Artigo

28 de julho de 2026

Indicadores financeiros de empresas de capital aberto em processo de Recuperação Judicial

Deivison Honorio Pereira de Sena; Robson Queiroz Pereira

DOI: 10.22167/2675-6528-202600712

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O processo de recuperação judicial exige uma análise aprofundada da saúde financeira das empresas, sendo os indicadores financeiros ferramentas essenciais para esse diagnóstico. Este estudo analisou o comportamento dos indicadores financeiros de liquidez, endividamento e rentabilidade em duas empresas de capital aberto em processo de recuperação judicial, no período de 2021 a 2024. A pesquisa adotou uma abordagem descritiva e quantitativa, utilizando dados extraídos das demonstrações contábeis de duas empresas de capital aberto listadas na B3, selecionadas por suas características no processo de recuperação judicial. Foram calculados e comparados indicadores de liquidez, endividamento e rentabilidade. Os resultados revelaram que uma das empresas reverteu o cenário de crise, demonstrando melhora significativa na liquidez, redução do endividamento e recomposição do patrimônio líquido, atribuída a estratégias de reestruturação e um ambiente econômico favorável. Em contraste, a outra empresa manteve elevado grau de alavancagem e vulnerabilidade estrutural, impactada por dificuldades na geração de caixa e dependência de capital de terceiros. A análise evidenciou que as estratégias de gestão e reestruturação financeira adotadas influenciaram diretamente os desempenhos distintos. Concluiu-se que a utilização de indicadores financeiros é fundamental para avaliar a saúde organizacional em cenários adversos, e que diferentes abordagens de gestão resultam em trajetórias de recuperação distintas.

Palavras-chave: Endividamento; Liquidez; Reestruturação financeira; Rentabilidade.

1. Introdução

A atividade empresarial contemporânea é marcada por uma complexidade crescente, exigindo dos gestores a capacidade de navegar por desafios como a intensa concorrência de mercado, a carga tributária, a adaptação constante a novas tecnologias e a tomada de decisões técnicas fundamentadas (Lana, 2019). A inabilidade em gerenciar adequadamente esses fatores pode, em cenários críticos, levar ao agravamento da situação financeira das empresas e à necessidade de recorrer a instrumentos como a recuperação judicial. Esse processo está intrinsecamente ligado à análise prévia e rigorosa da saúde financeira da organização, especialmente por meio da avaliação de indicadores financeiros (Torres, 2024).

Nesse contexto, os indicadores financeiros assumem um papel central na análise da performance das organizações, permitindo uma avaliação multidimensional do desempenho empresarial. Eles fornecem uma visão clara sobre a capacidade de uma empresa de honrar suas obrigações, gerenciar suas dívidas e gerar lucro a partir de seus recursos. A compreensão desses índices é vital para identificar tendências, antecipar problemas e subsidiar a tomada de decisões estratégicas em momentos de instabilidade.

Entre os indicadores mais relevantes, destacam-se os de liquidez, endividamento e rentabilidade. Os indicadores de liquidez, como a liquidez corrente, mensuram a capacidade da empresa de honrar suas obrigações de curto prazo, sendo fundamentais para a análise da solvência imediata (Assaf Neto, 2020). Já os indicadores de endividamento evidenciam a estrutura de capital e o grau de dependência de recursos de terceiros, refletindo o nível de risco financeiro assumido pela organização (Assaf Neto, 2020). Por sua vez, os indicadores de rentabilidade, como o Retorno sobre Ativos (ROA) e o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), demonstram a eficiência na geração de resultados a partir dos recursos disponíveis, sendo essenciais para avaliar a viabilidade econômica do negócio (Assaf Neto, 2020; Iudícibus, 2017; Marion, 2019).

Além dos desafios internos de gestão, as empresas frequentemente enfrentam fatores externos e globais que impactam diretamente sua saúde financeira. A Pandemia da COVID-19, por exemplo, gerou perdas significativas na cadeia de produção, resultando em redução da jornada de trabalho e dos salários, conforme a MP 936 (BRASIL, 2020). O consumo familiar registrou uma queda de 4,5% em 2020 (IBGE, 2022), desencadeando uma recessão que afetou o Produto Interno Bruto (PIB) e diversos segmentos, com perdas de postos de trabalho (Bezerra, 2024). O setor varejista foi um dos mais atingidos, com redução de quatro por cento na ocupação e de 7,4% no número de empresas, além do fechamento de milhares de estabelecimentos (IBGE, 2022). Essa retração da demanda e os efeitos sistêmicos da crise sanitária fragilizaram muitas empresas, elevando o risco de encerramento de operações (Garcia, 2022).

Diante desse cenário adverso, a recuperação judicial emerge como um instrumento jurídico crucial para evitar o desfecho de falência. Ela permite a reestruturação da empresa por meio de negociações com credores, visando preservar empregos, contribuir para a arrecadação de impostos e gerar valor econômico e social (Costa, 2018). Em 2024, o Brasil registrou um recorde histórico de 2.273 pedidos de recuperação judicial, um aumento de 61,8% em relação ao ano anterior, evidenciando um ambiente econômico desafiador para as empresas (Serasa Experian, 2025).

A Lei nº 11.101/2005, que regula a recuperação judicial, foi promulgada com o objetivo de preservar a empresa e manter sua função social (BRASIL, 2005). Essa legislação foi inspirada em modelos internacionais, como o Chapter 11 dos Estados Unidos e o Code de Commerce da França, que buscam manter em operação as organizações em crise. Antes dessa lei, os processos muitas vezes resultavam na desativação das empresas até a quitação total das dívidas (Azzola, 2024). A evolução da atividade empresarial demandou a modernização da legislação, culminando na Lei nº 14.112/2020, que trouxe mudanças para aumentar a eficácia e agilidade dos processos, incluindo incentivos para financiamentos e maior participação dos credores na definição de estratégias de quitação de dívidas (Azzola, 2024).

Paralelamente, o cenário macroeconômico brasileiro, especialmente entre 2021 e 2024, foi marcado por uma forte elevação da taxa básica de juros (Selic), que iniciou 2021 em dois por cento e encerrou em 9,25%, com o intuito de conter a inflação. Nos anos seguintes, a Selic oscilou, chegando a 13,75% em 2022, 11,75% em 2023 e 10,50% em 2024. Esse movimento de política monetária restritiva contribuiu para o encarecimento do crédito, dificultando a rolagem de dívidas de curto prazo e intensificando a pressão sobre a liquidez das empresas (Banco Central, 2024).

Nesse contexto, as empresas em situação de crise enfrentam desafios financeiros críticos, como o risco de liquidez, que se refere à incapacidade de honrar obrigações de curto prazo devido à insuficiência de ativos líquidos (Assaf Neto, 2020), e a incapacidade de rolagem de dívida, associada à dificuldade de renovar passivos e ao aumento das taxas de juros (Gitman, 2010). Esses fatores são determinantes para a entrada em processos de recuperação judicial, evidenciando a importância do monitoramento contínuo dos indicadores financeiros como ferramenta de diagnóstico e suporte à tomada de decisão. Para o sucesso na superação da recuperação judicial, é fundamental que as empresas adotem planejamentos e estratégias eficazes, analisando todas as etapas da crise (Smith e Volpe, 2024).

A análise de demonstrações contábeis por meio de indicadores, associada a informações complementares como lucro líquido e fluxo de caixa, permite uma avaliação mais consistente da situação financeira das organizações (Assaf Neto, 2020). Desse modo, a presente pesquisa se justifica pela relevância de compreender como as estratégias de reestruturação financeira impactam o desempenho de empresas em recuperação judicial, fornecendo <em>insights</em> valiosos para gestores e investidores. Assim, o trabalho tem como objetivo analisar o comportamento dos indicadores financeiros de empresas de capital aberto em processo de recuperação judicial, com foco nos índices de liquidez, endividamento e rentabilidade, ao longo do período de 2021 a 2024, buscando compreender como tais indicadores refletem a posição financeira das organizações e evidenciam os impactos das estratégias de reestruturação adotadas nesses momentos de instabilidade.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se por uma natureza descritiva, com o propósito de analisar o comportamento de indicadores financeiros. Adotou-se uma abordagem quantitativa, fundamentada na coleta e análise de dados numéricos extraídos de demonstrações contábeis. Essa metodologia permitiu a mensuração e comparação objetiva dos indicadores financeiros das empresas estudadas, conforme o período estabelecido.

Quanto aos objetivos, o estudo configurou-se como uma pesquisa comparativa, visando confrontar o desempenho financeiro de organizações em processo de recuperação judicial (Yin, 2015). A estratégia de pesquisa consistiu na análise aprofundada de indicadores financeiros, buscando identificar padrões e variações na saúde econômica das empresas ao longo do tempo. Essa abordagem foi essencial para compreender as dinâmicas financeiras em cenários de crise.

A unidade de análise foi composta por duas empresas de capital aberto, ambas listadas na Brasil, Bolsa, Balcão (B3), que se encontravam em processo de recuperação judicial. A seleção dessas empresas baseou-se em sua relevância nacional em setores distintos, sendo uma do setor varejista e outra do setor de telecomunicações. Tal diversidade setorial buscou ampliar o escopo da análise e mitigar vieses associados a estudos restritos a um único segmento de mercado.

A escolha dessas companhias justificou-se pela capacidade de obtenção de informações fidedignas. Por serem empresas de capital aberto com marcas consolidadas e visibilidade na B3, seus dados financeiros são publicamente acessíveis, padronizados e auditados. Essa característica assegurou a autenticidade e transparência dos relatórios utilizados, garantindo a confiabilidade dos dados para a aplicação consistente dos indicadores financeiros e a validade dos resultados obtidos.

A coleta de dados abrangeu o período de 2021 a 2024. Os instrumentos de coleta consistiram nas demonstrações contábeis oficiais das empresas, especificamente o Balanço Patrimonial e a Demonstração de Resultados. Complementarmente, foram coletados dados sobre lucro líquido e fluxo de caixa, considerados essenciais para uma avaliação mais abrangente da situação financeira das organizações (Assaf Neto, 2020).

As informações financeiras foram extraídas diretamente das divulgações oficiais das próprias empresas e da plataforma da B3. Após a coleta, os dados foram organizados em planilhas eletrônicas, estruturadas para facilitar o cálculo e a comparação dos indicadores financeiros ao longo dos anos. Essa organização prévia foi fundamental para a etapa subsequente de análise e interpretação dos resultados.

A técnica de análise dos dados empregada foi a análise de indicadores financeiros. Realizou-se o cálculo e a comparação de índices de liquidez, endividamento e rentabilidade para cada empresa, ao longo do período estudado. Para a avaliação da liquidez, mensurou-se a Liquidez Corrente, que reflete a capacidade da empresa de honrar suas obrigações de curto prazo com seus ativos circulantes (Assaf Neto, 2020).

No que tange à rentabilidade, foram calculados o Retorno sobre Ativos (ROA) e o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE). O ROA mensurou a eficiência da empresa na utilização de seus ativos para a geração de lucro, enquanto o ROE avaliou o desempenho da empresa em gerar lucro a partir dos investimentos dos acionistas (Assaf Neto, 2020; Iudícibus, 2017; Marion, 2019). Esses indicadores foram empregados para demonstrar a eficiência na transformação de investimentos em resultados.

Para analisar o endividamento, utilizaram-se o Endividamento Geral, o Capital de Giro, a Composição de Endividamento e a Participação do Patrimônio Líquido. O Endividamento Geral evidenciou o grau de dependência da empresa em relação a capital de terceiros (Assaf Neto, 2020). O Capital de Giro avaliou a capacidade de honrar obrigações de curto prazo. A Composição de Endividamento analisou a distribuição das dívidas entre curto e longo prazo (Iudícibus, 2017), e a Participação do Patrimônio Líquido indicou o nível de utilização de recursos próprios (Gitman, 2010).

Os indicadores foram calculados anualmente para ambas as empresas, permitindo uma análise longitudinal e comparativa do comportamento financeiro. A comparação entre os casos buscou identificar como as diferentes estratégias de reestruturação, adotadas em resposta aos desafios da recuperação judicial, impactaram a trajetória financeira de cada organização. Não foram inseridos achados empíricos ou interpretações de resultados nesta seção.

3. Resultados e Discussão

A análise do comportamento dos indicadores financeiros das duas empresas de capital aberto em processo de recuperação judicial, no período de 2021 a 2024, revelou trajetórias financeiras distintas, influenciadas por estratégias de gestão e reestruturação. Enquanto uma das empresas demonstrou uma recuperação notável, a outra manteve um cenário de vulnerabilidade estrutural, apesar de algumas melhorias pontuais. Os resultados obtidos a partir das demonstrações contábeis e dos indicadores de liquidez, endividamento e rentabilidade, conforme proposto pelo objetivo do estudo, permitiram uma compreensão aprofundada da saúde financeira de cada organização em um contexto de crise, evidenciando a importância da análise integrada desses fatores para a tomada de decisões (Assaf Neto, 2020).

Inicialmente, observou-se que a Empresa 01, atuante no setor varejista, apresentou uma melhora significativa em sua liquidez, redução do endividamento e recomposição do patrimônio líquido ao final do período. Em contraste, a Empresa 02, do setor de telecomunicações, manteve um elevado grau de alavancagem e vulnerabilidade estrutural, impactada por desafios na geração de caixa e pela dependência de capital de terceiros. Essa heterogeneidade de resultados, mesmo diante de desafios macroeconômicos semelhantes, como os impactos da pandemia de COVID-19 e a elevação da taxa Selic, sublinha a relevância das decisões gerenciais e das estratégias de reestruturação adotadas (Smith e Volpe, 2024).

Análise dos Indicadores de Liquidez

No que concerne à liquidez corrente, a Empresa 01 exibiu uma trajetória inicialmente preocupante, com índices abaixo de 1 entre 2021 e 2023, indicando dificuldades em honrar obrigações de curto prazo. Em 2021, o índice era de 0,48, caindo para 0,34 em 2022 e 0,22 em 2023. Essa situação de risco, conforme Assaf Neto (2020), reflete um desequilíbrio financeiro e, para Matarazzo (2010), pode sinalizar uma estratégia agressiva de financiamento com capital de terceiros de curto prazo. Contudo, em 2024, a Empresa 01 demonstrou uma recuperação pontual expressiva, atingindo 1,61, impulsionada pela reversão do capital de giro de negativo para positivo e pela redução significativa do endividamento de curto prazo.

A Empresa 02, por sua vez, iniciou o período em 2021 com um índice de liquidez corrente de 1,69, que denotava uma posição confortável. No entanto, houve uma queda contínua nos anos seguintes, chegando a 0,94 em 2022 e 0,54 em 2023, indicando uma deterioração da capacidade de pagamento de curto prazo. Em 2024, a empresa recuperou-se para 1,00, alcançando um nível mínimo de segurança, mas sem a mesma robustez observada na Empresa 01. Essa oscilação sugere que, embora tenha havido alguma melhora, a Empresa 02 ainda opera com margens de liquidez mais apertadas, o que a torna mais suscetível a choques financeiros.

O capital de giro, indicador fundamental para avaliar a capacidade de honrar obrigações de curto prazo (Assaf Neto, 2020), também apresentou comportamentos distintos. A Empresa 01 registrou capital de giro negativo em 2021 (-22.242 milhões de reais), 2022 (-32.891 milhões de reais) e 2023 (-38.548 milhões de reais), refletindo dificuldades em gerenciar seus ativos circulantes para cobrir passivos de curto prazo. No entanto, em 2024, houve uma reversão significativa, com o capital de giro tornando-se positivo em 2.696 milhões de reais, o que indica uma melhora substancial na gestão financeira e na liquidez da empresa.

Em contraste, a Empresa 02 iniciou o período com um capital de giro positivo em 2021 (18.237 milhões de reais), sugerindo uma situação segura no curto prazo. Contudo, nos anos subsequentes, o capital de giro deteriorou-se, tornando-se negativo em 2022 (-634 milhões de reais), 2023 (-6.509 milhões de reais) e 2024 (-29 milhões de reais). Essa tendência negativa sinaliza uma perda gradual da liquidez e uma crescente necessidade de geração de caixa para suas operações, evidenciando uma trajetória inversa à da Empresa 01 no que tange à capacidade de financiamento de curto prazo, conforme a análise de Matarazzo (2010).

Análise dos Indicadores de Endividamento

O endividamento geral, que mede a dependência de capital de terceiros (Assaf Neto, 2020), revelou que a Empresa 01 apresentou índices elevados nos primeiros períodos, superando 100%. Em 2021, o índice era de 133,64%, subindo para 185,23% em 2022 e 206,38% em 2023. Esses valores indicam que o passivo total superava o ativo total, resultando em patrimônio líquido negativo e caracterizando um desequilíbrio financeiro com alta exposição ao risco, conforme Iudícibus (2017). Uma nota explicativa da empresa indicou que os resultados financeiros de 2021 e 2022 foram impactados por inconsistências contábeis, que foram posteriormente ajustadas, tornando os dados revisados analiticamente válidos.

Após os ajustes e a adoção de medidas estratégicas de reestruturação, a Empresa 01 conseguiu uma redução significativa do endividamento geral, que caiu para 71,54% em 2024. Essa queda demonstra um esforço bem-sucedido em conter os prejuízos e reequilibrar a estrutura de capital, embora ainda seja crucial monitorar a sustentabilidade dessa redução. Para Marion (2019), níveis elevados de endividamento aumentam o risco financeiro, mas Gitman (2010) pondera que o capital de terceiros pode potencializar retornos se bem administrado, o que parece ter sido o foco da reestruturação da Empresa 01.

A Empresa 02, por outro lado, manteve níveis consistentemente altos de endividamento geral ao longo de todo o período analisado. Em 2021, o índice foi de 103,47%, subindo para 173,76% em 2022 e 182,42% em 2023, mantendo-se em 182,42% em 2024. Essa persistência em altos níveis de endividamento, aliada a um patrimônio líquido negativo contínuo, indica uma forte dependência de capital de terceiros e uma vulnerabilidade estrutural prolongada. A empresa divulgou uma nota explicativa em 2020, abordando o elevado risco financeiro e a necessidade de alienação de ativos para geração de caixa, o que corrobora a interpretação de Gitman (2010) sobre o aumento do risco de insolvência em cenários de alta alavancagem.

A composição do endividamento, que analisa a distribuição das dívidas entre curto e longo prazo (Iudícibus, 2017), mostrou que a Empresa 01 tinha uma alta concentração de dívidas de curto prazo entre 2021 e 2023, com percentuais variando de 85,78% a 88,05%. Essa estrutura indicava um risco financeiro elevado. No entanto, em 2024, houve uma queda acentuada para 35,07%, sinalizando um alongamento das obrigações e uma melhora na estrutura do endividamento. Essa mudança é um indicativo positivo de que a empresa conseguiu renegociar suas dívidas e reduzir a pressão sobre o caixa no curto prazo.

Para a Empresa 02, a composição do endividamento apresentou percentuais menores de dívidas de curto prazo ao longo do período, variando de 33,56% em 2021 a 22,41% em 2024. Essa estrutura, segundo Matarazzo (2010), é mais equilibrada e menos pressionada no curto prazo, o que, em tese, seria favorável. Contudo, mesmo com essa distribuição, o elevado endividamento geral e o patrimônio líquido negativo da Empresa 02 indicam que a empresa ainda enfrenta um risco financeiro significativo, pois a dependência de capital de terceiros permanece alta, conforme a análise de Marion (2019).

A participação do patrimônio líquido, que reflete o nível de utilização de recursos próprios no financiamento de ativos (Gitman, 2010), reforça as distinções entre as empresas. A Empresa 01 apresentou patrimônio líquido negativo de 2021 a 2023, variando de -33,64% a -104,44%, o que demonstra grande dependência de capital de terceiros e uma situação de desequilíbrio financeiro. No entanto, em 2024, houve uma reversão para um patrimônio líquido positivo de 28,50%, indicando uma recomposição do capital próprio e uma melhora na estrutura de capital, o que é um sinal de recuperação financeira.

Em contrapartida, a Empresa 02 manteve uma participação do patrimônio líquido consistentemente negativa ao longo de todo o período, variando de -26,75% a -104,44%. Essa persistência em patrimônio líquido negativo, conforme Marion (2019), aponta para uma fragilidade estrutural e uma dependência contínua de recursos de terceiros. A situação da Empresa 02, com elevados níveis de endividamento e patrimônio líquido negativo, evidencia um risco financeiro acentuado e uma maior exposição a crises, apesar de ter uma composição de endividamento mais favorável no curto prazo.

Análise dos Indicadores de Rentabilidade

O Retorno sobre Ativos (ROA), que mede a eficiência da empresa na geração de lucro a partir de seus ativos (Assaf Neto, 2020), mostrou que a Empresa 01 teve um saldo positivo em 2021 (16,62%), indicando boa eficiência operacional. Contudo, em 2022, houve uma queda acentuada para -41,26%, refletindo um período de prejuízo. Nos anos seguintes, a empresa demonstrou uma recuperação gradual, atingindo -8,38% em 2023 e 0,05% em 2024. Embora o retorno ainda seja modesto, a trajetória indica uma reestruturação e melhora na utilização dos ativos, mesmo que a geração de lucro expressiva ainda não tenha sido plenamente restabelecida.

A Empresa 02 apresentou um cenário diferente para o ROA, com resultados negativos em 2021 (-13,69%), agravando-se para -65,05% em 2022 e -20,77% em 2023. Essa persistência em resultados negativos reflete uma ineficiência na utilização dos ativos para gerar lucro. Em 2024, houve um salto expressivo para 48,63%. No entanto, esse resultado deve ser analisado com cautela, pois, conforme a nota explicativa da empresa, o lucro líquido foi fortemente influenciado por eventos não recorrentes, como a reestruturação da dívida, ganhos contábeis e alienação de ativos estratégicos. Marion (2019) adverte que o ROA pode ser distorcido por eventos não recorrentes, e Gitman (2010) sugere que seja analisado em conjunto com outros índices.

O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), que avalia o lucro gerado pelos investimentos dos acionistas, apresenta limitações quando o patrimônio líquido é negativo, como observado em ambas as empresas. Iudícibus (2017) aponta que essa condição compromete a capacidade informacional do indicador, podendo gerar interpretações distorcidas. Gitman (2010), contudo, sugere que o ROE pode ser utilizado como indicador complementar, desde que analisado em conjunto com outros índices financeiros. Para a Empresa 01, o ROE foi de 49,42% em 2021, 90,68% em 2022, -7,87% em 2023 e 0,17% em 2024, mostrando grande volatilidade.

A Empresa 02 registrou um ROE de -59,00% em 2021, 48,43% em 2022, 19,89% em 2023 e 48,63% em 2024. Assim como o ROA, o pico de 2024 para a Empresa 02 deve ser interpretado com cautela, pois está associado a eventos não recorrentes e ao patrimônio líquido negativo, o que não reflete uma recuperação consistente da eficiência operacional. A análise conjunta do ROE com o ROA e outros indicadores é crucial para uma visão mais técnica e crítica da situação financeira, especialmente em empresas com patrimônio líquido negativo, onde a interpretação isolada pode ser enganosa.

Fatores Externos e Estratégias de Reestruturação

Os fatores externos, como a pandemia de COVID-19 e a política monetária restritiva com a elevação da taxa Selic entre 2021 e 2024, impactaram diretamente a liquidez e o endividamento das empresas. A queda nas vendas e a diminuição do ativo circulante, como caixa e contas a receber, dificultaram o cumprimento das obrigações de curto prazo, elevando o passivo circulante e gerando inadimplência (Velho Júnior, 2022). O fluxo de caixa operacional negativo levou as empresas a buscar fontes externas de crédito, como financiamentos e empréstimos, para manter a continuidade das operações, o que, por sua vez, aumentou o endividamento.

A elevação da taxa Selic, que iniciou 2021 em dois por cento e chegou a 13,75% em 2022, encareceu o crédito e dificultou a rolagem de dívidas de curto prazo, intensificando a pressão sobre a liquidez das empresas (Banco Central, 2024). Esse cenário macroeconômico adverso afetou ambas as empresas, mas as estratégias de reestruturação adotadas por cada uma resultaram em desempenhos distintos. A Empresa 01, por exemplo, demonstrou uma capacidade mais eficaz de renegociação de dívidas, ajuste na estrutura de custos e melhoria na gestão operacional, o que contribuiu para sua recuperação.

A Empresa 01, ao longo do período, demonstrou uma trajetória de recuperação, com melhoria expressiva nos indicadores de liquidez, redução do endividamento e recomposição do patrimônio líquido. Essa evolução está associada à adoção de medidas estratégicas de reestruturação financeira, como a renegociação de dívidas e o ajuste na estrutura de custos, que permitiram à empresa reverter o cenário de crise. A capacidade de gestão operacional e a adaptação a um ambiente econômico mais favorável no período pós-pandemia foram cruciais para essa trajetória positiva, evidenciando a eficácia das decisões gerenciais (Smith e Volpe, 2024).

Em contraste, a Empresa 02 manteve um elevado grau de alavancagem e vulnerabilidade estrutural, influenciada por dificuldades persistentes na geração de caixa e uma dependência contínua de capital de terceiros. Os efeitos prolongados do processo de recuperação judicial, incluindo a necessidade de alienação de ativos para geração de caixa, também contribuíram para a manutenção de sua situação financeira delicada. Embora tenha havido variações moderadas e algumas melhorias pontuais, o índice de endividamento e o patrimônio líquido negativo da Empresa 02 indicam que a empresa permanece em uma situação de risco financeiro, com menor autonomia e maior exposição a choques externos (Gitman, 2010).

Em síntese, a pesquisa evidenciou que a utilização de indicadores financeiros é fundamental para avaliar a saúde organizacional em cenários adversos, especialmente quando analisados em conjunto com o ambiente econômico e as decisões gerenciais. A Empresa 01 demonstrou uma recuperação consistente, com melhoria da liquidez, redução do endividamento e recomposição do patrimônio líquido, atribuída a estratégias eficazes de reestruturação. Por outro lado, a Empresa 02, apesar de algumas melhorias pontuais, manteve um elevado grau de alavancagem e vulnerabilidade estrutural, refletindo desafios persistentes na gestão financeira e na geração de caixa. As distintas abordagens de gestão e reestruturação financeira resultaram em trajetórias de recuperação marcadamente diferentes, confirmando que a análise contínua desses indicadores é essencial para a tomada de decisões estratégicas em momentos de instabilidade.

4. Conclusão

O presente estudo buscou analisar o comportamento dos indicadores financeiros de liquidez, endividamento e rentabilidade em empresas de capital aberto em processo de recuperação judicial, no período de 2021 a 2024, visando compreender como tais índices refletem a posição financeira das organizações e os impactos das estratégias de reestruturação. Verificou-se que as empresas analisadas apresentaram trajetórias financeiras marcadamente distintas. Uma das organizações demonstrou uma recuperação notável, caracterizada pela melhora significativa na liquidez, com o capital de giro revertendo de negativo para positivo e a liquidez corrente superando a unidade em 2024. Observou-se também uma redução expressiva do endividamento geral e a recomposição do patrimônio líquido, que passou de negativo para positivo. Essa trajetória positiva foi atribuída a estratégias eficazes de reestruturação financeira, como renegociação de dívidas e ajustes de custos, que permitiram à empresa reverter o cenário de crise. Em contraste, a outra empresa manteve um elevado grau de alavancagem e vulnerabilidade estrutural ao longo do período, com indicadores de liquidez em deterioração e patrimônio líquido consistentemente negativo, apesar de algumas melhorias pontuais no Retorno sobre Ativos influenciadas por eventos não recorrentes. Identificou-se que os desafios persistentes na geração de caixa e a dependência de capital de terceiros foram fatores determinantes para a manutenção de sua situação delicada. A principal contribuição deste estudo reside em evidenciar a importância crítica da análise integrada dos indicadores financeiros para o diagnóstico da saúde organizacional em cenários de crise, fornecendo <i>insights</i> valiosos sobre como diferentes abordagens de gestão e reestruturação impactam diretamente as chances de sucesso na recuperação judicial.

Apesar dos achados relevantes, o estudo possui limitações inerentes ao seu desenho metodológico. A análise comparativa de apenas duas empresas de capital aberto, pertencentes a setores distintos (varejo e telecomunicações), restringe a generalização dos resultados. Além disso, a interpretação de indicadores como o Retorno sobre o Patrimônio Líquido foi comprometida pela presença de patrimônio líquido negativo em ambas as empresas em diversos períodos, e o Retorno sobre Ativos de uma das empresas foi influenciado por eventos não recorrentes, exigindo cautela na sua avaliação. Para estudos futuros, sugere-se a ampliação da amostra de empresas, incluindo organizações de um mesmo setor para mitigar a heterogeneidade setorial, ou a realização de análises longitudinais mais extensas para acompanhar a evolução dos indicadores após a conclusão do processo de recuperação judicial, aprofundando a compreensão dos fatores que sustentam a recuperação financeira a longo prazo.

Referências Bibliográficas

ASSAF NETO, Alexandre. Finanças corporativas e valor. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2020.

BEZERRA, Marina Lima. O impacto da pandemia no endividamento das famílias brasileiras.

IUDÍCIBUS, Sérgio de. Análise de Balanços – 11.Ed. São Paulo: Editora Atlas, 2017.

LANA, Henrique Avelino. Interação entre direito, economia, recuperação de empresas e falência: análise econômica do direito e a lei 11.101/05. Disponível em: <https://www.dpd.ufv.br/wp-content/uploads/2020/05/Bibliografia-complementar-DIE-323-1.pdf>. Acesso em: 21 abr.2026

MARION, José Carlos. Análise das Demonstrações Contábeis – 8.Ed. São Paulo: Editora Atlas, 2019.

TORRES, Israel. Saúde financeira: indicadores de alavancagem, liquidez e solvência. Disponível em: <https://blbescoladenegocios.com.br/blog/saude-financeira/>. Acesso em: 01 nov. 2025.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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26 de agosto de 2026

Gerenciamento de Cronograma de Manutenção no Setor de Extração de Caldo em uma Indústria Sucroalcooleira

A manutenção de entressafra em indústrias sucroalcooleiras representa um projeto de alta complexidade, frequentemente comprometido por limitações na definição do escopo, no sequenciamento de atividades e nas estimativas de duração, afetando a confiabilidade e previsibilidade da execução. Objetivou-se aprimorar o gerenciamento do cronograma de manutenção de entressafra no setor de extração de caldo, por meio da aplicação das práticas do PMBOK 6ª edição, com foco na estruturação do escopo, sequenciamento lógico das atividades, melhoria das estimativas de duração e identificação do caminho crítico. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso único, de natureza aplicada e abordagem mista, realizado em uma indústria sucroalcooleira. Os métodos incluíram análise documental de cronogramas de entressafra e coleta de dados por meio de questionários com profissionais da área. Inicialmente, diagnosticou-se o cronograma vigente, identificando lacunas. Em seguida, aplicaram-se ferramentas de gerenciamento do cronograma, como a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), sequenciamento de atividades, estimativa análoga e bottom-up, e o método do caminho crítico (CPM), permitindo a comparação entre o cenário original e o reestruturado. Os resultados evidenciaram ganhos significativos em previsibilidade, organização das atividades, clareza nas dependências e maior controle sobre prazos e desvios, com a redução de atividades sem predecessoras ou sucessoras de 18,85% para 2,32%. Concluiu-se que a aplicação estruturada das boas práticas de gerenciamento do cronograma aprimorou o planejamento e contribuiu para a disponibilidade operacional na safra subsequente.

Palavras-chave: Caminho crítico; Confiabilidade do planejamento; Estrutura Analítica do Projeto (EAP); Planejamento operacional; Previsibilidade.

26 de agosto de 2026

Fomento à liderança de mulheres por meio da gestão estratégica de partes interessadas

A persistente sub-representação de mulheres em cargos de liderança revelou limitações nas estratégias institucionais de promoção da igualdade de gênero, destacando a necessidade de abordagens mais integradas entre gestão de projetos e negociação estratégica. O estudo objetivou analisar como estratégias de negociação e engajamento de partes interessadas fomentaram o compromisso institucional com políticas que impulsionam a liderança feminina, e propôs uma matriz estratégica orientada por uma perspectiva de gênero. Adotou-se uma abordagem de métodos mistos, de natureza convergente e articulação epistemológica crítica-transformativa, que combinou análise documental, estudos de caso institucionais e uma entrevista semiestruturada com uma líder feminina, seguida de análise temática e triangulação de dados para aumentar a robustez interpretativa. Os resultados indicaram que organizações que institucionalizaram práticas de governança, estabeleceram metas mensuráveis e incorporaram partes interessadas como participantes ativos demonstraram maior capacidade de converter compromissos discursivos em ações estruturadas. Evidenciou-se, ainda, que a integração entre negociação estratégica e gestão de partes interessadas potencializou a sustentabilidade das iniciativas de equidade de gênero. Concluiu-se que a implementação de uma matriz estratégica, denominada Matriz Estratégica de Engajamento de Stakeholders com foco em gênero (MEES-G), configurou-se como uma ferramenta de gestão relevante para fortalecer o compromisso institucional e facilitar transformações organizacionais consistentes, oferecendo orientação eficaz a gestores públicos e privados na implementação de políticas inclusivas.

Palavras-chave: Equidade; Governança; Inclusão organizacional; Representatividade; Transformação organizacional.

26 de agosto de 2026

Transformação do Modelo Comercial em Serviços Linguísticos para Maior Previsibilidade de Receita

A busca por previsibilidade de receita e maior controle sobre o desempenho comercial tem se tornado um desafio relevante na indústria de serviços linguísticos, caracterizada por alta variabilidade de demanda e modelos historicamente baseados em volume de serviços. Neste contexto, o estudo teve como objetivo analisar a reestruturação do modelo comercial de uma empresa do setor, com foco na transição de uma abordagem orientada à receita faturada para um modelo baseado na formalização de contratos e na previsibilidade de receita potencial. A pesquisa foi conduzida por meio de pesquisa-ação entre maio de 2024 e março de 2026, utilizando dados quantitativos provenientes de sistemas internos e dados qualitativos obtidos por observação participante e entrevistas com profissionais-chave. Os resultados quantitativos indicaram que a meta trimestral de contratos foi superada, atingindo 106% no primeiro trimestre de 2026, e os contratos firmados entre o final de 2025 e o primeiro trimestre de 2026 resultaram em uma projeção de receita de US$ 1.230.500, equivalente a aproximadamente 88% da meta anual, evidenciando aumento na previsibilidade da receita potencial. Qualitativamente, os dados apontaram maior clareza na avaliação da performance comercial, maior transparência na identificação dos fatores que impactam a conversão de contratos em receita e melhoria na integração entre as áreas envolvidas. Concluiu-se que a adoção de um modelo baseado em contratos contribui para uma gestão mais eficiente, previsível e orientada à geração sustentável de receita.

Palavras-chave: Contratos comerciais; Gestão comercial; Modelo de vendas; Pesquisa-ação; Serviços linguísticos.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

24 de agosto de 2026

Do Mundo à Mente: o Impacto Intercultural na Neuroplasticidade

Um estudo investigou a associação entre experiências interculturais e mudanças cognitivas autorrelatadas em adultos brasileiros, à luz do conceito de neuroplasticidade. A pesquisa caracterizou-se como exploratória, de abordagem mista, e foi composta por revisão bibliográfica narrativa e levantamento empírico. Este último foi realizado por meio de questionário online aplicado a 33 participantes que vivenciaram experiências em diferentes países. Coletaram-se dados sociodemográficos, características das vivências internacionais e autoavaliações relacionadas a funções executivas, aprendizagem, memória, atenção e comunicação social. Os resultados indicaram predominância de percepções positivas de mudanças cognitivas, especialmente nos domínios da flexibilidade cognitiva, planejamento, tomada de decisão, aprendizagem e competências comunicativas. A maioria dos participantes relatou a manutenção dessas mudanças ao longo do tempo, associando-as principalmente à duração da experiência, à necessidade de adaptação e ao contato intercultural direto. Os achados sugerem que experiências interculturais constituem contextos de estimulação cognitiva complexa, potencialmente associados a processos de reorganização funcional em múltiplos domínios cognitivos na vida adulta.

Palavras-chave: Adaptação cognitiva; Adaptação cultural; Aprendizagem; Flexibilidade cognitiva; Funções executivas.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

24 de agosto de 2026

Estudo Comparativo: o Conhecimento Docente sobre Neuroplasticidade e Práticas Pedagógicas na Rede Direta e Indireta

A primeira infância constitui um período crítico de plasticidade neural, no qual a qualidade das intervenções pedagógicas determina a arquitetura cerebral e o desenvolvimento integral da criança. O presente estudo teve como objetivo comparar o conhecimento docente sobre neuroplasticidade e sua aplicação prática em unidades de educação infantil de administração direta e indireta na cidade de São Paulo. A metodologia consistiu em um estudo de caso descritivo com abordagem mista, no qual foram aplicados questionários de autopercepção com docentes e realizada uma análise documental de projetos políticos pedagógicos, relatórios de desenvolvimento de alunos e diários de bordo. Os resultados indicaram que, embora ambas as redes tenham executado práticas neurocompatíveis, a Rede Direta apresentou maior intencionalidade pedagógica e segurança técnica 20% superior na identificação de marcos do desenvolvimento, fator diretamente associado à maior carga horária de formação continuada. O estudo evidenciou que a formação continuada atuou como um divisor entre a prática intuitiva e a mediação baseada em evidências. Concluiu-se que o acesso ao saber neurocientífico e a equiparação dos tempos de reflexão docente são fundamentais para garantir maior equidade no desenvolvimento infantil e a eficácia das políticas públicas de educação em territórios de vulnerabilidade.

Palavras-chave: Educação Infantil; Formação Docente; Neurociência Aplicada; Primeira Infância; Redes de Ensino.

24 de agosto de 2026

Precificação Baseada em Valor como Estratégia Competitiva Frente ao Modelo Orientado por Custos

A gestão estratégica de preços consolidou-se como fator determinante para a sustentabilidade e competitividade em mercados industriais, onde a transição de modelos baseados em custos para estratégias orientadas ao valor representa um desafio cultural e operacional crítico. Este estudo teve como objetivo comparar as práticas de precificação em duas unidades industriais do setor business-to-business (B2B), analisando como o alinhamento com a estratégia baseada em valor impacta a sustentabilidade do negócio. Para tanto, investigou-se uma unidade operacional e uma unidade que recentemente descontinuou suas atividades, buscando identificar correlações entre a gestão de preços e a viabilidade competitiva. Adotou-se uma abordagem qualitativa com elementos comparativos, a partir de entrevistas semiestruturadas aplicadas a gestores de duas empresas do setor metalmecânico, utilizando questões fechadas em escala Likert e perguntas abertas organizadas em sete dimensões analíticas relacionadas à maturidade em precificação. Os resultados evidenciaram que a empresa em operação apresentou maior estruturação de processos, melhor integração entre áreas, uso mais frequente de indicadores e ambiente cultural mais favorável à sustentação de preços com base no valor entregue ao cliente. Em contraste, a empresa descontinuada demonstrou fragilidades na formalização da precificação, baixa integração interfuncional, limitações na comunicação de valor e forte predominância de uma cultura orientada por custos. O estudo reforçou que a adoção da precificação baseada em valor requer a institucionalização de processos interfuncionais e governança para garantir a perenidade organizacional frente à pressão competitiva.

Palavras-chave: Concorrência; Cultura; Governança; Liderança.

24 de agosto de 2026

Modelo Preditivo de Risco Reputacional Baseado em Textos Jornalísticos

A reputação corporativa é um ativo intangível crítico, cuja volatilidade na era digital torna as organizações suscetíveis a crises por exposições midiáticas negativas. O estudo desenvolveu um modelo preditivo de risco reputacional para identificar se variáveis da cobertura de mídia, como volume, sentimento e léxico, atuam como precursores de danos severos. A metodologia fundamentou-se na coleta de dados via Web Scraping de notícias sobre eventos de risco ocorridos entre 2023 e 2025. O processamento utilizou Processamento de Linguagem Natural (NLP) para análise de sentimento e feature engineering. A modelagem consistiu em uma tarefa de classificação binária supervisionada, com o target de dano grave determinado por proxies quantificáveis, como impactos financeiros e penalidades regulatórias. Foram comparados os algoritmos Regressão Logística, Random Forest e XGBoost, além da implementação de um modelo Ensemble, em ambiente Python, validados pelas métricas AUC-ROC e F1-Score. Os resultados apontaram a superioridade da abordagem conjunta (Ensemble), que alcançou F1-Score de 0.878 e Recall de 85.4%, e a viabilidade de estimar a probabilidade de crises e estabelecer limiares de risco acionáveis. Comprovou-se a eficácia da integração entre NLP e Machine Learning para a mitigação proativa de riscos corporativos, oferecendo uma ferramenta de suporte à decisão para equipes de comunicação corporativa e gestão de riscos.

Palavras-chave: Análise de Sentimentos; Aprendizado de Máquina; Danos à reputação; Modelagem de Dados Históricos; Processamento de Linguagem Natural (PLN).

Compliance E Esg

24 de agosto de 2026

Liderança Feminina Negra no Brasil: como Políticas Corporativas de Diversidade Apoiam Trajetórias de Sucesso

O presente estudo analisou como as políticas corporativas de diversidade e inclusão influenciaram as trajetórias profissionais de mulheres negras que ocupam cargos de liderança no Brasil. O estudo buscou compreender as experiências e percepções dessas profissionais em relação às práticas organizacionais que moldaram seu desenvolvimento e ascensão. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, e coletou dados por meio de levantamento de campo, utilizando questionário semiestruturado com 30 mulheres negras em posições de liderança. Os resultados revelaram que a maioria das participantes possuía alta qualificação acadêmica, atuava predominantemente na região Sudeste e ocupava cargos intermediários de liderança, como supervisão e coordenação. Observou-se a coexistência de trajetórias recentes e consolidadas, indicando avanços na inserção de mulheres negras em liderança, mas também a persistência de limites estruturais que dificultaram a progressão para níveis hierárquicos superiores. Esses achados indicaram que, embora as políticas de diversidade e inclusão fossem relevantes, seus efeitos mostraram-se insuficientes quando não articulados a transformações organizacionais mais amplas voltadas à equidade racial e de gênero, sugerindo que o esforço individual emergiu como estratégia central de trajetória em contextos de suporte institucional frágil.

Palavras-chave: Ascensão profissional; Diversidade organizacional; Inclusão; Interseccionalidade; Políticas corporativas.

24 de agosto de 2026

Segmentação Estratégica de Adquirentes Brasileiras por Clusterização Multivariada

O setor de adquirência desempenha um papel central na infraestrutura de pagamentos, e compreender as diferenças estruturais entre as empresas adquirentes, com base em indicadores operacionais e econômicos, mostrou-se crucial para diagnósticos e decisões fundamentados em dados. O estudo teve como objetivo segmentar as adquirentes brasileiras utilizando indicadores trimestrais de porte, capilaridade, mix de canais e métricas econômicas, empregando análise exploratória de dados e o algoritmo de agrupamento K-means para identificar perfis estratégicos distintos. Realizou-se uma pesquisa quantitativa, exploratória e descritiva, utilizando uma base de dados estruturada com informações trimestrais de adquirentes brasileiras ao longo de doze períodos. A definição do número de agrupamentos baseou-se no método do cotovelo (elbow method) e no coeficiente de silhueta, sendo a interpretação reforçada pela visualização via Análise de Componentes Principais (PCA). Os principais resultados revelaram a formação de dois perfis predominantes: um caracterizado por maior escala e capilaridade, com elevado volume de transações e spreads médios mais comprimidos; e outro com maior participação do canal remoto e maior monetização relativa, evidenciada pela taxa MDR e por spreads médios mais elevados. Concluiu-se que o agrupamento reduziu a complexidade multivariada do mercado a perfis interpretáveis, oferecendo uma base objetiva para benchmarking e para a interpretação estratégica do posicionamento das adquirentes, com potencial de aplicação na análise de dados para a tomada de decisões.Palavras-chave: Adquirência; Análise multivariada; K-means; Pagamentos digitais; Perfis estratégicos.

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