27 de julho de 2026
Gestão da Qualidade em Biotérios: proposta de implementação do NAQAL via central de bioterismo
Danielle Cristina Gomes Chagas; Daniel Augusto De Moura Pereira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600691
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A gestão da qualidade em biotérios é crucial para o bem-estar animal e a confiabilidade da pesquisa biomédica. Este estudo diagnosticou o nível de maturidade das práticas de gestão da qualidade em biotérios vinculados a uma Comissão Central de Bioterismo de instituição acadêmica e propôs, conceitualmente, a criação do Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL). Adotou-se uma abordagem aplicada, descritiva e propositiva, baseada em revisão bibliográfica, análise documental e um levantamento institucional transversal. A coleta de dados ocorreu por meio de um formulário eletrônico anônimo e voluntário, aplicado aos gestores dos sete biotérios da CEBIOT. Os dados quantitativos foram analisados por estatística descritiva e convertidos em níveis de maturidade institucional, enquanto as respostas qualitativas foram submetidas à categorização temática. Os resultados revelaram elevada heterogeneidade entre os biotérios, com predominância de níveis inexistente, incipiente e parcial de maturidade. Identificaram-se lacunas significativas em padronização documental, monitoramento de processos, capacitação de equipes e gestão de riscos. Observou-se, contudo, uma percepção favorável à criação de um núcleo institucional de apoio à qualidade. Concluiu-se que a proposta do NAQAL demonstrou coerência conceitual e aderência ao contexto institucional analisado, com potencial para apoiar a padronização, promover maior equidade entre os biotérios e fortalecer a confiabilidade científica.
Palavras-chave: Animais de laboratório; Bem-estar animal; Gestão da qualidade; Governança institucional; Maturidade organizacional.
1. Introdução
A gestão da qualidade em biotérios desempenha um papel fundamental na condução ética, científica e sustentável da pesquisa biomédica. A sua implementação impacta diretamente o bem-estar animal, a confiabilidade dos resultados experimentais e a reprodutibilidade dos estudos científicos. Em ambientes acadêmicos, a gestão dessas instalações apresenta um desafio multifacetado, que exige a integração de diversas exigências. Estas incluem demandas regulatórias, científicas e operacionais, frequentemente em contextos de recursos limitados. Além disso, envolve múltiplos atores institucionais e diferentes níveis de maturidade organizacional, conforme apontado por Stark et al. (2010), Leszczynski et al. (2018) e ONU (2015).
Apesar do reconhecimento generalizado sobre a importância de práticas estruturadas de gestão da qualidade em biotérios, a sua adoção no ambiente universitário é notavelmente heterogênea. Biotérios vinculados a uma mesma instituição podem exibir variações significativas na formalização de processos, na capacitação das equipes, no controle sanitário, na biossegurança e na gestão de riscos. Muitas vezes, essas unidades operam sem mecanismos sistemáticos de avaliação e acompanhamento institucional. Tal heterogeneidade dificulta a padronização operacional, limita o planejamento estratégico e pode comprometer tanto o bem-estar dos animais quanto a robustez científica dos dados gerados, conforme destacado por Howard et al. (2004) e Stark et al. (2010).
Mesmo com os avanços no desenvolvimento de métodos alternativos à experimentação animal, os modelos animais continuam sendo essenciais para a investigação integrada de processos fisiológicos complexos, respostas imunológicas e efeitos de longo prazo de intervenções terapêuticas. Nesse cenário, diversas evidências demonstram que condições ambientais inadequadas, manejo sanitário deficiente e rotinas operacionais inconsistentes exercem influência direta sobre o estado fisiológico e comportamental dos animais. Isso aumenta a variabilidade experimental e afeta negativamente a confiabilidade dos resultados científicos, como indicado por FELASA (2020), Guillén et al. (2024) e BECK et al. (2024).
A adoção de Sistemas de Gestão da Qualidade (SGQ), que se baseiam em políticas institucionais claras, procedimentos operacionais padronizados (POPs) e processos de melhoria contínua, é amplamente reconhecida como uma estratégia eficaz para mitigar esses riscos. Referenciais como as Boas Práticas de Laboratório, as normas ISO 9001:2015 e os processos de acreditação internacional contribuem significativamente para uma maior padronização, rastreabilidade e controle dos processos. Além disso, esses sistemas favorecem a aplicação efetiva dos princípios dos 3Rs – Redução, Refinamento e Substituição – conforme preconizado por CONCEA (2017), ISO 9001:2015, FELASA (2020), Howard et al. (2004) e ILAC (2012).
Contudo, apesar da relevância estratégica dos biotérios para a pesquisa biomédica, as práticas de gestão da qualidade nesses ambientes acadêmicos frequentemente se desenvolvem de forma fragmentada e assimétrica. Elas dependem fortemente de iniciativas locais ou individuais, sem a presença de mecanismos institucionais integradores que permitam avaliar, harmonizar e fortalecer essas práticas de maneira sistemática. Essa lacuna institucional dificulta a consolidação de uma cultura organizacional de qualidade, a equidade operacional entre as unidades e uma governança integrada das atividades de bioterismo. A ausência de uma instância de suporte técnico e metodológico limita a padronização de procedimentos, o acompanhamento sistemático e a consolidação de uma cultura organizacional mais homogênea entre os biotérios (Campos, 2014; PMI, 2021).
Diante desse panorama de heterogeneidade e lacunas na gestão da qualidade, torna-se crucial compreender o nível de maturidade das práticas existentes e propor soluções que promovam maior padronização e confiabilidade. Este estudo se justifica pela necessidade de fortalecer a infraestrutura de pesquisa biomédica, assegurando o bem-estar animal e a integridade dos dados científicos. Assim, o presente trabalho teve como objetivo diagnosticar o nível de maturidade das práticas de gestão da qualidade nos biotérios vinculados à Comissão Central de Bioterismo de uma instituição acadêmica e propor, em nível conceitual, a criação do Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL).
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, de natureza descritiva e propositiva, voltada à análise das práticas de gestão da qualidade em biotérios vinculados à Comissão Central de Bioterismo (CEBIOT) de um instituto de pesquisa biomédica. O objetivo foi diagnosticar o nível de maturidade dessas práticas e propor, em nível conceitual, a criação do Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL). A abordagem metodológica foi fundamentada em três eixos complementares: revisão bibliográfica, análise documental e levantamento institucional transversal.
A pesquisa foi realizada em um instituto de pesquisa biomédica localizado no município de São Paulo. O objeto empírico consistiu nas práticas de gestão da qualidade dos biotérios vinculados à CEBIOT dessa instituição. Participaram do estudo os gestores responsáveis pelos sete biotérios que compõem o universo institucional da CEBIOT (n = 7). A seleção dos participantes ocorreu pela sua posição formal na governança do bioterismo institucional, sendo considerados informantes-chave para levantamentos diagnósticos sobre maturidade organizacional.
O estudo foi conduzido em cinco etapas integradas. A primeira consistiu na revisão bibliográfica e documental, destinada à definição das dimensões analíticas da gestão da qualidade em biotérios. A segunda correspondeu ao delineamento do instrumento de coleta de dados, estruturado a partir dessas dimensões. A terceira envolveu o levantamento institucional junto aos biotérios da CEBIOT. A quarta concentrou-se na análise das práticas por níveis de maturidade organizacional, com vistas à elaboração de um diagnóstico institucional. Por fim, a quinta etapa consistiu na proposição conceitual do NAQAL, construída a partir da integração dos achados quantitativos e qualitativos.
A revisão bibliográfica abrangeu artigos científicos, diretrizes técnicas e normativas nacionais e internacionais relacionadas à gestão da qualidade em instalações de animais de laboratório, sistemas de gestão da qualidade, bem-estar animal, governança institucional e modelos de avaliação por maturidade organizacional. Essa etapa forneceu a base conceitual do estudo e orientou a definição das dimensões analíticas utilizadas na construção do instrumento de coleta de dados.
A coleta de dados primários foi realizada por meio de formulário eletrônico, de preenchimento anônimo e voluntário, encaminhado aos gestores responsáveis pelos biotérios vinculados à comissão institucional de bioterismo. O instrumento foi construído para captar informações objetivas sobre a presença, o grau de formalização e o acompanhamento de práticas relacionadas à gestão da qualidade nas unidades avaliadas.
O formulário eletrônico (https://forms.gle/2nftWQNXLHQFDSyj8) foi organizado em blocos temáticos correspondentes aos principais eixos da gestão da qualidade em biotérios. Estes incluíram capacitação e qualificação das equipes, estrutura administrativa de apoio à qualidade, monitoramento sanitário e genético, documentação e padronização de processos, uso de indicadores e informatização da gestão, biossegurança e gestão de riscos, manutenção de equipamentos, bem-estar animal, integração com a Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) e percepção institucional sobre as práticas de gestão da qualidade.
Predominaram questões fechadas, complementadas por questões semiabertas voltadas à identificação de lacunas, prioridades e percepções institucionais. O tempo estimado de preenchimento foi de aproximadamente dez minutos, buscando reduzir interferências na rotina dos gestores e favorecer a adesão das unidades participantes. A participação foi anônima e voluntária, garantindo a confidencialidade das informações fornecidas.
Os dados provenientes das questões fechadas foram analisados por meio de estatística descritiva, com tabulação das frequências absolutas e relativas. Para a síntese diagnóstica das práticas de gestão da qualidade, adotou-se uma abordagem de avaliação por maturidade institucional. As respostas do formulário foram recodificadas em escores ordinais de 0 a 3, definidos previamente conforme o grau de institucionalização da prática avaliada (Joshi et al., 2015).
O escore 0 indicou prática inexistente ou não identificada; 1, prática existente de forma pontual, informal ou não sistematizada; 2, prática existente e parcialmente formalizada, porém irregular, incompleta ou sem monitoramento sistemático; e 3, prática implementada, formalizada e acompanhada por registros, rotinas, procedimentos ou mecanismos de monitoramento. Essa lógica permitiu avaliar a existência, formalização e monitoramento das práticas de qualidade.
O instrumento totalizou 20 questões fechadas passíveis de pontuação, resultando em escore máximo de 60 pontos por biotério. O percentual de adequação foi calculado pela razão entre o escore obtido e a pontuação máxima possível, multiplicada por 100. A classificação dos biotérios em níveis de maturidade institucional foi estabelecida por faixas equidistantes: inexistente (0 a 15 pontos), incipiente (16 a 30 pontos), parcial (31 a 45 pontos) e estruturada (46 a 60 pontos). Essas faixas foram definidas com finalidade exclusivamente diagnóstica, sem caráter de auditoria ou certificação.
As respostas às questões semiabertas foram submetidas à categorização temática, com o objetivo de identificar percepções recorrentes sobre dificuldades operacionais, prioridades de apoio e possibilidades de fortalecimento institucional. Em seguida, os achados quantitativos e qualitativos foram integrados de forma interpretativa, buscando ampliar a consistência analítica do diagnóstico produzido e fundamentar a proposição conceitual do NAQAL.
3. Resultados e Discussão
A aplicação do formulário institucional aos gestores dos biotérios vinculados à Comissão Central de Bioterismo (CEBIOT) permitiu delinear um panorama comparativo das práticas de gestão da qualidade existentes nas unidades avaliadas. Esta análise, fundamentada em estatística descritiva e em avaliação por níveis de maturidade institucional, evidenciou heterogeneidade expressiva entre os biotérios, refletindo diferentes estágios de organização e consolidação das práticas analisadas. Os escores totais variaram de 15 a 43 pontos, correspondendo a percentuais de adequação entre 25,0% e 71,7% em relação à pontuação máxima possível. Este panorama inicial sublinha a diversidade na implementação da gestão da qualidade na rede de bioterismo da instituição.
Especificamente, dois biotérios, identificados como Biotério 3 e Biotério 6, apresentaram percentuais de adequação de 25,0%, sendo classificados no nível de maturidade inexistente. Este resultado indicou a ausência ou uma presença mínima e não estruturada de práticas formais de gestão da qualidade nessas unidades. Para esses biotérios, a necessidade de implementação de práticas de qualidade atingiu 75,0%, sinalizando um cenário em que a gestão da qualidade ainda não se encontrava institucionalizada como uma rotina organizacional. A ausência de formalização e acompanhamento sistemático é uma característica marcante neste nível de maturidade.
Em um nível ligeiramente superior, os Biotérios 2 e 7 foram classificados como incipientes, com percentuais de adequação de 41,7% e 36,7%, respectivamente. Esses valores sugerem a existência de iniciativas iniciais ou pontuais, que, no entanto, operam de forma informal ou irregular, sem uma integração consistente entre documentação, monitoramento e processos de melhoria contínua. Embora esta situação seja mais favorável do que a dos biotérios inexistentes, essas unidades ainda enfrentam uma necessidade de implementação elevada, variando entre 58,3% e 63,3%, indicando que a sistematização é um desafio persistente para a consolidação da qualidade.
Os Biotérios 1, 4 e 5 alcançaram o nível de maturidade parcial, com percentuais de adequação entre 61,7% e 71,7%. Este grupo demonstrou práticas relativamente mais consolidadas, indicando maior presença de rotinas formalizadas e elementos básicos de organização da qualidade. Contudo, mesmo nessas unidades mais avançadas, os percentuais de necessidade de implementação variaram de 28,3% a 38,3%, evidenciando que lacunas relevantes ainda impedem sua classificação como totalmente estruturadas. É importante notar que nenhum dos sete biotérios avaliados atingiu o nível de maturidade estruturada, o que aponta para um desafio institucional generalizado.
A leitura comparada entre os grupos revelou um contraste significativo. Enquanto os biotérios classificados como parcialmente maduros concentraram percentuais médios de adequação em torno de 65,6%, os biotérios classificados como inexistentes e incipientes reuniram, em conjunto, adequação média substancialmente inferior, em torno de 32,1%. Em sentido inverso, a necessidade média de implementação foi de aproximadamente 34,4% entre os parcialmente maduros, contra cerca de 67,9% entre os inexistentes e incipientes. Este desnível acentuado evidencia que a diferença entre os grupos não decorre apenas de variações pontuais, mas de graus distintos de institucionalização das práticas de gestão da qualidade.
Esses resultados indicam que a maioria dos biotérios apresenta níveis iniciais ou intermediários de maturidade institucional, abaixo do patamar desejável para a consolidação de um sistema integrado de gestão da qualidade. A predominância de unidades nos níveis inexistente, incipiente e parcial, sem ocorrência de biotérios no nível estruturado, reforça a ausência de padronização institucional e a coexistência de práticas de gestão da qualidade em diferentes estágios de desenvolvimento entre os biotérios avaliados. Essa situação pode comprometer a uniformidade dos procedimentos e a confiabilidade dos resultados de pesquisa.
A interpretação dos resultados quantitativos em conjunto com a análise qualitativa do levantamento revelou que as principais fragilidades se concentram em dimensões críticas da gestão da qualidade. Foram identificadas lacunas significativas na padronização documental, no monitoramento sistemático de processos, na capacitação contínua das equipes, na gestão de riscos e no uso de indicadores de desempenho. Essas áreas representam vetores centrais das deficiências observadas, pois sua fragilidade compromete simultaneamente a rastreabilidade, a consistência operacional, a capacidade de prevenção de falhas e a sustentação de uma cultura organizacional de melhoria contínua.
Sob essa perspectiva, os biotérios classificados como parcialmente maduros distinguem-se dos inexistentes e incipientes menos por ausência total de problemas e mais pela presença de práticas minimamente formalizadas e mais estáveis. Em contrapartida, nos níveis inexistente e incipiente, as limitações parecem decorrer sobretudo da ausência de mecanismos institucionais estruturados de apoio técnico, metodológico e organizacional. Essa carência dificulta a consolidação de procedimentos padronizados, registros adequados, indicadores de desempenho e rotinas de acompanhamento, impactando diretamente a qualidade e a reprodutibilidade dos estudos científicos.
Esse conjunto de achados fornece uma base objetiva para a arquitetura conceitual do Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL). Se as lacunas predominantes se concentram justamente em documentação, monitoramento, capacitação, tratamento de não conformidades e integração entre unidades, então uma estrutura institucional orientada ao apoio técnico, à padronização de processos, à definição de indicadores, à capacitação continuada e à atuação transversal entre os biotérios mostra-se coerente com o diagnóstico realizado. Nesse sentido, os resultados não apenas justificam a proposta do NAQAL, mas também ajudam a definir seus eixos prioritários de atuação.
Análise da adesão ao Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL)
A análise da percepção dos gestores quanto à criação do Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL) constituiu um elemento central para avaliar a viabilidade conceitual da proposta. As respostas indicaram uma tendência favorável à criação de um núcleo institucional de apoio à qualidade vinculado à CEBIOT, sinalizando o reconhecimento do valor de uma estrutura voltada ao suporte técnico, à padronização de processos e ao fortalecimento da governança. Essa percepção positiva não se restringiu apenas às unidades com maior maturidade relativa, mas também foi observada entre biotérios com percentuais de adequação mais baixos e maiores necessidades de implementação, indicando uma demanda institucional generalizada por tal apoio.
Essa favorabilidade se relaciona, sobretudo, ao reconhecimento de necessidades recorrentes em áreas como apoio à elaboração e revisão de documentos, definição de indicadores mínimos, monitoramento de processos, capacitação das equipes, tratamento de não conformidades e maior articulação entre os biotérios setoriais. Assim, a adesão ao NAQAL não deve ser compreendida apenas como concordância com a criação de um novo núcleo, mas como indicativo de demanda institucional por uma instância capaz de reduzir a heterogeneidade observada e apoiar a consolidação progressiva de práticas de qualidade, conforme as necessidades diagnosticadas e as possíveis frentes de atuação do núcleo proposto.
A proposta conceitual do NAQAL, articulada com os diagnósticos de maturidade, prevê ações específicas para cada lacuna identificada. Para a ausência ou fragilidade de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) e controle documental, o NAQAL ofereceria apoio técnico na elaboração, revisão, padronização e versionamento de documentos institucionais, visando maior rastreabilidade, padronização de rotinas e redução de erros operacionais. No que tange ao monitoramento sanitário e de processos não sistematizado, o núcleo forneceria orientação técnica para a definição de indicadores, rotinas de monitoramento e registros mínimos padronizados, com o benefício esperado de melhoria da confiabilidade científica e redução da variabilidade experimental.
Em relação à capacitação irregular das equipes, o NAQAL implementaria programas orientados de capacitação contínua e integração entre biotérios, fortalecendo a competência técnica, melhorando o bem-estar ocupacional e consolidando a cultura de qualidade. Para a gestão de riscos e não conformidades incipientes, o núcleo apoiaria a implantação de práticas orientadas de identificação, registro, análise e tratamento de não conformidades, prevenindo falhas recorrentes, estimulando a melhoria contínua e aumentando a segurança institucional. Por fim, para a heterogeneidade entre biotérios setoriais, o NAQAL atuaria de forma transversal e integradora, respeitando especificidades operacionais e promovendo maior equidade institucional, alinhamento de práticas e homogeneização progressiva do rigor de qualidade.
Os achados deste estudo permitiram discutir a gestão da qualidade nos biotérios avaliados a partir de uma perspectiva organizacional, evidenciando que as práticas de qualidade não se encontravam igualmente desenvolvidas entre as unidades. Essa assimetria interna sugeriu a presença de assimetrias internas relevantes. Em instituições acadêmicas, esse tipo de variação já havia sido descrito na literatura como consequência de diferenças históricas, estruturais e gerenciais entre instalações que, embora vinculadas ao mesmo arranjo institucional, evoluíram com ritmos distintos de formalização de processos, capacitação e controle (Leszczynski et al., 2018; Stark et al., 2010; Klimko, 2001; Oliveira et al., 2014; Kraemer et al., 2017; PMI, 2021).
Mais do que apenas apontar diferenças entre os biotérios, os resultados mostraram que a principal limitação observada residiu na baixa integração entre práticas já existentes. Mesmo nas unidades classificadas com maturidade parcial, a documentação, o monitoramento, a capacitação e o uso de indicadores ainda não operavam como partes articuladas de um sistema contínuo de gestão da qualidade. Esse aspecto mostrou-se coerente com referenciais de qualidade que sustentaram que a simples presença de procedimentos ou rotinas isoladas não bastava para caracterizar um sistema efetivo, uma vez que a consistência institucional dependia de formalização, rastreabilidade, acompanhamento e revisão sistemática (ISO 9001:2015; Guillén et al., 2024).
A concentração das fragilidades em dimensões como padronização documental, monitoramento de processos, capacitação contínua, gestão de riscos e tratamento de não conformidades indicou que as lacunas identificadas não decorreram apenas de dificuldades técnicas pontuais. Elas refletiram, sobretudo, a ausência de mecanismos institucionais estáveis de coordenação e suporte. Essa interpretação mostrou-se relevante porque, em instalações animais, a qualidade repercutia simultaneamente sobre o bem-estar animal, a previsibilidade operacional e a confiabilidade dos dados produzidos, o que ampliou o impacto dessas fragilidades para além da rotina administrativa (BECK et al., 2024; Guillén et al., 2024).
Sob esse ponto de vista, a heterogeneidade observada não representou apenas um diagnóstico descritivo, mas um problema de governança. Em estruturas acadêmicas descentralizadas, a autonomia local tendeu a favorecer soluções próprias e respostas adaptadas às necessidades imediatas de cada unidade. No entanto, quando não houve uma instância capaz de harmonizar parâmetros mínimos, acompanhar indicadores e apoiar a consolidação de práticas comuns, essa autonomia também favoreceu a fragmentação institucional. A literatura de gestão já havia indicado que processos de melhoria sustentada dependiam menos de ações isoladas e mais da existência de estruturas que organizassem prioridades, definissem responsabilidades e favorecessem aprendizado institucional acumulado (Campos, 2014; PMI, 2021).
Nesse contexto, a proposta do Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL) mostrou-se consistente com o diagnóstico realizado. O NAQAL não teria representado apenas uma estrutura adicional, mas uma resposta organizacional às lacunas identificadas. Sua pertinência decorreu do fato de que as fragilidades mais recorrentes se concentraram justamente em áreas que demandavam apoio transversal, como elaboração e revisão documental, definição de indicadores mínimos, capacitação de equipes, tratamento de não conformidades e maior articulação entre unidades. A literatura já havia mostrado que estruturas de apoio à qualidade tendiam a ser mais efetivas quando se vinculavam a instâncias reconhecidas institucionalmente e atuavam com função orientadora, técnica e integradora (FELASA, 2020; Gopolang et al., 2021; Guillén et al., 2024).
A percepção favorável dos gestores em relação ao NAQAL reforçou essa leitura. Esse posicionamento não se restringiu às unidades com maior maturidade relativa, mas também apareceu entre aquelas com maiores lacunas estruturais, o que sugeriu reconhecimento compartilhado da utilidade de uma instância de apoio. Estudos anteriores já haviam indicado que a percepção de utilidade prática e de apoio institucional funcionava como componente relevante da prontidão organizacional para mudanças, sobretudo quando as iniciativas não assumiam caráter punitivo, mas de suporte e fortalecimento progressivo (ISO 9001:2015; Gopolang et al., 2021).
Os achados também dialogaram com a lógica da gestão de projetos. Caso uma proposta como o NAQAL viesse a ser implementada futuramente, os resultados sugeriram que sua adoção deveria ocorrer de forma gradual, com definição clara de escopo, priorização de eixos críticos e construção progressiva de entregas institucionais. Em vez de pressupor homogeneização imediata, o diagnóstico indicou a necessidade de uma implantação escalonada, iniciando por dimensões de maior impacto transversal, como documentação, monitoramento, capacitação e não conformidades. Essa leitura mostrou-se coerente com abordagens de projetos orientadas por maturidade organizacional, melhoria contínua e sustentabilidade institucional (PMI, 2021).
Por fim, a discussão indicou que a gestão da qualidade em biotérios acadêmicos não se limitou ao atendimento de exigências normativas. Ela envolveu a construção de capacidades institucionais que sustentaram maior consistência organizacional, maior confiabilidade científica e melhores condições de governança. Nesse sentido, os resultados sustentaram que a proposta do NAQAL se alinhou ao contexto analisado e respondeu, de forma conceitualmente coerente, às necessidades identificadas, com potencial para reduzir assimetrias internas, apoiar a padronização e fortalecer a qualidade institucional do sistema de biotérios avaliado.
Em síntese, o diagnóstico revelou uma acentuada heterogeneidade nas práticas de gestão da qualidade entre os biotérios, com predominância de níveis de maturidade inexistente, incipiente e parcial, e lacunas significativas em padronização documental, monitoramento de processos, capacitação e gestão de riscos. A proposta conceitual do NAQAL emergiu como uma resposta coerente a essas necessidades, recebendo percepção favorável dos gestores. Os resultados indicam que o NAQAL tem o potencial de promover maior padronização, equidade e confiabilidade científica, abordando diretamente o objetivo de fortalecer a gestão da qualidade no bioterismo institucional.
4. Conclusão
Este estudo buscou diagnosticar o nível de maturidade das práticas de gestão da qualidade em biotérios vinculados a uma Comissão Central de Bioterismo de instituição acadêmica e propor, em nível conceitual, a criação do Núcleo de Apoio à Qualidade em Animais de Laboratório (NAQAL). Verificou-se uma acentuada heterogeneidade entre os biotérios avaliados, com predominância de níveis de maturidade inexistente, incipiente e parcial. Identificaram-se lacunas significativas em dimensões críticas, como a padronização documental, o monitoramento sistemático de processos, a capacitação contínua das equipes e a gestão de riscos. Observou-se, contudo, uma percepção favorável dos gestores quanto à criação de um núcleo institucional de apoio à qualidade, o que sugeriu reconhecimento da necessidade de uma estrutura capaz de reduzir as assimetrias e fortalecer as práticas existentes.
A proposta conceitual do NAQAL demonstrou coerência e aderência ao contexto institucional analisado, apresentando potencial para apoiar a padronização, promover maior equidade entre os biotérios e fortalecer a confiabilidade científica. Contudo, como limitação metodológica, o instrumento empregado captou percepções institucionais estruturadas dos gestores, o que pode ter sido influenciado por autopercepção e assimetria de informação, não substituindo auditorias ou verificações diretas. Sugere-se que a eventual implementação futura do NAQAL ocorra de forma gradual, com etapas adicionais de validação, pactuação institucional e planejamento escalonado, priorizando dimensões de maior impacto transversal para assegurar a sustentabilidade e a aderência às especificidades organizacionais em médio e longo prazo.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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