31 de julho de 2026
Impactos da pandemia de COVID-19 no desempenho financeiro de empresas supermercadistas de capital aberto
Guilherme Paulino Macedo; Adriana Duarte de Souza Carvalho
DOI: 10.22167/2675-6528-202600872
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A pandemia de COVID-19 gerou questionamentos sobre o desempenho financeiro do setor supermercadista, essencial para o abastecimento da população em cenários de instabilidade. Este estudo analisou os efeitos da pandemia sobre o desempenho econômico e financeiro de empresas supermercadistas de capital aberto no Brasil, por meio da avaliação da receita líquida, do EBITDA ajustado e da margem EBITDA. Para isso, adotou-se uma abordagem quantitativa e descritiva, com análise documental de demonstrações financeiras de Carrefour Brasil, Assaí, Grupo Mateus e Grupo Pão de Açúcar, no período de 2017 a 2023. Os resultados revelaram que a continuidade das operações e o aumento da demanda por bens essenciais sustentaram o crescimento da receita. Contudo, a pressão de custos e despesas operacionais afetou a eficiência, gerando variações na margem EBITDA. Observou-se uma forte associação entre receita e EBITDA, mas uma relação menos intensa com a margem, indicando conversões distintas do faturamento em resultado operacional. As empresas exibiram trajetórias heterogêneas, influenciadas por seus modelos de negócio e estruturas operacionais. Concluiu-se que a pandemia impactou o desempenho financeiro de forma não uniforme, ressaltando a necessidade de avaliar simultaneamente a escala e a eficiência operacional.
Palavras-chave: Desempenho financeiro; EBITDA; Eficiência operacional; Pandemia; Varejo alimentar.
1. Introdução
O setor varejista desempenha um papel fundamental na economia contemporânea, atuando como a conexão essencial entre a produção e o consumo de bens e serviços. Dentro deste contexto, o segmento supermercadista assume uma posição estratégica no abastecimento da população, sendo responsável pela comercialização de alimentos, produtos de higiene, limpeza e outros itens considerados essenciais para a vida cotidiana. A complexidade das operações logísticas, a gestão de estoques em larga escala e a interação direta com os consumidores são fatores que sublinham a importância desse setor para o funcionamento econômico e a manutenção das cadeias de distribuição (Mattar, 2011; Pinochet et al., 2024).
Além de sua relevância econômica intrínseca, o setor supermercadista é marcado por uma elevada competitividade e pela necessidade constante de adaptação às dinâmicas do mercado. As empresas que atuam neste segmento precisam desenvolver estratégias administrativas eficazes para responder às variações no comportamento do consumidor, às pressões da concorrência e às inovações tecnológicas que moldam o varejo. Nesse sentido, a gestão do mix de produtos, a definição de preços, a organização dos estoques e a qualidade do atendimento ao cliente são elementos cruciais para a sustentabilidade e competitividade das organizações varejistas (Dias et al., 2024).
A dinâmica do setor supermercadista também é suscetível a fatores externos que podem alterar os padrões de consumo e impactar o desempenho empresarial. Eventos econômicos, sociais e sanitários possuem a capacidade de modificar a demanda por produtos e exigir reajustes nas estratégias organizacionais. A pandemia de COVID-19, em particular, representou um dos episódios mais significativos das últimas décadas, desencadeando profundas transformações nas relações de consumo, na mobilidade populacional e na operação de diversos setores econômicos. A rápida disseminação do vírus SARS-CoV-2 levou governos a implementar medidas de distanciamento social e protocolos sanitários que afetaram diretamente as atividades empresariais em escala global (Carvalho e Tavares, 2021).
Mesmo diante das severas restrições impostas a diversas atividades econômicas durante o período pandêmico, os supermercados foram categorizados como serviços essenciais e, portanto, mantiveram suas operações. Essa condição exigiu das empresas do setor adaptações rápidas, que incluíram a implementação de rigorosos protocolos de segurança sanitária, a reorganização do atendimento ao público e a reformulação das estratégias de abastecimento e logística. Simultaneamente, o comportamento do consumidor passou por alterações significativas, como o aumento da demanda por produtos de primeira necessidade, uma maior preocupação com a segurança sanitária e a crescente utilização de canais digitais de compra (Carvalho e Tavares, 2021; Dias et al., 2024).
Diante desse cenário complexo, observa-se que os efeitos da pandemia sobre o setor supermercadista não foram uniformes entre as empresas. Enquanto algumas organizações registraram crescimento de receitas e expansão de mercado, impulsionadas pela intensificação do consumo de bens essenciais, outras enfrentaram pressões significativas relacionadas ao aumento de custos operacionais, investimentos em medidas sanitárias e reorganização logística. Essa heterogeneidade nos resultados levanta questionamentos sobre a resiliência e a adaptabilidade das empresas, tornando pertinente investigar o desempenho das organizações do setor durante esse período de crise sanitária (Dias et al., 2024; Avelar et al., 2022).
A análise de demonstrações financeiras constitui um instrumento crucial para compreender o desempenho empresarial, especialmente em períodos de instabilidade econômica. Por meio desses relatórios contábeis, é possível examinar indicadores que refletem a capacidade operacional das organizações e sua eficiência na geração de resultados. Entre esses indicadores, o EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation, and Amortization) tem sido amplamente empregado em estudos financeiros por permitir avaliar o desempenho operacional das empresas antes de considerar juros, impostos, depreciação e amortização. A versão ajustada desse indicador, que incorpora correções para eventos não recorrentes, permite uma avaliação ainda mais consistente do desempenho operacional em períodos de alterações no ambiente econômico (Gaspar Neto et al., 2024; Campoi e Telles, 2025).
Nesse contexto, compreender os impactos da pandemia sobre o desempenho econômico e financeiro das empresas supermercadistas torna-se relevante tanto para a literatura acadêmica quanto para as análises estratégicas do setor varejista. A investigação desses efeitos contribui para ampliar o entendimento sobre a resiliência das organizações diante de crises e fornece subsídios para discussões relacionadas à gestão financeira e ao comportamento do mercado em cenários de elevada incerteza econômica. Dessa forma, este trabalho teve como objetivo analisar os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre o desempenho econômico e financeiro de empresas de capital aberto do setor supermercadista, por meio da avaliação de suas demonstrações financeiras e da análise do EBITDA ajustado, buscando identificar os principais fatores que contribuíram para a melhora ou piora dos resultados durante o período pandêmico.
2. Material e Métodos
A pesquisa caracterizou-se como descritiva, delineamento metodológico adotado com o propósito de examinar e descrever o comportamento de indicadores financeiros associados ao desempenho econômico de empresas de capital aberto pertencentes ao setor supermercadista brasileiro. Este tipo de estudo permite identificar padrões, características e variações de fenômenos econômicos ou organizacionais, registrando a evolução de variáveis observadas ao longo do tempo sem manipulação experimental dos dados (Gil, 2022; Creswell e Creswell, 2021).
A abordagem metodológica empregada foi quantitativa, justificada pela utilização de indicadores financeiros extraídos de demonstrações contábeis das empresas analisadas. Essa abordagem possibilitou o exame de relações entre variáveis econômicas e o desempenho organizacional por meio de dados numéricos estruturados. Investigou-se a evolução temporal dos indicadores, permitindo análises comparativas entre períodos distintos e a identificação de tendências associadas a contextos econômicos específicos (Richardson, 2017; Creswell e Creswell, 2021).
O procedimento técnico central correspondeu à análise documental, estratégia metodológica baseada na utilização de documentos institucionais como fonte de dados para a investigação científica. Essa técnica permitiu examinar registros produzidos pelas organizações e interpretá-los de forma sistemática no contexto da pesquisa. A análise documental foi empregada para acessar dados consolidados e auditados presentes em relatórios empresariais e demonstrações financeiras divulgadas ao mercado (Cellard, 2012; Gil, 2022).
A unidade de análise do estudo consistiu em empresas de capital aberto pertencentes ao setor supermercadista brasileiro. A seleção dessas organizações foi realizada em função de sua relevância econômica no mercado de varejo alimentar e da disponibilidade de informações financeiras publicamente divulgadas. As empresas incluídas na amostra foram Carrefour Brasil, Assaí Atacadista, Grupo Pão de Açúcar e Grupo Mateus, que representam o setor e possuem ampla presença territorial.
Os dados foram coletados a partir das demonstrações financeiras divulgadas pelas empresas analisadas, abrangendo relatórios anuais, demonstrações de resultados e outros documentos financeiros disponibilizados ao mercado. O período de coleta e análise dos dados estendeu-se de 2017 a 2023, contemplando intervalos anteriores e posteriores ao início da pandemia de COVID-19. Essa abrangência temporal permitiu observar variações no comportamento dos indicadores financeiros ao longo do tempo.
As variáveis consideradas para a análise foram a receita líquida, o EBITDA ajustado e a margem EBITDA ajustada. O EBITDA ajustado, em particular, foi empregado por permitir avaliar o desempenho operacional das empresas antes de juros, impostos, depreciação e amortização, incorporando correções para eventos não recorrentes (Gaspar Neto et al., 2024; Assaf Neto, 2020). As informações extraídas foram organizadas em planilhas eletrônicas estruturadas, contendo dados por ano, trimestre e empresa.
O tratamento dos dados iniciou-se com a organização das informações em planilhas eletrônicas, seguida pela aplicação de procedimentos de análise comparativa. Realizou-se a avaliação da evolução temporal do EBITDA ajustado, o cálculo de variações percentuais entre exercícios financeiros e a identificação de tendências ao longo do período analisado. Também se procedeu à comparação entre as empresas do mesmo segmento econômico, buscando compreender as dinâmicas individuais e setoriais.
Para a análise estatística, aplicou-se o teste de normalidade de Shapiro-Wilk para verificar a distribuição dos dados. A rejeição da hipótese de normalidade para as variáveis orientou a adoção de técnicas estatísticas não paramétricas. Utilizou-se o coeficiente de correlação de Spearman para avaliar a associação monotônica entre os indicadores financeiros. Adicionalmente, empregou-se o teste de Kruskal-Wallis para verificar diferenças estatisticamente relevantes entre os períodos analisados (Richardson, 2017).
Complementarmente, realizou-se o pós-teste de Mann-Whitney com ajuste de Holm para identificar diferenças específicas entre os pares de períodos, assegurando maior rigor estatístico nas comparações. A interpretação dos resultados buscou relacionar o comportamento dos indicadores financeiros com o contexto econômico e operacional enfrentado pelas empresas durante o período pandêmico. Consideraram-se fatores como alterações no padrão de consumo e adaptações operacionais implementadas pelas organizações, sem antecipar achados empíricos.
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados iniciou-se com a verificação da consistência da base de dados utilizada, abrangendo o volume de observações, a ausência de valores faltantes nas variáveis centrais e a coerência das margens calculadas. O conjunto de dados totalizou 112 observações, todas efetivamente registradas, o que confirmou a completude integral da base. A ausência de valores ausentes nas variáveis de Receita Líquida, EBITDA ajustado e Margem EBITDA ajustada reforçou a qualidade do processo de coleta e organização dos dados, minimizando a necessidade de imputações ou ajustes que poderiam comprometer a precisão das análises. Essa robustez inicial é fundamental para a confiabilidade das análises financeiras e gerenciais subsequentes.
No que concerne à consistência dos cálculos, 111 dos registros apresentaram margens dentro de um intervalo de tolerância de 0,1 ponto percentual. Esse alto nível de aderência indica que os valores derivados estão alinhados com os dados de origem, demonstrando estabilidade nos critérios de cálculo e padronização no tratamento das informações. Em termos de controladoria, tal comportamento sustenta a confiabilidade dos indicadores de desempenho, especialmente aqueles relacionados à rentabilidade operacional. A identificação de apenas um caso de divergência pontual, sem impacto estrutural sobre o conjunto analisado, sugere a necessidade de verificação individual para identificar a causa, como inconsistência de fórmula ou erro de entrada de dados.
A origem dos dados por empresa revelou uma heterogeneidade que impacta a comparabilidade dos resultados. Assaí e Carrefour Brasil apresentaram maior volume de registros oficiais em relação aos estimados/segmentados, com 16 e 17 registros oficiais, respectivamente, contra 12 e 11 estimados/segmentados. A predominância de dados oriundos de divulgações formais favorece maior padronização dos indicadores e reduz a necessidade de intervenções metodológicas, contribuindo para maior consistência nas análises. Essa estrutura de dados oficiais confere maior segurança na interpretação dos resultados para essas empresas, alinhando-se com a prática de utilizar informações auditadas para análises financeiras (Assaf Neto, 2020).
O Grupo Mateus, por sua vez, apresentou maior participação de registros estimados/segmentados, com 15 registros estimados contra 13 oficiais, indicando uma maior dependência de procedimentos de reconstrução ou segmentação das informações. Essa configuração exige maior rigor na leitura dos indicadores, sobretudo em comparações diretas com empresas cuja base apresenta maior concentração de dados oficiais. O Pão de Açúcar destacou-se pela estrutura mais robusta, com 24 registros oficiais e apenas 4 estimados/segmentados, o que contribui para maior aderência aos valores reportados e reduz a necessidade de inferências no tratamento das informações. A distribuição heterogênea na origem dos dados entre as empresas tem impactos diretos sobre a comparabilidade dos resultados, exigindo cautela na interpretação.
Distribuição dos dados e associação entre indicadores
O teste de normalidade de Shapiro-Wilk, aplicado às variáveis de receita líquida, EBITDA ajustado e margem EBITDA ajustada, revelou que todos os p-valores foram inferiores a 0,0001, indicando a rejeição da hipótese de normalidade para todas as variáveis analisadas. A receita líquida (W = 0,870) e o EBITDA (W = 0,876) apresentaram desvios em relação à normalidade, mas com um comportamento mais próximo do padrão normal em comparação à margem EBITDA (W = 0,709), que registrou o menor valor. A menor aderência à normalidade da margem EBITDA pode ser atribuída à maior dispersão relativa, influência de valores extremos ou heterogeneidade entre as empresas, fatores comuns em indicadores percentuais derivados.
A rejeição da normalidade para todas as variáveis direcionou a adoção de técnicas estatísticas não paramétricas, como o coeficiente de correlação de Spearman, para as etapas subsequentes da análise. Essa escolha metodológica contribui para maior robustez na interpretação dos resultados e evita distorções associadas ao uso inadequado de pressupostos estatísticos (Richardson, 2017). A adequação da metodologia ao comportamento dos dados é crucial para a validade das inferências, especialmente em estudos que envolvem dados financeiros de empresas em contextos de mercado dinâmicos e sujeitos a eventos atípicos, como a pandemia.
A correlação de Spearman entre os indicadores financeiros revelou uma associação positiva forte entre receita líquida e EBITDA, com um coeficiente de 0,846 e p-valor inferior a 0,0001. Esse resultado indica que as variações na receita são diretamente acompanhadas por variações no EBITDA, reforçando a coerência operacional entre a geração de receita e o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Essa forte ligação é esperada em operações de varejo, onde o volume de vendas tem um impacto direto na capacidade de geração de caixa operacional (Gaspar Neto et al., 2024).
A associação entre EBITDA e margem EBITDA também se mostrou relevante, com um coeficiente de 0,658 e p-valor inferior a 0,0001, indicando uma relação positiva de magnitude moderada a forte. Isso sugere que o crescimento do resultado operacional tende a ser acompanhado por uma melhora proporcional na eficiência operacional, refletida na margem. No entanto, a relação entre receita líquida e margem EBITDA apresentou um coeficiente mais baixo (0,291), embora estatisticamente relevante com p-valor de 0,0018. Essa baixa intensidade indica que o aumento da receita não está diretamente associado a ganhos proporcionais de margem, o que pode ser explicado por variações de custos, estrutura operacional ou estratégias comerciais adotadas pelas empresas.
A análise da dispersão entre receita líquida e EBITDA, observada graficamente, revelou uma trajetória ascendente, indicando uma associação positiva entre as variáveis: à medida que a receita líquida aumenta, o EBITDA ajustado também tende a crescer. Esse comportamento está em linha com a correlação de Spearman, reforçando que o aumento do faturamento geralmente vem acompanhado de expansão do resultado operacional, embora com intensidades distintas entre as empresas. Assaí e Grupo Mateus apresentaram maior concentração dos pontos em torno de uma faixa de crescimento relativamente regular, sugerindo maior estabilidade na conversão da receita em resultado operacional e estruturas operacionais mais homogêneas.
O Carrefour Brasil, por sua vez, exibiu maior espalhamento dos pontos, especialmente nos níveis mais elevados de receita. Em alguns casos, o crescimento do faturamento não foi acompanhado proporcionalmente pelo avanço do EBITDA ajustado, indicando flutuação mais intensa no desempenho operacional. Isso pode estar associado a mudanças de margem, pressão de custos, despesas operacionais ou movimentos estratégicos específicos (Cardoso e Britto, 2023). O Pão de Açúcar concentrou a maior heterogeneidade, com pontos de EBITDA bastante elevado em faixas intermediárias de receita, ao lado de registros com resultado operacional reduzido ou negativo. Essa dispersão mais ampla indica um comportamento menos uniforme na relação entre faturamento e geração de caixa operacional, demandando maior atenção analítica.
Em síntese, o crescimento da receita não produziu o mesmo efeito sobre o EBITDA em todas as empresas. Enquanto alguns grupos mantiveram uma trajetória mais estável, outros apresentaram oscilações mais amplas na capacidade de transformar receita em resultado operacional. Para fins gerenciais, essa observação reforça que o volume de vendas, isoladamente, não explica por completo o desempenho financeiro, tornando necessária a avaliação simultânea da eficiência operacional e da qualidade da margem. Avelar et al. (2022) já apontavam para impactos simultâneos e não uniformes sobre diferentes indicadores financeiros em contextos de crise.
Evolução anual e heterogeneidade entre empresas
A análise das estatísticas descritivas por empresa no período de 2017 a 2023 revelou diferenças significativas em porte operacional, geração de resultado e estabilidade da eficiência. O Carrefour Brasil registrou o maior volume médio de receita (R$ 19.200,2 milhões) e o maior EBITDA médio (R$ 1.057,0 milhões), posicionando-se como líder em escala. A diferença entre a média e a mediana da receita indica a presença de valores mais elevados em determinados períodos, contribuindo para elevar a média. A margem média de 6,38%, com desvio padrão de 2,42%, indica variação moderada na eficiência operacional ao longo do tempo.
O Assaí apresentou receita média de R$ 10.145,8 milhões e EBITDA médio de R$ 723,6 milhões, com valores de mediana próximos aos da média, sugerindo uma distribuição mais equilibrada ao longo das observações. Sua margem média de 6,65% e desvio padrão de 1,40% apontam para uma estabilidade relativamente maior na eficiência operacional em comparação ao Carrefour Brasil. Esse comportamento é consistente com o modelo de atacarejo, que tende a ser mais resiliente em cenários de restrição econômica, focando em preço e volume (Silva e Bezerra, 2025).
O Grupo Mateus demonstrou a menor escala de operação, com receita média de R$ 7.749,2 milhões e EBITDA médio de R$ 596,8 milhões. Contudo, sua margem média de 7,64% foi a mais elevada entre as empresas, acompanhada pelo menor desvio padrão (0,53%), indicando consistência na capacidade de geração de resultado proporcional à receita. A proximidade entre média e mediana reforça a regularidade dos dados ao longo do período, sugerindo maior controle da estrutura de custos e previsibilidade na geração de resultado (Marques, 2025).
O Pão de Açúcar registrou receita média de R$ 10.023,4 milhões e EBITDA médio de R$ 932,2 milhões, com uma diferença mais acentuada entre média e mediana do EBITDA, indicando a influência de valores extremos. A margem média de 6,77% foi acompanhada por um elevado desvio padrão (7,36%), sinalizando maior instabilidade na eficiência operacional ao longo do período analisado. Essa variabilidade pode ser atribuída a fatores operacionais e estruturais que afetam a comparabilidade dos indicadores, como apontado por Cardoso e Britto (2023).
A evolução anual da receita líquida das empresas entre 2017 e 2023 revelou trajetórias individuais distintas. O Carrefour Brasil manteve a maior receita e um crescimento contínuo, com um salto significativo entre 2021 e 2022, atingindo cerca de R$ 113 bilhões, e avançando para R$ 127 bilhões em 2023. Essa trajetória indica expansão consistente e uma mudança de patamar nos anos finais. O Assaí apresentou crescimento contínuo e mais regular, evoluindo de R$ 19 bilhões em 2017 para R$ 67 bilhões em 2023, indicando expansão sustentada com menor volatilidade.
O Grupo Mateus iniciou com receita próxima de R$ 20 bilhões em 2017, cresceu até R$ 32 bilhões em 2019, mas sofreu uma queda para R$ 12 bilhões em 2020, seguida de uma recuperação robusta para R$ 49 bilhões em 2023. Essa trajetória indica recuperação após um ponto de inflexão relevante. O Pão de Açúcar exibiu a maior variação, com crescimento de R$ 45 bilhões em 2017 para R$ 71 bilhões em 2020, seguido de uma queda acentuada para R$ 26 bilhões em 2021, mantendo-se em níveis próximos a R$ 18 bilhões em 2022 e 2023. Esse comportamento sugere uma mudança estrutural com impacto na comparabilidade ao longo do tempo.
A trajetória do EBITDA ajustado não seguiu um padrão único entre as empresas, o que aprofunda a compreensão sobre a qualidade do crescimento da receita. O Assaí demonstrou o percurso mais regular, com crescimento quase contínuo de um patamar inferior a R$ 1 bilhão para aproximadamente R$ 5 bilhões ao final da série, indicando estabilidade na formação do resultado operacional e disciplina na expansão. O Carrefour Brasil manteve o EBITDA em faixa alta e relativamente estável até 2021, com avanço até R$ 5,3 bilhões, mas a partir de 2022, a curva mudou de direção, encerrando 2023 em nível substancialmente inferior ao pico recente, apontando compressão do desempenho operacional.
O Grupo Mateus apresentou uma trajetória em dois momentos: crescimento entre 2017 e 2019, com avanço do EBITDA para R$ 2,3 bilhões, seguido de retração expressiva em 2020 para R$ 1 bilhão, e posterior recuperação para mais de R$ 3,5 bilhões até 2023. Esse comportamento demonstra capacidade de recomposição operacional após uma queda acentuada. O Pão de Açúcar exibiu a trajetória mais instável, com forte crescimento do EBITDA entre 2017 e 2020, atingindo R$ 12 bilhões, seguido de uma inflexão brusca em 2021 para perto de zero ou negativo, e uma recomposição parcial em nível muito inferior ao registrado antes da ruptura. Essa descontinuidade exige cautela na interpretação de médias e tendências.
A evolução anual da margem EBITDA entre 2017 e 2023 permitiu avaliar a eficiência operacional das empresas independentemente da escala de receita. O Assaí apresentou uma trajetória de crescimento gradual da margem, partindo de 4,5% em 2017 e alcançando patamar próximo de 8% entre 2021 e 2022, com leve acomodação em 2023. Esse comportamento indica ganho progressivo de eficiência e maior capacidade de absorção de custos à medida que a empresa amplia sua escala. O Carrefour Brasil iniciou a série próximo de 7,5%, mantendo estabilidade até 2020, mas a partir de 2021, houve redução contínua da margem, chegando a 1,5% em 2023, indicando deterioração da eficiência operacional nos anos finais, apesar do crescimento da receita.
O Grupo Mateus manteve um comportamento estável ao longo de toda a série, com margens oscilando entre 7% e 8,5%, com um pico em 2021, seguido de leve redução e estabilização. A baixa variação indica consistência na operação e manutenção da capacidade de geração de resultado proporcional à receita. O Pão de Açúcar apresentou a maior volatilidade, com a margem crescendo de 6% em 2017 para 17% em 2020, o ponto mais elevado. Em 2021, ocorreu uma ruptura abrupta, com margem negativa, seguida de recuperação parcial em níveis inferiores aos observados antes da queda. Essa trajetória indica mudanças intensas na eficiência operacional e forte oscilação na capacidade de geração de resultado.
Estimativa das mudanças por período analítico
A avaliação das médias e variações entre os períodos pré-pandemia, pandemia e pós-pandemia revelou como cada empresa reagiu em termos de escala e eficiência. O Assaí demonstrou forte expansão durante a pandemia, com crescimento de 90,2% na receita e 161,8% no EBITDA, acompanhado por um ganho de 2,24 pontos percentuais na margem. Esse desempenho indica ampliação simultânea de escala e eficiência operacional. No período pós-pandemia, a empresa manteve a trajetória de crescimento, com avanço adicional de 32,7% na receita e 37,3% no EBITDA, além de leve incremento na margem, confirmando a continuidade do ciclo de expansão sem reversão dos ganhos.
O Carrefour Brasil registrou crescimento durante a pandemia, com aumento de 32,4% na receita e 30,3% no EBITDA, porém sem ganho de margem, que apresentou variação praticamente nula (-0,02 p.p.). No período pós-pandemia, a empresa ampliou fortemente a receita (71,5%), mas apresentou queda expressiva no EBITDA (-35,3%) e redução relevante da margem (-4,64 p.p.). Essa configuração indica perda de eficiência operacional após a pandemia, com crescimento de escala não acompanhado pela geração de resultado. Essa dinâmica sugere que, embora o setor supermercadista tenha sido essencial, a pressão de custos e despesas operacionais afetou a eficiência, gerando variações na margem EBITDA (Avelar et al., 2022).
O Grupo Mateus apresentou um comportamento distinto, com leve retração da receita durante a pandemia (-6,1%), mas crescimento do EBITDA (7,2%) e aumento da margem (0,83 p.p.). Essa configuração indica melhora na eficiência operacional mesmo diante de redução de escala. No período posterior, a empresa registrou forte expansão, com crescimento de 91,1% na receita e 79,9% no EBITDA, mantendo estabilidade na margem. O desempenho aponta para uma recuperação consistente, combinando aumento de volume com manutenção da eficiência, o que pode ser atribuído a uma gestão eficaz de custos e operações (Campoi e Telles, 2025).
O Pão de Açúcar apresentou retração durante a pandemia em termos de receita (-1,4%), mas crescimento do EBITDA (37,6%), ainda que com redução da margem (-1,72 p.p.). No período pós-pandemia, ocorreu queda acentuada tanto na receita (-63,4%) quanto no EBITDA (-85,5%), acompanhada de nova redução da margem (-2,20 p.p.). Esse comportamento indica perda relevante de escala e deterioração da eficiência operacional após o período pandêmico, com uma mudança clara de patamar no desempenho da empresa. A heterogeneidade nos resultados reforça que os efeitos da pandemia não foram uniformes, destacando a importância de avaliar simultaneamente crescimento e qualidade do resultado ao longo das diferentes janelas temporais.
Diferenças entre períodos em nível de empresa
O teste de Kruskal-Wallis, aplicado para verificar diferenças estatisticamente relevantes entre os períodos analisados para o conjunto das empresas, indicou que, para a receita líquida, houve diferença estatisticamente significativa entre os períodos (H = 6,465; p = 0,0395), embora com baixa magnitude de efeito (Epsilon² = 0,041). Isso aponta para alterações na distribuição da receita ao longo das janelas temporais, mas com intensidade limitada. Para o EBITDA, o teste não indicou diferença estatisticamente significativa (H = 2,902; p = 0,2343), sugerindo que a geração de resultado operacional não apresentou mudanças consistentes no conjunto agregado das empresas.
Para a margem EBITDA, observou-se um resultado distinto, com H = 8,746 e p = 0,0126, indicando diferença estatisticamente significativa entre os períodos, com um tamanho de efeito (Epsilon² = 0,062) superior ao das demais variáveis. Esse resultado indica que a eficiência operacional apresentou variação ao longo do tempo, ainda que com magnitude moderada. A análise dos resultados indica que as diferenças entre períodos se manifestam de forma mais clara na receita líquida e na margem EBITDA, enquanto o EBITDA absoluto não apresenta variação consistente no conjunto agregado das empresas. As variações observadas estão mais associadas à relação entre receita e resultado do que ao comportamento isolado dessas variáveis, reforçando a importância de considerar indicadores relativos na avaliação do desempenho financeiro.
O pós-teste de Mann-Whitney com ajuste de Holm, aplicado para identificar diferenças específicas entre os pares de períodos, revelou que, para a receita líquida, nenhuma das comparações entre períodos alcançou significância estatística após o ajuste, indicando estabilidade na distribuição da receita. No caso do EBITDA, todas as comparações apresentaram valores de p elevados, indicando ausência de diferenças estatisticamente relevantes entre os períodos analisados para o conjunto das empresas. Para a margem EBITDA, a comparação entre pandemia e pós-pandemia apresentou p = 0,0075 e p ajustado = 0,0224, mantendo significância estatística após a correção, indicando alteração na eficiência operacional especificamente nessa transição.
Em nível de empresa, o Assaí apresentou diferenças estatisticamente relevantes para todas as variáveis (receita líquida, EBITDA e margem EBITDA), com p < 0,0001 e tamanhos de efeito elevados (Epsilon² entre 0,680 e 0,847), indicando variações expressivas entre os períodos. Esse comportamento confirma mudanças consistentes ao longo do tempo, tanto em escala quanto em eficiência operacional, alinhadas à trajetória de crescimento observada. O Carrefour Brasil também exibiu diferenças relevantes em todas as variáveis, com forte variação na receita líquida (Epsilon² = 0,833) e magnitudes moderadas para EBITDA (0,399) e margem EBITDA (0,586), indicando que, apesar da ampliação da escala, ocorreram variações importantes na geração de resultado e na eficiência.
O Grupo Mateus apresentou diferenças estatisticamente relevantes em todas as variáveis, com p inferiores a 0,001 e tamanhos de efeito variando entre 0,518 e 0,668, indicando mudanças moderadas a elevadas entre os períodos, consistentes com a trajetória de queda em 2020 e recuperação nos anos seguintes. O Pão de Açúcar apresentou diferenças estatisticamente relevantes para receita líquida (p = 0,0005) e EBITDA (p = 0,0151), com tamanhos de efeito moderados (0,533 e 0,255, respectivamente). Contudo, para a margem EBITDA, não houve diferença estatisticamente significativa (p = 0,1383), com baixo tamanho de efeito (0,078), indicando que, apesar das mudanças em escala e resultado absoluto, a variação da eficiência operacional não apresentou consistência estatística.
A análise trimestral do EBITDA ajustado permitiu observar com maior granularidade as oscilações e pontos de inflexão. O Assaí manteve uma trajetória de crescimento gradual e consistente, com variações moderadas, indicando consistência operacional e capacidade de expansão contínua. O Carrefour Brasil apresentou comportamento mais oscilatório, com estabilidade antes de 2020, seguida de variações acentuadas e redução do EBITDA nos trimestres finais, indicando perda de intensidade na geração operacional. O Grupo Mateus mostrou crescimento moderado até 2019, queda no início da pandemia e retomada ascendente a partir de 2021, confirmando um padrão de recuperação.
O Pão de Açúcar exibiu a trajetória mais volátil, com forte elevação do EBITDA durante a pandemia, atingindo valores superiores a R$ 4 bilhões, seguida de queda abrupta e registros negativos em alguns trimestres, com recuperação parcial em níveis inferiores ao pico anterior. Essa série apresenta mudanças bruscas de direção, indicando elevada instabilidade na geração de resultado. A granularidade trimestral reforça as diferenças na estabilidade e previsibilidade da geração de EBITDA entre as empresas, evidenciando que padrões de crescimento anuais podem mascarar variações relevantes dentro dos períodos (Marques, 2025).
A trajetória trimestral da margem EBITDA complementou a análise da eficiência operacional. O Assaí apresentou trajetória ascendente até o início da pandemia, alcançando patamares entre 7% e 8% a partir de 2020, mantendo-se estável nos períodos seguintes. Esse comportamento indica consolidação da eficiência operacional após uma fase de crescimento. O Carrefour Brasil mostrou estabilidade até aproximadamente 2020, com margens oscilando entre 7% e 8%, mas a partir desse ponto, observou-se uma tendência de redução gradual, com valores próximos a zero nos trimestres mais recentes, indicando perda contínua de eficiência operacional, mesmo diante da manutenção da escala de receita.
O Grupo Mateus manteve um comportamento estável ao longo de toda a série, com margens concentradas entre 7% e 9%, com pequenas variações e leve elevação em 2021. A baixa dispersão indica consistência na operação e manutenção da capacidade de geração de resultado proporcional à receita. O Pão de Açúcar apresentou a maior amplitude de dispersão, com a margem crescendo de forma contínua entre 2017 e 2020, atingindo níveis próximos a 18%, mas a partir de 2021, ocorreu uma queda abrupta, com valores negativos em determinados trimestres, seguida de recuperação parcial em níveis inferiores. Essa variação indica instabilidade acentuada na eficiência operacional.
A análise da dispersão da margem EBITDA por empresa, por meio de diagramas de caixa, reforçou que a variabilidade da margem difere entre as empresas. O Carrefour Brasil apresentou distribuição relativamente concentrada, com mediana próxima de 7% e intervalo interquartil moderado, indicando ocorrência pontual de redução na margem, mas com a maior parte dos dados em faixa estável. O Pão de Açúcar exibiu a maior amplitude de dispersão, com intervalo interquartil amplo e presença de valor extremo negativo próximo de -20%, indicando forte instabilidade na eficiência operacional. Assaí e Grupo Mateus apresentaram distribuições mais compactas, com medianas próximas de 7% e 8%, e menor dispersão, indicando consistência na margem e baixa influência de outliers.
Os resultados obtidos indicam que a continuidade das operações do setor supermercadista durante a pandemia de COVID-19 sustentou o fluxo de receitas, impulsionado pelo aumento da demanda por bens essenciais. Contudo, o crescimento da receita não foi acompanhado de maneira uniforme pela eficiência operacional, e a pressão de custos e despesas impactou a margem EBITDA de forma heterogênea entre as empresas. As diferenças nos modelos de negócio e nas estruturas operacionais explicam as trajetórias distintas, com algumas organizações apresentando maior consistência operacional e outras registrando instabilidade nos indicadores, reforçando a necessidade de uma avaliação simultânea da escala e da eficiência operacional para uma compreensão completa do desempenho financeiro.
4. Conclusão
Este estudo analisou os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre o desempenho econômico e financeiro de empresas supermercadistas de capital aberto no Brasil, por meio da avaliação da receita líquida, do EBITDA ajustado e da margem EBITDA. Verificou-se que a continuidade das operações do setor, impulsionada pela demanda por bens essenciais, sustentou o crescimento da receita líquida. Contudo, a pressão de custos e despesas operacionais afetou a eficiência, gerando variações na margem EBITDA. Observou-se uma forte associação entre receita e EBITDA, mas uma relação menos intensa com a margem, indicando conversões distintas do faturamento em resultado operacional. As empresas exibiram trajetórias heterogêneas, influenciadas por seus modelos de negócio e estruturas operacionais. Enquanto o Assaí demonstrou ganhos consistentes de escala e eficiência, o Carrefour Brasil ampliou a receita com perda de eficiência no pós-pandemia. O Grupo Mateus combinou ajuste inicial com recuperação robusta, e o Pão de Açúcar registrou contração acentuada e deterioração da eficiência após o período pandêmico. A principal contribuição deste trabalho reside em evidenciar que a pandemia impactou o desempenho financeiro de forma não uniforme, ressaltando a necessidade de avaliar simultaneamente a escala e a eficiência operacional para uma compreensão completa da resiliência das organizações em cenários de crise.
Como limitações, a análise considerou apenas empresas de capital aberto, o que restringe a generalização dos resultados. A utilização de dados secundários limitou a interpretação às informações disponíveis nas demonstrações financeiras, e a abordagem descritiva não contemplou relações de causalidade entre as variáveis analisadas. Para estudos futuros, sugere-se ampliar a amostra com empresas de capital fechado. A utilização de abordagens qualitativas pode aprofundar a compreensão dos fatores gerenciais, e a aplicação de modelos econométricos pode contribuir para analisar relações entre desempenho financeiro e variáveis operacionais.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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