23 de julho de 2026
Gerenciamento de Escopo na Estruturação de um Projeto de Avaliação de Custo-Efetividade e Eficiência Operacional em Cirurgia de Coluna
Claudia Aline da Silva Brabo; Lívia Loamí Ruyz Jorge de Paula
DOI: 10.22167/2675-6528-202600663
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O gerenciamento de escopo foi analisado como ferramenta para estruturar projetos de avaliação de custo-efetividade e eficiência operacional em cirurgia de coluna. O estudo, um caso descritivo exploratório-descritivo com base documental, examinou documentos técnicos de um projeto institucional prospectivo. Identificou-se que o problema central não residia na relevância do tema, mas na ausência de uma arquitetura de escopo capaz de converter a intenção analítica inicial em um projeto efetivamente executável, validável e controlável. Aplicaram-se os processos de gerenciamento de escopo, incluindo planejamento, coleta de requisitos, definição do escopo, criação da Estrutura Analítica do Projeto (EAP), validação de entregas e controle de mudanças. Como resultado, produziram-se artefatos de gestão concretos, como plano e declaração de escopo, EAP, dicionário da EAP, matriz de rastreabilidade de requisitos, critérios de aceite e fluxo de controle de mudanças. A aplicação desses instrumentos explicitou limites, organizou entregas, reduziu ambiguidades metodológicas, protegeu a coerência entre objetivo e execução e aumentou a rastreabilidade das decisões. Concluiu-se que, em avaliações econômicas em saúde, o gerenciamento de escopo é uma condição de viabilidade metodológica, não apenas um procedimento burocrático, crucial para projetos que integram dados clínicos, econômicos e desfechos relatados pelo paciente.
Palavras-chave: Avaliação econômica em saúde; Cirurgia de coluna; Desfechos relatados pelo paciente; Estrutura Analítica do Projeto (EAP); Gestão de projetos.
1. Introdução
O setor da saúde opera sob uma combinação particularmente exigente de pressões clínicas, regulatórias, tecnológicas e financeiras. Nas últimas décadas, o crescimento dos custos assistenciais, a incorporação acelerada de tecnologias e a demanda social por melhor qualidade do cuidado ampliaram a necessidade de decisões mais criteriosas sobre onde investir, o que medir e como demonstrar resultado. Nesse ambiente complexo, projetos tecnicamente promissores podem perder consistência quando não são adequadamente estruturados desde o início (OECD, 2023; WHO, 2024).
Essa complexidade torna o campo da saúde particularmente sensível a falhas de gerenciamento. A literatura de gerenciamento de projetos em saúde indica que atrasos, retrabalho, desalinhamento entre áreas e baixa aderência dos usuários costumam estar ligados menos à ausência de conhecimento técnico e mais à fragilidade na definição de requisitos, na governança e no controle das mudanças ao longo da execução (Shirley, 2020; Cristina et al., 2024). Essa discussão ganha ainda mais importância quando se desloca o olhar para o paradigma do valor em saúde. Porter (2010) definiu valor como a relação entre desfechos relevantes para o paciente e os custos necessários para alcançá-los, enfatizando a produção de melhores resultados clínicos e funcionais com uso racional dos recursos disponíveis.
Nesse cenário, avaliações de custo-efetividade passaram a ocupar lugar estratégico. Elas permitem comparar alternativas de cuidado, identificar variações injustificadas de custo, discutir desperdícios e apoiar decisões mais transparentes de incorporação, reorganização de fluxos e priorização de investimentos. Quando bem desenhadas, essas avaliações ampliam a qualidade do debate decisório porque articulam três dimensões que muitas vezes aparecem separadas: o efeito clínico, o custo do cuidado e a experiência vivida pelo paciente (Drummond et al., 2015; Husereau et al., 2022). O avanço do cuidado baseado em valor também ampliou o uso de Patient-Reported Outcome Measures (PROMs) e Patient-Reported Experience Measures (PREMs), que captam a perspectiva do paciente sobre dor, funcionalidade, qualidade de vida e a experiência do cuidado (Bull et al., 2019; Finkelstein; Schwartz, 2023).
A linha de cuidado em cirurgia de coluna é um exemplo emblemático dessa necessidade de avaliações integradas. A dor lombar e as doenças degenerativas da coluna figuram entre as principais causas de incapacidade no mundo, com impacto significativo sobre a qualidade de vida, produtividade e gastos em saúde. Além disso, a comparação entre prestadores tende a revelar variação expressiva de custos, protocolos assistenciais e resultados funcionais, tornando este um campo fértil para avaliações que combinem indicadores clínicos, operacionais e econômicos (GBD 2023 Disease and Injury Incidence and Prevalence Collaborators, 2024; Lee et al., 2023). Nesses casos, os desfechos clínicos tradicionais nem sempre esgotam aquilo que o paciente de fato entende como melhora, reforçando a relevância dos PROMs e PREMs.
Apesar da relevância temática, projetos dessa natureza frequentemente encontram dificuldades práticas ainda na fase de estruturação. Em muitos casos, o objetivo geral parece bem formulado, mas os limites do estudo permanecem vagos; os interessados são conhecidos, mas seus requisitos não são formalizados; os dados desejados são listados, mas sem vinculação direta às análises priorizadas; e o conjunto de entregas cresce progressivamente à medida que novas expectativas surgem. Quando isso acontece, instala-se um quadro clássico de escopo mal definido, marcado por “scope creep”, subestimação de esforço, ambiguidade sobre critérios de aceite e aumento do risco de retrabalho.
No campo da saúde, essas falhas são particularmente graves porque não geram apenas atraso administrativo. Um escopo frágil pode comprometer a consistência entre o desenho do estudo, a coleta de dados, os indicadores escolhidos e a utilidade final das conclusões. Projetos tecnicamente bem-intencionados podem fracassar por não estabelecerem, com antecedência, o que será entregue, em que sequência, sob quais critérios e com quais limites. O problema, portanto, não é apenas gerencial no sentido operacional; ele atinge diretamente a validade metodológica e a capacidade do projeto de gerar evidência útil para a tomada de decisão.
É nesse ponto que o gerenciamento de escopo assume função estratégica. Ao organizar requisitos, delimitar o que faz e o que não faz parte do projeto, decompor entregas por meio da Estrutura Analítica do Projeto (EAP) e criar regras de validação e controle de mudanças, ele transforma intenções amplas em uma linha de base gerenciável. Em projetos de avaliação econômica em saúde, isso significa proteger a coerência entre objetivo, variáveis, instrumentos, análises e resultados esperados, evitando que a complexidade do tema se converta em dispersão metodológica.
Embora exista produção consolidada sobre PROMs, PREMs, valor em saúde, avaliações econômicas e gerenciamento de projetos em saúde, a integração explícita entre gerenciamento de escopo e estruturação de projetos de avaliação econômica ainda aparece de forma limitada. A lacuna não está na inexistência de estudos sobre cada um desses componentes isoladamente, mas na pouca atenção dada ao modo como ferramentas de escopo podem sustentar a arquitetura metodológica de um projeto que precisa combinar desfechos clínicos, dados de custos, variabilidade assistencial e experiência do paciente.
Diante desse quadro, este trabalho parte da seguinte questão de pesquisa: como o gerenciamento de escopo pode contribuir para estruturar, de forma consistente, um projeto de avaliação de custo-efetividade em saúde? O objetivo geral deste estudo é analisar a aplicabilidade das práticas de gerenciamento de escopo na estruturação metodológica de um projeto de avaliação econômica em cirurgia de coluna.
2. Material e Métodos
Este trabalho caracterizou-se como um estudo de caso descritivo, de natureza exploratória-descritiva, com abordagem qualitativa e base documental. A opção metodológica pelo estudo de caso foi considerada adequada para compreender como um projeto específico foi originalmente estruturado e como a aplicação das práticas de gerenciamento de escopo poderia reorganizar sua arquitetura metodológica. Conforme Yin (2015), o estudo de caso é pertinente para examinar fenômenos contemporâneos em seu contexto real, onde as fronteiras entre o objeto e o contexto não são claramente separáveis.
A unidade de análise foi um projeto institucional descrito no documento técnico intitulado “Análise de custo-efetividade e eficiência operacional: cirurgia de coluna prospectivo”. Este documento, elaborado por uma empresa especializada em inteligência de dados para o setor da saúde, apresentava uma proposta de avaliação da linha de cuidado em cirurgia de coluna. O projeto previa a coleta de variáveis assistenciais, econômicas e centradas no paciente, com o objetivo de produzir dashboards e relatórios para apoio à tomada de decisão.
Em termos práticos, o projeto analisado previa acompanhar pacientes adultos com cirurgia de coluna autorizada em determinada operadora de saúde. A coleta de dados seria realizada no pré-operatório e em pontos temporais do pós-operatório, buscando integrar custos, desfechos, experiência do paciente e indicadores operacionais. É importante ressaltar que este estudo não envolveu intervenção empírica junto a pacientes, profissionais de saúde ou gestores, nem coletou dados primários ou aplicou questionários.
O foco da pesquisa recaiu unicamente sobre a configuração documental do projeto e sobre a aplicação analítica dos processos de gerenciamento de escopo. A base documental do estudo foi constituída por materiais complementares, reunidos para permitir a compreensão do caso e a aplicação das ferramentas de gerenciamento de escopo. Os documentos foram lidos integralmente e submetidos a uma leitura analítica orientada por quatro eixos: definição do problema, delimitação do escopo, coerência metodológica e governança das entregas.
A análise foi conduzida em oito passos sucessivos, concebidos como um roteiro operacional explícito para garantir transparência sobre os procedimentos realizados. Primeiramente, realizou-se a leitura integral do documento-base para identificar o objetivo declarado, a população descrita, as etapas previstas, as variáveis solicitadas, os desfechos propostos e os entregáveis anunciados. Em seguida, extraíram-se os principais sinais de fragilidade de escopo do caso, como inconsistências de desenho, indefinição de limites e ausência de critérios de aceite.
Posteriormente, mapeou-se preliminarmente os stakeholders do projeto e inferiram-se seus requisitos explícitos e implícitos a partir dos documentos disponíveis. Na sequência, aplicaram-se analiticamente os processos de gerenciamento do escopo, contemplando o planejamento de sua condução, a coleta de requisitos, sua definição, a elaboração da Estrutura Analítica do Projeto (EAP), sua validação e seu controle. Este processo visou converter o conteúdo disperso do caso em artefatos concretos de gestão.
Como parte dos procedimentos, elaboraram-se artefatos como o plano de gerenciamento do escopo, a declaração de escopo, a EAP, o dicionário da EAP, o registro preliminar de requisitos, a matriz de rastreabilidade e os critérios de aceite. Adicionalmente, construíram-se quadros comparativos entre a situação inicial do projeto e a situação reestruturada após a aplicação das ferramentas de escopo. Interpretaram-se os efeitos gerenciais e metodológicos esperados da reestruturação, com ênfase na coerência do desenho e na rastreabilidade das entregas.
Para que o gerenciamento de escopo não permanecesse apenas no plano conceitual, cada processo foi operacionalizado sobre o caso analisado. No planejamento do gerenciamento do escopo, definiu-se como o escopo seria detalhado, aprovado, validado e alterado ao longo do projeto. Na coleta de requisitos, identificaram-se as necessidades informacionais e gerenciais dos principais interessados, como a operadora de saúde, prestadores, equipe analítica, coordenação clínica e usuários dos dashboards.
Na definição do escopo, estabeleceram-se os limites do que o projeto deveria entregar e do que ficaria fora da linha de base. A criação da EAP transformou entregas amplas em pacotes de trabalho gerenciáveis, organizando-as em governança, desenho metodológico, arquitetura de dados, instrumentos, operacionalização, análise e validação. A validação e o controle do escopo resultaram na formulação de critérios de aceite para a base de dados, instrumentos, dashboards, relatórios e plano de ação, além de um fluxo de controle de mudanças.
Do ponto de vista ético, o estudo não utilizou dados pessoais de pacientes para fins analíticos nem realizou intervenção com seres humanos. As referências ao projeto institucional foram tratadas com finalidade acadêmica e metodológica. A discussão sobre variáveis cadastrais e assistenciais foi orientada pela preocupação com a minimização de dados e a coerência com os princípios de proteção da informação.
3. Resultados e Discussão
A análise da aplicabilidade do gerenciamento de escopo na estruturação metodológica de um projeto de avaliação econômica em cirurgia de coluna revelou que o problema central não residia na relevância intrínseca do tema, mas na ausência de uma arquitetura de escopo robusta. O projeto original, embora promissor e alinhado aos debates contemporâneos sobre valor em saúde, PROMs e PREMs, carecia de uma conversão efetiva da intenção analítica em um plano de trabalho executável, validável e controlável. Essa lacuna gerencial comprometia a consistência metodológica e a capacidade de gerar evidências úteis para a tomada de decisão, um achado que dialoga com a literatura que aponta fragilidades de governança como causa de falhas em projetos de saúde (Shirley, 2020; Cristina et al., 2024).
O caso analisado partiu de uma proposta legítima para produzir evidências sobre custo-efetividade e eficiência operacional na cirurgia de coluna, integrando custos assistenciais, variáveis clínicas e medidas relatadas pelos pacientes. O documento técnico original já apresentava elementos valiosos, como o foco em valor, o uso de PROMs e PREMs, a produção de dashboards e a intenção de subsidiar decisões gerenciais. Contudo, o descompasso entre a ambição analítica e a maturidade do escopo era evidente, manifestando-se na intenção de medir e comparar extensivamente sem uma linha de base clara que organizasse prioridades, delimitasse exclusões e vinculasse variáveis às análises realmente necessárias.
Esse descompasso não se restringia a um plano administrativo, mas contaminava a própria consistência metodológica do estudo. Um objetivo mal alinhado ao desenho, uma lista de variáveis sem racional analítico ou um conjunto de instrumentos não congelado a tempo poderiam comprometer tanto a coleta quanto a interpretação dos resultados. A fragilidade do escopo, portanto, não era um mero detalhe operacional, mas um fator crítico que afetava a validade e a utilidade do projeto, conforme a discussão de Porter (2010) sobre a importância de articular desfechos e custos para gerar valor.
A análise documental permitiu identificar um conjunto de fragilidades de escopo que explicavam a vulnerabilidade do projeto. Uma inconsistência central foi a divergência entre o caráter prospectivo indicado no título e no fluxo de acompanhamento dos pacientes e a menção, no objetivo, a uma avaliação retrospectiva. Essa ambiguidade não era apenas redacional, pois alterava fundamentalmente o desenho do estudo, a lógica da coleta de dados, a temporalidade das informações e o modo de interpretar os resultados, gerando um desalinhamento entre coleta, janelas temporais, análise e comunicação.
Outra fragilidade significativa foi a ausência de uma delimitação clara do não escopo. O documento original listava uma vasta gama de análises econômicas, como benchmark, variabilidade, quadrantes, matriz de valor, técnicas avançadas de machine learning e pesquisa operacional. Sem uma priorização formal, o projeto ficava exposto a uma expansão progressiva das análises, muitas vezes impulsionada por pressões legítimas dos interessados, mas sem uma avaliação rigorosa do impacto sobre o esforço, o prazo, os dados necessários e a utilidade final. Isso gerava risco de *scope creep*, subestimação de esforço e dispersão metodológica.
A insuficiência na formalização de stakeholders e requisitos também foi um ponto crítico. Embora o caso sugerisse múltiplos usuários potenciais, como a operadora de saúde, a equipe clínica, os prestadores, a empresa analítica e os pacientes, o material não explicitava quais entregas respondiam a quais necessidades específicas. Essa lacuna resultava em entregas pouco aderentes às necessidades decisórias e aumentava o risco de retrabalho. Adicionalmente, a falta de critérios objetivos de aceite para instrumentos, base consolidada, dashboards e relatórios significava que o projeto não possuía um padrão claro para determinar quando cada etapa estaria efetivamente pronta, dificultando o encerramento das fases e a obtenção de concordância entre as partes interessadas.
Diante desse diagnóstico, a primeira resposta foi a construção de um plano resumido de gerenciamento do escopo. Em vez de iniciar diretamente com a decomposição de tarefas, o estudo priorizou o estabelecimento de regras claras sobre como o escopo seria detalhado, aprovado, validado e alterado ao longo do projeto. Essa abordagem é crucial, pois muitos projetos falham ao focar na lista de atividades sem antes pactuar critérios de pertencimento, de aprovação e de mudança, conforme preconiza o PMBOK (PMI, 2017).
O planejamento do gerenciamento do escopo foi estruturado em torno de quatro definições básicas: a identificação dos responsáveis pela aprovação da linha de base do projeto; a especificação dos artefatos obrigatórios para iniciar a coleta de dados; a determinação de quais mudanças exigiriam avaliação formal de impacto; e a definição das entregas que precisariam ser validadas antes do avanço para a etapa seguinte. Esse plano, embora não eliminasse a necessidade de adaptação, impedia que as alterações ocorressem de forma invisível ou desordenada, garantindo um escopo estável, rastreável e alinhado ao propósito decisório do projeto.
A coleta de requisitos foi tratada como uma etapa essencial para transformar o projeto em um produto útil e não apenas em um exercício analítico. Em projetos de saúde, a utilidade de uma avaliação econômica depende menos da quantidade de informação gerada e mais de sua aderência às decisões que precisam ser apoiadas. O mapeamento dos stakeholders não se limitou a listar os interessados, mas buscou identificar as decisões que cada um precisava tomar e as entregas que, de fato, seriam úteis para eles, um aspecto fundamental para a efetividade de projetos complexos (Panyard et al., 2022).
Para a operadora de saúde, o requisito principal era uma visão comparativa de custos, desfechos e oportunidades de eficiência, traduzida em indicadores comparáveis, metodologia transparente e um dashboard interpretável. A coordenação clínica necessitava de uma leitura consistente sobre o perfil dos pacientes, os instrumentos adotados e a relevância dos desfechos, o que se traduziu em PROMs/PREMs coerentes, critérios clínicos explícitos e janelas temporais estáveis. Os prestadores, por sua vez, precisavam compreender os critérios de comparação para evitar interpretações arbitrárias, demandando uma definição clara de variáveis, comparadores e regras de análise.
A equipe analítica requeria estabilidade no desenho do estudo e nas variáveis, resultando na necessidade de um dicionário de dados, escopo analítico priorizado e um fluxo de controle de mudanças. Embora os pacientes não fossem usuários diretos do dashboard, a forma como seus dados seriam coletados e interpretados os afetava, exigindo instrumentos validados, proteção de dados e comunicação adequada. A formalização desses requisitos reduziu ambiguidades e aumentou a probabilidade de o projeto produzir entregas com valor real, alinhando as expectativas dos diversos atores envolvidos.
Com base no diagnóstico das fragilidades e nos requisitos identificados, foi elaborada uma declaração de escopo que transformou a proposta ampla em um projeto mais controlável. O objetivo do projeto foi definido como estruturar e executar uma avaliação prospectiva de custo-efetividade e eficiência operacional na linha de cuidado em cirurgia de coluna, com apoio de PROMs, PREMs e dados assistenciais/econômicos. As entregas principais incluíam a linha de base do escopo, instrumentos congelados, dicionário de dados, base consolidada, análises priorizadas, dashboard, relatório executivo e plano de ação.
A definição do não escopo teve importância equivalente, funcionando como um mecanismo de foco e qualidade. Deliberadamente, excluíram-se da fase atual a ampliação irrestrita de técnicas analíticas apenas por sua disponibilidade, a inclusão de variáveis sem relação demonstrada com as análises priorizadas, a reabertura contínua do questionário após o início da coleta e a produção de comparações que não pudessem ser sustentadas pela qualidade e completude dos dados. Ao explicitar essas exclusões, o gerenciamento de escopo deixou de ser apenas defensivo e passou a ser um instrumento ativo de delimitação e priorização, protegendo o projeto contra a dispersão metodológica.
A criação da Estrutura Analítica do Projeto (EAP) foi o momento em que o gerenciamento de escopo se tornou concretamente visível. A EAP permitiu converter a sequência ampla de intenções – planejar, preparar, coletar, analisar e entregar – em uma estrutura hierárquica de entregas e pacotes de trabalho, explicitando o que cada bloco do projeto precisava produzir para que o passo seguinte tivesse uma base consistente. Mais do que uma simples listagem de tarefas, a EAP funcionou como um instrumento de coerência metodológica, evidenciando dependências que o documento original deixava implícitas, como a necessidade de congelar instrumentos antes de configurar a plataforma de coleta.
A EAP detalhada proposta para o caso foi organizada em níveis, começando pela Governança e iniciação, que incluía a formalização do propósito, sponsor, usuários e responsáveis pela aprovação, o registro de stakeholders e requisitos, e a aprovação da linha de base inicial do escopo. O Desenho metodológico do estudo abordava a definição da natureza prospectiva e horizonte temporal, a população elegível e critérios de inclusão/exclusão, e a definição de comparadores, desfechos e abordagem econômica prioritária. A Arquitetura de dados e instrumentos detalhava a construção do dicionário de dados, o congelamento de PROMs e PREMs, e a definição de regras de completude e proteção de dados.
A Operacionalização da coleta envolvia a configuração da plataforma, o cadastro de pacientes, a validação do fluxo de contatos e a execução do seguimento nos pontos temporais aprovados. A Análise e visualização compreendia a consolidação da base, a produção de indicadores priorizados, a execução de análises econômicas e de eficiência aprovadas, e a construção do dashboard e relatório executivo. Por fim, a Validação e melhoria incluía a validação das entregas com stakeholders, o registro de mudanças e impactos, e a apresentação de resultados com pactuação de plano de ação, garantindo um ciclo completo de aprendizado e decisão.
A utilidade da EAP foi ampliada com a elaboração de um dicionário resumido para os pacotes de trabalho considerados mais críticos. Esse dicionário forneceu uma descrição mínima de conteúdo, responsável, insumos necessários e critério de aceite para cada pacote. Por exemplo, a tarefa de “Construir a plataforma” poderia ter múltiplas interpretações, mas o dicionário explicitou que se esperava uma solução com regras de validação, automação de lembretes, trilhas temporais e painéis integrados. Ao explicitar o que se esperava de cada pacote, reduziu-se o risco de entregas parcialmente prontas ou aceitas com base apenas em percepções subjetivas.
Entre os pacotes críticos detalhados no dicionário da EAP, destacaram-se o registro de stakeholders e requisitos, com critério de aceite de cobertura dos interessados principais e aprovação da coordenação do projeto. A população elegível exigia definição escrita dos critérios de inclusão, exclusão, marco temporal e unidade de análise, com critério de consistência com o objetivo, desenho prospectivo e viabilidade de coleta. Os instrumentos PROMs/PREMs demandavam uma versão congelada e regras de aplicação, com revisão técnico-científica concluída antes da configuração final da plataforma. O dicionário de dados, por sua vez, precisava descrever todas as variáveis analiticamente necessárias, com fonte, formato e regra de preenchimento, e critério de ausência de duplicidade e alinhamento com análises priorizadas.
A plataforma de coleta requeria um ambiente configurado com cadastro, envio, lembretes, retorno e trilha de auditoria, com teste funcional documentado e validação do fluxo básico como critério de aceite. A base consolidada deveria ser unificada com identificadores controlados, variáveis padronizadas e registro de completude, com índice mínimo de consistência e rastreabilidade por paciente/tempo. Por fim, o dashboard e relatório exigiam um painel com indicadores mínimos, filtros, glossário e relatório executivo interpretativo, com validação pelo sponsor e pelos usuários gerenciais definidos. Essa explicitação transformou expectativas genéricas em parâmetros objetivos de aprovação, protegendo a integridade metodológica do projeto.
Uma contribuição importante do gerenciamento de escopo foi deslocar a validação do projeto do plano intuitivo para o plano verificável. Em projetos de avaliação econômica, a qualidade da entrega final depende da qualidade encadeada das entregas intermediárias. Um painel bem elaborado não compensa um dicionário de dados incompleto, e uma análise sofisticada não corrige um questionário instável. Validar o escopo, nesse contexto, significa proteger a integridade metodológica do projeto, garantindo que cada componente esteja suficientemente pronto e aceito antes de avançar, um princípio essencial para a robustez de avaliações econômicas (Drummond et al., 2015; Husereau et al., 2022).
Em projetos dependentes de dados, as mudanças são inevitáveis. O que diferencia um projeto controlado de um projeto instável não é a ausência de mudança, mas a forma como ela é tratada. No caso analisado, três tipos de alteração eram especialmente prováveis: inclusão de novas variáveis assistenciais ou econômicas, substituição ou expansão de PROMs/PREMs, e incorporação de análises adicionais solicitadas por gestores ou prestadores após a visualização preliminar dos resultados. Sem um fluxo de controle, essas mudanças tenderiam a ser incorporadas progressivamente, criando uma distorção entre o projeto originalmente pactuado e o projeto efetivamente executado.
Para mitigar esse risco, foi proposto um fluxo mínimo de solicitação, análise de impacto e decisão para o controle de mudanças. A primeira etapa, Solicitação, envolvia o registro da mudança pretendida, sua justificativa, o solicitante e o componente afetado. Em seguida, a Triagem verificava se a mudança recaía sobre escopo, requisito, análise, variável, instrumento ou entregável. A Análise de impacto avaliava os efeitos sobre prazo, esforço analítico, qualidade dos dados, comparabilidade e utilidade decisória. A Decisão consistia na aprovação, rejeição ou postergação da mudança pela instância responsável, seguida pela Atualização da linha de base do escopo, dicionário de dados, EAP ou critérios de aceite, quando cabível. Por fim, a Comunicação registrava e divulgava a decisão aos envolvidos para evitar interpretações divergentes.
A matriz de rastreabilidade de requisitos foi introduzida para demonstrar, de modo verificável, a existência de cada elemento do escopo e sua conexão com o resultado final. Em iniciativas baseadas em dados, a ausência dessa ligação favorece dois problemas simultâneos: a coleta de informação excessiva sem utilidade real e a falha em produzir entregas essenciais para a decisão. A rastreabilidade atua no ponto de contato entre utilidade, governança e método, garantindo que cada requisito tenha uma origem clara, esteja associado a um pacote da EAP e resulte em uma entrega específica, como a definição de um desenho prospectivo coerente com a coleta pré/pós-operatória.
No caso da cirurgia de coluna, a matriz mostrou-se especialmente útil para ligar requisitos aparentemente dispersos, como o congelamento dos instrumentos, a proteção de dados e a comparabilidade entre prestadores, às entregas concretas do projeto. Por exemplo, o requisito de minimizar dados pessoais e justificar variáveis sensíveis foi associado ao pacote de Regras de qualidade e proteção do dicionário de dados, resultando em um dicionário de dados com necessidade justificada. O requisito de priorizar análises por utilidade decisória foi vinculado ao pacote de Análises priorizadas, gerando um plano analítico aprovado e limitado ao objetivo. Assim, a gestão de escopo deixou de ser abstrata e passou a ser demonstrável, fortalecendo a coerência e a transparência do projeto.
Os resultados da aplicação do gerenciamento de escopo, embora não fossem clínicos ou econômicos no sentido de acompanhar a execução real do projeto, produziram efeitos gerenciais e metodológicos relevantes. O primeiro resultado foi a explicitação do objeto do projeto, corrigindo a ambiguidade entre o caráter retrospectivo e prospectivo e vinculando essa definição aos pacotes metodológicos da EAP. Isso conferiu ao caso um eixo temporal e uma lógica de coleta coerentes, um ajuste que foi mais do que redacional, tornando-se uma condição para a coerência metodológica do estudo.
O segundo resultado foi a transformação de intenções genéricas em entregas verificáveis. O projeto deixou de ser descrito apenas como uma iniciativa para “coletar dados e gerar dashboards” e passou a conter uma linha de base, um pacote de instrumentos, um dicionário de dados, uma base consolidada, análises priorizadas e um plano de ação, todos com critérios de aceite explícitos. Essa transformação é central porque diminui a distância entre o desenho do estudo e sua execução, garantindo que as expectativas sejam convertidas em produtos tangíveis e mensuráveis.
O terceiro resultado foi a redução do risco de *scope creep* analítico. Ao definir o que, nesta fase, efetivamente pertencia ao projeto, a reestruturação protegeu o caso contra a expansão automática de variáveis, técnicas e comparações simplesmente porque pareciam desejáveis. Essa delimitação do não escopo e a priorização analítica não representaram um empobrecimento metodológico, mas sim uma aproximação do projeto ao princípio de parcimônia gerencial, segundo o qual a utilidade de uma avaliação depende da capacidade de selecionar aquilo que é realmente decisório (Panyard et al., 2022).
O quarto resultado foi a melhoria da rastreabilidade. A partir da matriz de requisitos e da EAP, tornou-se possível demonstrar por que cada componente existia, quem o demandava e como sua aceitação seria verificada. Essa capacidade de rastrear as decisões e as entregas é fundamental para a governança de projetos complexos, especialmente em saúde, onde a transparência e a justificativa das escolhas metodológicas são cruciais. A rastreabilidade protege a coerência entre o objetivo, as variáveis, os instrumentos, as análises e os resultados esperados, evitando a dispersão metodológica.
Um quinto resultado, de natureza mais qualitativa, foi a elevação da maturidade metodológica do caso. A gestão de escopo demonstrou que o problema do projeto não estava na falta de sofisticação técnica, mas no excesso de amplitude sem uma costura gerencial adequada. Ao impor foco, sequência e critérios, o gerenciamento de escopo não empobreceu o projeto; ao contrário, tornou-o mais plausível para gerar evidências úteis, comparáveis e defensáveis. A situação inicial, marcada por inconsistências e indefinições, foi reestruturada para um cenário com definição coerente do estudo, análises priorizadas, requisitos explícitos, pacotes de trabalho com função clara, critérios de aceite definidos e um fluxo formal de controle de mudanças.
O gerenciamento de escopo não altera o mérito clínico da linha de cuidado, mas modifica de maneira relevante o desfecho provável do projeto enquanto empreendimento organizacional. Sem a reestruturação proposta, o caso tenderia a seguir um caminho típico de projetos tecnicamente bons, mas gerencialmente frágeis, com crescimento progressivo das expectativas, alargamento da coleta e das análises, dúvidas sobre o que seria comparado e dificuldades em encerrar as entregas com concordância mínima. Com a aplicação das ferramentas de escopo, o projeto passou a ter foco mais nítido, menor exposição a mudanças informais e maior capacidade de sustentar as decisões metodológicas perante diferentes públicos, o que é decisivo para a credibilidade dos resultados em avaliações econômicas.
A relação entre dados e valor decisório também se alterou. No desenho original, a tendência seria acumular variáveis e análises sob a suposição de que mais informação gera mais valor. A reestruturação demonstrou o contrário: o valor surge quando as informações são selecionadas, organizadas e conectadas ao problema certo. Nesse sentido, o gerenciamento de escopo atuou como um filtro de relevância e como um mecanismo de proteção da validade do projeto. A coleta de dados, que antes apresentava risco de variáveis em excesso e baixa priorização, tornou-se orientada por requisito e finalidade analítica. A configuração da plataforma, antes sujeita a retrabalho por mudanças sucessivas, passou a ser realizada após o congelamento do conteúdo e validação. As análises, que antes podiam ser ampliadas continuamente, tornaram-se priorizadas, pactuadas e tecnicamente justificáveis. As entregas, antes com dúvidas sobre completude, passaram a ter critérios de aceite e validação formal. A decisão gerencial, que era dispersa, resultou em uma saída mais útil, rastreável e focada no problema.
Os resultados deste estudo, ao serem comparados com a literatura de gerenciamento de projetos e avaliação econômica em saúde, confirmam a proposição de que projetos complexos dependem de uma linha de base clara, composta por definição formal do que será entregue, critérios de aceite e mecanismos de controle de mudanças (PMI, 2017). A elaboração da EAP e de seu dicionário mostrou-se coerente com a *Practice Standard for Work Breakdown Structures*, que enfatiza a decomposição do trabalho como instrumento para organizar responsabilidades, reduzir ambiguidades e tornar verificável a progressão do projeto (PMI, 2019). Essa convergência reforça que o gerenciamento de escopo, longe de ser uma mera formalidade administrativa, constitui uma condição de consistência metodológica e de viabilidade prática para avaliações econômicas em saúde.
A aplicação das práticas de gerenciamento de escopo no projeto de avaliação de custo-efetividade em cirurgia de coluna demonstrou a capacidade de transformar uma intenção analítica promissora em um projeto estruturado e controlável. Ao explicitar limites, organizar entregas, reduzir ambiguidades metodológicas, proteger a coerência entre objetivo e execução e aumentar a rastreabilidade das decisões, o gerenciamento de escopo revelou-se uma condição de viabilidade metodológica, e não apenas um procedimento burocrático. Essa abordagem é crucial para projetos em saúde que dependem da integração de dados clínicos, econômicos e desfechos relatados pelo paciente, garantindo que a complexidade do tema não se converta em dispersão metodológica e que a pesquisa gere evidências úteis e defensáveis para a tomada de decisão.
4. Conclusão
Este estudo analisou a aplicabilidade das práticas de gerenciamento de escopo na estruturação metodológica de um projeto de avaliação econômica em cirurgia de coluna. Verificou-se que o projeto original, embora tematicamente relevante e alinhado ao paradigma do valor em saúde, apresentava fragilidades significativas de escopo, como inconsistências entre o desenho prospectivo e retrospectivo, amplitude analítica excessiva sem priorização, ausência de requisitos formalizados e falta de critérios de aceite e controle de mudanças. A aplicação dos processos de gerenciamento de escopo, incluindo planejamento, coleta de requisitos, definição do escopo, criação da Estrutura Analítica do Projeto (EAP), validação de entregas e controle de mudanças, resultou na produção de artefatos de gestão concretos. Esses instrumentos permitiram explicitar limites, organizar entregas, reduzir ambiguidades metodológicas, proteger a coerência entre o objetivo e a execução, e aumentar a rastreabilidade das decisões do projeto. Conclui-se que, em avaliações econômicas em saúde, o gerenciamento de escopo constitui uma condição de viabilidade metodológica, essencial para projetos que integram dados clínicos, econômicos e desfechos relatados pelo paciente, transformando intenções analíticas promissoras em um empreendimento estruturado e controlável.
A principal limitação metodológica deste trabalho reside na ausência de acompanhamento da execução real do projeto, o que impediu a mensuração empírica do impacto da reestruturação sobre prazo, custo ou satisfação dos stakeholders. Os achados se restringem à qualidade da estruturação do caso e aos efeitos gerenciais esperados da aplicação do gerenciamento de escopo, e não a resultados clínicos, financeiros ou operacionais pós-implantação. Além disso, o estudo dependeu exclusivamente do corpus documental disponibilizado, não incluindo contratos, atas de reunião ou orçamentos detalhados, o que poderia ter ampliado a compreensão da governança real. Para estudos futuros, sugere-se a comparação, em contexto real, de projetos semelhantes com e sem a aplicação formal de artefatos de gerenciamento de escopo, a fim de avaliar empiricamente os benefícios da gestão de escopo na prática.
Referências Bibliográficas
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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