Artigo

23 de julho de 2026

Metas e KPIs em vendas complexas de energia sob volatilidade climática e regulatória

Camila Emanuele Lourenço; Lucas Gustavo de Souza Fonseca

DOI: 10.22167/2675-6528-202600634

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Em comercializadoras de eletricidade atuantes no Ambiente de Contratação Livre (ACL), a definição de parâmetros de desempenho revelou-se um ponto sensível da gestão comercial, dada a oscilação de preços, mudanças normativas e características da carteira que alteram as condições de negociação e desafiam a comparação entre períodos. O estudo investigou abordagens de definição de metas e KPIs para vendas complexas no setor de energia, avaliando como a volatilidade climática e o risco regulatório influenciaram sua calibragem, o engajamento das equipes e a comparabilidade ao longo do tempo, em um horizonte de 12 meses. Para isso, realizou-se uma pesquisa qualitativa, com estudo de caso múltiplo, por meio de roteiro de entrevista aplicado a cinco representantes de cinco organizações do ACL, incluindo gestores e vendedores sênior com experiência mínima de cinco anos, selecionados por amostragem por julgamento. Os dados foram examinados por análise de conteúdo. Concluiu-se que os critérios de avaliação não seguiram um padrão fixo, sendo definidos a partir de combinações entre margem, volume, carteira, risco e papel econômico dos contratos, com revisões periódicas e extraordinárias diante de mudanças do mercado. Verificou-se ainda que a legitimidade do sistema dependeu de clareza de critérios, distinção entre esforço e efeito externo, valorização de indicadores de processo e suporte de governança e liderança. Como contribuição gerencial, a pesquisa indicou a necessidade de sistemas de avaliação mais contextualizados, revisáveis e coerentes com a dinâmica competitiva do ACL.

Palavras-chave: Ambiente de Contratação Livre; controlabilidade; desempenho; governança comercial.

1. Introdução

  O setor de energia se caracteriza por alta complexidade e interdependência entre fatores econômicos, climáticos e regulatórios, tornando a gestão comercial um desafio constante. Empresas nesse mercado lidam com ciclos longos de negociação, contratos bilaterais e uma cadeia de decisões complexa, elevando a incerteza. A necessidade de indicadores estruturados para mensurar o desempenho é crucial. A volatilidade dos preços, agravada por eventos climáticos e políticas públicas, transforma metas e indicadores de vendas em ferramentas estratégicas de adaptação e direcionamento organizacional (Reuters, 2024; Burin, 2023). 

  A oscilação dos preços da energia está diretamente associada às condições hidrológicas e às flutuações meteorológicas que determinam oferta e demanda. Períodos de seca, fenômenos como El Niño e La Niña, e variações na temperatura global interferem no equilíbrio entre produção hidrelétrica, térmica e fontes renováveis, provocando movimentos bruscos no preço de curto prazo (Dias et al., 2024). Essa instabilidade dificulta a comparação linear entre períodos, pois as condições de mercado mudam rapidamente, desafiando as empresas a estabelecerem metas coerentes e alcançáveis. 

  Além das oscilações climáticas, o mercado de energia está sujeito a variáveis exógenas que afetam a previsibilidade do desempenho comercial. A liberalização gradual do setor e as mudanças regulatórias alteram a estrutura competitiva e o comportamento dos agentes. Decisões governamentais sobre tarifas, encargos e incentivos podem redefinir margens e interferir na dinâmica de contratação (Albani et al., 2025). O risco regulatório, portanto, impõe às empresas a tarefa de ajustar continuamente seus métodos de acompanhamento de desempenho, pois alterações em regras de comercialização e políticas de subsídio podem transformar rapidamente o cenário (Feil et al., 2024). 

  Nesse contexto de alta incerteza, modelos tradicionais de definição de metas, como o SMART (específicas, mensuráveis, atingíveis, relevantes e temporais), embora amplamente difundidos, revelam limitações (Pietsch et al., 2024). A rigidez dessas metas pode levar a avaliações descoladas da realidade de mercado, especialmente quando o desempenho é influenciado por choques externos. É mais efetivo adotar modelos que incluam margens de tolerância e mecanismos de revisão periódica, permitindo ajustes com base em dados atualizados e condições concretas de operação. 

  Outro elemento importante é a percepção de controlabilidade. A literatura em gestão de desempenho destaca que avaliar profissionais por fatores que eles não podem controlar gera desmotivação e conflitos (Züreich, 2023). Quando as metas refletem fatores sob influência direta do colaborador, o comprometimento e o esforço tendem a aumentar. Esse princípio é particularmente interessante em vendas complexas, onde o processo decisório é coletivo e envolve múltiplas variáveis externas. Preservar a sensação de justiça e controlabilidade é fator crítico para o sucesso do sistema de metas. 

  As evidências indicam que o equilíbrio entre indicadores de resultado (faturamento, margem e retenção de clientes) e indicadores de processo (qualidade das propostas e avanço nas etapas de negociação) é fundamental para sustentar o desempenho no longo prazo. Organizações que avaliam apenas resultados financeiros tendem a estimular comportamentos oportunistas de curto prazo, enquanto aquelas que valorizam a qualidade do processo fortalecem a cooperação e a aprendizagem contínua (Homburg et al., 2024; Oh et al., 2023). Em mercados de energia, essa combinação é ainda mais necessária, pois fatores externos podem mascarar o verdadeiro desempenho da equipe. 

  Diante desse cenário, torna-se relevante compreender como as empresas do setor de energia estruturam seus sistemas de metas e indicadores em um ambiente sujeito a volatilidade climática e a risco regulatório constante (Lauro et al., 2023; Albani et al., 2025). Desta maneira, o objetivo deste trabalho foi investigar abordagens de definição de metas e KPIs para vendas complexas no setor de energia, avaliando como a volatilidade climática e o risco regulatório influenciam sua calibragem, o engajamento das equipes e a comparabilidade ao longo do tempo, no horizonte dos últimos 12 meses. 

2. Material e Métodos

  A pesquisa realizada teve natureza aplicada, buscando gerar conhecimento diretamente utilizável para a solução de um problema prático de gestão. O foco esteve no desenho e na calibração de metas e indicadores em vendas complexas no setor de energia, com o objetivo de oferecer orientações gerenciais e critérios de decisão aplicáveis na prática (Gil, 2017). Esse enfoque permitiu que os procedimentos metodológicos fossem alinhados à relevância do tema para o contexto empresarial. 

  Adotou-se uma abordagem metodológica qualitativa, que privilegiou a compreensão aprofundada das percepções, significados, práticas e justificativas dos profissionais envolvidos com a definição e o uso de metas e KPIs. Essa escolha foi fundamental para captar as nuances do contexto e as relações causais percebidas, as quais seriam de difícil apreensão em delineamentos meramente quantitativos (Creswell e Poth, 2018). A opção qualitativa mostrou-se coerente com o objetivo de entender processos e racionalidades sob condições de incerteza. 

  A estratégia de pesquisa empregada foi o estudo de caso múltiplo, que permitiu a análise de cinco organizações atuantes no segmento de comercialização de energia no Ambiente de Contratação Livre (ACL). Essa abordagem possibilitou a comparação entre diferentes casos sob um mesmo fenômeno de interesse, concentrando-se na dinâmica de preços e seus desdobramentos na definição, ajuste e leitura de metas e KPIs (Yin, 2018). O recorte temporal da investigação foi delimitado ao horizonte dos últimos 12 meses. 

  A seleção dos participantes foi realizada por amostragem por julgamento, elegendo-se intencionalmente cinco representantes, um de cada organização do ACL. Os participantes incluíram gestores e vendedores sênior, todos com experiência mínima de cinco anos em vendas e ao menos um ano na empresa atual. Esse critério garantiu homogeneidade de contexto, focando na volatilidade de preços, gestão de “spread”, risco de curto prazo e processos de migração de clientes, o que favoreceu a comparabilidade das narrativas (Malhotra, 2019). Para fins de anonimização, os entrevistados foram identificados de E1 a E5. 

  Como instrumento de coleta de dados, utilizaram-se entrevistas em profundidade, técnica considerada adequada para explorar experiências, crenças e raciocínios dos participantes (Duarte, 2004). O roteiro de entrevista foi estruturado em três seções principais, articuladas à problemática e aos construtos da pesquisa. A primeira seção abordou metas e KPIs no ACL, incluindo critérios de definição e revisão, gatilhos de volatilidade de preços e mudanças regulatórias, e percepção de controlabilidade. 

  A segunda seção do roteiro focou na execução comercial e acompanhamento, investigando rotinas e indicadores de processo, conexão com resultados e suporte de ferramentas e relatórios. A terceira seção tratou de governança, comunicação e liderança, explorando a comunicação de metas e revisões, rituais de governança e práticas de liderança associadas à justiça e ao engajamento. A estrutura e o encadeamento das questões foram concebidos para assegurar alinhamento entre os objetivos do estudo, as seções do instrumento e as categorias analíticas. 

  As entrevistas foram conduzidas por meio de áudio no WhatsApp, com duração aproximada de 40 a 60 minutos. Obteve-se autorização prévia dos participantes para gravação, o que assegurou a fidelidade do material empírico e possibilitou o retorno aos registros para conferência e codificação. Após a coleta, os áudios foram transcritos com o auxílio da ferramenta Zapia, preservando a integralidade do conteúdo e facilitando a organização do “corpus” para a etapa de análise. Os participantes foram orientados a se referir às práticas e experiências vivenciadas nos últimos 12 meses, conforme o período de interesse do estudo. Entrevistas remotas mediadas por tecnologias digitais foram consideradas válidas para manter a qualidade do relato e ampliar o acesso aos participantes (Gray, 2021). 

  A análise dos dados coletados foi realizada por meio da análise de conteúdo (Bardin, 2011). Esse processo envolveu etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento/integração das inferências, com posterior discussão articulada à literatura acadêmica. O procedimento permitiu transformar relatos individuais em categorias conceituais, contrastando convergências e dissensos, e produzindo interpretações robustas e auditáveis (Miles et al., 2014). 

  Quanto aos cuidados éticos, cada participante foi esclarecido sobre os objetivos, riscos, benefícios, sigilo e uso dos dados, e assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido [TCLE]. O tratamento de dados pessoais observou a Resolução CNS nº 510/2016 (Brasil, 2016) e a Lei Geral de Proteção de Dados n° 13.709/2018 (Brasil, 2018), com ênfase na minimização, finalidade e proteção contra acesso não autorizado. Garantiu-se a confidencialidade e o anonimato dos participantes em todos os relatórios e publicações, sem identificação nominal de pessoas ou organizações. Os dados foram armazenados em ambiente digital seguro, com acesso restrito à pesquisadora, pelo período necessário à conclusão do trabalho e arquivamento acadêmico, sendo então eliminados de forma adequada. 

3. Resultados e Discussão

  Os resultados da pesquisa, obtidos por meio de entrevistas em profundidade com representantes de comercializadoras de energia no Ambiente de Contratação Livre (ACL), revelaram as complexidades inerentes à definição, calibragem e acompanhamento de metas e KPIs em um setor marcado por intensa volatilidade climática e risco regulatório. A análise dos dados permitiu identificar as abordagens adotadas pelas organizações para gerenciar o desempenho comercial, considerando a dinâmica de preços, as mudanças normativas e as características da carteira de clientes, que constantemente alteram as condições de negociação e desafiam a comparabilidade entre períodos. Os achados foram organizados em eixos temáticos que exploram desde a contextualização do mercado até as implicações gerenciais dos sistemas de metas. 

  A contextualização do ACL evidenciou que a comercialização de energia opera sob uma dinâmica distinta, onde a formação de preços é influenciada por condições hidrológicas, oferta e demanda, custos de contratação, gestão de portfólio e alterações regulatórias. Albani et al. (2025) e Dias et al. (2024) corroboram que a precificação no mercado brasileiro é sensível a movimentos de curto prazo e expectativas futuras, exigindo uma leitura contínua do cenário. Nesse ambiente, a atividade comercial transcende a prospecção e o fechamento, incorporando cálculo econômico, gestão de risco e interpretação de contexto, o que redefine a própria lógica de avaliação de desempenho. 

  Em setores de vendas com menor volatilidade, a comparação entre períodos geralmente se baseia em metas estáveis e indicadores com maior continuidade histórica. Contudo, no ACL, essa premissa perde validade, pois mudanças climáticas, decisões políticas e revisões regulatórias deslocam rapidamente as condições de negociação (Lauro et al., 2023; Feil et al., 2024). Assim, volume, margem, carteira e retenção de clientes são avaliados dentro de uma estrutura comercial em que o dado econômico do mês pode alterar o sentido da meta originalmente estabelecida, reforçando a necessidade de revisão contínua de metas e KPIs para manter a aderência à realidade do mercado. 

  Metas e KPIs no ACL cumprem uma função dupla: orientam o esforço da equipe e traduzem a relação entre o resultado comercial e a exposição a risco. Chiavenato (2014) destaca a gestão de vendas como um processo que articula planejamento, controle e acompanhamento. Kotler e Keller (2012) complementam que indicadores só adquirem valor gerencial quando refletem a estratégia e apoiam decisões. No contexto da energia, esses princípios demandam um desenho cuidadoso, pois a avaliação do desempenho deve considerar a qualidade da execução comercial sem desconsiderar as pressões de mercado que moldam a negociação e a necessidade de flexibilidade. 

Metas e KPIs no ACL: definição, calibragem e adaptação à volatilidade

  A definição de metas e KPIs no ACL não segue um padrão fixo, mas emerge de uma racionalidade de portfólio, conforme os relatos dos entrevistados. A meta é construída a partir de uma combinação entre volume e margem, considerando a carteira de clientes, o custo do portfólio, o perfil do cliente e o risco associado a cada contrato. E1 descreveu a interação entre as áreas comercial, de risco e de “trading” na definição desses parâmetros, enquanto E2 aproximou a leitura estratégica e a carteira de clientes. E3, E4 e E5 reforçaram que o perfil do cliente, a exposição ao preço e o papel econômico do contrato alteram o peso relativo de volume e margem na meta. 

  Essa abordagem reflete a visão de Czinkota et al. (2021) sobre a gestão de vendas como uma extensão do planejamento mercadológico, e a ideia de Kotler e Keller (2012) de que indicadores ganham sentido ao refletir escolhas estratégicas concretas. No ACL, essa coerência se manifesta quando a meta reconhece que diferentes contas contribuem de maneiras distintas para a sustentabilidade do negócio, ajustando o peso de volume e margem à função econômica de cada conta. A flexibilidade na definição é crucial para a adaptação às rápidas mudanças do mercado de energia. 

  A dimensão temporal da recalibração de metas e KPIs foi um ponto central nas falas de E1, E2 e E5, indicando que a revisão não é um recurso eventual, mas parte integrante da gestão de desempenho. As metas são monitoradas frequentemente, com revisões formais periódicas e ajustes extraordinários diante de choques de curto prazo no mercado. Albani et al. (2025) e Dias et al. (2024) explicam a necessidade dessa elasticidade ao evidenciar a sensibilidade dos preços de energia a variáveis conjunturais e expectativas futuras, que não seguem um padrão linear ou previsível. 

  A problematização de metas rígidas em ambientes incertos, conforme Pietsch et al. (2024), oferece um referencial para interpretar a presença de revisões mensais, trimestrais e extraordinárias. O objetivo primordial é manter a meta aderente à movimentação do mercado e preservar a direção comercial, sem criar uma falsa sensação de estabilidade. Essa prática garante que os critérios de avaliação permaneçam relevantes e justos, mesmo diante de flutuações significativas no cenário externo, que impactam diretamente o setor de energia. 

  A questão da controlabilidade emergiu como um aspecto crítico, com E3 enfatizando a clareza entre esforço e resultado. Züreich (2023) questiona a responsabilização de profissionais por variáveis fora de seu alcance, enquanto Moreno et al. (2024) demonstram como o monitoramento impacta a motivação. A pesquisa revelou que separar indicadores de processo daqueles fortemente influenciados pelo mercado não é apenas uma escolha técnica, mas uma condição para que a equipe reconheça a legitimidade do sistema de avaliação e mantenha a aderência à meta, mesmo sob alta volatilidade. 

  A noção de “meta justa” consolidou este bloco, reunindo cálculo, contexto e responsabilização. E1 associou justiça a um desafio viável, E2 incluiu a maturidade do vendedor e as características do território, E4 alertou para distorções comportamentais geradas por metas desalinhadas, e E5 ressaltou a importância de ajustes que preservem a motivação em momentos de turbulência. Chiavenato (2014) sustenta que metas exequíveis mobilizam o desempenho, e Homburg et al. (2011) lembram que a pressão de venda perde consistência quando ignora o contexto. A legitimidade da meta no ACL, portanto, reside na capacidade de aproximar cálculo econômico, transparência de critérios e responsabilização compatível com a influência da equipe. 

  Com isso, o sistema de metas transcende a mera fotografia numérica, tornando-se uma estrutura interpretativa em permanente ajuste. Essa compreensão é fundamental, pois a utilidade gerencial da meta depende de como ela é desdobrada em processo, rotina de acompanhamento e leitura qualificada do desempenho comercial. A capacidade de adaptação e a clareza dos critérios são essenciais para que o sistema mantenha sua função orientadora e motivacional em um ambiente tão dinâmico e incerto como o ACL. 

Execução comercial e acompanhamento: da disciplina de processo à sustentação dos resultados

  A análise da execução comercial e do acompanhamento revelou a centralidade do processo como forma de conferir inteligibilidade ao desempenho em um mercado instável. As rotinas de acompanhamento, como o funil de vendas, a qualificação, a conversão e o ciclo de vendas, são recorrentes e servem como referência operacional, aumentando a previsibilidade. E1 e E2 destacaram o acompanhamento do funil e as métricas operacionais como parte do trabalho cotidiano, enquanto E3 e E4 reforçaram a disciplina na execução e na qualificação de oportunidades. E5 ampliou essa perspectiva ao incluir o pós-venda. 

  Marques e Levi (2019) descrevem o funil de vendas como um mecanismo de leitura progressiva da jornada comercial, e Ross e Tyler (2020) associam a previsibilidade de receita à estabilidade do processo. No contexto das entrevistas, o processo emergiu como o terreno onde as empresas conseguem construir continuidade analítica, mesmo quando o ambiente externo altera o valor econômico de cada negociação. A qualidade do pipeline e a precificação são cruciais para a leitura da margem e do volume, evitando interpretar o desempenho final de modo isolado. 

  A relação entre processo e resultado demonstrou um alto grau de maturidade, não sendo o desempenho visto como reflexo automático da atividade ou consequência exclusiva do preço de mercado. Observou-se uma cadeia de mediações em que a qualificação, a precificação, o avanço da oportunidade e a disciplina comercial ajudam a explicar o desempenho da carteira. Kotler e Keller (2012) defendem que indicadores se tornam gerenciais quando acompanham etapas críticas da estratégia, e Chiavenato (2014) entende o controle de vendas como um acompanhamento contínuo para corrigir desvios. Essa articulação é vital para compreender por que o resultado final é lido à luz do percurso comercial. 

  As ferramentas tecnológicas, embora importantes, não resolvem por si só os dilemas do sistema. E1 atribuiu ao CRM a base da gestão comercial, E2 e E3 focaram em painéis de risco e relatórios de exposição, E4 apontou a dificuldade de integrar sistemas, e E5 reconheceu ganhos com Business Intelligence (BI). Kotler et al. (2021) e Syam e Sharma (2018) mostram que a tecnologia amplia a capacidade de resposta e a análise de dados em vendas complexas. Contudo, a pesquisa indicou que ferramentas sem integração podem gerar volume de informação sem necessariamente produzir uma leitura aprimorada do negócio. 

  A incorporação do pós-venda como parte da lógica de desempenho conferiu densidade à análise. Em contratos sensíveis a preço e risco, a continuidade da relação comercial influencia a retenção, a expansão e a qualidade da carteira. Madruga (2021) associa relacionamento duradouro e percepção de valor à sustentação dos vínculos com o cliente. Acompanhar vendas no ACL, portanto, envolve olhar para a permanência do cliente com a mesma atenção dedicada ao fechamento, conectando receita recorrente, relacionamento e sustentabilidade comercial. Essa abordagem mais ampla do ciclo comercial é fundamental para a sustentação dos resultados. 

  Para que metas, indicadores e rotinas mantenham coerência em um ambiente de rápidas mudanças de preço e de regra, é essencial que a organização comunique critérios, conduza revisões e exerça liderança sobre o time comercial. A disciplina operacional e a disponibilidade de ferramentas, por si só, não garantem a estabilidade do sistema. A discussão avança, então, para a governança, a comunicação e a liderança como pilares para a justiça percebida, o engajamento e a previsibilidade do desempenho, elementos que interagem para criar um sistema robusto e adaptável. 

Governança, comunicação e liderança: mecanismos de coerência, justiça e engajamento

  A comunicação das metas foi um aspecto crucial, com os entrevistados destacando que a meta não se esgota em sua definição formal, mas na forma como é traduzida para a equipe, especialmente quando o mercado exige revisão. Critérios, revisões e expectativas precisam circular com clareza e frequência para reduzir o ruído interno e dar inteligibilidade às mudanças de rota. Chiavenato (2014) aproxima comunicação e coordenação gerencial ao situar o acompanhamento de vendas como prática contínua de alinhamento, e Kotler e Keller (2012) defendem que a estratégia perde força quando seus critérios não são compreendidos por quem a executa. 

  E1, E2 e E3 enfatizaram que clareza, frequência e consistência são a base para que o profissional reconheça por que a meta mudou e como essa mudança dialoga com o ambiente de negócios. A governança, por sua vez, apareceu como o espaço onde essa tradução se materializa operacionalmente. Os relatos de E1 a E5 sugeriram que comitês de preço e reuniões de risco atuam como fóruns de alinhamento, contendo o improviso em momentos de movimentos bruscos do mercado. Feil et al. (2024) lembram que o setor elétrico é atravessado por condicionantes institucionais persistentes, tornando os rituais internos visíveis e essenciais para a empresa decidir como reagir às pressões externas sem comprometer a coerência entre áreas. 

  A governança não foi percebida como um excesso de formalidade, mas como um suporte para escolhas que afetam a carteira, o preço e a leitura do desempenho, filtrando respostas impulsivas e aumentando a previsibilidade. A liderança concluiu esse percurso, aproximando estrutura e comportamento. E1 e E2 destacaram a necessidade de combinar cobrança e suporte, enquanto E3 e E4 valorizaram o reconhecimento do esforço e a proximidade do gestor. E5 levou a discussão para o desenvolvimento contínuo do time, mostrando que a liderança sustenta a adesão ao sistema de avaliação em cenários voláteis. 

  Moreno et al. (2024) mostram que diferentes formas de monitoramento impactam a motivação em vendas, e Czinkota et al. (2021) situam a liderança comercial como elo entre estratégia e execução. Nas entrevistas, o líder emergiu como mediador da tensão entre meta, contexto e percepção de justiça, tarefa que ganha importância quando parte do resultado é influenciada por variáveis fora do domínio direto da equipe. Essa combinação de comunicação, governança e liderança explica por que a estabilidade do sistema de metas no ACL depende mais de credibilidade do que de rigidez. 

  Züreich (2023) problematiza a responsabilização por fatores incontroláveis. A análise crítica do material revelou que essa questão se torna menos conflitiva quando a organização comunica premissas, cria espaços formais de revisão e oferece liderança capaz de interpretar o contexto junto à equipe. Assim, a meta deixa de ser uma imposição numérica e passa a funcionar como referência negociada dentro de critérios compreensíveis, fortalecendo o engajamento e a motivação da equipe comercial. 

Leitura individual dos casos: particularidades das empresas representadas por E1 a E5

  A análise individual dos casos revelou que, embora as empresas operem no mesmo ambiente competitivo e regulatório do ACL, elas traduzem essa realidade em arranjos gerenciais distintos. No caso de E1, a definição de metas e KPIs estava vinculada a uma lógica de integração entre áreas, com comercial, risco e “trading” participando da construção e revisão dos parâmetros de desempenho. Essa abordagem sugere uma organização que busca reduzir a distância entre a decisão comercial e a leitura econômica da carteira, apoiando-se em racionalidade processual e previsibilidade decisória. 

  A empresa representada por E2 destacou uma gestão voltada ao alinhamento entre estratégia, orçamento e capacidade comercial efetiva, combinando leituras “top-down” e “bottom-up”. Isso indica uma preocupação em sustentar a coerência entre a expectativa de crescimento e a viabilidade comercial, com forte valorização da governança e revisões estruturadas e compartilhadas entre diretoria, risco e área comercial. A meta, nesse contexto, aparece como prolongamento da direção empresarial, ajustada pela leitura da carteira, do “pipeline” e das condições de risco, conferindo ao sistema um caráter deliberado e coordenado. 

  O caso de E3 revelou uma centralidade maior da inteligência de mercado na formulação e leitura das metas. Dados históricos de consumo, sazonalidade, comportamento do cliente e a separação entre esforço e resultado foram elementos recorrentes. Essa lógica comercial se apoia intensamente em informação analítica para estruturar expectativas de desempenho, onde a legitimidade do sistema depende da capacidade de sustentar critérios transparentes e analiticamente justificáveis, especialmente em um ambiente onde o resultado financeiro pode ser deslocado por variáveis externas. 

  Na empresa representada por E4, a preocupação com a resiliência do portfólio e os efeitos desorganizadores de metas desalinhadas ao mercado foi marcante. A referência a cenários de estresse, sensibilidade de preço e maior exigência de margem para clientes expostos ao risco sugere uma organização cuja leitura de desempenho é atravessada por forte preocupação com a seletividade econômica. O caso de E4 demonstrou uma vigilância crítica em relação aos efeitos colaterais de um desenho inadequado de metas e KPIs, que pode levar a comportamentos improdutivos. 

  Por fim, a empresa representada por E5 revelou uma lógica de gestão mais apoiada na sustentação econômica da carteira ao longo do tempo, com ênfase no equilíbrio entre escala, margem, retenção e expansão. O relato mostrou que nem todos os clientes são avaliados pelo mesmo critério econômico, reconhecendo que alguns contribuem mais para a margem e outros para a sustentação da escala e competitividade comercial. Essa visão mais ampla do ciclo comercial, que não se encerra no fechamento, mas se prolonga na permanência do cliente, confere ao desempenho uma leitura mais longitudinal. 

  Em conjunto, essas leituras individuais demonstram que o ambiente do ACL não impõe respostas organizacionais padronizadas, mesmo sob pressões semelhantes de preço, risco e regulação. Cada caso revelou uma forma particular de organizar a relação entre cálculo de metas, acompanhamento comercial e mediação gerencial, reforçando a ideia de que a gestão de desempenho nesse setor depende de arranjos construídos a partir das prioridades e capacidades de cada organização. A existência dessas singularidades, no entanto, não impede a comparação, mas oferece uma base consistente para compreender como o contexto competitivo é traduzido em práticas convergentes e diferenciadas. 

Síntese analítica: convergências e nuances entre os entrevistados

  A análise transversal das entrevistas revelou fortes convergências e nuances significativas entre as cinco empresas. No eixo de metas e KPIs no ACL, a principal convergência foi a compreensão de que as metas são uma combinação de volume e margem, apoiadas na leitura da carteira, risco e contexto de mercado. A diferença residiu na ênfase dada ao papel do portfólio, ao peso do cenário externo e ao grau de formalização das revisões, indicando que o desenho das metas assume um caráter contingencial e sensível ao contexto do ACL. 

  A recalibração, controlabilidade e justiça das metas também apresentaram ampla convergência. As empresas descreveram revisões estruturadas e ajustes extraordinários diante de mudanças relevantes no mercado. Houve consenso na necessidade de distinguir o esforço comercial dos efeitos externos e na importância de que clima, hidrologia, encargos e mudanças regulatórias sejam considerados na leitura do desempenho. As nuances apareceram na maneira de transformar essa percepção em regra de gestão, com algumas empresas operando com maior formalização dos ciclos de revisão e outras com adaptação mais contínua e menos ritualizada. 

  No eixo de execução comercial e acompanhamento, a convergência foi forte na centralidade dos indicadores de processo. Houve valorização do funil, da qualificação, da conversão e do pós-venda como bases para a interpretação do desempenho. As nuances se manifestaram na centralidade atribuída a determinadas rotinas e no uso de ferramentas analíticas. Os indicadores de processo funcionaram como um eixo de estabilidade gerencial diante da volatilidade externa, permitindo uma leitura mais consistente do desempenho. 

  Na governança, comunicação e liderança, as falas destacaram a clareza de critérios, os rituais de revisão e o papel da liderança na preservação do engajamento. As diferenças surgiram na ênfase entre comunicação contínua, comitês formais e reconhecimento do esforço. A sustentação do sistema dependeu da articulação entre transparência, revisão e mediação gerencial, elementos que, em conjunto, promovem a legitimidade e a adesão da equipe, mesmo em um ambiente de constantes mudanças e incertezas. 

Fatores que fortalecem e fragilizam o sistema de metas e KPIs

  A pesquisa identificou fatores que fortalecem e fragilizam o sistema de metas e KPIs nas comercializadoras de energia. No desenho das metas, o equilíbrio entre volume e margem, premissas explícitas, revisão periódica e aderência ao contexto de mercado fortalecem o sistema. Em contrapartida, rigidez excessiva, critérios pouco transparentes e a dissociação entre a meta e a realidade da carteira o fragilizam. A avaliação do desempenho é fortalecida pela separação entre indicadores de processo e aqueles expostos ao mercado, e pela leitura contextual do resultado. 

  A responsabilização da equipe por variáveis externas e a comparação linear entre períodos heterogêneos fragilizam a avaliação. Na execução comercial, a disciplina do funil, a qualificação de oportunidades, o acompanhamento do ciclo de vendas e a atenção ao pós-venda são fatores de fortalecimento. Baixa consistência de processo, falhas de qualificação e leitura insuficiente da carteira, por outro lado, fragilizam. Quanto aos sistemas e informação, o uso integrado de CRM, relatórios, painéis e dados de apoio à decisão fortalecem, enquanto a integração limitada entre sistemas e a baixa capacidade de transformar dados em ação gerencial os fragilizam. 

  Na governança e liderança, comitês de revisão, comunicação frequente, feedback contínuo e reconhecimento do esforço fortalecem o sistema. Ruído de comunicação, revisões pouco explicadas e liderança focada apenas na cobrança são fatores que o fragilizam. A combinação desses elementos mostra que a fragilidade do sistema de metas no ACL não decorre apenas da volatilidade externa, mas da falha organizacional em converter a instabilidade do mercado em critérios inteligíveis de avaliação, revisão e acompanhamento. 

  Em um ambiente onde preço, hidrologia, encargos e alterações regulatórias reposicionam continuamente as condições de negociação, a meta perde sua função gerencial se permanecer estática. Pietsch et al. (2024) questionam a utilidade de metas rígidas em cenários incertos, e Züreich (2023) destaca a necessidade de distinguir responsabilidade individual de circunstância externa. Quando essa separação não é incorporada ao desenho dos KPIs, a meta perde legitimidade, sendo percebida como cobrança desvinculada das condições concretas de execução. 

  Essa perspectiva ajuda a compreender que as fragilidades observadas não são diretamente do mercado, mas da forma como a empresa interpreta e internaliza esse mercado em sua lógica de gestão. A oscilação de preços, por si só, não desorganiza o sistema; o problema surge quando a revisão ocorre sem critério claro, os indicadores financeiros são lidos sem mediação do contexto, ou a comunicação das mudanças não alcança a equipe com precisão. Nessas situações, o vendedor opera em terreno ambíguo, perdendo a clareza dos parâmetros de avaliação e a previsibilidade, o que reduz a força pedagógica da meta e compromete sua coordenação. 

  Feil et al. (2024) lembram que o setor elétrico brasileiro está inserido em um ambiente sensível a vetores regulatórios e institucionais, o que exige maior elasticidade organizacional e capacidade de tradução gerencial do contexto nos sistemas de metas. Os elementos fortalecedores não atuam isoladamente; a revisão periódica sem comunicação clara gera ruído, a governança sem leitura de processo pode criar excesso de formalidade, e a liderança próxima sem instrumentos consistentes de acompanhamento encontra limites. Homburg et al. (2024) e Oh et al. (2023) reforçam que sistemas de desempenho funcionam melhor quando articulam incentivos, colaboração e clareza operacional, com métricas que captam a qualidade do processo, não apenas o desfecho final. 

  O resultado aponta para uma arquitetura de complementaridade, onde transparência, critério, tecnologia de apoio, disciplina comercial e capacidade de revisão ganham força quando operam em uma mesma direção gerencial. Quando as empresas dispõem de instrumentos para acompanhar o funil, interpretar a carteira, revisar metas diante de choques e comunicar essas mudanças de forma inteligível, o sistema de metas funciona como um mecanismo de coordenação adaptativa. A governança atua como estrutura de consistência, a liderança como mediação ativa entre exigência e contexto, e os indicadores de processo assumem função decisiva na sustentação da leitura do desempenho. 

Implicações gerenciais: desdobramentos da análise qualitativa

  A análise qualitativa resultou em implicações gerenciais práticas para comercializadoras de energia no ACL. Para o cálculo das metas, a leitura derivada sugere que a legitimidade aumenta quando premissas de volume, margem, carteira e risco são explicitadas. A prioridade gerencial, portanto, é formalizar critérios e tornar visíveis as bases de cálculo. Na revisão em ambiente volátil, as mudanças de preço e regra demandam mecanismos de recalibração mais previsíveis, indicando a necessidade de definir periodicidade mínima e gatilhos extraordinários de revisão para manter a aderência. 

  Para uma avaliação justa, a leitura do desempenho melhora quando processo e resultado são analisados em conjunto, o que implica em adotar painéis com indicadores controláveis e contextualizados. Na execução comercial, um funil estruturado e qualificação consistente ampliam a previsibilidade e ajudam a interpretar o resultado, demandando o fortalecimento de rotinas de acompanhamento e critérios de passagem entre etapas. A infraestrutura analítica, embora com ferramentas existentes, tem sua utilidade dependente de integração e uso gerencial, sugerindo a ampliação da integração entre CRM, relatórios de risco e acompanhamento de carteira. 

  O engajamento da equipe, sustentado por comunicação, governança e liderança, reforça a justiça percebida e a estabilidade do sistema. A prioridade gerencial é aprimorar o feedback, a transparência de critérios e os rituais de alinhamento. Chiavenato (2014) trata a gestão de vendas como processo integrado de planejamento, execução e controle, e no ACL, esse encadeamento exige maior sensibilidade temporal devido à velocidade com que preço, risco e carteira se movem. Quando esse movimento não é absorvido pela gestão, a meta perde aderência e se torna mais punitiva do que orientadora. 

  Ross e Tyler (2020) defendem que a previsibilidade de receita depende de processo robusto e rotina disciplinada, enquanto Madruga (2021) destaca o valor de relações sustentadas ao longo do tempo. Moreno et al. (2024) mostram que liderança e forma de monitoramento influenciam motivação e desempenho. Reunidos, esses aportes indicam que a resposta gerencial não se resume a recalcular números, mas a redesenhar critérios, fortalecer a leitura processual, tornar a revisão mais inteligível e sustentar uma cultura de acompanhamento em que a equipe reconheça sentido no sistema de avaliação. 

  No ACL, onde oscilações externas podem alterar rapidamente a atratividade de propostas, a coerência entre meta, acompanhamento e contexto é decisiva para preservar a direção comercial sem romper o vínculo entre esforço e reconhecimento. As implicações gerenciais sistematizadas não são fórmulas prontas, mas frentes de aperfeiçoamento combináveis conforme o grau de maturidade de cada comercializadora. Empresas com dificuldade de previsibilidade podem avançar pela revisão dos critérios de cálculo e valorização de indicadores de processo. 

  Organizações com ruído na interpretação do desempenho demandam maior clareza sobre controlabilidade, revisão e responsabilização. Já contextos com fragilidade no engajamento e continuidade podem exigir reforço de comunicação, governança e liderança. A contribuição prática da análise reside em demonstrar que a robustez do sistema de metas no ACL depende menos da adoção de um modelo ideal e mais da capacidade de ajustar, integrar e sustentar mecanismos coerentes com a realidade competitiva e regulatória enfrentada pela empresa. 

Síntese analítica das abordagens de definição de metas e KPIs

  A leitura integrada do material permitiu verificar que as abordagens de definição de metas e KPIs nas comercializadoras analisadas se afastaram de modelos fixos, sendo uma construção orientada pelo contexto. A lógica de definição das metas envolve a combinação entre volume, margem, carteira, risco e a função econômica dos contratos, refletindo a visão de Kotler e Keller (2012) de que indicadores gerenciais só produzem valor quando coerentes com a lógica competitiva da organização. Essa coerência se manifestou na tentativa de ajustar a meta à realidade comercial do ACL. 

  A calibragem dessas metas foi fortemente influenciada pela volatilidade climática e pelo risco regulatório, exigindo ajustes periódicos e extraordinários conforme preço, regulação e desempenho da carteira. As variações de preço, alterações normativas e mudanças na carteira demandam revisões frequentes para que a meta preserve sua utilidade prática. Albani et al. (2025) e Dias et al. (2024) reforçam que a formação de preços no mercado brasileiro de energia responde de forma sensível a movimentos conjunturais e expectativas futuras, sem seguir uma trajetória linear ou previsível. A recalibração, portanto, é um traço basal dessas abordagens, essencial para manter a coerência entre esforço e resultado. 

  A base de legitimidade do sistema de metas e KPIs reside na clareza de critérios, na distinção entre esforço comercial e efeito de mercado, e na percepção de justiça. A análise mostrou que metas e KPIs são reconhecidos como válidos quando a organização explicita seus critérios e diferencia variáveis controláveis de efeitos externos, mantendo proporcionalidade entre desafio, contexto e responsabilização. Züreich (2023) e Moreno et al. (2024) destacam que a liderança e o monitoramento influenciam diretamente a motivação e o desempenho, reforçando que a definição de metas no ACL não é apenas um cálculo numérico, mas a construção de um sistema inteligível, justo e aderente ao cenário. 

  A sustentação gerencial do sistema depende de indicadores de processo, revisão, governança, comunicação e liderança. As abordagens identificadas mostraram que a definição de metas e KPIs, nesse tipo de operação, depende de mecanismos internos que sustentam a leitura do desempenho ao longo do tempo. Indicadores de processo, rotinas de revisão, comunicação clara, governança entre áreas e liderança próxima emergem como elementos que conferem estabilidade interpretativa a um ambiente economicamente instável (Ross e Tyler, 2020; Homburg et al., 2024). Em suma, as metas e KPIs são mais efetivos quando integrados a um arranjo organizacional amplo, onde cálculo, acompanhamento e mediação gerencial operam na mesma direção, permitindo que a meta seja uma referência legítima para decisão, acompanhamento e mobilização da equipe, respondendo ao objetivo de investigar como a volatilidade climática e o risco regulatório influenciam sua calibragem, o engajamento das equipes e a comparabilidade ao longo do tempo. 

4. Conclusão

  O estudo investigou as abordagens de definição de metas e KPIs para vendas complexas no setor de energia, considerando a influência da volatilidade climática e do risco regulatório na sua calibragem, no engajamento das equipes e na comparabilidade ao longo do tempo. Verificou-se que os critérios de avaliação não seguiram um padrão fixo, sendo construídos a partir de combinações entre margem, volume, carteira, risco e o papel econômico dos contratos. A necessidade de revisões periódicas e extraordinárias foi identificada como essencial para manter a aderência das metas à dinâmica de preços e às mudanças normativas do Ambiente de Contratação Livre (ACL). Observou-se que a legitimidade do sistema de metas dependeu da clareza dos critérios, da distinção entre o esforço comercial e os efeitos externos do mercado, da valorização de indicadores de processo e do suporte de governança e liderança. Como contribuição gerencial, a pesquisa indicou a necessidade de sistemas de avaliação mais contextualizados, revisáveis e coerentes com a dinâmica competitiva do ACL, promovendo uma gestão de desempenho adaptativa e justa. 

  A complexidade inerente ao contexto do ACL, com suas múltiplas variáveis externas que se alteram rapidamente, representou uma dificuldade na interpretação comparativa entre empresas e períodos. Adicionalmente, a representação de cada organização por um único entrevistado limitou a profundidade da compreensão sobre o funcionamento interno de cada empresa. Para estudos futuros, recomenda-se ampliar o número de casos e incluir outros perfis de participantes, como profissionais de risco, precificação e direção comercial, a fim de aprofundar a compreensão sobre a interação entre áreas na definição de metas e KPIs. Sugere-se também o desenvolvimento de investigações comparativas entre subsetores do mercado de energia ou entre empresas com diferentes níveis de maturidade em seus sistemas de gestão de desempenho. Essas frentes de pesquisa podem fortalecer a capacidade de ajustar, integrar e sustentar mecanismos de avaliação que respondam de forma robusta à realidade do setor. 

Referências Bibliográficas

Albani, V. V. L.; Marcavillaca, R. T.; Moreira, P. S. E.; Avila, S. L.; Geremia, M.; Piovezan, R. P. B.; Sica, E. T.; Santos, E. 2025. Short-term forecasting of forward prices in the Brazilian electricity market. Energy Economics 148: 108651.

Bardin, L. 2011. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.

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Chiavenato, I. 2014. Gestão de vendas: uma abordagem introdutória: transformando o profissional de vendas em um gestor de vendas. 3ed. Barueri, SP: Manole.

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Dias, M. B. B.; Lira, G. R. S.; Freire, V. M. E. 2024. Methodology for Multi-Step Forecasting of Electricity Spot Prices Based on Neural Networks Applied to the Brazilian Energy Market. Energies 17(8): 1864.

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YIN, R. K. 2018. Case study research and applications: Design and methods. 6ed. Thousand Oaks: Sage Publications.

Züreich, J. 2023. The (Un)Controllability Principle: The Benefits of Holding Managers Accountable for Uncontrollable Factors. Journal of Accounting Research 61(2): 653-690.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Vendas do MBA USP/Esalq

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Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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