Artigo

29 de julho de 2026

Impactos do Covid-19 nos indicadores econômico-financeiros de empresas dos setores de varejo e transporte aéreo

Eduardo Kazuyoshi Ideriha; Roberto Pinheiro Gatsios

DOI: 10.22167/2675-6528-202600747

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, provocou impactos significativos nas economias globais, afetando diretamente os setores de varejo de bens duráveis e transporte aéreo no Brasil. O estudo objetivou compreender como as empresas desses setores responderam às adversidades da pandemia por meio da análise conjunta de seus indicadores econômico-financeiros. A pesquisa adotou uma abordagem quantitativa, com método documental, utilizando dados extraídos das demonstrações financeiras de empresas listadas na B3 no período de 2019 a 2021. Foram analisados indicadores de liquidez (corrente, seca e geral), endividamento (participação de capital de terceiros e composição do endividamento) e rentabilidade (retorno sobre ativos e retorno sobre o patrimônio líquido). Os resultados evidenciaram que o setor de varejo de bens duráveis apresentou maior resiliência, mantendo níveis satisfatórios de liquidez e menor dependência de capital de terceiros, impulsionado pela expansão do e-commerce e marketplace. Em contrapartida, o setor de transporte aéreo demonstrou deterioração significativa nos indicadores de liquidez, elevação do endividamento e desempenho negativo de rentabilidade, refletindo a queda abrupta da demanda. Concluiu-se que os efeitos da pandemia foram distintos entre os setores analisados, destacando a importância da capacidade de adaptação dos modelos de negócio diante de cenários adversos.

Palavras-chave: Covid-19; Endividamento; Liquidez; Rentabilidade; Varejo.

1. Introdução

A pandemia de Covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2 e iniciada em 2020, provocou impactos significativos nas economias globais, afetando diretamente diversos setores no Brasil. Este cenário de crise sanitária e econômica exigiu a adoção de medidas de distanciamento social e impactou profundamente a dinâmica de trabalho e consumo (Rezende et al., 2020). O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023) revelou que o número de óbitos em 2020 foi de aproximadamente um milhão e quinhentas mil pessoas, atingindo um milhão e oitocentas mil em 2021. Além disso, o IBGE (2020) apontou que sete milhões e novecentas mil pessoas passaram a trabalhar remotamente, e quinze milhões e trezentas mil pessoas deixaram de procurar trabalho, o que impactou diretamente a renda e o nível de emprego.

No Brasil, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC, 2021) indicou que o varejo perdeu setenta e cinco mil estabelecimentos em 2020. O setor de varejo de bens duráveis, especificamente no segmento de móveis e eletrodomésticos, que possui uma associação direta com o consumo das famílias e o acesso ao crédito, vinha apresentando crescimento consecutivo desde 2017, com um aumento de 3,6% em 2019 (IBGE, 2020). Contudo, com o início da pandemia, o setor sofreu impactos imediatos devido ao distanciamento social e ao fechamento temporário das lojas físicas, resultando em uma queda acentuada no volume de vendas em abril de 2020 (IBGE, 2020).

Em contrapartida, o setor de transporte aéreo, essencial para o transporte de passageiros e cargas, demonstrou ser extremamente sensível a fatores macroeconômicos e eventos globais, como variações cambiais e oscilações no preço do combustível. Antes da pandemia, o setor aéreo brasileiro registrava um aumento no número de passageiros (ANAC, 2020). No entanto, a Covid-19 impôs restrições de mobilidade, fechamento de fronteiras e retração da atividade econômica, levando a uma queda abrupta no número de passageiros transportados (ANAC, 2021; Freitas, 2023). Este setor foi um dos primeiros e mais fortemente atingidos, gerando um ambiente de elevada instabilidade e exigindo adaptações na gestão operacional e financeira das empresas.

Diante desse cenário de crise, a pandemia afetou de forma heterogênea os diversos setores da economia, evidenciando choques de oferta e demanda simultâneos (Anjos, 2021). Compreender como as empresas responderam a essas adversidades, adaptando suas estratégias de negócio e gestão financeira, torna-se crucial. A análise de indicadores econômico-financeiros é uma ferramenta essencial para avaliar a saúde financeira das empresas e sua capacidade de adaptação em momentos de crise (Assaf Neto, 2014; Moreira, 2025). Esses indicadores, que podem ser agrupados em categorias como liquidez, endividamento e rentabilidade, permitem uma interpretação estruturada das demonstrações contábeis sob diferentes perspectivas (Assaf Neto, 2014; Moreira, 2025; Marion, 2019; Iudícibus, 2010).

A liquidez avalia a capacidade da empresa de honrar suas obrigações de curto e longo prazo, enquanto o endividamento analisa a estrutura de capital e a dependência de recursos de terceiros. A rentabilidade, por sua vez, mensura a eficiência na geração de resultados a partir dos recursos investidos (Assaf Neto, 2014; Moreira, 2025). Este estudo, portanto, justifica-se pela necessidade de contribuir para a aplicabilidade dos indicadores como ferramenta de análise para a tomada de decisões e para demonstrar diferentes estratégias de negócios para se adaptar a uma crise, considerando a característica de cada setor da economia e o novo perfil de consumidor. Assim, o objetivo geral desta pesquisa é compreender como as empresas dos setores de varejo de bens duráveis e transporte aéreo, listadas na B3, responderam às adversidades causadas pela pandemia de Covid-19, por meio da análise conjunta de seus indicadores econômico-financeiros no período de 2019 a 2021.

2. Material e Métodos

A pesquisa caracterizou-se por sua natureza quantitativa, adotando uma abordagem metodológica documental. O estudo teve como objetivo compreender como empresas de setores específicos responderam à pandemia de Covid-19, por meio da análise de indicadores econômico-financeiros. A investigação abrangeu o período de 2019 a 2021, englobando fases pré-pandemia e de crise, permitindo uma avaliação temporal dos impactos no desempenho econômico-financeiro das organizações.

A unidade de análise consistiu em dados secundários, extraídos de balanços patrimoniais e demonstrações de resultados de empresas listadas na B3. As informações financeiras foram coletadas diretamente dos sites oficiais das companhias e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Este procedimento assegurou a confiabilidade e a padronização dos dados utilizados para a análise (Assaf Neto, 2014).

O estudo foi estruturado como uma análise comparativa, tanto temporal quanto setorial. A comparação temporal visou a evolução dos indicadores ao longo dos anos, enquanto a comparação setorial confrontou os resultados das empresas com seus concorrentes (Assaf Neto, 2014). Essa abordagem permitiu identificar padrões e diferenças na resposta dos setores às adversidades da pandemia.

Para a comparação setorial, selecionaram-se quatro empresas listadas na B3, pertencentes a dois setores distintos: varejo de bens duráveis e transporte aéreo. A escolha desses setores fundamentou-se no impacto relevante e diferenciado da pandemia em seus desempenhos econômico-financeiros. O setor de varejo de bens duráveis foi selecionado por evidenciar os efeitos da pandemia após a digitalização dos canais de venda, e o setor de transporte aéreo, por apresentar impactos severos devido às restrições de mobilidade e fechamento de fronteiras.

A seleção das empresas específicas baseou-se em critérios de relevância de mercado, representatividade setorial e disponibilidade de informações financeiras. No setor de varejo de bens duráveis, selecionaram-se Magazine Luiza S/A e Via S/A. Para o setor de transporte aéreo, foram selecionadas Azul S/A e Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A, consideradas as maiores empresas em número de voos domésticos em 2019 (ANAC, 2020).

Para a análise, utilizaram-se indicadores econômico-financeiros calculados a partir das demonstrações financeiras. Esses indicadores foram agrupados em três categorias principais: liquidez, estrutura de capital (endividamento) e rentabilidade. A escolha desses indicadores possibilitou analisar diferentes perspectivas da situação financeira de cada empresa (Moreira, 2025; Assaf Neto, 2014).

Na categoria de liquidez, foram empregados os indicadores de liquidez corrente, liquidez seca e liquidez geral. A liquidez corrente, que avalia a capacidade de honrar obrigações de curto prazo, foi calculada pela razão entre Ativo Circulante e Passivo Circulante. A liquidez seca, que desconsidera estoques, foi determinada pela razão entre (Ativo Circulante – Estoques) e Passivo Circulante (Assaf, 2020; Gitman, 2010).

A liquidez geral, que considera ativos e passivos de curto e longo prazo (Iudícibus, 2010), foi obtida pela razão entre (Ativos Circulantes + Ativos Não Circulantes) e (Passivos Circulantes + Passivos Não Circulantes). Esses indicadores permitiram avaliar a capacidade das empresas em honrar suas obrigações de curto e longo prazo, sob diferentes perspectivas de solvência.

Para a categoria de endividamento, utilizaram-se os indicadores de participação de capital de terceiros e composição do endividamento. A participação de capital de terceiros foi calculada pela razão entre Passivo Total e Patrimônio Líquido. A composição do endividamento foi mensurada pela razão entre Passivo Circulante e Passivo Total (Marion, 2019; Assaf, 2020). Esses indicadores permitiram analisar a estrutura de capital e o grau de dependência de recursos de terceiros.

Na categoria de rentabilidade, aplicaram-se os indicadores de retorno sobre ativos (ROA) e retorno sobre o patrimônio líquido (ROE). O ROA foi calculado pela razão entre Lucro Líquido e Ativo Total. O ROE foi determinado pela razão entre Lucro Líquido e Patrimônio Líquido (Assaf, 2020; Gitman, 2010). Para o cálculo do ROA, optou-se pela utilização do lucro líquido para uma análise mais abrangente, considerando os efeitos extraordinários em estruturas de capital durante crises.

A análise comparativa dos indicadores permitiu evidenciar diferenças na gestão financeira, na estrutura de capital e na capacidade de adaptação das empresas às condições adversas do ambiente econômico. Os procedimentos metodológicos adotados foram consistentes com o objetivo de compreender as respostas das empresas dos setores de varejo de bens duráveis e transporte aéreo às adversidades da pandemia de Covid-19, no período de 2019 a 2021.

3. Resultados e Discussão

O presente estudo apresentou a análise de dois setores da economia brasileira que foram fortemente impactados pela pandemia de Covid-19: o varejo de bens duráveis e o setor de transporte aéreo. Diante desse cenário de crise sanitária e econômica, cada setor demonstrou comportamentos distintos em resposta às restrições sociais impostas e aos efeitos econômicos decorrentes da redução da renda e do nível de emprego. A análise dos indicadores econômico-financeiros, realizada com base em dados extraídos dos relatórios de resultados divulgados pelas companhias selecionadas, permitiu contextualizar os impactos observados e evidenciar o desempenho e posicionamento estratégico de cada empresa.

A pesquisa confirmou que os impactos da pandemia foram heterogêneos, evidenciando choques de oferta e demanda simultâneos, conforme apontado por Anjos (2021). Enquanto o setor de varejo de bens duráveis demonstrou maior resiliência e capacidade de adaptação, o setor de transporte aéreo enfrentou um impacto severo, com dificuldades significativas de recuperação. Essa distinção ressalta a importância de considerar as particularidades de cada segmento econômico ao analisar a resposta das empresas a crises globais.

Setor de Varejo de bens duráveis (móveis e eletrodomésticos)

O setor de varejo de bens duráveis, especialmente no segmento de móveis e eletrodomésticos, mantém uma associação direta com o consumo das famílias, o acesso ao crédito e as condições macroeconômicas, como renda e emprego. Dados do IBGE (2020) indicaram que este setor registrou crescimento consecutivo desde 2017, com um aumento de 3,6% em 2019 em relação ao ano anterior. Essa expansão foi impulsionada pela recuperação econômica e pela crescente adoção do e-commerce, que já vinha se consolidando como um canal de vendas relevante.

Com o início da pandemia de Covid-19, o setor sofreu impactos imediatos, resultando em uma queda acentuada no índice de volume de vendas de móveis e eletrodomésticos em abril de 2020. Esse declínio foi uma consequência direta do distanciamento social, da redução da renda das famílias e do aumento do desemprego, que levaram ao fechamento temporário das lojas físicas. A interrupção das atividades presenciais gerou um desafio significativo para a continuidade das operações e a manutenção do faturamento.

Contudo, o setor reagiu rapidamente nos meses subsequentes, com uma notável retomada das vendas. Esse movimento de recuperação pode ser atribuído à aceleração da transformação digital e à integração entre os canais físicos e digitais das empresas. Em 2020, o faturamento do e-commerce brasileiro no setor apresentou um aumento expressivo de 80,9% em comparação ao ano anterior, seguido por um crescimento de 34,1% em 2021, conforme dados da Fecomercio SP (2024). Essa rápida adaptação ao ambiente digital foi crucial para mitigar os efeitos da crise.

A transformação digital justificou a rápida recuperação do setor, mesmo diante dos desafios impostos pela crise sanitária. Além disso, fatores como o auxílio emergencial concedido pelo governo federal e a maior permanência das famílias em casa contribuíram significativamente para o aumento da demanda por bens duráveis. Esses elementos, combinados com a capacidade de inovação das empresas, permitiram que o varejo de bens duráveis demonstrasse uma resiliência notável, adaptando-se às novas condições de mercado e consumo.

Setor de transporte aéreo

O setor de transporte aéreo desempenha um papel fundamental na economia, sendo responsável pelo transporte de passageiros e cargas, além de impulsionar atividades econômicas ligadas ao turismo e negócios. No entanto, este setor é intrinsecamente sensível a fatores macroeconômicos e eventos globais, apresentando alta exposição a riscos e instabilidades, como variações cambiais, oscilações no preço do combustível e crises econômicas, além das restrições à mobilidade observadas durante a pandemia.

No período anterior à pandemia de Covid-19, o setor de transporte aéreo brasileiro registrava um crescimento no número de passageiros, atingindo o maior valor da série histórica, segundo a ANAC (2020). Essa trajetória de crescimento refletia um cenário de expansão e otimismo para as companhias aéreas. Contudo, a chegada da pandemia alterou drasticamente essa dinâmica, impondo desafios sem precedentes ao setor.

A pandemia provocou uma queda abrupta no número de passageiros transportados, tanto no mercado doméstico quanto no internacional. Essa retração foi um resultado direto das restrições à mobilidade, do fechamento de fronteiras e da redução das atividades econômicas em escala global. Embora 2021 tenha apresentado uma leve recuperação, os níveis de passageiros transportados permaneceram abaixo dos patamares pré-pandemia, evidenciando a persistência dos impactos negativos.

O setor de transporte aéreo foi um dos primeiros e mais fortemente atingidos pelos efeitos da pandemia, gerando um ambiente de elevada instabilidade, conforme destacado por Freitas (2023). As empresas foram obrigadas a adaptar drasticamente sua gestão operacional e financeira para garantir a continuidade de suas atividades. A alta vulnerabilidade a fatores externos e a dependência da mobilidade de pessoas tornaram a recuperação um processo lento e desafiador, exigindo reestruturações profundas e apoio governamental.

Análise dos indicadores econômico-financeiros

A análise dos indicadores econômico-financeiros foi realizada com base nas demonstrações financeiras das empresas selecionadas, abrangendo o balanço patrimonial e a demonstração do resultado do exercício, para o período de 2019 a 2021. As informações foram obtidas nos canais de relações com investidores das companhias e na B3, garantindo a confiabilidade e padronização dos dados. Este estudo adotou uma análise comparativa temporal e setorial, permitindo avaliar o desempenho econômico-financeiro das empresas em diferentes fases do cenário pandêmico.

Embora inseridas em um mesmo contexto de crise, as empresas analisadas adotaram estratégias distintas para enfrentar os impactos da pandemia, o que se refletiu em seus desempenhos econômico-financeiros. A análise comparativa dos indicadores permitiu evidenciar diferenças significativas na gestão financeira, na estrutura de capital e na capacidade de adaptação às condições adversas do ambiente econômico. Os indicadores foram agrupados em três categorias principais: liquidez, endividamento e rentabilidade, conforme a metodologia estabelecida.

Indicadores de liquidez

Os indicadores de liquidez (corrente, seca e geral) permitem avaliar a capacidade das empresas em honrar suas obrigações de curto e longo prazo. A liquidez corrente, que mede a relação entre o ativo circulante e o passivo circulante, indica a capacidade de pagamento de curto prazo. Valores superiores a um são considerados confortáveis, enquanto valores inferiores a um podem sinalizar risco de liquidez, segundo Assaf Neto (2020).

A Magazine Luiza manteve níveis de liquidez corrente superiores a um em todos os anos analisados, com 1,60 em 2019, 1,25 em 2020 e 1,61 em 2021, demonstrando uma ótima capacidade de honrar suas obrigações de curto prazo, mesmo durante a pandemia. Essa resiliência foi atribuída à sua estratégia multicanal, que integrou lojas físicas, e-commerce e marketplace, permitindo a manutenção de receitas e o giro de estoques mesmo com as restrições sociais.

Por outro lado, a Via Varejo, embora do mesmo setor, apresentou maior volatilidade na liquidez corrente, sendo superior a um apenas em 2020 (1,04), ano em que houve crescimento significativo de vendas via comércio eletrônico. Em 2019, o indicador foi de 0,79, e em 2021, de 0,99. Já as companhias aéreas demonstraram um cenário mais desafiador. A Azul S/A registrou liquidez corrente inferior a um em todo o período (0,60 em 2019, 0,53 em 2020 e 0,50 em 2021), indicando uma tendência de deterioração e insuficiência de ativos circulantes para cobrir obrigações de curto prazo.

A Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A apresentou os menores níveis de liquidez corrente entre as empresas analisadas, com 0,48 em 2019, 0,31 em 2020 e 0,24 em 2021, evidenciando uma deterioração contínua da capacidade de pagamento no curto prazo e uma maior dependência de recursos externos. Esse cenário reflete as severas pressões sobre o capital de giro do setor aéreo, que foi diretamente impactado pelas restrições de mobilidade e a queda abrupta na demanda.

A liquidez seca, que desconsidera os estoques por serem ativos de menor liquidez, oferece uma visão mais conservadora da solvência de curto prazo, conforme Assaf Neto (2020). A Magazine Luiza apresentou 1,13 em 2019, reduzindo para 0,81 em 2020 devido ao fechamento de lojas físicas, mas recuperando para 1,01 em 2021, impulsionada pela aceleração da transformação digital e menor dependência de estoques devido ao marketplace.

A Via Varejo, por sua vez, registrou níveis de liquidez seca inferiores a um em todo o período (0,50 em 2019, 0,71 em 2020 e 0,61 em 2021), indicando dependência dos estoques para liquidar obrigações de curto prazo. Essa situação se deveu à maior dependência de lojas físicas e a um e-commerce menos estruturado em comparação com a Magazine Luiza. No setor aéreo, a Azul S/A apresentou redução gradual de 0,57 em 2019 para 0,45 em 2021, refletindo a deterioração da liquidez e os impactos negativos da pandemia na geração de receitas e fluxo de caixa.

A Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A demonstrou a situação mais crítica, com o indicador de liquidez seca reduzindo de 0,46 em 2019 para 0,22 em 2021. Essa forte deterioração da capacidade de pagamento no curto prazo evidencia uma elevada dependência de financiamento externo e uma maior exposição ao risco financeiro. Os resultados para o setor aéreo confirmam a vulnerabilidade intrínseca dessas empresas a choques externos que afetam diretamente a demanda e a capacidade operacional.

A liquidez geral, que considera tanto os ativos quanto os passivos de curto e longo prazo, é um indicador de solvência financeira. Valores superiores a um indicam solvência, enquanto valores inferiores podem sinalizar maior risco no longo prazo, embora a interpretação deva considerar a qualidade dos ativos e o contexto da empresa (Iudícibus, 2010). A Magazine Luiza manteve níveis acima de 1,00 nos três anos (1,62 em 2019, 1,42 em 2020 e 1,42 em 2021), demonstrando uma situação financeira equilibrada e resiliência durante a pandemia, sustentada pela transformação digital e integração de canais.

A Via Varejo, embora com níveis de liquidez geral menores que a Magazine Luiza, também apresentou indicadores acima de 1,00 ao longo do período, com 1,02 em 2019, 1,22 em 2020 e 1,19 em 2021. A empresa adotou uma reestruturação focada no crescimento do e-commerce para melhorar a gestão do capital de giro. No setor de transporte aéreo, o cenário foi crítico. A Azul S/A registrou liquidez geral inferior a 1,00 em todo o período (0,85 em 2019, 0,53 em 2020 e 0,50 em 2021), evidenciando dificuldades financeiras pela forte sensibilidade a fatores globais e a deterioração contínua.

A Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A apresentou os menores níveis de liquidez geral entre as empresas analisadas, com 0,68 em 2019, 0,48 em 2020 e 0,41 em 2021, demonstrando uma deterioração contínua da solvência. Esses resultados reforçam a percepção de que o setor aéreo foi profundamente afetado pela pandemia, com as empresas enfrentando desafios significativos para manter sua solvência e liquidez em um ambiente de demanda drasticamente reduzida e custos operacionais elevados.

Indicadores de endividamento

Os indicadores de endividamento (participação de capital de terceiros e composição do endividamento) permitem analisar a estrutura de capital e o grau de dependência de recursos de terceiros. A participação de capital de terceiros revela a proporção entre recursos próprios e de terceiros, sendo fundamental para avaliar a alavancagem financeira e o comprometimento com obrigações. Valores elevados indicam maior alavancagem, enquanto valores reduzidos refletem maior participação de capital próprio (Marion, 2019).

A Magazine Luiza registrou um aumento na participação de capital de terceiros ao longo do período analisado, passando de 1,62 em 2019 para 2,41 em 2021. Esse aumento foi interpretado como uma estratégia de alavancagem voltada à expansão e ao ganho de participação de mercado, e não como uma deterioração da estrutura financeira da companhia. A empresa utilizou recursos de terceiros para financiar seu crescimento, especialmente no contexto da expansão do e-commerce e marketplace.

No caso da Via Varejo, o indicador de participação de capital de terceiros foi extremamente elevado em 2019 (41,26), o que exigiu cautela na análise. Esse valor decorreu de uma significativa redução do patrimônio líquido, causada por um prejuízo de R$ 1.433 bilhão naquele ano. A partir de 2020, a empresa adotou uma estratégia de reestruturação financeira, incluindo uma oferta pública de ações, o que resultou em uma melhora no desempenho operacional e no indicador, que passou para 4,53 em 2020 e 5,27 em 2021.

Para as empresas do setor aéreo, Azul S/A e Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A, ambas apresentaram patrimônio líquido negativo durante o período de 2019 a 2021, caracterizando uma situação de passivo a descoberto. Nessas circunstâncias, a aplicação do indicador de participação de capital de terceiros tornou-se inadequada do ponto de vista analítico, pois sua fórmula relaciona o capital de terceiros com o patrimônio líquido. Optou-se por não considerar os resultados desse indicador para essas empresas, a fim de evitar conclusões equivocadas sobre seu desempenho econômico.

A composição do endividamento demonstra a proporcionalidade entre as dívidas de curto e longo prazo, sinalizando o nível de risco de liquidez. Valores elevados indicam maior pressão sobre o caixa no curto prazo, enquanto valores reduzidos refletem maior concentração de dívidas no longo prazo (Assaf Neto, 2014). A Magazine Luiza apresentou um aumento na composição do endividamento de curto prazo em 2020, passando de 0,65 em 2019 para 0,77, refletindo maior concentração de obrigações de curto prazo.

Esse aumento na Magazine Luiza esteve vinculado ao crescimento operacional do e-commerce, que demandou um maior volume de capital de giro com a elevação do passivo junto aos fornecedores. Em 2021, a empresa indicou uma melhora no perfil do endividamento, com o indicador em 0,56, e um maior equilíbrio entre as obrigações de curto e longo prazo. A Via Varejo, por sua vez, apresentou estabilidade na composição do endividamento ao longo do período analisado, com 0,66 em 2019, 0,68 em 2020 e 0,63 em 2021.

A Via Varejo já estava em processo de ajuste em sua estrutura financeira em 2019, buscando o alongamento das dívidas para melhorar seu capital de giro. Com o aumento das operações de e-commerce em 2020 e 2021, a empresa demandou um nível de endividamento maior, mas conseguiu manter o equilíbrio em sua estrutura financeira. A Azul S/A também apresentou relativa estabilidade na composição do endividamento ao longo do período (0,30 em 2019, 0,34 em 2020 e 0,32 em 2021), evidenciando uma baixa participação de dívidas de curto prazo.

Em 2020, a Azul S/A registrou um leve aumento, reflexo da pandemia e da necessidade de fontes de financiamento de curto prazo para sustentar suas operações. Em 2021, a empresa atuou com a renegociação de suas obrigações de curto prazo para reduzir o risco de liquidez. A Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A apresentou redução contínua na composição do endividamento ao longo do período analisado, passando de 0,46 em 2019 para 0,31 em 2021. A empresa adotou medidas similares à Azul, com renegociação de dívidas e alongamento dos prazos, mesmo em um cenário de elevada alavancagem.

Indicadores de rentabilidade

Os indicadores de rentabilidade (Retorno sobre Ativos – ROA e Retorno sobre o Patrimônio Líquido – ROE) permitem mensurar a eficiência na geração de resultados a partir dos recursos investidos. O Retorno sobre Ativos (ROA) indica a capacidade da empresa de gerar lucros com seus ativos, sendo um indicador do desempenho operacional. Valores positivos indicam eficiência na gestão operacional, enquanto valores negativos podem sinalizar prejuízo (Assaf Neto, 2014).

A Magazine Luiza apresentou uma redução gradual do ROA ao longo do período analisado, passando de 0,03 em 2019 para 0,00 em 2021. Essa redução pode ser explicada pelo crescimento acelerado das operações, impulsionado principalmente pelo comércio eletrônico, que demandou elevados investimentos em ativos, gerando um lucro líquido menor em relação ao lucro bruto. No ano seguinte, a empresa continuou com a estratégia de expansão de seus ativos, impulsionada pelo e-commerce, o que pressionou a rentabilidade.

A Via Varejo apresentou elevada volatilidade no ROA ao longo do período analisado. Em 2019, a empresa registrou um valor negativo de -0,06, mas observou-se uma recuperação significativa em 2020, com 0,03, impulsionada pelo crescimento expressivo do comércio eletrônico. Contudo, em 2021, o indicador voltou a apresentar um valor negativo de -0,01, em um cenário mais competitivo, levando a uma maior dificuldade no desempenho operacional e na manutenção das margens.

No setor de transporte aéreo, a Azul S/A demonstrou uma redução significativa do ROA com o início da pandemia, apresentando valores negativos em todos os anos analisados: 0,04 em 2019, -0,64 em 2020 e -0,26 em 2021. Essa situação reflete a incapacidade da empresa de gerar retornos a partir de seus ativos em um contexto de demanda drasticamente reduzida. A Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A também registrou valores negativos no ROA em todos os anos (2019: -0,01; 2020: -0,47; 2021: -0,50), indicando baixa capacidade de gerar retornos a partir de seus ativos e alta ineficiência operacional.

O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) indica a capacidade da empresa em remunerar os sócios com base no lucro líquido, sendo um indicador fundamental de rentabilidade e atratividade de investimento. Valores positivos indicam que a empresa gerou resultados suficientes para remunerar o capital investido pelos acionistas, enquanto valores negativos evidenciam prejuízo e destruição de valor (Iudícibus, 200). A Magazine Luiza apresentou uma redução gradual do ROE ao longo do período analisado, de 0,07 em 2019 para 0,01 em 2021, evidenciando diminuição da rentabilidade em relação ao capital próprio, especialmente no contexto da pandemia.

Em 2020, a Magazine Luiza adotou uma estratégia de crescimento e aceleração da transformação digital, o que demandou um maior nível de investimentos e reduziu seu lucro líquido. No ano seguinte, a empresa continuou os investimentos em conjunto com a expansão de seus negócios, pressionando a rentabilidade para níveis mais baixos. A Via Varejo apresentou elevada volatilidade no ROE. Em 2019, o indicador foi fortemente negativo (-2,48), decorrente de um prejuízo de R$ 1,433 bilhão que reduziu o patrimônio líquido de forma expressiva.

A combinação desses resultados justificou a disparidade do indicador de 2019 para a Via Varejo, considerando a relação entre lucro líquido e patrimônio líquido. Entretanto, a empresa passou por uma forte recuperação financeira e operacional, permitida pelo crescimento do e-commerce, que gerou um lucro líquido expressivo de aproximadamente R$ 1,0 bilhão, resultando em um indicador positivo de 0,17 em 2020. No ano de 2021, houve aumento na concorrência, pressionando suas margens e custos, evidenciando dificuldades para sustentar o ROE do ano anterior, que ficou em -0,05.

Para as empresas do setor aéreo, Azul S/A e Gol Linhas Aéreas Inteligentes S/A, ambas apresentaram patrimônio líquido negativo durante o período de 2019 a 2021, caracterizando uma situação de passivo a descoberto. Nessas circunstâncias, a aplicação do indicador ROE tornou-se inadequada do ponto de vista analítico, uma vez que sua fórmula relaciona o lucro líquido e o patrimônio líquido. Dessa forma, optou-se por não considerar os resultados desse indicador para essas empresas, a fim de evitar conclusões equivocadas e comprometer a interpretação do desempenho econômico da empresa.

Análise integrada dos resultados

Os resultados desta pesquisa confirmaram que cada setor sofreu impactos heterogêneos da pandemia, evidenciando choques de oferta e demanda de forma simultânea, conforme já apontado por Anjos (2021). No setor de varejo de bens duráveis, verificou-se maior resiliência e capacidade de adaptação aos desafios impostos pela pandemia. Isso se manifestou na manutenção da liquidez em níveis satisfatórios e em uma pequena redução na rentabilidade, graças à intensificação da transformação digital de seus canais de venda, conforme Ebit e Nielsen (2021).

A maturidade digital do setor de varejo permitiu que as empresas resistissem aos impactos das restrições sociais e à mudança no comportamento de consumo. A estratégia de intensificar a digitalização dos canais de venda, com a expansão do e-commerce e a integração com as lojas físicas e marketplaces, foi fundamental para a recuperação de receita e para sustentar os indicadores de liquidez e rentabilidade em patamares satisfatórios, demonstrando uma adaptação rápida ao novo perfil do consumidor.

Por outro lado, o setor de transporte aéreo demonstrou um impacto severo em seus indicadores econômico-financeiros, evidenciado pela redução da liquidez, elevação do endividamento e rentabilidade negativa ao longo do período analisado, conforme dados da ANAC (2021). Este setor revelou sua alta vulnerabilidade a crises domésticas e globais, como a pandemia, que causou restrições sociais e fechamento de fronteiras. As empresas aéreas enfrentaram uma alta exposição a riscos multifatoriais, incluindo aspectos regulatórios, financeiros, cambiais e operacionais, resultando em baixo nível de liquidez, elevado grau de endividamento e baixa eficiência operacional.

Em síntese, a pesquisa demonstrou como cada empresa e setor se adaptou aos efeitos da pandemia, impactando diretamente seu desempenho econômico-financeiro. O setor de varejo de bens duráveis adotou a estratégia de intensificar a digitalização de seus canais de venda, com o e-commerce e a integração com as lojas físicas e marketplaces, resistindo de forma resiliente à pandemia. Já o setor de transporte aéreo se demonstrou vulnerável a fatores globais, enfrentando maiores dificuldades de recuperação e evidenciando a necessidade de uma gestão financeira e operacional mais robusta para lidar com cenários de crise.

4. Conclusão

O presente estudo buscou compreender como empresas dos setores de varejo de bens duráveis e transporte aéreo, listadas na B3, responderam às adversidades da pandemia de Covid-19, por meio da análise de seus indicadores econômico-financeiros entre 2019 e 2021. Verificou-se que os impactos da pandemia foram heterogêneos, com o setor de varejo de bens duráveis demonstrando maior resiliência. Neste segmento, observou-se a manutenção de níveis satisfatórios de liquidez e uma menor dependência de capital de terceiros, impulsionada pela rápida adaptação à transformação digital e à expansão do e-commerce e marketplace. Essa agilidade permitiu que as empresas resistissem às restrições sociais e às mudanças no comportamento do consumidor, sustentando seu desempenho.

Em contrapartida, o setor de transporte aéreo enfrentou um cenário de severa deterioração. Identificou-se uma redução significativa nos indicadores de liquidez, uma elevação do endividamento e um desempenho negativo de rentabilidade. As empresas aéreas demonstraram alta vulnerabilidade a fatores externos, como restrições de mobilidade e fechamento de fronteiras, resultando em dificuldades substanciais de recuperação. A análise de indicadores como o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) e a participação de capital de terceiros para as companhias aéreas foi limitada pela ocorrência de patrimônio líquido negativo, o que caracterizou uma situação de passivo a descoberto e inviabilizou a aplicação analítica desses índices. A pesquisa, ao evidenciar essas respostas setoriais distintas, destaca a importância da capacidade de adaptação dos modelos de negócio e a aplicabilidade dos indicadores econômico-financeiros como ferramenta essencial para a tomada de decisões estratégicas em cenários de crise, contribuindo para a compreensão das diferentes abordagens de gestão financeira e operacional.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

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11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

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10 de setembro de 2026

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A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

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10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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