foram consideradas válidas para manter a qualidade do relato e ampliar o acesso aos participantes (Gray, 2021). 

  A análise dos dados coletados foi realizada por meio da análise de conteúdo (Bardin, 2011). Esse processo envolveu etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento/integração das inferências, com posterior discussão articulada à literatura acadêmica. O procedimento permitiu transformar relatos individuais em categorias conceituais, contrastando convergências e dissensos, e produzindo interpretações robustas e auditáveis (Miles et al., 2014). 

  Quanto aos cuidados éticos, cada participante foi esclarecido sobre os objetivos, riscos, benefícios, sigilo e uso dos dados, e assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido [TCLE]. O tratamento de dados pessoais observou a Resolução CNS nº 510/2016 (Brasil, 2016) e a Lei Geral de Proteção de Dados n° 13.709/2018 (Brasil, 2018), com ênfase na minimização, finalidade e proteção contra acesso não autorizado. Garantiu-se a confidencialidade e o anonimato dos participantes em todos os relatórios e publicações, sem identificação nominal de pessoas ou organizações. Os dados foram armazenados em ambiente digital seguro, com acesso restrito à pesquisadora, pelo período necessário à conclusão do trabalho e arquivamento acadêmico, sendo então eliminados de forma adequada. 

3. Resultados e Discussão

  Os resultados da pesquisa, obtidos por meio de entrevistas em profundidade com representantes de comercializadoras de energia no Ambiente de Contratação Livre (ACL), revelaram as complexidades inerentes à definição, calibragem e acompanhamento de metas e KPIs em um setor marcado por intensa volatilidade climática e risco regulatório. A análise dos dados permitiu identificar as abordagens adotadas pelas organizações para gerenciar o desempenho comercial, considerando a dinâmica de preços, as mudanças normativas e as características da carteira de clientes, que constantemente alteram as condições de negociação e desafiam a comparabilidade entre períodos. Os achados foram organizados em eixos temáticos que exploram desde a contextualização do mercado até as implicações gerenciais dos sistemas de metas. 

  A contextualização do ACL evidenciou que a comercialização de energia opera sob uma dinâmica distinta, onde a formação de preços é influenciada por condições hidrológicas, oferta e demanda, custos de contratação, gestão de portfólio e alterações regulatórias. Albani et al. (2025) e Dias et al. (2024) corroboram que a precificação no mercado brasileiro é sensível a movimentos de curto prazo e expectativas futuras, exigindo uma leitura contínua do cenário. Nesse ambiente, a atividade comercial transcende a prospecção e o fechamento, incorporando cálculo econômico, gestão de risco e interpretação de contexto, o que redefine a própria lógica de avaliação de desempenho. 

  Em setores de vendas com menor volatilidade, a comparação entre períodos geralmente se baseia em metas estáveis e indicadores com maior continuidade histórica. Contudo, no ACL, essa premissa perde validade, pois mudanças climáticas, decisões políticas e revisões regulatórias deslocam rapidamente as condições de negociação (Lauro et al., 2023; Feil et al., 2024). Assim, volume, margem, carteira e retenção de clientes são avaliados dentro de uma estrutura comercial em que o dado econômico do mês pode alterar o sentido da meta originalmente estabelecida, reforçando a necessidade de revisão contínua de metas e KPIs para manter a aderência à realidade do mercado. 

  Metas e KPIs no ACL cumprem uma função dupla: orientam o esforço da equipe e traduzem a relação entre o resultado comercial e a exposição a risco. Chiavenato (2014) destaca a gestão de vendas como um processo que articula planejamento, controle e acompanhamento. Kotler e Keller (2012) complementam que indicadores só adquirem valor gerencial quando refletem a estratégia e apoiam decisões. No contexto da energia, esses princípios demandam um desenho cuidadoso, pois a avaliação do desempenho deve considerar a qualidade da execução comercial sem desconsiderar as pressões de mercado que moldam a negociação e a necessidade de flexibilidade. 

Metas e KPIs no ACL: definição, calibragem e adaptação à volatilidade

  A definição de metas e KPIs no ACL não segue um padrão fixo, mas emerge de uma racionalidade de portfólio, conforme os relatos dos entrevistados. A meta é construída a partir de uma combinação entre volume e margem, considerando a carteira de clientes, o custo do portfólio, o perfil do cliente e o risco associado a cada contrato. E1 descreveu a interação entre as áreas comercial, de risco e de “trading” na definição desses parâmetros, enquanto E2 aproximou a leitura estratégica e a carteira de clientes. E3, E4 e E5 reforçaram que o perfil do cliente, a exposição ao preço e o papel econômico do contrato alteram o peso relativo de volume e margem na meta. 

  Essa abordagem reflete a visão de Czinkota et al. (2021) sobre a gestão de vendas como uma extensão do planejamento mercadológico, e a ideia de Kotler e Keller (2012) de que indicadores ganham sentido ao refletir escolhas estratégicas concretas. No ACL, essa coerência se manifesta quando a meta reconhece que diferentes contas contribuem de maneiras distintas para a sustentabilidade do negócio, ajustando o peso de volume e margem à função econômica de cada conta. A flexibilidade na definição é crucial para a adaptação às rápidas mudanças do mercado de energia. 

  A dimensão temporal da recalibração de metas e KPIs foi um ponto central nas falas de E1, E2 e E5, indicando que a revisão não é um recurso eventual, mas parte integrante da gestão de desempenho. As metas são monitoradas frequentemente, com revisões formais periódicas e ajustes extraordinários diante de choques de curto prazo no mercado. Albani et al. (2025) e Dias et al. (2024) explicam a necessidade dessa elasticidade ao evidenciar a sensibilidade dos preços de energia a variáveis conjunturais e expectativas futuras, que não seguem um padrão linear ou previsível. 

  A problematização de metas rígidas em ambientes incertos, conforme Pietsch et al. (2024), oferece um referencial para interpretar a presença de revisões mensais, trimestrais e extraordinárias. O objetivo primordial é manter a meta aderente à movimentação do mercado e preservar a direção comercial, sem criar uma falsa sensação de estabilidade. Essa prática garante que os critérios de avaliação permaneçam relevantes e justos, mesmo diante de flutuações significativas no cenário externo, que impactam diretamente o setor de energia. 

  A questão da controlabilidade emergiu como um aspecto crítico, com E3 enfatizando a clareza entre esforço e resultado. Züreich (2023) questiona a responsabilização de profissionais por variáveis fora de seu alcance, enquanto Moreno et al. (2024) demonstram como o monitoramento impacta a motivação. A pesquisa revelou que separar indicadores de processo daqueles fortemente influenciados pelo mercado não é apenas uma escolha técnica, mas uma condição para que a equipe reconheça a legitimidade do sistema de avaliação e mantenha a aderência à meta, mesmo sob alta volatilidade. 

  A noção de “meta justa” consolidou este bloco, reunindo cálculo, contexto e responsabilização. E1 associou justiça a um desafio viável, E2 incluiu a maturidade do vendedor e as características do território, E4 alertou para distorções comportamentais geradas por metas desalinhadas, e E5 ressaltou a importância de ajustes que preservem a motivação em momentos de turbulência. Chiavenato (2014) sustenta que metas exequíveis mobilizam o desempenho, e Homburg et al. (2011) lembram que a pressão de venda perde consistência quando ignora o contexto. A legitimidade da meta no ACL, portanto, reside na capacidade de aproximar cálculo econômico, transparência de critérios e responsabilização compatível com a influência da equipe. 

  Com isso, o sistema de metas transcende a mera fotografia numérica, tornando-se uma estrutura interpretativa em permanente ajuste. Essa compreensão é fundamental, pois a utilidade gerencial da meta depende de como ela é desdobrada em processo, rotina de acompanhamento e leitura qualificada do desempenho comercial. A capacidade de adaptação e a clareza dos critérios são essenciais para que o sistema mantenha sua função orientadora e motivacional em um ambiente tão dinâmico e incerto como o ACL. 

Execução comercial e acompanhamento: da disciplina de processo à sustentação dos resultados

  A análise da execução comercial e do acompanhamento revelou a centralidade do processo como forma de conferir inteligibilidade ao desempenho em um mercado instável. As rotinas de acompanhamento, como o funil de vendas, a qualificação, a conversão e o ciclo de vendas, são recorrentes e servem como referência operacional, aumentando a previsibilidade. E1 e E2 destacaram o acompanhamento do funil e as métricas operacionais como parte do trabalho cotidiano, enquanto E3 e E4 reforçaram a disciplina na execução e na qualificação de oportunidades. E5 ampliou essa perspectiva ao incluir o pós-venda. 

  Marques e Levi (2019) descrevem o funil de vendas como um mecanismo de leitura progressiva da jornada comercial, e Ross e Tyler (2020) associam a previsibilidade de receita à estabilidade do processo. No contexto das entrevistas, o processo emergiu como o terreno onde as empresas conseguem construir continuidade analítica, mesmo quando o ambiente externo altera o valor econômico de cada negociação. A qualidade do pipeline e a precificação são cruciais para a leitura da margem e do volume, evitando interpretar o desempenho final de modo isolado. 

  A relação entre processo e resultado demonstrou um alto grau de maturidade, não sendo o desempenho visto como reflexo automático da atividade ou consequência exclusiva do preço de mercado. Observou-se uma cadeia de mediações em que a qualificação, a precificação, o avanço da oportunidade e a disciplina comercial ajudam a explicar o desempenho da carteira. Kotler e Keller (2012) defendem que indicadores se tornam gerenciais quando acompanham etapas críticas da estratégia, e Chiavenato (2014) entende o controle de vendas como um acompanhamento contínuo para corrigir desvios. Essa articulação é vital para compreender por que o resultado final é lido à luz do percurso comercial. 

  As ferramentas tecnológicas, embora importantes, não resolvem por si só os dilemas do sistema. E1 atribuiu ao CRM a base da gestão comercial, E2 e E3 focaram em painéis de risco e relatórios de exposição, E4 apontou a dificuldade de integrar sistemas, e E5 reconheceu ganhos com Business Intelligence (BI). Kotler et al. (2021) e Syam e Sharma (2018) mostram que a tecnologia amplia a capacidade de resposta e a análise de dados em vendas complexas. Contudo, a pesquisa indicou que ferramentas sem integração podem gerar volume de informação sem necessariamente produzir uma leitura aprimorada do negócio. 

  A incorporação do pós-venda como parte da lógica de desempenho conferiu densidade à análise. Em contratos sensíveis a preço e risco, a continuidade da relação comercial influencia a retenção, a expansão e a qualidade da carteira. Madruga (2021) associa relacionamento duradouro e percepção de valor à sustentação dos vínculos com o cliente. Acompanhar vendas no ACL, portanto, envolve olhar para a permanência do cliente com a mesma atenção dedicada ao fechamento, conectando receita recorrente, relacionamento e sustentabilidade comercial. Essa abordagem mais ampla do ciclo comercial é fundamental para a sustentação dos resultados. 

  Para que metas, indicadores e rotinas mantenham coerência em um ambiente de rápidas mudanças de preço e de regra, é essencial que a organização comunique critérios, conduza revisões e exerça liderança sobre o time comercial. A disciplina operacional e a disponibilidade de ferramentas, por si só, não garantem a estabilidade do sistema. A discussão avança, então, para a governança, a comunicação e a liderança como pilares para a justiça percebida, o engajamento e a previsibilidade do desempenho, elementos que interagem para criar um sistema robusto e adaptável. 

Governança, comunicação e liderança: mecanismos de coerência, justiça e engajamento

  A comunicação das metas foi um aspecto crucial, com os entrevistados destacando que a meta não se esgota em sua definição formal, mas na forma como é traduzida para a equipe, especialmente quando o mercado exige revisão. Critérios, revisões e expectativas precisam circular com clareza e frequência para reduzir o ruído interno e dar inteligibilidade às mudanças de rota. Chiavenato (2014) aproxima comunicação e coordenação gerencial ao situar o acompanhamento de vendas como prática contínua de alinhamento, e Kotler e Keller (2012) defendem que a estratégia perde força quando seus critérios não são compreendidos por quem a executa. 

  E1, E2 e E3 enfatizaram que clareza, frequência e consistência são a base para que o profissional reconheça por que a meta mudou e como essa mudança dialoga com o ambiente de negócios. A governança, por sua vez, apareceu como o espaço onde essa tradução se materializa operacionalmente. Os relatos de E1 a E5 sugeriram que comitês de preço e reuniões de risco atuam como fóruns de alinhamento, contendo o improviso em momentos de movimentos bruscos do mercado. Feil et al. (2024) lembram que o setor elétrico é atravessado por condicionantes institucionais persistentes, tornando os rituais internos visíveis e essenciais para a empresa decidir como reagir às pressões externas sem comprometer a coerência entre áreas. 

  A governança não foi percebida como um excesso de formalidade, mas como um suporte para escolhas que afetam a carteira, o preço e a leitura do desempenho, filtrando respostas impulsivas e aumentando a previsibilidade. A liderança concluiu esse percurso, aproximando estrutura e comportamento. E1 e E2 destacaram a necessidade de combinar cobrança e suporte, enquanto E3 e E4 valorizaram o reconhecimento do esforço e a proximidade do gestor. E5 levou a discussão para o desenvolvimento contínuo do time, mostrando que a liderança sustenta a adesão ao sistema de avaliação em cenários voláteis. 

  Moreno et al. (2024) mostram que diferentes formas de monitoramento impactam a motivação em vendas, e Czinkota et al. (2021) situam a liderança comercial como elo entre estratégia e execução. Nas entrevistas, o líder emergiu como mediador da tensão entre meta, contexto e percepção de justiça, tarefa que ganha importância quando parte do resultado é influenciada por variáveis fora do domínio direto da equipe. Essa combinação de comunicação, governança e liderança explica por que a estabilidade do sistema de metas no ACL depende mais de credibilidade do que de rigidez. 

  Züreich (2023) problematiza a responsabilização por fatores incontroláveis. A análise crítica do material revelou que essa questão se torna menos conflitiva quando a organização comunica premissas, cria espaços formais de revisão e oferece liderança capaz de interpretar o contexto junto à equipe. Assim, a meta deixa de ser uma imposição numérica e passa a funcionar como referência negociada dentro de critérios compreensíveis, fortalecendo o engajamento e a motivação da equipe comercial. 

Leitura individual dos casos: particularidades das empresas representadas por E1 a E5

  A análise individual dos casos revelou que, embora as empresas operem no mesmo ambiente competitivo e regulatório do ACL, elas traduzem essa realidade em arranjos gerenciais distintos. No caso de E1, a definição de metas e KPIs estava vinculada a uma lógica de integração entre áreas, com comercial, risco e “trading” participando da construção e revisão dos parâmetros de desempenho. Essa abordagem sugere uma organização que busca reduzir a distância entre a decisão comercial e a leitura econômica da carteira, apoiando-se em racionalidade processual e previsibilidade decisória. 

  A empresa representada por E2 destacou uma gestão voltada ao alinhamento entre estratégia, orçamento e capacidade comercial efetiva, combinando leituras “top-down” e “bottom-up”. Isso indica uma preocupação em sustentar a coerência entre a expectativa de crescimento e a viabilidade comercial, com forte valorização da governança e revisões estruturadas e compartilhadas entre diretoria, risco e área comercial. A meta, nesse contexto, aparece como prolongamento da direção empresarial, ajustada pela leitura da carteira, do “pipeline” e das condições de risco, conferindo ao sistema um caráter deliberado e coordenado. 

  O caso de E3 revelou uma centralidade maior da inteligência de mercado na formulação e leitura das metas. Dados históricos de consumo, sazonalidade, comportamento do cliente e a separação entre esforço e resultado foram elementos recorrentes. Essa lógica comercial se apoia intensamente em informação analítica para estruturar expectativas de desempenho, onde a legitimidade do sistema depende da capacidade de sustentar critérios transparentes e analiticamente justificáveis, especialmente em um ambiente onde o resultado financeiro pode ser deslocado por variáveis externas. 

  Na empresa representada por E4, a preocupação com a resiliência do portfólio e os efeitos desorganizadores de metas desalinhadas ao mercado foi marcante. A referência a cenários de estresse, sensibilidade de preço e maior exigência de margem para clientes expostos ao risco sugere uma organização cuja leitura de desempenho é atravessada por forte preocupação com a seletividade econômica. O caso de E4 demonstrou uma vigilância crítica em relação aos efeitos colaterais de um desenho inadequado de metas e KPIs, que pode levar a comportamentos improdutivos. 

  Por fim, a empresa representada por E5 revelou uma lógica de gestão mais apoiada na sustentação econômica da carteira ao longo do tempo, com ênfase no equilíbrio entre escala, margem, retenção e expansão. O relato mostrou que nem todos os clientes são avaliados pelo mesmo critério econômico, reconhecendo que alguns contribuem mais para a margem e outros para a sustentação da escala e competitividade comercial. Essa visão mais ampla do ciclo comercial, que não se encerra no fechamento, mas se prolonga na permanência do cliente, confere ao desempenho uma leitura mais longitudinal. 

  Em conjunto, essas leituras individuais demonstram que o ambiente do ACL não impõe respostas organizacionais padronizadas, mesmo sob pressões semelhantes de preço, risco e regulação. Cada caso revelou uma forma particular de organizar a relação entre cálculo de metas, acompanhamento comercial e mediação gerencial, reforçando a ideia de que a gestão de desempenho nesse setor depende de arranjos construídos a partir das prioridades e capacidades de cada organização. A existência dessas singularidades, no entanto, não impede a comparação, mas oferece uma base consistente para compreender como o contexto competitivo é traduzido em práticas convergentes e diferenciadas. 

Síntese analítica: convergências e nuances entre os entrevistados

  A análise transversal das entrevistas revelou fortes convergências e nuances significativas entre as cinco empresas. No eixo de metas e KPIs no ACL, a principal convergência foi a compreensão de que as metas são uma combinação de volume e margem, apoiadas na leitura da carteira, risco e contexto de mercado. A diferença residiu na ênfase dada ao papel do portfólio, ao peso do cenário externo e ao grau de formalização das revisões, indicando que o desenho das metas assume um caráter contingencial e sensível ao contexto do ACL. 

  A recalibração, controlabilidade e justiça das metas também apresentaram ampla convergência. As empresas descreveram revisões estruturadas e ajustes extraordinários diante de mudanças relevantes no mercado. Houve consenso na necessidade de distinguir o esforço comercial dos efeitos externos e na importância de que clima, hidrologia, encargos e mudanças regulatórias sejam considerados na leitura do desempenho. As nuances apareceram na maneira de transformar essa percepção em regra de gestão, com algumas empresas operando com maior formalização dos ciclos de revisão e outras com adaptação mais contínua e menos ritualizada. 

  No eixo de execução comercial e acompanhamento, a convergência foi forte na centralidade dos indicadores de processo. Houve valorização do funil, da qualificação, da conversão e do pós-venda como bases para a interpretação do desempenho. As nuances se manifestaram na centralidade atribuída a determinadas rotinas e no uso de ferramentas analíticas. Os indicadores de processo funcionaram como um eixo de estabilidade gerencial diante da volatilidade externa, permitindo uma leitura mais consistente do desempenho. 

  Na governança, comunicação e liderança, as falas destacaram a clareza de critérios, os rituais de revisão e o papel da liderança na preservação do engajamento. As diferenças surgiram na ênfase entre comunicação contínua, comitês formais e reconhecimento do esforço. A sustentação do sistema dependeu da articulação entre transparência, revisão e mediação gerencial, elementos que, em conjunto, promovem a legitimidade e a adesão da equipe, mesmo em um ambiente de constantes mudanças e incertezas. 

Fatores que fortalecem e fragilizam o sistema de metas e KPIs

  A pesquisa identificou fatores que fortalecem e fragilizam o sistema de metas e KPIs nas comercializadoras de energia. No desenho das metas, o equilíbrio entre volume e margem, premissas explícitas, revisão periódica e aderência ao contexto de mercado fortalecem o sistema. Em contrapartida, rigidez excessiva, critérios pouco transparentes e a dissociação entre a meta e a realidade da carteira o fragilizam. A avaliação do desempenho é fortalecida pela separação entre indicadores de processo e aqueles expostos ao mercado, e pela leitura contextual do resultado. 

  A responsabilização da equipe por variáveis externas e a comparação linear entre períodos heterogêneos fragilizam a avaliação. Na execução comercial, a disciplina do funil, a qualificação de oportunidades, o acompanhamento do ciclo de vendas e a atenção ao pós-venda são fatores de fortalecimento. Baixa consistência de processo, falhas de qualificação e leitura insuficiente da carteira, por outro lado, fragilizam. Quanto aos sistemas e informação, o uso integrado de CRM, relatórios, painéis e dados de apoio à decisão fortalecem, enquanto a integração limitada entre sistemas e a baixa capacidade de transformar dados em ação gerencial os fragilizam. 

  Na governança e liderança, comitês de revisão, comunicação frequente, feedback contínuo e reconhecimento do esforço fortalecem o sistema. Ruído de comunicação, revisões pouco explicadas e liderança focada apenas na cobrança são fatores que o fragilizam. A combinação desses elementos mostra que a fragilidade do sistema de metas no ACL não decorre apenas da volatilidade externa, mas da falha organizacional em converter a instabilidade do mercado em critérios inteligíveis de avaliação, revisão e acompanhamento. 

  Em um ambiente onde preço, hidrologia, encargos e alterações regulatórias reposicionam continuamente as condições de negociação, a meta perde sua função gerencial se permanecer estática. Pietsch et al. (2024) questionam a utilidade de metas rígidas em cenários incertos, e Züreich (2023) destaca a necessidade de distinguir responsabilidade individual de circunstância externa. Quando essa separação não é incorporada ao desenho dos KPIs, a meta perde legitimidade, sendo percebida como cobrança desvinculada das condições concretas de execução. 

  Essa perspectiva ajuda a compreender que as fragilidades observadas não são diretamente do mercado, mas da forma como a empresa interpreta e internaliza esse mercado em sua lógica de gestão. A oscilação de preços, por si só, não desorganiza o sistema; o problema surge quando a revisão ocorre sem critério claro, os indicadores financeiros são lidos sem mediação do contexto, ou a comunicação das mudanças não alcança a equipe com precisão. Nessas situações, o vendedor opera em terreno ambíguo, perdendo a clareza dos parâmetros de avaliação e a previsibilidade, o que reduz a força pedagógica da meta e compromete sua coordenação. 

  Feil et al. (2024) lembram que o setor elétrico brasileiro está inserido em um ambiente sensível a vetores regulatórios e institucionais, o que exige maior elasticidade organizacional e capacidade de tradução gerencial do contexto nos sistemas de metas. Os elementos fortalecedores não atuam isoladamente; a revisão periódica sem comunicação clara gera ruído, a governança sem leitura de processo pode criar excesso de formalidade, e a liderança próxima sem instrumentos consistentes de acompanhamento encontra limites. Homburg et al. (2024) e Oh et al. (2023) reforçam que sistemas de desempenho funcionam melhor quando articulam incentivos, colaboração e clareza operacional, com métricas que captam a qualidade do processo, não apenas o desfecho final. 

  O resultado aponta para uma arquitetura de complementaridade, onde transparência, critério, tecnologia de apoio, disciplina comercial e capacidade de revisão ganham força quando operam em uma mesma direção gerencial. Quando as empresas dispõem de instrumentos para acompanhar o funil, interpretar a carteira, revisar metas diante de choques e comunicar essas mudanças de forma inteligível, o sistema de metas funciona como um mecanismo de coordenação adaptativa. A governança atua como estrutura de consistência, a liderança como mediação ativa entre exigência e contexto, e os indicadores de processo assumem função decisiva na sustentação da leitura do desempenho. 

Implicações gerenciais: desdobramentos da análise qualitativa

  A análise qualitativa resultou em implicações gerenciais práticas para comercializadoras de energia no ACL. Para o cálculo das metas, a leitura derivada sugere que a legitimidade aumenta quando premissas de volume, margem, carteira e risco são explicitadas. A prioridade gerencial, portanto, é formalizar critérios e tornar visíveis as bases de cálculo. Na revisão em ambiente volátil, as mudanças de preço e regra demandam mecanismos de recalibração mais previsíveis, indicando a necessidade de definir periodicidade mínima e gatilhos extraordinários de revisão para manter a aderência. 

  Para uma avaliação justa, a leitura do desempenho melhora quando processo e resultado são analisados em conjunto, o que implica em adotar painéis com indicadores controláveis e contextualizados. Na execução comercial, um funil estruturado e qualificação consistente ampliam a previsibilidade e ajudam a interpretar o resultado, demandando o fortalecimento de rotinas de acompanhamento e critérios de passagem entre etapas. A infraestrutura analítica, embora com ferramentas existentes, tem sua utilidade dependente de integração e uso gerencial, sugerindo a ampliação da integração entre CRM, relatórios de risco e acompanhamento de carteira. 

  O engajamento da equipe, sustentado por comunicação, governança e liderança, reforça a justiça percebida e a estabilidade do sistema. A prioridade gerencial é aprimorar o feedback, a transparência de critérios e os rituais de alinhamento. Chiavenato (2014) trata a gestão de vendas como processo integrado de planejamento, execução e controle, e no ACL, esse encadeamento exige maior sensibilidade temporal devido à velocidade com que preço, risco e carteira se movem. Quando esse movimento não é absorvido pela gestão, a meta perde aderência e se torna mais punitiva do que orientadora. 

  Ross e Tyler (2020) defendem que a previsibilidade de receita depende de processo robusto e rotina disciplinada, enquanto Madruga (2021) destaca o valor de relações sustentadas ao longo do tempo. Moreno et al. (2024) mostram que liderança e forma de monitoramento influenciam motivação e desempenho. Reunidos, esses aportes indicam que a resposta gerencial não se resume a recalcular números, mas a redesenhar critérios, fortalecer a leitura processual, tornar a revisão mais inteligível e sustentar uma cultura de acompanhamento em que a equipe reconheça sentido no sistema de avaliação. 

  No ACL, onde oscilações externas podem alterar rapidamente a atratividade de propostas, a coerência entre meta, acompanhamento e contexto é decisiva para preservar a direção comercial sem romper o vínculo entre esforço e reconhecimento. As implicações gerenciais sistematizadas não são fórmulas prontas, mas frentes de aperfeiçoamento combináveis conforme o grau de maturidade de cada comercializadora. Empresas com dificuldade de previsibilidade podem avançar pela revisão dos critérios de cálculo e valorização de indicadores de processo. 

  Organizações com ruído na interpretação do desempenho demandam maior clareza sobre controlabilidade, revisão e responsabilização. Já contextos com fragilidade no engajamento e continuidade podem exigir reforço de comunicação, governança e liderança. A contribuição prática da análise reside em demonstrar que a robustez do sistema de metas no ACL depende menos da adoção de um modelo ideal e mais da capacidade de ajustar, integrar e sustentar mecanismos coerentes com a realidade competitiva e regulatória enfrentada pela empresa. 

Síntese analítica das abordagens de definição de metas e KPIs

  A leitura integrada do material permitiu verificar que as abordagens de definição de metas e KPIs nas comercializadoras analisadas se afastaram de modelos fixos, sendo uma construção orientada pelo contexto. A lógica de definição das metas envolve a combinação entre volume, margem, carteira, risco e a função econômica dos contratos, refletindo a visão de Kotler e Keller (2012) de que indicadores gerenciais só produzem valor quando coerentes com a lógica competitiva da organização. Essa coerência se manifestou na tentativa de ajustar a meta à realidade comercial do ACL. 

  A calibragem dessas metas foi fortemente influenciada pela volatilidade climática e pelo risco regulatório, exigindo ajustes periódicos e extraordinários conforme preço, regulação e desempenho da carteira. As variações de preço, alterações normativas e mudanças na carteira demandam revisões frequentes para que a meta preserve sua utilidade prática. Albani et al. (2025) e Dias et al. (2024) reforçam que a formação de preços no mercado brasileiro de energia responde de forma sensível a movimentos conjunturais e expectativas futuras, sem seguir uma trajetória linear ou previsível. A recalibração, portanto, é um traço basal dessas abordagens, essencial para manter a coerência entre esforço e resultado. 

  A base de legitimidade do sistema de metas e KPIs reside na clareza de critérios, na distinção entre esforço comercial e efeito de mercado, e na percepção de justiça. A análise mostrou que metas e KPIs são reconhecidos como válidos quando a organização explicita seus critérios e diferencia variáveis controláveis de efeitos externos, mantendo proporcionalidade entre desafio, contexto e responsabilização. Züreich (2023) e Moreno et al. (2024) destacam que a liderança e o monitoramento influenciam diretamente a motivação e o desempenho, reforçando que a definição de metas no ACL não é apenas um cálculo numérico, mas a construção de um sistema inteligível, justo e aderente ao cenário. 

  A sustentação gerencial do sistema depende de indicadores de processo, revisão, governança, comunicação e liderança. As abordagens identificadas mostraram que a definição de metas e KPIs, nesse tipo de operação, depende de mecanismos internos que sustentam a leitura do desempenho ao longo do tempo. Indicadores de processo, rotinas de revisão, comunicação clara, governança entre áreas e liderança próxima emergem como elementos que conferem estabilidade interpretativa a um ambiente economicamente instável (Ross e Tyler, 2020; Homburg et al., 2024). Em suma, as metas e KPIs são mais efetivos quando integrados a um arranjo organizacional amplo, onde cálculo, acompanhamento e mediação gerencial operam na mesma direção, permitindo que a meta seja uma referência legítima para decisão, acompanhamento e mobilização da equipe, respondendo ao objetivo de investigar como a volatilidade climática e o risco regulatório influenciam sua calibragem, o engajamento das equipes e a comparabilidade ao longo do tempo. 

4. Conclusão

  O estudo investigou as abordagens de definição de metas e KPIs para vendas complexas no setor de energia, considerando a influência da volatilidade climática e do risco regulatório na sua calibragem, no engajamento das equipes e na comparabilidade ao longo do tempo. Verificou-se que os critérios de avaliação não seguiram um padrão fixo, sendo construídos a partir de combinações entre margem, volume, carteira, risco e o papel econômico dos contratos. A necessidade de revisões periódicas e extraordinárias foi identificada como essencial para manter a aderência das metas à dinâmica de preços e às mudanças normativas do Ambiente de Contratação Livre (ACL). Observou-se que a legitimidade do sistema de metas dependeu da clareza dos critérios, da distinção entre o esforço comercial e os efeitos externos do mercado, da valorização de indicadores de processo e do suporte de governança e liderança. Como contribuição gerencial, a pesquisa indicou a necessidade de sistemas de avaliação mais contextualizados, revisáveis e coerentes com a dinâmica competitiva do ACL, promovendo uma gestão de desempenho adaptativa e justa. 

  A complexidade inerente ao contexto do ACL, com suas múltiplas variáveis externas que se alteram rapidamente, representou uma dificuldade na interpretação comparativa entre empresas e períodos. Adicionalmente, a representação de cada organização por um único entrevistado limitou a profundidade da compreensão sobre o funcionamento interno de cada empresa. Para estudos futuros, recomenda-se ampliar o número de casos e incluir outros perfis de participantes, como profissionais de risco, precificação e direção comercial, a fim de aprofundar a compreensão sobre a interação entre áreas na definição de metas e KPIs. Sugere-se também o desenvolvimento de investigações comparativas entre subsetores do mercado de energia ou entre empresas com diferentes níveis de maturidade em seus sistemas de gestão de desempenho. Essas frentes de pesquisa podem fortalecer a capacidade de ajustar, integrar e sustentar mecanismos de avaliação que respondam de forma robusta à realidade do setor. 

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Vendas do MBA USP/Esalq

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17 de setembro de 2026

Heterogeneidade Territorial do Bolsa Família: uma Análise por Clusters e Efeitos Fixos

O Programa Bolsa Família (PBF) representa uma das políticas de proteção social mais relevantes globalmente, o que justifica a investigação de seus efeitos diante das acentuadas e heterogêneas desigualdades regionais brasileiras. O estudo avaliou os reflexos socioeconômicos dos repasses do programa sobre a saúde, a educação e o mercado de trabalho nos municípios brasileiros, no período de 2004 a 2019. Para isso, aplicou-se a técnica de agrupamento K-means para segmentação territorial e estimaram-se modelos econométricos de dados em painel com efeitos fixos, tanto a nível nacional quanto segregados por clusters. Os resultados revelaram a natureza anticíclica do PBF no mercado de trabalho, com uma relação negativa entre repasses e vínculos empregatícios formais em quatro dos cinco clusters, sugerindo que os recursos foram mais intensos onde o mercado formal falhou. Na saúde, o programa associou-se à redução significante da mortalidade infantil evitável em municípios com maior equilíbrio socioeconômico, mas não apresentou efeito detectável em agrupamentos de maior precariedade estrutural, indicando que a transferência de renda é necessária, porém insuficiente sem infraestrutura de saúde funcional. Na educação, a análise por subperíodos mostrou atenuação progressiva do coeficiente nacional, refletindo a convergência das taxas de matrícula para um patamar de alta inércia temporal. Concluiu-se que o PBF cumpriu seu objetivo de proteção social de forma anticíclica e territorialmente focalizada, mas sua capacidade de transformar indicadores estruturais dependeu da sinergia com investimentos em infraestrutura pública.

Palavras-chave: Bolsa Família; Mortalidade Infantil; Municípios Brasileiros; Painel de Dados; Política Pública.

Gestão Tributária

17 de setembro de 2026

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17 de setembro de 2026

Símbolos da Moda Esportiva: Consumo, Identidade e Status entre Consumidores Brasileiros

A moda esportiva consolidou-se como linguagem simbólica de distinção social nas últimas décadas, impulsionada pela expansão do mercado de wellness e pela reconfiguração dos padrões de prestígio nas sociedades de consumo contemporâneas. O estudo objetivou compreender como os símbolos da moda esportiva influenciaram a construção de identidade e pertencimento e sua associação ao prestígio social entre consumidores brasileiros que adquiriram produtos do setor nos últimos 12 meses. Desenvolveu-se a pesquisa por meio de levantamento bibliográfico e pesquisa descritiva, com levantamento do tipo survey aplicado a uma amostra não probabilística por conveniência de 445 consumidores brasileiros de moda esportiva. Os principais resultados indicaram que a maioria dos respondentes associou marcas esportivas a percepções de status social; mais da metade reconheceu o wellness como novo símbolo de prestígio; e parcela expressiva percebeu o sportstyle como mais aceito em ambientes formais de trabalho. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização, como preferência por logotipos visíveis, influência de redes sociais e disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente rejeitadas, revelando uma dissociação entre a atribuição simbólica de status e o comportamento de sinalização ostensiva. O consumidor brasileiro de moda esportiva com elevado capital cultural operou por meio de sinais simbólicos sutis e não ostensivos, compatíveis com o fenômeno do consumo inconspícuo, no qual a distinção social se manifestou de forma internalizada.

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17 de setembro de 2026

Modelo Validado de Formação de Competência Técnica e Habilidades Não Técnicas em Indústrias Químicas Complexas

Analisou-se a implementação de um processo sistemático para o desenvolvimento e a atualização de competências técnicas e habilidades não técnicas em Operações Industriais e Segurança de Processo em uma indústria química de alta complexidade, pertencente a uma multinacional localizada no Polo Petroquímico de Camaçari, Bahia. O estudo objetivou implementar um processo mensurável e sustentável que assegurou a competência técnica e não técnica de 100% dos operadores, em conformidade com a legislação estadual da Bahia, diretrizes de institutos internacionais e políticas corporativas. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso de abordagem mista, que envolveu diagnóstico documental, entrevistas semiestruturadas com 85 operadores experientes, análise de tarefas críticas e o desenvolvimento e aplicação piloto de um programa modular de treinamento. Este processo evidenciou a necessidade de alinhamento e atualização sistemática das competências requeridas. Os resultados obtidos indicaram a eficácia do modelo proposto, com 100% dos operadores concluindo os módulos teóricos e práticos e alcançando uma taxa de aprovação superior a 80%, além de conformidade operacional em campo. O trabalho contribuiu com um modelo estruturado de formação, incluindo matriz de competências, programas modulares de treinamento e diretrizes para certificação e recertificação, demonstrando potencial de replicação em outras unidades industriais de elevada complexidade e risco, e fortalecendo a segurança de processo e a sustentabilidade operacional.

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17 de setembro de 2026

Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

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17 de setembro de 2026

Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

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17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

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Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

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