29 de julho de 2026
Importância da fiscalização e gestão de projetos em obras de saneamento
Eduardo Bispo dos Santos; Daniel Augusto Pagi Ferreira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600749
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
Este trabalho investigou a importância do profissional de Engenharia Civil no contexto da fiscalização de projetos em obras de saneamento. O objetivo foi analisar o papel desse profissional, apresentando um estudo de caso do Pacote A do projeto Integra Tietê, que visa a despoluição do Rio Tietê pela descarga de esgoto tratado em São Paulo/SP. Para tanto, observaram-se ferramentas de diagnóstico que promovem melhorias contínuas em processos, como a análise SWOT, a metodologia 5W2H e o PMBOK® Guide, elaborado pelo PMI. Os resultados principais indicaram que o engenheiro civil atua no planejamento, gestão, viabilização técnica/financeira e conformidade regulatória de projetos de infraestrutura de água e esgoto, por vezes em escritórios “back office” em vez de obras de campo. Além disso, o engenheiro fiscal orienta sobre a preservação ambiental e a proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs), garantindo a sustentabilidade do projeto. Concluiu-se que o desempenho do projeto está fortemente associado à competência, ao engajamento e à comunicação entre os membros da equipe, o que sustenta a importância de uma equipe fiscalizadora de engenheiros civis em obras de saneamento básico.
Palavras-chave: 5W2H; EAP Pacote A; Equipe da Engenharia Civil; Lean Construction; PMI.
1. Introdução
O saneamento básico é um pilar fundamental para a saúde pública e a qualidade de vida da população, com impactos diretos no desenvolvimento socioeconômico de um país. No Brasil, a universalização desses serviços ainda representa um desafio significativo. Dados recentes revelam que nove milhões de residências não possuem acesso adequado à água potável, e cerca de 354 mil imóveis descartam o equivalente a duas mil piscinas olímpicas de esgoto em rios e praias mensalmente (Sabesp, 2025). Essa realidade, que totaliza aproximadamente 4,6 bilhões de litros de esgoto sem tratamento por mês, contribui para a poluição hídrica, a proliferação de doenças e a degradação ambiental, evidenciando a urgência de investimentos e gestão eficazes na área.
Diante desse cenário, o arcabouço legal brasileiro tem evoluído para impulsionar a melhoria dos serviços. A Lei nº 11.445/2007 (Brasil, 2007) estabeleceu as diretrizes nacionais para o saneamento básico, e o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, Lei nº 14.026/2020 (Brasil, 2020), atualizou essas normativas com o objetivo de promover a universalização, a qualidade e a continuidade dos serviços. O Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES, 2021) reforça que a implementação de um saneamento inclusivo e eficiente gera benefícios substanciais para a sociedade, abrangendo desde a saúde até a economia e o meio ambiente.
Nesse contexto, o profissional de Engenharia Civil desempenha um papel central, atuando no planejamento, gestão, viabilização técnico-financeira e conformidade regulatória de projetos de infraestrutura de água e esgoto (Kaio et al., 2024). A complexidade dessas obras, muitas vezes de grande porte e com impacto ambiental significativo, exige uma atuação multidisciplinar e rigorosa. O engenheiro civil, seja em funções de “back office” ou diretamente em campo, é responsável por assegurar que os empreendimentos sejam executados de acordo com as especificações técnicas, prazos e orçamentos estabelecidos, além de garantir a aderência às normas ambientais e de segurança.
A fiscalização em obras de saneamento, em particular, é uma atividade crítica. O engenheiro fiscal orienta sobre a preservação ambiental e a proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs), elementos cruciais para a sustentabilidade dos projetos. Para otimizar essa fiscalização e a gestão de projetos, diversas ferramentas de diagnóstico e metodologias são empregadas. O PMBOK® Guide (PMI, 2021), por exemplo, oferece um guia abrangente para o gerenciamento de projetos, enquanto abordagens como a análise SWOT e a ferramenta 5W2H (Gerhardt e Silveira, 2009) são utilizadas para identificar pontos fortes, fracos, oportunidades e ameaças, e para planejar ações de forma clara e eficiente. A “Lean Construction” (Pedroso e Lucena, 2022) também contribui para a otimização de processos e a redução de desperdícios.
Adicionalmente, a incorporação de tecnologias digitais avançadas, como a Inteligência Artificial (IA) e o “machine learning”, tem se mostrado promissora na fiscalização de obras de saneamento. Essas tecnologias, aliadas ao uso de drones e sensores remotos, permitem o tratamento automatizado de grandes volumes de dados operacionais, financeiros e ambientais, tornando o controle mais ágil e preciso. Algoritmos podem analisar séries históricas, identificar inconsistências em cronogramas, detectar desvios de custos e antecipar riscos de atraso ou paralisação, contribuindo para a construção de modelos preditivos que sinalizam padrões anômalos (Russell e Norvig, 2021; Silva e Kriguer, 2025; Wang et al., 2020). Apesar desses avanços, a efetividade da fiscalização ainda depende da capacidade de articulação entre a tecnologia e a experiência prática dos profissionais.
Apesar da importância reconhecida do saneamento básico e do papel do engenheiro civil, existe uma lacuna na compreensão aprofundada sobre a atuação desse profissional no contexto da fiscalização de projetos em obras de saneamento. É fundamental investigar como as metodologias de gestão de projetos são aplicadas, quais as obrigações contratuais e regulatórias que norteiam suas atividades e como se dá o monitoramento e a execução diária em campo. A compreensão desses aspectos é crucial para aprimorar as práticas de fiscalização, garantir a conformidade dos projetos e, consequentemente, assegurar a entrega de serviços de saneamento com qualidade e sustentabilidade.
Este estudo se justifica pela necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a contribuição do engenheiro civil para a eficiência e sustentabilidade das obras de saneamento, visando aprimorar a gestão de projetos e a fiscalização. Assim, o objetivo geral deste trabalho é investigar a importância do profissional de Engenharia Civil no contexto da fiscalização de projetos em obras de saneamento, e especificamente: identificar metodologias utilizadas pelo engenheiro civil no projeto; saber sobre a obrigação de dominar o contrato acordado; e identificar seu trabalho de monitoramento e execução diária em campo.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza aplicada e de abordagem descritiva, configurando-se como um estudo de caso. Essa escolha metodológica foi fundamentada na necessidade de aprofundar a compreensão sobre as atitudes e os comportamentos de uma equipe envolvida no saneamento básico na cidade de São Paulo/SP. Conforme Gil (2010), a pesquisa descritiva visa descrever as características de uma população ou fenômeno, enquanto Yin (2010) reforça que o estudo de caso permite uma investigação aprofundada de fenômenos contemporâneos, especialmente em contextos organizacionais e sociais dinâmicos.
O objeto empírico do estudo concentrou-se na atuação do profissional de Engenharia Civil no contexto da fiscalização de projetos em obras de saneamento. Para tanto, realizou-se um estudo de caso específico do Pacote A do projeto Integra Tietê, implementado pelo Governo de São Paulo em 2023. Este projeto visa a despoluição do Rio Tietê, por meio de ações estruturantes que combinam saneamento básico, desassoreamento e fiscalização, com investimentos que superam R$ 23,5 bilhões e metas de redução da carga orgânica em 54% até 2029, buscando a universalização do saneamento (Areal, 2023).
A metodologia empregou a observação de ferramentas de diagnóstico que promovem melhorias contínuas em processos. Utilizou-se a análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats) como parte de um planejamento estratégico para obras de saneamento básico. Adicionalmente, aplicou-se a metodologia 5W2H, que organiza ações por meio de perguntas como “o que”, “o que será feito”, “por que”, “onde”, “quando”, e “como” e “custo”. Os ensinamentos do PMBOK® Guide, elaborado pelo Project Management Institute (PMI, 2021), também foram incorporados para o gerenciamento de projetos.
Os participantes da pesquisa foram profissionais responsáveis pelo Pacote A do projeto Integra Tietê, selecionados por conveniência. A amostra foi composta por 13 profissionais com experiência na área, incluindo um supervisor/coordenador/gerente de obras, três engenheiros civis com cargos administrativos em escritório, seis engenheiros civis atuantes na fiscalização de obra e três fiscais de obra em campo. Esses indivíduos foram escolhidos por sua atuação direta e experiência no serviço de execução do Pacote A.
Para a coleta de dados, elaborou-se um roteiro de pesquisa, que foi aplicado por meio de um formulário online via Google Forms. O questionário continha cinco perguntas abertas, focadas no operacional da fiscalização, e seis perguntas fechadas, que empregaram uma escala Likert de cinco pontos. As opções de resposta para as perguntas fechadas foram: Discordo totalmente, Discordo em parte, Não sei, Concordo plenamente e Concordo em parte.
A coleta de dados ocorreu em janeiro de 2026, com o envio do link do formulário aos participantes. Os dados coletados foram organizados e analisados de forma a integrar abordagens qualitativas e quantitativas. As respostas às perguntas abertas foram submetidas a uma análise qualitativa para identificar padrões e temas, enquanto os dados das perguntas fechadas, obtidos pela escala Likert, foram transformados em dados quantitativos para análise estatística.
Durante todo o processo de pesquisa, foram observados rigorosos cuidados éticos. Antes da participação, os respondentes receberam um termo de consentimento livre e esclarecido, garantindo a voluntariedade e a compreensão dos objetivos do estudo. As informações pessoais foram tratadas com confidencialidade, e o anonimato dos participantes foi assegurado, protegendo seus dados e opiniões.
3. Resultados e Discussão
A gestão de projetos, conforme delineado pelo “Project Management Body of Knowledge” (PMBOK® Guide) do Project Management Institute (PMI, 2021), representa um campo de conhecimento interdisciplinar essencial para planejar, executar, monitorar e encerrar empreendimentos. No contexto das obras de saneamento, essa abordagem integrada é crucial para lidar com a complexidade inerente a esses projetos, que são temporários, únicos e orientados a objetivos específicos. As áreas de conhecimento do PMBOK® Guide, como integração, escopo, cronograma, custos, qualidade, recursos humanos, comunicações, riscos e aquisições, fornecem um arcabouço sistêmico para organizar as atividades e competências da equipe de engenharia civil, conforme destacado por Kerzner (2021).
A atuação do engenheiro civil em obras de saneamento básico, como observado no estudo de caso do Pacote A do projeto Integra Tietê, concentra-se no planejamento, gestão, viabilização técnica e financeira, e na conformidade regulatória. Este profissional frequentemente opera em escritórios, realizando funções de “back office”, mas sua influência se estende diretamente ao campo. Suas responsabilidades abrangem desde a elaboração e revisão de contratos, licitações e monitoramento físico-financeiro, até o desenvolvimento de estudos preliminares, relatórios técnicos e orçamentos para a expansão ou manutenção de redes de água e esgoto. A preparação de documentação para licenças ambientais e a garantia de conformidade com as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) são também atividades centrais.
A fiscalização de obras de saneamento básico exige do engenheiro civil uma atuação multifacetada, que combina conhecimento técnico aprofundado, capacidade de gestão e um domínio rigoroso das normas jurídicas e contratuais. O contrato administrativo, em particular, é o instrumento fundamental que organiza e controla a execução da obra, estabelecendo responsabilidades, prazos, custos e padrões de qualidade. A compreensão detalhada desses documentos é indispensável para assegurar que o projeto seja executado conforme o planejado, minimizando desvios e garantindo a legalidade de todas as etapas, um aspecto crítico para a transparência e a eficácia da gestão pública.
A pesquisa envolveu 13 profissionais, sendo um supervisor/coordenador/gerente de obras, três engenheiros civis com cargos administrativos em escritório, seis engenheiros civis na fiscalização de obra e três fiscais de obra em campo. A maioria desses profissionais possuía entre cinco e mais de dez anos de experiência na área de saneamento básico, com exceção de alguns fiscais de campo que tinham menos de um ano ou entre um e três anos de atuação. Essa diversidade de experiência e função reflete a amplitude das responsabilidades do engenheiro civil no setor, desde o planejamento estratégico até a execução e fiscalização diária.
Um dos principais achados da pesquisa, em consonância com o objetivo de identificar o trabalho de monitoramento e execução diária em campo, revelou que o engenheiro fiscal é o profissional responsável por assegurar que os projetos de infraestrutura hídrica e de esgoto sejam executados em conformidade com o planejamento técnico, dentro do prazo, com qualidade e segurança. Ele atua como representante do contratante, seja público ou privado, diretamente no canteiro de obras. Essa presença em campo é vital para a validação da qualidade construtiva, especialmente em obras de saneamento, onde muitas estruturas são subterrâneas e de difícil verificação posterior.
No que tange à sustentabilidade, o engenheiro fiscal desempenha um papel crucial na orientação sobre a preservação ambiental e a proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs), garantindo que o projeto esteja alinhado com as diretrizes ambientais. A despoluição de um rio municipal, como o Rio Tietê, implica em objetivos ambientais claros e mensuráveis, com a meta de que 100% do esgoto coletado e tratado atenda aos indicadores de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO). Essa clareza de propósito é uma força (Strength) do projeto, mas a fiscalização inadequada pode comprometer esses resultados.
A fiscalização de obras públicas, em particular, beneficia-se da estrutura de conhecimentos sobre gerenciamento de projetos para formalizar processos decisórios, rastrear ações e padronizar práticas de planejamento e controle. No entanto, a aplicação isolada do PMBOK® Guide pode apresentar limitações no enfrentamento de desperdícios operacionais e variabilidades inerentes aos canteiros de obras. Isso sugere a necessidade de articular o PMBOK® Guide com abordagens complementares, como a “Lean Construction”, que busca maximizar o valor ao cliente e reduzir desperdícios de tempo, materiais e movimentação na construção civil (Pedroso e Lucena, 2022).
A pesquisa identificou diversos desafios, limitações e dificuldades na fiscalização de projetos de saneamento envolvendo engenheiros civis. Entre os mais citados, destacam-se a baixa qualidade das empresas contratadas e a escassez de fiscais experientes, o que aponta para a necessidade de programas de capacitação. Além disso, o desequilíbrio nas informações e as falhas de mercado contribuem para a ineficiência, enquanto a execução de serviços em locais não urbanizados apresenta dificuldades logísticas e de espaço físico para equipamentos, conforme apontado pelos participantes.
Outro desafio significativo é a resistência de alguns profissionais em utilizar ferramentas mais avançadas e assertivas, como softwares de geoprocessamento, preferindo controles manuais via planilha. Essa prática compromete a confiabilidade e rastreabilidade dos dados, resultando em uma gestão menos integrada e eficaz. Projetos de má qualidade também geram dificuldades em campo, como grandes interferências não mapeadas, presença de rocha e problemas de comunicação entre fiscalização e terceiros, levando a atrasos e postergação de prazos de execução, o que impacta diretamente a eficiência do projeto.
A alta demanda por serviços de saneamento e a burocratização excessiva dos processos, incluindo licenciamentos e alvarás, também foram apontadas como fatores que impactam a eficiência da execução das obras. A integração de todos os setores responsáveis pelo empreendimento para manter as informações atualizadas é um desafio constante, especialmente porque os projetos sofrem diversas mudanças. Adicionalmente, o trabalho em comunidades exige uma comunicação e um planejamento social prévio ao início da obra, o que nem sempre é adequadamente realizado, gerando entraves.
A presença de projetos muito antigos, com dados desatualizados sobre as vias, o solo e interferências não mapeadas (como redes antigas de gás, energia ou metrô), representa uma dificuldade considerável. Esses problemas de compatibilização de projetos e interferências em campo, somados às limitações de prazo e orçamento, falhas ou indefinições de projeto, e dificuldades de comunicação entre as partes envolvidas, criam um ambiente complexo para a fiscalização. A pressão por resultados e a burocracia dos processos exacerbam esses desafios, exigindo uma atuação ainda mais robusta do engenheiro civil.
O monitoramento cotidiano da obra, uma etapa essencial da fiscalização, envolve a verificação de diversos aspectos, como esgotamento sanitário, escavações para assentamento de tubulações, execução de poços de visita, instalação de redes coletoras e interligações domiciliares. Essas atividades são sujeitas a variáveis como condições geotécnicas, interferências com infraestruturas urbanas e limitações operacionais do ambiente urbano. A superfície lateral da vala, por exemplo, deve ser contida por perfis verticais de aço, pranchões de madeira de lei, longarinas de perfis de aço e estroncas de eucalipto com diâmetro mínimo de 0,20 metro, com cravação por bate-estacas, martelo vibratório ou pré-furo, conforme as especificações técnicas.
Nesse cenário, o engenheiro civil desempenha a função de avaliar continuamente a conformidade das atividades executadas, verificando se os métodos construtivos adotados pela empresa contratada seguem as especificações estabelecidas no projeto executivo e nas normas técnicas aplicáveis. O acompanhamento direto das frentes de serviço permite identificar precocemente eventuais desvios, possibilitando a adoção de medidas corretivas antes que problemas se consolidem no processo construtivo. A presença constante do fiscal em campo também exerce uma função preventiva, contribuindo para a redução de falhas construtivas.
A incorporação de tecnologias digitais avançadas, como a Inteligência Artificial (IA) e o “machine learning”, tem se mostrado promissora na fiscalização de obras de saneamento. Ferramentas como Building Information Modeling (BIM), drones para inspeções e acompanhamento de obras, sistemas digitais de gestão e medição, e aplicativos de campo com registros fotográficos e georreferenciados, são utilizadas. Essas tecnologias permitem o tratamento automatizado de grandes volumes de dados operacionais, financeiros e ambientais, tornando o controle mais ágil e preciso, e contribuindo para a construção de modelos preditivos que sinalizam padrões anômalos (Russell e Norvig, 2021; Silva e Kriguer, 2025; Wang et al., 2020).
Contudo, a pesquisa revelou que essas tecnologias são vistas como complementares à fiscalização presencial, e não como substitutas. Há uma preocupação clara com a formalização e padronização da fiscalização, e a automação é percebida como um meio de reduzir a subjetividade, indicando uma transição de uma fiscalização mais empírica para uma abordagem orientada por dados. Essa visão equilibrada entre inovação tecnológica e experiência prática e colaborativa é fundamental para o sucesso dos projetos de saneamento, garantindo que os entregáveis atendam aos requisitos e padrões estabelecidos, bem como às expectativas das partes interessadas (PMI, 2021).
As competências importantes para que engenheiros civis atuem de forma eficaz na fiscalização de projetos de saneamento incluem comunicação técnica, tomada de decisão, análise crítica, liderança e visão sistêmica. Os respondentes afirmaram que o saneamento ambiental, legislação e normas técnicas, gestão de contratos e projetos, além do domínio de ferramentas digitais, conhecimentos em gestão e planejamento de obras, hidráulica aplicada, sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário, são cruciais. Muitos engenheiros fiscais possuem formação em pós-graduação em saneamento ambiental ou engenharia sanitária e outros afirmam ter um “Manual Técnico ou Especificação Técnica, Regulamentação de Preços e Critérios de Medição” como guia.
Em relação às opiniões sobre o trabalho da engenharia civil, 84,6% dos entrevistados concordaram plenamente que o engenheiro civil possui responsabilidade socioambiental, contribuindo para que a fiscalização de obras de saneamento esteja alinhada às normas ambientais e tenha impacto positivo na comunidade. A totalidade dos participantes (100%) concordou plenamente que a atuação do engenheiro civil é fundamental no monitoramento e controle, acompanhando o progresso, identificando desvios e tomando ações corretivas para manter o projeto no rumo. Além disso, 84,6% concordaram plenamente que a eficiência e otimização do uso de recursos e processos são extremamente relevantes para obter os melhores resultados.
No controle de riscos, 77% dos entrevistados concordaram plenamente que o engenheiro civil participa ativamente na identificação e mitigação de riscos, evitando falhas e imprevistos, enquanto 15% concordaram em parte e 6% não souberam responder. Para garantir que as entregas atendam aos padrões de qualidade esperados, 85% concordaram plenamente que o engenheiro civil é o profissional mais bem indicado para liderar essa etapa, com 15% concordando em parte. Quanto ao alinhamento e comunicação, 77% concordaram plenamente que o engenheiro civil atua para promover a coordenação entre as equipes e o alinhamento dos “stakeholders” com os objetivos do projeto, e 23% concordaram em parte.
Apesar do consenso sobre a importância da comunicação, uma contradição foi expressa por um engenheiro civil da fiscalização, que relatou a “revelia dos colaboradores fiscalizados”, onde se “ordena uma coisa, quando ‘vira as costas’ faz outra”. Essa observação denota que a comunicação em projetos vai além da transmissão de dados técnicos, abrangendo dimensões interpessoais, culturais e organizacionais. Falhas de comunicação são uma das principais causas de insucesso em projetos complexos, e um gerenciamento eficaz das comunicações é vital para mitigar riscos, fortalecer o trabalho em equipe e construir relações de confiança (Kerzner, 2021).
A pesquisa também sugere a criação de um “Manifesto da Engenharia Civil” individual para cada participante do projeto, como forma de consolidar as lições aprendidas e promover a melhoria contínua. Esse manifesto, que responderia a perguntas sobre a transformação gerada, verdades discordantes, medos do público, experiências pessoais, mudanças desejadas na equipe e necessidades de nascimento/fim, poderia colaborar para o gerenciamento das comunicações, recursos humanos e qualidade do projeto. As lições aprendidas, sejam de sucessos ou falhas, são conhecimentos que podem ser sistematizados e reutilizados para aprimorar o desempenho organizacional (PMI, 2021; Ribeiro e Souza, 2020).
Em síntese, os resultados demonstram que o engenheiro civil é um profissional indispensável na fiscalização de projetos de saneamento, atuando em diversas frentes, desde o planejamento e a gestão até a execução e o monitoramento diário em campo. Sua importância é reforçada pela necessidade de dominar contratos, aplicar metodologias de gestão, garantir a conformidade regulatória e ambiental, e promover uma comunicação eficaz entre as partes interessadas. A integração de tecnologias digitais complementa, mas não substitui, a experiência e a visão global do engenheiro fiscal, cujo desempenho está intrinsecamente ligado à competência, ao engajamento e à comunicação da equipe, elementos cruciais para a entrega de serviços de saneamento de qualidade e sustentabilidade.
4. Conclusão
O presente estudo investigou a importância do profissional de Engenharia Civil no contexto da fiscalização de projetos em obras de saneamento, com foco nas metodologias empregadas, no domínio contratual e na execução diária em campo. Verificou-se que o engenheiro civil desempenha um papel central no planejamento, gestão, viabilização técnico-financeira e conformidade regulatória de projetos de infraestrutura de água e esgoto. Observou-se que, embora muitas vezes atuando em escritórios, sua influência se estende diretamente ao campo, sendo crucial para a garantia da execução dos projetos conforme as especificações técnicas, prazos e orçamentos. A aplicação de metodologias estruturadas, como o PMBOK® Guide, mostrou-se fundamental para organizar processos decisórios e mitigar riscos, enquanto o domínio rigoroso dos contratos administrativos foi identificado como indispensável para a legalidade e eficácia da gestão. A atuação do engenheiro fiscal também se destacou na orientação sobre a preservação ambiental e a proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs), assegurando a sustentabilidade dos empreendimentos.
No monitoramento cotidiano da obra, constatou-se que o engenheiro civil avalia continuamente a conformidade das atividades executadas, desde escavações até a instalação de redes, exercendo uma função preventiva essencial. Contudo, foram identificados desafios significativos, como a baixa qualidade das empresas contratadas, a escassez de fiscais experientes, a resistência à adoção de ferramentas digitais avançadas e a burocratização excessiva dos processos. A incorporação de tecnologias como Inteligência Artificial e BIM revelou-se promissora para agilizar o controle, mas foi percebida como complementar à fiscalização presencial, indicando a necessidade de uma abordagem equilibrada entre inovação e experiência prática. A principal contribuição deste trabalho reside em reforçar que o desempenho do projeto está intrinsecamente associado à competência, ao engajamento e à comunicação eficaz da equipe de engenheiros civis, sustentando a importância de uma fiscalização qualificada para a entrega de serviços de saneamento de qualidade. Como limitação, a quantidade de respondentes pode não representar a totalidade das experiências em todos os escritórios do Projeto Integra Tietê. Sugere-se, para estudos futuros, a criação de um “Manifesto da Engenharia Civil” individual para cada participante, visando consolidar lições aprendidas e aprimorar a comunicação e a melhoria contínua.
Referências Bibliográficas
Areal, P. V. V. 2023. Novo marco legal do saneamento básico: uma análise a partir das concessões dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário realizados nos estados de Alagoas, Amapá e Rio de Janeiro. Mestrado em Avaliação e Monitoramento de Políticas Públicas. Escola Nacional de Administração Pública [ENAP], Brasília/DF, Brasil.
Banco Nacional do Desenvolvimento [BNDES]. 2021. Guia de Boas Práticas em Projetos de Saneamento. Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
Brasil. Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007. Estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico. Diário Oficial da União, Brasília, 2007.
Brasil. Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020. Atualiza o marco legal do saneamento básico e altera a Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, para atribuir à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico [ANA] competência para editar normas de referência sobre o serviço de saneamento, a Lei nº 10.768, de 19 de novembro de 2003, para alterar o nome e as atribuições do cargo de Especialista em Recursos Hídricos, a Lei nº 11.107, de 6 de abril de 2005, para vedar a prestação por contrato de programa dos serviços públicos de que trata o art. 175 da Constituição Federal, a Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007, para aprimorar as condições estruturais do saneamento básico no País, a Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, para tratar dos prazos para a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos, a Lei nº 13.089, de 12 de janeiro de 2015 (Estatuto da Metrópole), para estender seu âmbito de aplicação às microrregiões, e a Lei nº 13.529, de 4 de dezembro de 2017, para autorizar a União a participar de fundo com a finalidade exclusiva de financiar serviços técnicos especializados Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/l14026.htmAcesso em 14 de abr. de 2026.
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo [Sabesp] 2025. No estado de São Paulo, 354 mil imóveis despejam 2.000 piscinas olímpicas de esgoto por mês em rios e praias. Disponível em: https://www.sabesp.com.br/ Acesso em nov. de 2025.
Gerhardt, T. E.; Silveira, D. T. 2009. Métodos de pesquisa. Editora UFRGS, Porto Alegre, Brasil.
Gil, A. C.2010. Como elaborar projetos de pesquisa. Atlas, São Paulo, Brasil.
Kaio E. F. Egídio, Santos, R. S. e Faria, B.F. H. 2024. A importância do engenheiro civil em obras de saneamento básico. Disponível em:< chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://ri.unipac.br/repositorio/wp-content/uploads/tainacan-items/282/312214/KAIO-E.-F.-EGIDIO-A-IMPORTANCIA-DO-ENGENHEIRO-CIVIL-EM-OBRAS-DE-SANEAMENTO-BASICO-ENGENHARIA-CIVIL-2024.pdf>Acesso em: dez. de 2025.
Kerzner, H. 2021. Gerenciamento de Projetos: uma Abordagem Sistêmica Para Planejamento, Programação e Controle.2021. Editora Blucher, São Paulo/SP, Brasil.
Pedroso, C. T. M. e Lucena, A. F.E. 2022. Aplicação dos princípios da Lean Construction na construção civil. Revista de Engenharia e Tecnologia. V.14, No. 2, Junho p. 137-147.
Project Management Institute [PMI]. 2021. A Guide to the Project Management Body of Knowledge (PMBOK® Guide), 7th Edition. PMI. Pennsylvania, USA.
Ribeiro, R.; Souza, C. (2020). Gestão de Projetos de Infraestrutura: Modelos e Práticas para o Setor Público. Brasília: ENAP, 2020.
Russell, S.; Norvig, P. 2021. Artificial intelligence: a modern approach. 4. ed. Pearson Boston, USA.
Silva, P. D. C., Kriguer, P. H. 2025. 295 – Projeto de gestão de eventos anômalos no sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário, utilizando inteligência artificial para redução das perdas reais e controle de anomalias. Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental [ABES]. Disponível em:<chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://abes-dn.org.br/anaiseletronicos/33cbesa/295_tema_xi.pdf>Acesso em: dez. de 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

