03 de agosto de 2026
Impactos do Conflito entre Rússia e Ucrânia nas Importações Brasileiras de Fertilizantes (2018-2024)
George Augusto Vieira de Souza; Marcos Donizeti Revoredo
DOI: 10.22167/2675-6528-202600840
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A guerra entre Rússia e Ucrânia alterou o ambiente internacional de fornecimento de insumos agrícolas, impactando cadeias produtivas dependentes de importações estratégicas. Considerando a elevada dependência brasileira de fertilizantes nitrogenados importados, o estudo analisou os impactos do conflito sobre o mercado nacional no período de 2022 a 2024. O objetivo consistiu em identificar como a guerra alterou o volume, o preço e a origem das importações brasileiras de fertilizantes classificados na NCM 3102, mensurando variações estruturais no fornecimento desses insumos para a agricultura. A pesquisa foi caracterizada como aplicada, de natureza quantitativa e delineamento longitudinal, utilizando dados secundários oficiais da base de comércio exterior do MDIC. Foram organizadas séries mensais de 2018 a 2024 e estimados modelos de regressão em painel com variável indicadora para o período pós-conflito, permitindo avaliar alterações estatisticamente detectáveis nas dimensões analisadas. Os resultados indicaram aumento significativo nos preços médios de importação após 2022, manutenção do volume agregado importado e recomposição da participação relativa dos principais países fornecedores. Observou-se que o principal canal de transmissão do conflito ocorreu por meio do encarecimento do insumo e da redistribuição das origens, sem contração estatisticamente relevante do fluxo total importado. Concluiu-se que o mercado brasileiro preservou o abastecimento externo, ajustando custos e estrutura de fornecedores diante do choque geopolítico, evidenciando mecanismos de adaptação comercial em contexto de instabilidade internacional.
Palavras-chave: análise em painel; cadeia agroindustrial; comércio exterior; dependência de insumos; segurança de suprimento.
1. Introdução
O agronegócio desempenha um papel central na economia brasileira, respondendo por parcela relevante do Produto Interno Bruto e pelo superávit da balança comercial. A expansão das fronteiras agrícolas, o uso intensivo de tecnologia e a integração às cadeias globais de valor consolidam o Brasil como um dos principais exportadores de alimentos do mundo (Batalha, 2021). A produção agrícola envolve cadeias longas, com forte interdependência entre setores de insumos, transporte, indústria e comércio exterior, o que torna o desempenho do agronegócio um indicador relevante da dinâmica econômica nacional (Zylbersztajn, Neves e Caleman, 2015).
A produtividade das lavouras brasileiras está associada à aplicação de insumos químicos e à adoção de tecnologias voltadas à nutrição do solo. O uso de fertilizantes é determinante para sustentar o nível de produtividade das culturas e assegurar a competitividade do país no mercado internacional (Wedekin, 2019). A composição e a disponibilidade desses insumos influenciam diretamente os custos de produção e a rentabilidade das cadeias agrícolas, tornando o abastecimento de fertilizantes um elemento estratégico para o planejamento e a sustentabilidade da produção.
Relatórios recentes reforçam a magnitude dessa dependência. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA, 2025), cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no Brasil têm origem externa, sendo a ureia, o cloreto de potássio e o fosfato monoamônico os principais produtos importados. Essa estrutura de importação reflete a ausência de uma base industrial consolidada no segmento de fertilizantes e amplia a vulnerabilidade do país às variações internacionais de oferta e preço (MDIC/CONFERt, 2024).
A dependência de insumos importados coloca o Brasil em uma posição de exposição a fatores externos. As oscilações cambiais, os custos de energia e as barreiras comerciais impactam diretamente o preço final dos fertilizantes (Batalha, 2021). Essa condição também relaciona a segurança alimentar nacional às condições geopolíticas e macroeconômicas de países exportadores, transformando o abastecimento de fertilizantes em uma questão estratégica de política econômica. O mercado global de fertilizantes é sensível a variações políticas e logísticas, pois concentra sua produção em poucos países, como Rússia, China, Canadá e Marrocos (Zylbersztajn, Neves e Caleman, 2015).
A partir de 2022, a guerra entre Rússia e Ucrânia evidencia esse grau de interdependência. Os dois países têm papel expressivo no fornecimento global de insumos agrícolas e energéticos, de modo que o conflito provoca restrições logísticas e elevação dos custos de transporte e energia (Alexander et al., 2023). O encarecimento da produção e o redirecionamento de fluxos comerciais modificam a estrutura de preços internacionais, com impactos diretos sobre a disponibilidade e o custo dos fertilizantes importados pelo Brasil. Estudos internacionais mostram que o conflito reduz a produção e a exportação de produtos agrícolas, gerando impactos desiguais sobre diferentes regiões (Jia et al., 2024).
O Brasil, como grande importador de fertilizantes, experimenta esse reflexo em sua cadeia produtiva, tanto pela necessidade de buscar novos fornecedores quanto pelo aumento dos custos de importação. A variação de preços e a instabilidade no fornecimento passam a integrar o cotidiano de produtores, cooperativas e empresas distribuidoras. A análise desses desdobramentos é relevante para compreender os desafios que a dependência externa impõe ao agronegócio brasileiro. A guerra expõe fragilidades estruturais da política de suprimento e revela a importância de estratégias que reduzam a vulnerabilidade às oscilações internacionais (Ben Hassen, El Bilali e Allahyari, 2022).
Apesar da ampla discussão sobre a dependência brasileira de fertilizantes e sobre os impactos globais da guerra entre Rússia e Ucrânia, ainda são escassas as evidências quantitativas específicas para o caso brasileiro que relacionem, de forma sistemática, volume, preço e origem das importações após 2022. Este estudo contribui ao preencher essa lacuna, permitindo mensurar em que medida o conflito alterou a estrutura de abastecimento de fertilizantes nitrogenados no Brasil. Assim, o objetivo deste estudo é analisar os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre o mercado brasileiro de fertilizantes no período de 2022 a 2024, identificando como o conflito alterou o volume, o preço e a origem das importações, com base em dados de comércio internacional e aplicação de métodos estatísticos multivariados que permitam mensurar as variações e dependências no fornecimento desses insumos para a agricultura nacional.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi caracterizada como aplicada, de natureza quantitativa e abordagem explicativa. A natureza aplicada direcionou o conhecimento a um problema prático de abastecimento de insumos agrícolas. A abordagem explicativa foi empregada para mensurar variações em volume, preço e origem das importações brasileiras de fertilizantes, buscando examinar relações e mudanças estruturais no padrão de importações ao longo do tempo (Gil, 2019).
O delineamento do estudo foi estruturado como observacional, utilizando dados secundários e um recorte temporal longitudinal. O período analisado compreendeu os anos de 2018 a 2024, com granularidade mensal. Essa extensão temporal permitiu observar a trajetória do mercado e alterações em tendências e composições por origem, comparando o intervalo anterior e posterior ao conflito (Creswell e Poth, 2018).
A unidade de análise foi definida como o fluxo de importação, desagregado por período, produto e país de origem. Essa granularidade permitiu a decomposição do volume total importado e a identificação de recomposições no conjunto de fornecedores. O objeto empírico consistiu em registros de importação classificados na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) na posição 3102, que abrange adubos minerais ou químicos, nitrogenados.
A coleta de dados foi realizada a partir da Base de Dados Bruta de Comércio Exterior (Secex/MDIC), que registrou operações de importação do Brasil por produto, país e período. Os dados foram organizados em formato tabular, com o período estruturado em ano e mês. O tratamento dos dados incluiu etapas de limpeza, padronização e transformação analítica, removendo registros duplicados, tratando ausências e garantindo a consistência dos tipos numéricos.
A padronização uniformizou as codificações de país e produto, consolidando o período temporal adotado. A transformação analítica envolveu a conversão das variáveis de quantidade para toneladas, quando originalmente em quilogramas, e o cálculo do preço médio de importação como a razão entre o valor FOB e o volume importado. Realizou-se também a agregação por ano e a construção de medidas de participação do país de origem no volume total importado por período, conforme recomendações para análise multivariada (Hair et al., 2020).
A estratégia analítica foi estruturada em duas camadas. Na primeira, produziram-se estatísticas descritivas para mapear a evolução anual de volume, valor e preço médio ponderado, e identificar países com maiores variações de participação (Fávero e Belfiore, 2019). Na segunda camada, conduziu-se a análise estatística para identificar como o conflito alterou volume, preço e origem das importações. Para operacionalizar o evento, criou-se uma variável indicadora de período pós-conflito (zero para 2018-2021, um para 2022-2024), adotando granularidade mensal para capturar variações de curto prazo.
A análise inferencial foi realizada com modelos de regressão em painel, com observações por país de origem, produto e tempo. O volume importado e o preço médio foram tratados como variáveis dependentes em modelos separados. Aplicaram-se transformações logarítmicas quando necessário para lidar com assimetria e variação de escala. Para capturar alterações na origem, construiu-se a variável de participação do país no volume total importado por período.
A interpretação do componente de origem foi conduzida a partir dos coeficientes de interação entre país e período pós-conflito, identificando fornecedores com alteração estatisticamente detectável na participação relativa após 2022. Para apoiar a comunicação dos resultados, produziram-se visualizações de séries temporais e gráficos de composição por origem, além de tabelas de ranking por participação e variação. O conjunto de análises foi executado de modo reprodutível, preservando a rastreabilidade entre a base bruta, as transformações aplicadas e os resultados consolidados (Hair et al., 2020).
Considerando que a pesquisa utilizou dados secundários públicos e agregados, não houve coleta direta com participantes humanos. As limitações metodológicas foram associadas à dependência de registros administrativos e à possível revisão de bases oficiais. A influência de fatores externos ao conflito, como mudanças cambiais e condições logísticas, foi tratada por meio de recortes comparativos, controles temporais e análise por país de origem (Gil, 2019).
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados, após o tratamento e a organização conforme a metodologia, revelou padrões temporais e estruturais significativos nas importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados no período de 2018 a 2024. Inicialmente, observou-se um crescimento contínuo no volume total importado, com uma aceleração notável a partir de 2020. Contudo, o período entre 2021 e 2022 marcou uma estabilização do volume, enquanto o valor total das importações experimentou um aumento expressivo. Essa dinâmica inicial sugeriu que o impacto do conflito geopolítico, iniciado em 2022, se manifestou de forma mais acentuada nos preços dos fertilizantes do que nos volumes agregados de importação, indicando uma internalização do choque por meio do custo.
Em 2023 e 2024, verificou-se uma moderação nos preços médios de importação em comparação com o pico de 2022, acompanhada por uma retomada no crescimento do volume importado. Essa trajetória indicou uma capacidade de adaptação do mercado brasileiro, que, mesmo diante de um cenário de instabilidade, conseguiu manter o fluxo de abastecimento, embora com ajustes nos custos. A dependência de insumos importados, como destacado por Batalha (2021), torna o agronegócio brasileiro vulnerável a choques externos, e os resultados iniciais apontaram para uma resposta do mercado focada na gestão de preços e na busca por alternativas de fornecimento.
A identificação dos países que apresentaram as maiores reduções na participação do volume total importado entre 2018 e 2024 revelou uma reconfiguração da estrutura de fornecedores. A Argélia registrou a maior queda percentual na participação, de 11,9% para 3,0%, resultando em uma redução de 8,9 pontos percentuais e um decréscimo de 594.134 toneladas no volume exportado para o Brasil. A Rússia, embora tenha visto seu volume absoluto importado em 2024 superar o de 2018, teve sua participação relativa diminuída de 22,5% para 16,6%, uma queda de 5,9 pontos percentuais, indicando que outros fornecedores cresceram a um ritmo mais acelerado.
Outros países que também apresentaram reduções significativas na participação foram os Emirados Árabes Unidos, com uma queda de 4,9 pontos percentuais, passando de 5,3% para 0,4%, e uma diminuição de 407.209 toneladas. Kuwait e Bélgica também viram suas participações caírem para zero, com reduções de 4,2 e 3,8 pontos percentuais, respectivamente, e decréscimos de 375.287 e 332.569 toneladas em volume. Esses dados sugeriram que fornecedores tradicionais perderam espaço relativo no mercado brasileiro, impulsionando a busca por novas origens e a diversificação da matriz de importação de fertilizantes nitrogenados, um movimento estratégico em resposta a riscos geopolíticos.
Em contrapartida, a análise identificou os países que ampliaram sua relevância no abastecimento brasileiro de fertilizantes no mesmo período. A China emergiu como o principal fornecedor, com um aumento expressivo de participação de 15,7% em 2018 para 38,6% em 2024, representando um acréscimo de 22,9 pontos percentuais e um volume adicional de 4.599.154 toneladas. Esse crescimento consolidou a China como um parceiro comercial fundamental para o Brasil, evidenciando uma mudança significativa na matriz de importação.
Além da China, Omã e Nigéria também ampliaram consideravelmente sua presença. Omã aumentou sua participação de 3,8% para 10,2%, um acréscimo de 6,4 pontos percentuais e 1.251.975 toneladas. A Nigéria, por sua vez, passou de 5,5% para 10,2%, elevando sua participação em 4,7 pontos percentuais e adicionando 1.095.469 toneladas ao volume importado. Venezuela e Bolívia também registraram aumentos, embora em menor escala, de 3,1 e 0,3 pontos percentuais, respectivamente. Esses resultados indicaram um processo de diversificação das origens e uma substituição parcial de fornecedores, o que reflete a capacidade do mercado brasileiro de se adaptar a um cenário internacional em constante transformação, buscando novas parcerias comerciais.
A análise agregada dos resultados descritivos indicou que o período foi marcado por um crescimento geral do volume importado, uma elevação pontual dos preços em 2022 e mudanças substanciais na composição dos países fornecedores. O choque associado ao conflito entre Rússia e Ucrânia se manifestou de forma mais intensa nos preços, enquanto a reorganização das importações, com a redução da participação relativa de alguns fornecedores e o aumento de outros, foi a principal resposta na dimensão da origem. Essa reconfiguração é um reflexo da busca por segurança de suprimento e da necessidade de mitigar riscos geopolíticos, conforme discutido por Ben Hassen, El Bilali e Allahyari (2022).
Avançando para a análise inferencial, a estimação econométrica foi conduzida para verificar alterações estatisticamente detectáveis no preço, no volume e na composição das importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados após 2022. Os modelos de regressão em painel, com observações por país de origem, produto e tempo, foram estruturados com uma variável indicadora para o período pós-conflito (2022–2024), permitindo uma comparação sistemática entre os períodos anterior e posterior ao evento. Essa abordagem permitiu isolar o efeito do conflito de outras variáveis, fornecendo uma base robusta para as interpretações.
A regressão do preço médio de importação por tonelada revelou um coeficiente estimado para a variável Pós-2022 de 0,261, com um p-valor inferior a 0,001, indicando significância estatística. A conversão desse coeficiente logarítmico demonstrou um aumento aproximado de 29,8% no preço médio por tonelada no período posterior a 2022, mantendo constantes os efeitos fixos de país, ano, mês e NCM. Esse achado confirmou um deslocamento significativo no nível de preços após o início do conflito, corroborando a interpretação de que o principal canal de transmissão do choque foi o encarecimento do insumo.
Do ponto de vista prático, esse aumento de quase 30% no preço médio de aquisição do insumo importado teve uma repercussão direta e substancial sobre o custo de produção agrícola no Brasil. Relatórios setoriais, como o da ANDA (2025), já haviam registrado a elevação dos preços internacionais de fertilizantes no período, atribuindo-a à reorganização dos fluxos comerciais e ao aumento dos custos energéticos globais. A evidência econométrica obtida neste estudo confirmou que o mercado brasileiro internalizou esse choque de preços, alinhando-se às discussões de Alexander et al. (2023) sobre o impacto do conflito nas cadeias globais de insumos agrícolas e nos custos de energia e fertilizantes.
Em relação ao volume importado, a regressão indicou um coeficiente estimado para o período pós-2022 de -0,111, com um p-valor de 0,666. Embora a conversão do coeficiente logarítmico apontasse para uma redução aproximada de 10,5% no volume médio mensal por país, essa variação não apresentou significância estatística. Portanto, não foi possível afirmar que houve uma redução sistemática e detectável do volume total importado após o início do conflito, considerando a especificação do modelo. Esse resultado sugeriu que o mercado brasileiro conseguiu manter o fluxo agregado de importações, mesmo diante do aumento dos preços.
Essa constatação é relevante do ponto de vista operacional, pois indica que o país ajustou fornecedores e contratos para preservar o abastecimento, priorizando a continuidade da oferta de insumos essenciais para a agricultura. O relatório da ANDA (2025) reforçou essa perspectiva ao apontar a manutenção do consumo interno de fertilizantes no período, o que é consistente com a ausência de uma queda estatisticamente detectável no volume agregado importado. A resiliência do volume, apesar do choque de preços, pode ser explicada pela baixa elasticidade de curto prazo da demanda por insumos essenciais em cadeias agroindustriais integradas, como mencionado por Batalha (2021).
No que tange à participação dos países de origem no volume mensal importado, os coeficientes de interação entre país e período pós-2022 revelaram mudanças estatisticamente significativas. A Rússia e a Argélia apresentaram reduções de 7,08 e 6,00 pontos percentuais em suas participações, respectivamente, ambas com p-valores inferiores a 0,001. Em contraste, a China ampliou sua participação em 16,28 pontos percentuais, enquanto Nigéria e Omã também registraram aumentos de 4,31 e 2,82 pontos percentuais, respectivamente, todos com significância estatística. Esses resultados confirmaram a recomposição da estrutura de fornecedores após 2022.
A redução da participação russa foi um reflexo direto do ambiente geopolítico pós-conflito, enquanto o aumento da participação chinesa e de países do Oriente Médio indicou uma realocação estratégica dos fluxos comerciais. Alexander et al. (2023) já haviam discutido que países importadores tenderiam a redirecionar suas compras para mitigar a exposição a riscos geopolíticos, um mecanismo que foi empiricamente identificado neste estudo. Essa recomposição da origem implicou uma alteração no padrão de dependência externa do Brasil, redefinindo a matriz de risco associada ao abastecimento, mas sem eliminar a dependência em si.
A análise conjunta das três regressões demonstrou que o principal canal de transmissão do choque geopolítico no mercado brasileiro de fertilizantes ocorreu por meio do aumento significativo dos preços e da recomposição da matriz de origem das importações. Não houve, contudo, uma contração estatisticamente detectável do volume total importado. Esse conjunto de evidências indicou que o mercado brasileiro priorizou a continuidade do abastecimento, ajustando os custos e a estrutura de fornecedores para reduzir a exposição concentrada em países diretamente afetados pelo conflito, conforme a literatura sobre mercados dependentes (Zylbersztajn, Neves e Caleman, 2015).
Em síntese, os resultados da pesquisa demonstraram que a guerra entre Rússia e Ucrânia gerou efeitos mensuráveis sobre o mercado brasileiro de fertilizantes nitrogenados. O conflito impulsionou um aumento significativo nos preços médios de importação e provocou uma notável recomposição da matriz de fornecedores, com a China, Nigéria e Omã ganhando relevância, enquanto Rússia e Argélia perderam participação relativa. Contudo, o volume total importado manteve-se estável, evidenciando a capacidade do mercado em adaptar-se ao choque geopolítico, priorizando a segurança do abastecimento, mesmo que sob custos mais elevados, e reconfigurando suas parcerias comerciais para mitigar riscos e garantir a continuidade da produção agrícola nacional.
4. Conclusão
O estudo analisou os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre o mercado brasileiro de fertilizantes no período de 2022 a 2024, buscando identificar como o conflito alterou o volume, o preço e a origem das importações. Verificou-se um aumento estatisticamente significativo de aproximadamente 29,8% no preço médio de importação por tonelada no período pós-2022. Concomitantemente, observou-se a manutenção do volume agregado importado, sem uma redução estatisticamente detectável, indicando que o mercado brasileiro priorizou a continuidade do abastecimento. A estrutura de fornecedores também passou por uma notável recomposição, com a Rússia e a Argélia apresentando reduções em suas participações relativas, enquanto a China, Nigéria e Omã ampliaram sua relevância. Esses achados demonstram que o principal canal de transmissão do choque ocorreu via encarecimento do insumo e redistribuição das origens. A pesquisa contribui ao fornecer evidências quantitativas que mensuram a capacidade de adaptação comercial do Brasil diante de um cenário de instabilidade internacional, oferecendo subsídios para a compreensão dos desafios da dependência externa no agronegócio nacional.
Apesar dos resultados robustos, o estudo possui limitações inerentes ao seu desenho. A análise utilizou dados agregados de comércio exterior, concentrando-se nas dimensões observáveis de preço, volume e origem, o que impediu a incorporação de informações sobre contratos privados, estoques estratégicos, produção doméstica ou decisões individuais de empresas importadoras. Adicionalmente, o recorte temporal de 2022 a 2024 restringe a avaliação de efeitos de longo prazo e de possíveis ajustes estruturais que possam ocorrer no mercado de fertilizantes em períodos subsequentes.
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Zylbersztajn, D.; Neves, M. F.; Caleman, S. M. Q. 2015. Gestão de sistemas de agronegócio. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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