10 de agosto de 2026
Gestão de cronograma em projetos de edificações com BIM: boas práticas com base no Guia PMBOK
Amanda Bispo Limone Nunes; Maria Júlia Xavier Belém
DOI: 10.22167/2675-6528-202600531
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A Modelagem da Informação da Construção (BIM) consolidou-se no setor da construção civil como uma abordagem integrada para otimização de prazos e mitigação de riscos. O objetivo foi aplicar o gerenciamento do cronograma em um projeto de reforma de edificações desenvolvido com a metodologia BIM, com base nas boas práticas do Guia Project Management Body of Knowledge (PMBOK). A pesquisa, de caráter descritivo e quali-quantitativo, analisou o cronograma original de um projeto de reforma de edificação corporativa e laboratorial que empregou BIM, e realizou entrevistas semiestruturadas com três profissionais da equipe de Arquitetura. Utilizou-se análise documental, incluindo registros de revisões e comparação entre cronogramas planejado e realizado, e aplicou-se o método Delphi simplificado e a Estimativa de Três Pontos (PERT) para estimar durações. Os resultados revelaram atrasos significativos nas atividades do projeto, associados a falhas no sequenciamento, ausência de ciclos iterativos explícitos, baixa participação dos profissionais no planejamento e lacunas nos levantamentos arquitetônicos iniciais. O Índice de Desempenho de Prazo (IDP) de 0,54 evidenciou desempenho inferior ao planejado. Como principal contribuição, propôs-se um cronograma estruturado, com melhor definição de dependências, incorporação de ciclos de revisão e estimativas fundamentadas na opinião de especialistas, visando maior previsibilidade e eficiência no gerenciamento de cronogramas em projetos BIM.
Palavras-chave: Estimativa de durações; Modelagem da Informação da Construção; Monitoramento e controle; Planejamento do cronograma.
1. Introdução
A tecnologia Building Information Modeling (BIM), ou Modelagem da Informação da Construção, tem se consolidado de forma expressiva no setor da construção civil nas últimas décadas. Essa abordagem representa um avanço significativo, caracterizando-se por fluxos de informação integrados e um ambiente de trabalho colaborativo. A sua adoção visa primordialmente à otimização de prazos, bem como à mitigação de erros e riscos inerentes aos projetos de edificações (Morais et al., 2022).
No Brasil, a implementação do BIM tem sido impulsionada por iniciativas institucionais relevantes. A Estratégia Nacional de Disseminação do BIM e o Decreto nº 10.306, de dois de abril de 2020, que estabeleceu a obrigatoriedade do uso da tecnologia em obras e serviços de engenharia da administração pública federal, são exemplos claros desse movimento. Tais medidas refletem um reconhecimento crescente do potencial do BIM para modernizar e aprimorar a indústria da construção nacional.
A construção civil é um setor intrinsecamente complexo, marcado por um grande volume de recursos e uma vasta interdependência entre as diversas disciplinas envolvidas. Nesse cenário, a ocorrência de falhas na compatibilização de projetos, a necessidade de retrabalhos e as dificuldades de comunicação entre as equipes são fatores que impactam diretamente os prazos e os custos dos empreendimentos. O BIM surge, então, como uma resposta tecnológica capaz de integrar informações e reduzir incertezas ao longo de todo o ciclo de vida do projeto (Morais et al., 2022).
Ao centralizar as informações do empreendimento em um modelo digital, o BIM facilita a coordenação entre as equipes e permite a identificação antecipada de conflitos, contribuindo para uma maior previsibilidade no desenvolvimento dos projetos (Liu et al., 2015; Vamondes, 2021). Contudo, a efetividade desses benefícios está diretamente ligada ao nível de maturidade organizacional e à adoção de práticas de gerenciamento estruturadas. A ausência de processos formalizados, de rotinas de validação e de uma previsão adequada dos ciclos de revisão pode comprometer os ganhos potenciais do BIM, resultando em retrabalhos, falhas de comunicação e impactos negativos no cronograma.
Dados do Mapeamento da Maturidade BIM (2022) indicam que 59% das organizações brasileiras ainda se encontram em níveis iniciais de maturidade na adoção do BIM, e apenas 12% afirmam possuir procedimentos formalizados e acessíveis aos seus colaboradores. Embora 70% das empresas demonstrem intenção de expandir o uso da tecnologia nos próximos anos, esses números revelam que grande parte do setor ainda opera com processos pouco estruturados e uma integração limitada entre disciplinas. Em contextos como este, a falta de rotinas consolidadas para planejamento, validação e controle afeta o desempenho do cronograma, especialmente em projetos que envolvem ciclos recorrentes de revisão, como é comum em obras de reforma.
A integração entre a tecnologia BIM e práticas estruturadas de planejamento tem sido consistentemente associada à melhoria do desempenho do cronograma. Jiquiriçá (2024) evidenciou que o uso de softwares baseados em BIM otimiza a organização das informações e o tempo na fase de planejamento, favorecendo a gestão do projeto. Além disso, o BIM 4D, que incorpora a dimensão do tempo ao modelo tridimensional, facilita a visualização da sequência das atividades e a identificação precoce de conflitos (Vamondes, 2021). Essas abordagens, que integram modelos BIM com técnicas de otimização para alinhar cronogramas aos recursos disponíveis (Liu et al., 2015), convergem com as recomendações do Guia Project Management Body of Knowledge (PMBOK), que ressalta a importância de práticas estruturadas de planejamento e controle para garantir o desempenho temporal dos projetos (Project Management Institute [PMI], 2017).
Apesar dos avanços conceituais e tecnológicos, a aplicação prática do gerenciamento do cronograma em projetos desenvolvidos com BIM, especialmente em obras de reforma, ainda enfrenta desafios no contexto organizacional. A literatura reconhece os benefícios da modelagem digital, mas as dificuldades relacionadas à coordenação entre disciplinas, à incorporação de ciclos de revisão e à formalização de práticas de controle em ambientes reais de projeto são aspectos menos explorados. Nesse cenário, o presente trabalho analisa um caso específico de uma empresa do setor da construção civil que realizou a reforma de um edifício corporativo e laboratorial, onde foram identificados atrasos no cronograma, ampliação de ciclos de revisão e dificuldades de integração entre equipes, evidenciando fragilidades nos processos de planejamento e controle que comprometeram os prazos estabelecidos. Diante dessa problemática, o objetivo deste trabalho é aplicar o gerenciamento do cronograma para um projeto de edificações desenvolvido com a metodologia BIM, a partir das boas práticas recomendadas pelo Guia PMBOK.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como descritiva, com abordagem quali-quantitativa, conforme as diretrizes de Gil (2017). O fenômeno investigado concentrou-se no gerenciamento do cronograma de um projeto de reforma de edificação desenvolvido com a metodologia Building Information Modeling (BIM). A unidade de análise correspondeu ao processo de planejamento e controle do cronograma, especificamente associado às atividades da disciplina de Arquitetura nesse projeto.
Para o delineamento da pesquisa, empregou-se a estratégia de estudo de caso, que permitiu o exame aprofundado de um objeto em seu contexto real, conforme preconizado por Gil (2017). O estudo foi conduzido em uma organização do ramo de engenharia consultiva, localizada no município do Rio de Janeiro, onde a equipe do projeto atuava.
O recorte temporal da pesquisa abrangeu o período de janeiro a novembro de 2025, com foco na identificação e análise das práticas de planejamento e controle do cronograma. O objeto de estudo consistiu no gerenciamento do cronograma de um projeto de reforma de um edifício corporativo e laboratorial, que utilizou a tecnologia BIM.
A coleta de dados ocorreu por meio de análise documental e entrevistas semiestruturadas. Na análise documental, foram examinados o cronograma original do projeto e os registros de revisões disponíveis no sistema de gerenciamento eletrônico de documentos (GED). As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com três profissionais da equipe de Arquitetura: um líder e dois analistas.
Os participantes foram selecionados intencionalmente, considerando sua atuação direta nas atividades de planejamento e desenvolvimento do projeto, além de seu conhecimento sobre os processos de revisão e coordenação. O roteiro de perguntas utilizado nas entrevistas encontra-se detalhado no Apêndice 1 do trabalho original.
O estudo seguiu as etapas de gerenciamento do cronograma, conforme as boas práticas do Guia Project Management Body of Knowledge (PMBOK) (PMI, 2017). Essas etapas incluíram o planejamento do gerenciamento do cronograma, a definição e o sequenciamento das atividades, a estimação de suas durações, o desenvolvimento do cronograma e, por fim, o controle do cronograma.
Na etapa de planejamento do cronograma, foram adotadas as boas práticas do Guia PMBOK (PMI, 2017), com o auxílio de planilhas eletrônicas (Excel) e do software MS Project. Documentos do projeto, como o cronograma fornecido pela empresa e registros do GED, foram analisados para compreender a estrutura de desenvolvimento das atividades.
Para a definição das atividades, utilizou-se a documentação interna do projeto, incluindo o escopo, os entregáveis da Arquitetura, o cronograma base e a Estrutura Analítica do Projeto (EAP) original. As entrevistas semiestruturadas complementaram essa etapa, fornecendo informações sobre o planejamento e desenvolvimento do projeto.
O sequenciamento das atividades foi estruturado com base no Método do Diagrama de Precedência (MDP), que permitiu identificar as relações de dependência e incorporar ciclos iterativos, especialmente nas fases de projeto conceitual e de revisão. As informações para essa etapa foram obtidas da análise documental e das entrevistas, visando aprimorar a sequência originalmente planejada.
A estimação das durações das atividades foi realizada por meio de um procedimento que combinou a opinião especializada dos três profissionais entrevistados com a técnica de Estimativa de Três Pontos (PERT). Inicialmente, cada participante estimou individualmente as durações. Em seguida, realizou-se uma reunião para alinhar as estimativas, adaptando o método Delphi (Santos, 2018).
A duração estimada (tE) foi calculada utilizando a fórmula tE = (tO + 4tM + tP) / 6, onde tO representou o tempo otimista, tM o tempo mais provável e tP o tempo pessimista. Essa abordagem visou incorporar diferentes cenários de duração, aumentando a precisão das estimativas para o cronograma proposto.
Na etapa de monitoramento e controle, analisaram-se as metodologias e estratégias aplicadas no projeto, com base nos registros documentais e nos relatos da equipe. Foram considerados indicadores de desempenho relacionados ao controle de prazos, como a comparação entre durações planejadas e realizadas, e a análise da quantidade de revisões dos pacotes de entrega.
3. Resultados e Discussão
A análise do projeto de reforma de edificação corporativa e laboratorial, desenvolvido com a metodologia Building Information Modeling (BIM), revelou uma série de desafios no gerenciamento do cronograma, que culminaram em atrasos significativos e na necessidade de revisões contínuas. O contexto de intervenção em uma edificação existente, somado à complexidade técnica dos ambientes laboratoriais, demandou um alto nível de especialização e coordenação entre as disciplinas, tornando o planejamento e controle do cronograma elementos cruciais para o sucesso do empreendimento. Os achados iniciais indicam que o planejamento original não absorveu adequadamente as incertezas inerentes a esse tipo de projeto, conforme já apontado por Melhado et al. (2005).
Caracterização do Projeto Analisado
O projeto analisado, de alta complexidade técnica, envolveu ambientes laboratoriais com requisitos rigorosos de controle térmico e isolamento, exigindo intensa coordenação interdisciplinar. O material de apoio fornecido pelo cliente no início do projeto, que consistia em um projeto arquitetônico existente, não correspondia a um levantamento “as built” completo, o que gerou lacunas de informação. Essa deficiência inicial impôs a necessidade de visitas técnicas complementares e ajustes, atividades essenciais que, no entanto, não estavam formalmente previstas no cronograma original, evidenciando uma falha na identificação das atividades durante a fase de planejamento.
A análise dos pacotes de entrega da disciplina de Arquitetura revelou desvios consideráveis entre as durações planejadas e as efetivamente realizadas. O Pacote 04, que abrangia os workshops e o relatório consolidado, teve uma duração planejada de 67 dias, mas a duração real foi de 138 dias, representando um atraso de 71 dias, ou 106%. Esse desvio foi atribuído à necessidade de levantamentos arquitetônicos complementares, decorrentes da inadequação do material inicial fornecido pelo cliente, o que exigiu visitas técnicas adicionais e revisões.
Outros pacotes também apresentaram atrasos expressivos. O Pacote 07, referente ao modelo disciplinar BIM de arquitetura, teve um atraso de 77 dias (57%), passando de 134 para 211 dias. Esse desvio foi causado pela dependência de informações do cliente, como a lista de equipamentos laboratoriais, e pela identificação tardia de interferências entre disciplinas, que exigiram sucessivas revisões do modelo arquitetônico. O Pacote 08, de consolidação e compatibilização dos modelos BIM, registrou um dos maiores desvios, com um atraso de 29 dias (725%), passando de 4 para 33 dias, indicando que o tempo previsto para essa etapa foi claramente insuficiente.
O Pacote 09, de documentação de engenharia, atrasou 62 dias (42%), de 149 para 211 dias, devido à consolidação incompleta do modelo do edifício no início da elaboração da documentação, o que demandou novas revisões. O Pacote 10, de extração da documentação do modelo BIM, apresentou o maior atraso percentual, com 155 dias de desvio (517%), passando de 30 para 185 dias. Esse resultado está associado ao tempo reduzido previsto inicialmente para a produção gráfica e à concentração dessa atividade na fase de projeto básico, amplificando a duração da etapa.
A análise do desempenho do cronograma, utilizando o Índice de Desempenho de Prazo (IDP), revelou um valor de 0,54. Esse indicador, calculado pela razão entre o tempo planejado acumulado (464 dias) e o tempo realizado acumulado (858 dias), demonstra um desempenho significativamente inferior ao planejado. Um IDP abaixo de 1,0 indica que o projeto demandou mais tempo do que o previsto, confirmando os atrasos observados nos pacotes individuais e reforçando a influência de fatores como revisões sucessivas, retrabalho e inadequação do sequenciamento das atividades no desempenho geral do cronograma.
A ocorrência de múltiplas revisões em diversos pacotes, conforme os registros do sistema de gestão documental, evidenciou um processo iterativo mais intenso do que o inicialmente previsto. Embora houvesse uma equipe dedicada à coordenação BIM, o nível de maturidade da equipe no uso do ambiente colaborativo e na coordenação simultânea entre disciplinas mostrou-se limitado. As entrevistas com os profissionais de Arquitetura corroboraram que as ferramentas de colaboração BIM não foram plenamente utilizadas, resultando na identificação tardia de interferências e na necessidade de alterações em etapas posteriores do projeto, impactando a duração das atividades.
A análise dos dados também indicou períodos de alta concentração de entregas e reemissões, caracterizando picos de produção no período intermediário do projeto. Essa concentração esteve ligada à intensificação das atividades de compatibilização e à identificação de interferências entre sistemas arquitetônicos, estruturais e de instalações, o que gerou revisões sequenciais e ampliou as durações de alguns pacotes. Fatores como a espera por definições do cliente, lacunas nos levantamentos iniciais, alterações frequentes de escopo e a complexidade dos ambientes laboratoriais tornaram o cronograma altamente sensível a atrasos, conforme a literatura sobre projetos complexos e interdependentes.
Planejamento do Cronograma do projeto
O planejamento original do cronograma foi estruturado predominantemente por pacotes de entrega organizados por disciplina e fase, privilegiando marcos documentais em detrimento de um detalhamento adequado para o sequenciamento das atividades. Essa abordagem resultou em um fluxo de trabalho pouco estruturado, com antecipação de entregas em relação à maturidade das etapas anteriores, comprometendo a lógica de desenvolvimento do projeto. Tal característica é comum em modelos de planejamento de natureza preditiva, que não se adequam totalmente à dinâmica de projetos de reforma com BIM, que exigem maior flexibilidade e iteração.
Uma lacuna significativa no planejamento inicial foi a ausência de consideração explícita para os tempos de espera, tanto para a disponibilização de informações e definições técnicas por parte do cliente, quanto para a espera entre disciplinas. Essa omissão reduziu a capacidade do cronograma de absorver incertezas, contribuindo para a necessidade de reprogramações sucessivas, conforme evidenciado pela comparação entre o cronograma previsto e o realizado. Embora o projeto tivesse características híbridas, combinando elementos preditivos e iterativos, o desempenho observado apontou para a necessidade de aprimoramento nas práticas de planejamento e controle de prazos.
Adicionalmente, o planejamento inicial partiu da premissa de estabilidade do escopo após a fase de workshops, sem estabelecer critérios formais para o controle de mudanças. Essa premissa mostrou-se incompatível com a dinâmica real do projeto, que foi marcada por ajustes sucessivos decorrentes de necessidades técnicas, compatibilizações interdisciplinares e solicitações do cliente. A falta de um plano robusto para gerenciar essas mudanças contribuiu para os desvios observados no cronograma, reforçando a importância de práticas de gerenciamento de projetos mais adaptativas, como as recomendadas pelo Guia PMBOK (PMI, 2017).
Definição das atividades do projeto
Para otimizar a visualização e a condução do projeto, foi elaborado um plano de gerenciamento do cronograma, estruturado com base nas diretrizes do Guia PMBOK. Esse plano descreve o gerenciamento do cronograma para projetos de reforma de edifícios corporativos/laboratoriais desenvolvidos com BIM, seguindo etapas como Planejar o Gerenciamento do Cronograma, Definir as Atividades, Sequenciar as Atividades, Estimar as Durações, Desenvolver o Cronograma e Controlar o Cronograma. Ferramentas e técnicas como análise de dados, opinião especializada, método do diagrama de precedência e estimativa de três pontos foram incorporadas.
A Estrutura Analítica do Projeto (EAP) proposta, que detalha as atividades em pacotes de trabalho, foi fundamental para organizar o escopo e os entregáveis da disciplina de Arquitetura. Essa EAP incluiu atividades como Análise do material de apoio do cliente, Planejamento das visitas técnicas, Levantamentos arquitetônicos complementares e Consolidação das informações existentes, que anteriormente não estavam formalmente estruturadas. A decomposição do trabalho em níveis menores e gerenciáveis, conforme recomendado pelas boas práticas de gerenciamento de projetos, permitiu uma representação mais clara das atividades e suas interdependências, facilitando o planejamento e o controle.
Sequenciamento das Atividades do projeto
O sequenciamento das atividades foi estruturado com base no Método do Diagrama de Precedência (MDP), considerando as dependências técnicas e informacionais entre disciplinas, bem como os pontos de validação com o cliente. O fluxo do diagrama proposto é predominantemente linear, com algumas ramificações pontuais para atividades paralelas. Essa estrutura visa aprimorar o sequenciamento, evitando sobreposições inadequadas e o início antecipado de atividades dependentes de informações ainda não consolidadas, o que foi uma fragilidade identificada no planejamento original.
A predominância de relações sequenciais é observada nas etapas de desenvolvimento do conceito arquitetônico, do projeto arquitetônico básico e da consolidação do projeto básico. Essa organização reflete a necessidade de uma maturação progressiva das soluções antes de avançar para as fases subsequentes, contribuindo para maior consistência das entregas e redução de retrabalhos. Além disso, a incorporação explícita de ciclos iterativos nas etapas de revisão e validação com o cliente, como as atividades de apresentação e revisão de layout, reflete a dinâmica colaborativa do projeto em ambiente BIM e busca aumentar a previsibilidade do cronograma, mitigando impactos de revisões não planejadas.
O encadeamento contínuo das atividades principais no fluxo proposto evidencia uma sequência estruturante do projeto, onde determinadas etapas exercem maior influência sobre o prazo global. A identificação do caminho crítico, composto por atividades como o desenvolvimento do conceito arquitetônico, o desenvolvimento do projeto arquitetônico e a consolidação do projeto básico, é crucial. Essas atividades, com suas relações predominantemente sequenciais e dependências concentradas, são determinantes para a duração total do projeto, subsidiando o planejamento e o controle do cronograma nas etapas subsequentes e permitindo a alocação estratégica de recursos.
Estimativa das Durações das Atividades
As durações das atividades foram estimadas com base na opinião de três especialistas entrevistados (líder e dois analistas), utilizando uma adaptação simplificada do método Delphi para obter as estimativas otimista (tO), mais provável (tM) e pessimista (tP). A partir desses dados, aplicou-se a técnica de Estimativa de Três Pontos (PERT), calculando a duração estimada (tE) para cada atividade, o que permitiu incorporar as incertezas inerentes ao desenvolvimento de projetos de alta complexidade técnica e aumentar a precisão das estimativas.
A análise das estimativas revelou diferentes níveis de incerteza entre as atividades. Atividades como o desenvolvimento do conceito arquitetônico (40,2 dias), o desenvolvimento do projeto arquitetônico (32,3 dias) e a consolidação do projeto básico (29,3 dias) apresentaram maior variação entre os cenários otimista, mais provável e pessimista. Essa variabilidade indica um maior grau de incerteza associado à sua execução, e essas atividades, por terem durações mais elevadas, configuram-se como potencialmente críticas para o prazo total do projeto.
Por outro lado, atividades relacionadas à submissão e aprovação do cliente, como a submissão para análise do cliente (1,0 dia) e a aprovação final (12,8 dias), apresentaram menor variação, indicando maior previsibilidade de duração. Contudo, mesmo com baixa variabilidade, essas atividades podem impactar o cronograma devido à dependência de fatores externos, como o tempo de resposta do cliente. A presença de ciclos iterativos nas atividades de apresentação e revisão de layout, que refletem a dinâmica colaborativa e a necessidade de validação contínua, introduz variabilidade adicional e reforça a importância de sua incorporação explícita no planejamento do cronograma.
Desenvolvimento do Cronograma Proposto
Com base na definição das atividades, no sequenciamento e nas estimativas de duração, foi desenvolvido um cronograma proposto que busca distribuir as entregas de forma mais equilibrada ao longo do tempo, reduzindo a concentração de atividades em períodos específicos e aumentando a previsibilidade do desenvolvimento, especialmente nas fases finais. A comparação com o planejamento original do projeto indica uma redução na duração total, com término antecipado em aproximadamente dois meses. Essa diferença é atribuída à delimitação do escopo às atividades da Arquitetura e à reestruturação do sequenciamento, com a introdução de paralelismo e maior detalhamento das etapas intermediárias.
Em termos estruturais, o cronograma proposto manteve a mesma quantidade de pacotes de trabalho do planejamento original, totalizando seis pacotes, mas com reformulações significativas em seu conteúdo e organização. As atividades de levantamentos arquitetônicos e modelagem da edificação existente, que antes não eram formalizadas, passaram a compor o primeiro pacote, representando melhor as atividades iniciais do projeto. O pacote de demolição foi excluído, pois sua execução inicial mostrou-se incompatível com o baixo nível de maturidade do projeto, resultando em múltiplas revisões.
Além disso, um pacote específico de revisões e validações foi incorporado para representar explicitamente os ciclos iterativos observados no projeto real. Os demais pacotes foram reestruturados com base na opinião dos especialistas, visando posicionar as atividades em momentos mais adequados do fluxo de desenvolvimento, com o objetivo de reduzir retrabalho e minimizar a ocorrência de revisões sucessivas. Por exemplo, a elaboração de memoriais descritivos e documentação foi reposicionada para etapas finais do projeto, considerando que sua consolidação e emissão demandam maior estabilidade das definições projetuais, evitando impactos negativos no fluxo de trabalho.
Essa reestruturação do cronograma está alinhada à lógica de desenvolvimento de projetos em BIM, onde diferentes disciplinas e etapas evoluem de forma simultânea e iterativa. A introdução de paralelismo entre atividades e a explicitação de ciclos de revisão refletem a dinâmica colaborativa e incremental característica desse tipo de processo, contribuindo para maior eficiência no fluxo de trabalho. Embora o estudo não tenha focado no monitoramento e controle em tempo real, a proposição permite discutir, retrospectivamente, estratégias de acompanhamento, como a adoção de indicadores de desempenho alinhados ao Guia PMBOK, que são fundamentais para aumentar a previsibilidade e a capacidade de resposta do cronograma frente a desvios.
Em síntese, a pesquisa evidenciou que os atrasos no cronograma do projeto de reforma com BIM foram predominantemente causados por fragilidades no planejamento inicial, especialmente na definição do sequenciamento, na ausência de ciclos iterativos explícitos e na coordenação interdisciplinar. A baixa participação dos profissionais no planejamento e as lacunas nos levantamentos arquitetônicos iniciais agravaram a situação, resultando em um Índice de Desempenho de Prazo de 0,54. A proposta de um cronograma reestruturado, com melhor definição de dependências, incorporação de ciclos de revisão e estimativas baseadas na opinião de especialistas, demonstrou potencial para aumentar a previsibilidade e a eficiência, respondendo ao objetivo de aplicar o gerenciamento do cronograma com base nas boas práticas do Guia PMBOK.
4. Conclusão
O presente trabalho buscou aplicar o gerenciamento do cronograma em um projeto de reforma de edificações desenvolvido com a metodologia Building Information Modeling (BIM), fundamentando-se nas boas práticas do Guia Project Management Body of Knowledge (PMBOK). Verificou-se que o projeto analisado enfrentou atrasos significativos, evidenciados por um Índice de Desempenho de Prazo (IDP) de 0,54, que indicou um desempenho temporal inferior ao planejado. Identificou-se que tais desvios decorreram de fragilidades no planejamento inicial, como falhas no sequenciamento das atividades, a ausência de ciclos iterativos explícitos para revisões, a baixa participação dos profissionais no processo de planejamento e lacunas nos levantamentos arquitetônicos preliminares. A principal contribuição do estudo reside na proposição de um cronograma reestruturado, que incorpora uma melhor definição de dependências, a explicitação de ciclos de revisão e estimativas de duração baseadas na opinião de especialistas, visando aumentar a previsibilidade e a eficiência no gerenciamento de cronogramas em projetos BIM.
Como limitações do estudo, destaca-se o uso predominante de registros internos e relatórios técnicos, o que restringiu a análise às informações formalmente documentadas. Além disso, a pesquisa baseou-se em um único estudo de caso, o que limita a generalização dos resultados para outros contextos. Contudo, a análise aprofundada de um projeto real permitiu uma compreensão prática dos desafios e oportunidades. Para estudos futuros, sugere-se investigar a aplicação e o monitoramento em tempo real do cronograma proposto, bem como aprofundar a análise sobre a influência da maturidade da equipe no uso de ferramentas BIM e na coordenação interdisciplinar para aprimorar a gestão de prazos. A integração de indicadores de desempenho e processos sistemáticos de acompanhamento e replanejamento é fundamental para aprimorar a capacidade de resposta do cronograma frente a desvios.
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Vamondes, A.G. 2021. Análise do BIM 4D em processo de planejamento e controle: estudo de caso. Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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