Artigo

28 de julho de 2026

Integração de Perdas e Danos ao Gerenciamento de Risco: Entendimento frente às mudanças do clima

Diego Rafael Galvão Cesar Braga; Sidney Lincoln Vitorino

DOI: 10.22167/2675-6528-202600729

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A crise climática introduziu novos desafios para a gestão de projetos, com a abordagem do tema no gerenciamento de risco no Brasil sendo pouco compreendida e dependente de soluções externas. Este estudo objetivou explicitar como essa atuação tem ocorrido no país, identificando lacunas no comportamento de gestores e na maturidade das organizações quanto à integração de perdas e danos por eventos climáticos extremos no gerenciamento de riscos. Para isso, utilizou-se uma combinação de Análise de Redes Complexas e Análise Descritiva Qualitativa. A pesquisa demonstrou que o comportamento e o grau de maturidade de gestores e organizações ainda são moderados. Embora houvesse afirmação de conhecimento sobre os impactos da mudança do clima nos projetos, a integração dos riscos climáticos ao gerenciamento de riscos mostrou-se mediana, e a integração de perdas e danos foi consideravelmente baixa. Observou-se uma elevada dependência das organizações pela contratação pontual de consultorias especializadas para análises climáticas, o que prejudicou e atrasou a integração. Concluiu-se que o setor empresarial está em um cenário de transição, demandando estudos contínuos para acompanhar e gerar soluções.

Palavras-chave: Crise climática; Estratégia corporativa; Governança corporativa; Planejamento; Riscos climáticos.

1. Introdução

A gestão de projetos, um campo fundamental para o sucesso organizacional, lida intrinsecamente com a ocorrência de riscos ao longo de todo o ciclo de vida de um empreendimento. Estes riscos representam a possibilidade de eventos que podem ser identificados ou não previamente, originando-se tanto de fatores internos quanto externos ao projeto e à própria organização. A materialização desses eventos pode gerar efeitos positivos, concebidos como oportunidades, ou negativos, caracterizados como ameaças. O Gerenciamento de Risco, conforme delineado pelo Project Management Institute (PMI, 2019) e por Watkiss et al. (2020), constitui a área da Gestão de Projetos dedicada a mapear e avaliar riscos potenciais, visando maximizar oportunidades e mitigar ameaças, sendo um pilar essencial para a resiliência das organizações. As operações de gerenciamento de riscos empresariais abrangem atividades como planejamento, identificação, análise, elaboração de medidas de resposta, implementação de ações preventivas e o monitoramento contínuo dos riscos aos quais um projeto está suscetível.

No cenário global contemporâneo, a mudança do clima emergiu como uma das mais significativas e complexas ameaças, introduzindo novos desafios para a sociedade e a economia. Um levantamento do Fórum Econômico Mundial (WEF, 2026) aponta a ocorrência de eventos climáticos extremos como o maior risco ambiental global a ser enfrentado pela humanidade, com potenciais impactos negativos substanciais para o setor empresarial. Os efeitos da mudança do clima se manifestam de duas formas principais: de maneira aguda, por meio de eventos climáticos extremos e repentinos, e de forma crônica, através de alterações lentas e de longo prazo. A persistência dessas ameaças é reconhecida pela ciência como irreversível, impondo desafios profundos aos modos de vida da sociedade (Calvin et al., 2023).

No contexto corporativo, a concretização dos riscos climáticos traduz-se em impactos reais sobre os ativos financeiros, operacionais e reputacionais das organizações, afetando diretamente valores, capacidades e custos operacionais (Lamas et al., 2023). Quando esses impactos são particularmente intensos, eles podem gerar consequências inevitáveis que se manifestam como perdas e danos (P&Ds), de natureza material e imaterial. Tais P&Ds afetam o meio ambiente, a sociedade e as organizações de forma temporária ou permanente (Mechler et al., 2020). A ocorrência de P&Ds é um indicativo de que os impactos dos eventos climáticos excederam os limites de adaptação de uma organização, território, sociedade ou indivíduo. Isso se deve ao fato de que as ações de adaptação climática, embora capazes de reduzir os riscos, nem sempre conseguem eliminá-los por completo, resultando na persistência de um risco residual que pode gerar impactos negativos (UNFCCC, 2014).

Os impactos econômicos e financeiros decorrentes das P&Ds oriundas da mudança do clima têm se manifestado há décadas, intensificando-se abruptamente nos últimos anos. Dados do Atlas Digital do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR, 2025) revelam que, entre 1991 e 2024, os prejuízos diretos causados por eventos climáticos extremos ao setor privado no Brasil são estimados em mais de 565 bilhões de reais, com o setor agropecuário respondendo por 84,2% desse montante. Em escala europeia, a Agência Ambiental Europeia (EEA, 2025) estima perdas econômicas de 790 bilhões de euros entre 1980 e 2024, evidenciando lacunas de seguros e formas de ressarcimento que, em alguns países, chegavam a cem por cento.

A crise climática atual impõe um novo paradigma para o campo da gestão de projetos. O movimento Ambiental, Social e Governança (ASG), que ganhou força entre as décadas de 2010 e 2020, direcionou a atenção do setor empresarial para os impactos dos riscos climáticos. Apesar do elevado consumo de recursos que pode ser exigido das empresas, o desenvolvimento de estratégias e processos para mitigar esses riscos proporciona benefícios reputacionais, aprimorando a imagem das organizações junto a clientes, investidores e mercados (Cohen, 2023). Desde então, as empresas têm buscado integrar o gerenciamento de riscos de projetos e processos para incorporar fatores e ameaças climáticas em suas análises, desenvolvendo indicadores e soluções e adotando frameworks reconhecidos para relatar seus riscos e ações (Cohen, 2023; Yao, 2025).

O tema de perdas e danos tem conquistado espaço no mercado corporativo de gerenciamento de riscos. Debates sobre análises de custo-benefício de medidas específicas, a integração holística da gestão de riscos climáticos, análises legislativas e ações de litigância têm se tornado cada vez mais relevantes no campo da gestão de projetos (Wouter et al., 2019). As vulnerabilidades e resiliências variam significativamente conforme o segmento de mercado, o porte e o tipo de projeto desenvolvido por uma organização (IDB, 2019), o que tem impulsionado estudos sobre estratégias específicas para cada tipo de projeto (Akomea-Frimpong e Blay, 2025; Wijenayake et al., 2024). Dada a magnitude dos impactos econômicos e sociais diretos e indiretos causados pelos eventos climáticos, a preocupação com as consequências que as P&Ds podem acarretar para o setor empresarial, como as disrupções nas cadeias de produção e abastecimento, tem ganhado destaque tanto na pesquisa científica quanto na formulação de políticas (Wijenayake et al., 2024).

Apesar da crescente atenção global e do planejamento climático nacional, como o Plano Clima Adaptação (MMA, 2025), que inclui a contribuição empresarial em diversos setores estratégicos da economia brasileira, a forma como o tema é abordado no gerenciamento de risco pelas organizações no Brasil ainda é pouco conhecida. O setor permanece dependente de conceitos e soluções geradas em contextos não nacionais, o que levanta uma lacuna prática e teórica significativa. Compreender a integração das ameaças climáticas e das perdas e danos ao gerenciamento de riscos, bem como o grau de maturidade das organizações e as ações adotadas pelos gestores de projetos no Brasil, é crucial para desenvolver soluções adaptadas à realidade nacional. Diante desse cenário, o presente estudo justifica-se pela necessidade de explicitar como essa atuação tem ocorrido no país, buscando identificar as lacunas no comportamento dos gestores e a maturidade das organizações sobre a integração de perdas e danos por eventos climáticos extremos no gerenciamento de riscos, com o objetivo de analisar quais medidas de redução de riscos e de potenciais prejuízos diretos e indiretos causados pelos eventos climáticos extremos são adotadas pelos gestores de projetos no Brasil.

A gestão de projetos, um campo fundamental para o sucesso organizacional, lida intrinsecamente com a ocorrência de riscos ao longo de todo o ciclo de vida de um empreendimento. Estes riscos representam a possibilidade de eventos que podem ser identificados ou não previamente, originando-se tanto de fatores internos quanto externos ao projeto e à própria organização. A materialização desses eventos pode gerar efeitos positivos, concebidos como oportunidades, ou negativos, caracterizados como ameaças. O Gerenciamento de Risco, conforme delineado pelo Project Management Institute (PMI, 2019) e por Watkiss et al. (2020), constitui a área da Gestão de Projetos dedicada a mapear e avaliar riscos potenciais, visando maximizar oportunidades e mitigar ameaças, sendo um pilar essencial para a resiliência das organizações. As operações de gerenciamento de riscos empresariais abrangem atividades como planejamento, identificação, análise, elaboração de medidas de resposta, implementação de ações preventivas e o monitoramento contínuo dos riscos aos quais um projeto está suscetível.

No cenário global contemporâneo, a mudança do clima emergiu como uma das mais significativas e complexas ameaças, introduzindo novos desafios para a sociedade e a economia. Um levantamento do Fórum Econômico Mundial (WEF, 2026) aponta a ocorrência de eventos climáticos extremos como o maior risco ambiental global a ser enfrentado pela humanidade, com potenciais impactos negativos substanciais para o setor empresarial. Os efeitos da mudança do clima se manifestam de duas formas principais: de maneira aguda, por meio de eventos climáticos extremos e repentinos, e de forma crônica, através de alterações lentas e de longo prazo. A persistência dessas ameaças é reconhecida pela ciência como irreversível, impondo desafios profundos aos modos de vida da sociedade (Calvin et al., 2023).

No contexto corporativo, a concretização dos riscos climáticos traduz-se em impactos reais sobre os ativos financeiros, operacionais e reputacionais das organizações, afetando diretamente valores, capacidades e custos operacionais (Lamas et al., 2023). Quando esses impactos são particularmente intensos, eles podem gerar consequências inevitáveis que se manifestam como perdas e danos (P&Ds), de natureza material e imaterial. Tais P&Ds afetam o meio ambiente, a sociedade e as organizações de forma temporária ou permanente (Mechler et al., 2020). A ocorrência de P&Ds é um indicativo de que os impactos dos eventos climáticos excederam os limites de adaptação de uma organização, território, sociedade ou indivíduo. Isso se deve ao fato de que as ações de adaptação climática, embora capazes de reduzir os riscos, nem sempre conseguem eliminá-los por completo, resultando na persistência de um risco residual que pode gerar impactos negativos (UNFCCC, 2014).

Os impactos econômicos e financeiros decorrentes das P&Ds oriundas da mudança do clima têm se manifestado há décadas, intensificando-se abruptamente nos últimos anos. Dados do Atlas Digital do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR, 2025) revelam que, entre 1991 e 2024, os prejuízos diretos causados por eventos climáticos extremos ao setor privado no Brasil são estimados em mais de 565 bilhões de reais, com o setor agropecuário respondendo por 84,2% desse montante. Em escala europeia, a Agência Ambiental Europeia (EEA, 2025) estima perdas econômicas de 790 bilhões de euros entre 1980 e 2024, evidenciando lacunas de seguros e formas de ressarcimento que, em alguns países, chegavam a cem por cento.

A crise climática atual impõe um novo paradigma para o campo da gestão de projetos. O movimento Ambiental, Social e Governança (ASG), que ganhou força entre as décadas de 2010 e 2020, direcionou a atenção do setor empresarial para os impactos dos riscos climáticos. Apesar do elevado consumo de recursos que pode ser exigido das empresas, o desenvolvimento de estratégias e processos para mitigar esses riscos proporciona benefícios reputacionais, aprimorando a imagem das organizações junto a clientes, investidores e mercados (Cohen, 2023). Desde então, as empresas têm buscado integrar o gerenciamento de riscos de projetos e processos para incorporar fatores e ameaças climáticas em suas análises, desenvolvendo indicadores e soluções e adotando frameworks reconhecidos para relatar seus riscos e ações (Cohen, 2023; Yao, 2025).

O tema de perdas e danos tem conquistado espaço no mercado corporativo de gerenciamento de riscos. Debates sobre análises de custo-benefício de medidas específicas, a integração holística da gestão de riscos climáticos, análises legislativas e ações de litigância têm se tornado cada vez mais relevantes no campo da gestão de projetos (Wouter et al., 2019). As vulnerabilidades e resiliências variam significativamente conforme o segmento de mercado, o porte e o tipo de projeto desenvolvido por uma organização (IDB, 2019), o que tem impulsionado estudos sobre estratégias específicas para cada tipo de projeto (Akomea-Frimpong e Blay, 2025; Wijenayake et al., 2024). Dada a magnitude dos impactos econômicos e sociais diretos e indiretos causados pelos eventos climáticos, a preocupação com as consequências que as P&Ds podem acarretar para o setor empresarial, como as disrupções nas cadeias de produção e abastecimento, tem ganhado destaque tanto na pesquisa científica quanto na formulação de políticas (Wijenayake et al., 2024).

Apesar da crescente atenção global e do planejamento climático nacional, como o Plano Clima Adaptação (MMA, 2025), que inclui a contribuição empresarial em diversos setores estratégicos da economia brasileira, a forma como o tema é abordado no gerenciamento de risco pelas organizações no Brasil ainda é pouco conhecida. O setor permanece dependente de conceitos e soluções geradas em contextos não nacionais, o que levanta uma lacuna prática e teórica significativa. Compreender a integração das ameaças climáticas e das perdas e danos ao gerenciamento de riscos, bem como o grau de maturidade das organizações e as ações adotadas pelos gestores de projetos no Brasil, é crucial para desenvolver soluções adaptadas à realidade nacional. Diante desse cenário, o presente estudo justifica-se pela necessidade de explicitar como essa atuação tem ocorrido no país, buscando identificar as lacunas no comportamento dos gestores e a maturidade das organizações sobre a integração de perdas e danos por eventos climáticos extremos no gerenciamento de riscos, com o objetivo de analisar quais medidas de redução de riscos e de potenciais prejuízos diretos e indiretos causados pelos eventos climáticos extremos são adotadas pelos gestores de projetos no Brasil.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, adotando uma abordagem de casos múltiplos para investigar organizações privadas nacionais. A estratégia de pesquisa empregada envolveu a realização de uma revisão bibliográfica abrangente, a coleta de dados primários junto a gestores de organizações brasileiras por meio de um formulário online, e a subsequente análise dos dados coletados. Este delineamento metodológico visou explicitar as medidas de redução de riscos e potenciais prejuízos diretos e indiretos causados por eventos climáticos extremos, conforme adotadas pelos gestores de projetos no Brasil.

A unidade de análise consistiu em gestores de projetos atuantes em organizações privadas nacionais localizadas no Brasil. A coleta de dados foi realizada durante um período de 104 dias, estendendo-se de 14 de dezembro de 2025 a 28 de março de 2026. Participaram do estudo 32 organizações, cujos dados foram fornecidos de forma anônima para garantir a privacidade. Os participantes foram selecionados e alcançados por meio da distribuição do formulário em diversas redes de profissionais, com a descrição do estudo e seu propósito sendo apresentados previamente.

O levantamento e a revisão bibliográfica constituíram a primeira etapa da pesquisa, sendo fundamentais para a construção do embasamento teórico e para a elaboração do instrumento de coleta de dados. As fontes foram acessadas por meio do Portal de Periódicos da CAPES, utilizando combinações de palavras-chave como “mudança do clima”, “gerenciamento de risco”, “gestão de projetos”, “governança corporativa”, “setor privado”, “adaptação climática”, “risco climático” e “perdas e danos”. Adicionalmente, foram consultados relatórios de organizações públicas e privadas de renome global e nacional, bem como insights de especialistas da rede Loss & Damage Collaboration. Os dados e informações obtidos foram organizados em planilhas para facilitar a análise.

Com base na revisão bibliográfica e nas boas práticas recomendadas por organizações e artigos científicos, elaborou-se um formulário online composto por 39 perguntas de múltipla escolha. As perguntas foram categorizadas em seis grupos de resposta (GR): “Identidade e conhecimento” (GR1), “Base de ação” (GR2), “Foco de ação” (GR3), “Gerenciamento de riscos” (GR4), “Medidas de redução de riscos climáticos” (GR5) e “Gerenciamento das perdas e danos” (GR6). Essa estruturação visou compreender o conhecimento das organizações sobre impactos climáticos, a abordagem do tema no gerenciamento de riscos e as medidas adotadas.

A coleta de dados foi realizada utilizando a plataforma online gratuita Typeform (https://www.typeform.com/). O formulário foi distribuído por meio de redes de profissionais, garantindo o anonimato dos participantes, uma vez que a plataforma não registrava informações pessoais como e-mail ou contas profissionais. Para assegurar a clareza e evitar desentendimentos, termos técnicos como “adaptação” e “resiliência” foram intencionalmente omitidos do formulário. Os dados fornecidos foram organizados em uma matriz em planilha, onde cada entidade participante foi identificada por um código numérico.

As informações provenientes das perguntas abertas do formulário foram classificadas em padrões semânticos e temáticos, com base nos relatórios Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability do IPCC (2023) e Managing Climate Risks, Facing up to Losses and Damages da OECD (2021). Para os conceitos e práticas de gerenciamento de riscos, utilizou-se o guia The standard for risk management in portfolios, programs, and projects do PMI (2019). A combinação das perguntas com suas opções de resposta gerou um total de 151 variáveis, essenciais para a montagem da rede e as análises estatísticas subsequentes.

Os métodos de análise de dados empregados foram a Análise de Redes Complexas bipartida (ARC) e a Análise Descritiva Qualitativa (ADQ). Para a ARC, utilizou-se o software Orange Data Mining (Demšar et al., 2013), seguindo os métodos descritos por Latora, Nicosia e Russo (2017). A ARC permitiu analisar as interconexões entre os nós, que representam atributos e entidades, e os fluxos existentes entre eles. Essa técnica possibilitou a observação de similaridades, diversidades e características compartilhadas entre os grupos de dados, conforme descrito por Borgatti, Everett e Johnson (2013).

A Análise Descritiva Qualitativa (ADQ) complementou a ARC, facilitando a descrição da representatividade das respostas e dos padrões de atuação das organizações, conforme a abordagem de Villamin et al. (2025). A ADQ foi implementada para associar os resultados da ARC às características específicas das respostas fornecidas pelos participantes. A qualificação das características das medidas contribuiu para a demonstração das tendências de atuação e a descrição dessa atuação pelas organizações no contexto nacional de perdas e danos.

3. Resultados e Discussão

A presente seção detalha os resultados obtidos por meio da Análise de Redes Complexas (ARC) e da Análise Descritiva Qualitativa (ADQ), discutindo o significado desses achados no contexto da integração de perdas e danos por eventos climáticos extremos no gerenciamento de riscos de projetos no Brasil. A pesquisa buscou explicitar a atuação das organizações brasileiras nesse cenário, identificando lacunas no comportamento dos gestores e na maturidade organizacional. Os dados foram coletados a partir de 32 formulários de resposta completos, representando uma amostra significativa para a análise proposta, e permitiram uma compreensão aprofundada das práticas e percepções do setor privado nacional.

Análise de Redes Complexas (ARC)

A análise inicial dos formulários revelou que as organizações participantes são predominantemente de micro (34,4%) e pequeno (37,5%) porte, com 21,9% classificadas como de médio e 6,3% de grande porte. Todas as entidades operam no setor privado, com a maioria atuando em serviços (56,3%), seguida pelo segmento comercial (25%) e industrial (18,8%). Em termos de alcance geográfico, 9,4% operam em escala local, 46,9% em escala regional e 43,8% em escala nacional, confirmando que a totalidade das respondentes é de origem nacional. Esses dados fornecem um panorama das características das empresas que compõem a amostra, indicando uma diversidade de portes e setores, mas com predominância de pequenas e médias empresas.

Um achado relevante foi a unanimidade (100%) dos gestores em afirmar possuir algum nível de conhecimento sobre os impactos potenciais da mudança do clima em suas atividades. Contudo, essa percepção de conhecimento não se traduz em uma estrutura interna robusta para lidar com o tema. Apenas 3,1% das organizações contam com especialistas internos em impactos climáticos, enquanto 18,8% utilizam especialistas terceirizados. A maioria, 46,9%, opta por contratar consultores apenas quando necessário, e um terço das organizações (31,3%) não dispõe de nenhum tipo de especialista. Essa dependência de recursos externos ou a ausência de expertise especializada interna sugere uma fragilidade na capacidade de resposta proativa e contínua das organizações frente aos riscos climáticos.

Apesar da lacuna em especialistas internos, a maioria das organizações (71,9%) afirmou ter alguma medida ou plano para lidar com os efeitos da mudança do clima, enquanto 28,1% ainda não desenvolveram nenhuma forma de resposta. A Análise de Redes Complexas (ARC) permitiu visualizar a interconexão entre as organizações e as variáveis de resposta, revelando uma estrutura transversal na integração dos temas analisados no gerenciamento de risco. Os testes de modularidade (Q=0,228, com Q<0,3) indicaram uma consideração elevada do tema e suas modalidades pelas organizações que atuam contra os impactos da mudança do clima. O grau médio ponderado (GMP) dos nós da rede, com valor de 9,027, reforçou a alta permeabilidade dos temas de pesquisa no gerenciamento de riscos das organizações, sugerindo que a temática é reconhecida como relevante.

A análise da centralidade de autovetor (CA) e do grau ponderado (GP) destacou o Grupo de Resposta 2 (GR2), focado na “Base de ação”, como aquele com o maior número de respostas comuns. Variáveis como P8A (análise de ameaças climáticas, CA=0,92348 e GP=23), P12B (recursos técnicos via consultoria, CA=0,762237 e GP=19) e P9B (planos de redução de riscos via consultoria, CA=0,70581 e GP=17) foram proeminentes. Esses valores indicam que as organizações baseiam suas ações primariamente em análises de riscos climáticos e dependem significativamente da contratação de consultorias especializadas para desenvolver e implementar seus planos de redução de riscos. Em contraste, o Grupo de Resposta 6 (GR6), referente ao “Gerenciamento de Perdas e Danos”, apresentou o menor número de respostas comuns e o maior número de variáveis com valor zero, sinalizando uma baixa integração desse tema específico.

Os valores de *bridging centrality* (BC) não mostraram variação significativa entre os Grupos de Resposta e as organizações (BC<0,01). Essa homogeneidade, combinada com os valores de CA, sugere que, embora os temas da pesquisa sejam transversais, o foco das empresas ainda está concentrado na base de ação pautada em análises de riscos climáticos. A equanimidade dos valores de BC corrobora a baixa densidade da rede (d=0,05), indicando que a integração dos temas estudados no gerenciamento de riscos de cada empresa é esparsa, seletiva e fragmentada. Isso não necessariamente representa uma falha, mas sim uma baixa variabilidade na adoção de padrões de resposta frente à crise climática, o que pode ser interpretado como um estágio inicial de desenvolvimento de estratégias mais robustas e integradas.

A métrica de autoridade (AT) calculada para cada organização revelou que o porte não é um fator determinante direto na integração dos riscos climáticos e perdas e danos. No entanto, observou-se uma propensão das empresas de maior porte a abordar os potenciais impactos climáticos em seu gerenciamento de forma mais abrangente. As empresas de menor porte apresentaram um índice AT de 0,1709 ou inferior (média de 0,0901), enquanto as de médio a grande porte registraram valores de 0,1662 ou superiores (média de 0,1839). Isso sugere que, embora o porte não seja um limitador absoluto, organizações maiores tendem a ter mais recursos e capacidade para integrar esses temas em suas práticas de gerenciamento de risco.

Os resultados das métricas da ARC indicam que a integração dos potenciais impactos climáticos no gerenciamento de risco ocorre de maneira moderada. Este nível de integração é particularmente evidente ao considerar o número de organizações que ainda não atuam para lidar com riscos climáticos (P7B=9), que corresponde a nove das 32 respondentes. O Índice de Aderência Proporcional (IAP), que avalia o nível de adoção de medidas e ações pelas organizações, apresentou valores medianos, conforme detalhado na Tabela 1. O IAP desconsidera respostas negativas, focando apenas nas ações efetivamente adotadas pelas empresas participantes, o que oferece uma visão mais precisa da implementação de práticas.

Tabela 1. Índice de Aderência Proporcional das medidas e ações por Grupo de Respostas

Os valores do IAP reforçam a percepção de uma integração mediana de riscos climáticos e perdas e danos no gerenciamento de riscos das empresas analisadas. O Grupo de Resposta 1 (Identidade e conhecimento) obteve o IAP mais alto, de 0,9152 (91,5%), refletindo o conhecimento generalizado dos gestores sobre o tema. Contudo, os demais grupos apresentaram valores mais baixos: GR2 (Base de ação) com 0,5813 (58,1%), GR3 (Foco de ação) com 0,6797 (68,0%), GR4 (Gerenciamento de riscos) com 0,5455 (54,5%), GR5 (Medidas de redução de riscos climáticos) com 0,6652 (66,5%) e GR6 (Gerenciamento das perdas e danos) com 0,6250 (62,5%). A falta de respostas fornecidas pelas organizações para a variável P7B (P7B=9), que indica a ausência de medidas, impactou visivelmente os IAPs dos GRs 2 a 6. Além disso, o total de 118 respostas negativas fornecidas por outras empresas (P7A=23) para os GRs demonstra que, mesmo entre as que possuem ações de enfrentamento climático, o nível de integração do tema ao gerenciamento de riscos ainda não é alto. O percentual de 24,1% de respostas negativas para o GR4 corrobora essa interpretação de integração mediana e fragmentada.

Análise Descritiva Qualitativa (ADQ)

As respostas qualitativas complementaram a análise da rede, proporcionando uma compreensão mais aprofundada da visão das organizações sobre fatores de risco, modelos de tomada de decisão e maturidade em relação aos temas emergentes. O Grupo de Resposta 1 (GR1) confirmou que todos os gestores das organizações participantes compreendem o significado da mudança do clima para suas operações. No entanto, a análise qualitativa reforçou a elevada dependência dessas organizações de consultores externos, especialmente as de menor porte. Essa dependência pode impactar diretamente o ciclo de vida dos projetos e o controle dos riscos, pois a atuação sob tutela externa pode reduzir a qualidade de fatores críticos como predição, antecipação e velocidade de resposta, conforme preconizado pelo Project Management Institute (PMI, 2019).

O Grupo de Resposta 2 (GR2) explicitou o alto reconhecimento das organizações sobre a necessidade de realizar análises de ameaças e riscos climáticos (P8A=23). A grande maioria das empresas participantes afirmou ter desenvolvido planos e medidas de enfrentamento a eventos climáticos extremos, geralmente com o auxílio de consultorias especializadas (P9B=17). Contudo, o prazo de implementação desses planos e medidas é, majoritariamente, de até cinco anos (P10A=11), o que sugere uma preocupação relativamente baixa com respostas de médio e longo prazos. Essa constatação reforça a interpretação dos dados do GR1, confirmando a dependência da maioria das empresas por consultorias ou agentes terceirizados para lidar com a complexidade dos riscos climáticos.

Os dados do Grupo de Resposta 3 (GR3) revelaram que empresas de maior porte demonstram maior preocupação com a infraestrutura, enquanto as de menor porte concentram suas ações na qualidade de vida e segurança dos trabalhadores. As ações planejadas e implementadas visam reduzir a exposição e sensibilidade dos trabalhadores aos impactos de eventos climáticos extremos, bem como a vulnerabilidade da infraestrutura. Essa diferenciação no foco das ações, baseada no porte da organização, indica uma adaptação das estratégias de mitigação aos recursos e prioridades de cada tipo de empresa, mas também pode sinalizar uma lacuna na abordagem holística dos riscos.

O Grupo de Resposta 4 (GR4), o maior grupo de respostas, focou em como os riscos climáticos são tratados no gerenciamento de riscos. De modo geral, a maior parte das organizações busca atuar *posteriormente* aos eventos climáticos (P17A=11), sem uma convergência clara no comportamento. Observou-se uma boa adesão a padrões de relato (P20A=9, P20B=3 e P20D=3) e uma abordagem sistêmica (P21A=9 e P21B=6), indicando um compromisso com a transparência das ações de redução de risco. A área de projetos é a que recebe a maior atenção quanto aos efeitos da mudança do clima (P24A=10), ressaltando um foco na gestão de riscos de projetos em detrimento de uma menor inserção do tema em programas e portfólios. A decisão sobre o escopo dos projetos considera os efeitos da mudança do clima de forma moderada (P26A=10), incluindo a busca por identificação de riscos de potenciais mudanças no mercado (P27A=10) e na área regulatória (P27C=7) por influência do clima, o que demonstra uma consciência, ainda que limitada, da complexidade dos fatores externos.

As medidas de redução de riscos climáticos, abordadas pelo Grupo de Resposta 5 (GR5), mostram que o foco principal ainda é a busca por soluções infraestruturais (P28B=10), priorizando os ativos materiais. Há uma baixa busca por soluções baseadas na natureza (P28A=4), o que pode indicar uma preferência por intervenções mais tradicionais e tangíveis. O trabalho remoto (P30C=10) emergiu como a principal medida incorporada nas ações de continuidade das operações, exigindo a adoção de sistemas de monitoramento e tomadas de decisão ágeis por parte dos gestores. A maioria das empresas também considera os potenciais efeitos da mudança do clima na seleção dos locais de projeto (P34B=10) e na definição de orçamentos e custos (P34C=10), evidenciando uma integração inicial desses fatores no planejamento.

O Grupo de Resposta 6 (GR6) denotou uma menor incorporação direta do gerenciamento de perdas e danos ao gerenciamento de riscos das organizações, sendo o grupo com o menor número proporcional de respostas. As respostas indicaram o despreparo das empresas para lidar com potenciais prejuízos após a ocorrência de eventos. A maioria não possui uma estrutura de gerenciamento (P35B=13) ou um padrão de absorção do prejuízo pré-definido (P35C=8), dependendo da proteção de apólices de seguro (P36A=8) com coberturas para ocorrências específicas. Quanto ao acolhimento e cuidado com os funcionários em caso de perdas e danos materiais e imateriais, nenhuma empresa adota política ou protocolo, havendo apenas diálogos informais (P37B=16) ou procedimentos improvisados (P37D=7). Essa baixa integração das necessidades relacionadas a perdas e danos nos fatores de risco dos projetos é um ponto crítico. Além disso, as empresas não apresentam um protocolo padronizado para contabilização das perdas e danos, focando apenas na contabilização de perdas materiais (P39B=5) ou na contratação de consultores especializados (P39C=6), o que demonstra a incipiência na gestão desse aspecto fundamental.

De maneira generalizada, os resultados obtidos correspondem ao entendimento de Weinhofer e Busch (2013) sobre o comportamento do setor empresarial frente aos impactos climáticos, observados em contextos como o Norte Global. A integração dos riscos climáticos no gerenciamento de riscos é perceptivelmente moderada, enquanto a integração das perdas e danos é consideravelmente baixa, revelando uma incipiência significativa nesse último tema. As organizações brasileiras, embora cientes dos desafios climáticos, ainda estão em um estágio de transição, onde a formalização e aprofundamento das práticas de gerenciamento de riscos e perdas e danos são essenciais para construir maior resiliência e adaptabilidade em seus projetos.

Em síntese, a pesquisa demonstrou que as organizações brasileiras, embora conscientes dos impactos da mudança do clima e engajadas em alguma medida na redução de riscos, ainda apresentam um grau de maturidade moderado na integração desses temas ao gerenciamento de projetos. A dependência de consultorias externas, o foco em soluções infraestruturais e a baixa integração das perdas e danos são lacunas significativas. Os achados indicam que o setor empresarial está em um cenário de transição, onde a compreensão e a implementação de estratégias mais robustas e integradas são cruciais para responder eficazmente aos desafios impostos pela crise climática, especialmente no que tange à gestão de perdas e danos, que ainda carece de maior desenvolvimento e formalização.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou explicitar como as organizações brasileiras integram os impactos da mudança do clima, em particular as perdas e danos decorrentes de eventos climáticos extremos, no gerenciamento de riscos de projetos, identificando lacunas no comportamento dos gestores e na maturidade organizacional. Verificou-se que, embora os gestores afirmassem possuir conhecimento sobre os impactos climáticos em suas atividades, a integração desses riscos ao gerenciamento de riscos mostrou-se moderada. Observou-se uma elevada dependência das organizações pela contratação pontual de consultorias especializadas para análises climáticas, o que prejudicou a capacidade de resposta proativa. A integração de perdas e danos foi consideravelmente baixa, evidenciando despreparo para lidar com prejuízos pós-evento, ausência de estruturas de gerenciamento e dependência de apólices de seguro com coberturas específicas. As ações focaram predominantemente em soluções infraestruturais e na atuação posterior aos eventos, com menor atenção a abordagens baseadas na natureza e a prazos de médio e longo prazo.

A principal contribuição deste trabalho reside em fornecer um panorama detalhado da atuação do setor privado brasileiro frente aos desafios da crise climática no gerenciamento de projetos, revelando um cenário de transição onde a formalização e o aprofundamento das práticas são essenciais. Os resultados indicam que o grau de maturidade de gestores e organizações ainda é moderado, com a integração de perdas e danos sendo incipiente. Uma limitação do estudo refere-se ao tamanho da amostra, que, embora significativa, sugere que um conjunto amostral mais amplo poderia oferecer maior certeza sobre a generalização dos achados. Recomenda-se a continuidade de estudos para acompanhar a evolução desse cenário de transição e para o desenvolvimento de soluções adaptadas à realidade nacional, especialmente no que tange à gestão proativa e integrada de perdas e danos.

Referências Bibliográficas

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PMI, Project Management Institute. 2019. The standard for risk management in portfolios, programs, and projects. 1ed. Project Management Institute Inc., Pensilvânia, Estados Unidos da América.

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WEF, World Economic Forum. 2026. Global Risks Report 2026. WEF, Genebra, Suíça.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

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