Artigo

23 de julho de 2026

Investidores em Criptomoedas: Motivações, Risco e Retorno sobre análise Quantitativa e Qualitativa.

Cassia Mizue Machado Nishizawa; Angélica Gasparotto

DOI: 10.22167/2675-6528-202600653

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O crescente mercado de criptoativos, que atingiu capitalização global de US$ 3,5 trilhões em 2024, impulsionou a investigação sobre as motivações e percepções de seus investidores. O estudo objetivou compreender os fatores econômicos e comportamentais que influenciam a decisão de investir em criptomoedas. Para isso, aplicou-se uma pesquisa exploratória de abordagem mista, quantitativa e qualitativa, por meio de questionário estruturado entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. Obtiveram-se 74 respostas válidas, sendo 67 de investidores ativos e 7 de não-investidores. Identificou-se um perfil de jovem adulto, com formação superior, que alocou até 20% do patrimônio em ativos como Bitcoin (91%) e Ethereum (61,2%). As motivações para investir transcenderam a rentabilidade e incluíram diversificação, interesse tecnológico e desconfiança no sistema financeiro tradicional. A falta de conhecimento emergiu como principal barreira para não-investidores. Notavelmente, 85,1% dos respondentes afirmaram que manteriam ou aumentariam suas posições diante de uma desvalorização hipotética de 30%, e 73,1% esperavam ganhos anuais acima de 30%. Os resultados revelaram que as decisões de investimento incorporaram dimensões ideológicas, tecnológicas e sociais. Concluiu-se que o perfil do investidor desafia estereótipos, equilibrando a busca por rentabilidade com a valorização da autonomia financeira e a resiliência à volatilidade.

Palavras-chave: Autonomia financeira; Descentralização; Finanças comportamentais; Motivações de investimento; Percepção de risco.

1. Introdução

Nas últimas duas décadas, as tecnologias digitais promoveram uma transformação profunda nos mercados financeiros globais. Nesse cenário dinâmico, as criptomoedas surgiram como um dos fenômenos mais impactantes da economia contemporânea. Elas atraem um número crescente de investidores, especuladores e pesquisadores, todos em busca de uma compreensão mais aprofundada desse novo comportamento econômico.

Diferentemente das moedas fiduciárias, que são emitidas e controladas por governos e bancos centrais, as criptomoedas operam de forma descentralizada. Seu valor é determinado pela interação livre entre participantes globais, o que representa um modelo inovador de confiança monetária (Aragon, 2018).

O marco fundamental para este ecossistema foi estabelecido em 2008, com a publicação do artigo “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System” por Satoshi Nakamoto. Este documento propôs um sistema revolucionário que permite transações diretas entre pares, eliminando a necessidade de bancos ou outros intermediários financeiros. A confiança institucional é substituída por provas criptográficas verificáveis, lançando as bases para um novo paradigma econômico. Este sistema é sustentado pela tecnologia blockchain, um livro-razão distribuído que assegura segurança, transparência e imutabilidade das operações (Nakamoto, 2008; Siedlarczyk et al., 2024).

Dezessete anos após sua concepção, a relevância econômica das criptomoedas é inegável. O mercado global de criptoativos não apenas experimentou um crescimento exponencial em valor, mas também registrou uma expansão contínua da base de usuários em países emergentes e desenvolvidos (Demandsage, 2025). Em 2024, a capitalização global desse mercado ultrapassou os 3,75 trilhões de dólares, com o Bitcoin respondendo por 57,8% desse montante (Coingecko, 2025; Coinmarketcap, 2025). Este valor é comparável ao Produto Interno Bruto da Alemanha, a quinta maior economia mundial.

No Brasil, esse movimento reflete uma mudança notável no comportamento do investidor. Tradicionalmente focado em renda fixa, o investidor brasileiro tem buscado alternativas com maior risco e potencial de retorno, como os criptoativos (Campos, 2022). Aproximadamente 16% da população brasileira já investiu em criptoativos, o que corresponde a cerca de 25 milhões de indivíduos (Chainalysis, 2024). Este percentual posiciona o Brasil entre os cinco maiores mercados de criptomoedas do mundo. As exchanges brasileiras movimentam um volume médio mensal de aproximadamente 25 bilhões de reais em negociações, sublinhando a magnitude do fenômeno nacional e a urgência de compreender os fatores psicológicos e comportamentais que impulsionam essa adesão.

Apesar de sua crescente adoção e relevância econômica, o mercado de criptomoedas difere significativamente dos investimentos convencionais. Caracteriza-se por volatilidade extrema, com oscilações de até 30% em dias não sendo incomuns, além da ausência de regulamentação consolidada e uma complexidade técnica intrínseca. Tais características são fortemente influenciadas por aspectos psicológicos e comportamentais dos investidores (Neto, 2024). Nesse ambiente, os investidores não se limitam a cálculos racionais de risco, mas navegam em incertezas radicais, constroem convicções em tempo real, aprendem em comunidades digitais e desenvolvem estratégias psicológicas para gerenciar a alta volatilidade.

A intenção de uso de criptomoedas, especialmente em economias emergentes, está intrinsecamente ligada à percepção de risco, ao nível de conhecimento financeiro e à confiança na tecnologia subjacente (Jaripayan et al., 2022). Para analisar essas dinâmicas, este estudo se apoia em três pilares teóricos consolidados. A Teoria da Perspectiva de Kahneman e Tversky (1979) oferece um arcabouço para entender como os investidores avaliam riscos e tomam decisões em cenários de incerteza. A literatura sobre literacia financeira de Lusardi e Mitchell (2014) auxilia na compreensão da relação entre o conhecimento autodeclarado e os padrões de investimento e percepção de risco. Adicionalmente, a teoria de Difusão de Inovações de Rogers (2003) fornece uma lente para examinar a adoção de tecnologias financeiras disruptivas, diferenciando entre adotantes iniciais e a maioria tardia. Esses referenciais teóricos são fundamentais para conectar os achados empíricos às finanças comportamentais e à economia da inovação.

Apesar da notável ascensão do setor de criptoativos, a literatura acadêmica tem priorizado predominantemente métricas econométricas e a infraestrutura tecnológica, frequentemente negligenciando os determinantes comportamentais que moldam as decisões dos investidores. Existe, portanto, uma lacuna persistente na compreensão das variáveis motivacionais e sociais que fundamentam a tomada de decisão e a resiliência dos investidores em períodos de alta instabilidade do mercado.

Este estudo busca preencher essa lacuna, contribuindo academicamente ao articular teorias estabelecidas de finanças comportamentais com a realidade empírica do mercado cripto. Além disso, visa oferecer insights práticos para investidores que navegam neste ecossistema complexo, para instituições financeiras que buscam compreender esse público emergente e para reguladores na formulação de políticas mais adequadas. Diante deste panorama, a questão central que norteia esta pesquisa é: o que motiva indivíduos a investir em criptomoedas? Assim, o objetivo deste estudo é compreender as motivações e percepções dos investidores em criptomoedas, integrando aspectos econômicos objetivos, como risco, retorno esperado e alocação patrimonial, com dimensões comportamentais subjetivas, incluindo confiança na tecnologia, expectativas sobre o futuro do mercado e resiliência à volatilidade.

2. Material e Métodos

Este estudo foi delineado com uma abordagem metodológica mista, combinando técnicas quantitativas e qualitativas para compreender as razões, expectativas e percepções que influenciam os indivíduos a investir em criptomoedas. A natureza da pesquisa foi exploratória e descritiva, buscando investigar um fenômeno ainda pouco sistematizado e identificar padrões iniciais de comportamento, conforme proposto por Gil (2019).

A abordagem quantitativa permitiu mensurar o perfil sociodemográfico dos respondentes, o grau de familiaridade com criptoativos e a frequência de uso. Adicionalmente, buscou-se identificar padrões de comportamento e preferências relacionados ao investimento. Em complemento, a abordagem qualitativa, de caráter exploratório, visou captar os aspectos subjetivos envolvidos no processo de decisão, como sentimentos, motivações pessoais e percepções de risco não visíveis em respostas fechadas.

A pesquisa contou com a participação de 74 respondentes, dos quais 67 (90,5%) eram investidores ativos em criptomoedas e 7 (9,5%) eram não-investidores. Os critérios de inclusão estabelecidos foram: indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos que já tivessem investido ou considerado investir em criptomoedas. A inclusão de não-investidores foi uma decisão metodológica intencional para identificar barreiras de entrada ao mercado.

A coleta de dados foi realizada no período de novembro de 2025 a janeiro de 2026, utilizando um questionário estruturado, aplicado de forma online por meio da ferramenta Google Forms. O link para o questionário foi compartilhado de maneira não probabilística, por amostragem por conveniência, via WhatsApp e redes sociais voltadas a finanças e criptomoedas.

O instrumento de coleta de dados continha 20 perguntas para investidores e 3 para não-investidores, incluindo questões fechadas e uma pergunta aberta para captar percepções e experiências individuais. As questões abordaram perfil sociodemográfico, motivações para investir, tempo de experiência, características valorizadas nos criptoativos, tipos de moedas digitais nos portfólios, percepção de risco, nível de conhecimento autodeclarado, fontes de informação, expectativas sobre o futuro e experiências vivenciadas. O questionário completo encontra-se disponível no Apêndice A deste trabalho.

Os dados quantitativos, provenientes das perguntas fechadas, foram organizados e analisados com o auxílio da ferramenta Google Planilhas. Realizou-se a geração de gráficos, tabelas e estatísticas descritivas, como frequência e percentual. A análise quantitativa focou na identificação de padrões demográficos, distribuições de respostas sobre motivações, percepções de risco, alocação patrimonial, frequência de operações, expectativas de retorno e preferências por diferentes criptomoedas.

A resposta obtida por meio da pergunta aberta foi analisada segundo os pressupostos da análise de conteúdo temática, conforme Bardin (2016). O objetivo foi identificar categorias recorrentes, interpretações subjetivas e padrões de pensamento entre os participantes, enriquecendo a compreensão dos dados quantitativos.

Em relação aos aspectos éticos, todos os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa por meio de um texto introdutório no questionário. A participação foi voluntária, anônima e confidencial, sem coleta de informações pessoais que permitissem a identificação dos respondentes. Não foi necessária submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, pois o estudo não envolveu intervenções, riscos à saúde ou coleta de dados sensíveis.

Entre as limitações metodológicas, destaca-se que o tamanho amostral de 74 respondentes, embora adequado para os propósitos exploratórios do estudo, não permite generalizações estatísticas definitivas para toda a população de investidores em criptomoedas. A técnica de amostragem por conveniência, utilizada devido aos recursos e prazos disponíveis, introduziu um potencial viés de seleção, pois os participantes foram recrutados via redes pessoais e grupos de interesse em criptomoedas.

3. Resultados e Discussão

A aplicação do questionário, realizada entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, gerou 74 respostas válidas, das quais 67 (90,5%) foram de investidores ativos em criptomoedas e 7 (9,5%) de indivíduos que, embora não investissem, consideravam a possibilidade. Essa distribuição amostral foi intencionalmente planejada para permitir uma análise comparativa, identificando tanto os fatores que atraem os investidores quanto as barreiras que impedem a entrada de outros no mercado de criptoativos. Os dados coletados forneceram uma base robusta para explorar as motivações e percepções que moldam o comportamento nesse ecossistema financeiro emergente.

O estudo revelou um perfil demográfico predominante de jovens adultos, consistente com tendências observadas em pesquisas internacionais (Coinlaw, 2025). Mais da metade dos respondentes, especificamente 56,7%, tinha menos de 35 anos. A faixa etária de 18 a 24 anos representou 34,3% da amostra, seguida pelo grupo de 25 a 34 anos, com 22,3%. Esse perfil etário é frequentemente associado a uma maior propensão à adoção de inovações financeiras e à busca por estratégias de diversificação patrimonial, conforme a Teoria da Difusão de Inovações de Rogers (2003).

Em contraste, investidores com mais de 45 anos representaram apenas 14,9% da amostra. Essa menor participação pode ser atribuída à maior familiaridade dessa faixa etária com instrumentos financeiros tradicionais, o que resultaria em uma menor inclinação para ativos digitais disruptivos. Tal padrão corrobora as observações de Rogers (2003) sobre a difusão de inovações, onde os adotantes iniciais tendem a ser mais jovens e abertos a novas tecnologias. A escolaridade dos participantes também se destacou, com 83,5% possuindo ensino superior completo, em curso ou pós-graduação, desafiando estereótipos e alinhando-se a estudos que conectam maior escolaridade a investimentos em ativos de risco (Steinmetz et al., 2021).

A diversidade de ocupações na amostra incluiu profissionais CLT (34,3%), estudantes (25,3%) e empresários (23,8%), entre outros. Essa distribuição sugere que o interesse por criptoativos não se restringe a nichos profissionais específicos, mas permeia diferentes perfis de renda e rotina, o que é compatível com a ampla difusão de inovações descrita por Rogers (2003). A experiência dos respondentes no mercado de criptomoedas também foi um achado relevante, com 83,5% atuando há mais de um ano, indicando que a amostra não é composta por iniciantes recentes e possui vivência em ciclos de valorização e desvalorização.

Quase metade dos participantes, 41,7%, acumulava mais de dois anos de experiência, tendo vivenciado ciclos completos de alta e baixa do mercado. Esse grupo demonstrou familiaridade com estratégias de longo prazo, como o HODL, que consiste em manter posições mesmo em períodos de forte queda, prática comum nas comunidades de investidores em criptomoedas. Apenas 16,4% dos respondentes tinham menos de seis meses de experiência, representando o grupo com menor familiaridade com aspectos técnicos do ecossistema, como a custódia de ativos e os protocolos de consenso.

O nível de conhecimento autodeclarado dos investidores revelou um perfil relativamente experiente, com 58,2% se classificando entre intermediário e especialista. Esse resultado indica um processo de aprendizado contínuo e autônomo, que envolve a leitura de documentos técnicos, a participação em comunidades especializadas e a experimentação prática com protocolos descentralizados. Tais comportamentos são consistentes com os achados de Lusardi e Mitchell (2014) sobre a construção da literacia financeira, destacando a importância da autoeducação nesse mercado.

A análise cruzada entre faixa etária e conhecimento autodeclarado apontou para um aprendizado acelerado entre os mais jovens. Cerca de 26,1% dos respondentes de 18 a 24 anos já se declararam avançados ou especialistas, uma proporção similar à dos investidores de 35 a 44 anos (26,4%). Isso sugere que a imersão em comunidades digitais e a interação com o ecossistema compensam, em parte, o menor tempo de mercado, facilitando a aquisição de conhecimento e a compreensão das dinâmicas dos criptoativos (Lusardi & Mitchell, 2014).

No que tange à percepção de risco, 67,1% dos investidores classificaram seu perfil como de risco alto ou muito alto, evidenciando uma elevada tolerância à volatilidade inerente ao mercado de criptoativos. Contudo, essa percepção declarada contrasta com a alocação patrimonial efetiva, que se mostrou mais conservadora. A grande maioria dos respondentes, 71,6%, mantinha apenas até 20% do patrimônio em criptomoedas, e mais de um terço (17,9%) alocava menos de 5%.

Esse comportamento aparentemente paradoxal sugere uma combinação entre a tolerância ao risco e uma gestão patrimonial prudente. Os investidores aceitam a volatilidade dos ativos, mas limitam sua exposição para não comprometer o equilíbrio financeiro geral, o que está em linha com os princípios da Teoria da Perspectiva de Kahneman e Tversky (1979). A análise cruzada entre faixa etária e alocação patrimonial reforçou essa tendência, mostrando que a exposição a criptoativos diminui com o avanço da idade. Investidores de 18 a 24 anos (34,8%) e de 25 a 34 anos (40,0%) foram os que mais alocaram acima de 20% do patrimônio, enquanto nenhum respondente acima de 45 anos ultrapassou esse patamar.

A avaliação do risco real das criptomoedas pelos respondentes demonstrou uma consciência realista sobre a volatilidade do ativo. Um total de 67,1% classificou o risco como alto (44,7%) ou muito alto (22,3%), reconhecendo o elevado nível de risco inerente a esse mercado. O cruzamento entre escolaridade e percepção de risco revelou que respondentes com pós-graduação concentraram suas respostas em alto (47,4%) e muito alto (31,6%), enquanto aqueles com ensino superior em andamento apresentaram maior proporção de risco moderado (55,6%). Esse achado sugere que uma maior formação acadêmica está associada a um reconhecimento mais preciso da volatilidade do ativo, conforme a Teoria da Perspectiva (Kahneman & Tversky, 1979).

A percepção de risco muito alto também aumentou com o tempo de mercado, passando de 0% entre iniciantes com menos de seis meses para 32,1% entre aqueles com mais de dois anos de experiência. Isso indica que a exposição a ciclos de volatilidade contribui para uma avaliação de risco mais calibrada, e não menos, um resultado consistente com os estudos de Lusardi e Mitchell (2014) sobre a evolução da literacia financeira. A frequência de operações revelou três filosofias distintas de investimento entre os participantes.

Os HODLers, representando 7,5% da amostra, são aqueles que nunca realizaram vendas, mantendo suas posições integralmente desde a aquisição. Para esse grupo, os criptoativos, especialmente o Bitcoin, funcionam como uma reserva de valor de longo prazo, demonstrando baixíssima sensibilidade a variações de curto prazo e pressões de mercado. Os traders moderados, que constituem o grupo predominante com 59,7%, realizam operações mensais, trimestrais ou esporádicas, efetuando rebalanceamentos e realizações parciais de lucro, mas preservando uma alocação estratégica de longo prazo, o que reflete um equilíbrio entre convicção estrutural e gestão ativa.

Os day traders, correspondendo a 32,8% dos respondentes, operam diariamente ou múltiplas vezes ao dia, explorando a volatilidade de curto prazo. Esse grupo tende a ter maior tempo de experiência e maior tolerância ao risco, com alguns relatando dedicação profissional exclusiva à negociação de criptoativos. O cruzamento entre ocupação e horizonte de investimento revelou padrões distintos: 75,0% dos empresários declararam um horizonte superior a cinco anos, sem nenhum indicando curto prazo, enquanto profissionais CLT se distribuíram entre longo (43,5%) e médio prazo (26,1%), e estudantes se concentraram no médio prazo (47,1%), contrariando o estereótipo de perfil exclusivamente especulativo entre jovens (Rogers, 2003).

A principal motivação para o ingresso no mercado de criptomoedas, citada por 64,2% dos investidores, foi a expectativa de alta rentabilidade, configurando-se como o fator financeiro mais relevante. Contudo, essa motivação raramente se apresentou de forma isolada, sendo frequentemente associada a fatores de natureza tecnológica, ideológica e comportamental. A diversificação de portfólio foi mencionada por 28,4% dos respondentes, indicando uma estratégia de mitigação de riscos frente à instabilidade sistêmica do mercado tradicional, frequentemente impactado por inflação e crises econômicas recorrentes.

Além das motivações financeiras, 26,9% dos respondentes demonstraram interesse em tecnologia e inovação financeira, sugerindo que parte do engajamento com criptomoedas está ligada à compreensão e participação nas transformações estruturais do sistema financeiro (Nakamoto, 2008). Um dado relevante no contexto brasileiro é que 19,4% dos respondentes mencionaram explicitamente a desconfiança no sistema financeiro tradicional como motivação. Esse resultado é consistente com o histórico econômico do país, marcado por episódios de instabilidade monetária e perda de poder de compra, que podem ter contribuído para a receptividade a alternativas descentralizadas de armazenamento de valor (Baur et al., 2018).

A curiosidade foi citada por 46,3% dos respondentes como um fator motivador, frequentemente associada a aportes iniciais de baixo valor com finalidade exploratória. Esse comportamento sugere que a experimentação prática constitui uma via relevante de entrada no mercado, um processo em que o contato inicial com o ecossistema tende a aprofundar o engajamento ao longo do tempo. A análise das características mais valorizadas pelos respondentes revelou três atributos centrais que impulsionam a adesão e a permanência no mercado de criptoativos.

O potencial de valorização foi o atributo mais valorizado, citado por 85,1% dos respondentes. Esse dado reflete a expressiva assimetria de retornos historicamente registrada no mercado de criptoativos em comparação com instrumentos de renda fixa tradicionais, uma diferença que exerce influência relevante sobre as expectativas dos investidores. A descentralização foi valorizada por 79,1% dos respondentes, representando a característica de maior apelo ideológico e prático entre os investidores da amostra. A autonomia sobre os próprios recursos, sem dependência de instituições financeiras intermediárias, é percebida como relevante, especialmente em contextos de instabilidade institucional (Chohan, 2017).

A transparência das transações também foi destacada como um atributo relevante. A possibilidade de verificar publicamente cada operação registrada na blockchain representa uma diferenciação estrutural em relação ao sistema financeiro tradicional e é percebida pelos respondentes como fator concreto de confiança e controle sobre os próprios recursos (Tapscott & Tapscott, 2016). O controle pessoal sobre os recursos e a facilidade de acesso também foram atributos frequentemente citados, com a redução de barreiras operacionais para ingresso no mercado de criptoativos sendo valorizada por investidores jovens, habituados a plataformas digitais com alto nível de usabilidade e acesso imediato.

Em relação às preferências de investimento, o Bitcoin estava presente em 91% das carteiras dos respondentes, configurando-se como o ativo de maior penetração na amostra. Sua predominância reflete o reconhecimento consolidado como ativo de referência no mercado de criptomoedas, sustentado por um histórico de mais de uma década e crescente legitimação institucional. O Ethereum figurou em segundo lugar, presente em 61,2% das carteiras, com maior presença entre respondentes de perfil técnico avançado, dada sua relevância como plataforma base para contratos inteligentes, finanças descentralizadas e aplicações distribuídas.

As Stablecoins estavam presentes em 35,8% das carteiras, cumprindo a função de proteção temporária em períodos de alta volatilidade, ao permitir a redução da exposição ao risco sem necessidade de conversão para moeda fiduciária e saída do ecossistema. Solana apareceu em 38% das carteiras, com maior concentração entre investidores que ingressaram no mercado entre 2023 e 2024, período em que o ativo registrou expressiva valorização e expansão de sua base de desenvolvedores e aplicações descentralizadas. Cardano (25,4%) e XRP (11,3%) apareceram em carteiras mais diversificadas, frequentemente de investidores que pesquisam fundamentos técnicos e fazem apostas em projetos específicos.

O padrão geral indicou que investidores com perfil mais conservador tendem a concentrar suas carteiras em Bitcoin, enquanto aqueles com maior experiência e tolerância ao risco apresentaram maior diversificação entre diferentes criptoativos. Esse comportamento é consistente com a literatura sobre alocação de ativos de alto risco (Rogers, 2003). Quanto aos objetivos de investimento, o investimento de longo prazo e a reserva de valor corresponderam ao objetivo principal de 38,8% dos respondentes, que percebem os criptoativos, especialmente o Bitcoin, como instrumento de proteção patrimonial frente à inflação e à desvalorização monetária historicamente observada no Brasil.

Alguns respondentes descreveram essa função como complementar ou alternativa ao planejamento de aposentadoria convencional. A diversificação de portfólio, citada por 14,9%, caracterizou-se pela alocação estratégica de 10% a 20% em criptoativos, visando o rebalanceamento com ações e renda fixa. Os ganhos de curto prazo ou especulação representaram o objetivo de 20,9% da amostra, concentrados nos perfis de maior frequência operacional, com relatos de resultados expressivos em períodos de ciclo de alta. A experimentação e o aprendizado constituíram o objetivo de 23,8% dos respondentes, que realizam aportes de menor volume com finalidade primariamente educacional.

Esse grupo relatou, com frequência, ganhos de literacia financeira que consideram superiores aos obtidos por vias formais de educação (Lusardi & Mitchell, 2014). O processo de aprendizado sobre criptomoedas ocorreu predominantemente por meio de canais digitais informais, em detrimento de fontes institucionais tradicionais, o que é consistente com o perfil digital-nativo da maioria dos respondentes (Ante, 2020). Redes sociais lideraram como principal fonte de informação, com 85,1% dos respondentes utilizando plataformas como Twitter/X, onde circulam análises de mercado em tempo real, debates técnicos e conteúdo especializado de amplo alcance.

O YouTube foi utilizado por 52,2% dos respondentes como fonte de conteúdo audiovisual, abrangendo desde introduções conceituais ao mercado até análises técnicas avançadas. Grupos de Telegram ou WhatsApp foram utilizados por 41,8% dos respondentes para troca de informações, alertas de segurança e discussões técnicas. Amigos e familiares, com 34,3%, também exerceram papel relevante como canal de entrada inicial no mercado, evidenciando a dimensão social do processo de adoção (Rogers, 2003). Cursos formais representaram apenas 9% das fontes utilizadas, indicando que o aprendizado ocorre predominantemente de forma autônoma e informal, por meio de experimentação prática e comunidades digitais, com baixa dependência de consultorias ou veículos tradicionais de comunicação.

Os fatores de confiança no mercado de criptoativos incluíram a descentralização (43,3%) e o histórico de valorização (41,8%). A independência em relação a decisões políticas e institucionais é percebida como um diferencial estrutural relevante, enquanto o desempenho histórico do ativo sustenta a convicção de parcela expressiva dos respondentes (Yermack, 2015). A tecnologia blockchain foi citada por 35,8% como fator de confiança, ancorada na percepção de que seus mecanismos criptográficos oferecem segurança e imutabilidade superiores às dos sistemas financeiros convencionais (Tapscott & Tapscott, 2016).

A transparência das transações (35,8%) e a crescente adoção institucional (47,8%) completaram os principais fatores de confiança. A entrada de empresas e países no ecossistema é interpretada pelos respondentes como sinal de legitimação progressiva do mercado, ampliando a percepção de segurança entre os investidores (Yermack, 2015). As expectativas de retorno anual concentraram-se acima de 30% para 73,1% dos respondentes: 31,3% esperavam entre 30% e 50%, e outros 31,3% entre 50% e 100%. Embora expressivamente superiores aos rendimentos típicos de renda fixa, esses patamares encontram respaldo no comportamento histórico do mercado de criptoativos em ciclos de alta, ainda que acompanhados de elevada volatilidade (Shiller, 2015).

Expectativas de retornos superiores a 100% (5,9%) concentraram-se em investidores expostos a altcoins altamente voláteis, frequentemente marcadas por ganhos pontuais e perdas recorrentes. Em contraste, perfis mais conservadores (19,4%) consideraram retornos anuais de 20% a 30% adequados, com base em parâmetros tradicionais como CDI e Tesouro Direto. Os respondentes sem expectativa definida (5,9%) tenderam a ser investidores com maior tempo de mercado, que reconhecem a imprevisibilidade do ativo como variável estrutural e optam por não estabelecer metas fixas de retorno.

As perspectivas sobre o futuro do mercado revelaram predominância de otimismo: 62,9% acreditavam que as criptomoedas cresceriam e se consolidariam, enquanto 16,4% adotavam uma posição mais cautelosa, reconhecendo que apenas alguns projetos sobreviveriam no longo prazo. Outros 17,9% ainda mantinham dúvidas quanto à trajetória do setor, e apenas 1,5% considerava o mercado uma bolha. A predominância de expectativas positivas (80,6%) é coerente com o período de coleta, marcado por um ciclo de alta, o que pode introduzir viés de otimismo nas respostas (Shiller, 2015).

Com o objetivo de avaliar a resiliência diante de cenários adversos, os respondentes foram questionados sobre seu comportamento diante de uma desvalorização hipotética de 30% no portfólio. A resposta predominante foi de manutenção ou ampliação das posições: 59,7% manteriam o investimento e 25,3% comprariam mais ativos. Apenas 11,9% venderiam parcialmente e 2,9% liquidariam toda a posição. A análise indicou que 85% dos investidores manteriam ou ampliariam suas posições diante de quedas significativas, refletindo não uma especulação irracional, mas a internalização da volatilidade como característica inerente (Baur & Dimpfl, 2018).

Em contraste com o pânico comum em mercados acionários tradicionais, investidores em criptoativos demonstraram maior tolerância ao risco e convicção em suas estratégias. A análise das respostas abertas complementou os dados quantitativos, revelando experiências concretas que ilustram os padrões identificados ao longo do estudo. Relatos como “Consigo me sustentar desde os 18 apenas com esse mercado. Tenho apenas a agradecer à cripto” evidenciaram que o mercado de criptoativos gerou oportunidades profissionais em áreas como negociação ativa e análise on-chain, atividades que passaram a constituir fonte de renda para parte dos respondentes.

Experiências de ganho, como “Ganhei bastante com Solana em 2023” e “Vendi um NFT por quase 2 ETH, cerca de R$30.000”, representaram pontos de inflexão na trajetória do investidor, reforçando o engajamento com o mercado. A percepção de que o mercado funciona como ambiente de aprendizado financeiro prático foi recorrente entre respondentes de diferentes faixas etárias (Lusardi & Mitchell, 2014). O relato “Diversificação foi fundamental”, recorrente entre investidores que atravessaram ciclos de baixa, evidenciou maturidade na gestão de risco patrimonial.

As experiências com tentativas de fraude, como “No início quase caí em golpes de ‘pump and dump’. Hoje sou muito mais criterioso”, contribuíram para o desenvolvimento de maior senso crítico na avaliação de projetos, com reflexos positivos nas decisões de investimento subsequentes. A desvalorização de 2022, descrita como “difícil, mas mantive a posição”, ilustrou o impacto dos ciclos de baixa sobre o comportamento dos investidores, evidenciando que a manutenção de posições em períodos de forte desvalorização é percebida como indicador de maturidade e convicção. Contudo, desafios técnicos persistentes foram identificados.

A complexidade técnica do ecossistema, que envolve conceitos como custódia de chaves privadas, taxas de transação e protocolos de interoperabilidade, representa uma barreira de entrada relevante, embora superável mediante aprendizado progressivo, conforme relatado pelos próprios respondentes. A frase “Ainda é complexo operar o ecossistema, muito técnico para pessoas leigas” sintetiza essa percepção. As decisões não tomadas e o viés de arrependimento também emergiram, com relatos como “Tive a oportunidade de comprar bitcoin a $1, mas não o fiz…”, ilustrando como a assimetria informacional e a incerteza inicial do mercado impediram decisões que, em retrospecto, teriam gerado retornos expressivos, fenômeno consistente com os vieses de disponibilidade e aversão ao arrependimento (Kahneman & Tversky, 1979).

O ceticismo informado, caracterizado por entusiasmo com ressalvas, foi expresso em frases como “DeFi parece promissor mas tenho receio dos riscos de smart contracts”. Esse posicionamento reflete maturidade analítica: engajamento com as possibilidades do ecossistema combinado com consciência dos riscos técnicos envolvidos. A filosofia de mercado madura dos veteranos foi sintetizada por “Anos de mercado me ensinaram sobre vitórias, perdas, e a sempre fazer minha própria pesquisa (DYOR). Construí um network sólido”. Respondentes com maior tempo de mercado relataram a consolidação de uma postura de pesquisa autônoma e a construção de redes de relacionamento que funcionam como suporte técnico e informacional contínuo.

A análise das respostas dos 7 não-investidores (9,5%) permitiu identificar as principais barreiras de entrada ao mercado de criptoativos. O medo de golpes e fraudes, exacerbado por notícias de exchanges quebrando e projetos fraudulentos, cria a percepção de que cripto é sinônimo de fraude. Para os não-investidores, a dificuldade em distinguir projetos legítimos de esquemas fraudulentos representa uma barreira adicional de entrada. A complexidade técnica do ecossistema também constitui um fator de inibição, especialmente para indivíduos sem familiaridade prévia com conceitos como custódia de ativos, chaves privadas e protocolos de transferência.

O receio de perda total do capital investido, sem a proteção institucional presente em investimentos tradicionais, é percebido como risco real e constitui fator de inibição relevante. A volatilidade extrema também se apresenta como barreira adicional, pois para respondentes familiarizados apenas com instrumentos de baixo risco, oscilações expressivas de preço são percebidas como incompatíveis com seu perfil. Adicionalmente, parte dos não-investidores citou capital insuficiente como barreira, ainda que seja possível ingressar no mercado com valores reduzidos. No entanto, metade dos não-investidores demonstra interesse futuro, sugerindo uma demanda latente que depende de maior oferta de educação financeira acessível e de interfaces mais intuitivas para ingresso no mercado.

Em síntese, os resultados desta pesquisa revelaram que as motivações para investir em criptomoedas são multifacetadas, abrangendo a busca por alta rentabilidade, o interesse em inovação tecnológica, a desconfiança no sistema financeiro tradicional e a curiosidade. O perfil do investidor é predominantemente jovem, com alta escolaridade e uma notável resiliência à volatilidade, evidenciada pela disposição de manter ou aumentar posições mesmo diante de quedas significativas. A aparente contradição entre a alta tolerância ao risco declarada e a alocação patrimonial conservadora sugere uma abordagem prudente e informada, onde o aprendizado contínuo e a valorização da autonomia financeira são elementos centrais que moldam as decisões nesse mercado dinâmico.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou compreender os fatores econômicos e comportamentais que influenciam a decisão de investir em criptomoedas, integrando dimensões objetivas e subjetivas. Verificou-se um perfil de investidor predominantemente jovem, com alta escolaridade e experiência no mercado, que aloca de forma prudente até 20% do patrimônio em criptoativos, concentrando-se em Bitcoin e Ethereum. As motivações para o investimento transcenderam a busca por alta rentabilidade, incluindo a diversificação de portfólio, o interesse em tecnologia e inovação financeira, a desconfiança no sistema financeiro tradicional e a curiosidade. Observou-se uma notável resiliência à volatilidade, com 85% dos investidores declarando que manteriam ou ampliariam suas posições diante de uma desvalorização hipotética de 30%. Essa aparente contradição entre a alta tolerância ao risco declarada e a alocação patrimonial conservadora revela uma abordagem informada, onde a autonomia financeira e o aprendizado contínuo são elementos centrais. A principal contribuição deste trabalho reside em articular teorias de finanças comportamentais com a realidade empírica do mercado cripto, oferecendo insights para investidores, instituições financeiras e reguladores.

Contudo, o estudo apresenta limitações decorrentes do tamanho amostral de 74 respondentes e da amostragem por conveniência, que não permitem generalizações estatísticas definitivas para a totalidade dos investidores brasileiros em criptomoedas. A predominância de investidores ativos também restringiu a exploração aprofundada das barreiras de entrada para não-investidores. Para estudos futuros, sugere-se acompanhar investidores através de ciclos completos de mercado para analisar a evolução de suas convicções sob pressão real. Recomenda-se também a realização de pesquisas com amostras maiores para permitir análises por região, renda e gênero, além de entrevistas aprofundadas para explorar a psicologia por trás dos números. A validação da “educação não-intencional” identificada, que ocorre por meio da experiência prática com criptoativos, em outros mercados, constitui uma valiosa direção para a pesquisa acadêmica, reforçando o papel das criptomoedas como vetor de literacia financeira para amplos segmentos da população.

Referências Bibliográficas

Aragon, M. 2018. Criptomoeda: Uma análise da utilização do Bitcoin na sociedade contemporânea. Trabalho de conclusão de curso. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

Coingecko. 2025. Global Cryptocurrency Market Cap Charts. Disponível em: https://www.coingecko.com/en/charts. Acesso em: 22 out. 2025.

Coinmarketcap. 2025. Cryptocurrency Prices, Charts and Market Capitalizations. Disponível em: https://coinmarketcap.com. Acesso em: 22 out. 2

Demandsage. 2025. Global Crypto Adoption (2025): Users, Rates & Country Data. Disponível em: https://www.demandsage.com/crypto-adoption-statistics/. Acesso em: 23 out. 2025.

Nakamoto, S. 2008. Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. Disponível em: https://bitcoin.org/bitcoin.pdf. Acesso em: 22 out. 2025.

Siedlarczyk A.; Silva A.; Santos E.; Zator E.; Carneiro G. 2024. Criptomoeda: O Futuro do Mercado. Trabalho de Conclusão de Curso. Etec Eng. Agrônomo Narciso de Medeiros, Iguape, SP, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq

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Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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