12 de agosto de 2026
Gestão do cronograma aplicado à construção de biotério de “zebrafish”
Tássia Flávia Dias Castro; Paula Regina Fortes
DOI: 10.22167/2675-6528-202601465
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A gestão do cronograma constitui uma área de conhecimento relevante no gerenciamento de projetos, sendo determinante para o cumprimento de prazos e o sucesso dos empreendimentos. O objetivo deste trabalho foi propor e analisar a aplicação de técnicas de gestão do cronograma em um projeto real de construção de biotério de “zebrafish”, avaliando como o planejamento e controle dos prazos podem contribuir para a organização, previsibilidade e desempenho temporal de projetos de infraestrutura científica. A pesquisa foi conduzida como estudo de caso aplicado, de caráter exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa e quantitativa, em uma instituição pública de ensino superior. As informações foram obtidas de documentos técnicos, reuniões com a equipe e publicações especializadas. Aplicaram-se práticas do Guia PMBOK, incluindo a elaboração da Estrutura Analítica do Projeto, o sequenciamento de atividades pelo Método do Diagrama de Precedências, a estimativa de durações pela técnica PERT e o desenvolvimento do cronograma pelo Método do Caminho Crítico, com representação em gráfico de Gantt. Os resultados evidenciaram que o uso estruturado dessas ferramentas permitiu organizar as etapas do projeto, identificar o caminho crítico e mapear os principais riscos e gargalos. Verificou-se que projetos de infraestrutura científica apresentam restrições técnicas, normativas e biológicas que limitam a compressão de determinadas etapas, como a ciclagem biológica e o período de quarentena dos animais, aspectos que devem ser considerados desde o planejamento. Concluiu-se que as técnicas de gerenciamento do cronograma são aplicáveis e relevantes em projetos de infraestrutura científica, demonstrando a necessidade de considerar condicionantes técnicos, normativos e biológicos para o sucesso da execução.
Palavras-chave: Danio rerio; Infraestrutura científica; Instalações animais; Planejamento de projetos; Riscos de projeto.
1. Introdução
A gestão de projetos consolidou-se como um pilar fundamental para o sucesso de empreendimentos em diversos setores, públicos e privados, oferecendo uma estrutura robusta para o planejamento, execução e controle de iniciativas complexas (PMI, 2017). Dentro desse arcabouço, a gestão do cronograma assume uma posição estratégica, sendo um dos fatores mais críticos para o cumprimento de prazos e, consequentemente, para a viabilidade e o desempenho geral dos projetos. A complexidade crescente dos projetos contemporâneos, aliada à volatilidade dos mercados e à escassez de recursos, intensifica a necessidade de um gerenciamento temporal rigoroso. Estudos indicam que atrasos no cronograma são uma das principais causas de falhas em projetos, resultando em custos adicionais, perda de oportunidades e impacto negativo na reputação das organizações (Vargas, 2018). Em um cenário global cada vez mais competitivo, a capacidade de entregar projetos dentro do prazo estabelecido é um diferencial competitivo e uma medida de eficiência organizacional.
O Guia PMBOK (PMI, 2017) detalha o gerenciamento do cronograma como uma área de conhecimento que engloba processos essenciais, desde a definição e sequenciamento das atividades até a estimativa de suas durações, o desenvolvimento e o controle do cronograma. A definição das atividades consiste na identificação das ações específicas necessárias para produzir as entregas do projeto. O sequenciamento estabelece a ordem lógica e as dependências entre essas atividades, enquanto a estimativa de durações projeta o tempo necessário para cada uma. O desenvolvimento do cronograma integra todas essas informações para criar um modelo de execução, e o controle do cronograma monitora o progresso, permitindo ajustes e ações corretivas. Essas práticas são fundamentais para dimensionar a execução do projeto, monitorar variações e adotar medidas corretivas de forma sistemática. Ferramentas como o Método do Caminho Crítico (CPM), a técnica de Avaliação e Revisão de Programa (PERT) e os gráficos de Gantt são amplamente empregadas para visualizar a totalidade das atividades, suas interdependências e prazos, auxiliando na identificação de gargalos e na otimização do fluxo de trabalho (Picinini e Dias, 2022; Bergamo e Catai, 2023). A aplicação dessas metodologias contribui para a maior previsibilidade, otimização de recursos, alinhamento entre equipes e redução dos riscos de atrasos (Cavalcanti e Silveira, 2016).
No contexto da infraestrutura científica, a construção de instalações especializadas, como biotérios, representa um desafio particular. Biotérios, ou instalações animais, são ambientes controlados destinados à criação e manutenção de modelos animais para pesquisa, sendo cruciais para o avanço da ciência biomédica, farmacológica e toxicológica (Carvalho e Rabechini Jr., 2019). Entre os diversos modelos, o “zebrafish” (*Danio rerio*) tem ganhado destaque significativo nas últimas décadas. Suas características biológicas, como rápido desenvolvimento embrionário, alta taxa de reprodução, transparência dos embriões e uma notável similaridade genética com humanos, o tornam um organismo modelo de eleição em estudos de genética, neurociências, desenvolvimento e toxicologia (Kalueff et al., 2013; Howe et al., 2013; Rodrigues et al., 2025). A construção de um biotério dedicado a “zebrafish” é um empreendimento de alta complexidade, que exige planejamento minucioso, coordenação multidisciplinar e conformidade com uma série de requisitos técnicos e normativos.
A implantação de um biotério de “zebrafish” no Brasil, por exemplo, envolve não apenas as etapas convencionais da construção civil e a aquisição de equipamentos especializados, mas também a observância rigorosa de requisitos técnicos específicos, como sistemas de recirculação de água, filtragem biológica e controle de parâmetros ambientais (Lawrence e Mason, 2012). Além disso, há um conjunto de diretrizes normativas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), como a Resolução Normativa nº 34, de 2017. Esta resolução institui critérios detalhados para o alojamento, quarentena, biossegurança e bem-estar de espécies como o “zebrafish”, impondo condicionantes que impactam diretamente o planejamento e a execução do cronograma. A ciclagem biológica, por exemplo, é um processo técnico que exige um período mínimo de estabilização do sistema antes da introdução dos animais, e a quarentena é uma exigência normativa que não pode ser comprimida. Tais restrições técnicas, normativas e biológicas limitam a flexibilidade temporal de determinadas etapas, tornando o planejamento e controle do cronograma ainda mais críticos. Falhas nesse planejamento podem resultar em atrasos significativos, comprometendo não apenas os custos do projeto, mas também o andamento e a viabilidade das pesquisas científicas que dependem dessa infraestrutura (Cavalcanti e Silveira, 2016).
Diante da importância estratégica do “zebrafish” para a pesquisa científica contemporânea e da complexidade inerente à construção de infraestruturas científicas especializadas, a aplicação de metodologias de gestão de projetos, especialmente no que tange ao cronograma, torna-se essencial. A ausência de um planejamento temporal robusto em projetos dessa natureza pode acarretar atrasos que comprometem não apenas recursos financeiros, mas também o avanço científico e a capacidade de inovação. Dessa forma, este trabalho justifica-se pela necessidade de investigar como as boas práticas de gerenciamento do cronograma podem ser adaptadas e aplicadas a um contexto tão específico e desafiador, contribuindo para a literatura da gestão de projetos e oferecendo recomendações aplicáveis a instituições de pesquisa. O objetivo deste trabalho é propor e analisar a aplicação de técnicas de gestão do cronograma em um projeto real de construção de um biotério de “zebrafish”, avaliando de que forma o planejamento e o controle dos prazos podem contribuir para a organização, previsibilidade e desempenho temporal de projetos de infraestrutura científica.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi delineada como um estudo de caso aplicado, de caráter exploratório e descritivo, com o propósito de analisar o gerenciamento do cronograma em um projeto real. A abordagem metodológica adotada foi mista, combinando elementos qualitativos e quantitativos. Essa escolha permitiu uma descrição aprofundada das etapas do projeto e a aplicação de técnicas específicas para análise temporal do cronograma. O delineamento foi selecionado para proporcionar uma compreensão detalhada do comportamento do cronograma em um contexto prático, considerando as restrições técnicas, regulatórias e operacionais inerentes a projetos de infraestrutura científica.
O estudo concentrou-se na análise de um projeto real de construção de um biotério de “zebrafish” em uma instituição pública de ensino superior, localizada em Campinas, São Paulo, Brasil. Este empreendimento envolveu a construção e adequação de uma instalação animal para pesquisa científica, compreendendo obras de reforma civil, instalações elétricas e hidráulicas especializadas, além da implementação de um sistema de recirculação de água. A unidade de análise foi o próprio projeto de construção do biotério, com foco em suas características e desafios. Os dados foram coletados entre janeiro e março de 2026, abrangendo as fases de planejamento, desenvolvimento do cronograma e acompanhamento inicial da execução da obra.
Para a coleta de dados, foram utilizadas múltiplas fontes de informação, visando a triangulação e a robustez da análise. As informações foram obtidas a partir de documentos técnicos do projeto, que incluíram projetos arquitetônicos e complementares, memorial descritivo da obra, orçamentos detalhados e listas de aquisição de equipamentos e materiais. Adicionalmente, foram consultados documentos de referência de obras semelhantes, fornecendo subsídios para comparação e validação das estimativas. Essa abordagem documental permitiu uma compreensão abrangente do escopo e das especificidades técnicas do projeto analisado.
Complementarmente à análise documental, foram realizadas reuniões formais com os principais envolvidos no projeto. Participaram dessas interações o coordenador do laboratório, o coordenador do departamento, engenheiros responsáveis pelas áreas civil e elétrica, a equipe técnica e representantes do setor financeiro. Essas reuniões foram cruciais para o levantamento de informações qualitativas, a validação de dados técnicos e a compreensão das dependências e restrições operacionais. As interações com os especialistas contribuíram significativamente para o desenvolvimento das etapas metodológicas subsequentes, especialmente no sequenciamento e estimativa de durações.
A primeira etapa da pesquisa consistiu em uma revisão bibliográfica abrangente, realizada com o objetivo de fundamentar teoricamente as escolhas metodológicas e as análises desenvolvidas. Foram consultadas publicações sobre boas práticas de gerenciamento do cronograma, com base no Guia PMBOK (PMI, 2017) e em autores como Vargas (2018). Também foram incluídos estudos aplicados à gestão do cronograma em projetos de construção civil (Picinini e Dias, 2022; Bergamo e Catai, 2023). Essa revisão forneceu o embasamento conceitual necessário para a compreensão dos requisitos técnicos e normativos, bem como para a estruturação do cronograma e a interpretação dos resultados.
Na segunda etapa, procedeu-se à definição e caracterização detalhada do projeto analisado. Foram consolidadas as principais características do empreendimento, incluindo a identificação dos atores envolvidos e das restrições relevantes à sua execução, de natureza técnica, regulatória, orçamentária e de prazo, em conformidade com as boas práticas de gerenciamento de projetos (PMI, 2017; Kerzner, 2020). Também foram levantados os requisitos funcionais específicos do biotério, como controle de temperatura, fotoperíodo e sistemas hidráulicos de filtragem e recirculação de água. Esses elementos foram essenciais para caracterizar o projeto e orientar a definição das entregas e atividades do cronograma.
A terceira etapa focou na elaboração do cronograma do projeto, seguindo os processos de gerenciamento do cronograma descritos no Guia PMBOK (PMI, 2017). Esses processos incluíram o planejamento do gerenciamento do cronograma, a definição e o encadeamento das atividades, a estimativa de suas durações, o desenvolvimento e o controle do cronograma. Com base no escopo previamente definido, elaborou-se a Estrutura Analítica do Projeto (EAP) utilizando uma abordagem descendente “top-down”, orientada às entregas. Essa estrutura permitiu a decomposição do projeto em pacotes de trabalho gerenciáveis, integrando o gerenciamento do escopo e do tempo (PMI, 2017; Sotille et al., 2010). A EAP detalhou as entregas e atividades em cinco fases principais: Planejamento, Reforma da Estrutura, Montagem do Biotério, Laboratório e Procedimentos, e Operação Inicial.
Após a definição da EAP, identificaram-se e definiram-se as atividades do projeto, e o sequenciamento foi realizado por meio do Método do Diagrama de Precedências (MDP). Adotou-se o método dos blocos, onde as atividades foram representadas por nós conectados por setas que indicavam suas dependências lógicas. As estimativas de duração foram estabelecidas com base nos documentos técnicos do projeto, nas reuniões formais com a equipe e na experiência dos especialistas consultados. De forma complementar, aplicou-se a técnica de estimativa de três pontos, definindo-se os valores otimista (tO), mais provável (tM) e pessimista (tP), sendo a duração esperada das atividades (tE) calculada pela média ponderada da técnica PERT, conforme a equação (1), onde tE é a duração esperada, tO é a duração otimista, tM é a duração provável e tP é a duração pessimista.
Na aplicação da técnica PERT, a duração mais provável foi estabelecida com o gestor da obra, considerando as condições reais do projeto. A duração otimista foi definida como 10% inferior à mais provável, e a pessimista, 50% superior, para refletir possíveis atrasos. As durações esperadas foram arredondadas para valores inteiros, prática comum em projetos de construção (Picinini e Dias, 2022). As estimativas foram atribuídas aos pacotes de trabalho para controle do cronograma. Com as atividades definidas e sequenciadas, desenvolveu-se o cronograma utilizando o Método do Caminho Crítico (CPM) para estimar a duração mínima do projeto e identificar atividades com folga zero (PMI, 2017; Kerzner, 2020). O cronograma foi representado por gráfico de Gantt, utilizando software de planilha eletrônica (Microsoft Excel®).
Tabela 1. Estimativa de duração dos pacotes de trabalho do projeto (em dias)
|
Identificador |
Descrição da atividade |
tO |
tM |
tP |
Estimativa (dias) |
|
0.1 |
Reunião de alinhamento – Plano de gerenciamento do cronograma |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
0.2 |
Criação da EAP |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
1.1 |
Planejamento geral |
3 |
5 |
7 |
5,0 |
|
1.1.1 |
Levantamento de requisitos |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
1.1.2 |
Definição do layout preliminar |
2 |
3 |
4 |
3,0 |
|
1.1.3 |
Dimensionamento da capacidade |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
1.2 |
Projetos técnicos |
8 |
12 |
18 |
12,3 |
|
1.2.1 |
Projeto arquitetônico |
3 |
5 |
8 |
5,2 |
|
1.2.2 |
Projeto elétrico |
3 |
5 |
7 |
5,0 |
|
1.2.3 |
Projeto hidráulico |
3 |
4 |
6 |
4,2 |
|
1.2.4 |
Projeto de climatização (HVAC) |
2 |
4 |
6 |
4,0 |
|
1.2.5 |
Projeto de segurança |
1 |
2 |
4 |
2,2 |
|
1.3 |
Licenças e documentação |
5 |
8 |
12 |
8,2 |
|
1.3.1 |
ARTs dos responsáveis |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
1.3.2 |
Plano de biossegurança |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
1.3.3 |
Documentação CEUA |
2 |
3 |
6 |
3,3 |
|
2.1 |
Demolições/preparações |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.1.1 |
Remoções internas |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.1.2 |
Isolamento da área |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
2.2 |
Reforma civil |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
2.2.1 |
Piso epóxi |
3 |
4 |
6 |
4,2 |
|
2.2.2 |
Paredes epóxi |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.2.3 |
Adequações estruturais |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.3 |
Reforma hidráulica |
4 |
6 |
9 |
6,2 |
|
2.3.1 |
Pontos de abastecimento |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.3.2 |
Tubulações técnicas |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.3.3 |
Drenos técnicos |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.4 |
Reforma elétrica |
4 |
6 |
9 |
6,2 |
|
2.4.1 |
Cabeamento elétrico |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.4.2 |
Quadro elétrico |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.4.3 |
Iluminação com fotoperíodo |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.5 |
Climatização |
3 |
5 |
8 |
5,2 |
|
2.5.1 |
Equipamento de climatização |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.5.2 |
Renovação de ar |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.6 |
Testes da estrutura |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.6.1 |
Teste elétrico |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
2.6.2 |
Teste hidráulico |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
2.6.3 |
Teste de climatização |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
3.1 |
Compra de equipamentos |
15 |
25 |
40 |
26,7 |
|
3.1.1 |
Tanques e acessórios |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
3.1.2 |
Bombas e chillers |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
3.1.3 |
Sistema de filtragem |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
3.1.4 |
Sensores e controladores |
5 |
8 |
12 |
8,2 |
|
3.2 |
Instalação dos sistemas |
5 |
8 |
12 |
8,2 |
|
3.2.1 |
Montagem dos aquários (“racks”) |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
3.2.2 |
Conexão elétrica |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
3.2.3 |
Conexão hidráulica |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
3.2.4 |
Instalação de filtros e UV |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
3.2.5 |
Configuração de fotoperíodo |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
3.3 |
Testes operacionais |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
3.3.1 |
Teste de vazão | ||||
|
3.3.2 |
Teste de pressão | ||||
|
3.3.3 |
Calibração dos sensores | ||||
|
3.3.4 |
Teste de retorno de energia | ||||
|
3.4 |
Ciclagem biológica |
14 |
21 |
28 |
21,0 |
|
3.4.1 |
Início da ciclagem | ||||
|
3.4.2 |
Monitoramento químico | ||||
|
3.4.3 |
Ajustes operacionais | ||||
|
3.4.4 |
Estabilização do sistema | ||||
|
4.1 |
Equipamento de apoio |
3 |
5 |
7 |
5,0 |
|
4.1.1 |
Área de lavagem | ||||
|
4.1.2 |
Microscópios e lupas | ||||
|
4.1.3 |
Incubadoras | ||||
|
4.1.4 |
Bancadas e armários | ||||
|
4.1.5 |
Instrumentais e acessórios | ||||
|
4.2 |
POPs e treinamento |
4 |
6 |
9 |
6,2 |
|
4.2.1 |
Procedimentos Operacionais | ||||
|
4.2.2 |
Treinamento da equipe | ||||
|
4.2.3 |
Registro de competências | ||||
|
5.1 |
Quarentena |
40 |
45 |
75 |
49 |
|
5.1.1 |
Recebimento dos animais | ||||
|
5.1.2 |
Aclimatação | ||||
|
5.1.3 |
Monitoramento inicial | ||||
|
5.2 |
Introdução das linhagens |
5 |
7 |
10 |
7,2 |
|
5.2.1 |
Distribuição dos tanques | ||||
|
5.2.2 |
Estabelecimento das linhagens | ||||
|
5.2.3 |
Rotina operacional | ||||
|
TOTAL |
193 dias |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
As estimativas de duração para cada pacote de trabalho, obtidas pela técnica PERT, foram consolidadas na Tabela 1. Esta tabela apresenta os valores otimista (tO), mais provável (tM) e pessimista (tP) em dias, juntamente com a duração esperada resultante para cada atividade. As estimativas foram atribuídas exclusivamente aos pacotes de trabalho de nível superior da EAP, evitando a duplicação de tempo e garantindo a consistência. A soma das durações estimadas totalizou aproximadamente 193 dias de esforço agregado, considerando a execução sequencial de todos os pacotes.
A quarta etapa envolveu a identificação dos principais riscos e gargalos associados ao cumprimento dos prazos do projeto, com base nas informações coletadas nas etapas anteriores. A análise dos riscos foi realizada a partir da estrutura do cronograma desenvolvido, do sequenciamento das atividades e das durações estimadas, com atenção especial às etapas de maior influência no prazo final. A identificação foi conduzida pela pesquisadora em conjunto com o engenheiro responsável pela obra. Realizou-se uma análise qualitativa dos riscos (PMI, 2017), avaliando a probabilidade de ocorrência e o impacto potencial sobre o cronograma, mensurado em dias de atraso. Os riscos foram classificados em categorias como crítico, alto e médio, por meio do cruzamento entre probabilidade e impacto, permitindo a priorização das etapas que demandavam maior atenção no gerenciamento do prazo.
A quinta e última etapa da metodologia consistiu na validação conceitual do cronograma elaborado, verificando sua consistência interna e coerência metodológica. Essa validação incluiu a análise da compatibilidade entre a decomposição do projeto, o sequenciamento das atividades, as durações estimadas, o prazo global e os riscos associados. Os procedimentos metodológicos adotados e os resultados obtidos foram comparados com as diretrizes e boas práticas da literatura especializada em gerenciamento de projetos, especialmente o Guia PMBOK (PMI, 2017), e estudos de construção e implantação de instalações técnicas. Adicionalmente, foram consideradas as diretrizes normativas do CONCEA para biotérios.
Como limitação metodológica, destaca-se que o estudo foi realizado sob a forma de um único estudo de caso. Essa abordagem, embora permita uma análise aprofundada e contextualizada do projeto específico de construção do biotério de “zebrafish”, restringe a generalização dos resultados para outros contextos institucionais ou tipos de projetos. A especificidade do objeto de estudo e as particularidades do ambiente institucional podem limitar a aplicabilidade direta das conclusões a outras realidades. Contudo, o detalhamento dos procedimentos metodológicos busca oferecer um referencial para futuras pesquisas e aplicações em cenários semelhantes.
3. Resultados e Discussão
A aplicação das técnicas de gerenciamento do cronograma, conforme delineado pelo Guia PMBOK (PMI, 2017), revelou-se um instrumento fundamental para a estruturação, planejamento e controle de um projeto complexo como a construção de um biotério de “zebrafish”. Os resultados obtidos demonstram a eficácia de uma abordagem sistemática na gestão do tempo, permitindo não apenas a organização das etapas, mas também a identificação proativa de desafios e a formulação de estratégias de mitigação. A densidade e a especificidade do projeto, que envolvem requisitos técnicos, regulatórios e biológicos singulares, sublinham a necessidade de um planejamento robusto, que transcende as práticas convencionais da construção civil.
O primeiro achado significativo da pesquisa reside na elaboração do plano de gerenciamento do cronograma. Este plano não se limitou a um mero documento, mas se configurou como uma diretriz estratégica que orientou todas as fases do projeto, desde a concepção até o acompanhamento da execução. A sua formulação estabeleceu critérios claros para a definição de atividades, responsabilidades específicas para cada membro da equipe, as ferramentas a serem empregadas e os documentos essenciais para o registro e controle do progresso. Tal abordagem está em plena consonância com as recomendações do PMI (2017), que enfatiza a importância de um planejamento prévio e detalhado como alicerce para um controle eficaz do cronograma. A formalização desse plano, como evidenciado no estudo, contribuiu substancialmente para a redução de incertezas, particularmente aquelas relacionadas à sequência de execução das atividades e aos marcos críticos inerentes às exigências técnicas e normativas de um biotério. A antecipação dessas questões, por meio de um plano bem articulado, permitiu que a equipe do projeto tivesse uma visão holística e proativa, minimizando a probabilidade de retrabalhos e atrasos.
No contexto prático do projeto de construção do biotério de “zebrafish”, o plano de gerenciamento do cronograma foi crucial para alinhar as expectativas das diversas partes interessadas, desde o coordenador do laboratório até os engenheiros e o setor financeiro. A definição de uma linha de base temporal clara e consensual, conforme estabelecido pelo plano, facilitou o monitoramento contínuo do andamento da obra e a comunicação transparente sobre o progresso. A Figura 1 ilustra a estrutura do plano elaborado, destacando os processos de gerenciamento do cronograma, as ferramentas adotadas e as principais saídas associadas a cada etapa. Esta representação visual reforça a natureza integrada do planejamento, onde cada componente contribui para a previsibilidade e o desempenho temporal do projeto. A capacidade de um plano de gerenciamento de cronograma de fornecer essa clareza e estrutura é um diferencial competitivo, especialmente em empreendimentos de alta complexidade e com múltiplos stakeholders, como os projetos de infraestrutura científica.
Figura 1. Plano de gerenciamento do cronograma do projeto.
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Estrutura Analítica do Projeto (EAP) representou um pilar central na fase de planejamento, servindo como base para a decomposição hierárquica de todas as entregas do projeto. A EAP, conforme o PMI (2017), é uma ferramenta indispensável para visualizar o escopo total do trabalho, fragmentando-o em componentes menores e mais gerenciáveis. No presente estudo, a EAP não apenas facilitou a decomposição das entregas, mas também se mostrou eficaz na identificação precisa das atividades que estavam incluídas e excluídas do escopo contratual, um aspecto crucial para evitar desvios e garantir a aderência aos objetivos do projeto. A abordagem descendente “top-down” utilizada na elaboração da EAP permitiu que o projeto fosse estruturado em três níveis hierárquicos, organizando-o em cinco grandes entregáveis: Planejamento, Reforma da Estrutura, Montagem do Biotério, Laboratório e Procedimentos, e Operação Inicial. Essa granularidade na decomposição é fundamental para projetos de infraestrutura científica, que frequentemente envolvem uma vasta gama de disciplinas e requisitos técnicos.
A Figura 2 ilustra a Estrutura Analítica do Projeto da obra analisada, evidenciando a decomposição lógica e hierárquica das entregas. A clareza proporcionada pela EAP é um fator crítico para o sucesso, pois, como apontam Silva Júnior e Santos (2015), a descrição inequívoca das entregas impacta diretamente o desenvolvimento do cronograma. A EAP, ao detalhar as entregas e atividades, permitiu que a equipe do projeto compreendesse a totalidade do trabalho a ser realizado, facilitando a alocação de recursos e a definição de responsabilidades. Barcaui et al. (2019) observam que a confusão entre a definição de atividades e a elaboração da EAP é comum na prática, um desafio que foi superado neste estudo por meio de consultas à literatura especializada, garantindo a correta aplicação da ferramenta.
Figura 2. Estrutura Analítica do Projeto da obra analisada
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Os pacotes de trabalho, que constituem o nível mais baixo da EAP, foram o ponto de partida para a estimativa de custos e durações, conforme preconizado pelo PMI (2017). A Tabela 2, que detalha a lista completa de entregas e atividades, organizada nas cinco fases principais, demonstra a profundidade do planejamento. Por exemplo, o pacote 1.1, “Planejamento geral”, inclui atividades essenciais como o “Levantamento de requisitos” (1.1.1) e a “Definição do ‘layout’ preliminar” (1.1.2), que são cruciais para consolidar parâmetros ambientais e operacionais e organizar a distribuição das áreas do biotério. Da mesma forma, o pacote 2.1, “Demolições/preparações”, lista atividades como “Remoções internas” (2.1.1) e “Isolamento da área” (2.1.2), que são etapas preparatórias indispensáveis antes do início das adequações estruturais.
Tabela 2. Lista de entregas do projeto
|
ID |
Entrega/Atividade |
Descrição |
|
0 Criar Projeto – Plano de gerenciamento | ||
|
Definir as equipes de gerente de projetos | ||
|
0.1 |
Reunião de alinhamento – Plano de gerenciamento do cronograma |
Desenhar plano de gerenciamento |
|
0.2 |
Criação da EAP |
Estruturar toda a decomposição das entregas do biotério |
|
1. |
Planejamento | |
|
1.1 |
Planejamento geral |
Consolidar informações críticas, mapear necessidades e orientar diretrizes macro do projeto |
|
1.1.1 |
Levantamento de requisitos |
Identificar requisitos ambientais, hidráulicos, elétricos e operacionais necessários ao biotério |
|
1.1.2 |
Definição do “layout” preliminar |
Organizar a disposição de salas, zonas limpas, sujas e áreas de apoio |
|
1.1.3 |
Dimensionamento da capacidade |
Calcular demanda de “racks”, tanques, carga elétrica e volume hídrico do sistema |
|
1.2 |
Projetos técnicos |
Desenvolver a documentação técnica necessária para execução do biotério |
|
1.2.1 |
Projeto arquitetônico |
Planejar piso, paredes, portas técnicas, revestimentos e circulação |
|
1.2.2 |
Projeto elétrico |
Dimensionar quadros, circuitos, iluminação e fotoperíodo |
|
1.2.3 |
Projeto hidráulico |
Definir abastecimento, drenagem e esgoto |
|
1.2.4 |
Projeto de climatização (HVAC) |
Estabelecer requisitos de ventilação, renovação de ar e temperatura |
|
1.2.5 |
Projeto de segurança |
Planejar rotas, análises de risco e combate a incêndio |
|
1.3 |
Licenças e documentação |
Organizar e atender exigências legais, técnicas e éticas para obra e operação |
|
1.3.1 |
ARTs dos responsáveis |
Emitir e registrar Anotações de Responsabilidade Técnica |
|
1.3.2 |
Plano de biossegurança |
Estabelecer diretrizes sanitárias conforme normas CONCEA |
|
1.3.3 |
Documentação CEUA |
Preparar e protocolar documentos para uso e alojamentos de animais |
|
2. |
Reforma da estrutura | |
|
2.1 |
Demolições/preparações |
Preparar o ambiente para execução da reforma |
|
2.1.1 |
Remoções internas |
Remover mobiliário antigo, divisórias e equipamentos obsoletos |
|
2.1.2 |
Isolamento da área |
Instalar barreiras físicas e controlar a circulação para segurança e biossegurança |
|
2.2 |
Reforma civil |
Executar adequações estruturais e revestimentos |
|
2.2.1 |
Piso epóxi |
Aplicar revestimento técnico lavável e resistente |
|
2.2.2 |
Paredes epóxi |
Aplicar revestimento resistente e impermeável, o que dificulta a aderência de umidade e crescimento de fungos. |
|
2.2.3 |
Adequações estruturais |
Ajustar suportes, bases e elementos necessários para instalação dos “racks” |
|
2.3 |
Reforma hidráulica |
Adequar pontos de água e sistemas de drenagem |
|
2.3.1 |
Pontos de abastecimento |
Instalar pontos de água tratada para alimentar o sistema |
|
2.3.2 |
Tubulações técnicas |
Instalar linha hidráulica de alimentação dos “racks” |
|
2.3.3 |
Drenos técnicos |
Implementar drenagem adequada ao sistema de recirculação |
|
2.4 |
Reforma elétrica |
Implementar infraestrutura elétrica especializada para o biotério |
|
2.4.1 |
Cabeamento elétrico |
Instalar rede elétrica adequada à carga dos equipamentos |
|
2.4.2 |
Quadro elétrico |
Instalar quadro exclusivo com circuitos independentes |
|
2.4.3 |
Iluminação com fotoperíodo |
Instalar sistema de iluminação controlada e temporizada |
|
2.5 |
Climatização |
Implantar sistema HVAC adequado às exigências do biotério |
|
2.5.1 |
Equipamento de climatização |
Instalar unidades de ar condicionado, exaustão e circulação |
|
2.5.2 |
Renovação de ar |
Regular fluxo, troca de ar e filtragem adequada |
|
2.6 |
Testes da estrutura |
Verificar funcionamento das instalações após a reforma |
|
2.6.1 |
Teste elétrico |
Avaliar carga, funcionamento e segurança do sistema elétrico |
|
2.6.2 |
Teste hidráulico |
Testar vazão, pressão e estanqueidade das tubulações |
|
2.6.3 |
Teste de climatização |
Verificar temperatura, umidade e renovação de ar |
|
3. |
Montagem do biotério | |
|
3.1 |
Compra de equipamentos |
Adquirir os equipamentos essenciais ao sistema de recirculação e suporte ao biotério |
|
3.1.1 |
Tanques e acessórios |
Comprar tanques, bandejas, mangueiras e conexões diversas |
|
3.1.2 |
Bombas e “chillers” |
Comprar bombas principais, bombas reserva e “chillers” adequados |
|
3.1.3 |
Sistema de filtragem |
Adquirir filtros mecânicos, biológicos e lâmpadas de UV |
|
3.1.4 |
Sensores e controladores |
Adquirir sensores de pH, condutividade, temperatura |
|
3.2 |
Instalação dos sistemas |
Instalar, conectar os equipamentos e configurar a infraestrutura |
|
3.2.1 |
Montagem dos aquários (“racks”) |
Posicionar, nivelar no ambiente |
|
3.2.2 |
Conexão elétrica |
Interligar bombas, “chillers” e controladores ao sistema elétrico |
|
3.2.3 |
Conexão hidráulica |
Conectar tubulações de entrada, retorno e drenagem |
|
3.2.4 |
Instalação de filtros e UV |
Montar o sistema de filtragem completo |
|
3.2.5 |
Configuração de fotoperíodo |
Ajustar controladores de iluminação e ciclos diários |
|
3.3 |
Testes operacionais |
Verificar o funcionamento dos sistemas instalados |
|
3.3.1 |
Teste de vazão |
Medir e ajustar o fluxo de água nos “racks” |
|
3.3.2 |
Teste de pressão |
Avaliar pressão do sistema e identificar possíveis falhas |
|
3.3.3 |
Calibração dos sensores |
Ajustar pH, condutividade, temperatura |
|
3.3.4 |
Teste de retorno de energia |
Simular quedas e verificar atuação de nobreaks e redundâncias |
|
3.4 |
Ciclagem biológica |
Estabilizar o sistema biológico antes da introdução dos animais |
|
3.4.1 |
Início da ciclagem |
Adicionar bactérias nitrificantes para ativar o ciclo do nitrogênio |
|
3.4.2 |
Monitoramento químico |
Verificar amônia, nitrito e nitrato diariamente |
|
3.4.3 |
Ajustes operacionais |
Regular temperatura, fluxo e parâmetros químicos |
|
3.4.4 |
Estabilização do sistema |
Confirmar estabilidade total (2-4 semanas) |
|
4. |
Laboratório e Procedimentos | |
|
4.1 |
Equipamento de apoio |
Instalar equipamentos auxiliares necessários ao suporte das atividades do biotério |
|
4.1.1 |
Área de lavagem |
Montar local para higienização de tanques, bandejas e materiais |
|
4.1.2 |
Microscópios e lupas |
Instalar equipamentos ópticos para análise |
|
4.1.3 |
Incubadoras |
Instalar equipamentos para suporte a processos laboratoriais |
|
4.1.4 |
Bancadas e armários |
Montar mobiliário para organização e trabalho técnico |
|
4.1.5 |
Instrumentais e acessórios |
Disponibilizar materiais de uso diário no manejo dos peixes |
|
4.2 |
POPs e treinamento |
Padronizar procedimentos e capacitar a equipe responsável |
|
4.2.1 |
Procedimentos Operacionais |
Elaborar documentos que padronizam todas as rotinas do biotério |
|
4.2.2 |
Treinamento da equipe |
Capacitar técnicos e operadores para execução dos POPs |
|
4.2.3 |
Registro de competências |
Documentar treinamentos realizados e competências adquiridas |
|
5. |
Operação Inicial | |
|
5.1 |
Quarentena |
Aclimatar os peixes recém-chegados e garantir sua adaptação segura |
|
5.1.1 |
Recebimento dos animais |
Realizar a entrada dos lotes e inspecionar condições gerais |
|
5.1.2 |
Aclimatação |
Adaptar gradualmente os peixes a temperatura, água e ambiente |
|
5.1.3 |
Monitoramento inicial |
Verificar parâmetros da água e sinais clínicos diariamente |
|
5.2 |
Introdução das linhagens |
Estabelecer os peixes no sistema e iniciar rotinas permanentes |
|
5.2.1 |
Distribuição dos tanques |
Alocar os animais conforme linhagens, sexo e objetivos de pesquisa |
|
5.2.2 |
Estabelecimento das linhagens |
Acomodar os peixes e garantir sua estabilização no sistema |
|
5.2.3 |
Rotina operacional |
Iniciar manejo diário, alimentação, observação e registros |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A segmentação em atividades específicas, como “Conexão elétrica” (3.2.2) e “Conexão hidráulica” (3.2.3) dentro do pacote “Instalação dos sistemas” (3.2), permitiu identificar etapas críticas para o funcionamento do sistema de recirculação e a validação dos equipamentos. A “Ciclagem biológica” (3.4), com atividades como “Monitoramento químico” (3.4.2) e “Estabilização do sistema” (3.4.4), ilustra a necessidade de maturação e controle rigoroso dos parâmetros da água antes da introdução dos animais, um aspecto técnico que impacta diretamente o cronograma e não pode ser negligenciado. Além disso, a importância da padronização das rotinas e da capacitação dos operadores é evidenciada em atividades como “Procedimentos Operacionais” (4.2.1) e “Treinamento da equipe” (4.2.2). As atividades do pacote “Quarentena” (5.1), como “Recebimento dos animais” (5.1.1) e “Aclimatação” (5.1.2), ressaltam os cuidados necessários para a introdução gradual dos peixes em um ambiente controlado, garantindo sua adaptação e biossegurança. A EAP, portanto, não é apenas uma ferramenta de decomposição, mas um guia detalhado que incorpora as especificidades técnicas, biológicas e normativas do projeto, garantindo que nenhum aspecto crítico seja negligenciado.
O sequenciamento das atividades, realizado por meio do Método do Diagrama de Precedências (MDP), foi uma etapa crucial para estabelecer a lógica de execução do projeto. A Figura 3 apresenta um diagrama de precedência simplificado dos pacotes de trabalho, ilustrando as dependências lógicas entre as atividades. As dependências foram definidas com base em restrições técnicas, físicas e normativas que impedem a execução paralela de determinadas etapas. Por exemplo, a reforma civil deve ser concluída antes da instalação dos sistemas de recirculação, pois as infraestruturas hidráulica e elétrica são pré-requisitos físicos para o funcionamento dos equipamentos. Essa interdependência é um reflexo da natureza integrada dos projetos de infraestrutura, onde a falha ou atraso em uma etapa pode ter um efeito cascata sobre as subsequentes.
Figura 3. Diagrama de precedência simplificado dos pacotes de trabalho
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Similarmente, a ciclagem biológica do sistema só pode ser iniciada após a instalação e validação completa dos equipamentos, uma vez que o processo de estabelecimento das bactérias nitrificantes depende de um sistema em pleno funcionamento. A quarentena dos animais, por sua vez, é uma exigência normativa do CONCEA (2017) que não pode ser suprimida ou executada em paralelo com as demais etapas de operação inicial, pois garante a biossegurança do sistema e o bem-estar animal. Essas restrições, de natureza técnica e regulatória, determinaram diretamente a estrutura sequencial do caminho crítico do projeto. A utilização do MDP, ao estruturar uma sequência lógica de execução, reduziu significativamente a probabilidade de retrabalhos e conflitos entre atividades, um aspecto particularmente relevante em projetos de reforma e implantação de sistemas técnicos. Além disso, o sequenciamento permitiu identificar as atividades com maior impacto sobre o andamento do projeto, subsidiando a etapa posterior de identificação do caminho crítico. Kerzner (2020) corrobora essa perspectiva, afirmando que os diagramas de rede são ferramentas essenciais para compreender a dinâmica temporal das atividades e identificar possíveis conflitos ou restrições na execução do projeto, permitindo uma gestão mais proativa e eficiente.
A estimativa de durações das atividades foi realizada com base em informações provenientes de projetos anteriores semelhantes e na opinião de especialistas consultados, o que aumentou a confiabilidade das projeções. A aplicação da técnica PERT (Program Evaluation and Review Technique) foi fundamental para incorporar cenários otimista (tO), mais provável (tM) e pessimista (tP) para cada pacote de trabalho, aumentando a robustez das durações estimadas. Essa abordagem é recomendada na gestão de projetos com elevado grau de variabilidade operacional, pois reduz o risco de subdimensionamento dos prazos (Vargas, 2018). A duração mais provável foi estabelecida em conjunto com o gestor da obra, refletindo as condições reais do projeto, enquanto as durações otimista (10% inferior) e pessimista (50% superior) foram definidas para contemplar possíveis atrasos decorrentes de riscos técnicos, logísticos ou regulatórios. As durações esperadas foram arredondadas para valores inteiros, uma prática comum em projetos de construção (Picinini e Dias, 2022).
A Tabela 1 apresenta a base de estimativas em dias para os pacotes de trabalho definidos na EAP, com os valores atribuídos a cada cenário e a duração esperada resultante. É importante ressaltar que as estimativas de duração foram atribuídas exclusivamente aos pacotes de trabalho de nível superior da EAP, evitando a duplicação de tempo e garantindo a consistência. As subdivisões de nível inferior da EAP tiveram caráter descritivo e técnico, sem receber estimativas individuais, pois suas durações já estavam incorporadas aos pacotes superiores. Essa decisão metodológica é crucial para manter a integridade do cronograma e evitar superestimações. A soma das durações estimadas totalizou aproximadamente 193 dias de esforço agregado, considerando a execução sequencial de todos os pacotes. No entanto, este valor não representa a duração final do projeto, uma vez que diversas atividades são executadas em paralelo, conforme o sequenciamento definido no diagrama de precedência.
Tabela 1. Estimativa de duração dos pacotes de trabalho do projeto (em dias)
|
Identificador |
Descrição da atividade |
tO |
tM |
tP |
Estimativa (dias) |
|
0.1 |
Reunião de alinhamento – Plano de gerenciamento do cronograma |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
0.2 |
Criação da EAP |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
1.1 |
Planejamento geral |
3 |
5 |
7 |
5,0 |
|
1.1.1 |
Levantamento de requisitos |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
1.1.2 |
Definição do layout preliminar |
2 |
3 |
4 |
3,0 |
|
1.1.3 |
Dimensionamento da capacidade |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
1.2 |
Projetos técnicos |
8 |
12 |
18 |
12,3 |
|
1.2.1 |
Projeto arquitetônico |
3 |
5 |
8 |
5,2 |
|
1.2.2 |
Projeto elétrico |
3 |
5 |
7 |
5,0 |
|
1.2.3 |
Projeto hidráulico |
3 |
4 |
6 |
4,2 |
|
1.2.4 |
Projeto de climatização (HVAC) |
2 |
4 |
6 |
4,0 |
|
1.2.5 |
Projeto de segurança |
1 |
2 |
4 |
2,2 |
|
1.3 |
Licenças e documentação |
5 |
8 |
12 |
8,2 |
|
1.3.1 |
ARTs dos responsáveis |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
1.3.2 |
Plano de biossegurança |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
1.3.3 |
Documentação CEUA |
2 |
3 |
6 |
3,3 |
|
2.1 |
Demolições/preparações |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.1.1 |
Remoções internas |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.1.2 |
Isolamento da área |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
2.2 |
Reforma civil |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
2.2.1 |
Piso epóxi |
3 |
4 |
6 |
4,2 |
|
2.2.2 |
Paredes epóxi |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.2.3 |
Adequações estruturais |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.3 |
Reforma hidráulica |
4 |
6 |
9 |
6,2 |
|
2.3.1 |
Pontos de abastecimento |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.3.2 |
Tubulações técnicas |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.3.3 |
Drenos técnicos |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.4 |
Reforma elétrica |
4 |
6 |
9 |
6,2 |
|
2.4.1 |
Cabeamento elétrico |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.4.2 |
Quadro elétrico |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.4.3 |
Iluminação com fotoperíodo |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.5 |
Climatização |
3 |
5 |
8 |
5,2 |
|
2.5.1 |
Equipamento de climatização |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.5.2 |
Renovação de ar |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
2.6 |
Testes da estrutura |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
2.6.1 |
Teste elétrico |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
2.6.2 |
Teste hidráulico |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
2.6.3 |
Teste de climatização |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
3.1 |
Compra de equipamentos |
15 |
25 |
40 |
26,7 |
|
3.1.1 |
Tanques e acessórios |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
3.1.2 |
Bombas e chillers |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
3.1.3 |
Sistema de filtragem |
7 |
10 |
15 |
10,3 |
|
3.1.4 |
Sensores e controladores |
5 |
8 |
12 |
8,2 |
|
3.2 |
Instalação dos sistemas |
5 |
8 |
12 |
8,2 |
|
3.2.1 |
Montagem dos aquários (“racks”) |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
3.2.2 |
Conexão elétrica |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
3.2.3 |
Conexão hidráulica |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
3.2.4 |
Instalação de filtros e UV |
1 |
2 |
3 |
2,0 |
|
3.2.5 |
Configuração de fotoperíodo |
1 |
1 |
2 |
1,2 |
|
3.3 |
Testes operacionais |
2 |
3 |
5 |
3,2 |
|
3.3.1 |
Teste de vazão | ||||
|
3.3.2 |
Teste de pressão | ||||
|
3.3.3 |
Calibração dos sensores | ||||
|
3.3.4 |
Teste de retorno de energia | ||||
|
3.4 |
Ciclagem biológica |
14 |
21 |
28 |
21,0 |
|
3.4.1 |
Início da ciclagem | ||||
|
3.4.2 |
Monitoramento químico | ||||
|
3.4.3 |
Ajustes operacionais | ||||
|
3.4.4 |
Estabilização do sistema | ||||
|
4.1 |
Equipamento de apoio |
3 |
5 |
7 |
5,0 |
|
4.1.1 |
Área de lavagem | ||||
|
4.1.2 |
Microscópios e lupas | ||||
|
4.1.3 |
Incubadoras | ||||
|
4.1.4 |
Bancadas e armários | ||||
|
4.1.5 |
Instrumentais e acessórios | ||||
|
4.2 |
POPs e treinamento |
4 |
6 |
9 |
6,2 |
|
4.2.1 |
Procedimentos Operacionais | ||||
|
4.2.2 |
Treinamento da equipe | ||||
|
4.2.3 |
Registro de competências | ||||
|
5.1 |
Quarentena |
40 |
45 |
75 |
49 |
|
5.1.1 |
Recebimento dos animais | ||||
|
5.1.2 |
Aclimatação | ||||
|
5.1.3 |
Monitoramento inicial | ||||
|
5.2 |
Introdução das linhagens |
5 |
7 |
10 |
7,2 |
|
5.2.1 |
Distribuição dos tanques | ||||
|
5.2.2 |
Estabelecimento das linhagens | ||||
|
5.2.3 |
Rotina operacional | ||||
|
TOTAL |
193 dias |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
O desenvolvimento do cronograma, utilizando o Método do Caminho Crítico (CPM), permitiu estimar a duração mínima do projeto e identificar as atividades com folga total igual a zero, que são as atividades críticas. A Figura 4 representa o caminho crítico obtido, com as atividades destacadas em vermelho, evidenciando a sequência de tarefas que, se atrasadas, impactarão diretamente o prazo final do projeto. O caminho crítico compreendeu, principalmente, as etapas de planejamento, licenciamento, reforma da estrutura, testes de infraestrutura, instalação e validação dos sistemas, ciclagem biológica, implantação de procedimentos operacionais, quarentena e a introdução das linhagens.
Figura 4. Caminho crítico do projeto de construção do biotério de “zebrafish”
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A duração total do projeto, considerando exclusivamente as atividades pertencentes ao caminho crítico, foi estimada em 167 dias úteis. Esse valor representa o prazo mínimo necessário para a conclusão do projeto. A comparação entre o esforço agregado das atividades (193 dias) e a duração do caminho crítico (167 dias) revela uma diferença de 26 dias. Essa discrepância evidencia a relevância do sequenciamento adequado e da sobreposição controlada de atividades para a otimização do prazo final, confirmando que a aplicação do CPM permitiu reduzir o tempo total do projeto em relação ao esforço agregado. O conhecimento do caminho crítico é um dos principais instrumentos para o controle de prazos, pois permite antecipar os impactos de possíveis atrasos e priorizar as atividades críticas (Terribili, 2009). Kerzner (2020) reforça que a gestão eficaz do cronograma depende da capacidade de monitorar continuamente as atividades críticas e adotar ações corretivas de forma tempestiva. Estudos comparativos, como os de Olivieri et al. (2019) e Scala et al. (2023), reforçam que o CPM permanece central para análises do caminho crítico e atendimento a requisitos contratuais no contexto da construção civil.
A análise dos riscos e gargalos do cronograma foi uma etapa fundamental para identificar os potenciais obstáculos ao cumprimento dos prazos do projeto. A Tabela 4 apresenta os principais riscos e gargalos identificados, classificando-os por tipo, probabilidade, impacto e classificação, além de observações complementares. Entre os pontos críticos, destacam-se a aquisição de equipamentos, a ciclagem biológica do sistema e a quarentena dos animais. A aquisição de equipamentos (3.1), classificada como risco crítico, é particularmente vulnerável a atrasos externos, devido à dependência de processos institucionais de compra, logística de entrega e disponibilidade de fornecedores. Um atraso nessa etapa impacta diretamente o início da instalação dos sistemas (3.2) e, consequentemente, da ciclagem biológica (3.4), demonstrando a interconexão das atividades.
Tabela 4. Principais riscos e gargalos do cronograma
|
Risco/Gargalo |
Tipo |
Probabilidade |
Impacto |
Classificação |
Observação |
|
Atraso na entrega de equipamentos |
Externo |
Alta |
Alto |
Crítico |
Dependência de fornecedores |
|
Atraso de materiais da obra |
Externo |
Média |
Alto |
Alto |
Impacto direto na reforma |
|
Período chuvoso |
Externo |
Média |
Médio |
Médio |
Afeta atividades civis |
|
Liberação de verba |
Externo |
Baixa/Média |
Alto |
Alto |
Pode interromper atividades |
|
Ciclagem biológica |
Gargalo técnico |
Alta |
Alto |
Crítico |
Tempo mínimo não reduzível |
|
Instabilidade da água |
Técnico |
Média |
Alto |
Alto |
Pode estender ciclagem |
|
Quarentena |
Gargalo normativo |
Alta |
Alto |
Crítico |
Exigência normativa |
|
Mortalidade/doença |
Técnico-biológico |
Baixa/Média |
Alto |
Alto |
Pode reiniciar processo |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Estudos em gestão do cronograma em projetos de construção e implantação de instalações técnicas, como os de Picinini e Dias (2022) e Durdyev e Hosseini (2020), frequentemente observam atrasos relacionados a fornecedores e integração de sistemas como desafios relevantes. Carvalho e Rabechini Jr. (2019) também apontam que projetos de infraestrutura apresentam elevada complexidade e dependência de fatores externos, o que reforça a necessidade de reservas de contingência de prazo nessas etapas. A ciclagem biológica (3.4) e a quarentena (5.1) representam gargalos de natureza técnica e normativa com duração mínima não compressível. A ciclagem biológica, por exemplo, exige um período mínimo de estabilização do sistema antes da introdução dos animais (Teoh et al., 2020), e qualquer atraso nessa etapa se transfere integralmente para o prazo final do projeto, sem possibilidade de recuperação por paralelismo. Da mesma forma, a quarentena dos animais é uma exigência normativa do CONCEA (2017) para garantir a biossegurança e o bem-estar animal, não podendo ser suprimida ou executada em paralelo. Essa análise reforça a necessidade de monitoramento prioritário dessas atividades ao longo da execução.
A análise dos riscos evidenciou que o desempenho do cronograma está diretamente relacionado à gestão das incertezas inerentes ao projeto. Perminova, Gustafsson e Wikström (2008) destacam que a incerteza é um elemento central na definição e controle dos prazos, exigindo abordagens flexíveis e adaptativas. Hillson (2003) complementa que a identificação e análise de riscos são essenciais para aumentar a previsibilidade e subsidiar a tomada de decisão. No presente estudo, riscos relacionados à logística de equipamentos, condições climáticas, disponibilidade de recursos e estabilidade do sistema biológico demonstraram potencial de impacto sobre o prazo, confirmando que o controle efetivo dos prazos depende da compreensão das restrições operacionais e dos fatores de incerteza envolvidos (Vargas, 2018; Meredith e Mantel Jr., 2000).
Em nível conceitual, foram consideradas estratégias de resposta aos principais riscos identificados. Para os riscos externos, como atraso na aquisição de equipamentos, materiais da obra e liberação de verba, a estratégia de mitigação recomendada inclui o início antecipado dos processos de compra institucionais, a identificação prévia de fornecedores alternativos e a constituição de uma reserva de contingência de prazo, conforme o PMI (2017). Para o risco associado ao período chuvoso, a estratégia indicada é a aceitação ativa, com a programação das atividades civis mais sensíveis às chuvas fora do período de maior incidência pluviométrica, e a constituição de reservas de prazo para absorção de eventuais impactos (Kerzner, 2020). Para o risco de instabilidade da água, a mitigação envolve o monitoramento diário dos parâmetros químicos durante a ciclagem biológica, com ajustes operacionais preventivos no sistema de filtragem (Dammski et al., 2011; Kutter et al., 2023). Para os gargalos técnicos e normativos, como a ciclagem biológica e a quarentena, a estratégia é a aceitação ativa com monitoramento prioritário, a fim de evitar que atrasos se transfiram integralmente ao prazo final do projeto. A identificação e análise desses riscos e gargalos reforça a importância do planejamento criterioso em projetos de infraestrutura científica, evidenciando que a antecipação das restrições operacionais, técnicas e normativas é determinante para o cumprimento dos prazos e a viabilidade da pesquisa científica dependente dessa infraestrutura.
O cronograma foi representado por meio do gráfico de Gantt, conforme apresentado na Figura 5, permitindo uma visualização clara da sequência das atividades, suas durações e possíveis sobreposições ao longo do tempo. Para maior aderência à realidade da construção, o cronograma foi elaborado considerando apenas dias úteis, desconsiderando fins de semana e feriados, e estabelecendo que cada atividade inicia no primeiro dia útil subsequente ao término de sua predecessora. A análise comparativa entre as datas planejadas e as datas reais de execução evidenciou variações relevantes no desempenho das atividades. Observou-se que diversas atividades foram iniciadas antes do previsto, como as etapas de planejamento, projetos técnicos e licenças (1.1, 1.2 e 1.3), bem como atividades da fase de reforma (2.1, 2.2, 2.3 e 2.4).
Figura 5. Gráfico de Gantt – parte 1 e 2
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Verificou-se ainda uma redução no tempo de execução de várias atividades quando comparado ao planejamento inicial. Por exemplo, a atividade de projetos técnicos (1.2), inicialmente estimada em 13 dias, foi concluída em 10 dias, enquanto a etapa de licenças (1.3) foi reduzida de 9 para 7 dias. Situação semelhante foi observada nas etapas 2.1, 2.2 e 2.3, cujas durações também foram inferiores às estimadas, de 6 para 3 dias, de 11 para 8 dias e de 7 para 4 dias, respectivamente. Esses resultados sugerem que a técnica PERT, ao incorporar cenários pessimistas nas estimativas de duração, contribuiu para a geração de reservas de tempo que foram consumidas de forma positiva durante a execução, conforme esperado em projetos com elevado grau de variabilidade operacional (Vargas, 2018). Essa capacidade de absorver variações é um benefício direto de um planejamento que considera incertezas.
Por outro lado, identificaram-se desvios negativos em atividades específicas. A reforma elétrica (2.4), inicialmente prevista em 7 dias, demandou 18 dias para sua conclusão. Esse desvio esteve associado a fatores institucionais e externos, como a demora na liberação de recursos financeiros, atrasos no fornecimento de materiais e a ocorrência de períodos de chuvas intensas, fatores esses previamente identificados como riscos de média a alta probabilidade na Tabela 4. Apesar da magnitude do desvio, o impacto sobre o prazo final do projeto foi neutralizado pelas folgas acumuladas nas etapas anteriores, reforçando a relevância do planejamento criterioso como mecanismo de absorção de variações durante a execução (Kerzner, 2020). No caso da atividade de aquisição de equipamentos (3.1), observou-se início posterior ao planejado, associado à demora na liberação de recursos e aos processos de aquisição institucional, em linha com o risco classificado como crítico na Tabela 4. No entanto, após a disponibilização dos recursos, a aquisição foi concluída dentro do prazo estimado, sem comprometimento das atividades subsequentes. De forma geral, os resultados indicam que, até o momento da análise, o cronograma apresentou desempenho satisfatório, com antecipação de atividades em diversas etapas e desvios pontuais associados a fatores externos e institucionais. Ressalta-se, entretanto, que o projeto ainda se encontra em andamento, podendo ocorrer variações adicionais ao longo das etapas subsequentes, especialmente nas atividades de natureza biológica — Ciclagem biológica (3.4) e Quarentena (5.1), classificadas como gargalos críticos e não compressíveis do projeto (PMI, 2017; CONCEA, 2017). A gestão contínua e adaptativa será crucial para o sucesso final do empreendimento.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao demonstrar a aplicabilidade e a relevância das técnicas de gestão do cronograma em um projeto real de construção de um biotério de “zebrafish”. A pesquisa evidenciou que o planejamento e o controle rigoroso dos prazos são cruciais para a organização, previsibilidade e o desempenho temporal de projetos de infraestrutura científica, particularmente aqueles que envolvem condicionantes técnicos, normativos e biológicos que não admitem flexibilização. O uso estruturado de ferramentas e metodologias, como a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), o sequenciamento de atividades pelo Método do Diagrama de Precedências (MDP), a estimativa de durações pela técnica PERT e o desenvolvimento do cronograma pelo Método do Caminho Crítico (CPM), permitiu não apenas organizar as etapas, mas também identificar proativamente o caminho crítico, mapear os principais riscos e gargalos, e antecipar desafios. Essa abordagem sistemática contribuiu significativamente para uma gestão mais proativa e embasada, otimizando a alocação de recursos e minimizando desvios.
Contudo, este estudo possui limitações inerentes ao seu delineamento, sendo um recorte de caso único. Essa característica restringe a generalização dos resultados para outros contextos ou projetos de infraestrutura científica, uma vez que as particularidades institucionais e regionais podem influenciar a aplicação e os resultados das práticas de gestão. Para estudos futuros, recomenda-se ampliar a análise para diferentes instituições e tipos de biotérios, a fim de verificar a adaptabilidade e a eficácia das boas práticas de gestão do cronograma em uma gama mais vasta de cenários. Sugere-se também a incorporação de métodos probabilísticos mais avançados na estimativa de prazos, como simulações de Monte Carlo, visando aprimorar a precisão e a robustez do planejamento temporal em ambientes de alta incerteza, e aprofundar a análise da gestão de riscos em conjunto com o cronograma.
Referências Bibliográficas
Barcaui, A.B.; Borba, D.; Silva, I.M.; Never, R.B. 2019. Gerenciamento de Cronograma em Projetos. FGV Editora, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Bergamo, B.; Catai, R.E. 2023. Aplicação do planejamento de curto prazo: estudo de caso em um canteiro de obras. Brazilian Journal of Production Engineering 9(4):290-305.
Carvalho, M. M.; Rabechini Junior, R. 2019. Fundamentos em Gestão de Projetos: Construindo Competências para Gerenciar Projetos. Atlas, São Paulo, SP, Brasil. Disponível em: https://repositorio.usp.br/directbitstream/f1d64c45-5a50-42e7-8bf1-41e7cc265c41/Carvalho-2019-fundamentos.pdf. Acesso em: 10 set. 2025.
Cavalcanti, F. R. P.; Silveira, J. A. N. 2016. Fundamentos de Gestão de Projeto: Gestão de Riscos. 1. ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9788597005622. Acesso em: 06 set. 2025.
Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal [CONCEA]. 2017. Resolução Normativa nº 34, de 27 de julho de 2017. Institui o capítulo “Peixes mantidos em instalações de instituições de ensino ou pesquisa científica para fins de estudo biológico ou biomédico I – Lambari (Astyanax), Tilápia (Tilapia, Sarotherodon e Oreochromis) e Zebrafish (Danio rerio)”. Diário Oficial da União, Brasília, 28 jul.2017.Seção 1, p. 218.
Damski, A.P.; Altran, S.; Ferreira, A.T.S.; Oda, C.M.R.; Oliveira-Santos, W. 2011. Zebrafish: Manual de Criação em Biotério. UFPR, Curitiba, PR, Brasil. Disponível em: https://gia.org.br/portal/wp-content/uploads/2013/06/ZEBRAFISH.pdf.pdf. Acesso em: 31 mar. 2026.
Durdyev, S.; Hosseini, M.R. 2020. Causes of delays on construction projects: a comprehensive list. International Journal of Managing Projects in Business 13(1): 20-46.
Hillson, D. 2003. Effective Opportunity Management for Projects: Exploiting Positive Risk. Marcel Dekker, New York, NY, USA.
Howe, K.; Clark, M.D.; Torroja, C.F.; Torrance, J.; Berthelot, C.; Muffato, M.; Collins, J.E.; Humphray, S.; McLaren, K.; Matthews, L.; McLaren, S.; Sealy, I.; Caccamo, M.; Churcher, C.; Scott, C.; Barrett, J.C.; Koch, R.; Rauch, G.J.; White, S.; Chow, W.; Kilian, B.; Quintais, L.T.; Guerra-Assunção, J.A.; Zhou, Y.; Gu, Y.; Yen, J.; Vogel, J.H.; Eyre, T.; Redmond, S.; Banerjee, R.; Chi, J.; Fu, B.; Langley, E.; Maguire, S.F.; Laird, G.K.; Lloyd, D.; Kenyon, E.; Donaldson, S.; Sehra, H.; Almeida-King, J.; Loveland, J.; Trevanion, S.; Jones, M.; Quail, M.; Willey, D.; Hunt, A.; Burton, J.; Sims, S.; McLay, K.; Plumb, B.; Davis, J.; Clee, C.; Oliver, K.; Clark, R.; Riddle, C.; Stemple, D.L. 2013. The zebrafish reference genome sequence and its relationship to the human genome. Nature 496(7446): 498-503.
Kalueff, A.V.; Gebhardt, M.; Stewart, A.M.; Cachat, J.M.; Brimmer, M.; Chawla, J.S.; Craddock, C.; Kyzar, E.J.; Roth, A.; Landsman, S.; Gaikwad, S.; Robinson, K.; Baatrup, E.; Tierney, K.; Shamchuk, A.; Norton, W.; Miller, N.; Nicolson, T.; Braubach, O.; Gilman, C.P.; Pittman, J.; Rosemberg, D.B.; Gerlai, R.; Echevarria, D.; Lamb, E.; Neuhauss, S.C.F.; Weng, W.; Bally-Cuif, L.; Schneider, H. 2013. Towards a comprehensive catalog of zebrafish behavior 1.0 and beyond. Zebrafish 10(1): 70-86.
Kerzner, H. 2020. Gestão de projetos: As Melhores Práticas. 4ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.
Kutter, M.T.; Barcellos, L.J.G.; Boyle, R.T.; Marins, L.F. 2023. Boas práticas na criação e manutenção de zebrafish (Danio rerio) em laboratório no Brasil. Ciência Animal Brasileira 24: e74134P.
Lawrence, C.; Mason, T. 2012. Zebrafish housing systems: a review of basic operating principles and considerations for design and functionality. ILAR Journal 53(2): 179-191.
Meredith, J.R.; Mantel Jr., S.J. 2000. Administração de Projetos: Uma Abordagem Gerencial. Grupo GEN, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Olivieri, H.; Seppänen, O.; Alves, T.C.L.; Scala, N.M.; Schiavone, V.; Liu, M.; Granja, A.D. 2019. Survey comparing Critical Path Method, Last Planner System, and location-based techniques. Journal of Construction Engineering and Management 145(12): 04019077.
Perminova, O.; Gustafsson, M.; Wikström, K. 2008. Defining uncertainty in projects: a new perspective. International Journal of Project Management 26(1): 73-79.
Picinini, E.F.; Dias, T.F. 2022. Gerenciamento do cronograma de projetos… Revista de Administração de Empresas Eletrônica-RAEE (16): 59-85.
Project Management Institute [PMI]. 2017. Um Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos (Guia PMBOK®). 6. ed. Project Management Institute, Newtown Square, PA, EUA.
Rodrigues, L.C.; de Godoi, A.B.; Feis, V.C.; Peterson, R.T.; Maurer-Morelli, C.V.; Costa, J.L. 2025. Zebrafish embryo-larval testing reveals differential toxicity of new psychoactive substances. Toxicology Reports 14: 102018.
Scala, N.M.; Olivieri, H.; Seppänen, O.; Alves, T.C.L.; Liu, M.; Granja, A.D. 2023. Comparative analysis of planning with the Critical Path Method, Last Planner System, and location-based techniques in Brazil, Finland, and the United States. Engineering Management Journal 35(3): 237-256.
Silva Júnior, A. S; Santos, C.T.2015. A gestão do cronograma em empresas de engenharia civil: Um estudo sobre os fatores determinantes. Revista de Gestão de Projetos – GeP. 6 (1):111-124.
Sotille, M.A.; Matos, L.F.; Leal, R.J.; Bittencourt, J.L.V. 2010. Gerenciamento do Escopo em Projetos. 2ed. FGV, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Teoh, S.L; Sapri, S.R.B.; Yusof, M.R.B.M.; Yahaya, M.F.; Das, S. 2020. Construction of an affordable open-design recirculating zebrafish housing system. Journal of the American Association for Laboratory Animal Science 59(5): 512-518.
Terribili Filho, A. 2009. O desafio de gerenciar prazos em projetos. Revista Integração. 59 (59):305-311.
Vargas, R. V. 2018. Gerenciamento de Projetos: Estabelecendo Diferenciais Competitivos. 9. ed. Brasport, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Disponível em: <https://plataforma.bvirtual.com.br/Ace rvo/Publicacao/167977>. Acesso em: 06 set.2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

