Artigo

22 de julho de 2026

Gestão de risco cambial em contratos industriais no período de 2021 a 2025

Bruno dos Santos Meirelles; Robson Queiroz Pereira

DOI: 10.22167/2675-6528-202600618

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O estudo analisou a gestão do risco cambial em contratos industriais, utilizando fórmulas paramétricas de reajuste e propondo estratégias para mitigar impactos financeiros da volatilidade macroeconômica. Adotou-se uma abordagem qualitativa, descritivo-explicativa, por meio de um estudo de caso único em uma empresa multinacional do setor químico-industrial. Os dados, de natureza documental e secundária, foram coletados de sistemas corporativos, contratos de fornecimento e séries históricas de indicadores econômicos (IPCA, IPA, WPU e taxa de câmbio PTAX), e analisados graficamente e interpretativamente para identificar padrões e impactos das variáveis nos contratos. Os resultados evidenciaram que a fórmula paramétrica contribuiu para o equilíbrio econômico-financeiro contratual, mas sua eficácia dependeu da calibração dos coeficientes e da seleção de variáveis. Observou-se que a exposição elevada ao câmbio amplificou custos não controlados, enquanto estratégias como revisão da fórmula, simplificação de modelos, proteção cambial e diversificação de fornecedores reduziram significativamente os impactos financeiros. Concluiu-se que a gestão do risco cambial requer uma abordagem integrada, combinando instrumentos contratuais, estratégias operacionais e capacidade analítica, sendo a tomada de decisão baseada em dados essencial para mitigar riscos e ampliar a previsibilidade financeira.

Palavras-chave: Câmbio; Contratos paramétricos; Gestão de contratos; Inflação; Mitigação de riscos.

1. Introdução

O cenário econômico global contemporâneo é marcado por uma crescente interconexão entre mercados e nações. A Organização Mundial do Comércio (OMC, 2019) destaca que o processo de abertura comercial, impulsionado pelo avanço tecnológico, tem levado as empresas brasileiras a expandir significativamente suas operações de importação e exportação. Essa intensificação das atividades transfronteiriças estabelece uma conexão profunda do Brasil com outros países e suas respectivas economias, consolidando um ambiente de negócios cada vez mais globalizado.

Essa realidade é corroborada por dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC, 2021), que registrou exportações de US$ 14,8 bilhões e importações de US$ 15,9 bilhões somente em janeiro de 2021. Esses números evidenciam a magnitude das transações internacionais. Nos últimos dez anos, China e Estados Unidos mantêm-se como os principais parceiros comerciais do Brasil, conforme reforçado pelo MDIC (2023), que reitera a dependência de cadeias globais e a consequente sensibilidade a oscilações cambiais e inflacionárias internacionais.

Nesse contexto, a taxa de câmbio assume um papel estratégico, pois sua volatilidade impacta diretamente os custos de insumos importados, a formação de preços e a competitividade das empresas (Carvalho e Rossi, 2021). A globalização econômica, acelerada nas últimas décadas, aumentou a exposição das organizações a variáveis macroeconômicas, especialmente a volatilidade cambial, tornando a gestão de riscos financeiros um elemento central para a sustentabilidade dos negócios (Krugman et al., 2018; IMF, 2023).

A gestão de riscos financeiros, portanto, tornou-se uma prática essencial na administração financeira corporativa. Bartram et al. (2021) e Hull (2022) apontam que a escolha de instrumentos de gestão de risco, como operações de hedge e derivativos financeiros, contribui positivamente para a redução da volatilidade dos fluxos de caixa e para a melhoria do desempenho financeiro das empresas expostas a moedas estrangeiras, promovendo maior previsibilidade nos resultados.

Sob a perspectiva da gestão financeira, Damodaran (2021) ressalta que o risco pode ser compreendido como a variabilidade dos resultados esperados, e sua adequada mensuração e mitigação são cruciais para a criação de valor. Em linha com essa visão, Graham e Harvey (2020) destacam que decisões estratégicas relacionadas à formação de preços, estrutura de custos e negociação contratual são fundamentais para a competitividade organizacional.

Em cadeias de suprimentos globais, a gestão eficiente de contratos assume um papel crítico na sustentabilidade operacional (Christopher, 2022). Contratos mal organizados ou excessivamente expostos a variáveis externas podem comprometer as margens e gerar desequilíbrios financeiros significativos. Em contrapartida, mecanismos contratuais bem delineados, como cláusulas paramétricas adequadas, promovem o compartilhamento de riscos e aumentam a resiliência das operações (Chopra et al., 2023).

A gestão do risco cambial tornou-se um elemento estrutural na estratégia corporativa, primordialmente em economias emergentes, onde a volatilidade das moedas é mais acentuada. Moreau (2025) observa que a exposição cambial afeta não apenas os fluxos de caixa, mas também o valor das empresas e suas decisões de financiamento e investimento. A crescente complexidade dos mercados financeiros tem impulsionado a criação de novas abordagens e instrumentos para essa gestão (Zeng, 2024).

Paralelamente, observa-se um aumento na adoção de contratos paramétricos, também conhecidos como contratos de preços ajustáveis, especialmente em ambientes industriais caracterizados por alta incerteza e volatilidade de custos (Chopra et al., 2023; Oliveira et al., 2025). Esses contratos viabilizam o reajuste periódico de preços com base em indicadores econômicos previamente definidos, como índices inflacionários e taxas de câmbio, buscando promover maior equilíbrio econômico-financeiro entre as partes.

Embora o hedge seja reconhecido como uma ferramenta eficaz de mitigação de riscos, sua utilização ainda apresenta desafios, como custos de implementação, limitações de mercado e questões regulatórias. Por isso, a literatura recente enfatiza a necessidade de integração entre estratégias financeiras, operacionais e contratuais para potencializar a gestão de riscos (Zai e Mansur, 2024).

Nesse ínterim, existe uma lacuna na compreensão de como a avaliação de tendências de índices econômicos, como câmbio, hedge e indicadores inflacionários, associada à análise de séries de dados históricos internos da empresa, pode prever impactos e riscos ao equilíbrio financeiro das empresas. A pesquisa justifica-se pela necessidade de sugerir decisões estratégicas de negociação em contratos industriais, evidenciando que o conhecimento técnico aplicado nas ações negociais é um diferencial competitivo na gestão moderna de suprimentos.

O presente estudo teve como objetivo analisar a gestão do risco cambial em contratos industriais por meio da aplicação de fórmulas paramétricas, bem como identificar estratégias capazes de mitigar os impactos financeiros decorrentes da volatilidade macroeconômica.

2. Material e Métodos

A pesquisa caracterizou-se como aplicada, de abordagem qualitativa e natureza descritivo-explicativa, conforme as diretrizes de Creswell e Poth (2018). A natureza aplicada do estudo justificou-se pela orientação à solução de um problema organizacional real, buscando avaliar como a volatilidade cambial e inflacionária afeta o equilíbrio econômico-financeiro contratual e, a partir disso, propor estratégias de mitigação de risco. A abordagem qualitativa foi selecionada para validar a análise aprofundada de fenômenos complexos em seu contexto real, especialmente a conexão entre variáveis econômicas e decisões gerenciais (Flick, 2022).

O procedimento metodológico adotado foi o estudo de caso único, amplamente utilizado em pesquisas organizacionais para avaliar fenômenos contemporâneos em profundidade, dentro de seu contexto real (Yin, 2018). Essa abordagem foi considerada adequada para compreender detalhadamente a dinâmica de negociação contratual e os impactos das variáveis econômicas em uma situação concreta e objetiva, possibilitando a análise conectada de dados financeiros, contratuais e operacionais (Yin, 2018).

A unidade de análise foi uma empresa multinacional do setor químico-industrial, atuante no fornecimento de insumos e serviços especializados para grandes indústrias de transformação no Brasil. A organização possui operações de importação de matérias-primas cotadas em dólar e adota contratos de fornecimento indexados por parâmetros econômicos nacionais e internacionais. A escolha dessa empresa se deu por sua representatividade no segmento e pela relevância do caso, que envolve o desafio de equilibrar variações cambiais e índices inflacionários na formulação de reajustes contratuais.

Os dados coletados foram predominantemente de natureza documental e secundária, provenientes de sistemas internos corporativos (ERP/SAP), contratos de fornecimento, relatórios gerenciais e séries históricas de indicadores econômicos. A utilização de múltiplas fontes de dados cooperou para potencializar a confiabilidade da pesquisa, por meio da técnica de triangulação (Saunders et al., 2019). Os sistemas ERP/SAP foram utilizados para subsidiar análises gerenciais e diminuir incertezas na tomada de decisão (Lima, 2024).

Os indicadores econômicos analisados incluíram o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), o Wholesale Price Index – EUA (WPU) e a taxa de câmbio PTAX. O IPCA, calculado pelo IBGE, reflete o custo de vida médio das famílias e é referência para reajuste de contratos (Silva e Medeiros, 2020). O IPA, elaborado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), representa a variação de preços no atacado e sinaliza custos de insumos industriais (Cavalcante e Nascimento, 2019).

O WPU, publicado pelo U.S. Bureau of Labor Statistics, mede a variação média dos preços de produtos no atacado do mercado norte-americano, sendo útil para contratos com componentes importados (Krugman e Obstfeld, 2018). A taxa de câmbio PTAX (BRL/USD), disponibilizada pelo Banco Central do Brasil, expressa o valor médio do dólar e é referência para contratos dolarizados, impactando diretamente o custo de insumos importados (Carvalho e Rossi, 2021; Chopra e Meindl, 2020).

O período de avaliação do estudo compreendeu de março de 2021 até março de 2025. A coleta de dados ocorreu por meio de consulta sistêmica no SAP para obtenção de preços históricos no biênio 2021 a 2022, sempre em março, período das negociações anuais contratuais. Para viabilizar a divulgação do trabalho e preservar o sigilo da negociação, os valores reais analisados foram ajustados por um fator de conversão.

As interfaces negociais do estudo envolveram a Indústria (compradora), que foi o centro da análise e responsável pela estratégia de mitigação de risco. A Empresa A (principal), fornecedora do insumo, representou a principal fonte de risco cambial devido à forte indexação ao câmbio e inflação internacional. A Empresa B (alternativo) e a Empresa C (complementar) foram consideradas para condições comerciais competitivas, acesso à negociação direta e estabilização do cenário contratual, respectivamente.

A fórmula paramétrica de reajuste de preços utilizada nos contratos industriais foi a seguinte: Rt = α· IPCAt + β · IPAt + γ · WPUt + δ · ∆Cambiot. Nesta fórmula, Rt representa o reajuste contratual no período t; IPCAt, a variação percentual do Índice de Preços ao Consumidor Amplo; IPAt, a variação do Índice de Preços ao Produtor Amplo; WPUt, a variação do índice de preços por atacado norte-americano; e ∆Cambiot, a variação percentual da taxa de câmbio (BRL/USD) no período. Os coeficientes (α, β, γ, δ) evidenciaram o peso de cada variável na estrutura de custos do insumo analisado e foram definidos com base em análises históricas de custos e conhecimentos técnicos (Chopra et al., 2023; Oliveira et al., 2025).

A técnica de análise dos dados empregada foi a análise gráfica e interpretativa, com o objetivo de distinguir padrões, tendências e correlações entre variáveis econômicas e seus impactos nos contratos (Everitt e Skrondal, 2022). Foram realizadas análises comparativas entre períodos distintos (2021–2022 e 2022–2023) para avaliar os efeitos das estratégias adotadas ao longo do tempo, permitindo identificar como a variação cambial e os índices de inflação influenciaram as negociações contratuais (Martins e Theóphilo, 2016).

Em síntese, o presente trabalho promoveu um método dedutivo, partindo de conceitos teóricos consolidados sobre inflação, câmbio e contratos, para a análise de um caso concreto de negociação empresarial. A associação de abordagem qualitativa, estudo de caso e análise documental permitiu compreender o fenômeno em profundidade, unindo base teórica e aplicabilidade prática (Gil, 2008; Marconi e Lakatos, 2017; Martins e Theophilo, 2016). A metodologia negocial desenvolvida para este estudo incluiu etapas como levantamento de dados históricos, identificação de variáveis econômicas, estruturação e aplicação da fórmula paramétrica, análise de impactos financeiros, desenvolvimento de estratégias negociais, implementação de mudanças contratuais, monitoramento e revisão contínua, e inclusão de novos fornecedores.

3. Resultados e Discussão

A análise da gestão do risco cambial em contratos industriais, com foco na aplicação de fórmulas paramétricas e na identificação de estratégias de mitigação, revelou a complexidade e a dinâmica inerentes à administração de custos em ambientes de elevada volatilidade macroeconômica. Os achados evidenciaram que a utilização de fórmulas paramétricas contribuiu para o equilíbrio econômico-financeiro contratual, mas sua eficácia foi intrinsecamente ligada à calibração dos coeficientes e à seleção criteriosa das variáveis. A pesquisa, ao examinar dados históricos e processos de negociação de uma empresa multinacional do setor químico-industrial, permitiu identificar padrões e tendências que moldaram os impactos financeiros ao longo do período de 2021 a 2025.

Inicialmente, o estudo mapeou o impacto dos preços nas negociações contratuais com a Empresa A, fornecedora do insumo principal, entre os biênios de 2022 e 2023. Em novembro de 2021, o contrato foi estabelecido com reajuste vinculado ao câmbio fixo mensal PTAX e à inflação norte-americana. Contudo, em março de 2022, essa configuração resultou em um impacto significativo de aproximadamente 26% no custo unitário do insumo A. Desse total, cerca de 7,5% foi atribuído à inflação norte-americana e 17% à variação cambial, culminando em um impacto financeiro geral próximo de 2,58 milhões de reais para o biênio, considerando um volume anual de mais de 5 mil toneladas base seca do insumo.

Esse cenário inicial de elevada exposição foi interpretado à luz do fenômeno de *exchange rate pass-through*, onde variações cambiais são rapidamente refletidas nos preços de contratos e insumos importados, intensificando os custos em ambientes de alta exposição externa, conforme observado por Gopinath et al. (2020). A estrutura da fórmula paramétrica, que absorvia variáveis como câmbio e índices inflacionários, seguia a lógica de indexação amplamente discutida na literatura, onde o preço ajustado é uma função direta das variações dos fatores de custo. Modelos como os propostos pelo Bureau of Labor Statistics (2006) e Joskow (1987) reforçam a necessidade de mecanismos de ajuste automático para preservar o equilíbrio econômico-financeiro em contratos de longo prazo.

Apesar da solidez teórica dessas abordagens, a aplicação prática pode gerar desvios relevantes em contextos de alta volatilidade, como o câmbio. Oliveira et al. (2025) e Shah (2025) apontam que a escolha inadequada de coeficientes pode amplificar a exposição ao risco, tornando o contrato excessivamente sensível a variáveis como o câmbio. A forte depreciação cambial observada no período de 2021-2022, por exemplo, culminou em uma elevação expressiva dos custos contratuais, evidenciando que modelos exclusivamente indexados podem dilatar choques externos na ausência de mecanismos de amenização ou limitação.

Em resposta a essa volatilidade, uma renegociação contratual foi realizada em julho de 2023, resultando em uma redução de aproximadamente 10% no preço de partida da fórmula, gerando uma economia de cerca de 250 mil reais. Como parte do acordo, a partir de 2024, a precificação do insumo A passou a ser influenciada pelo câmbio médio do mês anterior, com ajustes mensais da taxa PTAX. Essa mudança, no entanto, introduziu um cenário de câmbio móvel, contrariando as expectativas iniciais de um câmbio fixo e ampliando a volatilidade.

Ainda em 2024, em setembro, foram negociados tetos e pisos para o câmbio (BRL/USD nas faixas de 4,95 a 5,05), o que estabilizou o custo no mesmo nível de 2023 e resultou em uma queda de 10% no cenário de tetos cambiais, gerando um custo evitado de 370 mil reais no quarto trimestre. Essa medida, que implementou cláusulas adaptativas, ressalta a flexibilidade contratual como um elemento central na mitigação de riscos em ambientes voláteis, conforme destacado por Bajari et al. (2014).

A comparação entre o biênio 2021-2022 e 2022-2023 demonstrou a eficácia das ações de negociação. O impacto financeiro, que era de aproximadamente 2,5 milhões de reais no primeiro período, foi drasticamente reduzido para pouco mais de 11 mil reais no biênio subsequente. Essa redução robusta confirmou o papel fundamental da gestão ativa dos contratos e da aprendizagem organizacional no processo de negociação, alinhando-se à visão de Graham e Harvey (2020) sobre a importância da capacidade analítica na gestão de riscos.

A análise comparativa dos indicadores econômicos, como câmbio, inflação norte-americana (WPU) e IPCA, sobre o custo unitário do insumo (2022-2025, na base 100) revelou que a junção entre variação cambial e inflação internacional ocasionou maior volatilidade. Em contraste, a utilização do IPCA como principal indexador apresentou um comportamento mais estável e previsível, contribuindo para o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos, conforme discutido por Chopra et al. (2023) e Christopher (2022).

Essa observação fortaleceu a hipótese de que a simplificação da fórmula paramétrica, com atenuação da exposição a variáveis externas altamente voláteis, pode amortecer riscos e potencializar a previsibilidade dos custos contratuais. Zeng (2024) corrobora que, em ambientes de elevada incerteza, modelos mais simples e menos dependentes de variáveis externas tendem a apresentar maior robustez e previsibilidade, o que foi empiricamente ratificado neste estudo. A ausência inicial de uma calibração mais refinada dos coeficientes da fórmula paramétrica contribuiu para a elevada exposição ao risco cambial.

A transição para um regime de câmbio móvel a partir de 2024 demonstrou a elevação da volatilidade e incerteza, exigindo estratégias mais elaboradas de gestão de risco, conforme a perspectiva do Fundo Monetário Internacional (IMF, 2023). Nesse contexto, a implementação de mecanismos como tetos e pisos cambiais configurou-se como uma prática relevante de mitigação de risco, limitando a exposição a oscilações extremas do mercado e corroborando a literatura que demonstra que contratos excessivamente indexados a variáveis instáveis podem dilatar choques externos (Amiti et al., 2022).

A inflação internacional, especialmente nas economias centrais, compartilha choques de custo globalmente, influenciando cadeias produtivas por meio de preços de commodities, energia e bens intermediários (Gopinath et al., 2020). A indexação a indicadores internacionais pode amplificar a instabilidade contratual, enquanto índices mais estáveis, como o IPCA, tendem a promover maior equilíbrio contratual. Hart e Moore (2008) reforçam que, embora a precisão na captura de custos via indexação a variáveis externas possa aumentar, isso muitas vezes ocorre à custa de maior volatilidade, privilegiando modelos simplificados para estabilidade.

A proposta de fórmula aplicada em setembro de 2024, que considerava o insumo somado ao IPCA, foi um passo em direção à simplificação. Contudo, a contraproposta da indústria em novembro de 2024, que fixou o custo do insumo A em reais e considerou apenas a movimentação do IPCA, sem influência de câmbio ou outros índices voláteis, representou um avanço significativo. Essa estratégia de *hedge* operacional, focada no ajuste estrutural do contrato, pode ser tão ou mais positiva do que o *hedge* financeiro tradicional, atuando diretamente na origem do risco, conforme Allayannis e Lel (2020).

Essa decisão de isolar o IPCA resultou em um aumento de apenas 3% contra o orçamento projetado para 2025, removendo o efeito câmbio e paramétrico do insumo, mantendo apenas o efeito inflacionário do IPCA. Os resultados evidenciam que, em determinados contextos, a simplificação da fórmula pode ser mais eficaz do que a elevação da complexidade, corroborando a ideia de que a robustez do contrato pode ser mais relevante do que sua precisão absoluta (Zeng, 2024; Hull, 2022).

A introdução de novos fornecedores foi uma estratégia crucial para potencializar os ganhos de negociação e estabilizar o cenário contratual. A negociação com a Empresa B, após sua aquisição pela Empresa C, resultou em uma queda de 22% no custo unitário do insumo B importado, gerando uma redução de cerca de 240 mil reais em 2023. O primeiro leilão do insumo C nacional, em setembro de 2024, gerou um ganho de 39% em relação ao custo do item importado, com uma redução de aproximadamente 40 mil reais em 2024.

A abertura a novos fornecedores diminuiu a dependência de um único agente e elevou o poder de negociação da empresa analisada, alinhando-se à literatura de estratégia competitiva de Porter (1996) e Christopher (2022). O segundo leilão do insumo C nacional, em janeiro de 2025, confirmou a disponibilidade do insumo C importado com manutenção do custo negociado, resultando em uma variação de -39% em relação ao insumo B importado e uma redução de custo de aproximadamente 120 mil reais, garantindo o volume para 2025.

A esquematização do ciclo de negociação contratual demonstra que a gestão de contratos industriais deve ser um processo dinâmico, interativo e orientado por dados. Contratos em ambientes voláteis requerem monitoramento contínuo, revisões periódicas e capacidade de adaptação ao longo do tempo (Chopra et al., 2023). A utilização de dados históricos e variáveis econômicas, conforme Christopher (2022), promove a construção de modelos contratuais mais resilientes e aderentes à realidade do mercado, com adequada distribuição de riscos entre as partes, essencial para o equilíbrio econômico-financeiro (Damodaran, 2021).

Em síntese, os resultados deste estudo demonstram que a gestão do risco cambial em contratos industriais exige uma abordagem integrada, que combina instrumentos contratuais, estratégias operacionais e capacidade analítica. A eficácia das fórmulas paramétricas depende da calibração dos coeficientes e da seleção de variáveis, e a simplificação dos modelos, a proteção cambial e a diversificação de fornecedores são estratégias que reduzem significativamente os impactos financeiros. A tomada de decisão baseada em dados e a revisão contínua dos contratos são essenciais para mitigar riscos e ampliar a previsibilidade financeira, respondendo ao objetivo de analisar e propor estratégias para a gestão do risco cambial.

4. Conclusão

O presente estudo analisou a gestão do risco cambial em contratos industriais por meio da aplicação de fórmulas paramétricas e buscou identificar estratégias para mitigar os impactos financeiros da volatilidade macroeconômica. Verificou-se que a utilização de fórmulas paramétricas contribuiu para o equilíbrio econômico-financeiro contratual, embora sua eficácia tenha dependido criticamente da calibração dos coeficientes e da seleção das variáveis. Observou-se que a elevada exposição ao câmbio amplificou custos não controlados, resultando em impactos financeiros significativos no período inicial. Contudo, a revisão da fórmula, a simplificação dos modelos, a adoção de mecanismos de proteção cambial, como tetos e pisos, e a diversificação de fornecedores foram estratégias que reduziram substancialmente esses impactos, evidenciando a importância da gestão ativa e da aprendizagem organizacional.

A principal contribuição do estudo reside na demonstração de que a gestão do risco cambial requer uma abordagem integrada, combinando instrumentos contratuais, estratégias operacionais e capacidade analítica, com a tomada de decisão baseada em dados sendo essencial para ampliar a previsibilidade financeira. A simplificação da fórmula paramétrica, em certos contextos, mostrou-se mais eficaz do que a complexidade para amortecer riscos. Como limitação, o estudo baseou-se em um único caso, o que pode restringir a generalização dos resultados, e os dados foram ajustados por um fator de conversão devido à confidencialidade. Para futuras pesquisas, sugere-se a ampliação para múltiplos casos e o uso de métodos quantitativos mais avançados na definição dos coeficientes das fórmulas paramétricas.

Referências Bibliográficas

Bartram, S. M.; Brown, G. W.; Conrad, J. 2021. The effects of derivatives on firm risk and value revisited. Journal of Financial and Quantitative Analysis, v. 56, n. 2, p. 1–30.

Carvalho, C.; Rossi, J. 2021. Exchange rate dynamics in emerging markets. Journal of International Economics, v. 132, p. 103–120.

Hull, J. C. 2022. Options, futures and other derivatives. 11. ed. Pearson, Harlow, Essex

International Monetary Fund [IMF]. 2023. Global financial stability report. Washington, DC. Disponível em: <www.imf.org>. Acesso em: 30 de setembro de 2025.

Krugman, P. R.; Obstfeld, M.; Melitz, M. 2018. International economics. 11. ed. Pearson, Harlow, Essex, Reino Unido.

Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços [MDIC]. 2021. Comex Stat. Disponível em: <www.comexstat.mdic.gov.br>. Acesso em: 17 de setembro de 2025.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

Palavras-chave: accountability; adaptação climática; gestão de riscos; governança multinível.

Digital Business

17 de setembro de 2026

Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

Palavras-chave: Automação de Marketing; Business Intelligence; Inbound Marketing; Integração de Sistemas; RD Station.

17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

Gestão Escolar Integrada: o Papel da Direção Administrativa na Capacitação da Equipe de Gestão Pedagógica para a Compreensão do Orçamento Escolar

A administração escolar foi abordada sob a perspectiva da integração entre gestores administrativos e pedagógicos, com foco na participação democrática, capacitação e qualificação dos atores. O objetivo geral consistiu na elaboração de um Guia de Orientações para Orçamento, direcionado à equipe de gestão pedagógica e mediado pela direção administrativa, visando instrumentalizar esses profissionais para a compreensão e participação nos processos financeiros e decisórios da instituição. Para tanto, o estudo desenvolveu-se em uma instituição particular privada, adotando uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, com procedimento metodológico de estudo de caso. A pesquisa mapeou desafios práticos e dificuldades de comunicação entre os setores, analisou referenciais teóricos da gestão escolar e estruturou o instrumento formativo proposto. Os resultados demonstraram que a ausência de integração entre as áreas administrativa e pedagógica pode comprometer a efetividade da gestão escolar, evidenciando a necessidade de processos formativos contínuos que promovam entendimento mútuo, cooperação e construção coletiva de soluções. O Guia proposto fortaleceu a gestão democrática, elevou a qualificação da equipe pedagógica e melhorou os processos decisórios institucionais, destacando o papel formativo e estratégico do diretor administrativo.

Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

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