03 de agosto de 2026
Gestão de partes interessadas no programa de aprendizagem: desafios e estratégias para a efetividade social
Gabriela Oliveira França; Roberta Lívia Garcia Teixeira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600854
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A gestão de partes interessadas desempenha um papel crucial no Programa de Aprendizagem, uma política pública destinada à inclusão de jovens vulneráveis no mercado de trabalho. Este estudo objetivou compreender como o engajamento da equipe de projeto influenciou a comunicação, a motivação e a colaboração, identificando fatores críticos para a eficácia das entregas e a ampliação do impacto social dessa política. A pesquisa caracterizou-se como descritiva, com abordagem mista (qualitativa-quantitativa), e foi realizada por meio de levantamento de campo. Aplicou-se um questionário estruturado online a 61 participantes, incluindo aprendizes e gestores. A triangulação dos dados articulou respostas estatísticas e discursivas, documentos normativos e o referencial teórico do Guia PMBOK. Os resultados indicaram que, embora o Programa fosse amplamente reconhecido por sua relevância social, existiam desafios relacionados ao preparo das lideranças e à comunicação assertiva. A ausência de feedback estruturado e o cumprimento meramente burocrático de cotas limitaram o alinhamento entre teoria e prática. Concluiu-se que a adoção de boas práticas de gerenciamento de projetos é fundamental para ampliar a efetividade do Programa, favorecendo o engajamento das partes interessadas e potencializando seu impacto social.
Palavras-chave: Comunicação; Engajamento; Gerenciamento de projetos; Inclusão social; Juventude.
1. Introdução
A gestão de partes interessadas é um pilar fundamental para o sucesso de qualquer projeto, abrangendo a identificação, o engajamento e a comunicação com todos os atores que podem influenciar ou ser impactados pelas suas entregas (PMI, 2021). A compreensão aprofundada das motivações e expectativas desses diversos grupos é indispensável para assegurar o alinhamento das ações, mitigar potenciais conflitos e garantir que os resultados gerem valor efetivo (Vargas, 2021).
No contexto dos projetos sociais, a relevância da gestão de partes interessadas é ainda mais acentuada. Isso se deve à multiplicidade de interesses envolvidos e à complexidade inerente às demandas que abordam vulnerabilidades sociais. Nesse cenário, uma abordagem que transcenda a mera técnica e incorpore a sensibilidade humana torna-se crucial para promover a transformação social desejada (Armani, 2001).
No Brasil, o Programa de Aprendizagem, estabelecido pela Lei nº 10.097/2000 e regulamentado pelo Decreto nº 9.579/2018, consolidou-se como uma política pública essencial. Seu propósito é a inserção de adolescentes e jovens no mercado de trabalho, integrando formação técnico-profissional, acompanhamento pedagógico e a proteção dos direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Conforme detalhado no Manual da Aprendizagem (2024), o programa prioriza jovens em situação de vulnerabilidade, com idades entre quatorze e 24 anos, além de pessoas com deficiência sem limite etário. Essa iniciativa configura-se, portanto, como uma estratégia robusta de inclusão social e de fortalecimento da cidadania, mediada por entidades qualificadoras que articulam a relação entre empresas contratantes e os jovens, oferecendo tanto a formação técnica quanto o suporte socioeducativo.
Contudo, a efetividade de programas sociais como o de Aprendizagem está intrinsecamente ligada à qualidade da comunicação e ao alinhamento entre suas partes interessadas. Estudos indicam que a ausência de clareza nos papéis e a falta de acompanhamento contínuo podem limitar significativamente a eficácia dos resultados esperados (Moraes et al., 2022).
A vulnerabilidade social da juventude exige práticas de gestão que consigam articular políticas públicas, empresas e instituições formadoras em torno de objetivos comuns (Silva, 2007). No entanto, desafios práticos persistem, como o cumprimento meramente burocrático de cotas por parte de algumas empresas, o baixo preparo das lideranças e a distância entre a teoria e a prática nas atividades pedagógicas. Tais fatores comprometem a sustentabilidade do programa e o engajamento dos jovens.
A percepção de um cumprimento formal de cotas, sem investimento consistente em acompanhamento e desenvolvimento profissional, é um desafio recorrente. Isso é frequentemente associado à ausência de supervisão estruturada e à baixa integração dos jovens às equipes organizacionais. Falhas de comunicação, incluindo a falta de feedback sistemático, divergência de informações e baixa articulação entre os atores, também são apontadas como fatores que comprometem o engajamento e a efetividade do programa.
Apesar da alta motivação das equipes pelo propósito social do programa, essa motivação é frequentemente prejudicada pela ausência de processos estruturados de feedback e pela falta de clareza nos papéis definidos. O despreparo de supervisores e gestores para acompanhar o desenvolvimento dos jovens, bem como o desalinhamento entre teoria e prática, reforçam a necessidade de capacitação institucional e de uma gestão mais profissionalizada.
Nesse contexto, a adoção de boas práticas de gerenciamento de projetos, como o mapeamento de stakeholders, o planejamento da comunicação e o desenvolvimento de equipes, não representa apenas um aprimoramento técnico. Trata-se de uma necessidade estratégica para ampliar a efetividade social do Programa de Aprendizagem, alinhando expectativas e transformando o cumprimento de cotas em uma estratégia real de inclusão (Fischer, 2002; Kerzner, 2017). A estruturação desses processos é capaz de alinhar as expectativas entre a teoria e a prática, reduzindo a vulnerabilidade dos jovens aprendizes e potencializando o impacto social.
A partir desse cenário, este trabalho formulou a seguinte questão de pesquisa: de que forma o engajamento da equipe de projeto, enquanto parte interessada estratégica, influenciou a comunicação, a motivação e a colaboração no Programa de Aprendizagem? Assim, o presente estudo teve como objetivo analisar o papel do engajamento da equipe de projeto na dinâmica de comunicação, motivação e colaboração entre as partes interessadas do Programa de Aprendizagem, identificando fatores críticos que influenciaram a eficácia das entregas e a ampliação do impacto social dessa política pública.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa descritiva, de natureza aplicada, que empregou uma abordagem metodológica mista, combinando elementos qualitativos e quantitativos. A estratégia de pesquisa adotada foi o levantamento de campo, conhecido como ‘survey’, conforme a classificação proposta por Gil (2002). Essa abordagem permitiu investigar o fenômeno em seu contexto natural, coletando dados diretamente dos participantes envolvidos no Programa de Aprendizagem.
A unidade de análise do estudo foi o Programa de Aprendizagem, uma política pública brasileira voltada à inserção de adolescentes e jovens no mercado de trabalho. A pesquisa foi realizada na cidade de São Paulo, SP. Para preservar a confidencialidade e o anonimato das organizações e indivíduos envolvidos, não foram identificadas instituições específicas. O contexto da pesquisa incluiu a articulação entre a coleta de dados primários e a análise de documentos normativos, como a Lei nº 10.097/2000, além de referências às boas práticas do Guia PMBOK (PMI, 2021).
A população-alvo da pesquisa foi composta por aprendizes, ex-aprendizes e profissionais que atuavam diretamente no Programa de Aprendizagem, vinculados a entidades qualificadoras e empresas contratantes. A amostragem utilizada foi não probabilística, por conveniência. Os participantes foram acessados por meio da rede de contatos da pesquisadora e aderiram ao estudo de forma voluntária e anônima. Um total de 220 potenciais respondentes recebeu o questionário, e 61 deles o completaram integralmente, resultando em uma taxa de retorno de aproximadamente 27,7%.
Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário estruturado, desenvolvido e aplicado por meio da plataforma Google Formulários. O instrumento foi composto por questões fechadas, que incluíam opções de múltipla escolha e uma escala Likert de 1 a 5 pontos, destinadas a mensurar variáveis relacionadas ao engajamento e à comunicação. Adicionalmente, foram incluídas questões abertas para captar percepções qualitativas e sugestões de melhoria dos participantes.
Em conformidade com as diretrizes éticas para pesquisas envolvendo seres humanos, a primeira seção do questionário apresentou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A participação no estudo foi condicionada ao aceite voluntário do TCLE, garantindo o total anonimato dos respondentes e das instituições envolvidas. A coleta de dados ocorreu exclusivamente em ambiente online, no período compreendido entre os dias 02 e 06 de junho de 2025.
A análise dos dados coletados foi realizada por meio da triangulação de fontes e métodos, buscando uma compreensão abrangente do fenômeno estudado. Na etapa de análise quantitativa, os dados numéricos provenientes das questões de múltipla escolha e das escalas Likert foram submetidos à estatística descritiva. Calcularam-se frequências, médias e percentuais para identificar padrões de comportamento e percepção entre os participantes.
A análise qualitativa foi aplicada às respostas dissertativas obtidas nas questões abertas do questionário. Essas respostas foram tratadas por meio de categorização temática, técnica que, segundo Minayo (2009), permite organizar e interpretar dados qualitativos a partir da identificação de núcleos de sentidos recorrentes. Os relatos foram categorizados em temas centrais, como liderança, comunicação e a relação entre teoria e prática no contexto do programa.
A etapa de triangulação consistiu no confronto dos resultados empíricos obtidos com os documentos normativos do Programa de Aprendizagem, o referencial teórico de gestão de projetos, os resultados quantitativos do questionário e as categorias extraídas das respostas abertas. Esse procedimento visou conferir maior robustez interpretativa às conclusões apresentadas, articulando diferentes perspectivas para validar e aprofundar a compreensão dos achados.
3. Resultados e Discussão
Os resultados da pesquisa revelaram um panorama multifacetado sobre a gestão de partes interessadas no Programa de Aprendizagem, evidenciando tanto o reconhecimento de seu propósito social quanto a existência de desafios operacionais significativos. A análise dos dados, obtidos por meio de um questionário aplicado a aprendizes, ex-aprendizes e profissionais envolvidos, permitiu compreender como o engajamento da equipe de projeto influenciou a comunicação, a motivação e a colaboração, identificando fatores críticos para a eficácia das entregas e a ampliação do impacto social dessa política pública. A triangulação dos dados quantitativos e qualitativos, confrontados com o referencial teórico do Guia PMBOK (PMI, 2021), forneceu uma base robusta para as interpretações.
A amostra da pesquisa foi composta por 61 respondentes, predominantemente jovens, o que alinha o perfil dos participantes com o público-alvo do Programa de Aprendizagem. Verificou-se que 45,89% dos participantes tinham entre 18 e 21 anos, e 22,95% estavam na faixa de 15 a 17 anos, indicando uma forte representação de jovens em fase de inserção no mercado de trabalho. A escolaridade dos respondentes também refletiu essa característica, com 45,90% possuindo Ensino Básico, enquanto 34,43% tinham Ensino Superior e 19,67% Pós-graduação, o que sugere a participação complementar de profissionais com maior qualificação acadêmica. Essa composição da amostra garantiu que as percepções analisadas refletissem majoritariamente a experiência dos jovens beneficiários diretos do programa, que representavam 72,13% dos respondentes, ao mesmo tempo em que captou a visão de profissionais e instituições.
A predominância de participantes residentes no estado de São Paulo, que correspondeu a 95,08% da amostra, com participações pontuais de Minas Gerais (3,28%) e Espírito Santo (1,64%), concentrou a análise em um contexto urbano específico. Essa característica da amostra, embora representativa da realidade paulista, limita a generalização dos achados para outras regiões do país, especialmente aquelas com características socioeconômicas e culturais distintas. Contudo, a diversidade de vínculos com o programa, incluindo jovens aprendizes, ex-aprendizes e profissionais de entidades qualificadoras e empresas contratantes, proporcionou uma visão abrangente das dinâmicas internas do Programa de Aprendizagem, permitindo explorar diferentes perspectivas sobre sua operacionalização e impacto.
A percepção geral sobre a finalidade do Programa de Aprendizagem demonstrou um forte consenso em torno de seu papel social, com 50,82% dos respondentes apontando a inclusão de jovens no mercado de trabalho como o principal objetivo. Outros objetivos relevantes citados foram a qualificação profissional e a redução da vulnerabilidade social. Esses dados corroboram a visão de que o programa transcende a mera exigência legal, sendo amplamente reconhecido como uma ferramenta de transformação social, conforme discutido por Armani (2001) sobre a importância da sensibilidade humana em projetos sociais. Essa percepção positiva do propósito social do programa é um indicativo de que seus fundamentos são bem compreendidos e valorizados pelas partes interessadas.
No que tange às partes interessadas, os jovens aprendizes foram os mais citados (88,52%), seguidos pelas empresas contratantes (78,69%) e entidades qualificadoras (62,30%), confirmando o tripé relacional central do Programa de Aprendizagem. No entanto, a menor frequência de citações ao governo e às famílias dos aprendizes, embora esses atores sejam previstos na estrutura normativa, sugere que são percebidos de forma mais periférica no cotidiano da política pública. Essa lacuna na percepção pode indicar um desafio no engajamento e na comunicação com esses grupos, o que pode impactar o suporte integral aos jovens e a articulação mais ampla da política, conforme apontado por Vargas (2021) sobre a necessidade de compreender as expectativas de todos os atores.
Apesar do reconhecimento do propósito social, a análise quantitativa revelou gargalos no alinhamento entre as partes interessadas. A média atribuída ao grau de alinhamento entre aprendizes, empresas e entidades foi de 3,44 em uma escala de 5 pontos, indicando um alinhamento apenas parcial. Esse resultado sugere que, embora haja uma compreensão compartilhada dos objetivos gerais, a operacionalização e a coordenação entre os diferentes atores podem apresentar fragilidades. Tal desalinhamento pode comprometer a eficácia das ações e a maximização do impacto social do programa, reforçando a necessidade de uma gestão de partes interessadas mais estruturada e proativa, conforme as diretrizes do Guia PMBOK (PMI, 2021).
A análise qualitativa das respostas abertas permitiu identificar desafios recorrentes no alinhamento dos interesses. A categoria mais mencionada foi a percepção de cumprimento meramente formal de cotas por parte de algumas empresas. Nesses casos, a contratação do jovem aprendiz era vista como uma forma de atender a exigências legais, com baixo investimento em acompanhamento e desenvolvimento profissional. Essa percepção estava frequentemente associada à ausência de supervisão estruturada e à baixa integração do jovem às equipes organizacionais, o que limita o potencial formativo do programa e o engajamento dos aprendizes, transformando uma oportunidade de desenvolvimento em uma experiência burocrática e menos enriquecedora.
Outra dimensão amplamente destacada foi a ocorrência de falhas de comunicação entre as partes interessadas. Essas falhas incluíam a ausência de feedback sistemático, a divergência de informações, a baixa articulação entre empresas e entidades qualificadoras e a dificuldade no alinhamento de expectativas. Tais aspectos foram apontados como fatores que comprometem o engajamento e a efetividade do programa, pois a falta de clareza e de canais efetivos de diálogo impede a resolução rápida de problemas e a construção de um ambiente colaborativo. A comunicação ineficaz, como ressaltam Moraes et al. (2022), pode limitar significativamente a eficácia dos resultados esperados em programas sociais.
Emergiram também relatos sobre o desinteresse ou baixo comprometimento de parte dos jovens aprendizes, frequentemente associado à falta de compreensão do propósito formativo do programa. Paralelamente, foram identificadas críticas quanto ao despreparo de supervisores e gestores para acompanhar o desenvolvimento dos jovens, o que reforça a necessidade de capacitação institucional. O desalinhamento entre teoria e prática foi outro ponto crítico, especialmente quando as atividades desenvolvidas nas empresas não dialogavam com os conteúdos formativos oferecidos pelas entidades qualificadoras. A dificuldade de conciliar trabalho e estudo também foi mencionada como um fator que impacta o desempenho e a motivação dos aprendizes.
A análise das categorias identificadas permitiu relacionar os desafios observados aos processos de Gestão das Partes Interessadas e de Comunicação descritos no Guia PMBOK (PMI, 2021). As falhas de comunicação e o desalinhamento de expectativas indicam fragilidades no planejamento e monitoramento das comunicações. A percepção de cumprimento meramente formal de cotas evidencia deficiência no planejamento do engajamento das partes interessadas, especialmente no que se refere à definição clara de papéis e responsabilidades. Já o despreparo de supervisores e o desalinhamento entre teoria e prática sugerem lacunas no gerenciamento do engajamento e no desenvolvimento das equipes envolvidas no projeto, conforme a perspectiva de Kerzner (2017) sobre a importância de práticas estruturadas.
Dessa forma, reforça-se a necessidade de aplicação estruturada de ferramentas como a matriz de stakeholders, o plano de comunicação e o plano de engajamento, visando fortalecer o alinhamento estratégico entre os atores do programa. O cumprimento meramente formal de cotas, por exemplo, leva à redução do engajamento e limitação do impacto formativo, enquanto falhas de comunicação comprometem o alinhamento institucional. O desinteresse do jovem, por sua vez, dificulta o desenvolvimento integral. O despreparo de supervisores e empresas resulta em fragilidade no desenvolvimento profissional, e o desalinhamento entre teoria e prática acarreta perda de sentido formativo e motivacional, impactando a permanência e o desempenho dos aprendizes.
A comunicação no Programa de Aprendizagem apresentou um paradoxo entre frequência e eficácia. Embora a frequência de contato com os aprendizes fosse alta, com interações diárias ou semanais, a eficácia da comunicação obteve uma média entre 3,0 e 4,0 em uma escala de 1 a 5, onde 1 era “Muito ineficaz” e 5 “Muito eficaz”. O WhatsApp consolidou-se como o canal predominante, utilizado por 85,25% dos respondentes, o que garante agilidade na troca de informações. No entanto, a informalidade dos ambientes digitais, como alertado por Castells (2003), tende a comprometer a estruturação e a clareza das mensagens, o que, segundo os relatos qualitativos, se refletiu na ausência de feedback estruturado entre os atores do programa.
O engajamento nas decisões apresentou os índices mais críticos, com avaliações concentradas entre os níveis 2 e 3 em uma escala de 1 a 5, onde 1 era “Nem um pouco” e 5 “Totalmente” engajado. Os participantes relataram não se sentirem plenamente ouvidos, sugerindo a criação de “espaços de escuta ativa”. Esses resultados confirmam as observações de Moraes et al. (2022), de que a ausência de clareza nos papéis e fluxos comunicacionais limita a efetividade de programas sociais. A falta de feedback estruturado, citada recorrentemente nas respostas abertas, fere um dos princípios básicos do desenvolvimento de equipes e partes interessadas, gerando desmotivação e desconexão entre teoria e prática, comprometendo a construção de um ambiente de confiança e colaboração.
Os resultados sugerem que a comunicação eficaz é percebida como um elemento estruturante para o sucesso do Programa de Aprendizagem. As contribuições mais recorrentes relacionaram-se ao alinhamento de expectativas entre jovens, empresas e entidades qualificadoras, à clareza na definição de papéis e responsabilidades e à compreensão do propósito do programa. O alinhamento de expectativas, por exemplo, resulta em redução de conflitos e maior coesão. O desenvolvimento do jovem, com orientação e crescimento profissional, leva a um aumento do impacto formativo. A redução de conflitos, por sua vez, melhora o clima organizacional, e o acompanhamento e feedback contínuos promovem uma evolução mais consistente do desempenho.
Os participantes destacaram que a comunicação contínua favorece o acompanhamento do desenvolvimento do jovem, possibilitando feedback periódico e identificação precoce de dificuldades. Além disso, foi frequentemente associada à redução de conflitos, à melhoria do clima organizacional e ao fortalecimento do engajamento dos aprendizes. Outro aspecto relevante refere-se à organização e eficiência operacional, uma vez que a comunicação estruturada contribui para a agilidade na resolução de demandas e para a integração entre teoria e prática. Esses achados reforçaram a importância do processo de Gerenciamento das Comunicações, conforme descrito no Guia PMBOK (PMI, 2021), especialmente no que se refere ao planejamento, monitoramento e adaptação das estratégias comunicacionais ao longo do ciclo do projeto, garantindo maior comprometimento e execução estruturada.
Apesar das falhas de gestão apontadas, a efetividade do programa no cumprimento de sua missão social foi bem avaliada, com uma média de 4,0 em uma escala de 1 a 5, onde 1 era “Muito baixo” e 5 “Muito alto”. Os respondentes reconheceram o acesso ao primeiro emprego e o desenvolvimento de competências socioemocionais como os maiores trunfos da iniciativa. Observou-se uma discrepância entre fragilidades gerenciais e a percepção positiva de impacto, indicando que o Programa de Aprendizagem possui uma resiliência institucional garantida pela legislação e pelo esforço individual das pontas (aprendizes e instrutores), validando a tese de Silva (2007) sobre a relevância estrutural dessas políticas públicas para a juventude em situação de vulnerabilidade.
Conforme discute Fischer (2002), há uma diferença estrutural entre o cumprimento formal de obrigações legais por parte das empresas e o comprometimento genuíno com o desenvolvimento humano em programas sociais. Os dados obtidos nesta pesquisa corroboram essa distinção, indicando que a efetividade do programa poderia ser ampliada caso houvesse um gerenciamento profissionalizado, capaz de transformar o cumprimento de cotas em estratégia real de inclusão. A percepção de efetividade na inclusão de jovens no mercado de trabalho foi avaliada como “Muito alto” por 34,43% dos respondentes e “Alto” por 42,62%, reforçando o potencial do programa. Os indicadores mais importantes para medir o sucesso, segundo os participantes, foram o desenvolvimento de novas habilidades (85,25%), feedback positivo dos aprendizes (75,41%) e efetivação na empresa (72,13%), destacando a importância do desenvolvimento integral e da empregabilidade.
A motivação das equipes apresentou-se elevada, com médias entre 3 e 5 em uma escala de 1 a 5, onde 1 era “Nem um pouco” e 5 “Totalmente” motivado, impulsionada fundamentalmente pelo “propósito social” (45,90% das menções) e pela “oportunidade de desenvolver pessoas” (62,30% das menções). As oportunidades de aprendizado e crescimento pessoal foram a principal razão motivacional, citada por 75,41% dos respondentes. Isso demonstra que o fator humano é o principal sustentáculo do programa, com um forte senso de missão entre os envolvidos. Essa motivação intrínseca, conforme Herzberg et al. (1959), é um poderoso motor, especialmente em contextos onde os processos organizacionais podem ser frágeis.
Entretanto, a análise crítica dos dados revela que essa motivação coexiste com a sobrecarga de trabalho e a falta de clareza de papéis. As sugestões dos participantes para “formação contínua de supervisores” e “planos de integração” alinham-se diretamente às práticas de Desempenho da Equipe do PMBOK (PMI, 2021). A confiança e a colaboração entre os membros da equipe de projeto também emergiram como pontos fortes, com 32,79% dos respondentes avaliando-a como “Muito alta” e 31,15% como “Alta”. Contudo, os dados sugerem que esses elementos dependem mais das relações interpessoais do que de processos institucionais estruturados. Essa dinâmica é coerente com o que Robbins (2010) observa sobre a prevalência de fatores motivacionais intrínsecos, como o senso de propósito e o relacionamento com colegas, quando os processos organizacionais são frágeis.
A análise das sugestões revelou que o fortalecimento da comunicação estruturada constitui o principal fator apontado para ampliação do engajamento das partes interessadas. Foram destacadas a necessidade de reuniões periódicas, feedback estruturado frequente e canais mais acessíveis de diálogo entre jovens, empresas e entidades qualificadoras. A comunicação estruturada, com canais claros e escuta ativa, é esperada para gerar maior alinhamento e transparência, enquanto o monitoramento contínuo, por meio de acompanhamento periódico e visitas, visa reduzir a evasão e os conflitos. A capacitação de lideranças, com treinamentos e mentorias, busca um desenvolvimento mais qualificado da equipe.
Também emergiram propostas relacionadas ao monitoramento contínuo do desenvolvimento dos aprendizes, capacitação de gestores e supervisores, atualização dos conteúdos formativos e maior alinhamento entre teoria e prática. Os respondentes enfatizaram ainda a importância da personalização do acompanhamento, valorização institucional do programa e criação de ambientes mais motivadores. A atualização pedagógica, com conteúdos práticos e técnicos, e a personalização do percurso, com rotação de setores e adaptação ao perfil, são propostas para aumentar o interesse e a aplicabilidade, e promover um desenvolvimento mais efetivo. A valorização institucional e os incentivos motivacionais visam fortalecer o programa e gerar maior comprometimento, respectivamente.
Os achados indicaram que o aumento do engajamento depende menos de alterações estruturais na política pública e mais do fortalecimento das práticas de comunicação, acompanhamento e desenvolvimento das partes interessadas ao longo do ciclo do programa. As sugestões apresentadas convergem diretamente com os processos de Planejar o Engajamento das Partes Interessadas, Gerenciar as Comunicações e Monitorar o Engajamento, conforme descritos no Guia PMBOK (PMI, 2021). A recorrência de demandas por maior clareza comunicacional e acompanhamento contínuo evidenciou a necessidade de formalização de planos estruturados de comunicação e engajamento no contexto do programa, transformando as boas intenções em ações concretas e sistemáticas.
A análise das respostas revelou consenso quanto ao principal impacto social do Programa de Aprendizagem: a inclusão dos jovens no mercado formal de trabalho. A maioria dos participantes destacou o programa como porta de entrada profissional, especialmente para aqueles sem experiência prévia. Além da inserção produtiva, emergiram percepções relacionadas à redução da vulnerabilidade social, por meio da geração de renda e do fortalecimento do suporte familiar. O desenvolvimento profissional, com aquisição de habilidades e experiência, e o desenvolvimento socioemocional, com autonomia, disciplina e responsabilidade, foram amplamente mencionados. Esses impactos contribuem para a formação cidadã e a transformação de vida, com perspectiva de futuro e ascensão social, caracterizando um impacto estrutural.
Observou-se ainda que o programa contribui para a ampliação das perspectivas de futuro dos jovens participantes. Sposito (2005) e Novaes (2006) destacam que políticas públicas voltadas à juventude exercem papel central não apenas na inserção produtiva, mas na construção de trajetórias de mobilidade ascendente e transformação social, percepção amplamente confirmada pelos respondentes desta pesquisa. Tais achados reforçam a compreensão do Programa de Aprendizagem não apenas como política de empregabilidade, mas como mecanismo estruturante de inclusão e desenvolvimento juvenil, capaz de gerar benefícios de longo prazo para os indivíduos e a sociedade.
De acordo com a análise das respostas, sugere-se que os principais desafios na implementação do Programa de Aprendizagem estão relacionados menos ao desenho normativo da política pública e mais à forma como os atores envolvidos conduzem sua operacionalização. Destacaram-se, de forma recorrente, a contratação meramente formal para cumprimento de cotas legais, o desalinhamento entre teoria e prática, falhas de comunicação e o despreparo de empresas e supervisores para exercer papel formativo. O cumprimento formal de cotas, por exemplo, resulta em redução do impacto social, enquanto o desalinhamento teoria-prática gera desmotivação. Falhas de comunicação causam conflitos e ruídos, e o baixo engajamento juvenil leva à perda de efetividade.
Também foram mencionadas dificuldades estruturais, barreiras de acesso e exigência de experiência prévia, o que contraria o propósito inclusivo do programa. O despreparo empresarial, com supervisão inadequada, limita o desenvolvimento dos aprendizes. Dificuldades estruturais, como problemas logísticos e de infraestrutura, criam barreiras operacionais. A vulnerabilidade social, com falta de oportunidades reais, reforça desigualdades, e a exigência de experiência prévia contradiz o objetivo do programa, resultando em exclusão indireta. Observa-se ainda que desafios comportamentais e motivacionais dos jovens aparecem como consequência de fragilidades na gestão, acompanhamento e integração entre as partes interessadas, indicando que a maximização dos objetivos sociais do programa depende diretamente da qualidade do gerenciamento das partes interessadas e das comunicações ao longo do ciclo do projeto.
A análise das respostas evidenciou que o fortalecimento do desempenho da equipe depende prioritariamente da consolidação de uma comunicação estruturada e integrada entre os envolvidos. Foram amplamente mencionados a necessidade de canais claros de diálogo, feedback estruturado constantes e alinhamento de expectativas. A comunicação estruturada, com canais claros e escuta ativa, tem como impacto esperado um melhor alinhamento e menos conflitos. A capacitação contínua, por meio de treinamentos técnicos e comportamentais, visa uma maior qualificação da equipe, enquanto o reconhecimento, com valorização e incentivos, busca aumentar a motivação dos participantes. Um ambiente colaborativo, com segurança psicológica e integração, é esperado para gerar confiança e cooperação.
Também se destacaram propostas relacionadas à capacitação contínua da equipe, reconhecimento profissional, melhoria do ambiente colaborativo e clareza na definição de metas e responsabilidades. Além disso, surgiram apontamentos sobre atualização dos materiais pedagógicos e redução da sobrecarga de trabalho, indicando preocupação com a sustentabilidade operacional do programa. O planejamento e metas, com definição clara de objetivos, promovem um direcionamento estratégico. A atualização de materiais, com conteúdo mais atrativo e atual, busca maior engajamento dos jovens, e a redução de sobrecarga, com melhor distribuição de tarefas, visa a sustentabilidade operacional. Diante dos resultados obtidos, indica-se que o desempenho da equipe está diretamente associado à qualidade da gestão interna, especialmente no que se refere à comunicação, desenvolvimento de competências e valorização dos profissionais envolvidos.
As propostas apresentadas convergem com os processos de Desenvolver a Equipe, Gerenciar as Comunicações e Gerenciar o Engajamento das Partes Interessadas, conforme descritos no Guia PMBOK (PMI, 2021). A recorrência de sugestões relacionadas à capacitação, feedback estruturado e clareza de metas evidencia a necessidade de formalização de práticas estruturadas de desenvolvimento e acompanhamento das equipes envolvidas no programa. Essa formalização é crucial para transformar a motivação intrínseca, já presente nas equipes, em resultados mais consistentes e sustentáveis, garantindo que o potencial humano seja plenamente aproveitado e direcionado para os objetivos sociais do Programa de Aprendizagem.
A triangulação entre os dados quantitativos, os relatos qualitativos e a teoria permitiu identificar que o principal desafio do Programa não reside em seu desenho legal, mas na execução gerencial nas pontas, envolvendo empresas e entidades. A discrepância entre a alta motivação pelo propósito e o baixo alinhamento operacional confirma a hipótese de que a gestão de partes interessadas é um fator crítico de sucesso negligenciado. Como limitações do estudo, destaca-se a amostragem por conveniência concentrada em São Paulo, o que impede a generalização dos resultados para contextos rurais ou outras regiões do país. Além disso, a participação proporcionalmente menor de gestores de empresas contratantes pode ter enviesado os resultados para a visão das entidades formadoras e dos aprendizes.
Por outro lado, a abordagem mista permitiu captar nuances que um questionário puramente quantitativo não revelaria, cumprindo o propósito de investigar fenômenos sociais complexos (Godoy, 1995). Os resultados indicam que, embora o Programa de Aprendizagem seja amplamente reconhecido por sua relevância social e impacto positivo na inclusão de jovens, sua efetividade é comprometida por fragilidades na comunicação e no engajamento das partes interessadas. A ausência de feedback estruturado, o despreparo das lideranças e o cumprimento meramente burocrático de cotas limitam o alinhamento entre teoria e prática, impedindo que o programa alcance seu potencial máximo de transformação social e desenvolvimento integral dos jovens.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar o papel do engajamento da equipe de projeto na dinâmica de comunicação, motivação e colaboração entre as partes interessadas do Programa de Aprendizagem, identificando fatores críticos que influenciaram a eficácia das entregas e a ampliação do impacto social dessa política pública. Verificou-se que, embora o programa seja amplamente reconhecido por sua relevância social e impacto positivo na inclusão de jovens, sua efetividade é comprometida por fragilidades na comunicação e no engajamento das partes interessadas. Identificou-se a ausência de feedback estruturado, o despreparo das lideranças e o cumprimento meramente burocrático de cotas como fatores que limitam o alinhamento entre teoria e prática. A motivação das equipes, impulsionada pelo propósito social e pela oportunidade de desenvolver pessoas, coexistia com a sobrecarga de trabalho e a falta de clareza de papéis. A comunicação, embora frequente, apresentou eficácia média e o engajamento nas decisões foi percebido como crítico, com participantes relatando não se sentirem plenamente ouvidos. A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração de que a gestão eficaz das partes interessadas, por meio da adoção de boas práticas de gerenciamento de projetos como o mapeamento de stakeholders e o planejamento da comunicação e engajamento, é um fator crítico para transformar o cumprimento de cotas em uma estratégia real de inclusão e potencializar o impacto social do programa, orientando entidades qualificadoras e empresas contratantes na estruturação de planos mais efetivos.
Como limitações do estudo, destacou-se a amostragem por conveniência concentrada em São Paulo, o que restringe a generalização dos resultados para outros contextos regionais ou rurais. A participação proporcionalmente menor de gestores de empresas contratantes também pode ter enviesado as percepções para a visão das entidades formadoras e dos aprendizes. Para estudos futuros, recomenda-se a ampliação da pesquisa para incluir maior diversidade geográfica e uma participação mais expressiva de empresas contratantes, bem como a avaliação prática das estratégias de melhoria propostas. Sugere-se, ainda, a incorporação de abordagens mais exploratórias, com questões abertas que permitam identificar novas dimensões de análise e aprofundar a compreensão dos desafios e potencialidades do programa sob a perspectiva dos diferentes atores envolvidos. Este trabalho contribui academicamente ao apontar a necessidade de ampliar a produção científica sobre gestão de projetos sociais no contexto brasileiro, articulando políticas públicas de juventude e boas práticas de gerenciamento, campo ainda pouco explorado na literatura nacional.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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