Artigo

24 de julho de 2026

Insegurança jurídica em terras sem titulação: Evidências do sul do Pará

Claudisson Alves Pinheiro; Maiara Maria Franzoni

DOI: 10.22167/2675-6528-202600672

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A ausência de titulação formal de terras doadas pelo poder público representa um dos principais entraves à segurança jurídica fundiária no Brasil, especialmente em regiões de fronteira agrícola. O estudo objetivou analisar os efeitos da doação de terras sem titulação formal ao longo de trinta anos, com ênfase nos impactos da insegurança jurídica sobre a gestão, o desenvolvimento e a sustentabilidade da atividade agropecuária, a partir de um estudo de caso no sul do Pará. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, de caráter exploratório e analítico, baseada em revisão bibliográfica, análise documental e entrevistas semiestruturadas com atores diretamente envolvidos no contexto fundiário. Os resultados indicaram que a ausência de titulação definitiva restringiu o acesso ao crédito rural, limitou investimentos produtivos, dificultou o planejamento de longo prazo e comprometeu a adoção de práticas sustentáveis, mesmo em ocupações produtivas consolidadas. Observou-se, ainda, que a morosidade administrativa e a fragmentação institucional contribuíram para a manutenção da informalidade fundiária e da insegurança jurídica no meio rural. Concluiu-se que a regularização fundiária constitui um elemento estratégico para o fortalecimento da governança agrária e para a promoção do desenvolvimento rural sustentável, exigindo a implementação de políticas públicas mais integradas, céleres e orientadas à efetiva consolidação do direito de propriedade.

Palavras-chave: Direito de propriedade; Estrutura fundiária; Planejamento produtivo; Segurança da posse; Sustentabilidade no meio rural.

1. Introdução

A ausência de titulação formal de terras doadas pelo poder público configura-se como um dos principais entraves à consolidação da segurança jurídica fundiária no Brasil. Este desafio é particularmente acentuado em regiões de fronteira agrícola, onde a expansão das atividades agropecuárias ocorre frequentemente em áreas com histórico de ocupação informal. Ao longo das últimas décadas, a recorrência de doações de terras sem a correspondente emissão de títulos definitivos contribuiu para a formação de um passivo fundiário significativo. Essa condição compromete diretamente a eficiência da gestão agropecuária, limita a atração de investimentos e restringe o acesso dos produtores a políticas públicas essenciais, como o crédito rural e os programas de incentivo à produção sustentável (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [IPEA], 2021).

A insegurança jurídica, intrinsecamente ligada à indefinição dos direitos de propriedade, impacta a dinâmica produtiva no meio rural de forma direta e profunda. Ela limita a capacidade dos produtores de realizarem investimentos de longo prazo, de adotarem tecnologias inovadoras e de acessarem mercados mais estruturados. Nesse contexto, a ausência de garantias legais sobre a posse ou propriedade da terra reduz a previsibilidade econômica e eleva os riscos inerentes à atividade agropecuária. Tal cenário compromete não apenas a eficiência produtiva, mas também a sustentabilidade dos sistemas agrícolas (IPEA, 2021). Conforme Deininger e Feder (2001), a segurança dos direitos de propriedade constitui um elemento central para o desenvolvimento dos mercados rurais e para a eficiência produtiva, evidenciando a relevância da formalização.

Adicionalmente, a regularização fundiária exerce um papel estratégico no fortalecimento do desenvolvimento rural. Ela possibilita uma maior integração dos produtores às políticas públicas, amplia o acesso ao crédito rural e estimula a adoção de práticas produtivas mais sustentáveis. A formalização dos direitos de propriedade contribui, ainda, para a valorização dos ativos rurais, para a redução de conflitos fundiários e para o favorecimento de um ambiente institucional mais estável e propício ao desenvolvimento econômico (Silva e Oliveira, 2022). A clareza nos direitos de terra é, portanto, um pilar para a estabilidade e o progresso no campo.

No contexto brasileiro, a problemática da regularização fundiária está associada a desafios históricos complexos. Estes incluem questões relacionadas à ocupação do território, à fragilidade institucional dos órgãos responsáveis e à morosidade dos processos administrativos. Em regiões de fronteira agrícola, como a Amazônia Legal, esses fatores tornam-se ainda mais evidentes, resultando em elevados níveis de informalidade fundiária e insegurança jurídica. Essa realidade impacta diretamente a organização da atividade agropecuária, a atração de investimentos e a implementação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento rural sustentável.

No sul do estado do Pará, uma região inserida na Amazônia Legal e caracterizada por intensa expansão da fronteira agropecuária, essa problemática assume contornos ainda mais complexos. A ocupação histórica baseada, em muitos casos, em processos informais de doação de terras pelo poder público, resultou na consolidação de atividades produtivas sem a devida regularização jurídica. Mesmo após décadas de uso contínuo da terra, inúmeros produtores permanecem sem o reconhecimento formal da propriedade, em decorrência da morosidade administrativa, da sobreposição normativa e da fragilidade na implementação de políticas públicas voltadas à regularização fundiária (Costa e Santos, 2020). Esse cenário evidencia uma contradição estrutural: ao mesmo tempo em que a terra é economicamente produtiva e socialmente relevante, permanece juridicamente vulnerável. Tal condição limita a capacidade de planejamento dos produtores, restringe o acesso a instrumentos financeiros e compromete a adoção de práticas sustentáveis, perpetuando um ciclo de informalidade e insegurança no meio rural.

Diante desse contexto, torna-se fundamental compreender de que forma a ausência de titulação formal impacta a gestão agropecuária e o desenvolvimento rural em regiões de fronteira agrícola. Assim, este estudo tem como objetivo analisar os efeitos da doação de terras sem titulação formal ao longo dos últimos trinta anos, com ênfase nos impactos da insegurança jurídica sobre a gestão, o desenvolvimento e a sustentabilidade da atividade agropecuária, a partir de um estudo de caso no sul do Pará.

2. Material e Métodos

Este estudo adotou uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e analítico, adequada para investigar fenômenos complexos que envolvem aspectos jurídicos, institucionais e econômicos relacionados à regularização fundiária. A pesquisa foi desenvolvida por meio de revisão bibliográfica, análise documental e um estudo de caso, permitindo a triangulação de diferentes fontes de evidência para aprofundar a compreensão do tema.

O objeto empírico da pesquisa consistiu em uma propriedade rural específica, localizada na região sul do estado do Pará, área inserida na Amazônia Legal. Esta propriedade foi selecionada por sua história de ocupação, que teve origem em uma doação de terras realizada pelo poder público, sem a subsequente titulação formal. A escolha do local permitiu uma análise longitudinal da dinâmica fundiária ao longo de aproximadamente trinta anos.

A coleta de dados primários envolveu a realização de entrevistas semiestruturadas com cinco participantes diretamente relacionados ao contexto fundiário analisado. Os participantes foram selecionados por conveniência e relevância, considerando sua experiência direta com a problemática investigada. Incluíram-se membros da família responsável pela gestão da propriedade, um produtor rural em situação fundiária semelhante e um agente técnico com atuação em crédito rural e assistência técnica.

Para garantir a confidencialidade das informações e o anonimato dos participantes, estes foram identificados como Entrevistado 1 [E1], Entrevistado 2 [E2], Entrevistado 3 [E3], Entrevistado 4 [E4] e Entrevistado 5 [E5]. A pesquisa foi enquadrada como um estudo com participantes não identificados, sendo dispensada de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução CNS nº 510/2016. O roteiro das entrevistas foi previamente estruturado com base nos objetivos do estudo.

A revisão bibliográfica foi conduzida para fundamentar teoricamente a análise, contemplando artigos científicos, livros, relatórios técnicos e documentos institucionais. Os temas abordados incluíram direito agrário, regularização fundiária e desenvolvimento rural sustentável. Esta etapa buscou estabelecer um arcabouço conceitual robusto para a interpretação dos dados coletados.

A análise documental concentrou-se em legislações, decretos e normativas expedidas por órgãos públicos relevantes para a regularização fundiária no Brasil. Foram examinados documentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e do Instituto de Terras do Pará (ITERPA). Este procedimento visou compreender o arcabouço legal e institucional que rege a dinâmica fundiária na região.

Para a análise dos dados, empregou-se a técnica de análise de conteúdo, conforme proposto por Bardin (2016). Esta técnica foi associada à aplicação do modelo Political, Economic, Social, Technological, Legal and Environmental (PESTLE). O modelo PESTLE possibilitou uma compreensão estruturada dos fatores que influenciam o fenômeno investigado, organizando os achados da pesquisa de forma sistemática.

Os dados coletados, tanto primários quanto secundários, foram analisados por meio da identificação de padrões recorrentes, convergências e implicações práticas. Este processo articulou os resultados empíricos com o referencial teórico estabelecido, permitindo uma compreensão aprofundada das múltiplas dimensões impactadas pela ausência de titulação formal, especialmente no contexto da gestão agropecuária e do desenvolvimento rural.

3. Resultados e Discussão

Os resultados da pesquisa revelaram que a ausência de titulação formal de terras doadas pelo poder público no sul do Pará gerou um cenário persistente de insegurança jurídica, com impactos significativos sobre a gestão, o desenvolvimento e a sustentabilidade da atividade agropecuária. A ocupação da área em estudo ocorreu de forma contínua e produtiva ao longo de aproximadamente trinta anos, mas sem a formalização definitiva da propriedade. Essa condição estrutural condicionou as decisões produtivas e limitou o potencial de crescimento, conforme evidenciado pelas entrevistas e pela análise documental realizada.

A pesquisa envolveu a participação de cinco indivíduos diretamente relacionados ao contexto fundiário analisado, cujas perspectivas foram cruciais para a compreensão do fenômeno. Entre os entrevistados, estavam dois membros da família responsável pela gestão da propriedade, atuando na gestão produtiva e administrativa, respectivamente. Um produtor rural vizinho, que enfrentava situação fundiária semelhante, também contribuiu com seu relato, assim como um agente técnico com experiência em crédito rural e assistência técnica. Por fim, um familiar ampliado, que apoiava a produção, ofereceu uma visão complementar sobre a dinâmica da propriedade. Essa diversidade de perfis permitiu uma análise abrangente dos múltiplos efeitos da informalidade fundiária.

A análise do histórico de ocupação da área demonstrou que a origem da posse está ligada a políticas públicas de doação de terras, as quais, contudo, não foram acompanhadas pela emissão de títulos definitivos. Essa situação resultou em uma posse prolongada sem a devida formalização jurídica, um padrão recorrente em diversas regiões de fronteira agrícola no Brasil. Os relatos dos participantes indicaram que, mesmo com a consolidação produtiva da área ao longo de décadas, o processo de titulação permaneceu inconcluso, evidenciando falhas estruturais na implementação das políticas fundiárias que deveriam garantir a regularização jurídica da terra.

A ausência de titulação formal não se restringe a um mero entrave burocrático, mas se configura como um fator estruturante que condiciona as decisões produtivas e compromete a sustentabilidade econômica da atividade agropecuária. A comparação entre propriedades com e sem titulação formal revelou contrastes acentuados. Para as propriedades sem titulação, o acesso ao crédito rural é restrito, o planejamento produtivo é limitado ao curto prazo, e os investimentos tendem a ser conservadores. Em contrapartida, a titulação formal permite acesso ampliado ao crédito, planejamento de longo prazo e investimentos estruturantes, que são essenciais para a modernização e expansão da produção.

No que tange à sucessão familiar, a ausência de titulação formal gera um cenário de insegurança, dificultando a continuidade da atividade agropecuária pelas novas gerações. A incerteza quanto à propriedade da terra desestimula o engajamento dos herdeiros e o planejamento de longo prazo para a transição geracional. Em contraste, a titulação formal proporciona um ambiente mais viável para a sucessão, incentivando a permanência da família na atividade rural. Similarmente, a sustentabilidade da produção é limitada em terras sem titulação, pois a insegurança jurídica restringe a adoção de práticas e investimentos de longo prazo que visam a conservação e a eficiência ambiental.

A pesquisa identificou entraves jurídicos e administrativos persistentes que dificultam a regularização fundiária. A morosidade administrativa foi apontada como um dos principais obstáculos, resultando em atrasos significativos na emissão dos títulos. A fragmentação institucional, caracterizada pela atuação descoordenada de diferentes órgãos públicos, contribuiu para a falta de informação clara e para a complexidade dos procedimentos, desestimulando os produtores na busca pela formalização. A burocracia excessiva, por sua vez, reforça a percepção de ineficiência das políticas públicas, corroborando achados de Costa e Santos (2020) sobre a manutenção da informalidade fundiária no Brasil.

Esses entraves criam um ambiente institucional desfavorável, onde a ausência de previsibilidade reduz a confiança dos produtores e desestimula a busca ativa pela regularização formal. A percepção de que os esforços para regularizar a terra são demorados e incertos leva muitos a postergar ou abandonar o processo, perpetuando o ciclo de informalidade. Essa situação é agravada pela falta de clareza nos requisitos e prazos, o que aumenta a incerteza e a frustração dos envolvidos, impactando negativamente o desenvolvimento rural.

Um dos impactos mais diretos da ausência de titulação formal é a restrição ao acesso ao crédito rural. Os produtores sem o título definitivo da propriedade encontram barreiras significativas para participar de programas de financiamento e incentivo, uma vez que a terra não pode ser utilizada como garantia. Essa limitação compromete a capacidade de realizar investimentos essenciais em infraestrutura, tecnologia e melhorias produtivas, levando à adoção de estratégias mais conservadoras e de curto prazo. Tal achado está em consonância com a literatura que associa a segurança jurídica da terra à ampliação do acesso ao crédito e ao aumento da produtividade (Silva e Oliveira, 2022).

A limitação de acesso ao crédito rural constitui uma barreira estrutural ao desenvolvimento produtivo, reduzindo a capacidade de modernização e a competitividade das unidades rurais. Sem o capital necessário para inovar e expandir, os produtores ficam presos a modelos de produção menos eficientes e com menor valor agregado. Essa condição não apenas afeta a rentabilidade individual, mas também freia o desenvolvimento econômico de toda a região, impedindo a plena integração das propriedades rurais às cadeias de valor mais dinâmicas do agronegócio.

A insegurança jurídica influenciou diretamente a tomada de decisões estratégicas dos produtores, desestimulando investimentos estruturantes e comprometendo o planejamento de longo prazo. A incerteza sobre a propriedade da terra gera receio em aplicar recursos em benfeitorias permanentes, como sistemas de irrigação, construções ou aquisição de maquinário de alto custo, que demandam um horizonte de retorno mais estendido. Essa postura conservadora limita o potencial de crescimento e a resiliência da atividade agropecuária diante de desafios econômicos e ambientais.

Além dos impactos econômicos, a pesquisa observou que a insegurança fundiária afeta o planejamento sucessório e a permanência das novas gerações na atividade rural. A falta de um título definitivo torna a herança da propriedade um processo complexo e incerto, desmotivando os jovens a investir seu futuro no campo. Esse cenário indica um risco de descontinuidade produtiva, com a possível perda de conhecimento e experiência acumulados ao longo de décadas, evidenciando que os efeitos da insegurança fundiária ultrapassam a dimensão econômica, atingindo também aspectos sociais e organizacionais da atividade agropecuária.

Os participantes da pesquisa percebem a regularização fundiária como um fator estratégico para a superação das limitações enfrentadas. A obtenção do título definitivo de propriedade é associada à ampliação do acesso ao crédito, à redução da vulnerabilidade jurídica e à melhoria das condições de investimento e planejamento. Essa percepção reforça a necessidade de políticas públicas que não apenas emitam títulos, mas que garantam a efetiva consolidação da segurança jurídica no meio rural, promovendo um ambiente mais estável para o desenvolvimento das atividades.

As percepções dos entrevistados convergem para a necessidade de políticas públicas mais integradas, céleres e transparentes. Tais políticas devem ser capazes de assegurar não apenas a emissão dos títulos, mas também a efetiva consolidação da segurança jurídica no meio rural, conforme destacado por Deininger e Feder (2001) sobre a importância dos direitos de propriedade. A análise reforça que a regularização fundiária constitui um instrumento estratégico não apenas jurídico, mas também econômico e social, sendo essencial para o desenvolvimento rural sustentável, ao promover a valorização dos ativos e a redução de conflitos (Silva e Oliveira, 2022).

A aplicação do modelo PESTLE permitiu classificar de forma integrada os impactos da ausência de titulação fundiária em diversas dimensões. Na dimensão política, a morosidade administrativa do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a desconexão das políticas fundiárias resultam em uma insegurança estrutural permanente. Essa fragilidade institucional impede a efetivação dos direitos de propriedade e a plena governança agrária, conforme apontado por IPEA (2021).

Na dimensão econômica, a restrição ao acesso a crédito e investimentos, decorrente da falta de titulação, leva ao subaproveitamento produtivo das terras. Os produtores não conseguem maximizar o potencial de suas propriedades, o que impacta negativamente a rentabilidade e a capacidade de geração de riqueza na região. Essa limitação financeira impede a modernização e a adoção de tecnologias que poderiam aumentar a eficiência e a competitividade da produção agropecuária.

A dimensão social é marcada pelo desestímulo ao planejamento sucessório e à permanência dos herdeiros na atividade rural, gerando um risco de descontinuidade da atividade. A incerteza jurídica sobre o futuro da propriedade afasta as novas gerações do campo, comprometendo a transmissão de conhecimento e a vitalidade das comunidades rurais. Esse aspecto social da insegurança fundiária é crucial para a sustentabilidade de longo prazo do setor.

No âmbito tecnológico, a impossibilidade de financiar a modernização produtiva resulta em um atraso tecnológico significativo. Sem acesso a crédito e investimentos, os produtores não conseguem adquirir novas máquinas, equipamentos ou implementar inovações que otimizariam os processos produtivos. Essa defasagem tecnológica reduz a competitividade e a capacidade de adaptação às novas demandas do mercado e aos desafios ambientais.

A dimensão legal evidencia a posse sem titulação definitiva por aproximadamente trinta anos, o que configura uma vulnerabilidade jurídica crônica. Essa condição expõe os produtores a riscos de conflitos fundiários, desapropriações ou questionamentos sobre seus direitos, mesmo após décadas de ocupação produtiva. A falta de um documento legal formal fragiliza a posição dos ocupantes e impede o pleno exercício do direito de propriedade.

Finalmente, na dimensão ambiental, o desestímulo a práticas sustentáveis de longo prazo resulta em impactos ambientais indiretos. A insegurança sobre a posse da terra desincentiva investimentos em conservação do solo, reflorestamento ou outras práticas que demandam um horizonte de retorno mais longo e a garantia da permanência na propriedade. Essa situação compromete a capacidade de promover um desenvolvimento rural verdadeiramente sustentável na região.

A análise integrada dessas dimensões demonstra que a ausência de titulação fundiária constitui um fator sistêmico, cujos efeitos se manifestam de forma transversal sobre a gestão agropecuária, reforçando a necessidade de políticas públicas estruturadas e integradas. Os resultados evidenciam que a ausência de titulação definitiva é um entrave estrutural à segurança jurídica fundiária, impactando diretamente a gestão agropecuária, o acesso ao crédito rural e a adoção de práticas sustentáveis. A insegurança fundiária limita investimentos, induz decisões de curto prazo e compromete a modernização produtiva, além de afetar o planejamento sucessório e a permanência das novas gerações na atividade rural, evidenciando o caráter multidimensional do problema.

4. Conclusão

O presente estudo analisou os efeitos da doação de terras sem titulação formal ao longo de trinta anos, com foco nos impactos da insegurança jurídica sobre a gestão, o desenvolvimento e a sustentabilidade da atividade agropecuária, a partir de um estudo de caso no sul do Pará. Verificou-se que a ausência de titulação definitiva constituiu um entrave estrutural à segurança jurídica fundiária, impactando diretamente a gestão agropecuária, o acesso ao crédito rural e a adoção de práticas sustentáveis. Observou-se que a insegurança fundiária limitou investimentos produtivos, induziu decisões de curto prazo e comprometeu a modernização da produção, mesmo em ocupações produtivas consolidadas. Adicionalmente, identificou-se que a morosidade administrativa e a fragmentação institucional contribuíram para a manutenção da informalidade fundiária e da insegurança jurídica no meio rural. Os achados também evidenciaram que a instabilidade jurídica afetou o planejamento sucessório e a permanência das novas gerações na atividade rural, revelando o caráter multidimensional do problema.

A regularização fundiária, portanto, emerge como um elemento estratégico para o fortalecimento da governança agrária e para a promoção do desenvolvimento rural sustentável, exigindo a implementação de políticas públicas mais integradas, céleres e orientadas à efetiva consolidação do direito de propriedade. Como limitação do estudo, destaca-se a utilização de um único estudo de caso e o número reduzido de participantes, o que não permite generalizações estatísticas, mas possibilitou um aprofundamento analítico do fenômeno investigado. Sugere-se, para pesquisas futuras, a ampliação da amostra e a realização de estudos comparativos em diferentes regiões, a fim de corroborar e expandir os achados apresentados.

Referências Bibliográficas

Costa, R.A.; Santos, E.J., 2020. Conflitos fundiários e políticas de regularização na Amazônia Legal. Revista de Estudos Regionais e Urbanos, 8(2), p. 115–134.

Deininger, K.; Feder, G., 2001. Land institutions and land markets. World Bank Policy Research Working Paper, n. 2014.

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [IPEA], 2021. Regularização fundiária e desenvolvimento rural sustentável. Brasília. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br. Acesso em: 26 out. 2025.

Silva, M.F.; Oliveira, L.P., 2022. Governança territorial e insegurança fundiária no Brasil: desafios contemporâneos. Revista Brasileira de Direito Agrário, 27(1), p. 43–67.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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