Artigo

12 de agosto de 2026

Gestão do cronograma aplicado à construção de biotério de “zebrafish”

Tássia Flávia Dias Castro; Paula Regina Fortes

DOI: 10.22167/2675-6528-202601465

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A gestão do cronograma constitui uma área de conhecimento relevante no gerenciamento de projetos, sendo determinante para o cumprimento de prazos e o sucesso dos empreendimentos. O objetivo deste trabalho foi propor e analisar a aplicação de técnicas de gestão do cronograma em um projeto real de construção de biotério de “zebrafish”, avaliando como o planejamento e controle dos prazos podem contribuir para a organização, previsibilidade e desempenho temporal de projetos de infraestrutura científica. A pesquisa foi conduzida como estudo de caso aplicado, de caráter exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa e quantitativa, em uma instituição pública de ensino superior. As informações foram obtidas de documentos técnicos, reuniões com a equipe e publicações especializadas. Aplicaram-se práticas do Guia PMBOK, incluindo a elaboração da Estrutura Analítica do Projeto, o sequenciamento de atividades pelo Método do Diagrama de Precedências, a estimativa de durações pela técnica PERT e o desenvolvimento do cronograma pelo Método do Caminho Crítico, com representação em gráfico de Gantt. Os resultados evidenciaram que o uso estruturado dessas ferramentas permitiu organizar as etapas do projeto, identificar o caminho crítico e mapear os principais riscos e gargalos. Verificou-se que projetos de infraestrutura científica apresentam restrições técnicas, normativas e biológicas que limitam a compressão de determinadas etapas, como a ciclagem biológica e o período de quarentena dos animais, aspectos que devem ser considerados desde o planejamento. Concluiu-se que as técnicas de gerenciamento do cronograma são aplicáveis e relevantes em projetos de infraestrutura científica, demonstrando a necessidade de considerar condicionantes técnicos, normativos e biológicos para o sucesso da execução.

Palavras-chave: Danio rerio; Infraestrutura científica; Instalações animais; Planejamento de projetos; Riscos de projeto.

1. Introdução

A gestão de projetos consolidou-se como um pilar fundamental para o sucesso de empreendimentos em diversos setores, públicos e privados, oferecendo uma estrutura robusta para o planejamento, execução e controle de iniciativas complexas (PMI, 2017). Dentro desse arcabouço, a gestão do cronograma assume uma posição estratégica, sendo um dos fatores mais críticos para o cumprimento de prazos e, consequentemente, para a viabilidade e o desempenho geral dos projetos. A complexidade crescente dos projetos contemporâneos, aliada à volatilidade dos mercados e à escassez de recursos, intensifica a necessidade de um gerenciamento temporal rigoroso. Estudos indicam que atrasos no cronograma são uma das principais causas de falhas em projetos, resultando em custos adicionais, perda de oportunidades e impacto negativo na reputação das organizações (Vargas, 2018). Em um cenário global cada vez mais competitivo, a capacidade de entregar projetos dentro do prazo estabelecido é um diferencial competitivo e uma medida de eficiência organizacional.

O Guia PMBOK (PMI, 2017) detalha o gerenciamento do cronograma como uma área de conhecimento que engloba processos essenciais, desde a definição e sequenciamento das atividades até a estimativa de suas durações, o desenvolvimento e o controle do cronograma. A definição das atividades consiste na identificação das ações específicas necessárias para produzir as entregas do projeto. O sequenciamento estabelece a ordem lógica e as dependências entre essas atividades, enquanto a estimativa de durações projeta o tempo necessário para cada uma. O desenvolvimento do cronograma integra todas essas informações para criar um modelo de execução, e o controle do cronograma monitora o progresso, permitindo ajustes e ações corretivas. Essas práticas são fundamentais para dimensionar a execução do projeto, monitorar variações e adotar medidas corretivas de forma sistemática. Ferramentas como o Método do Caminho Crítico (CPM), a técnica de Avaliação e Revisão de Programa (PERT) e os gráficos de Gantt são amplamente empregadas para visualizar a totalidade das atividades, suas interdependências e prazos, auxiliando na identificação de gargalos e na otimização do fluxo de trabalho (Picinini e Dias, 2022; Bergamo e Catai, 2023). A aplicação dessas metodologias contribui para a maior previsibilidade, otimização de recursos, alinhamento entre equipes e redução dos riscos de atrasos (Cavalcanti e Silveira, 2016).

No contexto da infraestrutura científica, a construção de instalações especializadas, como biotérios, representa um desafio particular. Biotérios, ou instalações animais, são ambientes controlados destinados à criação e manutenção de modelos animais para pesquisa, sendo cruciais para o avanço da ciência biomédica, farmacológica e toxicológica (Carvalho e Rabechini Jr., 2019). Entre os diversos modelos, o “zebrafish” (*Danio rerio*) tem ganhado destaque significativo nas últimas décadas. Suas características biológicas, como rápido desenvolvimento embrionário, alta taxa de reprodução, transparência dos embriões e uma notável similaridade genética com humanos, o tornam um organismo modelo de eleição em estudos de genética, neurociências, desenvolvimento e toxicologia (Kalueff et al., 2013; Howe et al., 2013; Rodrigues et al., 2025). A construção de um biotério dedicado a “zebrafish” é um empreendimento de alta complexidade, que exige planejamento minucioso, coordenação multidisciplinar e conformidade com uma série de requisitos técnicos e normativos.

A implantação de um biotério de “zebrafish” no Brasil, por exemplo, envolve não apenas as etapas convencionais da construção civil e a aquisição de equipamentos especializados, mas também a observância rigorosa de requisitos técnicos específicos, como sistemas de recirculação de água, filtragem biológica e controle de parâmetros ambientais (Lawrence e Mason, 2012). Além disso, há um conjunto de diretrizes normativas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), como a Resolução Normativa nº 34, de 2017. Esta resolução institui critérios detalhados para o alojamento, quarentena, biossegurança e bem-estar de espécies como o “zebrafish”, impondo condicionantes que impactam diretamente o planejamento e a execução do cronograma. A ciclagem biológica, por exemplo, é um processo técnico que exige um período mínimo de estabilização do sistema antes da introdução dos animais, e a quarentena é uma exigência normativa que não pode ser comprimida. Tais restrições técnicas, normativas e biológicas limitam a flexibilidade temporal de determinadas etapas, tornando o planejamento e controle do cronograma ainda mais críticos. Falhas nesse planejamento podem resultar em atrasos significativos, comprometendo não apenas os custos do projeto, mas também o andamento e a viabilidade das pesquisas científicas que dependem dessa infraestrutura (Cavalcanti e Silveira, 2016).

Diante da importância estratégica do “zebrafish” para a pesquisa científica contemporânea e da complexidade inerente à construção de infraestruturas científicas especializadas, a aplicação de metodologias de gestão de projetos, especialmente no que tange ao cronograma, torna-se essencial. A ausência de um planejamento temporal robusto em projetos dessa natureza pode acarretar atrasos que comprometem não apenas recursos financeiros, mas também o avanço científico e a capacidade de inovação. Dessa forma, este trabalho justifica-se pela necessidade de investigar como as boas práticas de gerenciamento do cronograma podem ser adaptadas e aplicadas a um contexto tão específico e desafiador, contribuindo para a literatura da gestão de projetos e oferecendo recomendações aplicáveis a instituições de pesquisa. O objetivo deste trabalho é propor e analisar a aplicação de técnicas de gestão do cronograma em um projeto real de construção de um biotério de “zebrafish”, avaliando de que forma o planejamento e o controle dos prazos podem contribuir para a organização, previsibilidade e desempenho temporal de projetos de infraestrutura científica.

2. Material e Métodos

A pesquisa foi delineada como um estudo de caso aplicado, de caráter exploratório e descritivo, com o propósito de analisar o gerenciamento do cronograma em um projeto real. A abordagem metodológica adotada foi mista, combinando elementos qualitativos e quantitativos. Essa escolha permitiu uma descrição aprofundada das etapas do projeto e a aplicação de técnicas específicas para análise temporal do cronograma. O delineamento foi selecionado para proporcionar uma compreensão detalhada do comportamento do cronograma em um contexto prático, considerando as restrições técnicas, regulatórias e operacionais inerentes a projetos de infraestrutura científica.

O estudo concentrou-se na análise de um projeto real de construção de um biotério de “zebrafish” em uma instituição pública de ensino superior, localizada em Campinas, São Paulo, Brasil. Este empreendimento envolveu a construção e adequação de uma instalação animal para pesquisa científica, compreendendo obras de reforma civil, instalações elétricas e hidráulicas especializadas, além da implementação de um sistema de recirculação de água. A unidade de análise foi o próprio projeto de construção do biotério, com foco em suas características e desafios. Os dados foram coletados entre janeiro e março de 2026, abrangendo as fases de planejamento, desenvolvimento do cronograma e acompanhamento inicial da execução da obra.

Para a coleta de dados, foram utilizadas múltiplas fontes de informação, visando a triangulação e a robustez da análise. As informações foram obtidas a partir de documentos técnicos do projeto, que incluíram projetos arquitetônicos e complementares, memorial descritivo da obra, orçamentos detalhados e listas de aquisição de equipamentos e materiais. Adicionalmente, foram consultados documentos de referência de obras semelhantes, fornecendo subsídios para comparação e validação das estimativas. Essa abordagem documental permitiu uma compreensão abrangente do escopo e das especificidades técnicas do projeto analisado.

Complementarmente à análise documental, foram realizadas reuniões formais com os principais envolvidos no projeto. Participaram dessas interações o coordenador do laboratório, o coordenador do departamento, engenheiros responsáveis pelas áreas civil e elétrica, a equipe técnica e representantes do setor financeiro. Essas reuniões foram cruciais para o levantamento de informações qualitativas, a validação de dados técnicos e a compreensão das dependências e restrições operacionais. As interações com os especialistas contribuíram significativamente para o desenvolvimento das etapas metodológicas subsequentes, especialmente no sequenciamento e estimativa de durações.

A primeira etapa da pesquisa consistiu em uma revisão bibliográfica abrangente, realizada com o objetivo de fundamentar teoricamente as escolhas metodológicas e as análises desenvolvidas. Foram consultadas publicações sobre boas práticas de gerenciamento do cronograma, com base no Guia PMBOK (PMI, 2017) e em autores como Vargas (2018). Também foram incluídos estudos aplicados à gestão do cronograma em projetos de construção civil (Picinini e Dias, 2022; Bergamo e Catai, 2023). Essa revisão forneceu o embasamento conceitual necessário para a compreensão dos requisitos técnicos e normativos, bem como para a estruturação do cronograma e a interpretação dos resultados.

Na segunda etapa, procedeu-se à definição e caracterização detalhada do projeto analisado. Foram consolidadas as principais características do empreendimento, incluindo a identificação dos atores envolvidos e das restrições relevantes à sua execução, de natureza técnica, regulatória, orçamentária e de prazo, em conformidade com as boas práticas de gerenciamento de projetos (PMI, 2017; Kerzner, 2020). Também foram levantados os requisitos funcionais específicos do biotério, como controle de temperatura, fotoperíodo e sistemas hidráulicos de filtragem e recirculação de água. Esses elementos foram essenciais para caracterizar o projeto e orientar a definição das entregas e atividades do cronograma.

A terceira etapa focou na elaboração do cronograma do projeto, seguindo os processos de gerenciamento do cronograma descritos no Guia PMBOK (PMI, 2017). Esses processos incluíram o planejamento do gerenciamento do cronograma, a definição e o encadeamento das atividades, a estimativa de suas durações, o desenvolvimento e o controle do cronograma. Com base no escopo previamente definido, elaborou-se a Estrutura Analítica do Projeto (EAP) utilizando uma abordagem descendente “top-down”, orientada às entregas. Essa estrutura permitiu a decomposição do projeto em pacotes de trabalho gerenciáveis, integrando o gerenciamento do escopo e do tempo (PMI, 2017; Sotille et al., 2010). A EAP detalhou as entregas e atividades em cinco fases principais: Planejamento, Reforma da Estrutura, Montagem do Biotério, Laboratório e Procedimentos, e Operação Inicial.

Após a definição da EAP, identificaram-se e definiram-se as atividades do projeto, e o sequenciamento foi realizado por meio do Método do Diagrama de Precedências (MDP). Adotou-se o método dos blocos, onde as atividades foram representadas por nós conectados por setas que indicavam suas dependências lógicas. As estimativas de duração foram estabelecidas com base nos documentos técnicos do projeto, nas reuniões formais com a equipe e na experiência dos especialistas consultados. De forma complementar, aplicou-se a técnica de estimativa de três pontos, definindo-se os valores otimista (tO), mais provável (tM) e pessimista (tP), sendo a duração esperada das atividades (tE) calculada pela média ponderada da técnica PERT, conforme a equação (1), onde tE é a duração esperada, tO é a duração otimista, tM é a duração provável e tP é a duração pessimista.

Na aplicação da técnica PERT, a duração mais provável foi estabelecida com o gestor da obra, considerando as condições reais do projeto. A duração otimista foi definida como 10% inferior à mais provável, e a pessimista, 50% superior, para refletir possíveis atrasos. As durações esperadas foram arredondadas para valores inteiros, prática comum em projetos de construção (Picinini e Dias, 2022). As estimativas foram atribuídas aos pacotes de trabalho para controle do cronograma. Com as atividades definidas e sequenciadas, desenvolveu-se o cronograma utilizando o Método do Caminho Crítico (CPM) para estimar a duração mínima do projeto e identificar atividades com folga zero (PMI, 2017; Kerzner, 2020). O cronograma foi representado por gráfico de Gantt, utilizando software de planilha eletrônica (Microsoft Excel®).

Tabela 1. Estimativa de duração dos pacotes de trabalho do projeto (em dias)

Identificador

Descrição da atividade

tO

tM

tP

Estimativa (dias)

0.1

Reunião de alinhamento – Plano de gerenciamento do cronograma

1

1

2

1,2

0.2

Criação da EAP

1

2

3

2,0

1.1

Planejamento geral

3

5

7

5,0

1.1.1

Levantamento de requisitos

2

3

5

3,2

1.1.2

Definição do layout preliminar

2

3

4

3,0

1.1.3

Dimensionamento da capacidade

1

2

3

2,0

1.2

Projetos técnicos

8

12

18

12,3

1.2.1

Projeto arquitetônico

3

5

8

5,2

1.2.2

Projeto elétrico

3

5

7

5,0

1.2.3

Projeto hidráulico

3

4

6

4,2

1.2.4

Projeto de climatização (HVAC)

2

4

6

4,0

1.2.5

Projeto de segurança

1

2

4

2,2

1.3

Licenças e documentação

5

8

12

8,2

1.3.1

ARTs dos responsáveis

1

2

3

2,0

1.3.2

Plano de biossegurança

2

3

5

3,2

1.3.3

Documentação CEUA

2

3

6

3,3

2.1

Demolições/preparações

2

3

5

3,2

2.1.1

Remoções internas

1

2

3

2,0

2.1.2

Isolamento da área

1

1

2

1,2

2.2

Reforma civil

7

10

15

10,3

2.2.1

Piso epóxi

3

4

6

4,2

2.2.2

Paredes epóxi

2

3

5

3,2

2.2.3

Adequações estruturais

2

3

5

3,2

2.3

Reforma hidráulica

4

6

9

6,2

2.3.1

Pontos de abastecimento

1

2

3

2,0

2.3.2

Tubulações técnicas

2

3

5

3,2

2.3.3

Drenos técnicos

1

2

3

2,0

2.4

Reforma elétrica

4

6

9

6,2

2.4.1

Cabeamento elétrico

2

3

5

3,2

2.4.2

Quadro elétrico

1

2

3

2,0

2.4.3

Iluminação com fotoperíodo

1

2

3

2,0

2.5

Climatização

3

5

8

5,2

2.5.1

Equipamento de climatização

2

3

5

3,2

2.5.2

Renovação de ar

1

2

3

2,0

2.6

Testes da estrutura

2

3

5

3,2

2.6.1

Teste elétrico

1

1

2

1,2

2.6.2

Teste hidráulico

1

1

2

1,2

2.6.3

Teste de climatização

1

1

2

1,2

3.1

Compra de equipamentos

15

25

40

26,7

3.1.1

Tanques e acessórios

7

10

15

10,3

3.1.2

Bombas e chillers

7

10

15

10,3

3.1.3

Sistema de filtragem

7

10

15

10,3

3.1.4

Sensores e controladores

5

8

12

8,2

3.2

Instalação dos sistemas

5

8

12

8,2

3.2.1

Montagem dos aquários (“racks”)

2

3

5

3,2

3.2.2

Conexão elétrica

1

2

3

2,0

3.2.3

Conexão hidráulica

1

2

3

2,0

3.2.4

Instalação de filtros e UV

1

2

3

2,0

3.2.5

Configuração de fotoperíodo

1

1

2

1,2

3.3

Testes operacionais

2

3

5

3,2

3.3.1

Teste de vazão

3.3.2

Teste de pressão

3.3.3

Calibração dos sensores

3.3.4

Teste de retorno de energia

3.4

Ciclagem biológica

14

21

28

21,0

3.4.1

Início da ciclagem

3.4.2

Monitoramento químico

3.4.3

Ajustes operacionais

3.4.4

Estabilização do sistema

4.1

Equipamento de apoio

3

5

7

5,0

4.1.1

Área de lavagem

4.1.2

Microscópios e lupas

4.1.3

Incubadoras

4.1.4

Bancadas e armários

4.1.5

Instrumentais e acessórios

4.2

POPs e treinamento

4

6

9

6,2

4.2.1

Procedimentos Operacionais

4.2.2

Treinamento da equipe

4.2.3

Registro de competências

5.1

Quarentena

40

45

75

49

5.1.1

Recebimento dos animais

5.1.2

Aclimatação

5.1.3

Monitoramento inicial

5.2

Introdução das linhagens

5

7

10

7,2

5.2.1

Distribuição dos tanques

5.2.2

Estabelecimento das linhagens

5.2.3

Rotina operacional

TOTAL

193 dias

Fonte: Resultados originais da pesquisa

As estimativas de duração para cada pacote de trabalho, obtidas pela técnica PERT, foram consolidadas na Tabela 1. Esta tabela apresenta os valores otimista (tO), mais provável (tM) e pessimista (tP) em dias, juntamente com a duração esperada resultante para cada atividade. As estimativas foram atribuídas exclusivamente aos pacotes de trabalho de nível superior da EAP, evitando a duplicação de tempo e garantindo a consistência. A soma das durações estimadas totalizou aproximadamente 193 dias de esforço agregado, considerando a execução sequencial de todos os pacotes.

A quarta etapa envolveu a identificação dos principais riscos e gargalos associados ao cumprimento dos prazos do projeto, com base nas informações coletadas nas etapas anteriores. A análise dos riscos foi realizada a partir da estrutura do cronograma desenvolvido, do sequenciamento das atividades e das durações estimadas, com atenção especial às etapas de maior influência no prazo final. A identificação foi conduzida pela pesquisadora em conjunto com o engenheiro responsável pela obra. Realizou-se uma análise qualitativa dos riscos (PMI, 2017), avaliando a probabilidade de ocorrência e o impacto potencial sobre o cronograma, mensurado em dias de atraso. Os riscos foram classificados em categorias como crítico, alto e médio, por meio do cruzamento entre probabilidade e impacto, permitindo a priorização das etapas que demandavam maior atenção no gerenciamento do prazo.

A quinta e última etapa da metodologia consistiu na validação conceitual do cronograma elaborado, verificando sua consistência interna e coerência metodológica. Essa validação incluiu a análise da compatibilidade entre a decomposição do projeto, o sequenciamento das atividades, as durações estimadas, o prazo global e os riscos associados. Os procedimentos metodológicos adotados e os resultados obtidos foram comparados com as diretrizes e boas práticas da literatura especializada em gerenciamento de projetos, especialmente o Guia PMBOK (PMI, 2017), e estudos de construção e implantação de instalações técnicas. Adicionalmente, foram consideradas as diretrizes normativas do CONCEA para biotérios.

Como limitação metodológica, destaca-se que o estudo foi realizado sob a forma de um único estudo de caso. Essa abordagem, embora permita uma análise aprofundada e contextualizada do projeto específico de construção do biotério de “zebrafish”, restringe a generalização dos resultados para outros contextos institucionais ou tipos de projetos. A especificidade do objeto de estudo e as particularidades do ambiente institucional podem limitar a aplicabilidade direta das conclusões a outras realidades. Contudo, o detalhamento dos procedimentos metodológicos busca oferecer um referencial para futuras pesquisas e aplicações em cenários semelhantes.

3. Resultados e Discussão

A aplicação das técnicas de gerenciamento do cronograma, conforme delineado pelo Guia PMBOK (PMI, 2017), revelou-se um instrumento fundamental para a estruturação, planejamento e controle de um projeto complexo como a construção de um biotério de “zebrafish”. Os resultados obtidos demonstram a eficácia de uma abordagem sistemática na gestão do tempo, permitindo não apenas a organização das etapas, mas também a identificação proativa de desafios e a formulação de estratégias de mitigação. A densidade e a especificidade do projeto, que envolvem requisitos técnicos, regulatórios e biológicos singulares, sublinham a necessidade de um planejamento robusto, que transcende as práticas convencionais da construção civil.

O primeiro achado significativo da pesquisa reside na elaboração do plano de gerenciamento do cronograma. Este plano não se limitou a um mero documento, mas se configurou como uma diretriz estratégica que orientou todas as fases do projeto, desde a concepção até o acompanhamento da execução. A sua formulação estabeleceu critérios claros para a definição de atividades, responsabilidades específicas para cada membro da equipe, as ferramentas a serem empregadas e os documentos essenciais para o registro e controle do progresso. Tal abordagem está em plena consonância com as recomendações do PMI (2017), que enfatiza a importância de um planejamento prévio e detalhado como alicerce para um controle eficaz do cronograma. A formalização desse plano, como evidenciado no estudo, contribuiu substancialmente para a redução de incertezas, particularmente aquelas relacionadas à sequência de execução das atividades e aos marcos críticos inerentes às exigências técnicas e normativas de um biotério. A antecipação dessas questões, por meio de um plano bem articulado, permitiu que a equipe do projeto tivesse uma visão holística e proativa, minimizando a probabilidade de retrabalhos e atrasos.

No contexto prático do projeto de construção do biotério de “zebrafish”, o plano de gerenciamento do cronograma foi crucial para alinhar as expectativas das diversas partes interessadas, desde o coordenador do laboratório até os engenheiros e o setor financeiro. A definição de uma linha de base temporal clara e consensual, conforme estabelecido pelo plano, facilitou o monitoramento contínuo do andamento da obra e a comunicação transparente sobre o progresso. A Figura 1 ilustra a estrutura do plano elaborado, destacando os processos de gerenciamento do cronograma, as ferramentas adotadas e as principais saídas associadas a cada etapa. Esta representação visual reforça a natureza integrada do planejamento, onde cada componente contribui para a previsibilidade e o desempenho temporal do projeto. A capacidade de um plano de gerenciamento de cronograma de fornecer essa clareza e estrutura é um diferencial competitivo, especialmente em empreendimentos de alta complexidade e com múltiplos stakeholders, como os projetos de infraestrutura científica.

Figura 1. Plano de gerenciamento do cronograma do projeto.

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Estrutura Analítica do Projeto (EAP) representou um pilar central na fase de planejamento, servindo como base para a decomposição hierárquica de todas as entregas do projeto. A EAP, conforme o PMI (2017), é uma ferramenta indispensável para visualizar o escopo total do trabalho, fragmentando-o em componentes menores e mais gerenciáveis. No presente estudo, a EAP não apenas facilitou a decomposição das entregas, mas também se mostrou eficaz na identificação precisa das atividades que estavam incluídas e excluídas do escopo contratual, um aspecto crucial para evitar desvios e garantir a aderência aos objetivos do projeto. A abordagem descendente “top-down” utilizada na elaboração da EAP permitiu que o projeto fosse estruturado em três níveis hierárquicos, organizando-o em cinco grandes entregáveis: Planejamento, Reforma da Estrutura, Montagem do Biotério, Laboratório e Procedimentos, e Operação Inicial. Essa granularidade na decomposição é fundamental para projetos de infraestrutura científica, que frequentemente envolvem uma vasta gama de disciplinas e requisitos técnicos.

A Figura 2 ilustra a Estrutura Analítica do Projeto da obra analisada, evidenciando a decomposição lógica e hierárquica das entregas. A clareza proporcionada pela EAP é um fator crítico para o sucesso, pois, como apontam Silva Júnior e Santos (2015), a descrição inequívoca das entregas impacta diretamente o desenvolvimento do cronograma. A EAP, ao detalhar as entregas e atividades, permitiu que a equipe do projeto compreendesse a totalidade do trabalho a ser realizado, facilitando a alocação de recursos e a definição de responsabilidades. Barcaui et al. (2019) observam que a confusão entre a definição de atividades e a elaboração da EAP é comum na prática, um desafio que foi superado neste estudo por meio de consultas à literatura especializada, garantindo a correta aplicação da ferramenta.

Figura 2. Estrutura Analítica do Projeto da obra analisada

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Os pacotes de trabalho, que constituem o nível mais baixo da EAP, foram o ponto de partida para a estimativa de custos e durações, conforme preconizado pelo PMI (2017). A Tabela 2, que detalha a lista completa de entregas e atividades, organizada nas cinco fases principais, demonstra a profundidade do planejamento. Por exemplo, o pacote 1.1, “Planejamento geral”, inclui atividades essenciais como o “Levantamento de requisitos” (1.1.1) e a “Definição do ‘layout’ preliminar” (1.1.2), que são cruciais para consolidar parâmetros ambientais e operacionais e organizar a distribuição das áreas do biotério. Da mesma forma, o pacote 2.1, “Demolições/preparações”, lista atividades como “Remoções internas” (2.1.1) e “Isolamento da área” (2.1.2), que são etapas preparatórias indispensáveis antes do início das adequações estruturais.

Tabela 2. Lista de entregas do projeto

ID

Entrega/Atividade

Descrição

0 Criar Projeto – Plano de gerenciamento

Definir as equipes de gerente de projetos

0.1

Reunião de alinhamento – Plano de gerenciamento do cronograma

Desenhar plano de gerenciamento

0.2

Criação da EAP

Estruturar toda a decomposição das entregas do biotério

1.

Planejamento

1.1

Planejamento geral

Consolidar informações críticas, mapear necessidades e orientar diretrizes macro do projeto

1.1.1

Levantamento de requisitos

Identificar requisitos ambientais, hidráulicos, elétricos e operacionais necessários ao biotério

1.1.2

Definição do “layout” preliminar

Organizar a disposição de salas, zonas limpas, sujas e áreas de apoio

1.1.3

Dimensionamento da capacidade

Calcular demanda de “racks”, tanques, carga elétrica e volume hídrico do sistema

1.2

Projetos técnicos

Desenvolver a documentação técnica necessária para execução do biotério

1.2.1

Projeto arquitetônico

Planejar piso, paredes, portas técnicas, revestimentos e circulação

1.2.2

Projeto elétrico

Dimensionar quadros, circuitos, iluminação e fotoperíodo

1.2.3

Projeto hidráulico

Definir abastecimento, drenagem e esgoto

1.2.4

Projeto de climatização (HVAC)

Estabelecer requisitos de ventilação, renovação de ar e temperatura

1.2.5

Projeto de segurança

Planejar rotas, análises de risco e combate a incêndio

1.3

Licenças e documentação

Organizar e atender exigências legais, técnicas e éticas para obra e operação

1.3.1

ARTs dos responsáveis

Emitir e registrar Anotações de Responsabilidade Técnica

1.3.2

Plano de biossegurança

Estabelecer diretrizes sanitárias conforme normas CONCEA

1.3.3

Documentação CEUA

Preparar e protocolar documentos para uso e alojamentos de animais

2.

Reforma da estrutura

2.1

Demolições/preparações

Preparar o ambiente para execução da reforma

2.1.1

Remoções internas

Remover mobiliário antigo, divisórias e equipamentos obsoletos

2.1.2

Isolamento da área

Instalar barreiras físicas e controlar a circulação para segurança e biossegurança

2.2

Reforma civil

Executar adequações estruturais e revestimentos

2.2.1

Piso epóxi

Aplicar revestimento técnico lavável e resistente

2.2.2

Paredes epóxi

Aplicar revestimento resistente e impermeável, o que dificulta a aderência de umidade e crescimento de fungos.

2.2.3

Adequações estruturais

Ajustar suportes, bases e elementos necessários para instalação dos “racks”

2.3

Reforma hidráulica

Adequar pontos de água e sistemas de drenagem

2.3.1

Pontos de abastecimento

Instalar pontos de água tratada para alimentar o sistema

2.3.2

Tubulações técnicas

Instalar linha hidráulica de alimentação dos “racks”

2.3.3

Drenos técnicos

Implementar drenagem adequada ao sistema de recirculação

2.4

Reforma elétrica

Implementar infraestrutura elétrica especializada para o biotério

2.4.1

Cabeamento elétrico

Instalar rede elétrica adequada à carga dos equipamentos

2.4.2

Quadro elétrico

Instalar quadro exclusivo com circuitos independentes

2.4.3

Iluminação com fotoperíodo

Instalar sistema de iluminação controlada e temporizada

2.5

Climatização

Implantar sistema HVAC adequado às exigências do biotério

2.5.1

Equipamento de climatização

Instalar unidades de ar condicionado, exaustão e circulação

2.5.2

Renovação de ar

Regular fluxo, troca de ar e filtragem adequada

2.6

Testes da estrutura

Verificar funcionamento das instalações após a reforma

2.6.1

Teste elétrico

Avaliar carga, funcionamento e segurança do sistema elétrico

2.6.2

Teste hidráulico

Testar vazão, pressão e estanqueidade das tubulações

2.6.3

Teste de climatização

Verificar temperatura, umidade e renovação de ar

3.

Montagem do biotério

3.1

Compra de equipamentos

Adquirir os equipamentos essenciais ao sistema de recirculação e suporte ao biotério

3.1.1

Tanques e acessórios

Comprar tanques, bandejas, mangueiras e conexões diversas

3.1.2

Bombas e “chillers”

Comprar bombas principais, bombas reserva e “chillers” adequados

3.1.3

Sistema de filtragem

Adquirir filtros mecânicos, biológicos e lâmpadas de UV

3.1.4

Sensores e controladores

Adquirir sensores de pH, condutividade, temperatura

3.2

Instalação dos sistemas

Instalar, conectar os equipamentos e configurar a infraestrutura

3.2.1

Montagem dos aquários (“racks”)

Posicionar, nivelar no ambiente

3.2.2

Conexão elétrica

Interligar bombas, “chillers” e controladores ao sistema elétrico

3.2.3

Conexão hidráulica

Conectar tubulações de entrada, retorno e drenagem

3.2.4

Instalação de filtros e UV

Montar o sistema de filtragem completo

3.2.5

Configuração de fotoperíodo

Ajustar controladores de iluminação e ciclos diários

3.3

Testes operacionais

Verificar o funcionamento dos sistemas instalados

3.3.1

Teste de vazão

Medir e ajustar o fluxo de água nos “racks”

3.3.2

Teste de pressão

Avaliar pressão do sistema e identificar possíveis falhas

3.3.3

Calibração dos sensores

Ajustar pH, condutividade, temperatura

3.3.4

Teste de retorno de energia

Simular quedas e verificar atuação de nobreaks e redundâncias

3.4

Ciclagem biológica

Estabilizar o sistema biológico antes da introdução dos animais

3.4.1

Início da ciclagem

Adicionar bactérias nitrificantes para ativar o ciclo do nitrogênio

3.4.2

Monitoramento químico

Verificar amônia, nitrito e nitrato diariamente

3.4.3

Ajustes operacionais

Regular temperatura, fluxo e parâmetros químicos

3.4.4

Estabilização do sistema

Confirmar estabilidade total (2-4 semanas)

4.

Laboratório e Procedimentos

4.1

Equipamento de apoio

Instalar equipamentos auxiliares necessários ao suporte das atividades do biotério

4.1.1

Área de lavagem

Montar local para higienização de tanques, bandejas e materiais

4.1.2

Microscópios e lupas

Instalar equipamentos ópticos para análise

4.1.3

Incubadoras

Instalar equipamentos para suporte a processos laboratoriais

4.1.4

Bancadas e armários

Montar mobiliário para organização e trabalho técnico

4.1.5

Instrumentais e acessórios

Disponibilizar materiais de uso diário no manejo dos peixes

4.2

POPs e treinamento

Padronizar procedimentos e capacitar a equipe responsável

4.2.1

Procedimentos Operacionais

Elaborar documentos que padronizam todas as rotinas do biotério

4.2.2

Treinamento da equipe

Capacitar técnicos e operadores para execução dos POPs

4.2.3

Registro de competências

Documentar treinamentos realizados e competências adquiridas

5.

Operação Inicial

5.1

Quarentena

Aclimatar os peixes recém-chegados e garantir sua adaptação segura

5.1.1

Recebimento dos animais

Realizar a entrada dos lotes e inspecionar condições gerais

5.1.2

Aclimatação

Adaptar gradualmente os peixes a temperatura, água e ambiente

5.1.3

Monitoramento inicial

Verificar parâmetros da água e sinais clínicos diariamente

5.2

Introdução das linhagens

Estabelecer os peixes no sistema e iniciar rotinas permanentes

5.2.1

Distribuição dos tanques

Alocar os animais conforme linhagens, sexo e objetivos de pesquisa

5.2.2

Estabelecimento das linhagens

Acomodar os peixes e garantir sua estabilização no sistema

5.2.3

Rotina operacional

Iniciar manejo diário, alimentação, observação e registros

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A segmentação em atividades específicas, como “Conexão elétrica” (3.2.2) e “Conexão hidráulica” (3.2.3) dentro do pacote “Instalação dos sistemas” (3.2), permitiu identificar etapas críticas para o funcionamento do sistema de recirculação e a validação dos equipamentos. A “Ciclagem biológica” (3.4), com atividades como “Monitoramento químico” (3.4.2) e “Estabilização do sistema” (3.4.4), ilustra a necessidade de maturação e controle rigoroso dos parâmetros da água antes da introdução dos animais, um aspecto técnico que impacta diretamente o cronograma e não pode ser negligenciado. Além disso, a importância da padronização das rotinas e da capacitação dos operadores é evidenciada em atividades como “Procedimentos Operacionais” (4.2.1) e “Treinamento da equipe” (4.2.2). As atividades do pacote “Quarentena” (5.1), como “Recebimento dos animais” (5.1.1) e “Aclimatação” (5.1.2), ressaltam os cuidados necessários para a introdução gradual dos peixes em um ambiente controlado, garantindo sua adaptação e biossegurança. A EAP, portanto, não é apenas uma ferramenta de decomposição, mas um guia detalhado que incorpora as especificidades técnicas, biológicas e normativas do projeto, garantindo que nenhum aspecto crítico seja negligenciado.

O sequenciamento das atividades, realizado por meio do Método do Diagrama de Precedências (MDP), foi uma etapa crucial para estabelecer a lógica de execução do projeto. A Figura 3 apresenta um diagrama de precedência simplificado dos pacotes de trabalho, ilustrando as dependências lógicas entre as atividades. As dependências foram definidas com base em restrições técnicas, físicas e normativas que impedem a execução paralela de determinadas etapas. Por exemplo, a reforma civil deve ser concluída antes da instalação dos sistemas de recirculação, pois as infraestruturas hidráulica e elétrica são pré-requisitos físicos para o funcionamento dos equipamentos. Essa interdependência é um reflexo da natureza integrada dos projetos de infraestrutura, onde a falha ou atraso em uma etapa pode ter um efeito cascata sobre as subsequentes.

Figura 3. Diagrama de precedência simplificado dos pacotes de trabalho

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Similarmente, a ciclagem biológica do sistema só pode ser iniciada após a instalação e validação completa dos equipamentos, uma vez que o processo de estabelecimento das bactérias nitrificantes depende de um sistema em pleno funcionamento. A quarentena dos animais, por sua vez, é uma exigência normativa do CONCEA (2017) que não pode ser suprimida ou executada em paralelo com as demais etapas de operação inicial, pois garante a biossegurança do sistema e o bem-estar animal. Essas restrições, de natureza técnica e regulatória, determinaram diretamente a estrutura sequencial do caminho crítico do projeto. A utilização do MDP, ao estruturar uma sequência lógica de execução, reduziu significativamente a probabilidade de retrabalhos e conflitos entre atividades, um aspecto particularmente relevante em projetos de reforma e implantação de sistemas técnicos. Além disso, o sequenciamento permitiu identificar as atividades com maior impacto sobre o andamento do projeto, subsidiando a etapa posterior de identificação do caminho crítico. Kerzner (2020) corrobora essa perspectiva, afirmando que os diagramas de rede são ferramentas essenciais para compreender a dinâmica temporal das atividades e identificar possíveis conflitos ou restrições na execução do projeto, permitindo uma gestão mais proativa e eficiente.

A estimativa de durações das atividades foi realizada com base em informações provenientes de projetos anteriores semelhantes e na opinião de especialistas consultados, o que aumentou a confiabilidade das projeções. A aplicação da técnica PERT (Program Evaluation and Review Technique) foi fundamental para incorporar cenários otimista (tO), mais provável (tM) e pessimista (tP) para cada pacote de trabalho, aumentando a robustez das durações estimadas. Essa abordagem é recomendada na gestão de projetos com elevado grau de variabilidade operacional, pois reduz o risco de subdimensionamento dos prazos (Vargas, 2018). A duração mais provável foi estabelecida em conjunto com o gestor da obra, refletindo as condições reais do projeto, enquanto as durações otimista (10% inferior) e pessimista (50% superior) foram definidas para contemplar possíveis atrasos decorrentes de riscos técnicos, logísticos ou regulatórios. As durações esperadas foram arredondadas para valores inteiros, uma prática comum em projetos de construção (Picinini e Dias, 2022).

A Tabela 1 apresenta a base de estimativas em dias para os pacotes de trabalho definidos na EAP, com os valores atribuídos a cada cenário e a duração esperada resultante. É importante ressaltar que as estimativas de duração foram atribuídas exclusivamente aos pacotes de trabalho de nível superior da EAP, evitando a duplicação de tempo e garantindo a consistência. As subdivisões de nível inferior da EAP tiveram caráter descritivo e técnico, sem receber estimativas individuais, pois suas durações já estavam incorporadas aos pacotes superiores. Essa decisão metodológica é crucial para manter a integridade do cronograma e evitar superestimações. A soma das durações estimadas totalizou aproximadamente 193 dias de esforço agregado, considerando a execução sequencial de todos os pacotes. No entanto, este valor não representa a duração final do projeto, uma vez que diversas atividades são executadas em paralelo, conforme o sequenciamento definido no diagrama de precedência.

Tabela 1. Estimativa de duração dos pacotes de trabalho do projeto (em dias)

Identificador

Descrição da atividade

tO

tM

tP

Estimativa (dias)

0.1

Reunião de alinhamento – Plano de gerenciamento do cronograma

1

1

2

1,2

0.2

Criação da EAP

1

2

3

2,0

1.1

Planejamento geral

3

5

7

5,0

1.1.1

Levantamento de requisitos

2

3

5

3,2

1.1.2

Definição do layout preliminar

2

3

4

3,0

1.1.3

Dimensionamento da capacidade

1

2

3

2,0

1.2

Projetos técnicos

8

12

18

12,3

1.2.1

Projeto arquitetônico

3

5

8

5,2

1.2.2

Projeto elétrico

3

5

7

5,0

1.2.3

Projeto hidráulico

3

4

6

4,2

1.2.4

Projeto de climatização (HVAC)

2

4

6

4,0

1.2.5

Projeto de segurança

1

2

4

2,2

1.3

Licenças e documentação

5

8

12

8,2

1.3.1

ARTs dos responsáveis

1

2

3

2,0

1.3.2

Plano de biossegurança

2

3

5

3,2

1.3.3

Documentação CEUA

2

3

6

3,3

2.1

Demolições/preparações

2

3

5

3,2

2.1.1

Remoções internas

1

2

3

2,0

2.1.2

Isolamento da área

1

1

2

1,2

2.2

Reforma civil

7

10

15

10,3

2.2.1

Piso epóxi

3

4

6

4,2

2.2.2

Paredes epóxi

2

3

5

3,2

2.2.3

Adequações estruturais

2

3

5

3,2

2.3

Reforma hidráulica

4

6

9

6,2

2.3.1

Pontos de abastecimento

1

2

3

2,0

2.3.2

Tubulações técnicas

2

3

5

3,2

2.3.3

Drenos técnicos

1

2

3

2,0

2.4

Reforma elétrica

4

6

9

6,2

2.4.1

Cabeamento elétrico

2

3

5

3,2

2.4.2

Quadro elétrico

1

2

3

2,0

2.4.3

Iluminação com fotoperíodo

1

2

3

2,0

2.5

Climatização

3

5

8

5,2

2.5.1

Equipamento de climatização

2

3

5

3,2

2.5.2

Renovação de ar

1

2

3

2,0

2.6

Testes da estrutura

2

3

5

3,2

2.6.1

Teste elétrico

1

1

2

1,2

2.6.2

Teste hidráulico

1

1

2

1,2

2.6.3

Teste de climatização

1

1

2

1,2

3.1

Compra de equipamentos

15

25

40

26,7

3.1.1

Tanques e acessórios

7

10

15

10,3

3.1.2

Bombas e chillers

7

10

15

10,3

3.1.3

Sistema de filtragem

7

10

15

10,3

3.1.4

Sensores e controladores

5

8

12

8,2

3.2

Instalação dos sistemas

5

8

12

8,2

3.2.1

Montagem dos aquários (“racks”)

2

3

5

3,2

3.2.2

Conexão elétrica

1

2

3

2,0

3.2.3

Conexão hidráulica

1

2

3

2,0

3.2.4

Instalação de filtros e UV

1

2

3

2,0

3.2.5

Configuração de fotoperíodo

1

1

2

1,2

3.3

Testes operacionais

2

3

5

3,2

3.3.1

Teste de vazão

3.3.2

Teste de pressão

3.3.3

Calibração dos sensores

3.3.4

Teste de retorno de energia

3.4

Ciclagem biológica

14

21

28

21,0

3.4.1

Início da ciclagem

3.4.2

Monitoramento químico

3.4.3

Ajustes operacionais

3.4.4

Estabilização do sistema

4.1

Equipamento de apoio

3

5

7

5,0

4.1.1

Área de lavagem

4.1.2

Microscópios e lupas

4.1.3

Incubadoras

4.1.4

Bancadas e armários

4.1.5

Instrumentais e acessórios

4.2

POPs e treinamento

4

6

9

6,2

4.2.1

Procedimentos Operacionais

4.2.2

Treinamento da equipe

4.2.3

Registro de competências

5.1

Quarentena

40

45

75

49

5.1.1

Recebimento dos animais

5.1.2

Aclimatação

5.1.3

Monitoramento inicial

5.2

Introdução das linhagens

5

7

10

7,2

5.2.1

Distribuição dos tanques

5.2.2

Estabelecimento das linhagens

5.2.3

Rotina operacional

TOTAL

193 dias

Fonte: Resultados originais da pesquisa

O desenvolvimento do cronograma, utilizando o Método do Caminho Crítico (CPM), permitiu estimar a duração mínima do projeto e identificar as atividades com folga total igual a zero, que são as atividades críticas. A Figura 4 representa o caminho crítico obtido, com as atividades destacadas em vermelho, evidenciando a sequência de tarefas que, se atrasadas, impactarão diretamente o prazo final do projeto. O caminho crítico compreendeu, principalmente, as etapas de planejamento, licenciamento, reforma da estrutura, testes de infraestrutura, instalação e validação dos sistemas, ciclagem biológica, implantação de procedimentos operacionais, quarentena e a introdução das linhagens.

Figura 4. Caminho crítico do projeto de construção do biotério de “zebrafish”

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A duração total do projeto, considerando exclusivamente as atividades pertencentes ao caminho crítico, foi estimada em 167 dias úteis. Esse valor representa o prazo mínimo necessário para a conclusão do projeto. A comparação entre o esforço agregado das atividades (193 dias) e a duração do caminho crítico (167 dias) revela uma diferença de 26 dias. Essa discrepância evidencia a relevância do sequenciamento adequado e da sobreposição controlada de atividades para a otimização do prazo final, confirmando que a aplicação do CPM permitiu reduzir o tempo total do projeto em relação ao esforço agregado. O conhecimento do caminho crítico é um dos principais instrumentos para o controle de prazos, pois permite antecipar os impactos de possíveis atrasos e priorizar as atividades críticas (Terribili, 2009). Kerzner (2020) reforça que a gestão eficaz do cronograma depende da capacidade de monitorar continuamente as atividades críticas e adotar ações corretivas de forma tempestiva. Estudos comparativos, como os de Olivieri et al. (2019) e Scala et al. (2023), reforçam que o CPM permanece central para análises do caminho crítico e atendimento a requisitos contratuais no contexto da construção civil.

A análise dos riscos e gargalos do cronograma foi uma etapa fundamental para identificar os potenciais obstáculos ao cumprimento dos prazos do projeto. A Tabela 4 apresenta os principais riscos e gargalos identificados, classificando-os por tipo, probabilidade, impacto e classificação, além de observações complementares. Entre os pontos críticos, destacam-se a aquisição de equipamentos, a ciclagem biológica do sistema e a quarentena dos animais. A aquisição de equipamentos (3.1), classificada como risco crítico, é particularmente vulnerável a atrasos externos, devido à dependência de processos institucionais de compra, logística de entrega e disponibilidade de fornecedores. Um atraso nessa etapa impacta diretamente o início da instalação dos sistemas (3.2) e, consequentemente, da ciclagem biológica (3.4), demonstrando a interconexão das atividades.

Tabela 4. Principais riscos e gargalos do cronograma

Risco/Gargalo

Tipo

Probabilidade

Impacto

Classificação

Observação

Atraso na entrega de equipamentos

Externo

Alta

Alto

Crítico

Dependência de fornecedores

Atraso de materiais da obra

Externo

Média

Alto

Alto

Impacto direto na reforma

Período chuvoso

Externo

Média

Médio

Médio

Afeta atividades civis

Liberação de verba

Externo

Baixa/Média

Alto

Alto

Pode interromper atividades

Ciclagem biológica

Gargalo técnico

Alta

Alto

Crítico

Tempo mínimo não reduzível

Instabilidade da água

Técnico

Média

Alto

Alto

Pode estender ciclagem

Quarentena

Gargalo normativo

Alta

Alto

Crítico

Exigência normativa

Mortalidade/doença

Técnico-biológico

Baixa/Média

Alto

Alto

Pode reiniciar processo

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Estudos em gestão do cronograma em projetos de construção e implantação de instalações técnicas, como os de Picinini e Dias (2022) e Durdyev e Hosseini (2020), frequentemente observam atrasos relacionados a fornecedores e integração de sistemas como desafios relevantes. Carvalho e Rabechini Jr. (2019) também apontam que projetos de infraestrutura apresentam elevada complexidade e dependência de fatores externos, o que reforça a necessidade de reservas de contingência de prazo nessas etapas. A ciclagem biológica (3.4) e a quarentena (5.1) representam gargalos de natureza técnica e normativa com duração mínima não compressível. A ciclagem biológica, por exemplo, exige um período mínimo de estabilização do sistema antes da introdução dos animais (Teoh et al., 2020), e qualquer atraso nessa etapa se transfere integralmente para o prazo final do projeto, sem possibilidade de recuperação por paralelismo. Da mesma forma, a quarentena dos animais é uma exigência normativa do CONCEA (2017) para garantir a biossegurança e o bem-estar animal, não podendo ser suprimida ou executada em paralelo. Essa análise reforça a necessidade de monitoramento prioritário dessas atividades ao longo da execução.

A análise dos riscos evidenciou que o desempenho do cronograma está diretamente relacionado à gestão das incertezas inerentes ao projeto. Perminova, Gustafsson e Wikström (2008) destacam que a incerteza é um elemento central na definição e controle dos prazos, exigindo abordagens flexíveis e adaptativas. Hillson (2003) complementa que a identificação e análise de riscos são essenciais para aumentar a previsibilidade e subsidiar a tomada de decisão. No presente estudo, riscos relacionados à logística de equipamentos, condições climáticas, disponibilidade de recursos e estabilidade do sistema biológico demonstraram potencial de impacto sobre o prazo, confirmando que o controle efetivo dos prazos depende da compreensão das restrições operacionais e dos fatores de incerteza envolvidos (Vargas, 2018; Meredith e Mantel Jr., 2000).

Em nível conceitual, foram consideradas estratégias de resposta aos principais riscos identificados. Para os riscos externos, como atraso na aquisição de equipamentos, materiais da obra e liberação de verba, a estratégia de mitigação recomendada inclui o início antecipado dos processos de compra institucionais, a identificação prévia de fornecedores alternativos e a constituição de uma reserva de contingência de prazo, conforme o PMI (2017). Para o risco associado ao período chuvoso, a estratégia indicada é a aceitação ativa, com a programação das atividades civis mais sensíveis às chuvas fora do período de maior incidência pluviométrica, e a constituição de reservas de prazo para absorção de eventuais impactos (Kerzner, 2020). Para o risco de instabilidade da água, a mitigação envolve o monitoramento diário dos parâmetros químicos durante a ciclagem biológica, com ajustes operacionais preventivos no sistema de filtragem (Dammski et al., 2011; Kutter et al., 2023). Para os gargalos técnicos e normativos, como a ciclagem biológica e a quarentena, a estratégia é a aceitação ativa com monitoramento prioritário, a fim de evitar que atrasos se transfiram integralmente ao prazo final do projeto. A identificação e análise desses riscos e gargalos reforça a importância do planejamento criterioso em projetos de infraestrutura científica, evidenciando que a antecipação das restrições operacionais, técnicas e normativas é determinante para o cumprimento dos prazos e a viabilidade da pesquisa científica dependente dessa infraestrutura.

O cronograma foi representado por meio do gráfico de Gantt, conforme apresentado na Figura 5, permitindo uma visualização clara da sequência das atividades, suas durações e possíveis sobreposições ao longo do tempo. Para maior aderência à realidade da construção, o cronograma foi elaborado considerando apenas dias úteis, desconsiderando fins de semana e feriados, e estabelecendo que cada atividade inicia no primeiro dia útil subsequente ao término de sua predecessora. A análise comparativa entre as datas planejadas e as datas reais de execução evidenciou variações relevantes no desempenho das atividades. Observou-se que diversas atividades foram iniciadas antes do previsto, como as etapas de planejamento, projetos técnicos e licenças (1.1, 1.2 e 1.3), bem como atividades da fase de reforma (2.1, 2.2, 2.3 e 2.4).

Figura 5. Gráfico de Gantt – parte 1 e 2

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Verificou-se ainda uma redução no tempo de execução de várias atividades quando comparado ao planejamento inicial. Por exemplo, a atividade de projetos técnicos (1.2), inicialmente estimada em 13 dias, foi concluída em 10 dias, enquanto a etapa de licenças (1.3) foi reduzida de 9 para 7 dias. Situação semelhante foi observada nas etapas 2.1, 2.2 e 2.3, cujas durações também foram inferiores às estimadas, de 6 para 3 dias, de 11 para 8 dias e de 7 para 4 dias, respectivamente. Esses resultados sugerem que a técnica PERT, ao incorporar cenários pessimistas nas estimativas de duração, contribuiu para a geração de reservas de tempo que foram consumidas de forma positiva durante a execução, conforme esperado em projetos com elevado grau de variabilidade operacional (Vargas, 2018). Essa capacidade de absorver variações é um benefício direto de um planejamento que considera incertezas.

Por outro lado, identificaram-se desvios negativos em atividades específicas. A reforma elétrica (2.4), inicialmente prevista em 7 dias, demandou 18 dias para sua conclusão. Esse desvio esteve associado a fatores institucionais e externos, como a demora na liberação de recursos financeiros, atrasos no fornecimento de materiais e a ocorrência de períodos de chuvas intensas, fatores esses previamente identificados como riscos de média a alta probabilidade na Tabela 4. Apesar da magnitude do desvio, o impacto sobre o prazo final do projeto foi neutralizado pelas folgas acumuladas nas etapas anteriores, reforçando a relevância do planejamento criterioso como mecanismo de absorção de variações durante a execução (Kerzner, 2020). No caso da atividade de aquisição de equipamentos (3.1), observou-se início posterior ao planejado, associado à demora na liberação de recursos e aos processos de aquisição institucional, em linha com o risco classificado como crítico na Tabela 4. No entanto, após a disponibilização dos recursos, a aquisição foi concluída dentro do prazo estimado, sem comprometimento das atividades subsequentes. De forma geral, os resultados indicam que, até o momento da análise, o cronograma apresentou desempenho satisfatório, com antecipação de atividades em diversas etapas e desvios pontuais associados a fatores externos e institucionais. Ressalta-se, entretanto, que o projeto ainda se encontra em andamento, podendo ocorrer variações adicionais ao longo das etapas subsequentes, especialmente nas atividades de natureza biológica — Ciclagem biológica (3.4) e Quarentena (5.1), classificadas como gargalos críticos e não compressíveis do projeto (PMI, 2017; CONCEA, 2017). A gestão contínua e adaptativa será crucial para o sucesso final do empreendimento.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao demonstrar a aplicabilidade e a relevância das técnicas de gestão do cronograma em um projeto real de construção de um biotério de “zebrafish”. A pesquisa evidenciou que o planejamento e o controle rigoroso dos prazos são cruciais para a organização, previsibilidade e o desempenho temporal de projetos de infraestrutura científica, particularmente aqueles que envolvem condicionantes técnicos, normativos e biológicos que não admitem flexibilização. O uso estruturado de ferramentas e metodologias, como a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), o sequenciamento de atividades pelo Método do Diagrama de Precedências (MDP), a estimativa de durações pela técnica PERT e o desenvolvimento do cronograma pelo Método do Caminho Crítico (CPM), permitiu não apenas organizar as etapas, mas também identificar proativamente o caminho crítico, mapear os principais riscos e gargalos, e antecipar desafios. Essa abordagem sistemática contribuiu significativamente para uma gestão mais proativa e embasada, otimizando a alocação de recursos e minimizando desvios.

Contudo, este estudo possui limitações inerentes ao seu delineamento, sendo um recorte de caso único. Essa característica restringe a generalização dos resultados para outros contextos ou projetos de infraestrutura científica, uma vez que as particularidades institucionais e regionais podem influenciar a aplicação e os resultados das práticas de gestão. Para estudos futuros, recomenda-se ampliar a análise para diferentes instituições e tipos de biotérios, a fim de verificar a adaptabilidade e a eficácia das boas práticas de gestão do cronograma em uma gama mais vasta de cenários. Sugere-se também a incorporação de métodos probabilísticos mais avançados na estimativa de prazos, como simulações de Monte Carlo, visando aprimorar a precisão e a robustez do planejamento temporal em ambientes de alta incerteza, e aprofundar a análise da gestão de riscos em conjunto com o cronograma.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

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17 de setembro de 2026

Heterogeneidade Territorial do Bolsa Família: uma Análise por Clusters e Efeitos Fixos

O Programa Bolsa Família (PBF) representa uma das políticas de proteção social mais relevantes globalmente, o que justifica a investigação de seus efeitos diante das acentuadas e heterogêneas desigualdades regionais brasileiras. O estudo avaliou os reflexos socioeconômicos dos repasses do programa sobre a saúde, a educação e o mercado de trabalho nos municípios brasileiros, no período de 2004 a 2019. Para isso, aplicou-se a técnica de agrupamento K-means para segmentação territorial e estimaram-se modelos econométricos de dados em painel com efeitos fixos, tanto a nível nacional quanto segregados por clusters. Os resultados revelaram a natureza anticíclica do PBF no mercado de trabalho, com uma relação negativa entre repasses e vínculos empregatícios formais em quatro dos cinco clusters, sugerindo que os recursos foram mais intensos onde o mercado formal falhou. Na saúde, o programa associou-se à redução significante da mortalidade infantil evitável em municípios com maior equilíbrio socioeconômico, mas não apresentou efeito detectável em agrupamentos de maior precariedade estrutural, indicando que a transferência de renda é necessária, porém insuficiente sem infraestrutura de saúde funcional. Na educação, a análise por subperíodos mostrou atenuação progressiva do coeficiente nacional, refletindo a convergência das taxas de matrícula para um patamar de alta inércia temporal. Concluiu-se que o PBF cumpriu seu objetivo de proteção social de forma anticíclica e territorialmente focalizada, mas sua capacidade de transformar indicadores estruturais dependeu da sinergia com investimentos em infraestrutura pública.

Palavras-chave: Bolsa Família; Mortalidade Infantil; Municípios Brasileiros; Painel de Dados; Política Pública.

Gestão Tributária

17 de setembro de 2026

Limites Jurídicos e Práticos da Dedutibilidade Retroativa dos Juros sobre Capital Próprio

A gestão tributária adequada é crucial para a saúde financeira das empresas, especialmente no complexo sistema tributário brasileiro. Os Juros sobre Capital Próprio (JCP) constituem um mecanismo jurídico relevante para a remuneração do capital próprio, utilizado para otimizar a carga tributária. O estudo investigou a controvérsia sobre a dedutibilidade de JCP referentes a exercícios anteriores à deliberação societária que autoriza seu pagamento. Aplicou-se a metodologia de pesquisa e análise documental empírica, baseada em “Normative Systems”, para identificar cinco propriedades representativas dos argumentos jurídicos na jurisprudência administrativa e judicial. Analisaram-se acórdãos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), revelando padrões decisórios predominantes, divergências interpretativas, incoerências argumentativas e significativa insegurança jurídica. Os resultados indicaram forte tendência de invalidação dos planejamentos envolvendo JCP extemporâneos na esfera administrativa. Contudo, o julgamento do Tema 1319 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) seguiu direção oposta, consagrando tese favorável à dedutibilidade e estabelecendo um precedente paradigmático que pode influenciar a jurisprudência administrativa e redefinir os critérios decisórios.

Palavras-chave: CARF; gestão tributária; limitação temporal; lucro real; planejamento tributário.

17 de setembro de 2026

Símbolos da Moda Esportiva: Consumo, Identidade e Status entre Consumidores Brasileiros

A moda esportiva consolidou-se como linguagem simbólica de distinção social nas últimas décadas, impulsionada pela expansão do mercado de wellness e pela reconfiguração dos padrões de prestígio nas sociedades de consumo contemporâneas. O estudo objetivou compreender como os símbolos da moda esportiva influenciaram a construção de identidade e pertencimento e sua associação ao prestígio social entre consumidores brasileiros que adquiriram produtos do setor nos últimos 12 meses. Desenvolveu-se a pesquisa por meio de levantamento bibliográfico e pesquisa descritiva, com levantamento do tipo survey aplicado a uma amostra não probabilística por conveniência de 445 consumidores brasileiros de moda esportiva. Os principais resultados indicaram que a maioria dos respondentes associou marcas esportivas a percepções de status social; mais da metade reconheceu o wellness como novo símbolo de prestígio; e parcela expressiva percebeu o sportstyle como mais aceito em ambientes formais de trabalho. Em contrapartida, formas ostensivas de sinalização, como preferência por logotipos visíveis, influência de redes sociais e disposição a pagar sobrepreço, foram amplamente rejeitadas, revelando uma dissociação entre a atribuição simbólica de status e o comportamento de sinalização ostensiva. O consumidor brasileiro de moda esportiva com elevado capital cultural operou por meio de sinais simbólicos sutis e não ostensivos, compatíveis com o fenômeno do consumo inconspícuo, no qual a distinção social se manifestou de forma internalizada.

Palavras-chave: Consumo inconspícuo; Distinção; Prestígio social; Sportstyle; Wellness.

17 de setembro de 2026

Modelo Validado de Formação de Competência Técnica e Habilidades Não Técnicas em Indústrias Químicas Complexas

Analisou-se a implementação de um processo sistemático para o desenvolvimento e a atualização de competências técnicas e habilidades não técnicas em Operações Industriais e Segurança de Processo em uma indústria química de alta complexidade, pertencente a uma multinacional localizada no Polo Petroquímico de Camaçari, Bahia. O estudo objetivou implementar um processo mensurável e sustentável que assegurou a competência técnica e não técnica de 100% dos operadores, em conformidade com a legislação estadual da Bahia, diretrizes de institutos internacionais e políticas corporativas. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso de abordagem mista, que envolveu diagnóstico documental, entrevistas semiestruturadas com 85 operadores experientes, análise de tarefas críticas e o desenvolvimento e aplicação piloto de um programa modular de treinamento. Este processo evidenciou a necessidade de alinhamento e atualização sistemática das competências requeridas. Os resultados obtidos indicaram a eficácia do modelo proposto, com 100% dos operadores concluindo os módulos teóricos e práticos e alcançando uma taxa de aprovação superior a 80%, além de conformidade operacional em campo. O trabalho contribuiu com um modelo estruturado de formação, incluindo matriz de competências, programas modulares de treinamento e diretrizes para certificação e recertificação, demonstrando potencial de replicação em outras unidades industriais de elevada complexidade e risco, e fortalecendo a segurança de processo e a sustentabilidade operacional.

Palavras-chave: Capacitação; Competência; Habilidades não técnicas; Segurança de processo; Treinamento.

Compliance E Esg

17 de setembro de 2026

Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

Palavras-chave: accountability; adaptação climática; gestão de riscos; governança multinível.

Digital Business

17 de setembro de 2026

Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

Palavras-chave: Automação de Marketing; Business Intelligence; Inbound Marketing; Integração de Sistemas; RD Station.

17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

Gestão Escolar Integrada: o Papel da Direção Administrativa na Capacitação da Equipe de Gestão Pedagógica para a Compreensão do Orçamento Escolar

A administração escolar foi abordada sob a perspectiva da integração entre gestores administrativos e pedagógicos, com foco na participação democrática, capacitação e qualificação dos atores. O objetivo geral consistiu na elaboração de um Guia de Orientações para Orçamento, direcionado à equipe de gestão pedagógica e mediado pela direção administrativa, visando instrumentalizar esses profissionais para a compreensão e participação nos processos financeiros e decisórios da instituição. Para tanto, o estudo desenvolveu-se em uma instituição particular privada, adotando uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, com procedimento metodológico de estudo de caso. A pesquisa mapeou desafios práticos e dificuldades de comunicação entre os setores, analisou referenciais teóricos da gestão escolar e estruturou o instrumento formativo proposto. Os resultados demonstraram que a ausência de integração entre as áreas administrativa e pedagógica pode comprometer a efetividade da gestão escolar, evidenciando a necessidade de processos formativos contínuos que promovam entendimento mútuo, cooperação e construção coletiva de soluções. O Guia proposto fortaleceu a gestão democrática, elevou a qualificação da equipe pedagógica e melhorou os processos decisórios institucionais, destacando o papel formativo e estratégico do diretor administrativo.

Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

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