10 de agosto de 2026
Fluxo de caixa e planejamento financeiro de uma propriedade rural no interior do Rio Grande do Sul
Livia Sadocco Haas; Nayara Barbosa da Cruz
DOI: 10.22167/2675-6528-202601079
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O agronegócio brasileiro enfrenta desafios na gestão financeira de propriedades rurais, frequentemente resultando em falências precoces devido à falta de conhecimento gerencial. Diante desse cenário, analisou-se a gestão financeira de uma propriedade rural no interior do Rio Grande do Sul, com o objetivo de verificar sua viabilidade econômica e propor melhorias para o desempenho financeiro do empreendimento. Realizou-se um estudo de caso único, de natureza descritiva e abordagem quantitativa, baseado na análise documental de registros financeiros da propriedade, incluindo dados de fluxo de caixa e custos de produção das atividades de pecuária e lavoura de soja, abrangendo os anos de 2024 e 2025. Compilou-se todas as informações referentes às entradas e saídas financeiras, dados produtivos internos e aplicou-se a metodologia de Matsunaga et al. (1976) para cálculo de custos operacionais, margens e lucro econômico, além de uma análise SWOT. Os resultados indicaram custos de produção significativamente elevados em comparação às receitas, resultando em saldo financeiro nulo ou negativo e lucratividade mínima para o produtor. A atividade pecuária, em particular, apresentou resultados negativos nos períodos analisados, dependendo da produção de soja para seu equilíbrio financeiro. Verificou-se alta participação dos custos variáveis e a dependência de aportes de capital próprio. Eventos climáticos adversos, como a enchente de 2024, impactaram severamente a produtividade da soja, com perda de mais de 50% da área plantada, e reduziram as receitas da pecuária. Concluiu-se que a propriedade apresenta fragilidades relevantes na gestão financeira e um risco de inviabilidade econômica a longo prazo, caso as condições atuais de gestão sejam mantidas, reforçando a importância de práticas de gestão financeira estruturadas e planejamento estratégico para a sustentabilidade do negócio.
Palavras-chave: Agronegócio; Custo de produção; Gestão agropecuária; Pecuária de corte; Soja.
1. Introdução
O agronegócio brasileiro consolida-se como um pilar estratégico da economia nacional, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto e destacando-se como um dos principais motores de exportação, especialmente na produção de alimentos primários (MAPA, 2014). Contudo, o setor enfrenta desafios persistentes na gestão de propriedades rurais, com a deficiência em conhecimento gerencial e financeiro sendo um fator crítico. Essa lacuna, muitas vezes, culmina na inviabilidade econômica e na falência precoce de empreendimentos agropecuários (Breitenbach, 2014; Taliarine et al., 2015). A ausência de planejamento estratégico e financeiro impede que produtores rurais tomem decisões assertivas, expondo seus negócios a riscos. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas indicam que uma parcela considerável das empresas brasileiras não sobrevive aos primeiros anos, e a falta de controle de caixa é frequentemente citada como motivo (Sebrae, 2016; Sebrae, 2023). No contexto rural, essa vulnerabilidade é intensificada pelas particularidades da atividade.
A gestão financeira no agronegócio é intrinsecamente mais complexa do que em outros setores, dada a influência de variáveis como a dependência climática, a sazonalidade da produção, a perecibilidade dos produtos e a irregularidade dos fluxos de receita (Breitenbach, 2014). Tais especificidades demandam a adaptação de ferramentas e metodologias gerenciais à realidade do campo, como enfatizado por Lima et al. (2001). Nesse cenário, o fluxo de caixa emerge como um instrumento fundamental, permitindo o acompanhamento detalhado das entradas e saídas de recursos, a identificação de padrões sazonais e o embasamento do planejamento financeiro (Pivetta, 2004). Adicionalmente, a análise de custos de produção e a aplicação de indicadores econômicos, como margem bruta, margem líquida e lucro econômico, são cruciais para avaliar a rentabilidade e a eficiência das atividades (Matsunaga et al., 1976; Silva e Ferreira, 2007). A integração dessas ferramentas é vital para que os gestores rurais possam alocar recursos de maneira otimizada e garantir a sustentabilidade do negócio (Santos et al., 2009; Souza e Guimarães, 2005; Queiroz e Santos, 2016).
O ambiente agropecuário contemporâneo é marcado por uma crescente competitividade e pela necessidade de maior eficiência produtiva, tornando a gestão estruturada uma exigência (Santos et al., 2009). Contudo, a realidade empírica revela que muitas propriedades rurais operam com base em decisões intuitivas, sem o suporte de dados financeiros organizados. Essa informalidade na gestão contribui para a vulnerabilidade do setor a choques externos. Eventos climáticos extremos, como secas ou inundações, têm se tornado mais frequentes, impactando diretamente a produtividade e a receita das propriedades, como observado em diversas regiões do Brasil (Conab, 2025; Brasil, 2025). A dependência de capital próprio para a manutenção das atividades, característica comum em muitas propriedades rurais, limita a capacidade de investimento e expansão, aumentando a exposição a riscos financeiros e dificultando a superação de períodos de baixa rentabilidade. A complexidade de gerenciar atividades diversificadas, como a integração lavoura-pecuária, exige um controle ainda mais rigoroso, dadas as diferentes dinâmicas de custos e receitas.
Apesar da reconhecida importância da gestão financeira para a perenidade dos negócios rurais, sua aplicação efetiva ainda é um desafio em muitas propriedades, especialmente as de menor porte, que carecem de recursos e conhecimentos especializados. A lacuna entre a teoria e a prática, agravada por fatores externos e internos, justifica a necessidade de estudos que abordem a realidade de empreendimentos específicos, oferecendo subsídios para aprimorar suas práticas gerenciais. Diante desse cenário, o presente estudo buscou analisar a gestão financeira de uma propriedade rural localizada no interior do Rio Grande do Sul, por meio da avaliação do fluxo de caixa e dos custos de produção das atividades de pecuária e lavoura de soja, com o propósito de verificar sua viabilidade econômica e propor estratégias de aprimoramento para o desempenho financeiro do empreendimento.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza descritiva, com abordagem quantitativa, e foi desenvolvido sob a modalidade de estudo de caso único. A metodologia empregada baseou-se predominantemente na análise documental dos registros financeiros e operacionais da propriedade rural investigada. Essa abordagem permitiu uma compreensão aprofundada da gestão financeira do empreendimento, focando na coleta e interpretação de dados específicos para o período analisado, sem a intenção de generalizar os achados para outras propriedades do setor agropecuário. A escolha do estudo de caso único foi justificada pela necessidade de detalhamento da realidade de um negócio rural específico.
A pesquisa foi realizada em uma propriedade rural de 2.300 hectares, localizada no município de Cachoeira do Sul, no estado do Rio Grande do Sul. Esta unidade produtiva dedica-se a atividades de pecuária de corte, incluindo a criação de matrizes, reprodutores de alto valor genético e animais para engorda e abate, além do cultivo de soja. O estudo abrangeu o período de 2024 a 2025, concentrando-se na análise das operações financeiras e produtivas ocorridas nesses dois anos. A propriedade é composta por quatro unidades produtivas distintas, denominadas Fazenda A, Fazenda B, Fazenda C e Fazenda D.
A unidade de análise centralizou-se nos dados financeiros e produtivos da propriedade rural, visando avaliar a viabilidade econômica de suas operações. O sistema produtivo adotado na propriedade baseia-se na integração lavoura-pecuária, com rotação entre o cultivo de soja e a formação de pastagens, conforme práticas descritas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa, 2005). As atividades de pecuária foram iniciadas em 2001 com gado Hereford, expandindo-se para a raça Braford em 2010, e o cultivo de soja foi introduzido em 2013. A propriedade conta com uma equipe de dez funcionários dedicados às duas atividades principais.
A coleta de dados financeiros foi realizada por meio de diversas fontes primárias da propriedade. Utilizou-se o sistema de gestão rural Connectere Agro Gestão Ltda (2010), que centraliza informações operacionais e financeiras. Adicionalmente, foram consultadas planilhas internas de controle mantidas pela administração da propriedade e extratos bancários. Todas as informações referentes às entradas e saídas financeiras, tanto das atividades de pecuária quanto da lavoura de soja, foram compiladas, abrangendo recursos provenientes do caixa da empresa, contas bancárias empresariais e movimentações financeiras pessoais do proprietário.
Para complementar a análise financeira, foram coletados dados produtivos internos da propriedade. Estes incluíram o volume de produção de soja, a área cultivada em hectares e outras informações operacionais relevantes, obtidas diretamente dos controles internos. Tais dados foram essenciais para o cálculo detalhado dos custos de produção e para a subsequente análise de margens e lucratividade das atividades. Os valores de depreciação de edificações, maquinário e equipamentos foram calculados com base em uma lista detalhada de bens da propriedade, utilizando dados de vida útil e taxas anuais fornecidos pelo Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (Brasil, 2022).
A organização e o tratamento inicial dos dados foram realizados por meio de planilhas eletrônicas desenvolvidas no Microsoft Excel® (Microsoft Corporation, 2026). Nestas planilhas, foram estruturados o fluxo de caixa anual para a atividade de pecuária e o custo de produção da safra para a agricultura. Os valores financeiros da propriedade, compilados a partir das diversas fontes, foram inseridos nessas planilhas. Realizaram-se cálculos manuais de porcentagens dos gastos e receitas, permitindo uma base para a comparação das atividades com estudos anteriores e aprofundando a compreensão da estrutura financeira do empreendimento.
A execução da pesquisa iniciou-se com a implantação e ajuste do sistema de gestão rural Connectere (2010) na propriedade, processo que ocorreu a partir de 2023. Foram estabelecidas e finalizadas as categorias de custos e receitas, e os responsáveis pelo sistema receberam treinamento adequado para o correto registro das informações. A análise de dados, portanto, teve seu início efetivo no ano de 2024, após a consolidação e padronização dos registros. Os custos foram classificados mensalmente, seguindo um critério próprio da propriedade, o que facilitou o acompanhamento e a análise detalhada de cada tipo de gasto ao longo do tempo.
Após a classificação mensal, os custos foram consolidados anualmente para os anos de 2024 e 2025, organizados em apêndices específicos para cada período. O fluxo de caixa da atividade pecuária foi estruturado pelo método direto, agrupando todas as entradas e saídas financeiras para os anos de 2024 e 2025. Essa abordagem considerou a dinâmica de longo prazo da pecuária, onde animais permanecem na propriedade por dois a três anos e os recebimentos ocorrem de forma parcelada. Para a lavoura de soja, uma planilha específica foi desenvolvida para avaliar o custo de produção, permitindo o fechamento de uma safra completa e uma análise mais condizente com a realidade.
Os métodos de análise dos dados financeiros incluíram o cálculo de diferentes categorias de custos e indicadores econômicos. Foram determinados o custo operacional efetivo (COE), o custo operacional total (COT) e o custo total (CT), seguindo a metodologia proposta por Matsunaga et al. (1976). Com base nesses custos, foram calculadas a margem bruta (MB), a margem líquida (ML) e o lucro econômico (LE), ferramentas essenciais para avaliar a rentabilidade e a eficiência das atividades. Adicionalmente, as porcentagens de cada custo foram calculadas em relação aos gastos totais, custos fixos, custos variáveis, despesas e investimentos, utilizando regra de três.
A análise dos dados também envolveu uma dimensão temporal, com foco na sazonalidade dos custos e despesas ao longo do período estudado. Realizou-se uma análise qualitativa por meio da matriz SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats), conforme a abordagem de Sammut-Bonnici e Galea (2015). Esta ferramenta permitiu a sistematização dos fatores internos e externos que influenciam o desempenho da propriedade, auxiliando na identificação de estratégias. A análise financeira foi conduzida com base na organização e interpretação dos dados de fluxo de caixa e custos de produção das atividades de pecuária e agricultura, considerando o contexto de eventos climáticos adversos.
A partir das informações organizadas, avaliou-se os principais indicadores econômicos do negócio, buscando compreender a estrutura de custos, a formação das receitas e a rentabilidade das atividades desenvolvidas. A análise foi segmentada por atividade produtiva, possibilitando a comparação entre os sistemas de produção e a identificação dos fatores que influenciam o desempenho financeiro. Os resultados foram interpretados à luz das condições produtivas e de mercado observadas no período, considerando aspectos como a sazonalidade das atividades, as variações de preços e a ocorrência de eventos climáticos adversos, com especial atenção à enchente de 2024, que impactou a propriedade.
3. Resultados e Discussão
Nesta seção são apresentados, analisados e interpretados os resultados obtidos a partir da organização e tratamento dos dados financeiros da propriedade rural. Os dados coletados foram segregados por atividade, pecuária e agricultura, permitindo uma análise individualizada de cada sistema produtivo, bem como uma avaliação integrada do desempenho econômico do negócio. A estruturação das informações financeiras em categorias analíticas, como custos fixos [CF], custos variáveis [CV], despesas [D] e investimentos [I], cuja soma compõe os gastos totais [GT] da propriedade, foi fundamental para uma compreensão aprofundada da estrutura de custos e da dinâmica financeira das atividades desenvolvidas. Essa abordagem metodológica, alinhada com as práticas de gestão financeira rural (Santos et al., 2009; Queiroz e Santos, 2016), permitiu identificar os principais componentes de custo e receita, bem como suas variações ao longo do tempo.
No caso da atividade agrícola, a análise do custo de produção incorporou a depreciação de máquinas e instalações, refletindo os investimentos de capital no cálculo econômico. É importante ressaltar que, no período analisado, a propriedade operou com capital próprio, não havendo incidência de encargos financeiros. Essa condição, embora reduza a complexidade da análise de endividamento, pode mascarar o custo de oportunidade do capital, um aspecto crucial para a avaliação da viabilidade econômica de longo prazo, conforme a metodologia de Matsunaga et al. (1976). A ausência de financiamento externo pode indicar uma estratégia conservadora, mas também limita a capacidade de alavancagem e expansão do negócio, um ponto de atenção para a sustentabilidade futura.
Para fins de melhor organização e interpretação, os resultados foram subdivididos em tópicos específicos. A atividade pecuária foi analisada por meio do fluxo de caixa, enquanto a atividade agrícola foi avaliada com base no custo de produção. Adicionalmente, foram examinadas as receitas da propriedade e realizada a análise SWOT, com o objetivo de compreender o desempenho do negócio de forma integrada. Também foram considerados aspectos específicos que impactaram os resultados, como a sazonalidade das atividades e os efeitos da enchente ocorrida em 2024. A partir dessas análises, foi possível identificar pontos críticos e oportunidades de melhoria, subsidiando a elaboração de recomendações para a gestão da propriedade.
A análise da estrutura de custos da pecuária revelou uma dinâmica interessante entre os anos de 2024 e 2025. Em 2024, os custos fixos representaram 54% dos gastos totais da atividade, enquanto os custos variáveis corresponderam a 43%. Essa proporção inverteu-se em 2025, com os custos variáveis atingindo 55% dos gastos totais e os custos fixos diminuindo para 43%. Essa flutuação na composição dos custos é um achado significativo, pois reflete a adaptabilidade ou a vulnerabilidade da propriedade a fatores externos e internos. A predominância de custos fixos em 2024, por exemplo, pode indicar uma menor flexibilidade operacional, onde a capacidade de reduzir gastos em períodos de baixa produtividade ou receita é limitada. Por outro lado, o aumento dos custos variáveis em 2025 sugere uma maior dependência de insumos diretos à produção, cujos preços são frequentemente voláteis e influenciados por condições de mercado e fatores cambiais, como apontado por Cruz et al. (2017) e Nardi e Cruz (2022) em seus estudos sobre sistemas agropecuários. Essa dependência de insumos torna a atividade mais suscetível a choques de preços, exigindo uma gestão de compras e estoques mais estratégica.
Um fator crucial para a predominância dos custos fixos em 2024 foi o elevado volume de gastos com manutenções, que representaram 25% dos gastos totais e aproximadamente 46% dos custos fixos no período. Esse aumento atípico está diretamente relacionado aos impactos da enchente ocorrida no estado do Rio Grande do Sul em maio de 2024. O evento climático adverso demandou maiores investimentos em reparos de máquinas e infraestrutura, evidenciando a vulnerabilidade da atividade a eventos extremos. Essa situação corrobora a literatura que destaca a importância da gestão de riscos climáticos no agronegócio (Brasil, 2025; Conab, 2025), onde a imprevisibilidade de fenômenos naturais pode comprometer severamente a saúde financeira do empreendimento. A necessidade de reparos emergenciais não apenas elevou os custos, mas também desviou recursos que poderiam ser alocados em outras áreas, impactando o planejamento financeiro e a rentabilidade.
Desconsiderando esse fator pontual da enchente, os principais componentes de custo da atividade pecuária mantiveram-se relativamente consistentes entre os anos analisados. A folha de pagamento destacou-se como o principal item de custo, representando 19% dos gastos totais em ambos os anos. Em seguida, os custos com alimentação animal, insumos para pastagens e saúde animal variaram entre 12% e 18% dos gastos totais. Esses resultados sublinham a importância da gestão eficiente dos custos operacionais, especialmente aqueles diretamente ligados à produção. A mão de obra, sendo um custo fixo significativo, exige uma avaliação contínua de sua produtividade e da possibilidade de otimização de processos. Os custos com alimentação e saúde animal são intrínsesecos à pecuária e são determinantes para a produtividade e qualidade do rebanho, como enfatizado por estudos sobre a eficiência zootécnica (Embrapa, 2005). A otimização desses gastos, por meio de dietas balanceadas, manejo sanitário preventivo e melhoramento genético, pode gerar retornos substanciais na rentabilidade.
No que se refere às despesas, a maior parte dos gastos concentrou-se em energia elétrica e telefonia, representando entre 84% e 86% das despesas totais nos dois anos analisados. Essa alta concentração indica que esses itens são essenciais para a operação da propriedade, possivelmente devido à utilização de equipamentos elétricos, sistemas de comunicação e monitoramento. A busca por eficiência energética e a avaliação de fontes alternativas de energia, como a solar, poderiam ser estratégias para mitigar esses custos. Já os investimentos estiveram predominantemente associados à aquisição de animais em 2024, e à incorporação de equipamentos em 2025, indicando um movimento de modernização parcial da atividade. Esses investimentos, embora representem saídas de caixa no curto prazo, são cruciais para a manutenção da competitividade e para o aumento da capacidade produtiva no longo prazo, desde que sejam precedidos por uma análise de viabilidade econômica rigorosa.
A atividade agrícola, focada no cultivo de soja, apresentou uma produtividade média geral de 33 sacas por hectare, com uma diferença notável entre as Fazendas C (44 sacas/ha) e D (27 sacas/ha). Essa variação de produtividade entre as unidades produtivas da mesma propriedade ressalta a importância de um manejo técnico diferenciado e da consideração das características específicas de cada área. A produtividade média obtida foi compatível com os resultados observados na região de Cachoeira do Sul no mesmo período (Agrolink, 2025), mas ficou abaixo da média histórica regional, estimada em aproximadamente 60 sacas por hectare. Essa redução pode ser atribuída às condições climáticas adversas, especialmente a estiagem ocorrida durante o verão da safra (Conab, 2025). A vulnerabilidade da produção agrícola a eventos climáticos extremos é um desafio persistente no agronegócio brasileiro, exigindo estratégias de mitigação de riscos, como o uso de cultivares mais resistentes, sistemas de irrigação e seguros agrícolas. A análise detalhada dos fatores limitantes de produtividade em cada fazenda, como qualidade do solo e eficiência no uso de insumos, é fundamental para otimizar o desempenho.
A estrutura de custos da produção de soja evidenciou que os custos variáveis representaram 78% dos gastos totais. Entre esses, destacaram-se os defensivos (26%), a adubação (22%) e as sementes (17%), confirmando que os principais custos da atividade agrícola estão diretamente relacionados aos insumos produtivos. Essa alta proporção de custos variáveis é típica da agricultura moderna, que demanda intensivo uso de tecnologia e insumos para maximizar a produtividade. Os custos fixos corresponderam a 21% dos gastos totais, sendo a depreciação o principal componente (14%). Esse resultado está associado ao elevado investimento em máquinas e equipamentos realizado no período, o que impacta diretamente o custo de produção. Embora represente uma estratégia de longo prazo voltada à melhoria da eficiência operacional, o alto custo de depreciação exige que a produtividade e a rentabilidade da safra sejam suficientes para justificar e amortizar esses investimentos.
Os indicadores econômicos calculados para a produção de soja, com base na metodologia de Matsunaga et al. (1976), revelaram que a margem bruta (MB) e a margem líquida (ML) foram positivas. A margem bruta positiva indica que a atividade foi capaz de cobrir os custos operacionais efetivos, ou seja, os desembolsos financeiros diretos do produtor. A margem líquida positiva, por sua vez, sugere que a atividade consegue cobrir, além dos custos operacionais efetivos, os custos com depreciação e a remuneração da mão de obra familiar, indicando viabilidade no médio prazo. No entanto, o lucro econômico (LE) apresentou um resultado negativo. Este achado é crucial, pois o lucro econômico considera os custos de oportunidade do capital e da terra. Um LE negativo significa que, embora a atividade gere lucro contábil, ela não é a opção mais rentável para o capital e a terra empregados, sugerindo que seria mais vantajoso economicamente aplicar o dinheiro em outro investimento ou arrendar a terra. Essa perspectiva econômica completa é essencial para tomadas de decisão estratégicas de longo prazo, como a diversificação de culturas ou a reavaliação do modelo de negócio.
A sazonalidade dos custos e receitas é um aspecto crítico que afeta o fluxo de caixa da propriedade. No cultivo de soja, os custos concentram-se em períodos específicos: antes do plantio (maio a setembro) com sementes, adubos e fertilizantes; durante o desenvolvimento da cultura (novembro a fevereiro) com defensivos; e na colheita (março a abril) com combustível, frete e mão de obra terceirizada. Em contrapartida, o retorno financeiro da atividade agrícola ocorre de forma concentrada no momento da comercialização, que pode variar conforme a estratégia de venda. Esse descompasso temporal entre entradas e saídas de recursos gera pressão sobre o fluxo de caixa, exigindo um planejamento financeiro robusto e, por vezes, o uso de capital de giro ou linhas de crédito, como discutido por Pivetta (2004) e Corrêa Junior e Gameiro (2020).
Na atividade pecuária, os custos com alimentação animal são contínuos ao longo do ano, enquanto as receitas se concentram em momentos específicos, principalmente por meio de leilões. O leilão de produção, realizado após o desmame no final de abril, gera retorno financeiro mais imediato. Já o leilão de reprodutores, no início de outubro, apresenta recebimentos parcelados, dispersando as receitas ao longo do tempo. Essa dinâmica evidencia a necessidade de um planejamento financeiro mais estruturado, uma vez que os fluxos de entrada e saída de recursos não ocorrem de forma sincronizada. Como consequência, a propriedade pode enfrentar períodos de restrição de capital de giro, tornando-se dependente de fontes externas de financiamento para manutenção das atividades, o que pode comprometer a sustentabilidade do negócio se não houver um gerenciamento adequado.
Tabela 1. Total de receitas da propriedade nos anos de 2024 e 2025 e suas porcentagens
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Descrição |
2024 Valor (R$) |
2024 %RT |
2025 Valor (R$) |
2025 %RT |
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1. Receitas Operacionais |
4.634.387 |
69 |
5.017.166 |
69 |
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1.1 Venda de Soja |
2.646.866 |
39 |
3.017.266 |
42 |
|
1.2 Venda de Gado |
1.936.147 |
29 |
1.947.264 |
27 |
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1.3 Venda de Sêmen |
29.512 |
0 |
29.867 |
0 |
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1.4 Reembolso de Valores |
14.839 |
0 |
8.383 |
0 |
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1.5 Juros |
5.923 |
0 |
1.861 |
0 |
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1.6 Venda de Ovinos |
1.100 |
0 |
2.525 |
0 |
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1.7 Venda de Bubalinos |
0 |
0 |
3.000 |
0 |
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1.8 Venda de Equinos |
0 |
0 |
7.000 |
0 |
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2. Receitas Não Operacionais |
2.095.095 |
31 |
2.220.406 |
31 |
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2.1 Aporte |
2.095.095 |
31 |
2.220.406 |
31 |
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Total de Receitas [RT] |
6.729.482 |
100 |
7.237.572 |
100 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise da composição das receitas da propriedade, conforme apresentado na Tabela 1, revela uma dependência significativa de capital externo. Os aportes de recursos próprios representaram aproximadamente 31% da receita total [RT] em ambos os anos de 2024 e 2025. Essa dependência de capital externo à operação produtiva é um indicador de fragilidade financeira, pois a sustentabilidade do negócio fica atrelada à capacidade e disposição do proprietário em injetar recursos, em vez de ser autossuficiente. Esse cenário é preocupante, pois a falta de controle de caixa e a dependência de aportes externos são fatores frequentemente associados à mortalidade de empresas, inclusive no setor rural (Sebrae, 2016; Sebrae, 2023; Francisco Neto et al., 2022).
Desconsiderando os aportes, as receitas operacionais concentram-se principalmente na produção de soja e na comercialização de gado. A soja representou 57% e 60% das receitas operacionais em 2024 e 2025, respectivamente, enquanto a pecuária contribuiu com 42% e 39% no mesmo período. Essa distribuição evidencia a soja como a principal fonte de receita operacional da propriedade. A análise conjunta das receitas e despesas da atividade pecuária, no entanto, revelou um resultado negativo nos dois anos analisados, com um saldo de -R$484.302,00 em 2024 e -R$265.173,00 em 2025. Esse resultado indica claramente que a atividade pecuária não foi capaz de se sustentar de forma independente, dependendo dos resultados positivos da agricultura para compensar seus custos. Essa interdependência, embora comum em sistemas de integração lavoura-pecuária, exige que a atividade pecuária seja reavaliada para se tornar mais eficiente e rentável, evitando que se torne um dreno de recursos.
Quando consideradas as receitas da produção de soja, observa-se que o resultado consolidado da propriedade apresentou equilíbrio financeiro no último ano analisado. No entanto, não houve geração de lucro econômico significativo, o que indica baixa eficiência na utilização dos recursos produtivos. Essa condição representa um cenário de risco para a sustentabilidade do negócio, uma vez que a atividade agrícola está sujeita a variações climáticas e de mercado. Eventos climáticos adversos, como os ocorridos no Rio Grande do Sul nos últimos anos (Conab, 2025), impactam negativamente a produção, reforçando a necessidade de estratégias de gestão que reduzam a dependência de uma única fonte de receita e aumentem a resiliência do sistema produtivo. A busca por um lucro econômico positivo é fundamental para garantir a atratividade do investimento e a capacidade de crescimento da propriedade no longo prazo.
Durante o período de colheita da safra 2024, a propriedade foi impactada pela enchente ocorrida no mês de maio no Sul do Brasil, considerada um dos eventos climáticos mais severos da região nos últimos anos (Brasil, 2025). O evento resultou em danos significativos ao maquinário agrícola, que se encontrava em campo no momento da inundação, permanecendo submerso durante parte do período. Como consequência, houve elevação expressiva dos custos com manutenção de máquinas e equipamentos, conforme observado na análise de custos da pecuária para 2024. Além dos impactos sobre os custos, a enchente comprometeu diretamente a produtividade da safra de soja, resultando na perda de mais de 50% da área plantada, em função da impossibilidade de realização da colheita no momento adequado. Esse fator contribuiu de forma significativa para a redução da receita da atividade agrícola no período analisado.
A atividade pecuária também foi afetada pela enchente, especialmente no que se refere à comercialização de animais. O leilão de produção, tradicionalmente realizado no final do mês de maio, não pôde ser realizado, sendo substituído por vendas diretas na propriedade, em condições menos favoráveis de preço. Esse cenário resultou em redução das receitas da atividade, reforçando os efeitos negativos do evento climático sobre o desempenho econômico da propriedade. De forma geral, os impactos observados evidenciam a elevada vulnerabilidade do sistema produtivo a eventos climáticos extremos, destacando a importância da adoção de estratégias de gestão de risco e planejamento financeiro que aumentem a resiliência da atividade agropecuária. Isso inclui desde a contratação de seguros rurais adequados até a diversificação geográfica das operações ou a implementação de infraestruturas mais resilientes a inundações.
Figura 1. Localização das quatro sedes da propriedade estudada e sua posição com relação a cidade
Fonte: Google Earth (2026)
A análise financeira da propriedade evidenciou a necessidade de um planejamento estratégico mais estruturado, uma vez que foram identificadas fragilidades na gestão financeira e na sustentabilidade econômica do negócio. Nesse contexto, a utilização da matriz SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats) permite sistematizar os fatores internos e externos que influenciam o desempenho da empresa, contribuindo para a definição de estratégias mais assertivas (Sammut-Bonnici e Galea, 2015). A matriz SWOT elaborada para a propriedade, apresentada na Tabela 2, destaca os principais pontos fortes, fraquezas, oportunidades e ameaças identificados ao longo da análise. A localização das unidades produtivas, conforme ilustrado na Figura 1, também desempenha um papel na complexidade da gestão e na logística, influenciando a eficiência operacional e a capacidade de resposta a eventos como a enchente.
Tabela 2. Matriz SWOT desenvolvida para a propriedade
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Ambiente |
Forças |
Fraquezas |
Oportunidades |
Ameaças |
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Interno |
Bons profissionais | |||
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Interno |
Boa área para desenvolvimento | |||
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Interno |
Genética animal de qualidade | |||
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Interno |
Boas relações interpessoais | |||
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Interno |
Boa qualidade e variedade de grãos cultivados | |||
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Interno |
Presença do grupo de agricultura de precisão | |||
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Interno |
Máquinas Modernas | |||
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Interno |
Supervisão próxima e contínua | |||
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Interno |
Veterinário no local | |||
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Interno |
Falta de organização e controle financeiro | |||
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Interno |
Falhas na realização de orçamentos | |||
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Interno |
Pouca capacitação de funcionários | |||
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Interno |
Dificuldade em aceitar novas ideias | |||
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Interno |
Falta de planejamento estratégico ou financeiro formalizados | |||
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Interno |
Dependência de capital interno, dificilmente havendo empréstimos ou financiamentos pela empresa | |||
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Interno |
Objetivos não muito bem definidos | |||
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Externo |
Raças adequadas para o clima local | |||
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Externo |
Proximidade da cidade | |||
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Externo |
Terras planas (pampas) | |||
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Externo |
Localização Central no Estado | |||
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Externo |
Preços dos insumos e de comercialização | |||
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Externo |
Alterações e catástrofes climáticas | |||
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Externo |
Pluviosidade | |||
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Externo |
Verão Muito Intenso e Inverno Rigoroso | |||
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Externo |
Presença de Pragas de Difícil Controle | |||
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Externo |
Oferta e Demanda | |||
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Externo |
Desvalorização da Carne e Grãos |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise dos fatores internos, conforme detalhado na Tabela 2, evidencia que a propriedade possui importantes pontos fortes, como a qualidade genética do rebanho, a estrutura física disponível, a adoção de tecnologias de agricultura de precisão e a presença de profissionais qualificados. Esses elementos representam vantagens competitivas relevantes e indicam um potencial produtivo elevado. A presença de bons profissionais e um veterinário no local, por exemplo, garante um manejo adequado e a saúde do rebanho, impactando diretamente a produtividade e a qualidade dos produtos. A utilização de máquinas modernas e a supervisão contínua, aliadas à presença de um grupo de agricultura de precisão, são fatores que podem alavancar a eficiência e a rentabilidade, desde que bem gerenciados. Esses pontos fortes, se explorados estrategicamente, podem ser a base para a superação das fraquezas e a capitalização das oportunidades.
Por outro lado, as fraquezas identificadas estão diretamente relacionadas à gestão do negócio, especialmente no que se refere à ausência de controle financeiro estruturado, falta de planejamento estratégico formal e dificuldades na organização das informações. A falta de organização e controle financeiro, falhas na realização de orçamentos e a pouca capacitação dos funcionários são barreiras significativas para o crescimento e a rentabilidade. A dificuldade em aceitar novas ideias e a dependência de capital interno, com a dificuldade em obter empréstimos ou financiamentos, limitam a capacidade de expansão e aumentam a exposição a riscos financeiros. Objetivos não muito bem definidos também contribuem para a falta de direcionamento estratégico. Essas fraquezas, como apontado por Silva e Ferreira (2007) e Francisco Neto et al. (2022), são frequentemente as causas de insucesso em empreendimentos rurais, e sua superação exige um comprometimento da gestão com a melhoria contínua e a profissionalização.
No ambiente externo, as oportunidades estão associadas principalmente às características favoráveis da região, como condições edafoclimáticas adequadas, proximidade da cidade, terras planas (pampas) e localização central no estado. A existência de raças adequadas para o clima local e a possibilidade de otimizar os preços dos insumos e de comercialização representam vantagens significativas. Essas oportunidades, se bem aproveitadas, podem impulsionar o crescimento e a rentabilidade da propriedade. A proximidade da cidade, por exemplo, pode facilitar o acesso a mercados, serviços e mão de obra qualificada. As condições edafoclimáticas favoráveis, por sua vez, podem permitir a diversificação de culturas ou a intensificação da produção.
No entanto, as ameaças representam um fator crítico para a sustentabilidade do negócio, especialmente no que diz respeito à elevada variabilidade climática, presença de pragas e volatilidade de preços de mercado. Alterações e catástrofes climáticas, como a enchente de 2024, pluviosidade irregular, verões muito intensos e invernos rigorosos, e a presença de pragas de difícil controle, são riscos que fogem ao controle da propriedade, mas que exigem estratégias de mitigação robustas. A oferta e demanda, juntamente com a desvalorização da carne e dos grãos, também representam ameaças significativas que podem impactar a receita e a rentabilidade. A gestão de riscos, incluindo seguros, diversificação de atividades e monitoramento constante do mercado, é fundamental para proteger a propriedade contra esses fatores externos, conforme Valim et al. (2010) e Breitenbach (2014).
De forma integrada, a análise SWOT reforça os resultados anteriormente apresentados, evidenciando que, apesar do elevado potencial produtivo da propriedade, a ausência de uma gestão financeira estruturada e a dependência de fatores externos comprometem sua rentabilidade. Assim, torna-se fundamental a adoção de estratégias voltadas ao fortalecimento da gestão, controle de custos e redução da exposição a riscos, visando garantir a sustentabilidade econômica do empreendimento no longo prazo. A integração entre as análises quantitativas de fluxo de caixa e custos com a análise qualitativa da matriz SWOT oferece uma visão holística, permitindo que a propriedade desenvolva um plano estratégico que capitalize seus pontos fortes e oportunidades, enquanto mitiga suas fraquezas e ameaças. A implementação de um sistema de gestão rural, como o Connectere Agro Gestão Ltda (2010), é um passo importante, mas sua eficácia depende da correta alimentação e interpretação dos dados para subsidiar decisões estratégicas.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao analisar a gestão financeira de uma propriedade rural no Rio Grande do Sul, avaliando seu fluxo de caixa e custos de produção nas atividades de pecuária e lavoura de soja, e verificando sua viabilidade econômica para propor melhorias. Os resultados evidenciaram fragilidades na gestão, com a atividade pecuária não se sustentando independentemente e a soja, embora principal fonte de receita operacional, apresentando lucro econômico negativo. Isso indica que o capital e a terra empregados poderiam ser mais rentáveis em outros investimentos. A elevada participação dos custos variáveis, a sazonalidade das receitas e a dependência de aportes de capital próprio contribuem para a instabilidade financeira do negócio.
Uma limitação crucial do estudo foi o período analisado (2024-2025), marcado por eventos climáticos extremos, como a enchente de 2024, que impactou severamente a produtividade e as receitas, distorcendo a avaliação da viabilidade econômica em condições normais. Para estudos futuros, sugere-se o acompanhamento contínuo dos indicadores financeiros da propriedade por um período mais extenso, a fim de mitigar a influência de eventos atípicos. Recomenda-se também aprofundar a análise da viabilidade econômica de diferentes categorias animais na pecuária e explorar o impacto da implementação de um planejamento estratégico formal e de ferramentas de gestão de risco, como seguros rurais e diversificação de atividades, para aumentar a resiliência do negócio.
Referências Bibliográficas
Breitenbach, R. 2014. Gestão rural no contexto do agronegócio: desafios e limitações. Desafio Online. 1(2): 714-731.
Matsunaga et al., 1976.
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento [MAPA]. 2014. Projeções do agronegócio: Brasil 2013/14 a 2023/24. Disponível em: <https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/politica-agricola/todas-publicacoes-de-politica-agricola/projecoes-do-agronegocio/projecoes-do-agronegocio-brasil-2013-2014-a-2023-2024.pdf/view>. Acesso em: 21 março 2025.
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas [Sebrae]. 2016. Sobrevivência das empresas no Brasil. Disponível em
Taliarine, A.B.; Ramos, D.J.; Favoretto, J.R. 2015. A importância da gestão no agronegócio brasileiro. Revista Perspectiva em gestão, educação e tecnologia. 4(8): 1-6.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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