10 de agosto de 2026
Importância da previdência complementar face ao déficit da previdência oficial
Adriane Yokoda; Pedro Cosentino Delvizio
DOI: 10.22167/2675-6528-202600495
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A manutenção do padrão de vida após a aposentadoria representa uma preocupação crescente, especialmente diante do déficit persistente na previdência oficial brasileira. Este estudo objetivou analisar o nível de conhecimento e a preocupação dos indivíduos em idade economicamente ativa sobre a manutenção de sua renda pós-aposentadoria, bem como a percepção da necessidade de investir em previdência complementar. Realizou-se uma pesquisa quantitativa por meio de questionários online, aplicados a 227 participantes categorizados por sexo, idade, renda e vínculo previdenciário. Complementarmente, foram levantados dados sobre o déficit da previdência do INSS e de outros órgãos oficiais. Os resultados revelaram que apenas 44,5% dos respondentes conheciam a projeção de sua aposentadoria, e, dentre estes, 78,7% esperavam uma redução de renda. Apesar da evidência do déficit previdenciário e da projeção de queda salarial, menos da metade dos entrevistados (44,5%) possuía um plano de previdência complementar, e 30,8% não manifestaram intenção de contratar. Concluiu-se que, embora o déficit da previdência oficial e a iminente redução salarial pós-aposentadoria sejam realidades, a preocupação com a complementação de renda via previdência privada ainda não se traduziu em alta adesão por parte da população.
Palavras-chave: Aposentadoria; Déficit; INSS; RGPS; RPPS.
1. Introdução
A manutenção do padrão de vida após a aposentadoria representa uma preocupação crescente para muitos indivíduos na sociedade contemporânea. Essa fase da vida frequentemente acarreta um aumento nas despesas, notadamente com saúde, exigindo um planejamento financeiro cuidadoso durante o período de atividade laboral para evitar dificuldades futuras (Giambiagi e Tafner, 2024).
No Brasil, o sistema previdenciário oficial, composto pelo Regime Geral de Previdência Social (RGPS), administrado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e pelos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), enfrenta um persistente déficit. O governo tem consistentemente despendido mais recursos do que arrecada, uma situação que compromete a sustentabilidade fiscal e a capacidade de investimento em outras áreas essenciais, como educação.
Esse desequilíbrio é impulsionado por fatores demográficos significativos. O envelhecimento da população, resultado do aumento da expectativa de vida e da redução das taxas de natalidade, prolonga o período de pagamento de benefícios e diminui a proporção de trabalhadores ativos em relação aos aposentados. Nese e Giambiagi (2020) ilustram essa tendência com projeções de pirâmides etárias que mostram um afunilamento da base de jovens e um inchaço nas faixas etárias mais avançadas, indicando uma inversão da pirâmide etária tradicional.
Para tentar mitigar o déficit, diversas reformas previdenciárias foram implementadas. A Emenda Constitucional nº 103, promulgada em 2019, por exemplo, endureceu as regras de concessão de benefícios, estabelecendo idades mínimas de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens, além de exigir tempos de contribuição mais longos. Anteriormente, a Emenda Constitucional nº 41/2003 já havia alterado o valor da aposentadoria. Apesar dessas medidas, os regimes de previdência administrados pela União acumularam um déficit de R$ 418,9 bilhões em 2024, sem projeções de superávit no curto prazo. O INSS, em 2026, paga benefícios a 24,3 milhões de aposentados, totalizando R$ 47,4 bilhões mensais, enquanto o número de contribuintes, 62,2 milhões em 2024, cresceu a uma taxa inferior ao aumento dos benefícios (INSS, 2022; INSS, 2025).
O modelo de solidariedade que sustenta a previdência oficial, onde os trabalhadores ativos financiam os aposentados, torna-se cada vez mais pressionado. Embora o sistema não esteja em risco de “falir” no sentido de deixar de pagar benefícios, o crescente déficit impõe um ônus financeiro ao governo, que se reflete em aumentos nas alíquotas de contribuição, postergação da idade de aposentadoria e, frequentemente, na redução do valor dos vencimentos para os futuros aposentados. Tais ajustes afetam diretamente o planejamento financeiro individual e a qualidade de vida na velhice.
Diante desse cenário, a previdência complementar surge como uma alternativa crucial para que os indivíduos possam manter seu padrão de vida após a aposentadoria. Diferentemente do sistema oficial, a previdência privada é um investimento individualizado, sem o caráter de solidariedade, onde o contribuinte acumula recursos para seu próprio benefício. Essa modalidade, que pode ser atrativa e rentável, tem demonstrado crescimento, com o volume financeiro das contribuições atingindo R$ 214,3 bilhões em setembro de 2025, conforme dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FENAPREVI, 2025).
Apesar da evidência do déficit previdenciário oficial e da iminente redução salarial pós-aposentadoria para a maioria dos trabalhadores, a preocupação em complementar a renda por meio de planos de previdência privada ainda não é amplamente disseminada. Muitos indivíduos desconhecem a projeção de seus rendimentos futuros e não realizam o planejamento adequado para essa fase da vida, o que representa uma lacuna significativa tanto na conscientização quanto na ação prática. Este cenário destaca a urgência de uma maior compreensão sobre a importância de um planejamento previdenciário complementar.
Nesse contexto, este estudo se justifica pela necessidade de compreender a percepção da população sobre a realidade previdenciária e seu planejamento. O presente trabalho objetivou analisar o conhecimento e preocupação que as pessoas têm sobre a manutenção de sua renda após a aposentadoria, considerando o déficit da previdência oficial atual, e pesquisar se consideram necessário investir em planos de previdência complementar para manter seu padrão salarial após pararem de trabalhar.
2. Material e Métodos
O presente estudo foi delineado com o propósito de analisar o conhecimento e a preocupação dos indivíduos em idade economicamente ativa sobre a manutenção de sua renda após a aposentadoria, bem como a percepção da necessidade de investir em previdência complementar. Para tanto, adotou-se uma abordagem metodológica quantitativa, de natureza exploratória e descritiva, buscando compreender as percepções da população sobre a realidade previdenciária e seu planejamento.
A estratégia de pesquisa consistiu na coleta de dados primários e secundários. Os dados primários foram obtidos por meio de um questionário online, enquanto os dados secundários foram levantados a partir de informações sobre o déficit da previdência do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e de outros órgãos oficiais, conforme o objetivo do estudo.
Os participantes da pesquisa foram indivíduos maiores de 18 anos e ainda não aposentados, totalizando 227 respondentes. A seleção ocorreu por conveniência, mediante convite da pesquisadora via link de WhatsApp, que foi livremente compartilhado, ampliando o alcance da amostra. Não foram aplicados critérios de exclusão além da condição de não aposentado e maioridade.
O instrumento de coleta de dados primários foi um questionário online, composto por questões alternativas. As perguntas foram elaboradas para investigar o conhecimento dos participantes sobre a projeção de seus rendimentos após a aposentadoria e seu planejamento para essa fase da vida. O questionário não solicitou a identificação dos entrevistados, garantindo o anonimato dos participantes.
Para a análise das respostas, os participantes foram categorizados conforme sexo, idade, renda e condição de vínculo empregatício. Essa categorização permitiu a comparação das percepções entre diferentes grupos demográficos e socioeconômicos, sem, contudo, antecipar quaisquer resultados ou tendências.
A divisão por faixa etária foi empregada para verificar possíveis diferenças entre gerações, considerando que os mais jovens foram mais impactados por reformas previdenciárias recentes. A condição de vínculo empregatício, que incluía servidor público, trabalhador de empresa privada ou autônomo/profissional liberal, foi utilizada para explorar variações entre esses grupos, historicamente com diferentes regimes previdenciários.
A categorização por sexo foi incluída para investigar se havia distinções nas perspectivas de homens e mulheres sobre o tema previdenciário. A faixa de renda foi analisada para observar como diferentes níveis salariais poderiam influenciar a percepção sobre a redução da renda na aposentadoria, dado que o impacto da previdência oficial varia conforme o patamar de rendimento.
A coleta de dados primários foi realizada integralmente online, por meio do envio do link do questionário via WhatsApp, no período compreendido entre 1º de janeiro de 2026 e 12 de abril de 2026. Os respondentes residiam em diversas unidades federativas do Brasil, com a maioria concentrada no estado de São Paulo.
Após a coleta, os dados foram organizados e analisados por meio de estatística descritiva. Realizou-se a tabulação das respostas para computar os percentuais de cada categoria, permitindo a comparação entre as faixas etárias, sexo, renda e vínculo empregatício dos participantes em relação às questões propostas.
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados da pesquisa revelou um cenário complexo e multifacetado em relação ao conhecimento e planejamento previdenciário da população economicamente ativa, em contraste com a realidade deficitária da previdência oficial brasileira. Os achados demonstram uma lacuna significativa entre a percepção individual e a necessidade premente de planejamento para a manutenção do padrão de vida pós-aposentadoria, especialmente no que tange à previdência complementar.
Contexto da previdência oficial
O sistema previdenciário brasileiro é composto principalmente pelo Regime Geral de Previdência Social (RGPS), gerido pelo INSS, e pelos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), destinados aos servidores públicos. Ambos se baseiam em um modelo de solidariedade, onde as contribuições dos trabalhadores ativos financiam os benefícios dos aposentados. O menor salário de aposentadoria pago pelo INSS é de R$ 1.621,00, enquanto o máximo atinge R$ 8.475,55, conforme dados atualizados para 2026. Para os servidores públicos, os valores mínimos e máximos seguem o estipulado pelo INSS para aqueles admitidos após a Emenda Constitucional 103/2019.
A Emenda Constitucional 103/2019
A Emenda Constitucional nº 103, promulgada em novembro de 2019, representou uma reforma substancial nas regras de aposentadoria, visando mitigar o déficit previdenciário. Essa reforma impactou tanto o RGPS quanto o RPPS, corrigindo situações de aposentadorias precoces. Contudo, mesmo após seis anos de sua implementação, o déficit persiste, com os regimes de previdência administrados pela União acumulando R$ 418,9 bilhões em 2024, sem projeções de superávit no curto prazo. Este cenário indica a provável necessidade de futuras reformas previdenciárias para garantir a sustentabilidade do sistema.
As regras para aposentadoria
Atualmente, as regras gerais do INSS estabelecem idades mínimas de 62 anos para mulheres, com 15 anos de contribuição, e 65 anos para homens, com 20 anos de contribuição. A Emenda Constitucional 103/2019 eliminou a aposentadoria unicamente por tempo de contribuição, que permitia que muitos se aposentassem por volta dos 50 anos de idade. Para servidores públicos federais vinculados ao RPPS, a idade mínima é a mesma, mas exige 25 anos de contribuição, 10 anos no serviço público e 5 anos no cargo. Existem regras de transição para aqueles que já eram vinculados antes da Emenda, como a regra de pontos e a de pedágio de 50% ou 100%, que ajustam a idade e o tempo de contribuição exigidos.
As alíquotas de contribuição
As alíquotas de contribuição também foram alteradas pela reforma, tornando-se escalonadas e crescentes conforme a faixa salarial. No RGPS, as alíquotas variam entre 7,5% e 14%, enquanto no RPPS, podem chegar a 22%. Anteriormente, os percentuais máximos eram de 11%. Essa mudança visa aumentar a arrecadação para tentar equilibrar as contas da previdência, mas também representa um aumento da carga tributária para os trabalhadores, especialmente aqueles com rendas mais elevadas.
O cálculo do valor dos vencimentos
No RGPS, o valor da aposentadoria corresponde a 60% da média de todas as contribuições, com um acréscimo de 2% para cada ano que exceder 15 anos de contribuição para mulheres e 20 anos para homens. Embora o valor possa ultrapassar 100% da média, ele é limitado ao teto máximo do INSS, que em 2026 é de R$ 8.475,55. O pagamento mínimo não pode ser inferior a um salário vigente. Para servidores do RPPS que ingressaram no serviço público até 31/12/2003, o valor da aposentadoria é equivalente à sua última remuneração, o que representa uma diferença significativa em relação às regras atuais.
O déficit orçamentário
O INSS e os demais órgãos de previdência oficial operam com déficits persistentes, impulsionados principalmente pelo envelhecimento da população e pela desaceleração do número de nascimentos. A população vive mais, recebendo benefícios por um período prolongado, enquanto as novas gerações não conseguem repor o número de contribuintes ativos. O Tribunal de Contas da União (TCU) reportou um déficit de R$ 418,9 bilhões para os órgãos federais em 2024. Além disso, municípios do estado de São Paulo enfrentam um déficit de R$ 45,4 bilhões, e o IPREM do município de São Paulo acumulou um déficit de R$ 473,7 bilhões até outubro de 2025. Esses números evidenciam a insustentabilidade do modelo atual sem reformas contínuas.
Existe risco de a previdência “quebrar” e os aposentados ficarem sem receber?
A previdência oficial, embora deficitária, não corre o risco de “falir” no sentido de deixar de pagar benefícios, pois o Estado tem a obrigação de garantir a aposentadoria dos cidadãos. No entanto, o crescente déficit aumenta os gastos governamentais, impactando a composição do Produto Interno Bruto (PIB). As consequências para os cidadãos se manifestam em aumento das alíquotas de contribuição, postergação da idade de aposentadoria e, frequentemente, na redução do valor dos vencimentos, o que corrobora a necessidade de planejamento individual para complementar a renda futura.
A previdência privada
Diante do cenário da previdência oficial, a previdência privada surge como uma alternativa crucial para a complementação de renda. Diferentemente do sistema público, ela é um investimento individualizado, sem o caráter de solidariedade, onde o contribuinte acumula recursos para seu próprio benefício. Em setembro de 2025, o volume financeiro das contribuições em previdência privada atingiu R$ 214,3 bilhões, segundo a FENAPREVI, indicando um crescimento na modalidade. Existem dois tipos principais: as entidades fechadas de previdência complementar (EFPC), fiscalizadas pela PREVIC, e as entidades abertas de previdência complementar (EAPC), fiscalizadas pela SUSEP. As EFPCs são geralmente ligadas a empresas e podem ter patrocínio do empregador, enquanto as EAPCs são oferecidas por bancos e seguradoras, permitindo maior flexibilidade na escolha de investimentos e tributação.
Pesquisa
A pesquisa realizada com 227 participantes revelou que apenas 44,5% dos respondentes possuíam conhecimento sobre a projeção de sua aposentadoria, incluindo a data e o valor dos rendimentos. Esse desconhecimento foi mais acentuado entre os trabalhadores da iniciativa privada vinculados à CLT, em comparação com servidores públicos, dos quais 60% dos estatutários e 66,7% dos celetistas informaram saber. A análise por faixa etária indicou que mais da metade das pessoas entre 26 e 55 anos desconhecia essa informação, com percentuais de 55,76% para a faixa de 26 a 35 anos e 57,4% para a faixa de 46 a 55 anos.
A renda também se mostrou um fator determinante no nível de conhecimento sobre a aposentadoria. Entre os entrevistados, 63,8% daqueles com renda acima de dez salários mínimos conheciam sua projeção de aposentadoria, enquanto apenas 12,5% dos que ganhavam até dois salários mínimos possuíam essa informação. Essa disparidade sugere que indivíduos com maior poder aquisitivo tendem a ter maior acesso ou interesse em informações sobre seu futuro previdenciário, ou que a complexidade do sistema se torna mais relevante para quem tem rendimentos mais altos.
Em relação à expectativa de renda pós-aposentadoria, 78,7% dos respondentes que conheciam sua projeção de aposentadoria esperavam uma redução considerável de seus rendimentos. Esse percentual foi elevado em todas as faixas de renda, atingindo 72,7% entre os que ganham até dois salários mínimos e 80% entre os que ganham acima de dez salários. A percepção de redução de renda foi ainda mais acentuada entre as faixas etárias acima de 25 anos, com mais de 70% esperando essa diminuição, e um pico de 92,1% entre os respondentes de 36 a 45 anos.
A análise por vínculo empregatício também demonstrou que a expectativa de redução de renda é generalizada. Entre os que estão trabalhando, 65,1% dos servidores estatutários, 95% dos servidores celetistas (públicos), 84,4% dos trabalhadores celetistas privados e 85,7% dos profissionais liberais ou autônomos esperavam uma diminuição em seus vencimentos. Essa constatação reforça a ideia de que as reformas previdenciárias e o cenário econômico atual impactam a segurança financeira de todos os segmentos de trabalhadores, independentemente do regime de previdência ao qual estão vinculados.
Apesar da ampla expectativa de redução de renda, a adesão a planos de previdência complementar ainda é baixa. Apenas 44,5% dos entrevistados possuíam algum tipo de previdência privada (aberta ou fechada), e um percentual significativo de 30,8% não manifestou intenção de contratar um plano. A posse de previdência complementar variou por faixa etária, sendo de 33,33% entre 18 e 25 anos, e atingindo o pico de 50,8% entre 46 e 55 anos, indicando um aumento da preocupação com a proximidade da aposentadoria.
A posse de previdência complementar também se correlacionou com a faixa de renda, sendo significativamente maior entre os que recebem salários mais altos. Enquanto 65,3% dos que ganham mais de dez salários mínimos possuíam um plano, apenas 16,7% dos que recebem até dois salários tinham essa proteção. Essa diferença sugere que a capacidade de investimento e a conscientização sobre a importância da previdência privada são mais presentes em grupos de maior poder aquisitivo, o que pode agravar a desigualdade de renda na aposentadoria.
Em relação ao vínculo empregatício, 44,6% dos servidores estatutários e 83,3% dos servidores celetistas (públicos) possuíam previdência complementar, enquanto 38,7% dos trabalhadores celetistas privados e 65,3% dos profissionais liberais ou autônomos também a tinham. Curiosamente, 12,5% dos desempregados entrevistados também informaram possuir um plano. Esses dados indicam que, embora a adesão geral seja moderada, certos grupos profissionais, como os servidores celetistas, demonstram maior proatividade na busca por complementação de renda.
A pesquisa também revelou que a maioria dos respondentes, 58,1%, não possuía outras fontes de renda que pudessem garantir seu padrão salarial após a aposentadoria, como aluguéis ou aplicações financeiras. Dentre esses, 81 pessoas, ou seja, 35,7% do total de entrevistados, não possuíam nem outras fontes de renda nem um plano de previdência complementar. Esse achado é particularmente preocupante, pois indica uma vulnerabilidade financeira significativa para uma parcela considerável da população no futuro.
No que diz respeito ao planejamento da aposentadoria, 44,5% dos entrevistados consideravam que seus vencimentos sofreriam reajustes conforme um índice oficial, enquanto 18,5% esperavam reajustes conforme a rentabilidade de seus investimentos. Outros 14,5% incluíam ambos os fatores em sua projeção, e 13,7% dependiam de outros fatores, como recebimento de aluguéis. Um percentual de 8,8% não sabia como sua projeção de aposentadoria considerava as variações macroeconômicas, evidenciando a falta de um planejamento financeiro robusto e abrangente.
Em síntese, os resultados da pesquisa confirmam que, apesar da realidade do déficit da previdência oficial e da iminente redução salarial para a maioria dos futuros aposentados, o nível de conhecimento sobre a projeção de aposentadoria e a adesão a planos de previdência complementar ainda são insuficientes. Essa desconexão entre a percepção da necessidade e a ação prática de planejamento financeiro representa um desafio significativo para a manutenção do padrão de vida da população brasileira na velhice, reiterando a importância de iniciativas que promovam maior conscientização e educação financeira previdenciária.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar o nível de conhecimento e a preocupação de indivíduos em idade economicamente ativa sobre a manutenção de sua renda pós-aposentadoria, bem como a percepção da necessidade de investir em previdência complementar, diante do cenário de déficit da previdência oficial brasileira. Verificou-se que o sistema previdenciário público, composto pelo Regime Geral de Previdência Social e pelos Regimes Próprios de Previdência Social, opera com um persistente déficit, acumulando cifras bilionárias, mesmo após as reformas implementadas pela Emenda Constitucional nº 103/2019. Essa realidade impõe a perspectiva de aumento de alíquotas, postergação da idade de aposentadoria e, frequentemente, a redução dos valores dos benefícios futuros.
A pesquisa realizada com 227 participantes revelou que apenas 44,5% dos respondentes possuíam conhecimento sobre a projeção de sua aposentadoria, incluindo data e valor dos rendimentos, sendo este desconhecimento mais acentuado entre trabalhadores da iniciativa privada e indivíduos de menor renda. Observou-se que 78,7% daqueles que conheciam sua projeção esperavam uma redução considerável de seus rendimentos pós-aposentadoria. Contudo, apesar dessa expectativa generalizada de queda salarial e da evidência do déficit previdenciário oficial, menos da metade dos entrevistados (44,5%) possuía um plano de previdência complementar, e 30,8% não manifestaram intenção de contratar. Essa constatação evidencia uma lacuna significativa entre a percepção da iminente redução de renda e a adoção de medidas proativas de planejamento financeiro individual, destacando a contribuição do estudo ao mapear essa desconexão e a urgência de maior conscientização sobre a previdência privada como ferramenta essencial para a manutenção do padrão de vida na velhice.
Referências Bibliográficas
Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FENAPREVI). 2025. Relatório Gerencial de Previdência Complementar. Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/assuntos/previdencia-complementar/rgpc/2025/rgpc_2025_3tri.pdf. Acesso em 01 fev. 2026.
Giambiagi, F.; Tafner, P. 2024. A Reforma Inacabada. 1. Alta Books, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). 2022; INSS paga 24,3 milhões de aposentadorias e injeta R$ 47,4 bilhões por mês na economia. Disponível em: https://www.gov.br/inss/pt-br/assuntos/inss-paga-24-3-milhoes-de-aposentadorias-e-injeta-r-47-4-bilhoes-por-mes-na-economia. Acesso em 24 jan. 2026.
Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). 2025. Média mensal de contribuintes previdenciários atinge 62,2 milhões de pessoas e bate recorde histórico. Disponível em https://www.gov.br/previdencia/pt-br/noticias/2025/outubro/media-mensal-de-contribuintes-cresceu-1.6-milhao-e-eatingiu-62.2-milhoes-de-pessoas-recorde-historico. Acesso em 24 jan. 2026.
Nese, A.; Giambiagi, F. 2020. Fundamentos da Previdência Complementar – Da administração à Gestão de Investimentos. 1. Editora Atlas, São Paulo – SP, Brasil.
Tribunal de Contas da União (TCU). 2025. Resultado dos regimes de previdência mantidos pela União. Disponível em: https://sites.tcu.gov.br/contas-do-presidente/ficha-01.html. Acesso em 31 jan. 2026.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

