Artigo

23 de julho de 2026

Gestão da Qualidade em projetos educacionais: o caso do IBI no Campus

Carolline Cardoso de Mello; Marcos Antonio Maia Lavio de Oliveira

DOI: 10.22167/2675-6528-202600656

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A gestão da qualidade em projetos educacionais do terceiro setor é crucial para o aprimoramento contínuo das iniciativas. O presente estudo teve como objetivo desenvolver um framework de avaliação de qualidade aplicado ao programa IBI no Campus, uma iniciativa acadêmica do Instituto Brasil-Israel (IBI). A pesquisa adotou uma abordagem mista, exploratória e descritiva, configurada como estudo de caso único. Os procedimentos de investigação incluíram pesquisa bibliográfica, análise documental, aplicação de questionários e vivências do pesquisador. Os resultados evidenciaram que, apesar da alta satisfação percebida pelos participantes, o modelo avaliativo existente apresentava limitações, especialmente pela centralidade em instrumentos finais e pela ausência de registros sistemáticos de acompanhamento. Com base nesses achados, construiu-se um framework de avaliação da qualidade, organizado em quatro dimensões analíticas – gestão, conteúdo, experiência e impacto – e articulado a momentos avaliativos iniciais, processuais, finais e de desdobramentos. O modelo proposto permite uma leitura contínua e mais abrangente da qualidade, contribuindo para o aprimoramento do IBI no Campus e para a formulação de estratégias replicáveis em outras iniciativas educacionais da instituição.

Palavras-chave: Avaliação de qualidade; Iniciativas educacionais; Programa IBI; Terceiro setor.

1. Introdução

Os projetos consolidaram-se como uma das maneiras mais eficazes de organizar o trabalho em organizações de diversas naturezas. Independentemente da área, escopo ou objetivo, os projetos geralmente seguem uma estrutura lógica comum, fundamentada em boas práticas de gestão. O Guia PMBOK (Project Management Body of Knowledge), desenvolvido pelo Project Management Institute (PMI), é uma referência universalmente difundida que visa amparar projetos com um padrão de excelência (PMI, 2017).

No contexto do terceiro setor, a aplicação dessas práticas de gerenciamento de projetos encontra particularidades. As organizações da sociedade civil (OSCs) são caracterizadas por recursos humanos voluntários, uma missão voltada ao desenvolvimento social e uma atuação sem finalidade lucrativa. Elas desempenham um papel crucial na promoção de iniciativas sociais, culturais e educacionais, preenchendo lacunas que o Estado e o setor privado não conseguem atender integralmente (Salamon, 1998).

Algumas OSCs, como o Instituto Brasil-Israel (IBI), apresentam especificidades adicionais, atuando de forma complexa e multifacetada. Sua dependência de financiamento externo limitado e a colaboração de múltiplos stakeholders, ou seja, públicos interessados na organização, complexificam a gestão. O IBI é um agente de mudança que promove o diálogo e a conexão entre diversas vozes da sociedade civil e a comunidade judaica, organizando suas ações em frentes comunitárias, culturais, educativas e de comunicação.

Entre as iniciativas educacionais do IBI, destaca-se o programa IBI no Campus, seu braço acadêmico. Desde 2020, este programa acolhe e subsidia estudantes e pesquisadores por meio de atividades como laboratórios e grupos de pesquisa, cursos, simpósios, publicações e apoios financeiros. Trata-se de um projeto nacional, online e gratuito, que promove estudo, pesquisa e reflexão sobre temas diversos, contando com a participação de professores, estudantes e pesquisadores de universidades brasileiras e internacionais.

Para garantir que os resultados entregues por projetos como o IBI no Campus estejam alinhados aos objetivos institucionais e às expectativas das partes interessadas, o gerenciamento da qualidade é essencial. Segundo o PMBOK, essa área de conhecimento abrange processos para incorporar políticas de qualidade, estruturados em planejamento (identificação de requisitos), gerenciamento (transformação do plano em atividades) e controle (monitoramento do desempenho) (PMI, 2017). Contudo, é fundamental compreender o que se entende por “qualidade” neste contexto específico.

Diferentes perspectivas teóricas contribuem para essa compreensão. Crosby (1979) define qualidade como conformidade com requisitos ou padrões, enfatizando o caráter preventivo e a ideia de “zero defeito” para a melhoria contínua. Deming (1986) ressalta que a qualidade é um processo de melhoria contínua, adaptando-se às necessidades e expectativas mutáveis dos clientes. Juran (1988), por sua vez, conceitua qualidade como “adequação ao uso”, focando na capacidade de um produto ou serviço satisfazer plenamente as necessidades e expectativas do usuário, o que inclui dimensões subjetivas como a relevância do conteúdo e a experiência formativa (Heckert & Silva, 2008).

No terceiro setor, a avaliação da qualidade é complexa devido à multiplicidade de stakeholders, cada um com percepções distintas sobre o que constitui qualidade em um projeto. Além disso, a qualidade de um projeto educacional demanda legitimidade e impacto social, educacional e cultural. No caso do IBI no Campus, um projeto de natureza cíclica, multifacetada e direcionado a um público diverso, a ausência de um modelo avaliativo contínuo e abrangente limita a capacidade de monitorar o desenvolvimento das atividades e identificar pontos de melhoria ao longo do tempo. Atualmente, a avaliação se concentra em instrumentos finais, o que, embora revele alta satisfação dos participantes, não oferece uma leitura completa da qualidade do projeto.

Diante dessa problemática, justifica-se a necessidade de desenvolver um framework de avaliação da qualidade que supere as limitações existentes. Este estudo busca, portanto, desenvolver um framework de avaliação da qualidade para o IBI no Campus, projeto acadêmico do Instituto Brasil-Israel (IBI), baseado nas boas práticas do PMBOK e na literatura especializada sobre Gerenciamento da Qualidade, adaptado às especificidades de um projeto acadêmico cíclico e multifacetado, com características próprias de uma organização do terceiro setor e voltado para um público amplo e diverso.

2. Material e Métodos

O presente estudo teve como objetivo desenvolver um framework de avaliação da qualidade para o programa IBI no Campus, iniciativa acadêmica do Instituto Brasil-Israel (IBI). Para alcançar este objetivo, a pesquisa adotou uma abordagem metodológica mista, integrando elementos qualitativos e quantitativos. Quanto aos objetivos, o estudo caracterizou-se como exploratório e descritivo, buscando mapear e compreender os critérios de qualidade e as práticas avaliativas existentes no contexto do programa (Gil, 2008).

O delineamento da pesquisa foi configurado como um estudo de caso único, tendo como objeto empírico central o programa IBI no Campus. Essa estratégia permitiu examinar em profundidade as especificidades do projeto dentro de seu contexto real de atuação (Yin, 2005). A unidade de análise compreendeu as dinâmicas, processos e percepções relacionadas à gestão da qualidade do referido programa.

Para a obtenção das informações e dados necessários, foram empregadas diversas técnicas de investigação. Os procedimentos incluíram pesquisa bibliográfica, análise documental, aplicação de questionários e a vivência do pesquisador. A combinação dessas abordagens visou a uma compreensão abrangente do fenômeno estudado, permitindo a triangulação das evidências coletadas.

A pesquisa bibliográfica foi realizada para constituir uma base teórica sólida sobre gestão da qualidade e gerenciamento de projetos educacionais. Foram consultados trabalhos já desenvolvidos na área, que forneceram dados e reflexões relevantes para o tema (Marconi; Lakatos, 2003). Essa etapa facilitou o exame do objeto de pesquisa à luz de referenciais consolidados.

A análise documental envolveu a investigação de relatórios, materiais institucionais e registros internos do próprio projeto IBI no Campus. Entendeu-se o documento como um meio capaz de comunicar informações pertinentes ao estudo (Cellard, 2012). Essa técnica permitiu acessar dados sobre a estrutura, funcionamento e histórico das atividades do programa.

Como ponto de partida da investigação empírica, aplicaram-se questionários online por meio da plataforma Google Forms. A pesquisa foi disponibilizada aos indivíduos inscritos e participantes dos laboratórios de estudo, pesquisa e reflexão do projeto IBI no Campus durante o segundo semestre de 2025. A comunicação para acesso ao questionário ocorreu via WhatsApp e e-mail.

O questionário foi composto por 38 questões, que abordaram percepções dos participantes sobre diversos tópicos. Incluíram-se perguntas sobre gestão, coordenação, conteúdos e textos, formato das atividades, comunicação e avisos, experiência geral e impacto percebido. As questões apresentavam formatos abertos e fechados, utilizando a escala Likert de 1 a 5 para mensurar níveis de satisfação e percepção.

A vivência do pesquisador constituiu um recurso metodológico particular neste estudo, dada a atuação da pesquisadora como gerente do programa investigado. Essa condição caracterizou uma posição de “observadora participante”, que possibilitou acesso privilegiado às dinâmicas, processos e desafios enfrentados na execução do projeto. Buscou-se adotar uma postura reflexiva e crítica ao longo da investigação, dialogando com outros materiais e referenciais teóricos (Bourdieu, 2005; Evans-Pritchard, Edwards E., 1978; Geertz, Clifford., 1998).

A técnica de análise dos dados envolveu a organização e interpretação das respostas numéricas e textuais obtidas nos questionários. As informações foram analisadas para identificar padrões comuns e percepções dos participantes. A triangulação dos dados, provenientes das diferentes fontes de evidência, foi empregada para reduzir vieses e construir uma compreensão consistente da qualidade do projeto (Yin, 2005).

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados revelou uma percepção geral de alta satisfação por parte dos participantes do programa IBI no Campus, o que indica um reconhecimento positivo das atividades oferecidas. Contudo, uma investigação mais aprofundada evidenciou que o modelo avaliativo atualmente empregado possui limitações significativas, especialmente por sua centralidade em instrumentos aplicados apenas ao final do ciclo de atividades e pela ausência de registros sistemáticos de acompanhamento contínuo. Essa abordagem restringe a capacidade de monitorar o desenvolvimento do projeto e de identificar pontos de melhoria de forma proativa, conforme a literatura sobre avaliação de projetos no terceiro setor (Heckert & Silva, 2008).

A avaliação existente, realizada por meio de questionários Google Forms ao término de cada semestre, busca aferir o grau de satisfação dos participantes em relação a diversos aspectos do projeto, como organização, conteúdo, dinâmica e impactos percebidos. No entanto, a análise crítica desse método revelou que ele tende a capturar predominantemente percepções positivas de um segmento mais engajado do público, gerando um viés nas respostas. Essa característica, conforme apontado por Yin (2005), sublinha a necessidade de uma triangulação de dados para obter uma compreensão mais abrangente e reduzir distorções na avaliação da qualidade.

Os resultados dos questionários foram organizados em quatro dimensões principais para uma análise sistemática da qualidade: gestão do projeto, conteúdo acadêmico, experiência do participante e impacto percebido. Essa categorização, embora adaptada ao contexto educacional e do terceiro setor, alinha-se às diretrizes de gerenciamento de projetos do PMBOK (PMI, 2017), permitindo uma operacionalização mais eficaz da avaliação. A Tabela 1 do estudo original, que relaciona questões centrais do questionário a essas dimensões e tipos de indicadores, serviu como base para essa organização analítica.

Observou-se uma diferença entre o número aproximado de participantes efetivos (cerca de 75) e o número de respondentes ao questionário (33), com variações significativas entre os laboratórios. Por exemplo, o laboratório “Ser judeu no Brasil” obteve 19 respostas, enquanto outros, como “Saturno, o Judeu e o Demônio”, “O judeu/israelense no cinema palestino” e “Judeidade e Negritude”, tiveram 6, 5 e 3 respostas, respectivamente. Essa assimetria na base de dados inviabiliza comparações diretas entre as ofertas, levando a uma análise consolidada dos dados dos 33 respondentes.

A disparidade na participação pode ser atribuída a fatores como o tamanho das turmas, o nível de engajamento dos participantes, seus perfis diversos e o momento da divulgação do questionário, que ocorre ao final do semestre. Essa dinâmica sugere que os dados coletados refletem majoritariamente a percepção dos participantes mais ativos e envolvidos. Essa limitação reforça a necessidade de ampliar os mecanismos de avaliação para incluir as percepções de participantes menos engajados ou ausentes, visando uma compreensão mais completa da qualidade do projeto e a redução de vieses interpretativos (Yin, 2005).

Na dimensão da gestão do projeto, os participantes expressaram avaliações altamente positivas, com médias elevadas na escala Likert, indicando um alto nível de satisfação com os aspectos operacionais do programa. A clareza das informações obteve uma média de 4,85, a eficiência da comunicação 4,97, a organização do processo 4,97, o cumprimento do cronograma 4,9 e o suporte da equipe alcançou a média máxima de 5,0. Esses resultados, conforme a Tabela 2 do estudo original, demonstram a eficácia da equipe na condução das atividades e no apoio aos participantes.

As respostas abertas corroboram essa percepção positiva, com participantes destacando o “comprometimento da gestão do projeto e da coordenação” e a “comunicação geral ótima, com avisos e lembretes claros, objetivos e bem organizados”. No entanto, apesar das avaliações favoráveis, a observação participante da pesquisadora e comentários recorrentes dos respondentes apontaram para a necessidade de maior padronização entre os laboratórios, especialmente quanto à clareza das propostas e ao aprimoramento da comunicação, indicando que a gestão, embora eficiente, pode ser ainda mais sistematizada.

Um ponto de atenção relevante na gestão refere-se aos desencontros de expectativas, onde participantes se inscrevem em laboratórios com a percepção de que são cursos gravados. Essa “não conformidade”, conforme a perspectiva de Crosby (1979), gera retrabalho, frustrações e impacta a experiência geral. Isso sublinha a importância de processos mais sistematizados e de um controle de qualidade contínuo, alinhado à visão de Deming (1986) sobre a melhoria progressiva das ofertas e resultados para se adaptar às necessidades e expectativas mutáveis dos usuários.

A dimensão do conteúdo acadêmico também se destacou como um dos pontos fortes do programa, com os participantes atribuindo avaliações elevadas. A relevância dos conteúdos e a qualidade dos debates obtiveram médias de 4,92 cada, enquanto a qualificação do coordenador e a articulação interdisciplinar também alcançaram 4,92. Esses resultados, apresentados na Tabela 3 do estudo original, demonstram que o conteúdo oferecido atende e, em muitos casos, supera as expectativas dos participantes, alinhando-se à concepção de qualidade como “adequação ao uso” de Juran (1988).

As respostas qualitativas enfatizaram a excelência da curadoria de materiais, a diversidade temática e a participação ativa como elementos centrais da experiência e do engajamento. Participantes relataram que “os materiais selecionados – textos e filmes – são de excelente qualidade e dialogam muito bem com a proposta do laboratório”, contribuindo para “ampliar o repertório crítico e abrir a mente para outras perspectivas”. Houve também a valorização da liberdade de “construir juntos e ir avaliando ao longo do processo”, indicando um ambiente de aprendizado colaborativo.

Apesar das avaliações positivas, desafios foram identificados, principalmente a carga e complexidade dos textos. Embora reconhecidos como relevantes, nem todos os participantes conseguiram acompanhar o ritmo de leitura, devido a “rotina corrida” e a necessidade de “tempo para aprofundamento”. Isso sugere a necessidade de considerar a diversidade de rotinas, formações e disponibilidades de tempo dos participantes ao planejar a ementa e a carga de trabalho, buscando um equilíbrio que mantenha a profundidade sem comprometer a acessibilidade.

Na dimensão da experiência do participante, os dados indicaram altos níveis de satisfação geral (4,9), engajamento (4,9) e um ambiente de troca (4,9), conforme a Tabela 4 do estudo original. Os respondentes destacaram o ambiente de diálogo, a abertura à troca e o sentimento de pertencimento como aspectos centrais. Relatos como “os encontros funcionaram muito bem porque, desde o primeiro contato, a comunicação era muito clara” e a “mediação justa e paciente da coordenadora” foram cruciais para a construção de um ambiente virtual acolhedor e propício à reflexão crítica.

Contudo, desafios relevantes emergiram, como a necessidade de maior rigor na mediação para evitar a monopolização da fala por alguns participantes e desvios do tópico da aula. A carga de leitura e o equilíbrio entre atividades síncronas e assíncronas também foram mencionados. Sugestões incluíram “mais tempo entre os encontros para a leitura dos textos e a visualização dos filmes” e a necessidade de “maior integração entre os participantes durante as discussões”, visando uma experiência mais fluida e equitativa para todos.

A dimensão do impacto apresentou os níveis mais elevados de avaliação, com a contribuição para formação acadêmica e a ampliação de repertório obtendo médias de 5,00, conforme a Tabela 5 do estudo original. Os participantes relataram contribuições significativas para o repertório teórico, o pensamento crítico e a inserção em novas redes de relacionamento. O caráter gratuito das ofertas também foi reconhecido como um fator que amplia o potencial de alcance do projeto, gerando desdobramentos positivos nas trajetórias pessoais e profissionais dos participantes.

Relatos qualitativos ilustram o impacto percebido, com participantes afirmando que o IBI no Campus possui uma “cultura que preza pela educação, diversidade e inclusão”, e que a “troca de informações e experiências provenientes disso é extremamente útil”. Outros destacaram a importância do projeto como “muito importante e inclusivo, para quem, não é judeu, mas busca conhecimentos e entendimento sobre o passado, presente e futuro civilizacional”, evidenciando a capacidade do programa de promover o diálogo e a conexão entre diversas vozes da sociedade civil e a comunidade judaica.

Apesar dos resultados positivos, a análise documental revelou limitações importantes na sistematização e continuidade dos registros institucionais. Os dados disponíveis concentram-se majoritariamente em relatórios anuais, sem registros intermediários que permitam acompanhar o desenvolvimento das atividades ao longo do tempo. A ausência de documentos padronizados para registrar dinâmicas internas, como atas de reunião ou relatórios de acompanhamento de presença, dificulta a reconstrução detalhada dos processos e demonstra a fragilidade dos mecanismos de monitoramento contínuo do projeto, conforme Cellard (2012).

A predominância de registros estanques e retrospectivos, como os relatórios anuais, tende a privilegiar resultados gerais e positivos, em detrimento da análise processual e da identificação de pontos de melhoria durante a execução. Essa lacuna não apenas limitou a análise da presente pesquisa, mas também impacta a capacidade do programa de avaliar continuamente a qualidade e os resultados alcançados. Diante desse cenário, torna-se essencial a concepção e implementação de um sistema estruturado de monitoramento e avaliação contínua que vá além de instrumentos pontuais e reduza os vieses identificados.

Framework de avaliação

A partir dos achados da pesquisa e das limitações identificadas nos mecanismos atuais de avaliação, propõe-se um framework de avaliação da qualidade estruturado em quatro momentos distintos: avaliação inicial (diagnóstico), avaliação processual (formativa), avaliação final (de resultados) e avaliação dos desdobramentos (de impacto). Este modelo busca superar a lógica pontual e retrospectiva da avaliação atual, que se restringe ao final do ciclo de atividades, promovendo um sistema contínuo e orientado para a melhoria da qualidade do IBI no Campus.

A proposta dialoga com a categorização da qualidade como um processo dinâmico e contínuo, conforme Deming (1986), e com a necessidade de adequação ao uso e às expectativas dos diversos stakeholders, como discorre Juran (1988). Além disso, incorpora princípios do PMBOK (PMI, 2017) relacionados ao planejamento, garantia e controle da qualidade, adaptados ao contexto educacional e do terceiro setor. O framework considera as quatro dimensões analíticas já identificadas – gestão, conteúdo, experiência e impacto – e os múltiplos stakeholders envolvidos, incluindo participantes, professores coordenadores, equipe interna e doadores.

Avaliação inicial (diagnóstico)

A avaliação inicial tem como objetivo mapear as expectativas e perfis dos participantes, permitindo alinhar a proposta do laboratório e reduzir possíveis “não conformidades” (Crosby, 1979). A pesquisa evidenciou que desencontros entre expectativas e atividades oferecidas são uma fonte de frustração. Assim, uma avaliação inicial atua como mecanismo preventivo, contribuindo para uma experiência mais proveitosa ao compreender o perfil dos participantes (formação, disponibilidade, interesses), alinhar expectativas sobre o formato e identificar demandas e níveis prévios de conhecimento.

Atualmente, o formulário de inscrição já inclui questões sobre o interesse no tema e o nível de familiaridade, mas as respostas não são sistematicamente analisadas para adaptar a proposta dos encontros. Perde-se, assim, a oportunidade de ajustar a complexidade dos conteúdos, a escolha dos textos e as metodologias. Propõe-se expandir o questionário de inscrição para incluir aspectos como formação acadêmica, disponibilidade de tempo e experiência prévia, adicionando um termo de ciência sobre a oferta que explicite elementos como carga de leitura e dinâmica síncrona. A Tabela 6 do estudo original detalha os indicadores dessa etapa, como clareza de expectativas e adequação de perfil.

Avaliação processual (formativa)

A avaliação processual é o eixo central do framework proposto e atualmente inexistente no modelo do IBI no Campus. Diferentemente das avaliações pontuais, esta etapa permite o acompanhamento contínuo das atividades, possibilitando a identificação de desafios e a realização de ajustes durante o ciclo. Os objetivos incluem monitorar o andamento, identificar problemas, ajustar conteúdos, dinâmica e gestão, e acompanhar o engajamento dos inscritos. Para isso, sugere-se a aplicação de “pulse surveys” mensais, questionários curtos com questões fechadas (escala Likert) e abertas, para entender a percepção sobre clareza dos encontros, engajamento e compreensão dos conteúdos.

Paralelamente, é fundamental implementar um sistema padronizado de registro das atividades, contemplando informações como presença, temas discutidos, dificuldades e encaminhamentos. A ausência desses registros, conforme identificado na análise documental, é uma lacuna no monitoramento do projeto. Ferramentas de Inteligência Artificial (IA), como MeetGeek, tl;dv Team e Read AI, são sugeridas para gravação, transcrição e síntese automática dos encontros, contribuindo para a sistematização e acessibilidade dos dados, o que fortalece uma cultura de avaliação contínua e a produção de relatórios mais robustos.

Outro instrumento relevante na avaliação processual são os registros do coordenador, inspirados na observação participante da Antropologia e Sociologia. A sistematização dessas observações em notas, após cada encontro, permite registrar aspectos da dinâmica que dificilmente seriam captados pela IA, como interações, tensões e desafios na condução das atividades. Adicionalmente, propõe-se um momento pontual de escuta qualitativa ao final de um encontro intermediário para aprofundar a compreensão da experiência dos participantes e subsidiar ajustes, além de momentos de escuta individual entre a equipe gestora e os coordenadores dos laboratórios. A Tabela 7 do estudo original apresenta os indicadores da avaliação processual, organizados pelas dimensões de gestão, conteúdo e experiência.

Avaliação final (de resultados)

A terceira etapa do framework corresponde à avaliação final, que, embora já existente, é ampliada e repensada para ir além da medição da satisfação. Propõe-se a incorporação de indicadores que avaliem de forma mais abrangente os resultados do projeto, incluindo aprendizagem e impactos percebidos. Os objetivos desta etapa são: avaliar a qualidade geral da experiência, medir resultados percebidos, identificar impactos acadêmicos e pessoais, produzir registros para melhoria futura e prestar contas a doadores. Para isso, o questionário final será revisado para incluir questões que explorem a relação entre expectativas iniciais e experiência vivida, e a utilidade prática dos conhecimentos adquiridos.

Além do questionário revisado, é relevante incluir um instrumento específico para avaliação por parte dos coordenadores dos laboratórios, dada sua posição privilegiada na condução das atividades e na observação das dinâmicas do grupo. Os registros sistemáticos e processuais subsidiarão a produção de um relatório conciso que articule as dimensões propostas, destacando não apenas os resultados positivos, mas também os pontos de atenção e as oportunidades de melhoria. A Tabela 8 do estudo original detalha os indicadores da avaliação final, como organização geral, relevância, satisfação, aprendizado e aplicabilidade.

Avaliação dos desdobramentos (de impacto)

Após a avaliação final, o framework propõe uma etapa adicional de avaliação pós-ciclo, focada na investigação dos impactos a médio e longo prazo. Essa proposta responde a uma lacuna recorrente na avaliação de projetos do terceiro setor, que frequentemente têm dificuldade em capturar desdobramentos que se manifestam além do período imediato de execução das atividades (Heckert & Silva, 2008). No caso do IBI no Campus, esses impactos podem incluir a continuidade dos estudos, a produção acadêmica, a participação em eventos e a inserção em grupos de pesquisa.

Para essa etapa, sugere-se um acompanhamento dos participantes com perfil de pesquisador, por meio de questionários breves e conversas, para identificar como os conhecimentos adquiridos foram mobilizados em suas trajetórias acadêmicas e profissionais. Podem ser desenvolvidos estudos de caso que aprofundem as histórias e experiências individuais, contribuindo para a construção de narrativas que demonstrem o impacto do IBI no Campus no campo acadêmico, a serem apresentadas também aos doadores da instituição. A Tabela 9 do estudo original apresenta os indicadores da avaliação dos desdobramentos, como continuidade acadêmica, produção intelectual, ampliação de redes e impacto profissional.

Síntese do framework

O framework proposto representa um avanço significativo em relação ao modelo atualmente adotado, ao estruturar a avaliação como um processo contínuo e integrado para o IBI no Campus. Sua implementação possibilitará o monitoramento contínuo das atividades, a identificação de problemas, a produção de registros de impacto e o fortalecimento da relação com todos os stakeholders, sejam eles o público participante, a equipe, os professores coordenadores ou os doadores. Trata-se de uma proposta que, embora desenvolvida para o IBI no Campus, possui potencial de adaptação para outras iniciativas educacionais do Instituto Brasil-Israel que enfrentam desafios semelhantes na avaliação da qualidade.

Ao articular diferentes momentos de avaliação, instrumentos e perspectivas, o framework contribui para consolidar uma cultura de avaliação orientada não apenas à mensuração, mas à aprendizagem organizacional e ao aprimoramento contínuo da qualidade. A efetividade do framework depende da integração entre as diversas fontes de dados mobilizadas, e a triangulação de dados (Yin, 2005) é um elemento central dessa estratégia. Essa abordagem permite articular informações de questionários, entrevistas, registros documentais e observação participante, reduzindo vieses e produzindo uma compreensão mais consistente da qualidade do projeto. A Tabela 10 do estudo original sumariza a estrutura geral do framework, detalhando o momento da avaliação, o objetivo principal e as dimensões avaliadas em cada etapa, consolidando a proposta de um sistema de gestão da qualidade mais robusto e abrangente.

4. Conclusão

O presente estudo buscou desenvolver um framework de avaliação da qualidade para o programa IBI no Campus, iniciativa acadêmica do Instituto Brasil-Israel (IBI). Verificou-se que, embora os participantes expressassem alta satisfação geral com as atividades, o modelo avaliativo existente apresentava limitações significativas. Identificou-se uma centralidade em instrumentos finais e a ausência de registros sistemáticos de acompanhamento contínuo, o que gerava vieses nas percepções e impedia uma leitura abrangente da qualidade. A análise revelou que, apesar da eficácia na gestão e da excelência do conteúdo e do impacto percebido, havia desafios relacionados à padronização entre os laboratórios, à clareza das propostas para alinhar expectativas, à carga de leitura e à necessidade de maior rigor na mediação das discussões. Diante desses achados, construiu-se um framework de avaliação da qualidade, organizado em quatro dimensões analíticas – gestão, conteúdo, experiência e impacto – e articulado a momentos avaliativos iniciais, processuais, finais e de desdobramentos. Este modelo proposto permite uma leitura contínua e mais abrangente da qualidade, superando a lógica pontual e retrospectiva da avaliação anterior.

A principal contribuição deste trabalho reside na oferta de um modelo de avaliação que não apenas aprimora a gestão da qualidade do IBI no Campus, mas também oferece uma estrutura replicável para outras iniciativas educacionais do terceiro setor. O framework proposto visa consolidar uma cultura de avaliação orientada à aprendizagem organizacional e à melhoria contínua, integrando diversas fontes de dados para reduzir vieses e produzir uma compreensão mais consistente do projeto. Contudo, o estudo reconhece limitações, como a predominância de dados de participantes mais engajados e a natureza de estudo de caso único, que, embora aprofunde a análise, não permite generalizações diretas. Sugere-se que estudos futuros se concentrem na implementação e avaliação da efetividade do framework em contextos reais, bem como na exploração de sua adaptabilidade a outras organizações, contribuindo para o avanço das discussões sobre avaliação da qualidade em projetos sociais e educacionais.

Referências Bibliográficas

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GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. 1998. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6ed. Atlas, São Paulo, 2008.

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JURAN, J. Quality Control Handbook New York: McGraw-Hill, 1988.

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SALAMON, Lester. A emergência do terceiro setor: uma revolução associativa global. Revista de Administração, São Paulo, v.33, n.1, p.05-11, jan/mar 1998.

YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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