Artigo

03 de agosto de 2026

Kanban pessoal e gestão da produtividade: desafios na aplicação de ferramentas de gestão de projetos no contexto individual

Giovanna Rafaela Correa de Souza; Melissa Rizzo Sperandio

DOI: 10.22167/2675-6528-202600848

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Analisou-se a relação entre o uso do Kanban pessoal e a organização e produtividade no contexto da autogestão individual, à luz dos fundamentos da gestão de projetos. O estudo objetivou analisar o Kanban como ferramenta de apoio à organização e à produtividade na autogestão individual, fundamentado na gestão de projetos. Para isso, conduziu-se uma pesquisa quantitativa e descritiva, utilizando o método survey. Aplicou-se um questionário estruturado em escala Likert a uma amostra de 98 participantes com mais de 18 anos, e os dados foram analisados por estatística descritiva. Os resultados revelaram que, apesar da autopercepção positiva dos participantes quanto à organização e produtividade, existiam inconsistências com a prática cotidiana, manifestadas por sobrecarga, procrastinação e dificuldades no acompanhamento de tarefas. Observou-se, ainda, baixo uso de ferramentas visuais estruturadas, como o Kanban, mesmo entre aqueles com conhecimento prévio do método. Concluiu-se que ferramentas da gestão de projetos possuem potencial para apoiar a autogestão, mas sua efetividade requer adoção estruturada e contínua no cotidiano.

Palavras-chave: Autogestão; Desempenho individual; Gestão de projetos; Métodos Visuais; Organização pessoal.

1. Introdução

O cenário contemporâneo é caracterizado por uma crescente complexidade nas rotinas individuais, onde as atividades acadêmicas, profissionais e a vida pessoal frequentemente se entrelaçam e ocorrem de forma simultânea e recorrente. Essa dinâmica impõe desafios significativos à gestão da produtividade, tornando-se um dos principais obstáculos enfrentados por indivíduos que buscam equilibrar múltiplas demandas.

A dificuldade em gerenciar o tempo de forma eficaz, a propensão à procrastinação e os entraves no acompanhamento contínuo das tarefas são consequências diretas desse contexto multifacetado. Tais fatores podem gerar contratempos na organização pessoal, comprometendo não apenas a eficiência na execução das demandas diárias, mas também o bem-estar e o desempenho individual.

Nesse panorama, ferramentas de gestão de projetos, originalmente concebidas para ambientes corporativos, emergem como potenciais aliadas para otimizar a autogestão individual. O método Kanban, por exemplo, é reconhecido por sua abordagem visual e flexível, que permite a organização e o monitoramento de atividades por meio de cartões que representam o fluxo de trabalho (Catellani, 2023).

A aplicação individual do Kanban propõe o gerenciamento de atividades em cartões com características visuais, tipicamente organizados em colunas como “A fazer”, “Em andamento” e “Concluído”. Essa gestão visual, um princípio fundamental na gestão de projetos (Project Management Institute, 2021), facilita a identificação de gargalos, incentiva revisões contínuas do progresso e apoia a priorização de tarefas. O objetivo é reduzir a sobrecarga de compromissos e a procrastinação, elevando o foco em objetivos de vida, carreira e projetos pessoais (Benson; DeMaria Barry, 2011).

Apesar do potencial evidente dessas ferramentas visuais para aprimorar a organização e a produtividade pessoal, existe uma lacuna no entendimento sobre como elas são efetivamente adaptadas e incorporadas no cotidiano dos indivíduos. A transposição de métodos desenvolvidos para contextos organizacionais para a esfera pessoal apresenta desafios únicos que merecem investigação aprofundada, especialmente no que tange à adoção estruturada e contínua.

Este trabalho justifica-se pela necessidade de compreender a aplicação de ferramentas da gestão de projetos no contexto da autogestão individual, analisando como práticas e ferramentas podem ser apropriadas no dia a dia. A pesquisa busca contribuir para a organização, o monitoramento e a execução de atividades pessoais, ampliando o entendimento sobre a aplicabilidade dos métodos de gestão de projetos para além do ambiente corporativo e evidenciando seu potencial em diferentes níveis de gestão, incluindo a individual.

Diante do exposto, a questão que orienta esta pesquisa é: como o uso do Kanban pessoal se relaciona com a organização e a produtividade de indivíduos em suas rotinas diárias? Nesse sentido, o presente estudo tem como objetivo geral analisar o Kanban como ferramenta de apoio à organização e à produtividade no contexto da autogestão individual, com base nos fundamentos da gestão de projetos.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como quantitativa, de natureza descritiva, empregando o método survey como estratégia de coleta de dados. Essa abordagem foi considerada adequada para investigar percepções e práticas relacionadas à organização e à produtividade no contexto da autogestão individual (Babbie, 1999; Gil, 2008; Creswell, 2014).

A amostra do estudo foi composta por 98 participantes com idade superior a 18 anos. Incluíram-se estudantes e profissionais, selecionados por meio de amostragem não probabilística por conveniência. A escolha desse tipo de amostragem justificou-se pela natureza exploratória da pesquisa e pela viabilidade de acesso aos respondentes em ambiente digital, sem o objetivo de generalizar estatisticamente os resultados, mas sim de identificar padrões e tendências no grupo analisado (Gil, 2008).

O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário estruturado, desenvolvido na plataforma Google Formulários. Ele foi composto predominantemente por questões fechadas em escala Likert de cinco pontos, variando de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”, e incluiu uma questão dissertativa complementar para padronização das respostas. O instrumento foi elaborado com base nos objetivos da pesquisa, abordando dimensões analíticas como organização das atividades, produtividade individual, priorização, acompanhamento de tarefas e o uso de ferramentas de apoio à gestão, com foco no método Kanban (Likert, 1932; Creswell, 2014).

A coleta de dados foi realizada no período de 15 de janeiro a 4 de fevereiro de 2026. O questionário foi disponibilizado em ambiente online por 21 dias, e as respostas foram automaticamente registradas na plataforma Google Formulários. Esse procedimento garantiu a integridade e a organização dos dados para a etapa de análise.

A análise dos dados coletados foi conduzida por meio de estatística descritiva. Realizou-se o cálculo de médias e a distribuição de frequências relativas. Adicionalmente, procedeu-se a uma análise comparativa entre grupos de respondentes, considerando seus diferentes níveis de uso e familiaridade com o Kanban. Essa abordagem permitiu identificar padrões e tendências no contexto da autogestão (Creswell, 2014).

O estudo foi conduzido em etapas sequenciais para garantir a organização e a sistematicidade da pesquisa. A primeira etapa envolveu a definição do instrumento, com a estruturação do questionário e a inclusão de questões em escala Likert e uma questão dissertativa para padronização das respostas.

Na segunda etapa, procedeu-se à construção do formulário, elaborando as questões com base nos objetivos da pesquisa e nas dimensões de organização, produtividade e uso do Kanban pessoal. A terceira etapa consistiu na divulgação do questionário, que foi compartilhado por meio de link eletrônico em redes sociais e aplicativos de comunicação, direcionado a indivíduos com idade superior a 18 anos.

A quarta etapa correspondeu à coleta de dados, com a disponibilização do formulário por 21 dias, no período de 15 de janeiro a 4 de fevereiro de 2026. Em seguida, na quinta etapa, realizou-se a organização dos dados, que foram armazenados automaticamente na plataforma, possibilitando a consolidação e preparação para a análise.

A sexta e última etapa foi dedicada à análise dos dados. Nesta fase, os dados foram tratados por meio de estatística descritiva, com cálculo de médias e distribuição percentual das respostas, o que permitiu a identificação de padrões e tendências relevantes para o estudo.

Em relação aos cuidados éticos, todos os participantes foram devidamente informados sobre os objetivos da pesquisa e expressaram sua concordância por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Garantiu-se o anonimato dos respondentes e o sigilo de todas as informações coletadas, conforme os princípios éticos aplicáveis à pesquisa.

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados de 98 participantes, obtidos por meio de um questionário eletrônico anônimo, revelou um perfil demográfico predominante de indivíduos com mais de 41 anos, muitos deles inseridos em atividades profissionais. Essa composição da amostra sugere uma rotina caracterizada por demandas contínuas e sobreposição de responsabilidades, o que é crucial para compreender as práticas de organização, priorização de tarefas e a percepção de produtividade e sobrecarga no cotidiano dos respondentes. A pesquisa buscou entender como esses fatores se relacionam com a autogestão individual.

Observou-se que uma parcela significativa dos participantes, 46,9%, considerou sua organização pessoal como “bem-organizada”, enquanto 33,7% a classificaram como “moderadamente organizada”. Essa autopercepção positiva, no entanto, deve ser interpretada com cautela. Os resultados subsequentes indicaram que essa percepção elevada de organização nem sempre se traduz em métodos estruturados e eficazes de gestão das atividades, sugerindo uma possível inconsistência entre a autoavaliação e a prática diária de gerenciamento de demandas.

Em relação à produtividade diária, 44,9% dos respondentes também se consideraram “bem-organizados”. Embora esses dados reforcem a importância da gestão pessoal, eles não necessariamente indicam uma priorização estratégica e produtiva das tarefas. A gestão pessoal pode se concentrar na execução de tarefas sem uma visão abrangente de seus impactos ou alinhamento com objetivos maiores, conforme discutido por Allen (2015) e Barbosa (2018) sobre a necessidade de uma abordagem mais estruturada para a produtividade.

Contrariando a autopercepção de organização e produtividade, uma parcela considerável dos participantes, 44,9%, relatou sentir-se “frequentemente” sobrecarregada com as tarefas. Essa percepção de sobrecarga é um achado relevante, pois aponta para uma dissociação entre a forma como os indivíduos se veem e a realidade de suas rotinas. Tal cenário reforça a necessidade de ferramentas visuais, como o método Kanban, que podem auxiliar na gestão de tarefas por meio de quadros “A fazer”, “Em andamento” e “Concluído”, contribuindo para a redução da sobrecarga, conforme destacado por Catellani (2023).

Adicionalmente, os dados revelaram que 41,8% dos respondentes indicaram um nível “moderado” de estresse relacionado às tarefas diárias, e 22,4% reportaram um nível “alto”. Esses resultados evidenciam que uma parte significativa dos participantes convive com estresse em suas demandas, o que sugere uma possível divergência entre a percepção de controle sobre as atividades e o impacto emocional gerado por sua execução. A adoção de ferramentas estratégicas e estruturadas de organização pode, portanto, ser benéfica não apenas para a execução das tarefas, mas também para a mitigação do estresse associado.

No que tange ao uso de ferramentas para anotação e visualização de tarefas, 46,9% dos participantes utilizam planilhas ou aplicativos digitais, enquanto 36,7% ainda recorrem a agendas de papel. Essa tendência crescente ao uso de ferramentas digitais reflete a adoção de tecnologias para apoiar a organização pessoal, conforme abordado por Barbosa (2018) e Freitas (2025). No entanto, a mera utilização de ferramentas, sejam digitais ou físicas, não garante uma gestão eficiente, pois muitos participantes ainda enfrentam dificuldades no acompanhamento e controle das tarefas, indicando a ausência de um método estruturado de organização.

A efetividade na organização das tarefas está intrinsecamente ligada à forma como cada indivíduo estrutura e acompanha suas demandas. Independentemente do meio utilizado, os resultados apontam para dificuldades persistentes no acompanhamento das demandas e na visualização clara das tarefas em diferentes estágios, como “a fazer”, “em andamento” e “concluídas”. Isso sublinha a necessidade de métodos visuais e estratégicos de gestão que possam oferecer uma visão mais integrada e controlada do fluxo de trabalho pessoal.

A priorização das atividades também se mostrou um ponto crítico, com 34,7% dos respondentes priorizando tarefas com base na “urgência” e 24,5% com base na “importância”. Esses dados indicam um contexto de alta demanda e, frequentemente, pouca estruturação das atividades. Ferramentas visuais, como o Kanban, são reconhecidas por apoiar a organização e a priorização, permitindo uma gestão mais precisa entre urgência e importância, conforme apontado por Benson e DeMaria Barry (2011).

A pesquisa também revelou que as demandas dos participantes estão frequentemente sujeitas à priorização por terceiros, o que gera conflitos e sobrecarga. Nesse cenário, o controle sobre as demandas diárias, semanais e mensais torna-se fundamental para evitar a interferência externa. A ferramenta Kanban pode ser particularmente útil para facilitar o remanejamento de demandas urgentes e sobrepostas, garantindo o acompanhamento e o alinhamento das tarefas reportadas, mesmo quando há dependência de contribuições de terceiros.

A frequência de revisão da lista de tarefas ao longo do dia demonstrou ser uma prática importante, com 49% dos respondentes realizando essa visualização uma vez ao dia e 26,5% entre duas e três vezes ao dia. Embora o monitoramento contínuo seja primordial para ajustes e tomada de decisões, a rotina diária muitas vezes impede uma revisão mais frequente. A revisão contínua é uma prática essencial em métodos de gestão visual, como o Kanban, pois permite a atualização do planejamento e um controle efetivo do progresso das atividades (Benson; DeMaria Barry, 2011).

No que se refere à organização do espaço de trabalho, 59,2% dos respondentes consideram seu ambiente “organizado”, e 34,7% o veem como “parcialmente organizado”. A autopercepção positiva de organização, abrangendo 93,9% da amostra, está diretamente relacionada à eficiência na execução das atividades. A visualização das tarefas, conforme destacado por Benson e DeMaria Barry (2011), colabora para um maior controle e fluidez do trabalho, reforçando a importância de manter a gestão e a estruturação no ambiente para o desempenho profissional.

A análise da quantidade de tarefas finalizadas por dia revelou que 43,9% dos participantes concluem entre três e cinco tarefas, enquanto 19,4% finalizam até duas. Ao comparar esses dados com a autopercepção de produtividade (44,9% dos respondentes se consideram produtivos), observa-se uma dissociação. Isso sugere que a produtividade pode ser avaliada com base em critérios subjetivos, e não necessariamente em indicadores concretos de desempenho, evidenciando a ausência de parâmetros claros para mensuração da produtividade no cotidiano dos indivíduos.

A produtividade de tarefas realizadas por semana também apresentou variabilidade, com 33% dos respondentes concluindo entre seis e quinze tarefas, e 28,9% entre dezesseis e trinta. Essa variação indica que o detalhamento do mapeamento e da priorização das demandas realizadas ao longo do dia e da semana difere entre os indivíduos. A coerência entre o planejado e o realizado é um desafio, e a falta de uma estrutura que permita essa comparação pode comprometer a efetividade da autogestão.

Em relação à familiaridade e ao uso de sistemas visuais como Kanban, Trello ou Notion, os dados indicaram uma baixa utilização efetiva. Embora 28,6% dos respondentes tenham utilizado a ferramenta de forma superficial para experimentar ou conhecer seu funcionamento, a combinação das respostas “Nunca ouvi falar” e “Já ouvi, mas nunca usei” reforça a lacuna entre o conhecimento e a aplicação prática dessas ferramentas. Esse distanciamento pode ser atribuído à falta de hábito, adaptação ou compreensão aprofundada do método.

A preferência pela organização de tarefas, considerando a faixa etária, mostrou que 43,9% dos respondentes optam por métodos digitais ou híbridos (digital e físico). Embora essa preferência possa indicar maior praticidade e proximidade com o controle das atividades, ela não garante a presença de um método estruturado e consolidado de organização. A ausência de tal estrutura pode levar à inefetividade das atividades, à fragmentação de informações, ao risco de perdas de detalhes, retrabalho e inconsistências no planejamento pessoal.

A satisfação com o cumprimento dos prazos foi avaliada, com 42,9% dos participantes satisfeitos e 26,5% insatisfeitos. A satisfação está ligada ao que foi planejado e finalizado, refletindo a organização individual. Em contrapartida, a insatisfação com a capacidade de cumprir prazos está correlacionada com a sobrecarga frequente de atividades, que afeta 44,9% dos respondentes. Essa sobrecarga compromete a organização, a produtividade e o nível de estresse, inviabilizando o planejamento estratégico e prejudicando o bem-estar.

A procrastinação emergiu como um fator relevante, com 40,8% dos respondentes relatando que “às vezes” prorrogam tarefas importantes, e 24,5% afirmando que “frequentemente” o fazem. Esses dados indicam dificuldades tradicionais na gestão da produtividade, como a urgência de certas atividades, o acúmulo de tarefas e as lacunas na execução. Esse cenário está alinhado com Catellani (2023), que enfatiza como a ausência de métodos estruturados de organização pode aumentar o adiamento de tarefas e comprometer a produtividade individual.

No que se refere à clareza sobre o que precisa ser realizado em uma semana típica, 48% dos respondentes apresentaram clareza “total”, e 43,9% consideraram-se cientes “em parte”. Embora a maioria demonstre algum nível de clareza, a parcela que se sente ciente apenas “em parte” indica dificuldades na visualização e no planejamento detalhado das demandas. Isso reforça a necessidade de ferramentas que proporcionem uma visão mais abrangente e estruturada das atividades, facilitando o entendimento do fluxo de trabalho.

A análise qualitativa, baseada nas respostas de 80 participantes a uma questão dissertativa, identificou a gestão do tempo como um desafio recorrente. O surgimento de demandas não planejadas e urgentes ao longo do dia influencia diretamente o cumprimento do planejamento estabelecido, dificultando o foco. Nesse contexto, o Kanban, como método visual, destaca-se por permitir a visualização do fluxo de trabalho e a reiteração do planejamento, auxiliando na gestão de imprevistos e na manutenção da estrutura das atividades.

Outro ponto crítico revelado foi a lacuna entre o planejamento e a execução, com os respondentes admitindo um alto volume de tarefas que excede sua capacidade produtiva, gerando sobrecarga e demandas pendentes. O Kanban atua diretamente no conceito de Limite de Trabalho em Progresso (WIP), que restringe o número de tarefas executadas simultaneamente, evitando novas atividades que impactem na sobrecarga e combatendo a procrastinação, promovendo um fluxo de trabalho mais sustentável e controlado.

A influência de fatores externos, provenientes de terceiros, também foi relatada como um impacto direto no fluxo produtivo individual, resultando em baixa adesão ao controle do planejamento. Além disso, a dificuldade no acesso ou adaptação a ferramentas de organização, seja por falta de hábito ou complexidade das plataformas, contribui para o descumprimento do planejamento. Ferramentas visuais simples, como o Kanban, aproximam os usuários das metodologias de gerenciamento, simplificando o acompanhamento de processos que dependem de terceiros e a identificação de gargalos (Benson; DeMaria Barry, 2011).

Em síntese, os achados quantitativos e qualitativos reforçam que os principais desafios na autogestão individual não se limitam à ausência de ferramentas, mas residem na falta de estruturação, continuidade e controle efetivo na gestão das atividades. A sobrecarga, a imprevisibilidade das demandas, a procrastinação e as dificuldades na gestão do tempo são fatores interligados que comprometem a produtividade e o bem-estar dos indivíduos, evidenciando a necessidade de abordagens mais robustas.

Dessa forma, o Kanban emerge como uma ferramenta de modelo essencial para a simplicidade na visualização, organização e estratégia pessoal. Ele promove uma estrutura para lidar com desafios como a imprevisibilidade, a sobrecarga e as mudanças no fluxo produtivo individual, apoiando a organização, a priorização, o registro e o acompanhamento das atividades pessoais. A efetividade de ferramentas da gestão de projetos para a autogestão depende, portanto, de sua adoção estruturada e contínua no cotidiano dos indivíduos, transformando a percepção de organização em práticas concretas de gestão.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou analisar o Kanban como ferramenta de apoio à organização e à produtividade no contexto da autogestão individual, fundamentado na gestão de projetos. Verificou-se que, embora os participantes apresentassem uma autopercepção predominantemente positiva em relação à sua organização e produtividade, os resultados revelaram inconsistências significativas com a prática cotidiana. Observou-se a presença de sobrecarga frequente de tarefas, níveis moderados a elevados de estresse e a recorrência de procrastinação, mesmo entre aqueles que se consideravam organizados. Essa dissociação indicou que a organização declarada nem sempre se traduzia em métodos estruturados de gestão das demandas, mas sim em práticas informais e fragmentadas, comprometendo a efetividade da produtividade individual. Adicionalmente, identificou-se um baixo uso de ferramentas visuais estruturadas, como o Kanban, apesar de parte dos respondentes possuir conhecimento prévio sobre essas metodologias, evidenciando uma lacuna entre o saber e a aplicação prática.

A principal contribuição deste trabalho reside em evidenciar o potencial de adaptação de métodos visuais da gestão de projetos para a autogestão, ao mesmo tempo em que aponta as limitações relacionadas à adoção, compreensão e incorporação dessas ferramentas no cotidiano dos indivíduos. Mais do que a simples disponibilidade de ferramentas, destaca-se a importância da estruturação, disciplina e continuidade no uso de métodos de gestão para que seus benefícios sejam efetivamente percebidos. Contudo, a pesquisa apresentou limitações, como o uso de amostragem por conveniência e o caráter perceptivo dos dados, o que restringe a generalização dos resultados. Para estudos futuros, sugere-se a realização de investigações com aplicação prática do Kanban ao longo do tempo, permitindo avaliar seus impactos reais na produtividade e organização dos indivíduos, aprofundando o entendimento sobre a transposição de métodos corporativos para a esfera pessoal.

Referências Bibliográficas

ALLEN, David. A arte de fazer acontecer: o método GTD – Getting Things Done. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

BABBIE, E. The Basics of Social Research. Belmont: Wadsworth Publishing, 1999.

BARBOSA, Christian. A tríade do tempo: família, trabalho e vida. 1. ed. São Paulo: Editora Buzz, 2018.

BENSON, Jim; DEMARIA BARRY, Tonianne. Personal Kanban: Mapping Work, Navigating Life. Seattle: Modus Cooperandi Press, 2011.

CATELLANI, Danilo. Kanban na vida: gestão pessoal, disciplina e perseverança. São Paulo: DVS Editora, 2023.

CRESWELL, J. W. Research Design: Qualitative, Quantitative, and Mixed Methods Approaches. 4. ed. Thousand Oaks: Sage Publications, 2014.

FREITAS, Felipe. Produtividade e organização: guia prático para conquistar seus objetivos. São Paulo: Casa do Código, 2025.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

LIKERT, R. A Technique for the Measurement of Attitudes. New York: Archives of Psychology, 1932.

PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). A guide to the project management body of knowledge (PMBOK® Guide). 7. ed. Newtown Square: Project Management Institute, 2021.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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